Este capitulo possui conteúdo sensivel. As partes escritas em italico são flashbacks.

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Sangue, podridão, seus próprios gritos ecoando entre paredes frias, lágrimas escorrendo por seu rosto e misturando-se com o sangue já seco, insultos, os mais variados, tudo foi substituído pelo silêncio. Vazio, quietude, mas ainda havia dor, em todos os cantos de seu corpo, por todos os lados, a visão ainda turva mas ela não precisava enxergar para saber onde estava, o de álcool hospitalar invadindo suas narinas queimando-as intensamente foi suficiente para fazê-la recordar onde estava, continuava segura entre as paredes brancas e limpas de um hospital, não havia sido um dos sonhos que tivera durante uma semana quando o cansaço lhe vencia ou algo era aplicado em sua veia.

Ainda sentia o corpo entorpecido, haviam a sedado durante o caminho para o hospital e ela lembrava-se de pouco depois de sentir algo entrando novamente em sua pele, recordações rápidas dos olhos azuis e gelados da médica sobre si, dizendo-lhe que tudo ficaria bem, após isso apenas mais escuridão tomando-lhe e lhe cercando por todos os lados, tirando seus sentidos, sugando todas as forças que ela lutava para manter no corpo.

Olhos, muitos olhos, todos lhe fitavam como se fosse algum tipo de experiência ou peça de arte exposta em um museu, mas certamente não fariam aquela expressão de horror para um quadro, tudo que ela viu quando seus olhos se abriram foram a luz intensa sobre si os invadindo, causando-lhe uma intensa dor em sua cabeça e quando virou lentamente o rosto completamente machucado, sentindo um pequeno incômodo com a ação, ela viu os olhos de Brenda Leigh Johnson. A Chefe da divisão de crimes graves sempre tivera olhos salientes sempre denunciavam sua agitação, mas ela não conseguia ver isso nos olhos dela, apenas pena, talvez fosse esse o sentimento.

— Capitã Raydor — Sua voz soou suave, quase como um sussurro e até mesmo esse fio de voz pareceu incomodar a mulher deitada sobre a cama, qualquer som, por mínimo que fosse, era capaz causar-lhe uma dor tão intensa que ela era incapaz de descrever.

Não havia sido apenas o transtorno daqueles dias que provocou-lhe aquela dor em todo seu crânio, talvez fosse apenas consequência do primeiro dia ele, sem qualquer piedade, para fazê-la se calar chocou sua cabeça contra a parede, fazendo-a cair inconsciente e por vezes ele repetia o ato, por diversão ou apenas por silêncio.

— Consegue me reconhecer? Eu sou a chefe Brenda, lembra de mim? — A mulher questionou e Sharon por alguns instantes achou-a uma tola, havia como não recordar-se dela? De seu rosto que poderia enganar facilmente qualquer suspeito com uma falsa doçura e olhos sempre tão avulsos, questionamentos sempre tão inapropriados. — Capitã, você pode me ouvir.

Sharon descobriu que dificilmente conseguiria proferir qualquer palavra sem causar-lhe incômodo, ao menos seguiria assim até o remédio fazer o efeito necessário, então apenas zuniu em resposta.

— Eu acho que entendo — Brenda disse e seus olhos voltaram-se para os detetives, parados na frente da capitã mas ela parecia ou não tê-los notado ou dado importância para a presença de ambos ali. — Aqui estão o tenente Andy e o tenente Provenza. — Informou-lhe de forma desajeitada.

Sharon sabia, sabia que haviam mais pessoas ali e pelo canto dos olhos conseguiu enxergar o tenente Provenza, mas não o olharia. Era demasiada humilhação ter que encarar o rosto repleto de uma falsa piedade de Brenda Leigh. Os olhares, céus, ela teria que encará-los em algum ponto, todos aqueles olhos sobre si já eram capazes de causar em seu peito uma sensação de pânico. Todas aquelas questões nas cabeças de todas aquelas pessoas. Seu nome, ela já imagina os sussurros através dos corredores da FID, os boatos do que ela havia sofrido e por fim, teriam a curiosidade saciada no dia do julgamento, onde ela faria questão de esmagar o bastardo causador de toda aquela situação.

