Naruto não me pertence de forma alguma.

TRINTA DIAS A DOIS

– Hinata-sama – A secretária chamou, adentrando o escritório da diretora da escola de dança.

– Oi, Naomi-chan – Hinata respondeu, sorrindo com suavidade, colocando atrás da orelha uma mecha de cabelo que insistia em cair sobre seu rosto. Já era quase hora de encerrar as atividades, o dia escorrera rápido naquela quarta-feira. – Sasuke já chegou?

– Não – A moça negou suavemente –, mas seus amigos chegaram e estão te aguardando na sala de dança menor.

– Eita! – A Uchiha exclamou, levantando-se de repente. Andou pela sala, parecendo perdida. – Eu tinha esquecido. – Balançou a cabeça e voltou à sua mesa, abrindo uma das gavetas e pegando suas sapatilhas. – Onde eu estava com a cabeça? – Em Sasuke. No espetáculo. Nos gatos. Em Sasuke (ele podia se encaixar na categoria "gatos" também?). – Obrigada, Naomi-chan! Já estou indo.

– Tudo bem. Com licença – Ela se retirou discretamente.

Hinata calçou as sapatilhas rapidamente, procurando por um prendedor de cabelo para poder elaborar o coque que deveria usar para dar aulas. O tempo estava passando tão rápido que nem viu aquele dia chegando... E Sasuke ocupava tão tempestuosamente sua mente que mal notava as outras pessoas. Substituiu a calça jeans por shorts de dança e atravessou a academia, indo até aonde o casal lhe aguardava.

– Boa tarde! – Hinata saudou ao passar pela porta. Viu Uzumaki Sakura sentada na posição borboletinha, com os cabelos curtos presos para trás com uma fita vermelha, o corpo coberto por um collant preto e meia calça da mesma cor. Segurou o riso com dificuldade quando olhou para Naruto, que vestia um macacão de lycra de um laranja berrante, fazendo algo que deveria ser um alongamento com a perna direita em cima da barra. Tentava desesperadamente alcançar o pé com as pontas dos dedos.

– Hina-chan! – Este cumprimentou, efusivo, firmando-se nos dois pés para depois se aproximar da mulher e apertá-la num abraço. – O que achou da minha roupa? O Lee falou que era a mais confortável pra dançar.

– Imaginei que tinha dedo do Lee nisso – Ela disse, finalmente dando uma risadinha. Soltou-se gentilmente de Naruto e abraçou rapidamente Sakura, soltando-a e parando em frente a eles com uma mesura, as mãos cruzadas na frente do corpo. – E então, estão prontos?

– Estamos! Deve ser moleza, 'ttebayo! – O loiro afirmou, colocando as mãos atrás da cabeça e dando um sorriso que lhe ocupava toda a face bronzeada.

– Naruto – Sakura cutucou com o cotovelo a costela do marido, respirando fundo e pensando em como Naruto conseguia ser inconveniente. Observou Hinata encaminhar-se para o canto da sala, numa postura eretíssima, e reparou em como era estranho que ela não tivesse gaguejado nem corado até então. Aquela era a Hinata profissional, e Sakura nunca tinha visto a Uchiha em ambiente de trabalho.

– Eu separei esse horário só pra vocês, porque todas as turmas que eu tenho estão avançadas e focadas na seletiva para o espetáculo do fim do ano, tudo bem? – Hinata informou com um sorriso, achando graça da confiança que Naruto tinha sobre o ballet ser fácil.

– Claro, Hinata, sem problemas – Sakura disse e acenou que sim com a cabeça.

– Certo – A Uchiha foi até o som, apertando um botão que fez com que uma melodia tocada em piano dominasse o ambiente. – Vamos lá.

ONZE – Façam uma aula experimental ou aprendam algo novo juntos. Vale tudo: de esportes a culinária

– Vamos começar com o alongamento, sim? Eu quero que vocês se sentem um de frente para o outro, com as pernas abertas. – Hinata orientou, se aproximando do casal que fazia conforme ela dizia. – Sakura, coloque seus pés na parte interna da coxa do Naruto... Uma de cada lado, isso. Tá firme? Certo... Eu quero que vocês segurem um no antebraço do outro. Ok... Agora, Naruto, você vai abaixar até onde você conseguir e a Sakura vai te puxar, se inclinando pra trás. Com cuidado...

