Naruto não me pertence de forma alguma.

TRINTA DIAS A DOIS

A primeira coisa que a mulher notou ao despertar foi a irritante cefaleia; depois, percebeu a secura de sua boca; e então finalmente se deu conta de que estava abraçada a algo quente e confortável.

E que respirava.

O corpo inteirinho enrijeceu ao sentir o cheiro do marido envolvendo-a, a mão masculina tranquilamente na base de suas costas, a respiração dele suave acima de sua cabeça, as memórias da noite anterior voltando em flashes incômodos.

Uma pontada particularmente dolorosa a fez gemer, e, antes que ela pudesse ter outra reação, sentiu a mão do homem escorregar por cima do tecido fino da camisola que ela nem se lembrava de ter vestido.

Uchiha Sasuke estava acordado já há alguns bons minutos, sentindo o corpo frio de Hinata pressionado contra o seu, as pernas enroscadas entre as suas, a respiração batendo em seu peito desnudo, seu autocontrole estava por um fio.

– E-eu – A boca pareceu ainda mais seca quando sentiu os lábios de Sasuke brincando por seu pescoço, a língua quente traçando padrões de arrepio que corriam desde o ponto de contato até os dedinhos dos pés. Ela apoiou as mãos nos ombros dele e os pressionou na pele muito branca do outro quando o sentiu morder seu queixo, lamber o canto de sua boca e beijá-la com uma lascívia que nunca existiu entre eles antes.

O gemido incontido que ela deu foi abafado pela língua dele, enquanto com uma das mãos ele apertava a carne macia da cintura dela por cima da seda da camisola.

Então ele simplesmente se afastou, levantando-se da cama, passando as mãos nos próprios cabelos rebeldes. Hinata piscou, confusa, respirando com dificuldade e sentando-se devagar. Sentia-se tonta, por causa da ressaca e por causa daquele bendito homem.

– Heika...? – Ela perguntou baixinho, limpando a garganta com um pigarro baixo e sobrepujado.

– Quis te retribuir por ontem à noite – Ele disse respondeu com um olhar divertido, muito embora ela tenha visto algo a mais brilhar nos olhos ônix. Sasuke sorriu quando o rubor se espalhou pela face alva da Uchiha, denunciando que ela havia se lembrado de suas atividades quase sexuais da noite anterior.

– Ah... – Ela conseguiu murmurar antes de ele sair rumo ao banheiro para tomar banho e ela enfiar a cara no travesseiro, querendo gritar de vergonha.

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Hinata suspirou ao sair do longo banho gelado, pressionando com cuidado a toalha nos fios de cabelo afim de secá-los sem piorar sua dor de cabeça. Com um rápido olhar pelo ambiente, constatou que Sasuke já tinha saído para o trabalho. Nem tivera a oportunidade de perguntar a ele como fora a noite com

Céus, a última vez que teve uma ressaca daquelas fora no ensino médio... Pois muito que bem feito por misturar um monte de bebida diferente tentando acompanhar o ritmo de Karin e Suigetsu, que claramente já estavam habituados àquela rotina.

Seu celular tocou e ela fechou os olhos, franzindo as sobrancelhas com a dor que aquele simples som causara. Abriu os olhos apenas para achar o aparelho e atende-lo, voltando a fechá-los quando finalmente disse:

– Moshi moshi.

– Nossa, Hina, que voz de morte. – A voz do Inuzuka chiou na ligação e ela levantou a mão para segurar sua testa, que parecia que explodiria.

– Por favor, fala mais baixo – Ela pediu com suavidade, quase num sussurro.

– Eita, desculpa – Ele moderou o tom de voz – A bebedeira com os amigos do Uchiha foi tão pesada assim?

– ...foi. Eu não sinto uma ressaca dessas há pelo menos dez anos. A minha cabeça parece que vai estourar e qualquer barulhinho parece mil agulhas quentes perfurando meu cérebro.

– E você não pretende vir trabalhar hoje, nesse mar de barulho aqui não, né?

– Claro que eu vou, eu tenho coisas pra resolver, Kiba-kun. Não posso ser irresponsável assim... – Ela se levantou devagar, indo procurar o que vestir.

– Eu nunca te vi faltar um dia sequer de serviço, Hina. Você não vai produzir nada se vier trabalhar e só vai passar mais mal.

– Mas...

– Não quero saber. Se você me aparecer aqui hoje, Hinata Hyuuga Uchiha, eu nem sei o que fazer com você. VAI DORMIR. Tchau. – E a linha ficou muda.

Dando-se por vencida, a mulher vestiu uma roupa leve qualquer e foi para a cozinha, perguntando-se se comer alguma coisa ajudaria a melhorar aquele estado deplorável no qual se encontrava.

Àquela altura da vida e passando mal de ressaca. Hinata não sabia se aquele dia podia tornar-se mais constrangedor do que já estava sendo.

