Naruto não me pertence de forma alguma.

TRINTA DIAS A DOIS

– Todo mundo na barra! – Kiba bateu palmas de forma enérgica para chamar atenção da turma.

Os alunos se moveram da sua posição no meio da sala para as paredes espelhadas, onde as barras de exercício eram fixas. Encararam o professor com atenção.

– Quero que façam um développé – Ele orientou, e se aproximou de uma das barras para demonstrar. A mão direita apoiou-se na estrutura de metal, o corpo ereto e os pés na quinta posição. A mão livre dançou graciosamente em um semicírculo enquanto ele começava a explicação, demonstrando enquanto dizia: – O pé, em uma ponta, se arrasta pela outra perna, subindo. Assim. – Ele explicou. Quando o pé ultrapassou um pouco a altura do joelho, o Inuzuka estendeu o pé e a perna diretos para frente e para cima, mantendo a posição, enquanto a mão direita também fazia uma trajetória circular e vertical. – Atenção para o pescoço esticado e o queixo erguido. – Ele manteve a posição por alguns segundos, para então descer graciosamente e parar, mais uma vez na quinta posição. Fez uma leve reverência. –Agora vocês.

Circulou brevemente pela sala, incentivando e corrigindo – "mantém a perna no ar!", "muito bem, sustenta a posição!" –, até perceber Hinata parada no umbral da porta.

– Algum problema, Hina? – O bailarino perguntou, se aproximando da amiga e chefe.

– Não, Kiba – Realmente apreciava o trabalho de Kiba, que era um dos melhores professores da escola. Os dois estudaram dança juntos desde... Sempre. Na realidade, eles faziam basicamente tudo juntos desde sempre, também. Sorriu levemente, balançando a cabeça. – Na verdade, eu quero uma ajudinha... Mas não quero atrapalhar a sua aula.

– Ah, não tem problema, desde que a diretora não pegue a gente conversando no corredor enquanto os alunos tentam fazer as coisas direito ali – Kiba brincou e Hinata revirou os olhos, sorrindo.

– Você sabe de alguma exposição legal hoje? – A Uchiha perguntou, direta. Kiba sempre fora muito ligado àquele tipo de coisa – um brinde de seu marido, artista plástico e também um dos amigos mais próximos de Hinata – enquanto a outra... Bom, ela só se interessava por eventos do gênero se envolvessem ballet. Ou se fossem exposições de Shino. Ossos do ofício.

– Eh? – O amigo inclinou a cabeça, confuso – Por quê?

– O cronograma de trinta dias... – A outra respondeu, as bochechas ficando levemente rosadas.

– Ah – O Inuzuka a olhou desconfiado. Pareceu pensar por um momento e depois sorriu de uma maneira estranha: – Olha, Hina, até tem... Mas eu não sei se o Sasuke vai gostar, não.

QUATRO – Momento cultural a dois: visitem uma galeria de arte, ou exposição, ou museu.

– Você não vai mesmo dizer aonde vamos? – Sasuke perguntou à esposa enquanto a observava arrumar o cachecol listrado em preto e amarelo ao redor do pescoço alvo antes de voltar a segurar o volante com as duas mãos. Ela se virou brevemente para ele, um sorriso hesitante nos lábios rosados.

– Não, senhor. É uma surpresa.

– Tudo bem – Ele disse simplesmente, recostando-se melhor no banco do passageiro. Hinata estava tão insegura do que fariam a seguir que sequer percebeu o brilho diferente que os orbes do marido carregavam, muito menos na camiseta também listrada, porém em tons de verde e cinza, que ele usava por baixo do casaco preto de lã.

Hinata ficava muito bonita dirigindo, ele ponderou ao observar o perfil da Uchiha. Ficava... sensual. Parecia ainda mais atraente ao som da música que ecoava baixinho no carro, ele percebeu, não pela primeira vez. Ele não tinha muitas oportunidades de vê-la atrás de um volante, infelizmente. Aquela era uma feliz exceção, porque, afinal, ele não tinha a mínima ideia do destino deles. Teoricamente.

A cidade correu pela janela e logo a Uchiha estava estacionando em uma ruela estreita e iluminada. Hinata não conseguiu conter o sorriso ao ver algumas pessoas vestidas à caráter circulando por ali, conversando animadamente. Ela desceu do carro, puxando o vestido amarelo para baixo, olhando para a entrada da exposição. Vários envelopes de cartas pendiam do arco da porta, misturadas a luzes minúsculas. Ela piscou uma vez, paralisada, e então de novo quando sentiu uma mão envolver a sua e puxá-la para frente.

