Este capitulo tem relatos de violencia sexual

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Ela odiava dormir, não era a sensação de deixar seu corpo ser levado pela imensidão escura do vazio que ela detestava, ela odiava o que acontecia depois disso, quando estava tão afundada naquela imensidão aparentemente agradável e inocente, ela odiava as recordações que vinham em forma de pesadelos, era como voltar a mesma cena, era como se seu corpo pudesse sentir, era como se, mesmo absorta dentro da calmaria, ela ainda pudesse sentir a agonia. Apertava os olhos, remexia-se e isso doía, despertava, apavorada, com um grito preso na garganta e encarava a imensidão escura do quarto e o medo de que tudo voltasse lhe mantinha desperta ao longo da madrugada e aquela terceira noite naquele hospital não foi diferente.

Ela abriu os olhos, os lábios entreabertos, o coração com batidas desenfreadas, o suor escorrendo pelo rosto e as lágrimas os umedecendo. Olhou novamente para a porta, tinha a sensação de que a qualquer momento a veria sendo aberta e aqueles olhos azuis que pertenciam ao dono de seus pesadelos voltariam para lhe assombrar, ele terminaria o que havia começado, o trabalho bem feito. Ele certificou-se de não fazê-la esquecer jamais aqueles dias infernais, como era possíveis esquecer?

Ela não conseguiria, era como se ainda conseguisse despertar sentindo o fantasma do toque dele em sua pele, pressionando-a, deixando marcas das mãos imundas. Tocar a si mesma era fazer recordar, recordar quando ele mordeu seu corpo enquanto o possuía da maneira mais suja possível, quando ele forçava-se para dentro de si, grunhindo em seu ouvido as palavras mas absurdas, ainda podia senti-lo sussurrando em seu ouvido, o hálito quente em seu ouvido, mordendo o lóbulo de sua orelha e ela sentia a necessidade de arrancar de si todas as partes que ele havia tocado. Mas então não restaria nada, ele fizera a questão de tocar-lhe em todos os lugares, de explorar de forma despudorada todas as partes de seu corpo e pensar nisso fazia o peito queimar.

Era difícil imaginar que toda aquela situação havia sido causada por aquele homem. Se apenas pudesse voltar no tempo. Ela estava apenas fazendo seu trabalho, seguindo ordens de superiores, era sua obrigação denunciar aqueles oficiais corruptos, o que aconteceu depois daquilo não era sua culpa, a filha dele ter tirado a própria após a separação dos pais não era sua culpa, era o que ela queria sentir, sentir que não havia sido a causadora de seu próprio inferno, mas aquele sentimento de que tudo poderia ser evitado insistia em lhe atormentar e fazer fantasiar o que havia acontecido se não o tivesse denunciado.

Os ponteiros do relógio avançavam, levando os minutos e as horas e quando deu por si, afundada dentro de seus pensamentos, sentiu o sol invadir delicadamente a janela, queimando em sua pele com suavidade. A madrugada havia passado tão rapidamente quanto um simples e rápido piscar de olhos, ao menos para ela, para o time do lado de fora, ou o que restou deles, a madrugada passava tão lentamente, como se os ponteiros do relógio decidissem lutar contra as horas.

Ela precisava falar com eles uma hora, isso era adiável, todavia, inevitável. Uma hora ou outra, em algum instante sairia dali e o mundo lá fora e questionamentos seriam apenas o começo de uma segundo tipo de inferno. Odiava se pegar pensando no que todos falariam, mas eram pensamentos inevitáveis e como nunca antes a ideia de ver e falar com pessoas lhe apavorava. Era demasiados toques, muitas vozes, muitos olhares e dúvidas pairando, tudo isso acabava recaindo sobre suas costas e ela precisava suportar, já havia sido forte durante muito tempo, poderia se permitir, mesmo que por alguns instantes, deixar de lado a máscara de quem suportava todos os problemas do mundo?

