Capitulo 21
O Boxing Day era um feriado importante para os ingleses, isso até Harry sabia, sua tia normalmente fazia uma grande faxina depois da bagunça do Natal, ela detestava sujeira, e Harry era seu ajudante. Seu tio ficava em frente à TV assistindo qualquer coisa menos futebol e Dudley brincava e quebrava seus presentes de Natal, atrapalhando e provocando Harry a todo momento.
Na família Madaki/Boot, eles curtiam a família, relaxavam e descansavam depois de dias agitados. Harry e Terry foram antes mesmo do café da manhã para Oxford assistir a maratona de jogos na TV, Sra. Madaki os serviu uma farta refeição que incluía doces do dia anterior e eles passaram horas analisando os jogos, jogadores e no caso de Harry aprendendo e reaprendendo a cada novo ataque e contra-ataque, os sistemas de defesa eram fascinantes e não pode deixar de pensar que seu time de quadribol precisava se defender bem assim.
As 14 horas os outros Boots vieram também, Serafina e as crianças ficariam com a mãe dela enquanto os quatro iam para o estádio em Luton. Sr. Falc e Sra. Serafina os aparataram no ponto de aparatação oficial do Ministério na cidade e depois de lá eles caminharam algumas quadras até o estádio. Sr. Falc parecia quase tão fora de lugar quanto o Harry, ele passara muitos momentos no mundo trouxa, mas um estádio de futebol era uma novidade também.
Harry achou o estádio enorme e barulhento, a comida era muito boa e sem a Sra. Serafina por perto eles tiveram permissão para tomar refrigerante. Quando o jogo começou Harry esperava silencio e concentração para assistir, mas se surpreendeu com o cantos e gritos de incentivo da torcida, os torcedores do Arsenal estavam em menor número, mas faziam um barulho enorme. Ele percebeu que ir ao estádio era mais do que assistir um jogo, era torcer pelo seu time e ficou fascinado, logo se viu gritando, cantando e pulando até ficar rouco.
Infelizmente o jogo acabou 0x0, mas ainda foi incrível e ele entendeu totalmente porque tantas pessoas são tão apaixonadas pelo futebol. A volta para o ponto de aparatação foi tranquila, apesar do Sr. Falc se manter atento para qualquer briga entre torcidas, mas nada aconteceu e logo Sr. Falc aparatou Harry e depois ele e Sra. Serafina foram buscar Terry e Prof. Bunmi.
Eles jantaram com os Madaki e depois deram uma volta pela cidade, Oxford era linda e o professor com muito orgulho mostrou a Universidade e seus Colégios, contando sua história e prestigio.
— Quem sabe um dia vocês podem vir estudar aqui, seria um grande prazer para mim. — Disse ele sorridente.
Harry ainda não pensara no que fazer quando adulto, mas se decidisse fazer uma Universidade, sem dúvida, Oxford seria sua primeira opção.
Quando voltaram para casa Harry foi para seu quarto, mas não conseguia dormir apesar de cansado e depois de rolar na cama por um tempo foi para o sótão ficar com Edwiges, sua mente estava agitada e conversar com ela e receber seu carinho o ajudava.
— É tudo muito confuso Edwiges, me sinto encurralado, preso em uma armadilha. Os Boots querem me ajudar, eles são incríveis e realmente se importam, mas não quero prejudica-los e sei que começar essa briga com o diretor não vai dar em nada. Isso sem falar no Ministério, não acredito que vou ter uma grande recepção quando começar a falar sobre Black. — Suspirando ele acariciou sua pena e ela bicou seu dedo com carinho. — E esse mundo incrível que estou descobrindo, o magico e o trouxa, não sabia que havia tantas coisas boas e difíceis nos dois mundos, pessoas boas e más nos dois mundos. Não sei o que fazer, tudo parece muito grande para mim, sabe. — Edwiges piou agudamente. — Sim, eu sei que tenho você Edwiges, eu sei e ainda bem que eu tenho você.
Se cobrindo melhor com o cobertor que trouxera ele olhou para o bosque nevado e Edwiges subiu em seu ombro e se recostou em seu pescoço para dormir. Harry tinha que pensar como um estrategista de xadrez, mas ele ainda não era muito bom nisso, tinha que confiar nos Boots quando aprendera desde sempre a não confiar nos adultos. Seus instintos lhe diziam uma coisa, seu cérebro outra e, em tudo isso, haviam esses novos sentimentos que o deixavam tão feliz. Era tudo muito confuso, pensou, pouco antes de adormecer, acordou de repente com alguém gritando seu nome, seu primeiro pensamento era que dormira demais e sua tia o estava acordando para fazer o café da manhã, ao perceber onde estava constatou que era a voz da Sra. Serafina, mas antes que ele pudesse responder ela entrou no sótão agitada e preocupada.
— Merlin, você está aqui! Eu já ia acordar o Falc. Harry, porque não está na cama? Você me deu o maior susto! — Disse ela se aproximando dele, instintivamente ele se encolheu com seu movimento rápido e ao ver isso Serafina parou abruptamente.
— Desculpe Sra. Serafina, apenas não consegui dormir e pensei em ler um pouco e passar um tempo com a Edwiges. —Explicou Harry baixinho. — Mas peguei no sono.
Olhando para fora notou que ainda era noite e estava nevando. Sra. Serafina se sentou ao seu lado e se aproximou mais devagar, não parecia estar com raiva, sorriu para ele suavemente.
— Tudo bem Harry, eu apenas me assustei quando não te encontrei na cama, eu não fazia ideia que pudesse estar aqui. — Disse ela calmamente.
— Eu gosto de vir aqui e conversar com Edwiges, ela sempre me dá bons conselhos ou quando estou lendo me faz companhia. — Disse ele apontando para a coruja que estava em seu ombro, agora acordada.
— Sim, percebi que ela é uma boa amiga. Você teve outro pesadelo? — Perguntou Serafina parecendo triste.
— Oh, não, eu nem dormi, tinha muita coisa na cabeça. — Harry suspirou olhando para o livro que estivera lendo mais cedo, sobre a origem dos nascidos trouxas.
— O que te preocupa tanto Harry?
— O que não me preocupa dever ser a pergunta? Tudo está muito complicado Sra. Serafina e não acredito que as coisas vão ficar mais fáceis e eu envolvi vocês nisso e eu não acho que eu valho a pena todo esse trabalho ou qualquer perigo que vocês possam correr. — Disse Harry envergonhado.
— Você não deve se preocupar com isso querido, nós não corremos nenhum risco e ao contrário do que pensa acreditamos que você vale sim, qualquer trabalho duro. — Disse ela seriamente.
— Eu entendo que, por nossas famílias serem amigas e a senhora ter sido amiga de minha mãe e eu agora sou amigo do Terry, vocês sintam que devam me ajudar, mas não parece justo trazer meus problemas para vocês, sabe. — Disse ele cabisbaixo.
— Harry, deixe-me te perguntar uma coisa, você conhece meus filhos Adam e Ayana a uma semana, se eles corressem algum risco, ou precisassem do seu tempo, dinheiro ou nome para estarem seguros, protegidos e se você tivesse a chance de ajuda-los, salva-los. Você os ajudaria? — Perguntou ela suavemente.
— Sim, com certeza. — Disse Harry surpreso com a pergunta.
— Porque? — Seus olhos o encaravam intensamente.
— Porque... bem, eu gosto muito deles, muito mesmo e eles são tão jovens e inocentes, é meu papel cuidar deles e protege-los. Fazer o que for necessário para que eles fiquem seguros. — Disse Harry como se fosse obvio.
— Exatamente. E o que faz você pensar que Falc, meu sogro e eu não nos sentimos da mesma maneira sobre você? Nós faremos o necessário, não apenas, mas também pela amizade entre as famílias, por minha amizade tão fugaz e doce com sua mãe, sua amizade com Terry. E, claro, gostaria de pensar que sou o tipo de pessoa que ajuda uma criança em dificuldades mesmo que sejam completos estranhos. — Ela disse intensamente. — Tudo isso era e é importante Harry, mas durante essa semana em que nós conhecemos você, você Harry, como poderíamos não gostar de você, muito, e como poderíamos não querer te proteger e assegurar? — Serafina questionou e seus olhos tinham um brilho de lagrimas.
— Não é o mesmo, eles são tão bons e inocentes, merecem tudo de bom e eu... não sou como eles. — Sussurrou Harry envergonhado.
— Para nós você é assim também, jovem, bom e inocente. Talvez você seja mais independente e menos inocente e tenha um cinismo em relação aos adultos que nunca deveria ter, talvez você tenha menos esperança que eles. Mas você ainda é uma criança e ainda é nosso papel fazer o necessário para que fique seguro. Você entende isso? — Ela perguntou firmemente.
Harry acenou com a garganta apertada para falar, suspirando, olhou para as mãos.
— Talvez seja esse o problema Sra. Serafina, estive pensando em qual caminho seguir e acho que não sei o que fazer e estou tão confuso porque não tenho muitas esperanças. — Disse ele tristemente.
— Oh! Isso é muito triste, o que faz você sentir que não há esperança? — Disse ela angustiada.
— Eu estive pensando no mundo incrível que eu descobri, o mundo magico primeiro, o mundo trouxa nos últimos dias, tantas coisas boas e maravilhosas. Mas tem tantas coisas erradas também, eu quero fazer algo, ajudar, mas não tenho controle nem sobre mim mesmo ou minha vida, não posso me ajudar então como posso ajudar qualquer um. — Disse ele chateado, depois pegou o livro e o apertou firmemente. — Eu terminei de ler Sra. Serafina, aqui diz, e foi descoberto pelos curandeiros, que os nascidos trouxas são descendentes de abortos ou mesmo de ramos de bruxos que se casaram com trouxas a muitos séculos. Os genes magico fica adormecido por gerações e então um dia ele ressurge e se manifesta e pronto, um bruxo ou bruxa de pais trouxas. Eles não são inferiores ou tem menos direito a magia e a pertencer ao mundo magico do que qualquer bruxo puro-sangue. Todas essas discriminações vêm de um preconceito sem sentido, a séculos é assim, séculos e a verdade está bem aqui. — Harry estava claramente revoltado.
— Primeiro existem muitas maneiras de ajudar e nos últimos dias você ajudou centenas de pessoas, entendo que queira fazer mais, e um dia poderá, assim como um dia terá total controle sobre sua vida. A esperança no futuro vem da fé Harry, você precisa ter fé que as coisas vão melhorar, e lutar para que elas aconteçam, sei que passou anos vivendo uma vida sem esperança, mas agora será diferente, por muitas razões, você está crescendo, aprendendo, mas o mais importante, fazendo amigos, você não está mais sozinho Harry. — Disse ela com convicção. — Não importe o tempo que leve vou acabar convencendo-o disso.
