LA PRÉPARATION

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Mais uma vez Nathalie estava de frente para a grande porta do ateliê. A secretária reuniu certa quantidade de "paz interior" antes de entrar, de fato, no cômodo.

Com passos lentos, ela se aproximou do superior e estendeu as caixas. Gabriel as abriu sem cerimônia alguma, jogando o laço delicado em um canto qualquer do chão, o que interessava para ele estava dentro daquela embalagem delicada: um tecido fino, semitransparente, em um tom delicado que realçaria uma de suas mais novas peças.

— Ótimo — murmurou ele, segurando o tecido com zelo para retirá-lo da caixa — Poderia ter deixando alguém de lá irritado tanto quanto eles me irritaram hoje de manhã, Nathalie. Iria me ajudar como Hawk...

— Eu tentei, senhor! Sabe que eu sempre tento! — a resposta saiu por conta própria. Nathalie jamais iria interromper Gabriel para uma justificativa como aquela, mas precisava deixar claro que estava comprometida com suas obrigações.

Se tinha algo que a assistente estava fazendo em sua vida, mais do que qualquer coisa, era ajudar o superior. Entretanto, ela não se orgulhava nem um pouco disto: estava se tornando uma pessoa arrogante e fria em seu comportamento, o excesso de responsabilidades estava fazendo-a perder o sono e a falta de tempo estava sufocando-a.

— ... Você só é boa demais. — O Agreste passou longe de um pedido de desculpas, mas foi o melhor que conseguiu falar para reconfortar a assistente.

— E isso é realmente bom de algum jeito?

— Acredito que na maioria das vezes sim — e, voltando a dar sua total atenção para os tecidos, ele mudou para outro assunto: — Tons pastel ficarão em alta. O que você acha de uma mudança no uniforme? Faz bastante tempo que você usa esse modelo...

— Posso realmente dar minha opinião?

— Desde que não fale coisas como "desnecessário" e "minha carreira não depende que eu siga tendências", sim.

— Eu gosto de vermelho e gosto de suéter.

— E se mudar para uma saia? Manteria a cor vermelha e o suéter...

— Não seria tão prático quanto a calça comprida, senhor.

— Sabia que estava esquecendo alguma resposta padrão! — a observação tomou um tom divertido, para logo em seguida Gabriel retomar a seriedade — Nathalie, você trabalha com um estilista e, por mais que ache a moda algo desnecessário, deveria tentar ser uma extensão do meu trabalho e não apenas "prática".

— A extensão do seu trabalho é o Adrien, senhor. Não seria profissional eu andar por aí com roupas chamativas...

— Estamos falando de um novo uniforme, não um vestido de gala — o superior suspirou, vencido — Os modelos para o desfile estão em cima da sua mesa, falta apenas o terno do Adrien.

A assistente sorriu internamente, satisfeita com sua "vitória" sobre o uniforme.

Cuidadosamente, ela deixou as caixas com o tecido em um lugar próximo de Gabriel e caminhou até sua mesa, pegando o que deveria ser levado para o local do desfile. O dia seria longo e cheio de "vai-e-vem" até que tudo estivesse pronto.

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Gorila mais uma vez estava como motorista, entretanto, estava longe de querer ultrapassar a velocidade permitida. Ao lado dele, Nathalie estava mais uma vez irritada, discutindo em "viva voz" com o representante de um cantor chamado XY – provavelmente mais um daqueles rapazes que aparecem, fazem um estouro e desaparecem em seguida.

— Como assim ele não vai comparecer amanhã!? — faltava pouco, bem pouco, para Nathalie começar a cuspir fogo.

— Sinto muito, mas o projetor de hologramas está quebrado e...

— Hologramas!? Eu não quero um holograma!

— Mas o XY nem está em Paris de verdade, ele foi tirar férias na... A-A senhora está bem?

Por sorte, o sinal fechou bem neste momento e Gorila pôde ver o estado em que sua colega estava: vermelha, prestes a explodir. Nathalie era uma verdadeira bomba nuclear quando decidia "estourar" de vez, causava tragédias enormes que perduravam por meses, podendo até durar anos.

Sem querer ser assassinado pela ira da colega caso aquilo continuasse, o grandalhão, do jeito mais sutil possível, deslizou o dedo pela tela do tablet e encerrou a ligação. Levou alguns segundos, tempo até o sinal ficar verde novamente, para que Nathalie conseguisse respirar fundo e pensar o que iria fazer.

Gorila conseguiu: desarmou a bomba.

— Plano B... — resmungou ela, ligando para a próxima pessoa.

— Ah! Oi Nath!