Ela havia suportado, durante muito tempo, o trabalho deu-lhe aquela força, lidar com pessoas que cometem crimes, que mentem, deu-lhe um poder, o de mentir como eles, o de ocultar o que sentia por trás da expressão de serenidade, mas ela não se sentia mais assim, não sentia mais paz, talvez nunca tivesse sentido a verdadeira paz, nunca soube qual era aquela sensação. Vivia em um mundo de criminosos, prendendo pessoas que juraram defender os cidadãos, teve que lutar arduamente para não tornar-se um deles, e os problemas que exigiam sua força não paravam por aí, tivera que cuidar dos filhos sozinha, quando Jack partiu os deixando de lado, tivera que sustentar a casa e pagar a faculdade, tivera que suportar a partida deles quando tornaram-se adultos. Então tudo juntou-se e pareceu pesar de uma só vez, como se todas as dores tivessem se acumulado e finalmente estivessem livres para sair.

— Capitã — Brenda anunciou sua entrada enquanto empurrava a porta lentamente provocando um ruído seco.

Os olhos de Sharon Raydor pareciam perdidos na vista do lado de fora de sua janela. Era daquele mundo que ela sentia pavor agora, era do mundo lá fora.

— Tenente Flynn está aqui para conseguirmos seu depoimento, se não se incomoda.

— Sim, eu me incomodo, já discutimos isto uma vez e não o faremos novamente.

— Chefe Pope mandou-nos aqui, capitã Raydor — Flynn quem tomara a palavra desta vez.

Quando ela lhes olharia novamente nos olhos? Estava certo de que jamais! Talvez a humilhação fosse demais para ela, afinal, havia sido ele a tirar-lhe daquela casa, quase que completamente nua, a vergonha daquela situação ainda parecia doer nela.

— Eu não me importo, apenas me deixem sozinha.

— Você precisa parar — A voz de Andy saiu calmamente quando o silêncio tomou o quarto por alguns instantes — Você precisa parar com isso imediatamente!

— Parar com o que? Dificultar seu trabalho, tenente?

— Sim, isso também! Pare de colocar-se como a capitã Raydor, pare de pensar que pode continuar inabalável porque por mais que negue e que não queira sentir isso — Seu dedo indicador apontou para o peito dela, onde o coração batia descontroladamente —, isso nunca vai parar e por mais que você diga que não se importa, por mais que coloque esta maldita expressão e esta máscara não funciona porque está doendo e eu sei. Negue, diga que não é verdade mas nós sabemos e a maior prova disso é que sequer consegue nos olhar nos olhos.

As palavras atravessaram o peito da capitã Raydor e quando os olhos dela viraram-se na sua direção Andy tinha certeza de que ela seria capaz de matar-lhe.

— O que vocês querem ouvir? Querem saber o que aconteceu quando eu acordei naquela van, com os braços e pernas restringidos, com os pulsos amarrados enquanto lutava para me livrar das cordas? Eu não consegui e o máximo que ganhei foi um soco que voltou a me desmaiar. Quer ouvir o que aconteceu depois? Quando acordei naquela sala imunda? Ou prefere ouvir que no dia seguinte, quando eu tentei fugir ele me jogou no chão e se colocou em cima de mim, que me invadiu, que me estuprou por horas naquele dia. Você quer ouvir isso e depois sair contando para seus amigos tenente? Que afinal alguém ensinou a Darth Raydor o que ela merece? Que ouvir o quanto ele me rasgou por dentro ou o nome de todos aqueles jogos e coisas? Quer ouvir como ele fez essas marcas que jamais vão desaparecer ou como se divertia enquanto me batia? Quer saber quantas vezes ele me estuprou? Eu não sei, foram tantas. Ou a parte em que ele me obrigou a lhe dar prazer e eu desejei desesperadamente morrer. Agora vocês sabem, mas não tente imaginar o que eu estou pensando e não me culpe por não querer repassar todos aqueles momentos.

