Nota: Cena extra sobre o ponto de vista do Tatsumi. Gostei de escrever sobre ele. :-)

Akame Ga Kiru!

A Assassina de Olhos Vermelhos

Por Kath Klein

Cena Extra: Mate as Expectativas

Tatsumi caminhava devagar pelas ruas agitadas da capital. Reparava que muitos aproveitavam o momento complicado de instabilidade da Capital para se aproveitarem e tirarem vantagem em saques. A guarda imperial andava executando a esmo. Olhou desolado para alguns corpos empalados que estavam a mostra na praça principal. As pessoas passavam por eles, no máximo olhando-os com curiosidade mórbida. No fundo, era uma visão tão comum que nem se chocavam mais.

Engoliu em seco lembrando-se amargamente das pessoas sorrindo aguardando sua execução na arena imperial. Estava para ser torturado por Esdeath na frente de todos e todos estavam se divertido e ansiosos aguardando por seus gritos de sofrimento e dor. Cerrou os punhos. Mine tinha morrido, salvando-o. Susanoo também. Seus companheiros eram os únicos que se importavam com ele. Todos sabiam que o grupo revolucionário era contra o Império e seus abusos, mas estavam todos lá ovacionando o Imperador e o primeiro ministro. Não poderiam ser tão idiotas em acreditar que eles realmente ligavam para o povo se extorquiam de todas as formas cada cidadão que estava ali.

Passou a mão no rosto, afastando de leve a franja do rosto e limpando o suor da testa. Não estava quente para aquilo, pelo contrário, estava bem frio. No entanto estava inquieto com as constatações que fazia agora andando sozinho pela capital. O primeiro dia que chegou naquele lugar acreditava que estava perto do paraíso, mal sabia ele que tinha chegado no inferno. Arya parecia um anjo, mas descobriu que ela era o próprio demônio.

Parou de caminhar e observou um grupo de moleque roubando uma loja e saindo correndo, dois guardas imperiais foram ao encalço dos ladrões. Os moleques estavam rindo, se divertindo em roubar. Empurraram uma mulher com uma criança no colo e esta foi ao chão, provavelmente machucando os joelhos mas conseguindo segurar seu bebê nos braços.

Deu um passo a frente na direção dela mas reteve-se. Ela reconheceria seu rosto se o visse. Não hesitaria em gritar pelos guardas. Abaixou o rosto e virou-se, tentando ignorar. Ainda conseguia ouvir as gargalhadas do grupo de desordeiros, ladrões por ocasião.

'Malditos rebeldes!' Ouviu uma voz masculina e trincou os dentes.

Tudo agora estava indo para a conta dos rebeldes. Hosnet estava fazendo um excelente trabalho na difamação deles.

Sem querer colocou as mãos sobre os ouvidos, tentando se controlar. Conseguia ouvir as malditas risadas e gritos entusiasmados daqueles que estavam na arena imperial. Era um público enorme. Um público que fora preparado para vê-lo agonizar até morrer. Todos ali estavam lá para se divertir as custas dos sofrimento dele.

Suas convicções estavam de repente vacilantes. Akame tinha dito que por ele estar vivo, tinha os anseios dos companheiros mortos sobre seus ombros. Mas o que eles queriam? Uma Era de paz e felicidade? Quem realmente queria isso? Lembrou-se das pessoas de seu vilarejo natal. Lembrou-se de Sayo e Ieyasu. Os três tinham saído de lá para buscarem a sorte na Capital e enviarem dinheiro para a vila para que crianças parassem de morrer de fome. Será que estariam usando corretamente o dinheiro que ele estava enviando todo mês, parte do pagamento que havia recebido pelas primeiras missões como assassino?

O que ele queria? O que realmente ele queria?