A voz do outro lado da linha soava ligeiramente familiar para Gorila, mas ele deu mais atenção ao fato da pessoa chamar Nathalie por um apelido. Desde quando ela tinha relações "não profissionais" com pessoas?

— Penny, será que você poderia...

E, antes que pudesse continuar o pedido, uma sequência de sons que só podiam ser classificados como coisas caindo tomaram conta da ligação. Quando finalmente cessaram, a voz familiar retomou a conversa.

— FANG! LARGA JÁ O SOFÁ! CROCODILO FEIO! — a mulher gritava e, quando finalmente tudo parecia ter ficado em silencio, ela continuou aparentando ter calma novamente: — Desculpa Nath. Aqui está uma correria terrível por causa do voo para Paris, eu te ligo assim que chegar, tá? ... FANG, JÁ MANDEI LARGAR O... ARGH! JAGGED, SERÁ QUE VOCÊ PODE PELO MENOS TOMAR CONTA DO SEU CROCODILO!?

Suspirando, derrotada, Nathalie encerrou a ligação e se colocou a pensar qual seria sua próxima aposta. Já Gorila, novamente concentrado mais no transito do que nas conversas do telefone, tentava não rir por como o "astro do rock" parecia mais uma criança mimada longe dos holofotes.

— Última opção... — ela sussurrou, ligando para a última pessoa a quem pediria um favor como aquele.

Demorou um pouco até que ela finalmente fosse atendida, por um rapaz com a voz vibrante e que os dois conheciam muito bem:

— Fala, Dona Nathalie! O Adrien está se comportando direitinho na aula, pode ficar tranquila!

— Não liguei para isso, Nino... — a mulher suspirou, incerta se era realmente uma boa escolha.

— ... Ligou por que então? Aconteceu alguma coisa com o robô, digo, o senhor Agreste?

— Não, não foi para isso que liguei, eu... er... você tem algo para fazer amanhã?

— Dona Nathalie, nada contra a senhora ser mais velha e tudo mais, você é toda elegante, fica mais bonita sem os óculos, mas eu tenho uma namorada e...

— NÃO É NADA DISSO! — a secretária, mais uma vez irritada, falou em alto e bom som — Eu preciso de um DJ, amanhã, para o desfile. Aceita ou não? — a voz saiu fria, entre os dentes.

— Claro que sim! — Nino, por sua vez, parecia estar mais feliz do que nunca.

— Ótimo! — e, por fim, ela encerrou a ligação enquanto tentava se acalmar.

Gorila, que se manteve atento durante toda a ligação, tentava controlar os risos. Havia descoberto coisas sobre Nathalie que jamais imaginou: ela tinha um apelido entre os amigos, era amiga de Penny, o cantor de rock que a maioria dos jovens adorava é tão infantil quanto sua legião de fãs, Nathalie é a próxima da fila caso o namoro de Nino termine... O grandalhão não aguentou e começou a rir, claro, do seu jeito quase silencioso e praticamente imperceptível.

Para a sorte dele, já estavam de frente para o local onde seria o desfile. Bastava o Gorila estacionar o carro e estaria em um lugar mais seguro (lê-se: com testemunhas) caso a colega chegasse a quase explodir novamente.

— Qual a graça? — Nathalie estava séria como sempre. Ela encarava o outro, esperando as portas do carro serem destravadas.

O motorista respirou fundo, destravou as portas e, quando já estava prestes a sair do carro, ousou responder:

— Nenhuma... Nath.

— Mas o que...?

E, por mais incrível que pudesse parecer naquele momento, Nathalie deixou algumas risadas escaparem.

Para o bem de todos, ela estava calma mais uma vez.

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Horas se passaram e as preparações para o desfile não estavam nem na metade, tudo por culpa de um fotografo empenhado em tirar fotos de Nathalie. Vincent era uma pessoa com uma completa falta de bom senso e, assim como os opostos se atraem, o profissionalismo da secretária parecia ser um imã para a inconveniência dele.

— O sofá é para o camarim do Adrien e aquelas grades vermelhas serão as contenções dos lugares, coloque-as perto da passarela por enquanto — a assistente indicava onde Gorila deveria colocar cada coisa — E depois tenta colocar o painel da marca centralizado e no alto, colocaram baixo demais... — ela ficou em silencio ao notar um flash de foto na direção dela — Será que você não pode dar um jeito nesse fotografo logo?

— Se eu der um jeito nele, você vai ter que arrumar outro até amanhã — o grandalhão, que segurava várias caixas no momento, estava se mais focado em terminar logo aquela arrumação do que se incomodar com fotos.