– Sakura-chan, vai devagar porquPUTA QUE PARIU, VOLTA, TÁ DOENDO – Naruto não conseguiu evitar o grito quando a esposa inclinou-se até deitar as costas no chão, puxando-o até que ele estivesse quase beijando o piso.

– Meu Deus, Sakura, vai com calma! – Hinata interviu, se adiantando para ajudar o loiro que esperneava de dor.

Hinata achou estranho perceber que conseguia finalmente estar ao redor de Naruto sem se sentir nervosa ou constrangida ou gaguejante. Ele era uma força da natureza, sem dúvidas; um homem cheio de energia, boas intenções, calor humano, boa vontade... E um ótimo amigo, ela percebeu enquanto prosseguia com a aula, corrigindo a postura de Naruto e mostrando à Sakura a maneira certa de fazer um pliè. Um amigo. Sempre fora isso, ela entendeu. Tinha sido fácil confundir – tinha uma admiração profunda por Naruto e sua persistência, sua alegria, sua garra.

Mas não era amor.

Aliás, era amor... Mas não era romântico.

Como era com Sasuke.

Mas o que diabos ela estava pesando?! Abanou a cabeça com força. Sorte a dela que dar aulas já estava tão entranhado em seu ser que o fazia de forma automática, porque os cinquenta minutos de aula passaram enquanto ela refletia internamente. Quando deu por si, estava fazendo a reverência final, sem sequer se dar conta do olhar estranho que Sakura lhe dirigiu durante a aula inteira.

A verdade é que Sakura nunca tinha passado tanto tempo assim com Hinata sem que Sasuke estivesse por perto. Na realidade, ela até evitava ficar sozinha com a Uchiha — não sabia lidar com a morena desde que assumira seu romance com Naruto, pois sabia que o Uzumaki era a paixão de infância dela. Tinha sido muito constrangedor estar na presença dela desde então, e deveras confuso quando Sasuke anunciou que estavam juntos. Mesmo que, na época, já estivesse com o Naruto – bem, feliz, com Naruto –, não conseguiu evitar perguntar a si mesma o que Hinata tinha que ela não tinha. Foi ironia do destino perceber que Hinata deveria ter se perguntado a mesma coisa referente a ela e ao loiro.

Mas Hinata sempre parecia distante, e pareceria amargurada, se ela sequer fosse capaz daquilo. Sakura se perguntava como era para a outra conviver consigo e com Naruto como casal durante os últimos anos, como era ter se casado com o melhor amigo do seu primeiro amor – bom, essa última parte ela sabia, afinal, tinha se casado com o melhor amigo de Sasuke.

A vida era uma bagunça cheia de reviravoltas.

A Uzumaki sempre teve a impressão de que Hinata olhava com um carinho cheio de reverência para o dono dos olhos azuis, e isso só aumentava seu desconforto. Mas agora... Bom, as coisas pareciam diferentes de uns dias para cá. O olhar perolado definitivamente estava cheio de paixão, mas não era pelo Uzumaki – carinho, sim, mas um carinho quase fraternal –, Sakura percebeu ao observá-los interagir.

– Hinata-chan... – Naruto choramingou, andando de pernas abertas – Não foi moleza...

– Ninguém disse que ia ser fácil, baka – Sakura devolveu, finalmente voltando para o presente e segurando-se para não dar outro safanão no marido. – Para de me passar vergonha, Naruto... – Mas ela também sentia o corpo reclamando. Não admitiria em voz alta, mas tinha escolhido ballet justamente por achar que seria fácil... Ledo engano.

– Não tem problema, Sakura-chan. O ballet é muito bonito e delicado, as pessoas acabam achando que é fácil também justamente por isso. – Ela se aproximou dos dois, abrindo a porta para saírem – Mas – A morena acrescentou, dando uma piscadinha – é preciso muita força pra ser delicado.

Sakura definitivamente não conhecia Hinata.

– Muito obrigada pela aula, Hinata – A rosada agradeceu quando pararam na recepção, dando um abraço rápido na outra – Agora eu sei que não nasci pra ser bailarina... Com todo respeito, claro.