A alguns meses gostaria apenas de entrar na quarta imperial, fazer parte daquele grande exército e enviar dinheiro para a vila. Ele, Sayo e Ieyasu tinham planos, muitos planos. Ieyasu queria conhecer garotas da capital que tinham fama de serem belas. Sayo queria ser reconhecida como uma grande lutadora. Os dois morreram dentro de um galpão torturados por uma família de nobres. E este seria o destino dele também se os Night Raids não decidissem por colocar aqueles nobres em sua lista de eliminados.

Alguma coisa dentro dele tinha se quebrado de alguma forma. Naquele momento não sabia o que queria direito. Pensou no que seus amigos queriam e todos queriam apenas uma vida tranquila e digna. Era no fundo, o que ele queria também. Talvez tivesse sonhos como o de Lubbock, ou parte destes sonhos.

Não teve como não pensar em Akame. Estava com medo de perder Akame. E talvez isso tenha feito rever seus valores, suas prioridades. Já tinha pedido tantos. Sayo, Ieyasu, Aniki, Sheele, Lubba, Sussa, Mine… Não suportaria perder mais alguém. Não suportaria perder Akame.

E agora não tinha como pensar se realmente valia a pena lutar e se colocar em risco por aquelas pessoas. Se o melhor não era pegar Akame e partirem para outro lugar. Deveria existir lugares melhores do que aquela merda de Império. Deveria existir um lugar que ele poderia viver com Akame longe daquele inferno.

Abaixou as mãos, tirando-as dos ouvidos e escutou o choro do bebê. A mãe tentava acalmá-lo em vão. Estreitou os olhos na criança e pensou que futuro aquela criança teria vivendo ali? Inclinou a cabeça de leve. Se tivesse sorte, sua mãe conseguiria criá-lo até a idade que ele estava, mas também era bem provável que ela morresse devido a banalização da violência. Sentiu os olhos marejados. A probabilidade daquele bebê ser feliz por nascer naquele Império era de 10% ou menos. A probabilidade dele chegar aos 16 anos era de talvez uns 50%. Uma perspectiva muito triste. Desviou os olhos novamente para os corpos empalados e engoliu em seco novamente.

Ajeitou o capuz que cobria sua cabeça e voltou a caminhar em direção ao ponto que foi lhe dado como missão encontrar um dos espiões revolucionários. Entrou num dos becos para poder solicitar Incursio e ficar invisível para que pudesse se aproximar nos muros do perigoso palácio Imperial. Parou perto da árvore que havia sido passada como ponto de encontro e esperou. Sabia que era imprudente se movimentar muito pois sua presença não desaparecia.

Cruzou os braços e apenas aguardou, observando a riqueza e ostentação da imponente construção a poucos metros de si. Estava próximo do meio dia, um horário bem arriscado para um encontro daqueles mas a ordem de Najenda era que a informação a ser passada era urgente e valia o risco. Estava um pouco inquieto com tudo que passava na sua cabeça. Gostaria de voltar logo para a sede. Havia deixado Akame aos cuidados de Leone. Sabia que a loira cuidaria bem dela, mas gostaria de estar o máximo de tempo ao lado dela.

Akame tinha correspondido ao seu beijo e pareceu que retribuia seus sentimentos. Sorriu pela primeira vez, lembrando-se da bela jovem. E logo depois sentiu o rosto esquentar recordando da constrangedora conversa com Leone. Encolheu os ombros sem querer, pensando que aquela maldita conversa tinha o feito ter sonhos noturnos que o fizeram acordar em chamas. Tinha provado o gosto dos lábios de Akame e agora sentia vontade de provar mais o gosto dela. Balançou a cabeça, embaraçado pelos seus pensamentos libertinos e desejos. Não era um moleque para aquilo, quer dizer… pensando bem tinha quase 17 anos, era normal pensar em garotas. Talvez depois de tudo que passou sentia-se mais velho do que apenas com 17 anos. Soltou outro suspiro, lembrando-se novamente de Akame.