— Ei, senhorita secretária! Poderia se virar um pouco para a esquerda!? — disse Vincent, trazendo suas quinquilharias técnicas para mais perto.

— Eu levo isso! — Nathalie ignorou completamente o fotografo, tomou as caixas de Gorila e começou a andar na direção dos camarins que, para sua sorte, era uma área que apenas autorizados poderiam ir.

Ela andou apressada pelos corredores, só não se atrevendo a correr porque iria chamar muita atenção. A única coisa que ela queria, no momento, mais do que deixar tudo impecável para o desfile era se livrar do fotografo irritante.

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Enquanto a secretária de Gabriel estava tentando se esconder, o mesmo estava tentando se concentrar no trabalho.

Os pensamentos pessimistas estavam assombrando-o, enquanto a ânsia para dar início ao plano tomava suas energias. Faltava pouco para aquele martírio ter fim e ao mesmo tempo era uma chance tão grande de tudo sair dos eixos.

Não era hora de pensar o que poderia dar errado! Coisas demais já haviam dado errado na vida do Agreste, caso contrário, sua esposa estaria ali, ao lado dele... Levando de modo literal, ela realmente se mantinha com ele o tempo todo: seja imortalizada em quadros, na inspiração de suas peças ou em seu casulo de vidro, protegida até que pudesse ser traga de volta.

Se tudo desse certo, se realmente aquele plano longo e trabalhoso trouxesse sua amada de volta, Adrien não iria se sentir tão sozinho o tempo todo, a casa teria sua alegria novamente e Gabriel seria um homem completo. O grande retorno seria anunciado no mesmo dia, naquele desfile, onde ele e Emilie iriam assistir o filho da primeira fila...

E, assim como um sonho bom é sempre interrompido pelo despertador, seus pensamentos foram interrompidos por batidas na porta.

— Entre! — a voz saiu bem mais dura do que deveria, mas não era para menos: Gabriel já estava de mau-humor novamente.

— C-Com licença, senhor... — o cozinheiro, que jamais se atreveu a chegar perto do ateliê, começou a falar com muito gaguejo — A moçoila, digo, Nathalie ainda não retornou e eu estava a pensar se vais almoçar com teu filho ou adianto tua refeição para agora...

— Depois que eu terminar o que preciso, aviso. Adrien vai almoçar um pouco mais cedo hoje.

— Sim, senhor!

E, com medo de deixar o superior ainda mais irritado, o chef praticamente voltou correndo para a cozinha. Lá, ao menos, estava em ambiente seguro – enquanto os fantasmas não atacassem novamente.

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Nathalie estava na porta do camarim de Adrien.

Com certo sacrifício, ela conseguiu segurar as caixas e destrancar o lugar, mas assim que tentou acender as luzes, nada deu sinal. Ela ficou surpresa por não ter energia chegando até lá, provavelmente devido a algum fio solto ou curto-circuito. Teria que cuidar disso o mais rápido possível!

Outra coisa que conseguiu notar, apesar de estar escuro, era a poeira do lugar. A limpeza de todo o ambiente seria feita no dia seguinte pela manhã, mas as roupas não poderiam ser deixadas lá, em meio ao pó... iria sobrar para ela e Gorila.

Já se preparando para mudar todas as tarefas que tinha programado adiantar, ela pegou o tablet e, antes mesmo de desbloquear a tela, notou que haviam algumas chamadas não atendidas. Sentindo a garganta ficar seca só de imaginar a raiva com que Gabriel deveria estar por não ser atendido, ela foi diretamente até o registro de chamadas.

— Que seja apenas a operadora... — suplicou ela em voz baixa, sem coragem de olhar.

Quando finalmente verificou, sentiu-se aliviada pois as quatro ligações perdidas pertenciam todas ao cozinheiro da mansão. Todas com um curto período de tempo entre cada uma. Agora ela lembrava-se: colocou o toque de telefone para o chef como "mudo".

Nathalie só não deu gargalhadas de alivio porque precisava saber o que estava acontecendo. Talvez fossem os terríveis fantasmas comedores de queijo mais uma vez...

Só saberia o que era ligando; e foi exatamente isto que ela fez:

— Onde estão vocês e o guri? Se demorarem, o almoço vai esfriar... — o chef falava calmamente, sem nenhum sinal de "tragédia" ocorrida.

— Almoço? Adrien está na escola, eu e o...

— Claro que almoço! As refeições são de muita importância para o vigor, ainda mais para um miúdo! Não se pode ficar apenas em acepipes por todo o dia!