– Não mesmo, meu bem, você é toda dura – Naruto concordou, recebendo um olhar assassino da Uzumaki – Quero dizer, você é firme... É bom, porque você é médica... Né...? – Uma risada sem graça ecoou, seguida de uma gargalhada baixa vinda de Hinata. – Enfim, obrigado, Hinata-chan! Você é fantástica, muito boa mesmo. – Também ele se adiantou para abraça-la.

– Eu que agradeço, gente. Foi muito bom a gente passar esse tempinho junto. – O sorriso fácil permanecia no rosto feminino.

– Você está ridículo, dobe – A voz inesperada fez três cabeças virarem na direção da porta, que estava sendo atravessada por Sasuke Uchiha. O moreno parou ao lado de Hinata, deixando um beijo no topo da cabeça dela. Desceu a mão por suas costas, deixando-a lá.

– Você fique sabendo que eu estou com as vestes apropriadas para um bailarino, Teme – O loiro retorquiu, fazendo um bico ao cruzar os braços.

– Como você deixa seu marido sair assim na rua, Sakura? – O Uchiha seguiu com as provocações, a face estoica como sempre. – Eu teria vergonha.

– Você sabe como ele é cabeça-dura – Sakura deu de ombros, revirando os olhos. – Além do mais, acho que nem a capacidade de sentir vergonha eu tenho mais... Naruto acabou com ela.

– Não tá tão ruim assim... – Hinata tentou, mas o tom descrente não conseguiu convencer nem a ela mesma.

– Até você, Hinata-chan?

– Desculpa, Naruto-kun, mas você sabe que seguir dicas de moda do Lee é bem sem noção – Ela riu baixo, e Naruto acabou rindo também.

– É, acho que sim. Agora já foi, né?

– Já foi e a gente já tá indo – Sakura emendou, enroscando um braço ao redor da cintura do Uzumaki. – Obrigada de novo, Hinata. Tchau!

– Obrigado, Hinata-chan – Naruto ecoou, colocando o braço sobre os ombros da esposa – Nunca vou esquecer as dores dessa aula – Riu – Tchau pra vocês.

– Tchau – Hinata murmurou alegre, observando o casal se afastar.

– Hime – Sasuke chamou, fazendo-a olhar para ele. Os rostos estavam muito perto e antes que ela tivesse outra reação, ele deixou um selinho nos lábios dela e prosseguiu –, você vai se trocar antes de irmos?

– O que...? – Ela piscou devagar e viu os olhos negros brilharem com diversão.

– Não sei, você quem planejou o dia de hoje...

– Ah... Ah! – Sim, claro. Ela não iria sair da academia de dança enfiada em sapatilhas de pano e roupas moles de prática do ballet. Reparou que Sasuke já não estava usando seu terno – calça jeans marrom, camiseta preta e uma blusa xadrez por cima, no lugar disso – e mais uma vez percebeu o esforço do homem em fazer aquele programa funcionar. Ele até se preocupava de não sair por aí vestido de CEO e saía mais cedo da empresa para buscá-la! As bochechas esquentaram de satisfação. – Claro, eu já estou indo. Me espera aqui, eu não demoro nem cinco minutos.

x

Faltavam quinze minutos para as seis da tarde quando o casal Uchiha deixou a academia em direção ao compromisso do dia, Hinata vestida apropriadamente em seus jeans e sua blusa azul de botões. O vento entrava pelas janelas abertas, brincando com os fios negros de ambos os ocupantes do veículo.

– Oi, okaa-san – A voz de Sasuke soou de repente e Hinata o encarou rapidamente, só para confirmar que ele falava ao telefone – Sim. E a senhora? Não. Sim. Vamos, sim. Tudo bem. Tchau. – Ele desligou e encarou o perfil de Hinata, que estava concentrada na pista à sua frente, sem falar nada.

– Quase me esqueci – Ele disse, bloqueando a tela do telefone e enfiando-o no bolso –, minha mãe nos convidou para jantar lá hoje. Ligou para confirmar se iríamos mesmo.

– Confirmar? – Hinata desviou o olhar para ele por um instante, confusa.