A Assassina de olhos carmim tinha a sua idade e tinha tanto nas costas. Tinha ouvido toda a conversa dela e de Kurome sobre a infância das duas e depois o reencontro. Realmente fora incrível Akame ter desertado do grupo de assassinos imperiais. Ela era incrível. Será que ele estava ao nível dela?

Ouviu um barulho de passos no gramado e levantou o rosto observando uma pequena mulher se aproximando da árvore. Franziu a testa pensando se ela era a informante que tinha como missão contactar. Ficou parado apenas observando-a.

Pavati caminhou até a árvore que seria o ponto de encontro com o enviado de Najenda. Estava com uma cesta de palha onde trazia algumas frutas. Ela parou embaixo da copa e olhou em volta não vendo ninguém. Tirou o relógio de dentro da roupa e estranhou, estava no horário, ela sempre fora pontual. Esperava encontrar-se com Akame, mesmo sabendo que era arriscado. Queria rever a amiga. Soltou um suspiro irritada com a demora. Tirou uma maçã da cesta e começou a comer.

'Droga. Ela nunca se atrasa.' Murmurou impaciente olhando para os lados. Logo finalizaria seu horário de almoço e desconfiaram ela não estar realizando seu afazeres.

Tatsumi franziu a testa. Parecia ser a informante, só que parecia que esperava outra pessoa.

'Sou enviado de Najenda.' Ele falou baixo, mas suficiente para Pavati ouvir e dar um salto a frente com o susto, se engasgando com o pedaço de maçã que mastigava.

'Santo Deus!' Ele falou olhando para os lados sem encontrar ninguém.

'Estou invisível. Por isso não me vê.' Ele clarificou.

'Onde está Akame-chan?' A pergunta foi feita de forma tão natural e urgente que até mesmo Pavati se assustou com a preocupação que tinha pela jovem assassina. 'O que aconteceu com ela?'

'Me enviaram.' Ele se limitou a responder.

'Akame é meu contato, não me enviariam outra pessoa.'

Tatsumi soltou um suspiro. 'Najenda me deu esta missão pois consigo ficar invisível.'

'Não sou idiota.' Ela o repreendeu. 'Akame consegue se deslocar sem ser vista com maestria. Se ela não veio é porque algo aconteceu. E quem é você, moleque?'

Tatsumi rodou os olhos. 'Sou usuário de Incursio. Faço parte dos Nigth…'

'Incursio?' Ela o interrompeu.

'Exatamente.'

Pavati soltou um suspiro mais irritada. Sabia agora exatamente com quem estava falando. Continuou a comer a maçã dando tempo a si mesma se acalmar. Assim que finalizou a fruta pensou que estava na hora de passar logo o relatório. O conteúdo era importante.

'Preste atenção, garoto. Pois não vou repetir. Honest contratou uma alquimista chamada Dorothea. Não sei o que andam fazendo mas passam muito tempo nos porões do palácio imperial. Anda inclusive levando o moleque do Imperador para lá. Tentei duas vezes, me aproximar de onde estão mas não consegui. Está muito bem vigiado. No entanto, tentei escutar uma conversa da tal alquimista com um membro da equipe e ouvi algumas palavras interessantes. Expurgo e Shikoutazer.' Ela falava de forma clara para ter certeza que ele entendia. 'Procurei saber o que eram estas palavras e o que elas significavam e descobri que Shikoutazer é o nome da teigu imperial usada apenas por membros da família real, a teigu que apenas quem tem sangue real pode usar. Acredito que o Primeiro Ministro está interessado nisto. Em colocar esta teigu em ação e controla-la por isso está envolvendo o pivete.'

Tatsumi estava calado ouvindo as informações e repassando-as em sua mente para não perder nada.

'Vocês precisam eliminar a tal alquimista. Ela pode trazer problemas.'

'Dorothea.' Ele repetiu o nome.

'Exatamente.'

'Entendido.'