Sem esforço algum, a secretária parou de dar importância para o longo discurso sobre comidas e saúde e se focou no horário: ela tinha ainda, exatamente, vinte minutos para buscar Adrien e chegar em casa. Ela só voltou a prestar atenção no cozinheiro quando o mesmo começou a acenar.

— Isto atrás de ti é um sofá? Ei! O que vão fazer com um sofá no breu em que está aí, heim?

— O camarim do Adrien está sem luz e... Sofá? — só então, desperta de seus planejamentos mentais, a assistente virou-se para trás e se deparou com um enorme sofá entrando pela porta — Gorila!? — Ela só recebeu um resmungo em resposta, enquanto o móvel continuava a ser empurrado para dentro do camarim, sem muita eficácia.

— Não se atrasem! — o cozinheiro finalmente encerrou a ligação.

Agora Nathalie tinha cerca de 19 minutos para fazer tudo o que precisava, tinha um camarim para limpar, um sofá emperrado na porta e tantas pequenas tarefas que nem mesmo ela sabia ao certo se daria conta de tudo.

De qualquer jeito, começar uma crise de ansiedade não resolvia em nada.

— Para de empurrar o sofá, ele está emperrado! — ela avisou ao colega, subindo em cima do móvel e se preparando para sair do outro lado da porta — Precisamos buscar o Adrien, rápido!

E, sem demais explicações, ela já estava correndo pelos corredores e sendo seguida pelo grandalhão.

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Gorila sabia perfeitamente a maneira como Gabriel Agreste interpretava atrasos, principalmente se tratando do filho. Devido a isto, ele não se privou de pisar forte no acelerador para garantir chegarem ao colégio na hora certa. Ele não se importava em levar mais multas – afinal de contas, não era ele quem as pagava -, e muito menos com os "conselhos" de Nathalie sobre jamais dirigir desse jeito com Adrien dentro do carro. E, no fim do trajeto feito em apenas 4 minutos, já estavam em frente ao colégio bem há tempo de ouvirem o sinal tocar.

— ... Não acredito... — a secretária murmurou, passando para o banco de trás e tentando endireitar tanto o óculos quanto uma mexa de cabelo que vivia caindo sobre o rosto.

— Chegamos na hora — o motorista deu um sorriso vitorioso.

— Não acredito que ainda estou viva! — ela retrucou — Se algum dia você ousar dirigir desse jeito com o Adrien... Argh! Deveria ao menos ter esperado eu colocar o cinto de segurança!

— Prioridades... — Gorila curvou os ombros, sem perder o sorriso.

Não tardou até que Adrien cruzasse os portões do colégio, caminhando ao lado de Nino enquanto conversavam. Assim que avistou o carro, ele se despediu do amigo e foi apressado até o veículo.

O rapaz mal se acomodou no banco e lançou a seguinte pergunta:

— Nathalie, lembrou de pegar minha roupa de esgrima?

— Ainda não tive tempo de buscar ela — a mulher, por sua vez, manteve sua postura indiferente e fingiu não ter esquecido de absolutamente nada — Mas se quiser, podemos ir buscar agora mesmo.

— Sério!? — os olhos do rapaz se encheram de brilho. Eram raras as vezes em que ele tinha permissão de ir em algum lugar sem ter que fugir, sendo assim, até mesmo uma ida até a lavanderia parecia ser divertida.

Enquanto Adrien parecia adorar a ideia, Gorila era completamente o oposto. Ele lançou um olhar repreensivo para a colega e se pôs a dirigir o carro, tentando ser ágil para que o pequeno Agreste não se atrasasse em nada.

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Nathalie acompanhou Adrien até o balcão da lavanderia, com uma das mãos repousadas no ombro do rapaz. Ela criou tal habito porque, uma vez que ele não era mais uma criança, ela não poderia andar por aí levando-o pela mão sem parecer uma atitude infantil.

— O que preciso falar, Nathalie? — sussurrou ele, um tanto envergonhado por não saber exatamente como as coisas funcionavam no "mundo exterior".

— Apenas o que veio fazer — a voz saiu tranquila, acompanhada de um sorriso quase imperceptível.

Mesmo sem entender exatamente a resposta, aquilo bastou para que Adrien se sentisse mais à vontade e voltasse sua atenção para uma das atendentes.

— C-Com licença... — assim que a garota se virou para ele, Adrien continuou — Vim buscar a minha roupa de esgrima, er... a roupa dos Agreste.

A atendente sorriu gentilmente, afirmou com a cabeça e começou a procurar o embrulho. Quando finalmente retornou, entregou para ele com cuidado e ousou falar, mesmo que baixo:

— Sou uma das suas maiores fãs! — a voz saiu alegre, acompanhada de um sorriso.