– Ela tinha falado comigo semana passada, mas eu não lembrei de falar com você nem de retornar pra ela – O tom era quase de desculpas. – Eu disse que vamos, tudo bem?

– Sem problemas – Era a primeira vez que Sasuke pedia a opinião dela sobre visitarem os pais dele – geralmente ele somente avisava para ela se arrumar porque iriam vê-los. Ela gostou.

Hinata guiou o carro para o estacionamento interno do clube desportivo e desligou o automóvel. Sasuke olhou para ela de forma indagativa e ela apenas sorriu.

– Vamos, Heika.

Desceram do carro e seguiram, atravessando a recepção, passando por uma área aberta para depois seguir por um dos vários caminhos de pedra que havia por ali, até chegarem diante de uma sala de porta aberta. Hinata tirou os sapatos e entrou, sendo seguida pelo marido.

– Hina, que bom que você veio – Uma moça morena se adiantou na direção do casal, abraçando Hinata efusivamente. Vestia roupas tradicionais e tinha os cabelos presos.

– Oi, Tenten, obrigada por nos receber! – Hinata sorriu, abraçando-a de volta e então se afastando.

– Oi, Sasuke, bem-vindo. Vamos fazer uma aula de Kyudo – A Mitsashi sorriu para ele, e então colocou as mãos na cintura. – Não podemos começar com vocês vestidos desse jeito... Eu separei roupas pra vocês, tem um trocador bem ali atrás daquela porta – Ela apontou para um dos cantos da sala. – Já deixei tudo lá. Se precisarem de ajuda, me chamem.

Sem mais palavras, o casal seguiu, entrando no cômodo e fechando a porta atrás de si.

O espaço era pequeno, com um armário ocupando uma das paredes, um espelho na outra e alguns ganchos de madeira na parede ao lado da porta. Os trajes estavam em cabides, pendurados nos ganchos de madeira – uma espécie de blusa branca, um tipo de saia de pregas longa e preta, um cinto de tecido preto. Não havia nenhuma cabine ou divisória que permitisse privacidade para a troca de roupa.

Hinata percebeu o problema assim que fecharam a porta atrás deles, olhando encabulada para Sasuke. Este, por sua vez, já estava sem a camiseta quando percebeu a hesitação da esposa.

– O que foi, Hime? – Ele perguntou num tom de provocação, erguendo a sobrancelha e sorrindo de canto. – Você quer que eu me vire?

– Eu – Ela desceu o olhar pelo tórax desnudo, e de volta para o rosto malicioso do Uchiha – Não...

– Então quer ajuda? – Não foi necessário mais que um segundo e dois passos para ele estar muito perto, a respiração batendo nas bochechas coradas da mulher. Sem deixar de olhar nos olhos perolados, Sasuke desceu a mão pelo pescoço feminino, abrindo cada um dos botões da camisa azul que ela vestia. Os dedos lânguidos roçavam a pele de forma provocativa, ainda que superficial. Quando todos os botões enfim estavam abertos, Sasuke escorregou as mãos subindo pela cintura feminina, alcançando os ombros e empurrando o pedaço de tecido para fora do corpo de Hinata. As pontas dos dedos afastaram os cabelos índigo até que caíssem uniformemente pelas costas alvas da mulher e então serpentearam com habilidade até o cós da calça dela, enquanto se inclinava para deixar uma mordida no pescoço da Uchiha. Sasuke roçou o nariz pela pele sensível da moça até chegar ao ouvido dela e sussurrar: – Quer que eu ajude com o resto?

Hinata não lembrava de ter se mexido, mas mesmo assim suas mãos atrevidas estavam firmes nos ombros masculinos, os nós dos dedos brancos pela força que ela inconscientemente exercia para manter Sasuke próximo a si. Ele sempre tinha aquele efeito sobre ela, deixando-a com a pele formigando, os pelos arrepiados, o baixo ventre quente e a respiração descompassada. A morena sinceramente não achava que outra pessoa sequer havia chegado perto de deixá-la daquela maneira com tão pouco. Ela ergueu o rosto, os lábios levemente abertos, para olhar nos olhos negros do marido, as pérolas brilhando com intensidade.