— Você está se sentindo bem?

Não houve resposta e Brenda já esperava por isso, mas o semblante no rosto da capitã era como uma resposta, certamente se conseguisse falar diria algo como 'Olhe bem para mim e diga se acha realmente que estou bem'. Todas as contusões no rosto já eram respostas suficientes para aquela pergunta. Não teria como ela estar sentindo-se bem após um semana traumática, sentindo todas aquelas dores tão presentes ao longo de todo seu corpo.

— Eu acho vocês podem sair por alguns instantes? — Brenda pareceu delicada em suas palavras todavia severa em sua expressão, era um pedido exigente para ser deixada a sós com a capitã.

Provenza saiu mais apressado puxando o amigo extasiado pela camisa. O silêncio parecia angustiar o peito da mulher sobre a cama, precisava saber o que estava havendo, o que estava causando aquele olhar que parecia ocultar-lhe algo.

— Sharon, você parece estar consciente de todos os acontecimentos que se sucederam ao longo desta semana, mas eu apenas posso informá-la sobre os detalhes da investigação quando estiver fora daqui, eu sinto muito — As palavras saíram suaves pelos lábios sem quaisquer resquícios de batom da chefe da divisão, cautelosa mas como se conseguisse ler os pensamentos de Sharon Raydor, a capitão sentia a necessidade de saber o que estava acontecendo com seu caso — Você fez um kit de estupro e por mais que eu já soubesse o resultado eu tinha fé de que estava enganada, o resultado foi positivo.

Sharon sentiu todo o rosto queimar, não era apenas vergonha, eram as recordações sendo evocadas em sua memória trazendo lágrimas. Tão claras, tão presentes, tão reais como se ainda estivessem acontecendo diante de seus olhos e repetindo-se de novo e de novo.

— Você sabe disso e eu sinto muito — A voz da chefe embargou, seus olhos buscando refúgio em algo que não fosse o rosto da vítima, ela sabia que precisaria encarar os olhos verdes marejados, mas a coragem lhe fugia. — Você estava inconsciente quando o exame foi realizado e eu asseguro que estamos mantendo o caso em sigilo até o momento.

'Eu agradeço por isso', ela diria se conseguisse, se as lágrimas não sufocassem sua garganta afogando suas palavras.

— Você ficará bem, capitã.

E a silenciosa paz que podia ser sentida no quarto se diferia das demais alas do hospital. Os passos apressados de Andrea Hobbs em suas pernas fracas após a intensidade da notificação atingir-lhe, os cabelos loiros sempre impecáveis estavam desgrenhados, os fios rebeldes lutavam contra a perfeição imaculada. Tudo ao seu redor pareciam acontecimentos secundários. 'Ela foi encontrada' as palavras de Mike Tao ainda ecoavam em seus ouvidos.

— Onde ela está? — A pergunta que sufocava em sua garganta foi finalmente feita quando encontrou o time da divisão de crimes graves sentados na sala de espera.

A situação entre eles pareciam deplorável, Andy Flynn escondia o rosto entre as mãos, ocultando a expressão cansada, Júlio e Mike foram os primeiros a sentirem o efeito de sua voz e erguerem os olhos. Haviam se passado alguns dias desde que viram a promotora e a visão diante de seus olhos não parecia-se em nada com Andrea Hobbs e sua postura sempre controlada demais.

— Ela está no quarto com a chefe Johnson — Provenza disse e se fez notar no assento ao lado. — Ela acordou, Andrea, apenas acalme-se e sente-se. — O tenente indicou, observando com olhos atentos a respiração desregulada da mulher.

