Naruto não me pertence de forma alguma.

TRINTA DIAS A DOIS

Seria mentira dizer que os Uchihas não haviam estranhado acordar com miados de gato pela manhã, e seria também mentira dizer que eles entenderam de imediato o que aqueles seres felinos queriam. Quando Yang, a gata branca, miou de forma arisca na porta do quarto do casal e Yin, manhoso, subiu na cama deles e cutucou o nariz de Sasuke com a patinha negra, o homem estranhou. Primeiro, pensou de onde aquela patinha que tocara seu rosto tinha saído. Depois, quando se lembrou, perguntou-se o que aquele animal poderia possivelmente querer às – virou-se para olhar o relógio no criado mudo – sete e meia da manhã. Yin, sentado entre os rostos de Sasuke e Hinata, miou novamente, insatisfeito com a falta de reação do seu dono.

– O que foi, Heika? – A voz sonolenta de Hinata se fez ouvir, e os olhos dela se abriram lentamente. Sorriu ao ver o gato sentado e o rosto meio confuso, meio rabugento do marido. Estendeu a mão e fez um carinho atrás da orelha de Yin, sentando-se preguiçosamente e puxando o gato preto para seu colo. – O que foi, mamãe?

O gato se esfregou nela, e Yang se aproximou também, miando no pé da cama. Hinata se levantou, colocando Yin no chão. Yang olhou para ela e saiu, e Hinata olhou rindo para Sasuke antes de sair também, seguindo sua nova companheirinha para descobrir o que ela tanto queria. Spoiler: era ração.

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O cenário da cidade passava pelo lado de fora da janela, calma e quase vazia. Tóquio era parada aos domingos, ainda mais naquele horário. Mais uma vez, Uchiha Hinata dirigia, e, mais uma vez, Uchiha Sasuke tentava descobrir para onde ela os estava levando. Mas, claro, mais uma vez, ela não dizia.

Take me on a trip I'd like to go some day, take me to New York, I'd love to see LA – A mulher cantarolava junto com a música que tocava no carro, tamborilando os dedos no volante.

A paisagem urbana lentamente foi dando lugar à vista da praia artificial, a areia surgindo no campo de visão e o som do mar quebrando se fazendo ouvir por sob a música. Sasuke sentou-se mais ereto no banco do passageiro, olhando pela janela.

– Hime – Ele chamou baixo, o corpo ficando tenso –, qual era mesmo o desafio de hoje?

OITO – Que tal uma aventura radical a dois? Vale tudo: saltar de paraquedas, rapel, escalada...

Boat surf. Boat surf. Aquilo sequer era um esporte de verdade, era uma atividade que turistas faziam no mar. Qual era a graça de subir numa boia em formato de banana e ser puxado por uma lancha no meio da água, de qualquer forma? Por que as pessoas gostavam daquilo? Sasuke, vestido na sunga preta que a esposa trouxera, tinha o corpo travado em uma posição tensa, sentindo a água salgada do mar lamber-lhe os dedos dos pés. Hinata permanecia afastada, conversando com um homem que ele julgava ser o dono da empresa que oferecia aquela atividade insana aos interessados sem juízo.

Sua esposa claramente era uma interessada sem juízo.

E ele, por tabela, também era.

– Heika – A voz animada chegou aos seus ouvidos antes da mão pequena tocar seu ombro. O homem se virou e o olhar caiu sobre o corpo feminino, muito bem marcado mesmo que a Uchiha tivesse escolhido um maiô numa clara tentativa de não expor suas curvas. Quando Sasuke voltou os olhos para o par de pérolas da mulher, pôde vê-la desviar o olhar que estava em seu tórax desnudo e as bochechas brancas ruborizarem. Ele teria sorrido minimamente se não estivesse tão tenso.

– Tu-tudo bem? – Ela perguntou depois de suspirar pequeno, mordendo o lábio inferior. – Você parece...

– Estou bem. – Ele cortou com firmeza, olhando para além dela e vendo o homem com quem ela conversava anteriormente se afastar. – E então?

– Ah... Kisame disse que podemos subir dentro de vinte minutos. Você quer dar um mergulho antes de irmos? Dá tempo.

– Pode ir, se quiser. Eu vou comprar uma cerveja. – E saiu, sem dar a Hinata tempo de responder e deixando-a sem entender.

Confusa, a Uchiha observou a figura tensa do marido se afastar praticamente chutando a areia. Será que ele não gostava de esportes? A água gelada lambeu-lhe o calcanhar, e o cheiro de mar, mesmo que artificial, foi o suficiente para seduzir a mulher a deixar os questionamentos momentaneamente de lado e afundar-se nas águas salgadas.

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– As regras são bem simples – O homem disse, entregando um colete salva vidas para Hinata e outro para Sasuke. – Eu navego, arrastando a boia de vocês. Vocês se seguram e não caem no mar... Se puderem.

Sasuke olhou para o sorriso que o outro dirigia a ele e à esposa e achou que aquele homem parecia um tubarão. Ele não gostava de tubarões. Permaneceu parado no lugar, segurando o objeto que lhe foi entregue e olhando de forma mal humorada para Kisame, que no momento ajudava Hinata a amarrar apropriadamente os nós de seu colete salva-vidas.

– Aqui, Heika – Ela disse a ele quando finalizou, pegando o colete que ele segurava e passando pela cabeça masculina, ajustando com cuidado sobre o tronco dele, puxando as cordas, atando os laços com esmero. O homem quase se esqueceu que estava tenso ao sentir as mãos dela trabalhando com dedicação e atenção sobre si. Ela finalizou e pousou as mãos alvas no pescoço dele, os dedos tocando levemente os cabelos da nuca do Uchiha.