– Já terminaram? – A voz de Tenten soou através da porta, fazendo Hinata empurrar o moreno com pouca força, se afastar e corar violentamente.

– S-só um segundo! – Ela conseguiu responder de volta, se enrolando com o tecido embolado aos seus pés e quase caindo.

Mas o traje era realmente confuso e difícil de vestir, ainda mais se fosse a primeira vez. Assim, ambos deixaram o pequeno provador com as peças no corpo, porém não da maneira correta, procurando Tenten para que os auxiliasse.

– Ah – A instrutora riu, aproximando-se. Parou atrás de Hinata, cruzando a blusa branca e amarrando atrás – O nome certo para essa blusa é kyudogi, ela vem sido usada para a prática do Kyudo há séculos, assim como a saia – ela continuou ao ajustar a peça de roupa –, que se chama hakama. O cinto vem amarrado aqui ao redor da cintura, e a leva o nome de obi. – Ela explicou, terminando de ajustar a roupa no corpo e passando a auxiliar Sasuke. – São vestes tradicionais, desenhadas especialmente para essa prática. Além dela, o kyudoka precisa usar alguns equipamentos além do arco, que chamamos de yumi. Existe a kake, que é a luva de couro, e o muneate, que é uma proteção que usamos no tórax. – Tenten finalizou e se afastou, colocando as mãos atrás das costas. – O Kyudo é uma prática ancestral, uma arte marcial diferente, pois é feita com arco e flecha. É diferente da prática ocidental por várias coisas, mas a mais evidente é que o nosso arco tem mais de dois metros de comprimento. Por ser uma arte, o kyudo tem um objetivo bem claro: o Shi-Zen-Bi, ou seja, o arqueiro deve buscar A Verdade, O Bem e A Beleza. Apesar de muita gente achar que essa parte é mais filosófica e que não influencia na prática, na verdade influencia bastante.

Tenten pegou um arco longo que Hinata não reparara estar ali, colocando a flecha a postos e se posicionando a alguns metros de uma janela quadrada que havia na parede dos fundos da sala. Segurando o arco com as duas mãos, ela o ergueu acima da cabeça, puxando o fio do instrumento à medida que abaixava os braços. Quando a parte central do arco estava rente ao seu nariz, ela soltou o fio, a flecha zumbindo através da janela, rápida e firme. A mulher esperou, encorajando com o olhar os alunos a se aproximar da abertura e verificar.

A janela dava para um pátio aberto, tendo um alvo fixo em uma parede que estava há aproximadamente vinte metros de distância. A flecha estava fincada no meio exato do alvo, a pena da ponta balançando suavemente.

– Sensei, isso foi muito bom! – Hinata elogiou, genuinamente impressionada. Sentiu a mão de Sasuke serpentear pelas suas costas e parar na base delas.

– Realmente – Ele concordou, e Tenten sorriu satisfeita. Nunca achou que viveria para receber um elogio daquele homem.

– Arigato. Para ter um disparo perfeito, é preciso prestar atenção em três coisas: a estabilidade do corpo, a estabilidade da mente e a estabilidade do arco. Lembrem-se disso. Agora, antes de vocês tentarem disparar usando o yumi, vou ensinar pra vocês usando um gomu-yumi... Que é esse arco aqui, de borracha.

A primeira a tentar foi Hinata. Tenten colocou uma luva de couro na mão da amiga, explicando que era para proteger do chicotear do fio, e permaneceu sempre a redor dela, ajustando a posição dos pés, a postura, a posição do arco.

– Só puxe a corda quando for atirar quase imediatamente, porque você vai precisar de muita força para manter o fio tensionado. Então quanto menos tempo você tiver que segurar, melhor. – A dona dos olhos de chocolate orientou, guiando as mãos de Hinata para cima da cabeça da mesma, para então descer enquanto tensionava o arco, como ela mesma fizera minutos atrás.

Sasuke observou com atenção o rosto concentrado e determinado da esposa, reparando nos movimentos fluidos dela ao puxar o fio, soltando-o em seguida.

– Isso, muito bem! – A Mitsashi elogiou – Agora você, Sasuke.