– Com licença, Hinata-sama – Mayumi pediu, adentrando o recinto com uma bandeja que ostentava um copo d'água e dois comprimidos – Sasuke-sama falou para a senhora tomar esses remédios para melhorar. E disse para a senhora tomar um comprimido desses antes de encher a cara da próxima vez, e não beber se não aguenta... – Os olhos de Hinata se abriram como pratos, as bochechas corando, a boca formando um pequeno 'o'. Ficou olhando a funcionária, sem saber reagir – Desculpe, ele me fez prometer que usaria essas exatas palavras.

Estarrecida, a Uchiha pegou o remédio e o copo d'água que a mulher lhe oferecia, ingerindo a medicação e devolvendo o copo vazio para a bandeja que Mayumi segurava. Desistiu de comer alguma coisa e levantou-se, voltando para cama e se enfiando debaixo das cobertas.

Sim, aquele dia conseguia ficar mais constrangedor a cada instante. E ela pretendia dormir para evitar mais vergonhas.

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Quando Sasuke chegou do trabalho naquele dia, não eram seis horas ainda. Afrouxou a gravata, encontrando a esposa sentada na sala, esparramada no tapete entre papéis, telefone, computador e almofadas. O homem se encostou ao batente da porta, observando-a, enquanto ela digitava alguma coisa furiosamente, o celular preso entre o ouvido e o ombro.

Enfiada em um short jeans, uma camiseta grande promocional de um dos espetáculos da academia dela, descalça e com os cabelos embolados no topo da cabeça em um coque, Sasuke achou que Hinata parecia melhor que quando ele havia saído para trabalhar.

–...quinta feira da semana que vem. Mas vai dar tempo de fazer a prova e ajuste dos figurinos? – Ela fez uma pausa para ouvir quem quer que estivesse do outro lado da linha, e então balançou a cabeça, procurando uma caneta para anotar algo na agenda. – Entendi. Tudo certo então. Vou avisar os alunos. – Ela ajustou a postura, segurando o telefone com uma mão e erguendo o outro braço, espreguiçando-se. – Muito obrigada. Até logo.

– Nem parece a mesma pessoa que bebeu tanto que chegou em casa dando satisfação para os gatos – Ele provocou, fazendo-a finalmente notá-lo parado ali, vestido no seu eu executivo.

– Ah. – As bochechas dela ganharam uma leve coloração, e ele não soube dizer se de vergonha ou de indignação. – A Mayumi foi muito gentil em me constranger com remédios, obrigada.

Um sorriso riscou o rosto masculino antes de ele se virar e se embrenhar casa adentro.

DEZ – Aproveitem para visitar seu bairro ou parte da cidade de bicicleta

– Heika, eu não sei andar de bicicleta. – Hinata admitiu baixinho, olhando do marido em trajes esportivos para as duas bicicletas encostadas na parede.

– Eu sei. – Ele disse e a viu piscar de forma confusa. – Kiba me disse.

– Então... – Ela o observou enquanto ele se virava e pegava um dos veículos. Deslizou o olhar cristalino pelas costas masculinas, parando na bunda marcada pelo short de lycra de ciclista que Sasuke estava vestindo. Piscou duas vezes, sentindo o rosto esquentar e se obrigando a voltar os olhos para as costas do Uchiha. – Você vai sozinho?

– Eu vou te ensinar. – Respondeu com simplicidade. – Vem cá – Comandou, e quando ela obedeceu, colocou um capacete na cabeça feminina, ajustando-o sob o queixo de Hinata.

– Aonde foi que você arranjou todo esse equipamento de ciclismo? – A morena não pôde evitar perguntar quando o outro abaixou-se para ajudar as joelheiras em suas pernas. Sasuke prendeu o velcro e correu os dedos quentes pela pele gelada das pernas da Uchiha, fazendo um leve carinho nas canelas da esposa antes de se levantar. Hinata, que tentava fechar as cotoveleiras, sentiu-se esquentar como o inferno, enrolando os dedos uns nos outros e sendo incapaz de ajustar ou fechar qualquer coisa.

– Eu aluguei – Explicou, parando novamente frente a mulher, auxiliando-a também com o equipamento de proteção para os braços. – Bom, na verdade, minha secretária resolveu isso. – Ele admitiu, direcionando os olhos ônix aos perolados. – Pronto. Bebeu tanto ontem que não tem coordenação motora hoje, Hime?

Hinata puxou o braço do toque de Sasuke, o rosto sem dar indícios de que iria abandonar a coloração avermelhada. Sasuke observou-a: bochechas coradas em um rosto emburrado, regata, calça legging, tênis, joelheiras, cotoveleiras e capacete. Ele achou que parecia uma criança. Riu.

– O que foi? – Ela cruzou os braços sobre o peito de forma defensiva.

– Você fica uma graça quando tá emburrada. – E quando não está também, ele pensou, mas não ia conceder tanto de uma vez. A expressão feminina se suavizou e ela deixou os braços caírem ao lado do corpo.

– Eu não tô emburrada – Ela resmungou de uma maneira quase infantil que faria Sasuke revirar os olhos, se ele fosse o tipo de pessoa que revirava os olhos.

– Vem, sobe na bicicleta. – Ele instruiu, empurrando a mesma para Hinata.

A mulher segurou no guidão e passou uma das pernas para o outro lado do veículo, sentando-se no banco. Olhou para baixo, estranhando um pouco.