"Sobre a outra questão, fico feliz que tenha terminado o livro e você está certo em sua revolta. Esse é um dos livros censurados pelo Ministério e nunca seria permitido em Hogwarts, antigamente o professor de História contava sobre a origem de todos os seres mágicos, mas infelizmente o currículo de Hogwarts perdeu sua independência, a interferência do Ministério é cada vez mais fragrante. "
— Mas porque Sra. Serafina? Porque, se as respostas foram encontradas pelos cientistas mágicos, a verdade não é espalhada e defendida? Porque eles as escondem e continuam a fazer tudo errado? — Harry queria entender, precisava, seus pais foram tirados dele por causa desse preconceito.
— Bem, a resposta para isso é mais complexa, o principal motivo é que eles não acreditam que isso seja verdade. Eles têm suas crenças, crenças preconceituosas, mas eles realmente acreditam que são superiores, assim como muitos brancos até hoje se acreditam superiores aos negros, os homens das mulheres e assim por diante. — Serafina suspirou, tentando explicar o mundo para alguém tão jovem e ansioso pelo entendimento que vem do conhecimento. — Você está estudando a história trouxa, já leu sobre a Segunda Guerra Mundial e seus motivos foram muitos, mas um deles foi a crença de Hitler na superioridade ariana e essa crença absurda lhe tornou aceitável matar tantas e tantas pessoas nos campos de concentração.
"Desde que o mundo existe a cada nova evolução existem descrentes, a ciência, a religião e a magia no mundo magico estão sempre em conflito. Você já ouviu falar de Galileu Galilei? Não? Bem, ele era um cientista, matemático e astrônomo, entre suas descobertas e sua maior defesa era que a Terra e os outros planetas giravam em volta do Sol e não o que se pensava por séculos, que os Sol e os outros planetas giravam em volta da Terra. Mas eles tinham medo de descobrir algo novo Harry, algo que fosse contra as suas crenças, assim Galileu foi condenado por heresia, sua pena não foi cumprida, pois era muito idoso e doente, mas um outro cientista contemporâneo que defendeu as mesmas ideias foi queimado vivo. "
"Hoje ainda vivemos em um mundo intolerante, a ciência evoluiu, mas a quem acredita que é tudo cientifico e Deus não existe e os que desprezam a ciência e apenas creem em Deus. No mundo magico não é diferente, muito desprezam as descobertas dos curandeiros, pois acreditam apenas na magia, nas tradições e preferem matar do que mudar suas crenças. "
Harry acenou, entendo melhor, a sensação de impotência que o acompanhava desde sua última reunião com o Sr. Falc não passaria tão cedo, mas era bom compreender melhor o mundo e porque as coisas são como são. Pelo menos ele se sentia menos perdido e encurralado em um labirinto escuro.
— No que a senhora acredita, Sra. Serafina? — Perguntou Harry curioso.
— Sabe, essa é uma pergunta muito profunda para alguém de 11 anos. — Disse ela com um sorriso. — Mas foi aos 11 anos que todo o meu mundo e crenças mudaram, eu achava que sabia tudo, eu acreditava em Deus, meus pais, nos livros e em mim. Então um dia eu recebi uma carta muito especial e tudo mudou, um mundo de novas crenças se abriram para mim e eu tive muitos conflitos, até duvidei de Deus e de mim mesma. — Ela suspirou e olhou para o Harry, seus olhos verdes tão inocentes, mas ainda não o suficiente, a olharam de volta. — Mas então eu percebi que existem muitas verdades no mundo, o que eu acredito ser verdade pode não ser a verdade do outro e tudo bem, se minha verdade me satisfaz e a dele a ele. O importante é respeita-lo, desde que ele me respeite e suas crenças não venham com discriminação e violência, está tudo bem acreditarmos e sermos diferentes. E o mais legal, acredito, é termos sempre a mente aberta, Harry, porque podemos sempre aprender algo novo, estamos evoluindo assim como o mundo está evoluindo a séculos e, se nos mantivermos tolerantes e abertos, podemos descobrir que a verdade do outro que antes não nos atingia hoje é nossa verdade também. Não há necessidade de nos fecharmos e nunca aprender com os outros, sozinho somos apenas isso, sozinhos, mas juntos somos amigos, irmãos, pais, filhos, sobrinhos, tios, avós, netos. Você entende Harry? — Disse Serafina suavemente, esperando não o ter confundido ainda mais.
Harry acenou tentando entender tudo em sua cabeça, agora que estava menos mergulhado nos problemas e não sozinho sentia mais esperança e incrivelmente o que a Sra. Serafina lhe dissera era exatamente a solução dos seus problemas.
— Sim, Sra. Serafina, eu entendo. É como as casas de Hogwarts, quando o chapéu me classificou, bem, eu me senti mal porque meus pais eram Gryffindors e uma parte de mim queria estar na casa deles e ser como eles. — Harry sorriu ao pensar em seu pais, ainda se enchia de amor e tristeza. — Mas quando fiz amizade com Neville e Hermione percebi que eu não tinha perdido isso, eu sou um Ravenclaw, estar na nossa casa era o que eu precisava, eu nem sabia o quanto, mas o chapéu sabia. E as vezes eu preciso ser um Gryffindor e quer saber, eu sou as vezes, corajoso, imprudente e tudo bem. Mas agora, nessa situação com Dumbledore eu preciso seguir um outro conselho do chapéu. — Disse ele e seu sorriso aumentou.
— Qual conselho Harry? — Perguntou ela confusa, mas feliz ao vê-lo reagir.
— Acredito Sra. Serafina que Dumbledore precisa provar do seu próprio remédio, e eu serei um ótimo Slytherin, exatamente como o chapéu me disse que eu poderia ser. — Respondeu Harry.
Claro que depois disso Harry não disse mais nada, ele explicou que falaria suas ideias na reunião daquele dia, com Terry e Sr. Falc, assim não tinha que se repetir e claro que seu gosto pelo mistério não tinha nada a ver com isso. Eles desceram do sótão e foram dormir, Harry que esperava pesadelos ficou surpreso quando acordou com o despertador sem um único sonho ruim. Terry e ele foram correr e Harry se sentia tão mais animado que teve mais energia para correr mais e em um ritmo mais acelerado, seu amigo teve dificuldades em acompanhar.
No café da manhã Sr. Falc disse que estava esperando o pai para a reunião deles, eles tinham muito o que discutirem, assim Adam e Ayana estavam indo passar o dia com os primos na casa de Martin e Elizabeth em Londres. Harry estava muito ansioso por essa reunião mesmo que agora já sentisse qual era o caminho que devia seguir.
Quando, as 9 horas, Sr. Boot chegou eles se reuniram na biblioteca, sentando-se na mesa redonda como se fossem um conselho e Harry achou muito apropriado.
— Harry, meu filho me colocou a par de todas as suas questões legais, que ele descobriu nos últimos dias, espero que você não se importe. Sinto muito que Dumbledore tenha feito todas essas coisas e que isso o prejudicou, quero ajudar no que for possível e desde já digo que mesmo se considerarmos que o diretor não teve a intenção de prejudica-lo suas atitudes ainda não são condizentes com sua pessoa ou seus cargos. — Olhando seriamente para todos continuou. — Alguém com tantas funções importantes e com tanto poder como ele não pode agir dessa maneira negligente, ele é humano e como nós comete erros e seus erros tendem a ser maiores e piores devido ao poder que carrega. Mas, é justamente por isso, que ele tem que ser mais cuidadoso e atento que qualquer um com suas decisões e ações.
— Eu concordo papai e, a situação com Snape em Hogwarts, apenas reforça a percepção de que ou existem planos para o futuro que desconhecemos e ele já está posicionando suas peças no tabuleiro ou ele está perdendo o juízo e como não podemos acreditar na última opção, todo esse cenário me leva a considerar que Dumbledore sabe algo que não sabemos. — Disse Falc pessimista.
— Vocês acham que colocar Harry nos tios e aquele homem para ser professor em Hogwarts é um jogo de xadrez para Dumbledore? Uma preparação para algo desconhecido que pode acontecer no futuro? — Serafina estava indignada.
— Sim, por mais que estejamos zangados não podemos deixar de admitir que Dumbledore é um gênio que vê o mundo de maneiras diferentes e mais abrangentes que nós, assim se preparar para algo com antecedência seria algo que ele faria. — Considerou Sr. Boot.
— Bem, podemos especular, mas não chegaremos a lugar nenhum sem a verdade, ou o que ele acredita ser a verdade, que justifica o que fez com Harry. — Disse Serafina, e olhando para Harry que ouvia atentamente, prosseguiu. — A questão é o que faremos a partir daqui, como protegemos Harry e tiramos seu controle, desfazemos sua tutela.
— Sinceramente, acredito que não conseguiremos desfazer isso, Dumbledore é muito poderoso para conseguirmos provar que ele é um tutor tão ruim que justifique ser expulso da função. — Disse Sr. Falc realisticamente.
— Bem, eu discordo, além de advogado fui juiz e se, em meu tribunal, vocês aparecessem com as provas do que aconteceu com esse menino na casa de seus tios e diante das avaliações mentirosas que Dumbledore apresentou aos assistentes sociais, essa tutela seria cancelada tão rápido quanto eu poderia assinar o papel. — Disse Sr. Boot muito zangado. — Acredito que temos que lutar e podemos vencer ao provar que Dumbledore foi negligente em seu papel de tutor. Quando ele não for mais seu tutor vocês conseguirão a guarda legal do Harry, mas com ele como tutor conseguir a guarda se torna muito difícil se não for de seu interesse que Harry deixe a casa de seus tios. — Argumentou ele.
— Eu não estou tão otimista, se pegarmos um juiz amigo dele que acredite em sua defesa e, ele vai se defender, o mais provável é que percamos o processo. Minha esperança é tentarmos a guarda, provar como foi a vida do Harry nos Dursley e assim o juiz terá que transferir a guarda para nós. Dumbledore não poderá justificar a permanência dele lá e se ele insistir estará mostrando que os interesses do Harry não são tão importantes do que seus planos, sejam quais forem eles. — Sr. Falc contra argumentou.
Antes que Sr. Boot continuasse a discussão Serafina interferiu sabendo que se não o fizesse eles ficariam debatendo o dia todo.
— Acredito que deveríamos ouvir o maior interessado, Harry o que você pensa? — Perguntou ela gentilmente.
Harry suspirou, estivera ouvindo com atenção e a verdade era que nenhuma das duas opções lhe pareciam muito a seu favor. Mas ele já sabia o que queria fazer.
— Ontem eu não conseguia dormir pensando em qual caminho seguir e cheguei a pensar em não fazer nada. — Harry ouviu seus protestos e exclamações, mas não tentou se justificar, a verdade é que era difícil explicar como viver na casa de seus tios o ensinara a ser passivo e como ele queria ter uma vida tranquila, tudo o que ele mais queria era ser apenas Harry, um garoto como qualquer outro. — Eu não pensei que valia a pena ter todo esse trabalho e começar uma briga com Dumbledore quando a chance de vitória é tão pequena, mas Sra. Serafina e eu tivemos uma conversa noturna bem interessante. — Ele disse olhando para ela com um sorriso.