— Obrigado! — respondeu ele, com as bochechas completamente coradas pela timidez.

Adrien estava acostumado com seus fãs gritando e correndo atrás dele, a inconveniência que normalmente eles causavam e como aquilo deixava-o irritado. Encontrar alguém que não gritasse e não implorasse por fotos e coisas do gênero o tiravam de sua "zona de conforto" e derrubavam-no em um poço de timidez.

E, antes que qualquer outra coisa fosse dita, o som irritante da buzina do carro começou a ecoar. Gorila já estava impaciente...

— Precisamos ir — Nathalie avisou.

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Conseguiram chegar à mansão Agreste com cerca de dois minutos de vantagem.

Nathalie estava no ateliê reunindo todas as pequenas "ferramentas" que Gabriel poderia precisar enquanto o superior fazia as finalizações em um de seus projetos.

— Não esqueça de pegar os alfinetes — avisou o Agreste, saindo de trás de sua grande tela de trabalhos e indo para a porta.

A assistente afirmou com a cabeça e seguiu-o.

Adrien estava terminando de almoçar, com sua roupa de esgrima devidamente colocada em sua bolsa. Gorila havia ficado com ele, ou melhor, estava na porta esperando o rapaz terminar a refeição para leva-lo de volta ao colégio.

O pedido de "licença" de Gabriel consistia em uma tosse seca, mas que seus funcionários sabiam exatamente o que era. Sendo assim, ao ouvir tal expressão, Gorila se afastou da porta e deu passagem a ele.

— Não sabia que ia almoçar comigo hoje, pai — a voz de Adrien saiu carregada de surpresa enquanto ele observava o mais velho se aproximando, com os olhos brilhando em esperança.

— E não vou. Estou ocupado demais com as criações da próxima estação... — E bastou isso para que o olhar do filho perdesse completamente o vislumbre — Mas vim tirar suas medidas para o seu terno.

— Entendi...

— Por que não me conta como foi seu dia enquanto isso?

— Claro, pai! — e, mais uma vez, o olhar de Adrien se encheu de alegria — Tirei nota máxima no exame de literatura com um poema, fizemos um experimento com frasco de Chapman e alguns objetos pequenos na aula de química para determinar a densidade e... — por mais entusiasmado que estivesse, o rapaz notou o olhar distante do pai — ... Deve achar entediante todas essas coisas, não é?

— Hun? Claro que não, filho — Gabriel levou a mão até o ombro do mais novo — É só que...

— Que?

Adrien estava longe de querer alguma justificativa. Ele sabia perfeitamente que o pai era uma pessoa ocupada, mas jamais iria conseguir entender a forma que parecia ignora-lo na maior parte do tempo.

— Você fala igualzinho a sua mãe. — o mais velho sorriu — E fez alguma outra coisa divertida hoje?

— E-Eu — aquela resposta havia quebrado qualquer expectativa que o mais novo poderia ter — Eu fui na lavanderia com a Nathalie!

Observando aos dois, Nathalie e Gorila apenas trocavam olhares cumplices, felizes em finalmente pai e filho estarem passando algum tempo juntos. Porém, com esta última frase, o olhar da secretária mais parecia de desespero do que qualquer outra coisa.

— Na lavanderia, filho? — o sorriso antes tão verdadeiro, agora era claramente forçado — E por que foi na lavanderia?

— Pegar a minha roupa de esgrima e... — notando o extremo deslize que teve, o rapaz começou a tentar desviar o assunto — Eu preciso ir mais cedo pra aula hoje, vão dividir os alunos em grupos para um torneio ou algo assim, sabe?

— Hun... — obviamente, Gabriel notou a tentativa— Depois eu converso melhor com a Nathalie. Agora preciso tirar suas medidas, já que você não pode chegar atrasado...

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A volta para o colégio foi mergulhada em silencio. Gorila raramente falava com alguém sem ser necessário, Nathalie estava completamente focada em sua lista de afazeres e Adrien estava completamente sem graça devido seu deslize para falar algo. Quando o carro estacionou, o rapaz teve coragem para falar apenas um "até logo" antes de ir correndo para dentro do prédio.

— Nathalie — o motorista murmurou e ao receber um chiado como resposta, prosseguiu — Não vai vir para frente?

— Sim — a mulher deixou fugir um suspiro, passando para o banco da frente.

— Almoço?

— É...

Não gostando nem um pouco daquela apatia vinda da colega, o grandalhão fez algo que nunca pensou ser capaz: tirou o tablet das mãos dela e jogou no banco de trás. Por inúmeras vezes já havia pensado em fazer isso, principalmente quando o senhor Agreste ligava e enchia-os de reclamações; jamais fez por puro medo em como Nathalie poderia reagir.

