Capítulo 68
A notícia de que os aurores deixaram Hogwarts se espalhou rapidamente naquela manhã de sábado de São Valentin e trouxe a tensão e o medo de volta aos alunos. Mesmo a visita a Hogsmeade não conseguiu apagar isso, pois todos tinham a sensação de que eram as suas presenças que impediram novos ataques e, agora, temiam não estarem mais seguros. Os alunos mais velhos, que tinham autorização para deixar a escola, saíram aliviados, apesar de todo o frio e neve. Os alunos do primeiro e segundo ano, se trancaram em suas Salas Comunais, ansiosos por ficarem quentes e seguros.
Harry, Neville e Terry se dividiram entre estudar, treinar, visitar Hermione, os outros petrificados e, por fim, decidiram se instalar no quarto do Harry, onde teriam mais privacidade e segurança para conversar.
— Você acha que foi a OP Travessa do Tranco que os tirou de Hogwarts? — Neville perguntou tomando o seu chá e comendo um sanduíche.
— Deve ser, não sei de outra Operação e Sirius disse que eles estavam perto de encerrar. Isso foi no Natal, assim, acredito que faz sentido pensarmos nessa linha de tempo. — Disse Harry pensativo e revendo suas anotações da investigação. — Acredito que o mais incomum nos últimos dias é a atitude de Lockhart, mas, como poderemos investigá-lo? Usar a capa para entrar em seu escritório?
— Me parece algo arriscado, mas, sem os aurores por toda a parte, deve ser o melhor momento. — Disse Terry e, indo até a lareira, colocou mais lenha para aumentar o fogo. — Revimos nossas anotações dezenas de vezes, repassamos tudo o que sabemos e não podemos deixar passar uma atitude tão incomum de alguém, mesmo que seja um adulto.
— Concordo, até porque, se Voldemort estava quieto por causa dos aurores... — Harry se interrompeu e olhou para o Terry. — O que você disse?
— O que? Agora? — Terry o olhou confuso e se levantou lentamente, percebendo que ele teve uma ideia. — Que não devemos deixar nenhuma atitude estranha passar, não importa quem.
— Que idiota eu sou! — Harry se levantou e largou suas anotações. — Quem esteve tendo uma atitude estranha desde o primeiro ataque? Praticamente nos evitando, parecendo triste e preocupado, mudando de assunto o tempo todo?
— Hum... — Neville olhou pensativo para Terry, que deu de ombros. — Hagrid?
— Sim! — Harry pegou sua mochila para pegar o mapa, depois, mudou de ideia. — Tenho certeza que ele sabe de alguma coisa e pretendo que me diga, mas, irei sozinho com a capa, assim, corremos menos riscos do que ir os três visíveis, principalmente, se estivermos sendo seguidos.
— O que você dirá a ele? — Terry perguntou curioso.
— Vou interrogá-lo e não serei bonzinho, acho que já passamos dessa fase. — Disse Harry com firmeza e rapidamente deixou o quarto e a Torre invisível.
Apesar de bem encapotado e com feitiços de aquecimento, Harry demorou para vencer a neve alta do jardim para chegar a cabana de Hagrid. Ele bateu na porta com força e, alguns segundos depois, Hagrid escancarou a porta empunhando uma besta e expressão feroz. Canino, o cão de caçar javalis, o acompanhava dando fortes latidos.
— Quem está aí? — Ele grunhiu e Harry se abaixou sob seu braço, entrando na cabana.
— Sou eu, Hagrid. — Disse ele tirando a capa. Hagrid se assustou com sua voz e se virou em sua direção. — Precisamos conversar. — Acrescentou com firmeza.
— Ah! — Exclamou ele, baixando a arma e encarando-o confuso. — Que é que você está fazendo aqui? Sozinho, ainda por cima, não sabe como é perigoso?
— Sei bem, Hagrid e, pela besta, imagino que esteja esperando visitas hostis. — Disse Harry com a sobrancelhas arqueadas.
— Oh... não é nada... nada... – murmurou Hagrid. – Estou apenas um pouco preocupado... não faz mal ser cauteloso. — Hagrid olhou tensamente pela janela. — Sente-se... Vou preparar um chá...
Ele parecia não saber muito bem o que estava fazendo. Quase apagou a lareira ao derramar água da chaleira e em seguida amassou o bule com um movimento nervoso da mão enorme.
— O que está acontecendo, Hagrid? — Perguntou Harry, pois jamais vira o amigo tão angustiado.
— Ora, você sabe, Harry, os ataques e os aurores partindo, acredito que estamos todos preocupados... — respondeu Hagrid, com a voz ligeiramente falha.
Ele não parava de olhar nervoso para as janelas. Harry ficou em silêncio ao vê-lo trabalhar e lhes servir dois canecões de água fervendo, pois se esquecera de pôr chá na chaleira.
— O que eu sei é que você sabe de algo importante e preciso que me diga, Hagrid. — Disse Harry suavemente e começou a preparar o chá ele mesmo.