Diante dos olhares confusos, Sra. Serafina explicou:
— Eu acordei de madrugada e fui checar as crianças como faço as vezes e quando entrei no quarto do Harry não o encontrei e não tinha ideia de onde estava, pensei em chamar o Falc para me ajudar a procurar, mas quando subi ao sótão ele estava lá dormindo com a Edwiges.
— Minha coruja é sempre uma boa companhia e como não conseguia dormir pensei em ler e conversar com ela um pouco, mas acabei pegando no sono. Bem, quando a Sra. Serafina me encontrou eu ainda estava muito confuso, mas enquanto conversávamos percebi qual era o caminho que eu quero seguir, o que eu acredito seja o melhor caminho. — Disse Harry olhando para todos sorriu, um sorriso muito James. — Vamos dar ao Dumbledore exatamente o que ele quer e devolver na mesma medida sua atitude ausente.
— Não sei se entendo. — Disse Sr. Boot e olhando para os outros viu a mesma confusão.
— Eu entendo e acho que é brilhante! — Exclamou Terry com um sorriso enorme. — Se você for manter-se dele como se mantem de mim com seus mistérios, ele não vai saber o que o atingiu.
— Ok, você poderia nos explicar Harry? Confesso estar cada vez mais curioso. — Perguntou Sr. Falc.
— Simples, Dumbledore quer um garoto tímido e pouco curioso, um nascido trouxa que não sabe nada sobre o mundo magico e sua herança. Vamos dar isso a ele. Eu não vou revelar o que eu sei, o que eu suponho ou imagino e mesmo o senhor não mostrará nada de suas desconfianças. Ele é o grande, respeitado e inquestionável líder e vamos trata-lo exatamente assim. — Explicou Harry e trocou um olhar com seu amigo que fez um gesto de positivo.
— Bem, eu já tinha sugerido não o hostilizar e muito menos acusa-lo de qualquer coisa quando entrássemos com o processo de guarda, afinal realmente é possível que ele não saiba como foi sua vida com seus tios. — Disse Sr. Falc pensativamente.
— É claro que ele sabe, mesmo um mal espião teria dado informações suficientes para preocupa-lo se tivesse se importado o suficiente, mas desde que as informações eram só, "eles não gostam dele", "ele passa muito tempo sozinho", "ele está sempre fazendo as tarefas", eles não o tratam bem". — Disse Sr. boot com cinismo. — Nada disso era o suficiente para impedir seus planos.
— Que nós ainda desconhecemos e, se começarmos a brigar, acusar ou apenas hostilizar, saberemos menos ainda. Minha ideia é seguir o conselho do chapéu seletor, ele me disse que eu faria muito bem na casa Slytherin, eu pedi a ele para me colocar na casa que melhor me ajudaria a ser um grande bruxo e me permitisse fazer amigos. O chapéu disse que como eu queria amigos a Ravenclaw era a casa ideal para mim, se não, a melhor opção seria a Slytherin. Isso quer dizer que eu tenho em mim qualidades das outras casas como todos, acredito, e no que diz respeito a Dumbledore eu tenho que ser astuto e inteligente. — Disse Harry e percebeu que todos estava começando a compreender.
— Você quer dizer que vai atuar, ser o que ele espera que você seja e esconder o que você sabe e deixa-lo pensar que seus planos estão indo como ele organizou? — Perguntou Sra. Serafina com o cenho franzido.
— Exatamente. — Disse ele sorrindo.
— Mas você já tomou decisões que não condiz com o que você quer passar para ele, Harry. Como me contratar, por exemplo, e mesmo ser um Ravenclaw e não um Gryffindor como, eu acredito, ele teria preferido. — Argumentou Sr. Falc.
— E se você vai tentar lutar contra ele na justiça, seja pela guarda ou pela tutela, estará mostrando sua mão Harry. Não há como esconder isso, a não ser que você pretenda não fazer nada. — Disse Sr. Boot impaciente.
— Não é isso que ele está pensando vovô, é como com nossa rebelião silenciosa, Harry pretende lutar, mas silenciosamente, e sem mostrar armas ou ser agressivo. Até porque nós já conversamos sobre a possibilidade de Dumbledore não ter má intenção. — Disse Terry sensato.
— Não ter má intenção? E o que foram os últimos 10 anos da vida desse menino? Boa intenção? Quero que Dumbledore seja responsabilizado pelo que fez e não que fique tranquilo e confortável. — Disse Sr. Boot muito indignado.
— Papai... — Tentou acalma-lo Sr. Falc.
— Sr. Boot, seria ótimo viver em um mundo onde isso poderia acontecer, mas a verdade é que ele venceria, perderíamos tempo, nos desgastaríamos e revelaríamos nossos planos e, quando tudo acabasse ele poderia até me proibir de vir visita-los ou pior. — Harry disse olhando-o intensamente. — Não posso me dar ao luxo de tentar puni-lo pelos últimos 10 anos, eu sobrevivi aos Dursley, mas, sem saber quais são seus planos, poderia acabar não sobrevivendo a eles. — Finalizou Harry.
Todos ficaram em silencio por alguns instantes absorvendo o que ele dissera, pior do que já acontecera era o desconhecimento do viria a seguir.
— Ok, eu entendo, não gosto, mas aceito e acredito que é muito sensato de sua parte se preocupar com o presente e o futuro e não com o passado. — Aquiesceu Sr. Boot contrariado.
— Ok, Harry, eu entendi sua ideia, mas como eu disse você já fez muitas mudanças e não tem como voltar atrás. O que exatamente você está pensando em fazer? — Perguntou Sr. Falc agora que todos estava na mesma página.
— Nem eu quero voltar atrás senhor, o que eu quero fazer é minimizar os danos. Primeiro não vou me encontrar com ele, pelo menos por minha iniciativa, tão cedo. O senhor disse que tem que o comunicar da mudança de advogados, isso poderia acontecer depois que eu voltar para Hogwarts? — Perguntou Harry curioso.
— Não, posso esperar apenas até terminar a verificação dos documentos, e como eu disse Corner é muito bem organizado, portanto, acredito que em mais dois dias terei concluído a auditoria. Depois preciso me comunicar com ele, não apenas para informa-lo, mas também para receber ordens dele sobre o que fazer em relação a sua herança. — Explicou Sr. Falc objetivamente.
Harry tentou controlar a irritação que não era ele quem decidia sobre sua herança, nunca fora preocupado com dinheiro, trocaria cada centavo que tinha, apesar de nem saber quanto era, para ter seus pais de volta. Mas desde que assumira, para si mesmo, seu papel como o herdeiro de sua casa não ter o controle sobre o que lhe pertencia era um porco espinho para engolir.
— O senhor pode ao menos marcar um encontro para depois de eu estar em Hogwarts? Prefiro não me encontrar com ele aqui. Se ele me chamar para seu escritório na escola vou agir normalmente, direi que não sabia sobre minha herança ou que eu precisava de advogados até Terry me contar e que diante do fato de que eu não conheço o Sr. Corner, mas conheço o senhor, decidi contrata-lo, já que Corner não me informou de nada. — Explicou Harry sorrindo. — Tudo verdade, mas não toda a verdade. Quando o senhor se encontrar com ele, mencione que eu exigi que você me mantivesse informado sobre minha herança e que foi por isso que eu decidi despedir Corner.
— Ok, posso fazer isso e entendo sua intenção. Você quer dar a entender que não quer fazer grandes mudanças, apenas não quer ficar no escuro. — Disse Sr. Falc pensativo.
— Minimizar, meias verdades. — Aprovou o Sr. Boot.
— E Dumbledore vai supor que foi um erro de cálculo da parte dele. Ele orientou Corner a não se comunicar com você, mas não imaginou que seu amigo o informaria e claro ao vir passar o Natal aqui, na casa de uma importante família magica e de advogados, sua herança seria mencionada e você ficaria curioso e nada feliz com a falta de contato de Corner. — Disse Sra. Serafina sorrindo.
— Exato, se ele supor que foi um erro dele e não que eu estou me rebelando ou planejando qualquer coisa, vai tentar ele mesmo minimizar tudo. Talvez entre em contato comigo, mas acredito que não, porque se colocar na minha frente para ser perguntado por assuntos que não quer responder. — Contemporizou Harry. — O senhor pode lhe dizer que eu já sei que ele é meu tutor e que cuida de minha herança até minha maioridade. Diga que eu me mostrei aliviado ao saber disso, que não tenho que me preocupar com todas essas coisas e posso me concentrar em ser criança e estudar, que fiquei tranquilo ao saber disso, pois era obvio que com ele cuidando de tudo nos últimos anos, Corner não poderia ter feito nada errado como eu temi. Elogie, diga como eu me senti honrado com sua preocupação por cuidar da herança dos meus pais, sendo ele tão importante e ocupado.
— Isso é brilhante! Dumbledore saíra da nossa reunião acreditando que tudo vai continuar como ele quer e planejou, apenas com advogados diferentes e com você sendo informado sobre sua herança, mas se ele acreditar que você não tem interesse e confia nele para administrar tudo, não vai se preocupar. — Disse Sr. Falc e acenando com a varinha um pergaminho e pena veio até ele e começou a fazer anotações.
— É um bom plano, mas o que você espera ganhar com isso? — Perguntou Sr. Boot com olhar curioso.
— Tempo, pelo menos por agora, apenas tempo. Não vamos ter ele interferindo ou observando muito de perto e assim colocamos outros planos em andamento. Como somos obrigados a comunica-lo sobre a mudança de advogados, perdemos o fator surpresa e se formos para cima dele com acusações, ele vai estar preparado. Mas se ele só souber do pedido de guarda no último minuto necessário... — Harry deixou para que eles concluíssem por si mesmo.
— Ele não vai ter tempo de se preparar ou nos deter e poderemos estar em frente a um juiz antes que ele perceba, e então o diretor terá que se explicar e aposto que não vai ter um bom argumento, assim meus pais ganham sua guarda legal! — Terry estava saltando no sofá de tão empolgado.
— Mas, espere, como seu tutor Dumbledore não tem que ser comunicado do pedido de guarda? — Perguntou Serafina confusa.
— Não até uma audiência, que será marcada rapidamente. Quando se trata de uma criança tudo é mais ágil, teremos tempo para reunir provas, preparar a documentação e quando dermos entrada eles marcarão uma audiência. O juiz lerá o processo, pedirá uma avalição do menor, Harry, uma visita será feita aos guardiões, os Dursley e então quando ele ler o relatório desses dois encontros, marcará uma audiência. Tudo feito no mais alto sigilo, como é sempre quando o processo envolve um menor. — Explicou Sr. Boot didaticamente. — Realmente, brilhante Harry.