Vestiram a luva nele, repetindo o mesmo processo de ajuste antes de ele tentar o arco. O Uchiha se surpreendeu na quantidade de força que precisou empregar para tensionar o fio – quando vira Hinata fazendo, supôs que seria fácil, mas a realidade era que a esposa era dona de uma força concentrada, ele percebeu, ao soltar o fio. Não percebeu, entretanto, os olhos perolados deslizando pelos músculos expostos que a blusa, que cobria apenas um dos braços.

– Muito bem. – A voz de Tenten trouxe ambos de volta para o presente. – Vamos tentar com o arco, certo? O objetivo é acertar ali – Ela apontou para um alvo de borracha há poucos metros deles.

A hora passou rapidamente. Hinata pegou o jeito antes de Sasuke, pois, como bailarina, tinha a postura corretíssima e o controle perfeito de seus movimentos. Acertou o alvo na terceira tentativa. Sasuke ainda deixou a flecha cair algumas vezes antes de conseguir atirá-la de maneira apropriada, o que quase o deixou de mau humor. Quando, porém, conseguiu lançá-la, quase acertou o alvo. Se divertiram, no final das contas.

– Arigato, Tenten – Hinata agradeceu ao final, fazendo uma reverência.

– Arigato – Sasuke ecoou, abaixando a cabeça em respeito.

– Eu que agradeço, vocês são ótimos alunos – Ela reverenciou de volta. Os olhos então encontraram o relógio na parede e ela pareceu se assustar. – Desculpa, mas eu preciso ir. Estou quase atrasada! Vocês podem deixar os trajes na sala onde vocês pegaram, ok? Desculpa mesmo! – Ela repetiu, e então se virou apressada – Ja ne!

– Você não parece surpresa – Sasuke constatou ao olhar para Hinata e vê-la rindo e balançando a cabeça em negação.

– Você não tem ideia no que o Neji se transforma quando alguém se atrasa pra um compromisso com ele. Tadinha, Tenten saiu daqui assustadíssima, deve estar muito em cima da hora mesmo.

– Entendo – O Uchiha respondeu, já desatando o nó de sua kyudogi e andando em direção ao trocador. – Daqui a pouco a gente fica quase atrasado também, é melhor irmos logo.

Hinata o viu desaparecer dentro do cômodo e mordeu os lábios, pensativa. Sasuke adorava brincar com ela... Mas, às vezes, onde joga um, jogam dois. Mesmo que o segundo elemento fosse extremamente tímido... A Uchiha não queria que o marido pensasse que só ele estava interessado, já que só ele tomava iniciativas.

Sozinha, sentiu as bochechas esquentarem enquanto tateava para soltar seu obi e caminhava para alcançar o trocador antes que Sasuke estivesse vestido.

Quando a mulher parou sob o batente da porta, com o obi em uma das mãos e a kyudogi aberta, encontrou Sasuke sem camisa e com a calça desabotoada. Viu Sasuke subir o olhar para ela e parar imediatamente o que estava fazendo.

Ele esperou.

Esperou, porque nunca vira aquele brilho nos olhos dela antes, nem aquela postura. Mesmo que ela estivesse hesitante, o Uchiha entendeu suas intenções, pois Hinata não era difícil de ler.

Ainda mais quando parava na porta com a blusa completamente aberta e o sutiã preto de renda à mostra.

Hinata puxou o fôlego e cobriu o espaço que os separava, se erguendo na ponta dos pés, enroscando os dedos nos cabelos rebeldes do marido e trazendo-o para si.

O gosto de menta de Sasuke era inconfundível, assim como seu cheiro almíscar. A sensação da língua dele acariciando a dela era única, e ela perdeu o fôlego quando o beijo foi aprofundado. Ela se apertou contra o corpo masculino, esmagando os seios contra o peitoral dele. Hinata gemeu na boca do Uchiha quando sentiu as mãos dele descerem por suas costas e pararem em sua bunda, apertando-a.

Tudo era mãos e braços, beijos e abraços, o ar entre os dois rarefeito e o cômodo muito quente. Hinata quebrou o beijo, ofegante, e encostou a testa na de Sasuke, olhando para baixo, de repente muito tímida.