– Vamos, Hime – Ouviu Sasuke dizer, cambaleando um pouco antes de se equilibrar ao ritmo de caminhada dele, surpresa desde a parte de ter sido pega pela mão até a de Sasuke praticamente arrastá-la para o prédio. Talvez ele estivesse bravo. Talvez aquela exposição tenha sido uma ideia idiota. Talvez fosse muito melhor terem ido àquela galeria de arte ver as imagens dos diferentes tipos de solo que existiam no Japão, fotografados microscopicamente. Talvez devessem ir embora...

– Bem-vindos a Hogwarts – Uma voz a tirou de seus devaneios, e Hinata se viu na recepção do local, de frente a uma moça enfiada em um sobretudo marrom com o emblema da escola citada bordado na altura do peito. Segurava uma pena branca e exuberante sobre um livro grande com ares de antigo, enquanto permanecia parada atrás de um balcão de madeira escura talhada. – Por favor, suas cartas de apresentação.

Hinata ignorou a moça e começou a falar, antes mesmo de se virar para o marido:

– Eu sou m-muito fã de Harry Potter, q-queria muito vir – explicou, brincando com a barra de seu cachecol. Não ousava olhar para Sasuke. Suas bochechas queimavam e ela se sentia muito, muito boba. – E-eu não sabia se v-você t-também gost... – Finalmente ergueu o olhar para ele, incerta, e sua frase morreu no ar. Seus olhos se arregalaram e ela riu. Primeiro baixinho, depois escandalosamente. Estava tão aliviada.

– O que? – Sasuke indagou de forma cínica, empurrando os óculos redondos mais para cima em seu nariz.

– V-Você ficou ótimo com os óculos do Harry, H-Heika. – Ela conseguiu dizer quando parou de rir. Esfregou o rosto e parou para olhá-lo melhor. Ele continuava sustentando uma expressão séria e indiferente, mas os olhos não mentiam: ele estava se divertindo. E estava animado. Reparou finalmente nas cores que ele escolhera para vestir na ocasião e balançou a cabeça, descrente.

– Sonserina? – Estralou a língua levemente, franzindo o narizinho pequeno. Então, se apercebeu de algo e perguntou, intrigada: – Você s-sabia que viríamos pra cá?

– Claro, Hime. Também procurei as exposições de hoje. Deduzi que seria aqui quando te vi vestindo as cores dessa casa sem graça.

– Respeita minha casa – Ela ralhou, cruzando os braços – É uma casa muito leal e com características muito boas!

– Tá, tá – Ele desdenhou, abanando as mãos. Então tirou os óculos de si e se abaixou levemente, colocando-os na mulher com cuidado. Ele tinha certeza de que algo ia acontecer, porque era impossível que Hinata soubesse que ele, também, era fã da saga dos bruxinhos, então deu um jeito de encontrar algo para quebrar a tensão que provavelmente apareceria. Bem, funcionara. Mas de jeito nenhum que ele iria ficar com aquilo na cara pelo resto da noite. – Ficam muito melhores em você. – Constatou, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha dela. – Agora você entrega nossos ingressos e a gente entra.

– C-claro, um momento – Hinata disse ainda meio atordoada e abriu a bolsa, levando alguns instantes para encontrar entregar dois papéis à moça, que verificou, bateu um carimbo em cada folha e então devolveu-os à mulher.

– Muito obrigada, podem entrar. É só subir as escadas, primeira porta à esquerda. Merlin os acompanhe.

Hinata se permitiu sorrir, sentindo o corpo se aquecer. Não tinha ideia de que Sasuke fosse um potterhead, estava deliciosamente surpresa. E aqueles óculos... tocou a armação enquanto o marido caminhava por entre um caminho ladeado de velas artificiais. Se adiantou a passos rápidos até alcança-lo.

Atravessaram juntos mais uma porta e de repente estavam em um ambiente quadriculado. Peças de xadrez, de quase dois metros, estavam espalhadas pelo chão. Sons de batalha ecoavam muito baixo.

– Pelas barbas de Merlin, que lugar maravilhoso! – Hinata exclamou, segurando no braço de Sasuke. Ele sorriu pequeno, subindo a mão até a dela, entrelaçando os dedos nos femininos e passando por entre as peças muito grandes.