— Dumbledore, como seu tutor será chamado para a audiência, mas o juiz não voltará atrás e acredito sinceramente que diante das provas nos concederá a guarda do Harry. — Continuou Sr. Falc. — Claro, Dumbledore poderá interferir, mas me pergunto se ele julgará importante revelar sua mão apenas para manter Harry com os tios.
— Quer dizer que ao insistir que o Harry permaneça com aquelas pessoas, Dumbledore se exporia, e se sua intenção é controlar o Harry, cair em suas boas graças seria o mais inteligente e não bater de frente. — Considerou o Terry.
— Tudo isso faz sentido e acho que só saberemos quando o momento de a audiência chegar. Harry acredito que diante disso o melhor é darmos entrada com o pedido de guarda algumas semanas antes de você deixar Hogwarts, assim se o veredito for favorável você vem direto para cá conosco. — Disse Falc, com mais algumas anotações.
— Pelo contrário, acredito que o melhor é só depois que eu deixar Hogwarts, ou dois ou três dias antes. Se eles precisarem falar comigo e me procurarem na escola, Dumbledore seria alertado. — Argumentou Harry.
— Mas então você teria que voltar para aquelas pessoas Harry. — Disse Terry preocupado.
— Eu posso lidar com eles por alguns dias Terry, principalmente agora que eles estão com medo de mim. — Harry tranquilizou o amigo.
— Medo? — Serafina estava confusa.
— Sim, Hagrid os assustou e ameaçou, eles se mantiveram bem longe de mim no meu último mês por lá. E quando eu voltar já tendo aprendido magia por um ano, isso os tornará ainda mais assustado. Eles têm muito medo de magia. — Esclareceu Harry.
— Mas você não poderá fazer magia como faz aqui, o Ministério saberia e isso causaria muitos problemas. — Disse Serafina preocupada.
— Sim, eu sei, mas eles não sabem e eu com certeza não pretendo lhes contar. — Disse Harry com um sorriso divertido.
Isso fez todos rirem e Harry os acompanhou, era bom relaxarem um pouco, o pior da reunião ainda estava por vir.
— Bem, é engraçado, mas ainda preferiria que você nunca tivesse que voltar lá. — Disse Sra. Serafina suspirando.
— Será por pouco dias, aposto que quando o juiz se deparar com as provas retirará Harry daquela casa bem rápido. — Disse Sr. Falc. — Harry agora que temos um plano a curto prazo, estou curioso sobre como você vai agir se ou quando Dumbledore o procurar e questionar. Temos que combinar o que dizer, o fato de você ser tão inteligente e estudioso pode ser um problema para ele também, ou pelo menos seu esforço para te manter ignorante nos dá essa impressão. — Sr. Falc estava serio outra vez.
— Vou atuar, não sou muito bom nisso, mas muitas vezes tive que atuar para meus tios e ficar invisível. Vou ser invisível e não revelar muito de mim e ser um garoto tímido e quieto que não faz muitas perguntas. — Disse Harry, tentando explicar sua ideia. — Meus estudos avançados, meu interesse por minha herança e pelo mundo magico, até mesmo minha inteligência ficará bem escondido. Passarei muitas horas estudando e deixarei que ele acredite que minhas boas notas vêm de muito estudo e minha amizade com Terry e Hermione que são muito inteligentes.
— É um bom plano, Dumbledore verá o que quer ver. Agora entendo o que você disse sobre lhe dar um pouco do seu próprio remédio. — Sra. Serafina o olhava com orgulho.
— Ok, eu concordo é um bom plano, mas e depois quando a questão de o pedido de guarda explodir? — Perguntou Sr. Falc.
— Vou manter a mesma postura não importa o resultado da audiência, se o diretor insistir e conseguir que eu continue nos Dursley, será ele que estará se revelando e talvez isso nos de informação suficiente para entender o porquê de tudo isso. Eu agirei magoado, mas vou fingir entender seus motivos. — Disse Harry suspirando cansadamente. — Se ele aceitar que eu fique aqui, das duas uma, ou ele quer ficar nas minhas boas graças, como dito por Terry, ou tudo que aconteceu foi mesmo um erro e ele não tem planos para mim como especulamos. E em qualquer dos dois casos terei que agir muito grato.
— E se continuarmos atuando e ele acreditar que confiamos nele e aceitamos, podemos começar a pensar em outros movimentos, sejam na apelação do processo de guarda se perdemos ou no cancelamento da sua tutela, caso você decida ir por esse caminho. — Sr. Falc acenou aceitando e fez mais anotações.
— Não vamos manter essa atuação por muito tempo, cedo ou tarde ele perceberá ou descobrirá, ou nós teremos que revelar. — Disse Harry pensativo.
— Na verdade, não durará nem um dia se você for mentir na cara de Albus Dumbledore sem antes aprender oclumência. — Sr. Boot declarou pessimista. — Seu plano é muito bom e tenho certeza que sua avó estaria orgulhosa, Euphemia era alegre e brincalhona, mas astuta como só uma Slytherin pode ser. Seu avô era muito inteligente, mas os planos mais espertos eram ideias dela. Infelizmente, você não conseguirá mentir para Dumbledore, ele é um incrível legilimente e perceberá na hora, isso apenas o tornara desconfiado e se ele desconfiar de você, irá vigia-lo feito um lobo a sua presa.
— Oclumência? Legilimente? Eu não entendo, senhor. — Disse Harry confuso.
— São técnicas mentais Harry, técnicas mentais opostas. Lembra-se quando eu lhe disse que os bruxos têm dons, alguns são de origem familiar e outros de origem mágica. Animagus é um exemplo de um dom de origem magica, quer dizer que todos os bruxos podem se tornar um animagus se quiser e colocar o esforço. Metamorfomagia é um dom de origem familiar. — Explicou Serafina e quando percebeu que ele entendera continuou. — Essas duas técnicas são uma capacidade mental que os bruxos têm de defender ou escudar a mente, no caso da oclumência e decifrar ou captar informação da mente de outra pessoa, no caso da legilimência. Claro, é uma capacidade que tem que ser aperfeiçoada, treinada, precisa de dedicação e tempo, e muitas vezes os bruxos não se importam em aprender o que exige muito esforço. — Concluiu Serafina.
Harry esta abismado e ao entender completamente o que Sr. Boot dissera, ficou pálido.
— Isso quer dizer que Dumbledore pode ler minha mente? — Perguntou ele chocado.
— Não é ler mente o termo correto Harry, a ideia de ler nos faz pensar em palavras, e não são palavras que um legilimente procura. Um legilimente procura, em uma leitura superficial, captar intenção, emoção, e diante disso decifrar o que está captando. Ele, essencialmente, saberá se você está mentindo, se você está com raiva dele, a não ser que aprenda como disse minha nora a defender ou escudar a mente. — Explicou Sr. Boot. — São técnicas complexas, você precisará começar a estudar imediatamente, e adiar qualquer encontro com Dumbledore até que tenha um escudo razoável que possa se defender de uma legilimência artificial. Sugiro que se o encontrar antes do verão, não o encare nos olhos, para uma legilimência artificial é necessário contato de olho com olho. Existem ataques mais diretos, mas não acredito que precisamos no preocupar com isso, nem mesmo esse Dumbledore desceria tão baixo. — Sr. Boot disse com cinismo.
— Ok, hum... vocês sabem as técnicas? — Harry perguntou curioso.
— Sim Harry, todas a crianças puro sangue aprendem oclumência, algumas antes mesmo de ir para Hogwarts. As famílias antigas não querem que seus segredos sejam facilmente descobertos. Quanto a legilimência como dita por Serafina exige muita dedicação e sutileza, todos têm a capacidade, mas não o dom, ou jeito ou a paciência para refinar a técnica. — Expos Sr. Falc. — Eu, particularmente, sou um bom oclumente, mas não tenho a sutileza exigida para ser um legilimente.
— Comigo é o mesmo, ainda que por ter treinado a técnica para o meu trabalho como juiz tenha desenvolvido alguma capacidade, mas nada se comparado a um mestre como Dumbledore ou você-sabe-quem. — Respondeu Sr. Boot.
— Eu só comecei a aprender as técnicas depois de me formar em Hogwarts, antes nunca ouvira falar nada sobre isso. Sou boa nas duas técnicas, ainda que nunca sofri um ataque direto por alguém poderoso e também nunca ataquei ninguém. — Explicou Serafina e ao ver seu desconforto continuou. — Mas Harry, legilimência é uma técnica que se usa se quer, eu não tenho o habito de utilizar essa técnica na minha família ou amigos. Então, não se preocupe. — Disse ela com um sorriso sincero.
Harry acenou suspirando, não tinha como duvidar dela, mas detestou a ideia de estar vulnerável, de que alguém poderia saber seus pensamentos, sentimentos, intenções.
— Eu ainda não comecei a aprender, mas vovô disse que no verão antes do meu 3º, eu começarei meu treinamento. — Disse Terry.
— Sinto que você terá que começar seu treinamento mais cedo e sem nossa ajuda Terry, assim como Harry, você precisa aprender a escudar a mente. Dumbledore poderia tirar informações de você e se vamos começar todo esse plano de ilusão e atuação, não podemos tê-lo vulnerável. — Disse Sr. Boot gentilmente. — E eu, particularmente, prefiro não me encontrar com Dumbledore, não acredito que controlaria minha vontade de lhe dizer umas boas verdades.
— Essa é uma boa ideia, Dumbledore sabe de sua amizade com o Sr. Potter, é melhor que você se mantenha distante quando me reunir com ele. Se ele perguntar, lhe direi que o senhor está muito ocupado com a mamãe e mal se encontrou com Harry. Creio que pelo menos em nossas primeiras reuniões Dumbledore não deve perceber que eu vejo o Harry como mais do que um amigo do meu filho e um cliente. — Disse Sr. Falc e era obvio que já estava se preparando para sua reunião com o diretor.
— Bem, se temos os próximos passos definidos, podemos encerrar a reunião? Quero ir para a Abadia e pegar alguns livros de oclumência e legilimência para os meninos, não são muito atuais, devem existir novas maneiras de se desenvolver e treinar essas capacidades, mas esses livros lhes darão uma boa introdução. — Sr. Boot
— Essa é uma boa ideia e concordo que livros mais atuais são necessários também. Mas não podemos encerrar a reunião, Harry tem uma nova ideia sobre a possibilidade de contestar a anulação do testamento. Harry, você poderia nos contar sua ideia? — Perguntou Sr. Falc muito curioso.
— Contestar a anulação? Mas pelo que você me explicou a anulação foi legal e talvez não muito ética, mas nada que justifique uma apelação. E sem uma justificativa plausível o juiz nem o receberá. — Argumentou Sr. Boot confuso.
— Eu sei papai, mas Harry tem uma ideia e gostaria de ouvi-lo. Harry? — Disse Sr. Falc gentilmente.
Harry suspirou e olhou para Sr. Falc com seu tom paternalista e para o Sr. Boot quase descrente, Sra. Serafina estava curiosa. Trocando um olhar com Terry viu que seu amigo também estava inseguro, mas, pensou, se ele não seguir sua intuição em algo tão importante, que tipo de bruxo seria.