– Hime – A voz dele estava rouca, profunda. A mão dele segurou o queixo dela, levantando-o para que pudesse olhar nos olhos de lua da esposa. Quando o fez, continuou, baixo – Você não tem ideia de como você me deixa... Das coisas que eu tenho vontade de fazer com você.

O rubor se espalhou pelas bochechas dela, acompanhado de um sorriso lento que ocupou seu rosto inteiro. Tomada de uma súbita ousadia – ora, não tinha chegado até ali? –, ela conseguiu responder, ainda mais baixo que ele:

– Então me mostra...

O cômodo pareceu ainda menor quando Sasuke prensou Hinata entre a parede e seu corpo. Ela arquejou surpresa, e podia jurar ter visto um lampejo vermelho nos olhos do marido quando ele afundou a mão em seu cabelo e desceu sobre si, beijando seu queixo, sua mandíbula. A Uchiha inclinou a cabeça, ansiando por mais, enquanto os beijos desciam por seus ombros, seguindo o contorno do sutiã. Sentiu a boca de Sasuke passeando por seus seios, por cima do sutiã, e não pode evitar segurar os cabelos dele com força, assim como deixar escapar um gemido baixo.

A língua quente de Sasuke circulou a pele gelada do busto de Hinata antes de ele finalmente afastar o tecido do sutiã, revelando os seios fartos dela.

Foi quando as luzes se apagaram.

– Merda – Sasuke praguejou baixo, afastando-se rapidamente e esforçando-se para fechar o botão da calça, que estava mais volumosa que o normal. Saiu do cômodo a tempo de ver a porta da sala sendo fechada. – Oi, estamos aqui!

– Ah, me desculpe – Um senhor voltou a abrir a porta, acendendo novamente as luzes – Como a mocinha que dá aula aqui foi embora, achei que estaria vazia.

– N-nós que pedimos desculpas – A voz de Hinata soou e ela de repente estava ao lado de Sasuke, entregando a camiseta para ele, vermelha como só ela conseguia ficar. – Já estamos indo embora também.

x

O caminho de volta para casa foi rápido, com um silêncio que envolveu os dois de forma avassaladora. Nenhum deles se importou em desfazê-lo, porém; estavam imersos em suas próprias reflexões.

Até o momento em que Sasuke estacionou o carro na garagem deles.

– Hime – Ele disse, chamando a atenção dela antes que ela descesse do carro –, por mais que eu queira continuar aquilo que paramos agora há pouco... Se começarmos agora, Hinata, eu sei que não vou ser capaz de parar, e vamos acabar perdendo o jantar. – O olhar dele pousou brevemente nos lábios dela antes de ele finalizar: – Então, me desculpe se eu não te tocar enquanto estamos aqui. – Os olhos de Hinata estavam arregalados e as bochechas e o pescoço vermelhos e quentes. Sasuke tinha razão, de qualquer forma. Se ele a beijasse, ela não teria forças para negar e Kami sabe até que ponto iriam, estando em casa sem ninguém para interrompê-los. Sasuke abriu a porta do carro e saiu, resmungando baixinho: – Eu preciso de um banho gelado...

x

Quarenta minutos depois, estavam atravessando os portões da mansão Uchiha. Mikoto os esperava parada na porta, e quando Sasuke desceu do carro se adiantou para abraçá-la efusivamente.

– Uchiha Sasuke, eu tenho certeza que você quer matar sua velha mãe de saudades. – Ralhou de forma dramática, envolvendo a cintura do filho.

– Oi, okaa-san – Ele quase riu, retribuindo o abraço.

– Oi, Hinata, meu bem – Mikoto saudou a nora, dando nela também um abraço. Quando se afastou, olhou bem nos olhos perolados e perguntou: – Como você está? O desnaturado do meu filho tá cuidando bem de você?

Se estava cuidando bem dela? Hinata olhou para o marido, sentindo o rosto esquentar. Sorriu para a sogra, tentando disfarçar a expressão de quem tinha feito algo de errado.

– Está, sim, dona Mikoto.

A mais velha estreitou os olhos para os dois brevemente, e então se virou:

– Vamos entrando.