Fora suficiente para Andrea desabar, com emoções demais atravessando seu corpo. A preocupação na última semana impedia-lhe de trabalhar e seus pensamentos sempre eram em como ela estava, o que estariam fazendo e principalmente se estaria viva, após o terceiro dias as esperanças já haviam se esvaído e tinha certeza apenas de uma única coisa, Sharon Raydor estava morta, restava apenas encontrar o corpo dela e dar-lhe um funeral digno da capitã da FID.

— Você precisa se acalmar — Júlio quem dissera colocando-se de pé e aproximando-se da confusão de cabelos loiros e lágrimas soltas pelo rosto.

Ele tocou os ombros dela, ao longo dos anos no trabalho descobriu como tratar com a família de vítimas e certamente Andrea estava nesta mesma condição, como parte da família de Sharon, uma das poucas pessoas que tinham motivos reais para preocupar-se verdadeiramente com ela.

— Eu estou bem — Murmurou, a voz embargada, no entanto, dizia outra coisa. — Eu apenas estou muito feliz e desesperada, ela está bem? Ela está machucada?

— Eu acho melhor você esperar para vê-la — Júlio aconselhou, impulsionando-a pelos ombros para fazê-la sentar.

— Buzz — Uma voz estranhamente suave soou através dos lábios de Brenda quando ela aproximou-se do time, seus olhos baixos denunciavam o desconforto e permaneceram por alguns instantes no rosto da promotora antes de prosseguir —, eu preciso que vá ao quarto da capitã Raydor e documente todas os ferimentos, eu preciso de fotos de todas as contusões, quando acharmos o bastardo eu quero me assegurar de colocar exposto aos olhos dos jure o que ele fez.

— O que ele fez? — Andrea indagou, seus olhos retomando a curiosidade e temor.

— Andrea, eu sinto muito não poder falar agora, mas você irá vê-la em breve. — Virou-se novamente para o membro de seu time — Buzz, agora, por favor.

O câmera pegou o seu instrumento de trabalho e uma câmera fotográfica, caminhou em passos resistentes até o quarto em que estava a capitã e a figura deitada sobre a cama não se parecia como a mulher que caminhava através dos corredor e transformada a vida daquela divisão em um inferno. Mais uma vez estava sedada, como um animal que corria o risco de atacar ao mínimo sinal de proximidade.

Buzz posicionou a câmera e supriu o incômodo em seu estômago, era aquela sua profissão e já havia documentado coisas piores, mas a estranha sensação de proximidade com aquela vítima em particular afetava-lhe. Quando colocou nas mãos câmera fotográfica, sentiu o nó em sua garganta. Haviam contusões incontáveis sobre o rosto dela e ele questionou-se como ela havia conseguido, mas deixaria os questionamentos para os detetives, ele apenas precisava concentrar-se em tirar as fotos, mas não se deixar afetar tornou-se com novo objetivo. Haviam marcas feitas por canivete ou algo delicado como um punhal, cortando-lhe partes da perna, braços, costas, haviam alguns pontos sobre a sobrancelha dela e um corte no queixo.

Todas aquelas imagens, todas aquelas ações feitas por mãos tão impiedosas, todas elas pareciam afetar-lhe diretamente, como se de certa maneira um dos socos estivesse sendo direcionado a seu estômago, tão intensamente quanto ele havia acertado ela e deixado aquelas marcas de um tom roxo profundo que fundia-se com azul escuro.

'Ela ficaria bem' fora o que ouviu dizer um dos tenentes, mas olhando-a daquela maneira ele não tinha plena certeza. Já havia ouvido os diversos tipos de comentários e há alguns anos atrás, quando jamais imaginou que seu caminho chegaria a cruzar-se com o daquela mulher, ele havia ouvido falar sobre um tiroteio onde ela havia sido atingida, a bala deveria ter chegado ao seu coração mas o colar que usava interceptou a chegada da bala ao coração, ela sobreviveu por sorte ou como alguns costumavam dizer, o diabo interviu.