— Antes de mais nada gostaria que vocês me dissessem tudo o que sabem sobre Sirius Black e sua amizade com meu pai. —Pediu Harry firmemente.
— Sirius Black? — Perguntou Sr. Boot espantado.
— Sim vovô, por favor, é importante. — Disse Terry apoiando o amigo.
— Ok, hum... Black vinha de uma família puro sangue que defendiam desde sempre os ideais puristas. Os Black são conhecidos por sua crueldade para com os trouxas, mata-los antigamente era um esporte e quando o Ministério e suas leis foram criados, eles lutaram ferozmente para a proibição dos nascidos trouxas no mundo magico. Eles são uma família muito antiga e nobre, o ultimo Lord Black apoiou você-sabe-quem com dinheiro e membros de sua família que se tornaram comensais da morte. — Sr. Boot estava claramente tentando pensar em tudo que era relevante sobre o assunto. — Mas para sua grande decepção seu filho mais velho era bem diferente e acabou sendo classificado na Gryffindor. Pelo que sei de ouvir aqui e ali, não tinha amizade com os Black, Sirius era um rebelde, fez amizade com nascidos trouxas, com seu pai, que vinha de uma família defensora dos trouxas. Quando tinha 16 anos fugiu de casa e foi viver com seus avós, Fleamont me contou que Lord e Lady Black, uma mulher horrível, queriam que Sirius se tornassem um comensal da morte, pois isso traria honra para a família e mostraria a fidelidade dos Blacks a você-sabe-quem. Sirius se recusou e sua mãe o puniu com a maldição cruciatus...
— Merlin! Sua própria mãe!? — Serafina empalideceu.
— Sim, a maldição cruciatus é a maldição imperdoável da tortura. Eu nunca a senti, mas é descrita como uma dor excruciante, alguns me disseram terem desejado a morte. — Explicou Sr. Boot ao ver a expressão confusa de Harry. — Sirius fugiu e pediu abrigo aos seus avós que o adoravam e o acolheram. Eu o conheci algumas vezes quando visitei Fleamont, ele era muito bonito, usava roupas de couro, como um roqueiro, cabelos cumpridos, tatuagens e dirigia uma moto. Sua avó tinha certeza que ele acabaria se matando naquela coisa barulhenta um dia. — Sr. Boot sorriu ao se lembrar.
Harry apenas acenou tentando controlar a excitação, nunca que esse garoto descrito pelo Sr. Boot poderia ter traído seus pais, agora tinha mais certeza do que nunca e não entendia porque ninguém percebera isso antes.
"Quando eles se formaram, todos, seus pais, Sirius e outros amigos se uniram a Ordem da Fênix, que era...
— Desculpe vovô, nós já sabemos o que era essa Ordem, Prof. Flitwick contou para o Harry. — Interrompeu Terry tentando ser educado.
— Ótimo, isso encurta a explicação. Seus avós não ficaram contentes, queriam que os dois dedicassem suas vidas a mais do que a guerra, seu pai ainda tinha Lily, eles se casaram em um lindo casamento. Apenas alguns meses depois seus avós faleceram, varíola de dragão, um depois do outro, a doença os levou muito rápido. Depois disso perdi contato mais próximo com eles. Quando minha Carole foi morta você já tinha nascido, mas naqueles tempos não se visitava mais porque se corria o risco de receber na sua casa um comensal polissuco ou alguém imperioso. Todo cuidado era pouco. — Sr. Boot suspirou abatido, era difícil se lembra da guerra. — Deixamos a Inglaterra quando a tristeza da Honora não tinha mais fim e voltamos só depois daquele Halloween. Voltei a trabalhar e descobri que Sirius fora preso e condenado a vida em Azkaban, aquilo era tão absurdo que fui procurar o Chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia na época, Bartô Crouch. Ele então me contou que provas irrefutáveis mostraram que Sirius mudou de lado no fim da guerra, testemunhas disseram que ele era o guardião secreto dos seus pais a apenas uma semana e traiu a localização deles. E que ao ser confrontado por um amigo de escola de seu pai, Sirius o matou, o explodiu com uma maldição muito escura e ao mesmo tempo matou mais 12 trouxas que estavam na rua no momento do confronto.
— Guardião secreto? — Harry perguntou confuso, quase todo o resto ele já sabia, mas ainda era interessante ouvir com mais detalhes.
— Sim, eu não sei porque, mas seus pais decidiram se esconder sob o Feitiço Fidelius, é um feitiço muito complexo que exige muito poder. Basicamente, você esconde a localização de uma casa em alguém e essa casa só pode ser encontrada por alguém se a pessoa, ou guardião do segredo lhe revelar o endereço. — Explicou o Sr. Boot.
— Quer dizer que ninguém pode encontrar a casa? — Harry perguntou, essa nova informação o confundiu.
— Sim, vamos supor que escondêssemos o Chalé sob o Fidelius e eu fosse o guardião do segredo, você já esteve aqui, mas o feitiço torna impossível para você saber onde fica o endereço. Você se lembra da existência do Chalé, dos detalhes da arquitetura, a decoração, mas não sua localização. E vamos supor que um trouxa ou outro bruxo caminhe lá fora, literalmente, eles poderiam olhar pela janela, mas não encontrariam o Chalé. Mas quando eu lhe digo que o Chalé Stone Grove fica em St. Albans você se lembra a localização imediatamente e sabe como chegar aqui. Entende? — Perguntou Sr. Boot, Harry apenas acenou.
— Quem disse que ele era o Guardião Secreto? — Perguntou Harry sentindo seu estomago afundar, se o feitiço fosse comprovado suas ideias saiam todas pela janela.
— Uma testemunha, Crouch se recusou a discutir o julgamento comigo, eu insisti que conhecera Sirius e não fazia sentido, mas ele argumentou que eu não o via a anos e que mesmo antes não posso garantir que ele não estava apenas fingindo ser amigo dos Potters. Eu não tive argumento. — Sr. Boot suspirou. — Harry, o julgamento de Black deve ter sido bem completo, Crouch disse que as provas e testemunhas eram incontestáveis.
— Normalmente essa proibição de acessar dados de um julgamento acontece vovô? —Perguntou Terry pensativo.
— Se o processo estiver em andamento, sim. Às vezes é até exigência do advogado de defesa, que pede que se mantenha o sigilo. Além disso, esse era um julgamento de alto padrão, seria processado pela Suprema Corte dos Bruxos, como todos os outros julgamentos dos comensais da morte e eu era apenas um juiz do tribunal civil de primeira e segunda instancia. — Expos Sr. Boot calmamente.
— Sr. Boot, o senhor viu meu pai com Black, como descreveria a relação deles? — Perguntou Harry tentando processar tudo o que fora dito.
— Como irmãos, os dois se adoravam e não acredito que Sirius estivesse fingindo, até porque Euphemia perceberia um mentiroso a milhas de distância. E Sirius adorava seus avós, sinceramente Harry, eu não sei o que aconteceu, claramente, alguma coisa mudou, talvez ele acreditasse que você-sabe-quem venceria e mudou de lado para ficar no lado vencedor. Acredite, muitos fizeram isso. — Sr. Boot disse com frieza.
— Ele poderia ter sido obrigado a revelar o segredo senhor? Por tortura ou pela Maldição Imperius? — Perguntou Harry em mais uma tentativa de justificar sua intuição.
— Tecnicamente sim, o feitiço não é incorruptível, o ideal é que ninguém saiba quem é o Guardião Secreto, pois se souberem ele pode ser capturado e forçado a corromper o feitiço e revela-lo. — Disse Sr. Boot olhando atentamente para o menino e entendendo aonde ele estava indo com essas perguntas. — Mas Harry, se sua suposição é de que Sirius é inocente, lembre-se que isso apareceria no julgamento. Diante de quaisquer provas ou testemunhas, o advogado de defesa teria que apenas solicitar o uso de uma penseira ou do soro da verdade e Sirius testemunharia e seria inocentado se comprovado que ele foi forçado a revelar o segredo.
— E não se esqueça Harry que depois de trair seus pais, ele tentou fugir e acabou matando um amigo que o perseguiu e mais 12 trouxas. — Disse Sr. Falc também compreendendo que Harry questionava a culpa do padrinho.
— Se ele estava fugindo, como acabou capturado? — Perguntou Terry e Harry lançou lhe um olhar agradecido.
— Parece que com a explosão Sirius foi jogado longe, bateu a cabeça e quando recuperou a consciência os aurores já estavam presentes. O prenderam rapidamente e segundo os que estavam presentes ele apenas riu sem parar. — Contou Falc.
— Mas se ele estava fugindo porque lançar um feitiço tão escuro e perigoso que poderia até machuca-lo ou atrasar sua fuga. Se ele é tão bom, porque não apenas aparatar, ou lutar com o amigo e depois de vence-lo escapar? — Perguntou Terry confuso.
— Não sei filho, talvez ele tenha se visto encurralado e achou que não tinha escolha, talvez ele soubesse que não poderia vencer o outro bruxo e acreditou que sua única chance era aquele feitiço. — Disse Falc com o cenho franzido.
— Quem? Pettigrew? Isso seria uma piada se fosse o que ele pensou. — Disse Serafina e seu olhar claramente mostrava sua confusão com tudo o que ouvira.
— A senhora o conheceu Sra. Serafina? Conheceu os dois? — Perguntou Harry ansiosamente.
— Sim, não tão bem, mas eu estive com eles na escola por três anos e era monitora, assim muitas vezes os encontrei se metendo em confusão. Eles eram quatro amigos, muito unidos, brincalhões, James um pouco arrogante e convencido, com razão, era tão inteligente e bom em magia, nem precisava se esforçar para ser o melhor do seu ano. Isso deixaria Lily irritada, pois ela tinha que estudar muito por suas boas notas. Sirius também era muito inteligente e charmoso, mais cínico e provocador, não era incomum que James arrumasse problemas ao ser provocado ou para defender alguém, mas Sirius normalmente era a maior fonte das confusões e adorava começar brigas com os Slytherin. O outro era Remus Lupin, garoto calado e estudioso, tinha problemas de saúde e era muito inteligente, muitas vezes o vi estudando com Lily na biblioteca. Estava sempre com James e Sirius, normalmente, não se metia com suas confusões, mas também não fazia nada para detê-los. E o outro era Peter Pettigrew e ele era tão diferente dos outros que destoava, quero dizer, Peter era do tipo que você não nota, meio invisível, sem qualidades marcantes. Mas então ele estava ali no meio daqueles garotos bonitos e populares e você o percebe só porque ele é o oposto deles. Peter não era bonito, ou popular, engraçado, ele era um aluno bem abaixo da média e nada poderoso. Ele os seguia por toda a escola e apenas os admirava e obedecia. — Explicou Sra. Serafina com o olhar distante no passado, Harry ao ouvir sua última frase arregalou os olhos e abriu a boca, mas ela continuou falando. — Então acredite, Black não usaria esse feitiço por medo de Peter, ele era um bruxo muito mais poderoso e competente.