— O que? Não! Eu não sei de nada! Quem disse isso? — Hagrid agora parecia em pânico e Harry sentiu seu coração se apertar.
— Você. — Harry serviu o chá e pegou algumas bolachas que ele ensinara o guarda-caça a assar. — Seu medo, suas expressões, suas evasões, sempre evitando conversar sobre a Câmara Secreta, mudando de assunto ou fugindo.
— Impressão sua, Harry. — Disse ele e bebeu um gole do chá quente queimando a língua. — Eu sei o que todos sabem... nada mais...
— E, você mente muito mal. — Harry se sentou na sua frente e observou seus olhos negros como besouro olhando para todas as direções, menos para ele.
— Acho que não deveria estar aqui, Harry, logo escurecerá e é muito perigoso... depois do chá, é melhor voltar para o castelo...
— Não vou embora enquanto não me disser o que sabe. — Harry respondeu em tom definitivo. — Mas, antes, quero que entenda que seja o que for que me disser, não contarei a ninguém que não seja da minha confiança. Se quiser, ficará apenas entre nós dois.
Hagrid parecia encurralado, se levantou, andou até a janela para ter certeza que ninguém se aproximava e seu medo pareceu aumentar.
— Estou com medo, Harry... talvez, devesse fugir, mas, Dumbledore está aqui e ele me protegerá... sei que sim. — Sussurrou ele e Harry franziu o cenho, pois isso não era o que esperava ouvir.
— Todos te protegeremos, Hagrid. — Ele afirmou convicto. — O que você teme? — Harry percebeu seu conflito, quase desespero e, se levantando, pegou seu braço suavemente. — Sente-se e me conte tudo, sabe que pode confiar em mim e te ajudarei no que precisar. Sempre.
Hagrid acenou e se sentou, depois, fungando, tirou um grande lenço, que mais parecia uma fronha e assoou o nariz.
— Os aurores estão me vigiando dia e noite. — Hagrid disse e seus olhos mostravam desespero. — Eles acham que foi por causa disso que não houveram mais ataques, eu os ouvi conversando no jardim. Se acontecer um ataque agora que não estão aqui, sei que me enviarão para Azkaban, sabe, porque eles já queriam me prender antes.
— O que? — Harry arregalou os olhos chocado.
— Sim. Fudge está desesperado para mostrar serviço ao público, você leu o profeta, quase todos os dias tem algum artigo o criticando e os boatos são de que ele não sobrevive as eleições do ano que vem. — Hagrid explicou e torceu o lenço ansiosamente. — Ele queria me levar depois do último ataque, mas, Dumbledore não deixou, pois, disse que não haviam provas e, foi por isso, que os aurores ficaram de vigília.
— Espere. — Harry tentou entender toda essa situação absurda. — Você quer dizer que os aurores ficaram para te vigiar? Não para encontrar o atacante e a basilisco?
— As duas coisas, claro. — Hagrid o olhou com uma expressão triste. — Moody e King não acreditam que sou o responsável, mas, o Dawlish, que ficou hospedado e comandando os outros aurores e recrutas, tem certeza que sou o atacante, assim, eles praticamente acamparam em meu jardim e me seguiram por todos os lados.
Harry não conseguia acreditar em tanta incompetência. Ele estava preocupado em chegar a garota antes dos aurores, mas, sua tensão foi um desperdício, porque esses idiotas nunca descobririam nada, mesmo que fosse desenhado a resposta a eles.
— Sinto muito, Hagrid. De verdade. — Harry suspirou pensando em como poderia ajudá-lo. — Olha, não deixaremos que seja enviado para Azkaban por causa da incompetência dos aurores e do Fudge. A sua ideia de fugir é muito boa, mas, apenas se houver outro ataque e é por isso que estou aqui. Sinto que você sabe de alguma coisa que poderia me ajudar a resolver todo esse mistério, Hagrid e preciso que me conte.
— Mas... Harry, você não deve se envolver, é muito perigoso e... — Hagrid parecia em conflito e Harry resolveu pressionar.
— Você sabe o que aconteceu com a Hermione, além dos outros, Hagrid. Eu lutei com a basilisco naquele dia e sei que, se descobrir tudo, posso impedir que mais pessoas se machuquem. — Harry falou com firmeza.
— O problema não é a basilisco, Harry, é muito pior, a pobre coitada não é tão perigosa, mas... ele... — Hagrid se deteve e parecia meio assombrado.
— Voldemort?
— Não diga o nome! — Hagrid estremeceu e seu medo pareceu aumentar. Ele se levantou e voltou a vigiar as janelas meio em pânico.
— Ok. Não gosto disso, mas, tentarei evitar o nome do assassino dos meus pais, apesar de achar isso uma grande covardia. — Disse Harry duramente. — De qualquer forma, eu sei que ele é o responsável pelos ataques, Hagrid e sei o que estou enfrentando. Eu lutei com ele no ano passado, lutei com a basilisco e, se esperarmos que esses aurores idiotas descubram e resolvam alguma coisa, mais pessoas podem acabar petrificadas ou pior.