Ouvira boatos nas últimas horas, dos mais diversos, as mais insanas teorias sobre o que havia acontecido com ela, mas apenas duas pessoas sabiam, Jason Doyler e Sharon Raydor, o que haviam visto quando invadiram aquela casa no meio da tarde não se comprava às momentos que ela havia vivenciado, nem mesmo as mentes mais férteis poderiam imaginar o terror e ele viu isso expresso no rosto dela durante aquela filmagem na câmera de segurança do estacionamento.

Buzz sentou-se diante do monitor, teria que rever todas aquelas filmagens das últimas horas, haviam sido ordens do Chefe Pope reforçada por Brenda. A divisão estava caótica, mesmo que ele pudesse dizer que com a ausência de Sharon Raydor o ambiente entre os tenentes pareciam mais amigável, mas era nos bastidores, longe de seus olhos, que o caos acontecia.

Ele viu a imagem de Andy Flynn, o tenente há alguns metros de distância, falando com a capitã Raydor, mas por suas expressões e ações, além do semblante em seu rosto, a conversa parecia uma discussão, como as muitas que eles tinham, talvez devesse ser anotado como algo rotineiro. O tenente partiu, deixando-a sozinha e furiosa, Sharon Raydor odiava quando davam-lhe as costas e fora exatamente isso que ele havia feito, ligando seu carro e partindo. Ela permaneceu ali por alguns instantes, buscando algo em sua bolsa, talvez as chaves de seu carro e quando as achou começou a caminhar, a sua distração não permitia-lhe olhar com estranheza para a van branca ao lado de seu carro.

Buzz pressionou a mão contra a boca contendo o impacto das imagens seguintes, quando ela aproximou-se do carro a porta da van abriu-se e quando virou para encarar quem havia aberto apenas teve tempo se sentir o taser contra sua pele e a última coisa que viu foi a capitã caindo.

Nós temos problemas — Gritou colocando-se de pé.

Havia começado ali o verdadeiro caos, aos olhos e presença de todos. Ele fora o primeiro a ver aquele vídeo, o primeiro a afastar-se abruptamente da cadeira quando sentiu o impacto da capitã e uma semana depois, por fim, mesmo que em todas aquelas condições, ele sentia o alívio dela, estava viva.

O transtorno estava estampado em seu rosto quando deixou o quarto da capitã. Andy podia reconhecer isso no rosto dele, fora a mesma expressão de uma semana atrás quando ele gritou para a divisão que tinham problemas graves, fora a mesma expressão que o tenente poderia reconhecer no próprio rosto quando encontrou o corpo de Sharon Raydor naquele estado, coberto de sangue, nu, completamente quebrado e coberto por sujeira e tantas manchas de tantas cores escuras que ele jamais conseguiria contra todas.

— Aqui — Buzz estendeu para Gabriel o saco com todas as fotos de todas as feridas e em outro havia a fita de vídeo. — Ela estava dormindo.

— Sedada, a médica disse que ela está hostil e arrisca, não aceita proximidade e sabíamos que para fazermos nosso trabalho era sedando-a.

Brenda não se agradava em dizer isso, era como controlar um animal, um animal incapaz de defender-se, de falar, de protestas, eles apenas sedavam-na quando ela não se dava conta e ante que pudesse tentar balbuciar algo em protesto já estava caída novamente nas profundezas da escuridão silenciosa, condenada a repetir momentos desagradáveis.

— Acredito que Pope está certo — Provenza disse colocando-se do lado de Brenda quando seus olhos cansados observavam o câmera partir através do corredor — A noite será longa.

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As máquinas pareciam enlouquecidas, através do corredor os médicos apressaram-se para chegar ao quarto de número 0790. Andy caminhava na direção deles, trazendo nas mãos mais café para suportar a noite desperto, já que Provenza havia cedido ao sono em uma das cadeiras desconfortáveis da sala de espera, mas quando seus olhos seguiram a movimentação repentina no meio da madrugada aparentemente tranquila ele viu qual dos quartos foi abruptamente invadido, era o quarto dela, ele estava certo disso.