– Quer tirar uma foto? – Ela fez que sim e ele tirou o telefone do bolso, parando ao lado de um cavalo com um sorriso. A peça de moveu para frente no momento em que ele ia tirar a foto, a Uchiha tendo um sobressalto que causou um sorriso bem-humorado em Sasuke.

– É claro que esse negócio tinha que se mexer... – Ela resmungou, vermelha, algo entre irritada e maravilhada. Com cuidado, colocou a mão sobre o agora imóvel animal de metal, sorrindo meio amarelo. – Vem, Heika, aparece na foto comigo.

Tiraram uma selfie rápida – definitivamente não queriam ser surpreendidos com um cavalo andante novamente – e seguiram, atravessando para a sala seguinte.

Um som muito alto e ameaçador os recepcionou. As paredes imitavam pedra, foi a primeira coisa que Sasuke reparou. Havia uma pequena aglomeração de pessoas ao redor de algo em um dos cantos do lugar, e, ao se aproximarem, perceberam que ali havia um holograma do basilisco, se retorcendo de novo e de novo. Por isso o som, percebeu Hinata.

– Sua vez de tirar uma foto sozinho – Disse Hinata, indicando com a cabeça para que ele se aproximasse da cobra gigante – Afinal, a cobra é o símbolo da sua casa.

Sasuke parou, cruzando os braços e levantando o queixo orgulhosamente ao lado do holograma. Típico sonserino, ela pensou ao capturar a imagem.

– A espada de Grifindor – Sasuke apontou, se aproximando. Ela estava dentro de uma redoma, no centro da sala. Um feixe muito forte de luz incidia sobre ela, e numa pequena etiqueta metálica havia a informação de que se tratava da espada usada na gravação do filme. Sasuke registou mais uma foto, sem admitir o quão impressionado estava. Hinata correu os dedos rapidamente pelo vidro que envolvia a espada, e depois puxou Sasuke pela mão para olharem um pouco mais de perto a fênix que batia gloriosamente as asas, pendendo do teto.

Seguiram. A única iluminação que vinha da sala seguinte provinha do chão. Era marrom, e várias pegadas seguiam, vindo de todos os lados e seguindo para todos os lados.

– O mapa do maroto! – Hinata exclamou, muito animada, sorrindo largamente. Seguiu quase aos saltos uma das pegadas, observando muito atentamente o chão. O desenho de Hogwarts se espalhava glorioso sob seus pés, "Eu juro solenemente não fazer nada de bom" soando vez ou outra pelo salão, permeado por risadinhas levadas.

Sasuke sorriu, sentindo-se aquecer. Hinata era tão animada e pura, seguindo a animação no chão, sua aura praticamente brilhando. Ela, por sua vez, parou, notando que o homem não a acompanhava. Quando o encarou, encontrando os olhos brilhando e com aquele sorriso pequeno tão caloroso no rosto, quase se sentiu envergonhada. Mas apenas sorriu, porque, ao ser flagrado, Sasuke... corara. Hinata observou aquela cena rara, estranhamente sentindo borboletas voando de forma desordenada em seu estômago. Estava feliz por ter escolhido aquela exposição. Estava feliz por estar ali com Sasuke. Estava feliz... porque estava. Estendeu a mão para o marido, aguardando pacientemente ele atravessar o salão e envolver seus dedos com os dele mais uma vez. Sentindo a ponta do nariz vermelho, ela se colocou nas pontas dos pés e plantou um beijo na bochecha dele. Sasuke inclinou-se para ela, devolvendo o beijo que recebera, porém o seu deixando na testa.

Como fizera no dia do casamento.

Lembrava-se claramente da luz envolvendo Hinata quando a cerimônia acabara, ela sempre muito vermelha. Piorara quando o momento em que deveriam se beijar chegou. Ela não deveria se preocupar, ele jamais forçaria-na a fazer algo que não quisesse. Com um sorriso singelo, ele passara as costas da mão esquerda na bochecha corada dela e pressionara um beijo demorado na fronte feminina.

"Eu nunca irei te desrespeitar, Hime", ele murmurara de forma que somente ela ouvisse. O sorriso que recebera como resposta espalhara-se por seu corpo de forma definitiva.

As mãos pequenas dela, que pousaram timidamente sobre seus ombros, puxaram-no de volta para o presente. Ele afastou-se apenas o suficiente para observar os olhos perolados brilharem para ele carinhosamente por trás dos óculos redondos sem grau, então estava perto mais uma vez, beijando-lhe a bochecha, o nariz... e, finamente – finalmente – a boca.