— Harry, tudo bem? — Perguntou Terry olhando para o amigo com os olhos arregalados e vidrados.
— É isso. Eu entendi. — Disse Harry em um sussurro alto.
— O que você entendeu Harry? — Sr. Boot o olhou curioso, o menino era muito inteligente, mas nada do que sua nora dissera lhe parecia ser uma grande revelação.
— Vocês não percebem? Sabe qual foi o primeiro elogio que eu ouvi sobre meus pais? Nunca vou me esquecer, Hagrid me disse: sua mãe e seu pai eram os melhores bruxos que eu já conheci. Primeiros alunos em Hogwarts no seu tempo. — Harry os olhou, mas percebeu que nem mesmo Terry percebera a frase da mãe, mas ele não perdera e sabia que nada que o lembrasse do assassino dos seus pais seria perdido, nunca. — Depois Terry me disse que além de serem muito inteligentes, eram poderosos bruxos e tinham muitos amigos, assim com certeza eles teriam um testamento e um guardião estipulado para cuidar de mim caso algo lhes acontecessem.
— Claro que sim, cuidar de você seria a prioridade dos dois, ter certeza que estava seguro, eles fariam isso mesmo sem uma guerra, mas diante de uma, seria impossível não fazerem um testamento. — Disse Serafina sorrindo triste.
— Sim e foi quando a senhora me enviou as cartas de minha mãe que eu realmente acreditei nisso, eu acreditei que eles me amavam, que eles cuidariam de mim. — Harry suspirou, a certeza do amor de seus pais fora um grande presente. — Então Flitwick me disse que alguns meses depois que eu nasci meus pais decidiram se esconder. Mamãe foi se despedir e explicar que ficaria incomunicável, Flitwick ficou surpreso por ela não me levar até a escola como em visitas anteriores, papai cuidava de mim. Ele disse que ela estava muito tensa e ansiosa como nunca a viu. — Informou Harry.
— Certo isso condiz com o fato de eles terem usado o Fidelius. — Disse Sr. Falc ainda não entendendo o que Harry estava tentando dizer.
— Sim. — Harry estava muito tenso para ficar sentado e se levantou começando a andar de um lado para outro da biblioteca. — Mas percebam a linha do tempo, eu perguntei a Flitwick e ele disse que sua última visita foi depois do Natal de 1980, ele tem quase certeza de que foi em meados de fevereiro. Black não era apenas o melhor amigo de meu pai e eu suponho um grande amigo de minha mãe, era o padrinho de casamento deles e meu padrinho. O senhor mesmo disse que ele não estava fingindo a amizade e amor que ele sentia por meu pai. Acredita mesmo que se ele fingisse amor para mim, meus pais, minha mãe não perceberia? — Questionou Harry olhando para Serafina em busca de resposta.
— Sim, Lily era muito inteligente e intuitiva, e estaria muito conectada a você, seu bebê, ela perceberia se ele não te amasse de verdade, se fosse fingimento. — Respondeu Serafina atenciosa.
— Assim meus pais me amavam, eram inteligentes, espertos e em meio a uma guerra deviam estar atentos. Então eu me perguntei, Flitwick me contou que papai desistiu de vários convites para jogar quadribol profissional para lutar na guerra e mamãe desistiu de dois Mestres, o de Feitiços e Poções pelo mesmo motivo. No entanto, de repente, eles desistem de tudo para irem para o subsolo, se esconderem e não lutam mais, nem se comunicam com os amigos. — Disse Harry e percebeu frustrado que ninguém entendera ainda.
— Harry isso não é surpreendente, a prioridade deles era você, te manter seguro, nós também fizemos o mesmo, até deixamos o país. Seu pai deve ter recebido ameaças a sua mãe como eu recebi em relação a Serafina e ao Terry quando ela engravidou. Eles não aceitavam a mistura de sangue puro com o que eles chamam de sangue sujo. — Disse Falc.
— Deixe o menino falar, é obvio que ele está vendo algo que nós não. Explique Harry. — Disse Sr. Boot cada vez mais curioso.
— Ok, primeiro Sr. Falc sem querer ofender, mas meus pais eram guerreiros naquela guerra. Não sei se vocês lutaram diretamente em batalhas, mas meus pais fizeram isso e, segundo Flitwick, eram os melhores lutadores da Ordem da Fênix, eles lutaram com o próprio Voldemort e sobreviveram, feito para muito poucos. Assim, eles se esconderem não fazia muito sentido, mas o mais importante, observem a linha do tempo. — Disse Harry veementemente. — Sra. Serafina quando foi que a senhora decidiu se esconder para proteger o Terry das ameaças?
— Eu estava de quase 5 meses, ainda trabalhava no Ministério e não podia mais esconder a gravidez. Um dia fui ao banheiro e uma outra funcionaria, a quem eu dava bom dia todos os dias, entrou em seguida. Ela colocou uma faca de prata na minha barriga, disse com a maior tranquilidade que se eu não me livrasse do mestiço e deixasse meu marido puro para uma bruxa pura e voltasse para o esgoto de onde saí, ela mesma faria isso, dolorosamente. — Sra. Serafina estava pálida e Harry sentiu o estomago embrulhar ao imaginar o que ela passou. — Você tem razão Harry, eu ajudava como eu podia, resistia, mas não era uma guerreira, nunca me envolvi em uma única batalha com um comensal da morte.
— Não quis ofende-la senhora...
— Não ofendeu querido, continue, acho que estou começando a ver onde você quer chegar. — Disse ela com um sorriso triste.
— Meus pais não foram se esconder quando mamãe se descobriu gravida, ou quando eu nasci. Eu estava com 6, 7 meses, então sim, algo aconteceu, uma ameaça a mim provavelmente, pois apenas uma ameaça direta a mim os faria desistir de lutar e se esconderem sem contato externo. Pensem, papai deve ter recebido essas ameaças, mas mamãe não pararia de lutar, quando ela ficou gravida aposto que foram feitas ameaças a mim também e ela deve ter se afastado da luta direta durante a gravidez, mas depois que eu nasci aposto que ela voltou. — Harry suspirou bagunçando os cabelos. — Algo mudou, quem era mais temido naquele momento, quem seria uma ameaça além de mortal?
— Voldemort. — Sussurrou Terry de olhos arregalados.
— E se ele apontasse para mim? E se ele decidisse me matar? — Harry perguntou olhando para Serafina outra vez.
— Eles se esconderiam o mais rápido possível, mas Harry por que ele decidiria te matar? — Serafina estava ainda mais pálida.
— Não sei, isso talvez nem importe, meus pais eram um empecilho, saíram vivos, eram poderosos e talvez ele os temia ou só queria vingança. Ou queria acabar com a linha Potter, vai saber. — Disse Harry pensativo. — Meus pais perceberam que a ameaça era séria e decidiram se esconder para me proteger, abandonaram a guerra.
— Ok, isso faz sentido, mas o que tem a ver com Black? — Perguntou Falc curioso.
— Quem meus pais informariam sua localização? Quem eles manteriam contato? Quem seria escolhido seu guardião secreto? — Perguntou Harry com os olhos brilhantes.
— Black, obviamente. — Respondeu Falc.
— Exato! Pensem na linha do tempo! Se eles se esconderam em fevereiro e Voldemort queria mata-los ou a mim por vingança, porque Black não os entregou mais cedo? Porque ele só informou a localização no Halloween? — Harry perguntou impaciente.
— Hum, é uma boa pergunta, mas se Black só se virou no fim da guerra, pode ter sido em outubro ou você-sabe-quem perdeu o interesse neles já que estavam escondidos e não mais lutando contra ele, humm... não, isso não faz sentido. — Serafina disse pensativa.
— Porque não faz sentido? — Sr. Boot perguntou.
— Porque se ele perdeu o interesse em matar ou se vingar de James e Lily, porque de repente do nada resolver mata-los? Eles estavam escondidos a meses e desistiram da batalha, e isso é o oposto da questão, você-sabe-quem não desistiu, porque se ele tivesse desistido de encontra-los se esconder não seria mais necessário. — Disse Serafina abismada.
— Eu não entendi. — Disse Falc confuso.
Harry suspirou entendendo porque eles não estavam na Ravenclaw.
— Sabemos que só uma ameaça a mim levaria meus pais a se esconderem e eles continuariam escondidos pelo tempo que fosse. Meses e meses se passaram e aposto que Voldemort ainda estava tentando encontra-los, ele nunca perdeu o interesse. Voltamos ao que eu falei antes, meus pais eram inteligentes, espertos e poderosos e não contariam nossa localização a ninguém, a não ser Sirius que por meses os manteve seguro. Eles estariam sobre fortes proteções, mas aposto que Voldemort continuava procurando, eles devem ter mudado de casas e aposto que Voldemort chegou perto algumas vezes. — Disse Harry e voltou a andar de um lado para outro.
— Foi por isso que eles decidiram se esconder sob o Fidelius, a ameaça era enorme e eles deviam estar apavorados. — Disse Serafina triste ao pensar nos últimos momentos de sua amiga.
— Sim e mais atentos do que nunca, você acha mesmo se naquele mês de outubro Black tivesse mudado de lado eles não perceberiam? E se por um acaso isso aconteceu, porque Black se faria o guardião secreto com testemunhas e uma semana depois os trairiam? E porque raios eles escolheriam o guardião secreto mais obvio e teriam testemunhas que poderiam informar quem quisessem ou não quisessem? Meu pais eram inteligentes e todos sabiam da amizade de Black com eles, ele era a escolha obvia e quando Black se tornasse o guardião...
— Seria caçado, poderia ser capturado e revelar o segredo, seus pais não o escolheriam, talvez em um primeiro momento, num impulso emocional, mas aposto que eles pensariam melhor, formariam um plano diferente. Por Merlin! Black não era o guardião secreto! — Exclamou Serafina estupefata.
— Ok, entendo o raciocínio Black era a escolha obvia e ter testemunhas faz com que se perca o fundamental em um guardião secreto, ele deixa de ser secreto, ele até pode proteger o segredo, mas está exposto e assim o segredo também está. E sendo James e Lily tão inteligentes, sim eu posso entender, não faria sentido. — Disse Sr. Boot pensativamente.
— Para mim nunca fez sentindo, e ainda meus pais foram traídos, mas como poderiam ter sido traídos pela pessoa que mais confiavam, que soube por meses onde eles estavam e nunca revelou? Nunca fez sentido Black ser o traidor. — Disse Harry.
— Harry você está supondo que seus pais eram bem espertos e inteligentes para não perceberem a traição, mas isso é só uma suposição que vem dos elogios que você ouviu deles. Eles poderiam ter sido enganados. — Disse Sr. Falc e Serafina o olhou irritada.