– Pronto. – O sorriso dela era empolgado e brilhante e ele respirou fundo, tentando dissipar a rigidez em seu corpo e mente. Beijou a testa da esposa e aceitou a mão que ela lhe oferecia, sendo praticamente arrastado até o lugar onde o jet-ski estava parado, a boia amarela e comprida oscilando pacificamente atrás do veículo.

As ondas começaram pequenas em seus pés, quase inexistentes, mas iam crescendo à medida que avançavam, embalando o corpo do casal. O avanço não durou muito, porém, pois bastaram cinco passos para Uchiha Sasuke estancar completamente. Hinata, que seguia à frente com empolgação, quase caiu com o tranco causado pela parada brusca do marido, que seguia segurando sua mão com força.

– Heika? – A morena chamou, voltando dois passos e colocando a mão sobre o rosto do marido. O olhar negro era rígido, assim como a postura tesa, os músculos retesados e o maxilar travado.

– Nii-san! – O pequeno Uchiha chamou, sentado na beira do mar, catando conchinhas. – Olha quantas eu já peguei!

– Estou vendo, Sasuke-kun – Itachi sorriu, observando a mãozinha do mais novo cheia das referidas. Sasuke sorriu grande, colocando-as no balde verde que repousava entre suas pernas abertas. Ele já estava quase enchendo o recipiente, percebeu com empolgação. Itachi prometera que eles poderiam pintar as conchinhas quando voltassem para casa, para Sasuke não sentir tanta saudade da praia quando estivessem na cidade.

Os dedinhos passearam pela areia molhada, encontrando uma concha grande. Entusiasmado, o pequeno começou a cavar em volta da concha, que estava funda na areia, para retirá-la.

Foi quando a onda grande o engolfou.

Sasuke estava na borda, mas viu-se puxado pelo mar e sem forças para levantar-se da água. O ar fugia-lhe dos pulmões e toda vez que ele achava que conseguiria submergir, mais água chocava-se contra duas costas, empurrando-o para baixo e para frente, para frente e para baixo.

Sem conseguir respirar e sem forças para se levantar, o menino apenas apertou os olhos com força, esperando.

Quando Uchiha Sasuke acordou, estava cercado pela mãe, pai e irmão, que o abraçaram, aliviados. E ele chorou.

– Minha nossa, Sasuke, eu não sabia. – Sentados na beirada de um dos deques, o casal conversava. Não voltaram para o mar, não fizeram nenhuma atividade radical. Porém, do ponto de vista de Sasuke, ter aberto seu passado e suas fragilidades daquela forma tinha sido mais radical do que qualquer coisa que fizeram juntos até aquele momento. – Por que você não disse nada quando viu que estávamos vindo à praia?

– Eu achei que eu iria dar conta – Ele admitiu, sentindo o rosto esquentar.

Hinata virou-se para olhar para o marido com atenção, o nariz fino, o queixo quadrado, as bochechas levemente vermelhas. Era estranho vê-lo tão aberto, tão sincero, tão frágil.

– Meu amor, não é vergonha nenhuma ter traumas – Ela disse, escorregando a mão na madeira até que encontrasse os dedos dele, apertando-os gentilmente em seguida. – E não é assim que a gente lida com eles, também.

– Eu costumo ignorar meus traumas, Hime. Essa é a minha forma de lidar com eles. – Ele deu de ombros, acariciando o indicador dela com o dele.

Por mais que Hinata quisesse refutar, ela não podia. Com que propriedade? Não ignorava ela mesma seus traumas e receios, trancando tudo no fundo do seu baú mental e seguindo como se estivesse tudo certo e cheio de arco-íris?

– Eu também, Heika. Mas... Vamos tentar fazer diferente? – Ela respirou fundo, virando seu corpo completamente para ele, querendo olhar na imensidão negra que o marido carregava nos olhos – Quando a gente se deparar com um trauma meu, a gente conversa; quando a gente se deparar com um trauma seu, a gente conversa. Mesmo que talvez você ache que isso não resolva, colocar pra fora ajuda.

– É engraçado, nessa mesma viagem Itachi me ensinou a pular ondas. Aí uns dias depois eu quase morro por causa delas.

– Foi na mesma viagem que você adotou uma estrela do mar como pet? – Hinata perguntou, sorrindo com a memória do início da semana, quando eles começaram com aquele cronograma cheio de surpresas.

– Foi, sim. – Ele finalmente olhou para ela e sorriu. Hinata nunca iria se acostumar com o sorriso de Sasuke; tão raro, tão bonito. Fazia o estômago dela ir até o chão e voltar. – O Patrick Estrela. – Ele revirou os olhos, divertido.

Ela gargalhou com a imagem mental de um Sasuke em miniatura brincando com uma estrela do mar que tinha o nome do melhor amigo do Bob Esponja.

– Você devia ser um fofo quando criança, Heika. – Ela disse, balançando a cabeça em negação.

– Eu suponho que sim. – Ele concordou, e então segurou os joelhos dela e puxou-a em direção a si. Hinata deslizou pelos poucos centímetros que haviam entre eles, dando um pequeno gritinho surpreso. Os dedos de Sasuke desceram por entre os fios índigo do cabelo dela, parando na curva do pescoço feminino. Ele pressionou o local levemente e acariciou com cuidado em seguida. – E você é ótima, Hime. Imagino que desde sempre. Obrigado.

E a beijou, de novo, um daqueles beijos que vinham-se tornando tão frequentes, mas que, ainda assim, eram tão únicos.