Tatsumi estava para se afastar, mas voltou-se para Pavati. 'Você por acaso sabe dos Jaegers?'

'Wave, Run e Kurome estão no palácio numa área isolada.'

'Kurome parece bem?'

Pavati soltou um murmúrio irritada. 'O que Akame fez?'

Tatsumi não respondeu. Não sabia se deveria confiar nela e também não queria falar algo que no fundo só era de interesse das duas irmãs.

'Pelo seu silêncio e por ela não estar aqui, ela fez algo para melhorar a saúde de Kurome. Akame está com o coração mole demais e isso é culpa sua.'

O rapaz arregalou os olhos. 'Do que está falando?'

'Akame sempre fora racional e inteligente até se apaixonar por você. Está agindo de forma insubordinada e acreditando em contos cor de rosa que vão leva-la a morte.'

'Está sendo dura…'

'Akame é uma assassina. Capaz de matar aos milhares e qualquer inimigo, inclusive mais forte que ela, se estiver com a mente focada na luta e no modo assassinato. Ela não pode se comportar agora como uma jovenzinha boba apaixonada. Afaste-se dela. Você só irá atrapalhar ela de cumprir a missão.'

Tatsumi cerrou os punhos, adoraria responder a provocação. 'Você está se metendo demais na vida dela. Acha que sabe tudo dela?'

Pavati sorriu sarcástica. 'Conheço ela a bem mais tempo que você, moleque. Akame tem obrigações com as vítimas inocentes que ela fez quando era assassina imperial. Não a atrapalhe. Por sua causa, ela se colocou em risco desnecessário. E agora anda sentimental a ponto de ajudar a drogada da irmã dela. Coração mole mata assassinos.'

'Akame é mais que apenas uma máquina de matar.' Ele falou entre os dentes.

Pavati soltou outro suspiro, balançando a cabeça de leve. 'Ela foi uma menina adorável. Acredito que no fundo ainda é, mas primeiro ela deve cumprir sua missão depois… ela pode entrar em um romance. Sei sobre você, garoto. Admito que tem culhões para bater de frente com Esdeath mas sei também que foi amante dela…'

'Nunca tive nada com Esdeath.'

'Humph… sei que você dormia no quarto dela e todos sabem da obsessão daquela louca por você. Sua intimidade não me diz respeito. Acho que você não é o melhor para Akame, mas o mais importante é que a luta dela contra o Império, principalmente contra Esdeath não se reduza a uma disputa estúpida por você. Muito mais está envolvido. Então… eu lhe ordeno que se afaste de Akame. Pelo bem da revolução deixe-a continuar sendo apenas a assassina de olhos vermelhos. E você, faça o possível para não desonrar a teigu que hoje usa. Ela pertenceu a um grande soldado revolucionário.' Falou de forma assertiva antes de começar a afastar dele.

Tatsumi observou o pequeno vulto se afastando com os dentes trincados de raiva. Quem ela pensava que era para reduzir Akame a apenas uma assassina? Fechou os olhos com força tentando controlar a raiva. No fundo, era sempre isso que reduziam a jovem, não era a toa que Akame sempre acreditou que ela tinha a maior responsabilidade sobre tudo. Ela estava sendo chantageada intensamente para que se sentisse culpada pelo que fez quando seguia ordens imperiais. Não consideravam que ela era apenas uma menina manipulada violentamente para matar. Akame viveu sempre sob chantagem. Conseguia entender melhor porque Akame se comportava daquela forma.

Começou a caminhar, afastando-se do palácio e tentando digerir as palavras daquela espiã. Pavati. Odiava-a pela forma que via Akame. Assim que passasse o relatório para Boss seguiria para a sede e esperaria a morena acordar e então pediria para ela vir com ele para a sua vila natal. Gostaria de afastar a jovem de Pavati. De Kurome. De todos. Queria ter Akame ao seu lado e não a assassina de olhos vermelhos.