E todas as palavras ditas com tanta dureza pareciam atravessar o corpo dele e queimar como balas atingindo-lhe o peito, mas não doeu tanto quanto proferi-las, Sharon sentiu a garganta queimar e as lágrimas que lhe sufocavam, ameaçando lhe matar saíram tão rapidamente. Sabia que acabaria por morrer afogada nas palavras que nunca disse e após libertá-las sentiu o alívio.

— Isso dói, eu sei, capitã.

— Não, chefe, você não sabe e nem tente dizer que entende a minha dor, você consegue imaginar como é lidar com um corpo sabendo que ele não te pertence, como é acordar todas as noites como se ele ainda estivesse entre as suas pernas, te violentando sem piedade, sem qualquer misericórdia, você não entende o que ele ouvir sussurrar o nome da filha morta enquanto ejacula dentro de você e te faz lembrar que você foi a culpada daquela morte, te faz lembrar o por que está ali. Então não diga que entende porque você não entende! Pare de tentar se penalizar com a minha dor, pare de me olhar desta maneira, porque por mais que você tente imaginar, nem mesmo nos seus piores pesadelos você poderia sentir isso que eu estou sentindo.

— Todos se importam com você.

— Não, todos estão esperando para saber o que aconteceu com a Darth Raydor, ninguém se importa, nunca se importaram então não se apiedem só por isso, não se esforcem.

Andy gostaria de dizer que se importava, até alguns dias atrás ele tinha certeza de que não se importava, de não se preocupava com o que acontecia com aquela mulher, mas o desaparecimento repentino lhe fez pensar, ele queria dizer o quanto aquelas palavras estavam doendo, ele havia lutado para encontrá-la, noites mal dormidas, revendo aquele maldito vídeo todos os dias, sentindo ódio em suas veias e o desejo de ver aquele desgraçado morto crescendo dentro de si.

Mas ela não se importava, ela queria não pensar, ela estava farta, ela já havia sofrido o suficiente, tudo parecia doer, de todas as formas, dentro e fora. Não havia nada que poderia fazer quanto a isso! Estava quebrava e odiava admitir. Aquele pensamentos jamais se desligariam e jamais poderia parar os pensamentos barulhentos e suas lágrimas eram como gritos silenciosos, que ninguém jamais chegaria a compreender, por mais que dissessem aquelas palavras tão complacentes e então ela se questionava, como se continua a viver quando a pior coisa acontece? O que se faz para continuar sobrevivendo quando o mundo parece ter esquecido de suas dores?

-— E se chegar a se importar, pare! Eu não preciso da sua pena e das suas palavras repletas de piedade, eu só quero ficar sozinha.

— Mas você não vai! — Andy disse, sem pensar, apenas disse, tão rapidamente quanto pode. — Você quer ficar sozinha mas não vai acontecer porque por mais que se negue a acreditar há pessoas do lado de fora desta porta que realmente se importam com você.

— Então me deixem se sozinha, se realmente se importam me deixem!

— Isso é exatamente o que uma pessoa que se importa jamais faria, eu gostaria de poder deixá-la aqui sozinha, capitã Raydor, mas infelizmente eu não posso porque eu me preocupo com você ou então não teria me arriscado a entrar naquela casa, não pelo meu trabalho mas por você! E por mais que não queira ver todos nessa divisão se importam.

— Andy, não agora — Brenda sussurrou, tocando no ombro de Tenente que já havia avançados passos a frente, caminhando na direção da mulher de olhos verdes e assustados com as palavras repentinamente e furiosamente ditas.

— Eu definitivamente não sou ninguém, porque eu me importo com você, capitã, todos aqui se importam, chefe Johnson, Provenza, sim, aquele tenente resmungão e irritante se importa com você, então pare de se negar a ver isso, você é a vítima por mais que odeie admitir, é hora de parar de se ver como capitã e se olhar como Sharon Raydor a mulher que foi sequestrada e estuprada, porque apenas quando se ver desta maneira vai conseguir superar e não fingindo que nada aconteceu e expulsando de perto de você as pessoas que querem ajudá-la.

