Ela gostaria de reproduzir algo além daquele gemido seco, seguido de um ensurdecedor silêncio, enquanto seus lábios entreabertos não proferiam nada, nenhuma palavra, nenhum som, nenhum pedido de socorro, apenas silêncio. O sangue que preenchia seus olhos era o mesmo que lhe causava pavor, fazendo aquele sentimento acelerar o coração de forma quase dolorosa. As lágrimas caíram silenciosas, rolando sob a face e ela por fim conseguiu grunhir, tocando o sangue e vendo os dedos aderirem ao tom vermelho.

— Sharon — A voz de Andrea chamou por seu nome enquanto saia do banheiro, deixando o vaso com flores cair no chão e estilhaçar-se em tantos pedaços, o som, no entanto, não supriu o grito exasperado que saiu pelos lábios dela. — O que está acontecendo?

Não houve tempo para resposta, antes que alguma resposta fosse dita Andrea já estava do outro lado do quarto e enquanto Sharon caia na inconsciência, levada pela dor intensa, ela ouvia os gritos de Andrea, pedindo por ajuda. E como se a cena de dias atrás de repetisse, ela se permitiu cair na inconsciência enquanto gritos se aproximavam.

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Haviam tantas coisas que Andy podia pensar após as palavras de Brenda. "O estado dela piorou", foram as únicas coisas que a chefe disse antes de entrar no corredor foi um murmuro simples e assustador e Andy sentiu o frio percorrer a espinha quando as palavras foram ditas de maneira tão lenta, quase assustadora, como se ela temesse dizer aquelas palavras.

Duas horas se passaram desde aquele momento e novamente ele se via condenado a sala de espera, onde as horas pareciam sempre passar tão lentamente. Havia deixado ela em bom estado quando saiu do quarto, a deixou em paz enquanto contemplou em silêncio por alguns instantes a expressão terna dela. E algumas horas depois houve os gritos de Andrea rompendo o silêncio do hospital, houve a movimentação dos médicos e depois disso nada mais foi notificado ao esquadrão, apenas sussurros entre os médicos enquanto olhava para os rostos cansados dos tenentes.

— Talvez vocês devessem descansar — Andy disse por fim, sem olhar para nenhum dos membros do time, mas podia sentir o cansaço de todos eles. — Eu ficarei aqui e os notificarei se houver alguma mudança.

— Querendo ou não somos parte de um time, Flynn — Provenza disse calmamente, enquanto enrolava a gravata no dedo. — Estaremos aqui quando ela sair daquela sala e não ficaremos em paz até saber o que está acontecendo com a Sharon.

— Precisamos de alguém na divisão, alguém precisa pegar aquele desgraçado.

— Júlio e Gabriel estão cuidando disso, Pope notificou membros de outros esquadrões para auxiliar nas buscas, não faremos diferença lá, mas se está tão cansado quanto todos nós, por que não vai você? O notificaremos se houver mudanças no estado dela ou alguma notícia.

Andy podia ver que havia sarcasmo na proposta feita por Provenza, mas ele questionou-se o motivo de não poder ir. Estava tão cansado quanto todos eles, exausto, fisicamente e emocionalmente, o pouco da resistência psicológica que tinha em si fora tirada naquela mesma manhã, com aquelas palavras duras dela e logo depois quando ela desabou em seus braços, já não tinha muito de Andy Flynn dentro dele.

Não podia culpar o time por não querer deixá-la sozinha, ele mesmo não conseguia.

— E então, chefe? — Mike Tao indagou quando deu-se conta da presença da chefe.

Brenda tentou falar mas calou-se mais uma vez quando os homens presentes colocaram-se de pé, repletos de expectativa por uma resposta positiva.

— Capitã Raydor, aparentemente, teve um aborto.

— Isso quer dizer que ela esteve grávida? — Provenza pareceu o único com coragem e forças o suficiente para falar algumas palavras.

— Sim, tenente.

Tenente Provenza recuou, desabando na cadeira mais próxima. Se acreditasse piamente na existência de um Deus o culparia por tudo que estava acontecendo ali.

— Ela está melhor, está consciente e acredito que precisamos dar a notícia, tenente Flynn, Andrea está o esperando na sala, eu não posso entrar lá.

— Ela não vai querer.

— Você é a única pessoa que ela ouve no momento, eu preciso que faça isso.

Ele não queria, verdadeiramente não queria ser o que daria aquela notícia. Haviam sido tantos acontecimentos e a vida, o destino, ou talvez Deus, todos estavam dispostos a quebrá-la, já não era demasiadas provações? Já não era dor o suficiente ter que lidar com os próprios demônios, medos e lembranças, já não era luta o suficiente lutar dentro da própria cabeça? O que mais viria? Quantas provações mais?