Porém, desta vez, ela estava em um estado completamente letárgico. Claro, normalmente ela era uma pessoa indiferente e calada, mas não daquele jeito!

— Por que você...

— Porque você está ficando louca! — e, em uma das raras vezes em sua vida, a voz de Gorila saiu alta — Nathalie, nos conhecemos há anos e eu nunca vi você tão estressada como nos últimos dias! É como se seu mundo estivesse desabando e ao invés de tentar sobreviver você decidisse fazer uma lista!

— Listas são muito úteis!

— Ouça a si mesma!

E, mais uma vez, o interior do veículo mergulhou no mais profundo silencio.

— Eu só... — a voz de Nathalie saiu baixa — eu só quero que tudo seja exatamente como precisa ser, porque eu não aguento mais as coisas como estão agora e... Droga, por que eu tenho que cuidar de tudo? Se alguma coisa, a menor que seja, não estiver do jeito certo eu preciso sair correndo e consertar... As vezes a única coisa que eu quero é passar o dia inteiro sem fazer nada, eu nem me lembro a última vez que tive um dia de folga! Isso sem contar todo o estresse em lidar com pessoas irritantes e inconvenientes, como...

— Nathalie... — o guarda-costas tentou fazer a colega voltar a si.

— ... Como aquele fotógrafo irritante, como as pessoas que erram em um pedido simples de encomenda e...

— Nathalie.

— E eu não acho nem um pouco certo eu precisar lidar com pedidos, tecidos e todas as demais coisas do ateliê, ter que cuidar de eventos e...

— Nathalie! — já sem paciência, o grandalhão gritou em uma tentativa de fazer a colega responder.

— Mas que droga! O que foi!? — Ela respondeu quase rosnando, abandonando completamente sua esfera de fragilidade emocional.

— Chegamos!

— Ótimo!

O motorista destravou as portas, respirou fundo e olhou para a colega. Ele não era de falar, tão pouco gritar com alguém como havia feito há pouco, mas Nathalie estar tão estressada já estava afetando as pessoas à volta dela.

Os dois se encararam por alguns segundos. Ambos sérios, em silencio e sem fazer a menor ideia de como se retratar.

— Nada disso aconteceu! — falaram em uníssono — Exatamente. — novamente, falaram juntos, mas dessa vez enquanto saiam do carro.

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A rotina dos empregados da mansão era bem delineada e com várias regras objetivas. Uma das regras era sobre a alimentação dos funcionários: deveria ser, independente das circunstâncias, realizada longe dos olhos de Gabriel, prioritariamente.

Assim sendo, Nathalie e Gorila estavam almoçando de pé, em um dos vastos balcões da cozinha. Estavam com pressa para retomarem a arrumação para o desfile e, sendo assim, quanto mais rápido se alimentassem melhor seria.

— Comer rápido faz mal para a digestão... — o chef começou as reclamações — Olhe só: um homenzarrão como tal e beliscando apenas a salada! E tu, moçoila: está a comer apenas um bocado do mesmo prato!

— Chega! — Nathalie cortou-o — O Gorila é vegetariano e eu estou com pressa! Qual o problema!?

— Sabes, estresse também faz mal para a digestão...

Sem a menor disposição para uma nova discussão com o cozinheiro, a mulher enfiou o máximo de salada na boca que conseguiu e se dedicou a mastigar tudo. Ao menos assim, não iria conseguir falar as barbaridades que estava pensando.

— Já notei que estás de mal com a vida... — o gorducho resmungou, se debruçando sobre o balcão — E tu, marmanjo? Também estas?

— Um pouco.

— E qual a causa?

— Adrien passeando... — e, neste momento, o grandalhão fez questão de olhar para a colega de trabalho.

— O miúdo? E desde quando o pai coruja deixa o guri passear?

— Ele não deixou — Nathalie respondeu pelo colega — E, antes que pergunte que passeio foi, Adrien apenas me acompanhou até a lavanderia.

— Ora, ora! — o cozinheiro sorriu — o miúdo já está se tornando um rapazote!

— Vai ter consequências... — ela continuou — Mas valeu a pena, eu acho.

— Pois é certo que valeu! Passarinhos só aprendem a arte do voo quando saem do ninho, com o rapazote é o mesmo!

Notando como os outros estavam lidando bem com a ideia de Adrien andar por aí, foi a vez de Gorila expressar sua opinião sobre a ida até a lavanderia:

— Foi perigoso.