— Não apenas dos elogios Sr. Falc, mas do amor deles por mim. O senhor e a Sra. Serafina largaram tudo para proteger Terry de uma ameaça direta, meus pais fizeram o mesmo. Pense naqueles meses todos se escondendo, mudando de casas, não fornecendo a localização para ninguém nem mesmo a família, verificando visitantes bem longe antes de leva-los até sua casa segura. Quem sabia sua localização? Apenas uma pessoa de confiança e aposto que o senhor ficava atenta a essa pessoa, para ter certeza que era ela ou que não estava imperiosa. Estou certo? — Questionou Harry duramente.
— Sim, você está certo. — Admitiu Sr. Falc de cenho franzido
— Meus pais eram assim também. Mas vamos fazer esse exercício, meus pais não perceberam e Sirius mudou de lado na guerra em outubro, Voldemort ainda estava tentando mata-los assim porque não entregar a localização deles? Porque se colocar como responsável direto pela traição ao se tornar o guardião secreto e com testemunhas? — Perguntou Harry indignado.
— Ok, concordo que não faz sentido. — Disse Sr. Falc e se levantou também tentado entender tudo o que ouvira. Como era possível? — Existem duas questões, se Black não era o guardião secreto quem era? E como não descobriram isso em seu julgamento?
— Eu não sei última resposta, mas a primeira, Sra. Serafina já respondeu. — Disse Harry calmamente, era bom ver que todos agora não só entediam, mas também acreditavam nele.
— Eu? Mas... eu não sei quem é guardião secreto. — Serafina estava além de confusa.
— Terry disse que não teria sentido Black lançar um feitiço tão escuro e ser pego por ele, se sua intenção era fugir. Ele era esperto, se ele estivesse mesmo em fuga teria se protegido ou aparatado depois de lançar o feitiço que ele saberia causaria uma explosão. — Harry disse animado. — Mas já sabemos que ele não era o guardião, então Black não estava em fuga, ele estava perseguindo alguém que estava fugindo, Pettigrew.
— Claro! Pettigrew lançou o feitiço porque sabia que Black era mais poderoso e ia vence-lo em um duelo, ele precisava de uma distração para fugir e aposto que seu corpo não foi encontrado porque ele aparatou assim que explodiu toda a rua. — Disse Terry se levantando também animado. — Vovô eles encontraram o corpo de Pettigrew?
— Não, Crouch me disse que só encontraram seu dedo, mas supor que ele era o guardião e que ele fugiu depois de matar todas aquelas pessoas, isso teria surgido no julgamento. — Sr. Boot insistiu, mas seu rosto estava meio esverdeado.
— Um dedo? Houve uma explosão que matou 12 pessoas e seus copos estavam presentes e o que eles acharam que aconteceu com o resto de Pettigrew? Mesmo se ele fosse pulverizado, haveria sangue, ossos, crânio. — Terry disse indignado. — O fato de ter desaparecido e restado apenas um dedo deveria ter sido um alerta, porque se o feitiço tinha essa intenção, de fazê-lo desaparecer, porque só restaria um dedo? Merlin, as vezes me pergunto como os bruxos sobrevivem com a lógica e bom senso de um bebê.
— E mais uma vez isso teria sido apontado pelo advogado de defesa. E sobre as testemunhas, em um julgamento, a personalidade das vítimas e do réu são expostas, papai, Crouch te falou das testemunhas de acusação e sobre as testemunhas de defesa? Se elas falassem sobre a relação de James e Sirius, que um jamais trairia o outro, que os Potters estavam escondidos a meses e não foram encontrados, até fazerem o Fidelius e que eram muito inteligentes para fazerem do guardião a escolha mais óbvia e ainda com testemunhas. — Sr. Falc também se levantara e andava de um lado para outro agitado e confuso.
— Harry ainda não entendi porque você disse que eu falei que Pettigrew era o guardião. — Questionou Serafina curiosa.
— A senhora descreveu os quatro muito bem, é a única pessoa nesta sala que conviveu com eles, ainda que não próxima. Mas a senhora não observa o que lembra deles com sua mente de anos atrás e sim com sua inteligência e capacidade de hoje. Quando a senhora falou deles, parecia uma professora descrevendo um aluno, e sua descrição do Peter foi, fraco nos estudos, não poderoso ou com algum talento marcante, apenas você o percebia porque estava lá seguindo os garotos bonitos e populares, seguindo, adorando e obedecendo. — Disse Harry e viu como todos arregalaram os olhos ao entender.
— Eu... sim, quando me lembro de Pettigrew é essa a lembrança, ele os seguiam, adorando e fazendo o eles lhe diziam para fazer. Mas os outros três gostavam dele, cuidavam mesmo — Serafina estava abismada.
— Pettigrew viu em meu pai e Sirius os líderes para seguir, assim ele era popular e se divertia, mas também era protegido. Aposto que quando os Slytherins o provocava, seus amigos defendiam ele. Mas então eles deixaram a escola, no mundo real as coisas eram diferentes e havia uma guerra, meu pai estava concentrado na família e escondido a meses e meses. Os outros três deveriam estar na tal Ordem ocupados e se arriscando combatendo os comensais da morte. — Disse Harry pensativo.
— Peter não era poderoso e é bem possível que não participasse das lutas diretas, poderia ajudar com observação e proteção, mas ainda assim devia correr riscos e como vovô disse, muitos mudaram de lado quando perceberam que Voldemort estava ganhando. — Acompanhou o raciocínio Terry.
— Claro, você-sabe-quem era o novo líder popular para seguir, adorar e servir e que o protegia, ou pelo menos, o deixava vivo. — Completou Serafina.
— Ok, mas Harry você mesmo disse que seus pais eram inteligentes, como eles perderam que Pettigrew era um espião? — Perguntou Sr. Falc com leve cinismo. Nada dessa história era possível, por mais sentido que tivesse.
— Falc! Não seja grosseiro. — Sra. Serafina estava zangada.
— Está tudo bem, Sra. Serafina. Eu posso apenas adivinhar ou deduzir como com tudo o mais, Sr. Falc. Desde que cheguei ao mundo magico quis saber mais sobre meus pais, Terry me falou muito deles, mas então a Sra. Serafina me enviou aquelas cartas e bem, eu não sei tudo sobre eles, senhor, e não me lembro do que aconteceu. O que eu sei deles é que eles me amavam... — Harry abaixou a cabeça e olhou para as mãos, piscou para afastar as lagrimas, constrangido. — Sei que o homem escolhido por eles para ser meu padrinho, meu guardião não poderia ser mal, eles eram boas pessoas, inteligentes e intuitivos e é por isso que nunca fez sentido que Black fosse o espião, ainda que antes eu só tinha dúvidas, agora eu tenho certeza. Sobre Pettigrew, eles eram amigos desde a escola e é possível que o que vemos como um seguidor, eles vissem como lealdade. Ele devia parecer inofensivo e a última pessoa que eles considerariam traí-lo, porque se não teriam escolhido outro amigo, Lupin ou outros membros da Ordem. Eles confiaram nele, senhor, mas aposto que Pettigrew não estava listado como um dos meus guardiões no testamento, estava?
— Não Harry, Pettigrew não estava na lista. — Sr. Falc respondeu e suspirando se aproximou de Harry. — Me desculpe, o que eu disse foi mesquinho, apenas tudo isso faz sentido, mas não é possível, no julgamento todos esses fatos apareceriam...
— Sim, apareceriam... — Sr. Boot o interrompeu, ele estava ouvindo a conversa de frente a janela, olhando para o dia frio e ventoso. — A não ser que..., mas não, não, isso não é possível...
— Papai? — Sr. Falc questionou confuso.
Sr. Boot se virou na direção deles parecendo além de assombrado, ele deu passo à frente e cambaleou. Sr. Falc se adiantou rapidamente e o firmou segurando seus braços.
— Papai, o que você tem? — Sr. Falc estava preocupado.
— Eu preciso sair, preciso ter certeza, se eles fizeram... — Sr. Boot parecia em choque e andava na direção da porta, Sr. Falc o segurou suavemente.
— Pai, do que está falando? O senhor não pode sair assim, me diga o que está pensando. — Sr. Falc foi firme, mas o pai continuou a caminhar para a saída.
— Não, preciso ir ao Ministério, preciso ter certeza, se eles fizeram..., Merlin nos ajude. Não tente me impedir Falc. — Disse Sr. Boot aflito.
— Ok, ok, mas vou com o senhor, não tem como eu deixar que saia sozinho neste estado. — Sr. Falc foi firme.
— Sim, é melhor que venha comigo, teremos que ser discretíssimos e precisarei de sua ajuda. Sim, sim, é o melhor, vamos imediatamente. — Sr. Boot saiu da sala sem se despedir, sua mente parecia estar em outro lugar, provavelmente, no lugar para onde estava indo fazer o que seja lá fosse tão urgente.
— Falc... — Sra. Serafina se aproximou do marido preocupada.
— Preciso ir como ele, querida, não posso deixa-lo sozinho, voltarei o mais rápido possível. — E saiu da biblioteca atrás do pai.
O silencio na biblioteca foi pesado e Harry observou que seu amigo e a mãe dele estavam preocupados e angustiados. Olhando para a porta, desejou que eles ficassem seguros.
— Bem, não sabemos o quanto eles vão demorar e já passou do horário do almoço. Acredito que o melhor é comermos alguns sanduíches e depois fazermos alguns estudos. Agora que o Natal passou temos pouco tempo para trabalharmos seus pontos fracos. — Sra. Serafina falou enquanto se dirigia a cozinha, era obvio que estava tentando manter alguma normalidade, mas não era muito boa em disfarçar.
Enquanto comiam ela o olhou algumas vezes, parecia querer perguntar alguma coisa, mas Harry estava muito cansado e esperava que não houvesse mais debates. Mas ele não teve tanta sorte.
— Harry, queria te dar os parabéns por todo esse processo mental, foi incrível, realmente. Nem mesmo nós adultos entendemos e agora parece tudo tão obvio. — Sra. Serafina lhe disse suavemente. — Infelizmente, os bruxos as vezes ignoram o obvio, mas suas deduções foram brilhantes.
— Eu não me surpreendo, Harry é muito inteligente mamãe. O chapéu não o colocou na Ravenclaw por acaso como ele pensa e quanto mais usa o cérebro mais essas ideias vão surgindo. — Disse Terry sorrindo para o amigo.
Harry não disse nada, apenas assentiu e sorriu levemente.
— Você está bem, Harry? — Sra. Serafina perguntou preocupada.
— Eu apenas... — suspirando Harry largou o sanduíche, estava sem apetite mesmo. — Estou preocupado com o que vai acontecer agora, não acho que minhas brilhantes deduções vão solucionar a bagunça que o Ministério conseguiu fazer com um caso que deveria ser simples. — Harry fechou as mãos em punhos apertados. — Black é minha única família, meu padrinho, meu guardião, mas passou os últimos 10 anos em uma cela e por algo que tenho certeza que não fez. E, eu cresci nos Dursley... — Ele ficou sufocado com a raiva que o percorreu. — Eu pensei que não tinha ninguém no mundo além deles e já perdera a esperança de que alguém aparecesse para me tirar de lá. Dia após dia sendo desprezado, humilhado, trancado, punido por respirar, por existir.