Deixando de lado sua rota ele apressou-se para seguir a movimentação, parando na porta do quarto, ela remexia-se, o semblante no rosto denunciando uma dor intolerável e mesmo com o ar intensamente frio do quarto ela parecia soar em meio ao pesadelo e a dor de mover-se, precisava estar imóvel, mas estava inconsciente e provocava em si mesma a dor excruciante sem nem mesmo dar-se conta do que fazia.

Estava afundada em um de seus pesadelos, ou apenas recordações dos momentos de terror que tivera.

Você precisa comer — O homem disse, jogando no chão sujo a tigela, fazendo o som ecoar dentro do quarto abafado.

Eu não quero — Ela respondeu, não recordava-se ao certo há quantas horas estava ali e parecia compenetrada em tentar descobrir, talvez apenas um pouco mais de vinte quatro horas.

Eu não quero deixar que a fome lhe mate antes que eu possa fazer isso — Ele disse segurando os cabelos espessos dela entre seus dedos e impulsionando-os para trás, fazendo-a gemer de dor.

Eu não quero — Ela repetiu, a dor trazendo-lhe uma repentina convicção e desejo de desafiar o perigo.

Ela não tinha lembranças do que havia acontecido após isso, apenas um tapa em seu rosto e seu crânio contra o chão, depois, escuridão.

Havia um incômodo no peito dele, dor, talvez, talvez fosse dor de vê-la naquele estado deplorável, sendo contida mais uma vez por médicos, em um estado de agonia de onde ele jamais poderia tirá-la.

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— Você precisa se acalmar. — Brenda gritou quando via a capitã remover com ira todos os fios de seu corpo.

— Eu não preciso me acalmar eu preciso sair daqui, você não entendeu?

Brenda apreciava mais os dois dias atrás quando ela não conseguia falar. Ainda doía, como o próprio inferno doía, cada movimento, cada palavra proferida com esforço sobre-humano, mas ela precisava dizer aquelas palavras, ela precisava expurga-las de sua garganta ou se sentiria sufocar por eles e acabaria jogando-se contra aquela janela em algum momento. Sharon fechou os olhos com força, sentindo a dor lhe estremecer e percorrer sua espinha em um movimento brusco para recostar-se na cabeceira da cama.

Haviam se passado dois dias e como se as horas jamais tivesse avançados. Tudo ainda doía, como nenhum sinal de melhora, seu corpo ainda doía, seus pensamentos e lembranças pareciam ficar ainda piores e intensificarem-se durante a noite e no final das contas acabava sedada. Mal podia governar o que dizia, o que pensava e mal podia em alguns momentos sentir o próprio corpo.

— Você tem quatro costelas quebradas e eu realmente não acredito que queira prolongar sua estadia aqui — Fora a vez de Andy usar um pouco de sua impiedade, ela precisava ouvir-lhe, ouvir a todos que apenas queriam ajudá-la.

— O que você está fazendo aqui? — Ela gritou quando o viu avançar através do quarto, toda sua mandíbula doía, seu queixo cortado ainda doía tanto quanto seus lábios, ainda feridos por golpes ali desferidos — Eu disse que não queria ver ninguém.

— Todos podem ouvir seus gritos do lado de fora, Sharon — Brenda dissera com calma, tentando contê-la pelos ombros com o máximo de delicadeza que esforçava-se a ter, sabia que ali também estava machucado, havia um corte profundo.

— Não me toque — Ela gritou como um animal furioso, como se fosse atacar-lhes ou atacar a si mesma em algum momento.

— Você precisa se acalmar para conversarmos.

— Ainda me pergunto quando iam dizer-me que não conseguiram prender o desgraçado que fez isso, quando pretendiam me contar que ele havia fugido? — Todo o ar de seu corpo pareceu desaparecer em um mínimo movimento, sentindo o coração bater dolorosamente contra o peito em resposta.