— Claro que não, você estava bem na porta! — Nathalie contestou — Adrien precisa aprender a andar sozinho.

— Para ser perseguido pelos fãs loucos dele?

— Não, para não ser absolutamente dependente dos outros!

— Ele não é tão dependente assim.

— E quando não estivermos mais aqui? Acha que ele vai ficar como?

O cozinheiro, já imaginando onde aquela discussão entre a "moçoila" e o "marmanjo" iria parar, resolveu se intrometer no meio da briga:

— Eu acho que os dois se assemelham à pais brigando pela tutela do filho! — ao final das palavras, o chef deixou escapar algumas risadas — Ora pois, se ambos querem o bem do miúdo, deveriam de perguntar o que ele quer. Simples assim!

E assim, todos se calaram. Aquele era o fim da discussão: Nathalie queria que o rapaz tivesse mais liberdade, Gorila apenas queria que ele permanecesse em segurança. A resposta perfeita seria o equilíbrio entre os dois, coisa difícil de alcançar.

Caso realmente perguntassem a Adrien o que ele queria, a resposta provavelmente envolveria queijos, macarrons e croissants.

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Nathalie e Gorila estavam andando pelo local onde seria o desfile. Os dois carregavam caixas, malas e demais bugigangas que julgavam ser necessárias para o camarim de Adrien e a limpeza do lugar.

— O único problema é a energia, não tive tempo de chamar ninguém para resolver isso e duvido muito que alguém possa vir hoje ainda. Está tudo empoeirado e... — a mulher estava resmungando desde que saiu do carro, mas assim que notou o colega parar no meio do corredor ela se calou por alguns instantes — O que vai fazer aí parado?

— Dar à luz — o grandalhão resmungou, equilibrando tudo o que carregava em uma das mãos e, com a outra, abrindo a caixa de disjuntores, localizada próxima dele, e ligando um deles.

— Nunca imaginei você falar algo como isso, tão pouco fazer tanto sentido como agora! — a voz saiu com um toque divertido, enquanto ela voltava a caminhar um pouco mais animada.

Entretanto, a animação foi esvaecida quando ambos já se encontravam em frente ao camarim. O sofá ainda estava emperrado na porta... e, como se as coisas já não estivessem ruins o bastante, o fotografo irritante parecia ter brotado do chão apenas para atrapalhar ainda mais:

— Uma foto sua naquele sofá ficaria perfeita! — Vincent já preparava a lente da câmera.

— Acho que consigo arrumar outro fotografo até amanhã, se você conseguir se livrar dele sem deixar provas... — a secretária cochichou com o colega de trabalho, tentando ignorar a presença irritante do outro.

— Já tenho coisas demais pra fazer... — a resposta saiu em um sussurro.

— Se virasse o rosto apenas um pouquinho para a esquerda, eu teria uma foto perfeita dos dois! É como se fossem empregados fazendo fofocas na hora do almoço! Eu poderia até mesmo...

E, antes que o fotografo pudesse terminar de narrar todos os seus planos, Nathalie o interrompeu. Ela já estava sem paciência alguma com ele e aquelas insinuações a deixavam à beira de um ataque de nervos.

— Você poderia ajudar a colocar esse sofá, lá dentro, na parede direita! — ela apontou para o móvel — E você, a chave do carro! — sem ousar piorar a situação, Gorila obedeceu e jogou as chaves para ela — Vou ir buscar o resto das coisas e, quando eu voltar, quero esse sofá no lugar!

A fala autoritária soava mais como uma mãe chamando a atenção dos filhos, porém, o grandalhão sabia exatamente que Nathalie irritada passava bem longe de uma "mãe", ela se assemelhava mais à um monstro sanguinário. O fotografo, por sua vez, estava encantado com a foto que havia conseguido tirar.

— Que mulher! Que atitude! Que profissional! Bravo! — Vincent falava animado, quase saltitando de alegria — Ei, qual o nome dela mesmo?

— Para você, senhorita Sancoeur — resmungou Gorila em resposta, tentando empurrar o móvel para dentro do camarim.

— San... Combina perfeitamente com ela! — a animação continuava tomando conta das palavras.

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A arrumação levou longas horas.

Longas horas.

Apesar de ser um espaço relativamente pequeno, o camarim tinha reunido poeira o suficiente para parecer abandonado há alguns séculos. Até mesmo penas e demais entulhos colaboravam para o aspecto de descaso do lugar – não foi atoa a relutância em disponibilizarem o camarim em um lugar tão reservado.