Ele quis quebrar quando empurrou a porta do quarto e a viu. Era a sensação de estar fraco. Haviam quebrado todos os códigos de conduta que lhe diziam para manter-se emocionalmente estável diante da vítima, mas ele não estava, o que diria para ela? Diria que havia engravidado do estuprador, uma consequência, um efeito colateral e que havia perdido a criança.

Ele aproximou-se mais e viu os olhos dela vazios, algo havia mudado, estava distante, fria, os olhos tão inexpressivos fizeram o frio percorrer a espinha dele. Era como um corpo inerte sobre a cama, lutando para sobreviver, mas ela já se via tão sufocada dentro de si mesmo, machucando a si mesma com aquelas recordações, buscando desesperadamente evocar boas lembranças. Ela não queria pensar, já teve o suficiente, sua mente não desligaria e ela precisava calar o barulho. Estava farta daquele estado de dor e agonia, não podia mais e sabia! Tanto quanto sabia que viriam más notícias.

— Sharon — Ele proferiu o nome dela tão lentamente quanto conseguiu. — Eu não sei como dizer isso, capitã.

— Apenas diga o que ela não teve coragem de dizer — Disse e seus olhos reviraram-se e por alguns instantes recaíram sobre o rosto da promotora, que havia agido de forma covarde, chorando ao invés de apenas contar-lhe a verdade. — Outra cirurgia? Algo mais quebrou? Apenas me diga o que está havendo e por Deus, me diga que isso vai me matar de alguma forma.

As palavras dela repletas de sinceridade doeram tão profundamente que ele sentiu o peito apertar.

— Capitã... Sharon — Corrigiu-se após alguns segundos mirando-a — você perdeu um bebê.

Não havia forma delicada, suave, ou boa de dizer aquilo, ele apenas disse. Uma lágrima escorreu pelo rosto dela e ela enxugou tão rapidamente que mal chegou a metade de sua bochecha. Havia algo em sua garganta, um nó, uma agonia e um súbito vazio no peito que lhe preencheu tão amplamente que ela quase podia sentir um terrível conforto. Um fruto dele havia sido colocada ali, dentro de si e o nojo parecia crescer quando pensava nisso. Ela silenciou a mente pela primeira vez em muito tempo e só ouviu o próprio coração.

— Sharon. — Andrea tentou trazê-la a razão, tentava inútil.

— Nem mesmo tente, não tente dizer que tudo ficará bem porque não vai, não tente me abraçar ou dizer que me entende, apenas cale a boca, por um segundo, cale a boca.

Ela queria desesperadamente o silêncio quando todas aquelas vozes começaram a gritar novamente, a agitarem-se dentro de sua cabeça, demônios dizendo-lhe tantas coisas, ela queria parar e pela primeira vez ela conheceu o quão terrível era a sensação de sentir algo. A vida era dolorosa, ela dizia sempre a Emily quando a jovem sentia-se um fracasso, era verdade, mas ela sempre manteve-se de pé e naquele momento nem mesmo seus conselhos podiam ser ouvidos e ela só queria desistir, porque a vida é dolorosa, um show de horrores, repleto de dores, sem piedade e que sequer consegue saber quando é hora de parar.

— Você não consegue saber, entende? — Sua voz tornou-se repentinamente mais suave. — Você não consegue entender a sensação de ainda poder senti-lo dentro de si e não entende o quão suja eu estou me sentindo agora e do quão terrível estou me sentindo por esta criança ter morrido, você não entende o quão culpada estou me sentindo por estar aliviada pelo fato do meu próprio filho ter morrido sem nem mesmo eu ter conhecimento desta gravidez.

— Não se culpe, você só está aliviada.

— Feliz! Eu estou feliz porque eu jamais me permitiria levar adiante essa gravidez.

Não levaria consigo o filho de seu estuprador. Ela se permitiu chorar novamente, estava sendo forte a tanto tempo, suportado tanto que deixar que aqueles sentimentos saíssem lhe libertava, lhe entorpecia.

— Você está bem? — Andrea indagou.

— Acredito que esta é a pergunta mais recorrente que me fazem e se olhar o meu rosto terá sua resposta, acredito que essas marcas são suficientes para responder a sua pergunta, Andrea e por tudo que mais é sagrado, pare de me olhar desta forma.

Ela sequer queria ser olhada, ela apenas queria ficar sozinha, sem todas aquelas pessoas e olhares cercando-lhe.

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Sharon estava sozinha entre as paredes fria do quarto silencioso. Andrea estava do lado de fora, o tenente Flynn desistiu de iniciar um diálogo e ela se encontrava finalmente sozinha. Na sua inquietação, com seus pensamentos, consigo mesma. Havia perdido uma criança, estava gerando dentro de si o fruto de um estupro e não conseguia sentir-se triste por aquele pequeno ser não existir mais dentro de si.

Mas todo o resto lhe angustiava, todo aquele silêncio e o homem que poderia estar em qualquer lugar lhe apavorava. Ela precisava fugir dali.