— Por favor, tenente, por favor, cale a boca, por favor.

— Você não pode lidar com isso sozinha, por mais queira e eu não vou insistir, tome isso como sua escolhe, se quiser continuar lutando sozinha contra isso, mesmo sabendo que vai perder, lembre-se que foi sua escolha.

Ele parecia tão furioso, mas ele sabia que o motivo de sua fúria não era com ela, com o mundo talvez, era inevitável não recordar de sua filha, colocá-la na mesma situação e questionar-se o que faria se fosse Nicole naquela cama.

— Eu só não quero pensar — Ela confessou e então a voz dura seguiram as lágrimas e tornaram-se embargada, fraca. — Eu só não queria ter sobrevivido. — E por fim a confissão veio.

O soluço escapou pelos lábios e sem se importar com os olhares horrorizados ou assustados ela se permitiu chorar, livremente, em abundância, as lágrimas livres que um choro preso por mais tempo do que qualquer um poderia suportar. As lágrimas lavavam sua alma e ela não queria aquele momento, mas não conseguiria suprimi-las, por mais que tentasse, por mais que gritasse para si que deveria parar, que haviam pessoas e olhares, ela não conseguia. O peito doía como se uma adaga o tivesse acertado, como se o punhal usado para machucar sua pele estivesse machucando o coração.

O tenente e a chefe se entreolharam até que uma decisão pudesse ser tomada. Andy jamais esperou que a cena que aconteceria nos instantes seguintes seria vista algum dia, sentado na cama, abraçando-a. Ela quis repeli-lo, não quero toques, olhares nem mesmo piedade, ela só queria voltar, mas isso jamais teria e jamais conseguiria afastá-lo naquele momento em que os soluços eram as únicas coisas ouvidas.

— Você pode me odiar mais tarde.

As lágrimas dela molhavam sua camisa e vê-la pela primeira vez desmoronando não só lhe surpreendeu mas lhe alívio, e era um sentimento estranho, alívio, mas ela esperou muito para vê-la aceitar, para vê-la enxergar o que estava acontecendo, para que ela deixasse de lado a negação e apenas aceitasse a condição que estava. O calor dela contra o seu, acalentando ambos os corações que irradiavam tantos sentimentos, dor, ódio, rancor e nojo.

Brenda ficou quieta e uma lágrima furtiva escapou de seus olhos, afastando-se silenciosamente, ela não queria ver Sharon Raydor quebrar, queria manter a imagem daquela mulher inabalável, mas sabia que já não era possível.

Ela continuou chorando no ombro dele até que já não restasse mais forças, até que todas elas fossem embora, até que seu corpo ficasse entorpecido, desta vez não por medicamentos mas pela dor exaustiva.

E houve uma hora, em algum momento, que os soluços cessaram e as lágrimas também, não houveram mais suspiros exasperados ou tremores, apenas paz e ele viu que apesar da respiração pesada ela apenas dormia.

Separando-a lentamente de seu corpo ela voltou a deita-la ali. Algumas manchas haviam se suavizado, mas ela ainda estava machucada, cansada e ele deixaria que ele tivesse aquele momento raro de paz.

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Os olhos de Sharon abriram-se lentamente, a luz que entraria intensamente em seus olhos foram substituídas pela escuridão. Havia dormido durante todo o dia? O sono não fora reconfortante como desejava e os pesadelos faziam-lhe sentir como se todo o peso do mundo estivesse sobre si, mas o silêncio ameaçou ser rompido quando um gemido doloroso escapou por seus lábios de súbito. Não foi necessário nenhum movimento para provocar-lhe aquela dor aguda, fazendo-a curvar-se.

E no quarto iluminado apenas pela luz artificial das lâmpadas ela podia ver a mancha de sangue destacando-se nos lençóis.