— Como? — Brenda indagou antes de lançar um olhar ao detetive.

— Eu ouvi a noite, como você pode mentir para mim?

— Eu não quis lhe deixar mais aterrorizada.

— Não funcionou porque a única coisa que consigo pensar é que a qualquer momento ele irá invadir este quarto e fazer tudo novamente.

— Sharon, temos seguranças do lado de fora destas portas e você não pode ir até estar minimamente recuperada e ainda precisamos do seu depoimento.

— Eu não vou dar qualquer depoimento fora da divisão, então é melhor encontrarem uma maneira de me tirarem aqui.

— Já chega — Andy gritou, sua mão batendo firmemente contra a bandeja, provocando nela novamente arrepios.

Ele já havia presenciado o estado de irritação nela, fora o primeiro que ele conheceu quando cruzaram-se pela primeira vez, mas o que ele via naquele momento não era infantilidade como pré julgaria em outros momentos, era medo, o medo límpido e claro diante de seus olhos. Ela parecia aterrorizada, os olhos azuis tão mais intensos quanto ele jamais viu pareciam brilhar sendo lubrificados pelas lágrimas.

— Nós vamos conseguir pegar o desgraçado que fez isso mas não nos ajudará negando-se a dar o depoimento e tardando este momento, você quer realmente que ele seja pego conte-nos tudo que aconteceu.

— Eu não quero falar sobre isso agora — Ela disse, sentindo sua garganta queimar.

— Se você quiser realmente pega-lo.

— Se? — Ela pareceu descrente do menor sinal de dúvida dele — Se eu quiser pegar o desgraçado que fez isso? Se? Você realmente acredita que eu não quero? Realmente acredita que eu posso não querer pegar o homem que fez isso? — Em um rompante de força, sentindo todas as partes clamarem para que ela apenas parasse, ela puxou para baixo o decote da camisola branca de hospital, expondo as marcas roxas que começavam em seu pescoço e estendiam-se até seu colo — Acredita realmente que quero deixar o desgraçado que fez isso — Apontou para as marcas sobre o pescoço — livre? Eu apenas não suporto mais ficar aqui dentro e saber que ele está lá fora e que seus seguranças, em quem estão confiando a minha vida, podem deixar passar aquele homem e ele vir terminar o que começou.

Andy queria dizer algo além do silêncio, mas fora tudo que encontrou quando encarou todas as contusões ao redor da pele dela. Ele havia machucado mais do que a pele, ele sabia, mas aquelas feridas tão claras aos seus olhos pareciam apertar seu peito.

— Ele não vai. — Ele disse, usando o tom moderado desta vez, havia perdido as forças para discutir com ela.

— Eu queria dizer que acredito nas suas palavras, mas não inspiram tanta confiança como deveriam.

— Sharon, estamos protegendo este prédio. — Brenda tentou inutilmente dialogar.

— Você acha que eu confio? Um assassino invadiu a sua divisão e permaneceu estacionado lá por horas, sequestrou uma capitã e vocês só vieram dar-se conta no dia seguinte.

— Ele usou as credenciais de oficial — Brenda tentou, mas dialogar com Sharon Raydor durante um de seus acessos de raiva era algo impossível.

— E nem mesmo conferiram, o que o impede de fazer isso novamente?

— Você precisa se acalmar, está se machucando — Andy disse aproximando-se mas os olhos dela pareciam estar na defensiva, como se o mínimo toque fosse despertar as piores lembranças.

— Não me toque — Ela disse defensivamente mais uma vez. — Saiam! — Desta vez um grito foi ouvido — Saiam imediatamente!

E mesmo contra a vontade e sendo guiados pelas ordens gritadas dela eles partiram. Ela apenas queria esquecer, voltar a dormir e voltar, ela apenas queria restaurar um pedaço de sua alma.