Apesar de a família ser extremamente tradicional, a mansão tinha um estilo ocidental. A sala de entrada ostentava uma grande escada de mármore, as paredes ornadas com quadros valiosos. Atravessaram alguns corredores até alcançarem a sala de jantar, Sasuke manteve a mão na base das costas de Hinata o caminho inteiro.

– Boa noite, otou-san – O mais novo saudou ao perceber que o pai já se encontrava sentado à mesa, no lugar de sempre, aguardando.

O lustre descia até quase tocar a mesa de carvalho. O cheiro do jantar dominava o ambiente inteiro, a fumaça subindo das travessas dispostas sobre o tampo de madeira.

– Boa noite, Fugaku-san – Hinata cumprimentou assim que entrou, sentando-se na cadeira que Sasuke afastara para ela.

– Boa noite, meus filhos – Ele respondeu, levando um copo com um líquido âmbar aos lábios. Sasuke sentou-se do lado da esposa, vendo a mãe acomodar-se de frente a ele, ao lado do patriarca. – Como estão as coisas na empresa, Sasuke?

– Fugaku, você prometeu que não falariam de negócios à mesa – A mais velha ralhou, desgostosa, franzindo o cenho.

– Obrigada, dona Mikoto – Hinata agradeceu, sorrindo – É bom tirar um tempo pra ser só um Uchiha, sem ter que ser um CEO ou um executivo... – Ela complementou, e então levantou os olhos e percebeu Fugaku a encarando fixamente. Sentiu as maçãs do rosto queimarem antes de murmurar: – Com todo respeito, é claro...

Um silêncio pairou por um instante, três pares de olhos negros fixos na Uchiha mais nova que encarava as mãos sobre o colo. O casal mais velho estava surpreso – em todos os encontros familiares anteriores, Hinata mantinha-se quieta, enquanto Sasuke e Fugaku conversavam sobre negócios e Mikoto tentava fazê-la ficar à vontade, sentir-se parte da família e soltar-se mais. Nunca funcionou. Agora, a jovem esposa de Sasuke estava ali, não só emitindo uma opinião, mas falando como parte da família. Era fantástico, e era o que o patriarca vinha esperando desde que Hinata aceitara se casar com seu filho.

Então Fugaku riu, uma risada forte e satisfeita. A atmosfera ficou leve, e, de repente, Mikoto e Hinata também estavam rindo, e mesmo Sasuke deixou um sorriso habitar seus lábios.

– Vocês têm razão, queridas – O patriarca concedeu, encostando-se melhor à cadeira. Estendeu a mão para segurar os dedos de Mikoto, levando-os aos lábios e beijando-os com tranquilidade. Voltou a olhar para a Hyuuga. – Vamos ser só Uchihas hoje.

Quando o Uchiha mais velho aceitou a proposta de Hyuuga Hiashi sobre o casamento arranjado, sua preocupação não era só com as empresas – era com seu filho também. Sasuke se fechara absurdamente quando Itachi faleceu, ocupando todo seu tempo dentro de um escritório. Não saía mais, não via os amigos, não se encontrava com mulheres, não conversava com os pais. A corporação tornara-se sua razão de vida, muito ao contrário do que tinha acontecido com Fugaku – perder Itachi fez com que percebesse o quanto a família era importante, mais que negócios. Ele então conheceu Hinata em um jantar promovido pela família da moça, e pensou que talvez ela pudesse ajudar o seu rapaz a voltar a ter alguma vida, fazê-lo se apaixonar por ela. Claro, foi uma decisão egoísta, e nem Sasuke nem Hinata se oporiam. O casamento veio, e meses, anos se passaram, e Fugaku pensava que talvez estivesse errado em ter escolhido aquele casamento, porque nada havia mudado...

Até agora.

Viu Hinata sorrir de forma tímida, enquanto Sasuke rodeava os ombros dela com o braço, a mão apertando carinhosamente o local por um instante.

Sasuke parecia feliz. Hinata também.

Fugaku compartilhou um olhar cúmplice com a esposa, que entendeu o que ele quis dizer mesmo que nada houvesse sido dito. Ela o brindou com um sorriso brilhante antes de anunciar alegremente:

– Eu fiz sopa de tomates!

– Okaa-san... – A voz de Sasuke ecoou de forma solene. – A senhora é a melhor mãe do mundo.