Hinata sentiu seu coração bater com violência em seu peito. Sentiu o corpo muito quente e muito frio ao mesmo tempo. Sentiu as borboletas do estômago morrerem e ressuscitarem de novo e de novo. Sentiu a pressão cair. Sentiu o que achou ser o início de um desmaio. Mas, acima de tudo, sentiu os lábios de Sasuke firmes sobre os seus, parados por mais tempo do que um selinho normalmente duraria.

O resto da exposição passou rápido e enevoado. Hinata se lembrava que passaram pelo labirinto do torneio tribruxo, cheio de hologramas; andaram pela sala precisa, repleta de referências à Ordem da Fênix; entraram na sombria casa de Voldemort, preenchida com as memórias dAquele Que Não Deve Ser Nomeado; que foram, ao pátio de Hogwarts, destruído, hologramas da batalha final espalhados pelo local; e que, por fim, saíram numa loja enorme, com estandes de Hogsmeade, Gemialidades Weasley e Olivaras.

Mas tudo aquilo ficara em segundo plano. O que permanecia em sua mente era Sasuke; as mãos de Sasuke nas suas; os lábios dele nos seus. Sentia-se uma adolescente boba, cheia de sensações quase infantis de felicidade, tímida como só Hyuuga Hinata podia ser. Não conseguia encarar o marido nos olhos, muito embora não tivesse largado a mão dele por sequer um momento.

Desconhecia o fato de que apesar da aparência calma e desinteressada de sempre, a mente e sentimentos do marido encontravam-se igualmente caóticas. Mal prestara atenção às salas seguintes. Permanecia totalmente focado em Hinata, se perguntando se talvez não fora longe demais. A esposa, antes tão animada e falante, estava introspectiva.

– Hime – Ele chamou, percebendo que ela observava a varinha em sua mão há no mínimo cinco minutos, mas tão desatenta que poderia muito bem estar olhando para uma batata crua.

– S-sim, H-h-heika? – Ela olhou para um ponto entre o nariz e a boca dele. Estava malditamente corada, pensou, respirando fundo três vezes.

– HINA! – Uma voz conhecida os interrompeu, forte e acolhedora, e Hinata se sentiu aliviada. Até ver Kiba e Shino se aproximando, o primeiro completamente vestido com o uniforme da escola bruxa. Ela forçou um sorriso, acenando até eles estarem próximos o suficiente para que não precisasse gritar.

– Kiba-kun, Shino-kun – Ela disse, abraçando primeiro Shino e depois Kiba.

O que você tá fazendo aqui?! – Ela sussurrou no ouvido do amigo e parceiro de profissão enquanto ainda o abraçava.

Desculpa, Hina, eu não podia perder Sasuke numa exposição de Harry Potter – Kiba sussurrou de volta, sorrindo ladino, soltando-a. Recebeu um pequeno olhar repreensivo da amiga antes de se virar pra cumprimentar Sasuke.

– E aí – Disse tranquilo, colocando as mãos nos bolsos da farda e encarando o Uchiha. Sasuke murmurou um educado boa noite, acenando com a cabeça para o casal. Shino acenou de volta.

– Desculpe, estamos com pressa – Shino disse, segurando a mão do namorado que parecia prestes a ficar plantado ali e tomar muito do tempo dos outros dois, que estavam claramente desconfortáveis – Espero que tenham gostado da exposição.

E desapareceram tão repentinamente quanto tinham surgido. Sasuke permaneceu encarando a direção na qual os dois tinham ido, se perguntando o que tinha sido aquilo, até a voz baixa de Hinata chamar sua atenção.

– H-h-heika – Ela disse de uma maneira um tanto nervosa e ele votou os orbes negros para ela pacientemente –, será que poderíamos d-d-dar um b-beijo de v-v-verdade?

Sasuke sorriu. Um sorriso de verdade, completo. Ela teve um segundo para admirá-lo antes que ele descesse sobre si e atendesse seu pedido, fazendo-a derrubar a varinha de Dumbledore que ela segurava no chão.


UFA! Demorou, deu muito, muito trabalho, mas saiu. Meus mais amorosos e sinceros agradecimentos à Asakura Yumi, que me aguentou e me ajudou dias a fio enquanto eu tentava dar forma a esse capítulo. Te amo, meuamô.

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