— Harry... — Terry falou baixinho, mas sua mãe o calou com um gesto.
— Tudo o que eu tentei para agrada-los, para que eles não me odiassem sem entender o que eu tinha feito além de ser deixado em sua porta, mas mesmo isso não foi minha culpa. Eu tentei Sra. Serafina, eu tentei, eu lavei, limpei, cortei o jardim, cozinhei, fiquei quieto quando mandavam, comi pouco ou quase nada a não ser que a fome apertasse. — Harry fungou e piscou, não choraria. — Até deixei de pensar, acho que um pouco foi da desnutrição, mas um pouco foi eu tentando não ser muito diferente deles, pensando que se eu fosse comum, normal eles poderiam me amar. Mesmo quando descobri que era um bruxo tudo o que eu queria era ser apenas Harry, não um herói ou um herdeiro ou o melhor aluno. Mas eu descobri que sou inteligente, que sou bom em Feitiços, Poções, e voar e outras coisas e isso vai contra ao que eu aprendi sobre mim e que eu tentei ser, minha mente está sempre cheia de pensamentos e ideias, nunca para e eu não quero que pare, mas eu não sei como não ser apenas Harry. Tudo as vezes é demais. E minhas deduções sobre Black, eu não fiz nada, não tentei nada, usar meu cérebro, ou minha inteligência. — Disse Harry com um certo auto depreciação. — Apenas tudo foi se ligando, primeiro ao saber que ele era o melhor amigo dos meus pais, como um irmão, por Flitwick, e depois Sr. Falc disse que ele era meu padrinho e o primeiro na lista de guardiões. O maior presente que eu ganhei desde que nasci foi o amor dos meus pais, eu não apenas sei que eles me amam, eu sinto o amor deles por mim, sem dúvida e... — Harry suspirou angustiado. — Sei que se eles me amavam como eu os amos, como a senhora ama seus filhos, não seria possível que Black fosse o traidor e responsável por seus assassinatos. Isso não é inteligência, é apenas fé, eu acredito no amor deles, Sra. Serafina, e é por causa disso, desse amor que eu não posso ser comum, eu não posso ser apenas Harry. Mesmo que seja difícil eu tenho que ser mais e melhor e os Dursleys que vão para o inferno.
— Amém. — Sra. Serafina disse olhando para ele com tristeza e carinho.
Terry que estava pálido e com algumas lagrimas no canto dos olhos, olhou para a mãe boquiaberto por ela apoiar tal palavrão, quando ela percebeu acrescentou:
— E não fale palavrão, Harry.
Harry não aguentou e riu, logo os dois riram também.
Sentindo-se melhor por seu desabafo, ainda que um pouco constrangido, Harry passou o resto da tarde estudando e aprendendo mais gramatica e interpretação de texto. Sra. Serafina lhe deu várias dicas de leitura e o incentivou a escrever no diário que seu irmão lhe dera de Natal. No fim do dia Sr. Falc e o pai ainda não tinham chegado, mas Ayana e Adam sim e contaram sobre seu passeio ao shopping e do filme que assistiram no cinema. Depois do jantar Harry exausto decidiu ir dormir cedo, ele queria esperar o Sr. Falc, mas sua cabeça doía e depois da Sr. Serafina lhe dar uma poção para dor, sonolento vestiu seu pijama, tomou suas poções e apagou em instantes.
Quando acordou ainda era noite, tinha sono leve e algum barulho o acordara. Ouvindo com atenção percebeu que eram vozes abafadas, levantando-se colocou os chinelos e abriu a porta, o corredor estava vazio, mas ele seguiu e desceu as escadas.
— O melhor é você dormir agora, Falc, você está exausto e não pode fazer nada hoje ou neste estado. — Serafina sussurrava.
— Papai está pior, nunca o vi assim, primeiro ficou furioso, parecia querer matar alguém, tive que o obrigar, quase que fisicamente, a voltar para a Abadia, mas depois ficou tão triste, desiludido e abatido, foi como quando Malfoy saiu livre e ninguém fez nada para provar seus crimes, a morte de Carole. Merlin...
— Falc me escute, amanhã teremos que explicar para as crianças, para Harry. Você tinha que ver, Falc, tão preocupado e confuso, ele já passou por tantas coisas, mais esse golpe vai ser difícil. É tão injusto. — Sra. Serafina estava chorando.
— Querida, não chore, nós vamos cuidar dele, vamos resolver isso. Você está certa, estamos exaustos e é muito tarde, vamos dormir pelo que resta da noite e amanhã... — Sr. Falc caminhou na direção da escada abraçado a Sra. Serafina e Harry rapidamente subiu e entrou em seu quarto.
Com o coração acelerado Harry se deitou sob as cobertas e tentou se aquecer, mas o medo do que poderia ter acontecido ao seu padrinho o acompanhou em seus sonhos, mas não era um sonho ruim, havia uma moto e ela voava, Harry sentiu alegria e segurança e quando acordou bem mais tarde do que está acostumado desejou que aquele sentimento o acompanhasse para sempre.
O domingo tinha sido combinado que eles iam para a Abadia, Harry ainda não a conhecia e além disso Sr. Boot queria discutir o livro de seu avô com ele e lhe contar histórias sobre sua família. Quando desceu as escadas Harry estava com o coração acelerado, seu maior medo era ouvir que seu padrinho, assim como seus pais estava morto. Quando entrou na cozinha encontrou Sra. Serafina preparando o café da manhã, estava abatida e preocupada, Sr. Falc estava olhando pela janela o quintal branco da neve que caíra durante a noite, pensativo e com olheiras bebia uma xícara de café de verdade pelo cheiro, Harry percebeu, e não o costumeiro chá.
As crianças ainda não tinham descido e quando o viram, os dois ficaram tensos e a Sra. Serafina sorriu e tentou agir normalmente.
— Harry, você já acordou, eu estou um pouco atrasada, mas em alguns minutos o café da manhã estará pronto.
Mas Harry não queria agir como se nada estivesse acontecendo, ele queria saber e não adiar saber, seja o que fosse precisava encarar de uma vez.
— Sr. Falc, o senhor poderia me dizer o que o Sr. Boot e o senhor descobriram? — Pediu ele encarando o Sr. Falc firmemente.
— Harry...
— Não Serafina, ele merece saber, mais do que ninguém Harry tem o direito de saber a verdade, até porque nem saberíamos de nada disso se não fosse por ele. — Sr. Falc interrompeu a esposa que apenas suspirou e começou a preparar um chá.
— Bem, se vamos ter essa conversa antes do café da manhã, pelo menos tomaremos um chá ou café no seu caso Falc. — Disse ela e em instantes os três estavam sentados na mesa.
Harry esperou, controlando a impaciência e pegou o chá que não queria beber e tomou um gole, mas nem ele afastou o frio que o percorria, ou diminuiu o medo.
— Harry, não tem um jeito fácil de lhe contar isso... — Começou Sr. Falc hesitante.
— Ele está morto? Sirius está morto? — Harry não aguentou mais e perguntou o que mais temia.
— O que? Não Harry, não, ele não está morto, ele está em Azkaban, mas... — Sr. Falc viu o alivio no rosto do menino e sentiu seu coração se partir. — Harry, Azkaban é uma prisão magica, guardada por seres terríveis, os Dementadores. E.… você precisa estar preparado Harry, Black não será o mesmo, depois de 10 anos com os Dementadores, é possível que ele tenha enlouquecido e...
— Louco? Os Dementadores deixam as pessoas loucas? E porque guardam Azkaban? — Harry perguntou com um gosto amargo na boca, ele estava vivo, mas o que foi feito dele?
— Os Dementadores, eles agem em nossa psique emocional, eles tiram todos os sentimentos bons, nos faz lembrar das nossas piores lembranças, as mais terríveis, as mais tristes até que tudo o que você sinta seja um profundo desespero, uma sensação de que nunca mais vai voltar a ser feliz. Eles consomem as boas lembranças e então você até esquece quem é porque isso afeta sua memória, suas emoções. — Explicou Sra. Serafina tristemente e muito pálida. — E eles defendem Azkaban, porque o Ministério é preguiçoso e corrupto e o mundo magico não vê nada de errado em nos associarmos com essas criaturas vis.
Harry acenou sem saber o que mais poderia dizer, mas tinha algo que ele ainda não sabia.
— O que aconteceu no julgamento dele Sr. Falc? As testemunhas mentiram? Não deixaram ele apresentar sua versão com uma penseira ou a poção da verdade? — Harry questionou determinado a saber e talvez entender. — Os senhores foram ao Ministério acessar o julgamento dele, não foram?
Sr. Falc engoliu em seco e passou as mãos pelos cabelos, anormalmente, bagunçados, era obvio sua angustia.
— Sim, nós fomos, papai estava determinado e não foi tão difícil quanto pensamos, por ser sábado o Ministério estava vazio e o tribunal está em recesso por causa das festas, não havia um único funcionário. Nós temos acessos especiais por sermos advogados e conseguimos chegar aos arquivos dos julgamentos, nos registramos como pesquisadores e isso é muito comum, advogados que pesquisam antigos julgamentos para encontrar um precedente ou ideias para novos casos, assim ninguém vai desconfiar de nada. E...
— Falc, querido, você está protelando, conte ao Harry, como você disse, ele merece saber. — Interrompeu Sra. Serafina, carinhosa.
— Sim, sim, me desculpe, apenas me sinto envergonhado e... — Sr. Falc o encarou e parecia realmente envergonhado, além de angustiado. —Harry, nunca houve um julgamento. Sirius Black foi enviado diretamente para uma cela de segurança máxima em Azkaban, sem nem ao menos ter sido interrogado.
As palavras deveriam ter surpreendido Harry, mas isso não aconteceu, em seus 11 anos de vida já vira, ouvira e sofrera muitas injustiças e o mundo magico por seu conhecimento não era nada justo ou confiável. E lá no fundo de sua mente ele já sabia, quisera acreditar em um erro, ou mesmo em um julgamento injusto, mas a verdade é que a única maneira de todas as obvias deduções que ele fizera ter passado sem que, uma única pessoa as percebesse e apontasse, seria se um julgamento nunca tivesse existido. E ele estava com raiva, muita raiva e sua vontade de explodir o mundo que fizera isso com seu padrinho e ele era enorme, mas essa situação não pedia suas características Gryffindor, o que ele precisava era se manter frio e pensar, encontrar uma maneira de solucionar toda essa grande, horrível e injusta bagunça.
Assim, engolindo a vontade de esbravejar sua fúria, olhou para o Sr. Falc e se concentrou no mais importante.
— E o que fazemos para tira-lo de lá? — Perguntou Harry friamente.