Nathalie e Gorila varreram, tiraram o pó, tornaram a varrer e só depois de muita repetição de tais tarefas, o lugar realmente ficou limpo. Porém, estavam longe de terminar: faltava ainda arrumar as roupas e demais objetos.

Tais cuidados levaram mais de uma hora até serem totalmente realizados.

Tudo poderia ter sido deixado para o dia seguinte: a equipe responsável pela limpeza iria cuidar de tudo, depois bastava arrumar as vestes, a mobília e estaria tudo feito. Entretanto, devido incidentes anteriores tanto relacionados com Adrien e como com a senhora Emilie, Gabriel não confiava em deixar tais preparações para o dia do evento.

Agora, os dois colegas estavam acabados, exaustos e com direito a roupas sujas e teias de aranha grudadas. Felizmente, já estavam longe do camarim.

Eles já estavam em frente ao colégio, esperando pacientemente o sinal soar e indicar que Adrien estava liberado das aulas e que, finalmente, poderiam retornar para casa e permanecer lá. Para a sorte deles, não demorou muito até que o rapaz cruzasse as portas e fosse até eles.

Adrien não disse uma palavra, estava cansado demais para falar qualquer coisa que fosse. As aulas de esgrima andavam sendo bem mais puxadas desde que Kyoko começou a fazer parte delas. Tudo o que ele queria era chegar em casa, deitar na cama e dormir o máximo de tempo que pudesse antes que algum vilão tentasse destruir Paris.

Como demoraria um pouco até que seu desejo fosse realizado, Adrien se contentou em dormir sentado no banco do carro, com a cabeça apoiada no ombro de Nathalie. A secretária não se incomodava com isso, visto que não era a primeira vez que o rapaz dormia na volta para casa.

O trajeto até a mansão Agreste foi imerso mais absoluto silencio. Nathalie não queria falar uma palavra se quer e arriscar acordar o "belo adormecido", Gorila simplesmente não é do tipo que inicia conversas, tão pouco de falar algo sem ser preciso.

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Adrien ainda estava esfregando as costas das mãos nos olhos quando cruzou as portas de entrada da mansão. Nathalie seguia ao lado dele, com uma das mãos repousa sobre o ombro do rapaz.

— Tente dormir um pouco mais sedo hoje, amanhã vai ser um dia puxado... — ela aconselhava-o, enquanto começavam a subir as escadas. Ele, por sua vez, tentava apenas se manter acordado até chegar ao quarto.

Observando aos dois, sentado em uma das poltronas próximas ao ateliê, o Agreste mais velho não parecia nem um pouco contente, principalmente por não ter sido notado.

— Nathalie! — A voz firme de Gabriel fez com que os dois parassem — Deixe Adrien se aprontar para o jantar, conversamos enquanto isso.

A secretária, escondendo a surpresa e o receio em ter uma conversa agora, acatou a ordem e foi imediatamente até o superior. Ela ainda conseguiu ver Adrien entrar no quarto, antes de acompanhar Gabriel até o ateliê.

— Nathalie, o que anda acontecendo com você? — o Ageste perguntou de uma forma tão séria ao ponto de soar apenas como uma repreensão.

— Como assim, senhor?

— Hoje mais cedo você me interrompeu, coisa que nunca fez antes. Depois, o cozinheiro veio pedir instruções para mim porque você não estava aqui, coisa que também nunca aconteceu antes... — enquanto falava, ele dava alguns passos pelo cômodo.

— Apenas deslizes que não irão mais acontecer, senhor.

— Eu espero realmente que não, porque amanhã é o desfile e se algo acontecer de errado...

— Cuidarei para que nada aconteça de errado! — A voz saiu confiante, com as últimas forças que sua "reserva de energia" permitiam.

O superior apenas deu um de seus sorrisos, satisfeito em saber que sua assistente estava dedicada aos seus planos. Entretanto, quando reparou um pouco melhor para o estado dela, não pode deixar de perguntar:

— Nathalie, isso no seu cabelo é uma teia de aranha?

— Provavelmente sim... — ela suspirou.

— E como, exatamente, isso foi parar aí? — a pergunta era recheada de incredulidade — ... Também tem poeira em todo o terno, ou é impressão minha?

— Poeira, teias de aranha e, se não me engano, algumas manchas de produto de limpeza, senhor... — mais uma vez, Nathalie suspirou — Foi um dia longo.

— Se quiser, pode ir descansar pelo resto da noite. Amanhã será um dia ainda mais longo e preciso que você esteja atenta a tudo.

Como resposta, ela apenas deu um sorriso quase imperceptível e se retirou do ateliê. Precisaria estar completamente disposta para todos os seus afazeres do dia seguinte.

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