– Cadê os pedais, Heika?

– Eu tirei. É melhor você ficar sem enquanto se acostuma com a dinâmica da bicicleta. Você consegue colocar os pés no chão enquanto tá sentada, né? – Ele parou ao lado dela, analisando, e ela pensou que ele parecia muito sensual ali, com ares de instrutor, orientando-a. – Ótimo. Agora, eu quero que você deslize com os pés no chão e depois tente se equilibrar sem os pés no chão.

– Tudo bem... – Ela olhou com insegurança para baixo antes de dar um impulso para frente, devagar. Sasuke caminhava ao seu lado e ela tentou tirar os pés do chão, mas logo se desesperou, tremendo o guidão, soltando um guincho nervoso e firmando os pés no chão novamente. A mulher olhou em volta, respirando fundo, pensando que nunca tinha reparado o quão verdadeiramente grande era o quintal da casa deles. Achou ótimo, pois assim ninguém além de Sasuke testemunharia aquele momento vexatório.

– Calma. Tenta de novo. Experimenta usar os freios também. – A voz grossa do marido veio calma e ela o obedeceu, tentando de novo. E de novo. E mais uma vez. Logo, estava deslizando sem precisar apoiar os pés no chão, e achou a sensação ótima.

– Viu só? Muito bem – Ele incentivou e ela deixou um sorriso satisfeito se espalhar pelo rosto harmonioso, realmente feliz por estar aprendendo uma coisa nova – aprendendo uma coisa nova com Sasuke. Por um instante, ficou tão eufórica que esqueceu-se dos freios, dos pés e da direção e tudo que viu e sentiu foi o chão.

– Hime...? – Sasuke, que sequer tempo de ampará-la tivera, aproximou-se com cuidado. Com a bicicleta jogada meio de lado sobre si, Hinata gemeu.

– Ai.. – Ele tirou a bicicleta de cima da mulher e finalmente percebeu que os gemidos eram risos – Me ajuda... A levantar... Porque eu tô... Sem forças... – a Uchiha pediu entre risadas e Sasuke se permitiu um sorriso enquanto a puxava para cima novamente. Ainda sem conseguir sustentar o peso do próprio corpo, ela se deixou levantar, apoiando os braços nos ombros do marido e tentando recuperar o fôlego e cessar o ataque de risos que a sacudia.

– Tá tudo bem? – Ele perguntou, apoiando-a pelos cotovelos e afastando-a um pouco de si para que pudesse examinar se havia algum machucado no corpo dela.

– Com esse tanto de equipamento de proteção? Tá sim, só a minha dignidade que foi pro chão. – Ela esfregou os olhos para limpar as lágrimas de riso.

– Não, a sua dignidade tá no chão desde que te busquei bêbada ontem. – Ele replicou erguendo uma sobrancelha, sem conseguir evitar a provocação.

– Rá, rá. – Hinata resmungou, abaixando-se para colocar a bike de pé mais uma vez, mas sem subir na mesma. Segurando firme o guidão, sugeriu ao marido – Você já pode colocar os pedais de volta, né?

Ainda com aquele sorriso ladino, ele instalou os pedais novamente e parou ao lado de Hinata.

– Certo, suba. – Quando ela obedeceu, ele prosseguiu. – Coloca um pé em um dos pedais e deixa o outro no chão. Segura firme, apertando os freios. Quando você for começar a pedalar, solta os freios, coloca o outro pé no outro pedal, apoiando o seu peso ali. Quanto mais rápido você pedalar, mais fácil se equilibrar, entendeu?

A mulher acenou positivamente, muito concentrada observando o meio de transporte debaixo de si.

– Coluna ereta, olhar adiante. Nada de olhar para os pés. – Sasuke orientou e então colocou uma mão no guidão e outra no selim, apoiando-a e ajudando-a a se equilibrar. – Pronta? Vamos.

Hinata começou a pedalar devagar, com Sasuke ao lado segurando a bicicleta.

– Não solta – Ela pediu, insegura, forçando o peso do corpo para baixo de um lado e depois do outro nos pedais.

– Quanto mais rápido, mais fácil equilibrar – O moreno repetiu, e começou a correr levemente conforme Hinata acelerava. E então ele a soltou e a observou avançar mais alguns metros, até perceber que estava sozinha, vacilar e jogar os pés no chão, parando a corrida com um guincho.

A Uchiha respirou fundo, sentindo a adrenalina pulsar nas veias. Há quanto tempo não aprendia nada novo? Não teve muito tempo para refletir naquilo, entretanto, pois a próxima coisa que viu foi Sasuke, em cima de sua bicicleta, passar direto por ela e seguir.

– Se você não vier, vai ficar para trás – Ele provocou ao passar ao lado dela e ela, incrédula, riu... Até perceber que ele falava sério, e então, sem opções e com alguma dificuldade, voltou a colocar ambos os pés nos pedais e o seguiu, vacilante e risonha, pelo quintal Uchiha, e então pela rua, até ele diminuir a velocidade e ambos percorrerem o bairro sobre duas rodas e sob inúmeras estrelas, sentindo o vento gelado no pescoço e a presença um do outro no coração.