— Você não entende... — Hagrid o olhou parecendo magoado. — Não se trata de covardia... você não sabe como foi, o que eu passei, mas, isso não importa agora... O mais importante é que você se não coloque em perigo, deixe que Dumbledore resolva tudo, é melhor não se envolver, Harry.
— O nome dela é Freya. — Disse Harry suavemente.
— O que? — Seu amigo gigante o encarou confuso.
— A basilisco, se chama Freya. — Harry se levantou e acenou com a varinha conjurando uma cobra que olhou em volta confusamente. — Venha, suba em meu braço e não machuque ninguém. — Disse ele em ofidioglossia.
— O que... — Hagrid se repetiu de boca aberta.
— Eu falo a língua das cobras, Hagrid e as entendo também. — Harry ergueu a serpente, que sibilou sinuosamente. — Essa daqui, disse que está com muito frio e quer ficar perto do fogo para se aquecer. Posso?
Hagrid acenou abismado e se deixou cair em sua poltrona, enquanto via o Harry colocar a cobra em uma almofada perto da lareira e sussurrar algo para ela em uma língua desconhecida. Canino olhou para a cobra e, gemendo de medo, se afastou para o outro lado da cabana e deitou-se aos pés da enorme cama de Hagrid.
— Freya? — Sussurrou ele chocado. — Pobrezinha...
— Ela é uma predadora, Hagrid, cruel e implacável, mas, sim, é muito triste que ela esteve presa e escravizada por Slytherin e Voldemort durante todos esses séculos. — Harry voltou a se sentar e suspirou. — Eu os ouvi conversando, Hagrid, ela o chama de mestre, imagine isso. Uma criatura tão poderosa, servindo a um bruxo horrível como ele, mas... — Harry pegou o Athame e mostrou ao amigo. — Eu pretendo libertá-la, Hagrid. Flitwick, Terry e Neville me ajudarão, assim, não estou sozinho. Além de matar a basilisco, quero salvar a menina que está sendo usada por ele. Os aurores disseram que pretendem expulsá-la de Hogwarts ou pior, enviá-la para Azkaban, mas, ela é inocente, Hagrid e eles não se importam.
Hagrid encarou com olhos arregalados o Athame e, depois, o Harry, sua firmeza, confiança e planejamento.
— Você vai mesmo fazer isso, não é? — Ele sussurrou um pouco surpreso, mais uma afirmação que uma pergunta.
— Com certeza, eu irei, mas, se me disser o que sabe, talvez, tudo acabe mais rápido, meu amigo. — Harry respondeu com sinceridade.
— Você... me deixaria ajudar? — Hagrid perguntou suave e ansioso.
— Claro. Desde que mantenha segredo e não queira ficar com a Freya como animal de estimação. — Disse Harry rindo, mas, surpreendentemente, Hagrid começou a chorar. — Hagrid? O que...
— Sinto muito, sinto muito... Eu fui tão tolo... — Disse ele usando o lenço para tentar enxugar as lágrimas enormes que escorriam por seu rosto barbudo. — Eu o negociei e o criei desde o ovo... era pequeno assim, cabia na palma da minha mão quando nasceu... — Hagrid estendeu a mão gigantesca e Harry tentou imaginar o que poderia ser, porque a basilisco não lhe parecia possível. Outro dragão?
— Hagrid, estou confuso, está falando sobre uma criatura mágica que você criou? — Harry falou bem suavemente e viu o amigo respirar fundo tentando se acalmar.
— Eu era um garoto, poucos meses mais velho que você, Harry. — Hagrid assoou o nariz com um grande barulho de buzina. — Ia começar o terceiro ano e... meu pai faleceu naquele verão, antes do início das aulas... — Mais lágrimas caíram por seu rosto. — Papai era o mais incrível, eu o carregava no meu ombro para todo o lugar e ele ria sem parar. O mais doce riso... — Ele deu uma longa fungada. — Então, eu tive a ideia de ir atrás da minha mãe no... — Hagrid se deteve um pouco atrapalhado e corou. — Não importa..., bem, mamãe tinha me abandonado logo depois que eu nasci e, assim, decidi ir atrás dela, mas, ela não me quis, disse que o meu lugar era aqui e me escorraçou. — Ele pigarreou tentando afastar a voz rouca. — No caminho de volta, eu trabalhei para algumas pessoas, ajudei algumas com seus animais e, um deles, me deu um ovo de acromântula como pagamento. Imagine isso!
Harry abriu a boca um pouco apavorado ao ver os olhos brilhantes de entusiasmo do amigo.
— Eu... Hagrid... você... Uma acromântula! Como, uma aranha gigante? — Harry se engasgou chocado.
— Sim, quando ele nasceu, era do tamanho da minha mão, completamente inofensivo, o coitadinho e eu cuidei dele e o mantive escondido em meu quarto. — Hagrid explicou e parecia uma criança tentando justificar sua travessura. — Mas, então, eles o descobriram, graças ao Tom e tudo explodiu na minha cara, mas, Aragogue não machucou ninguém e eu disse isso ao Diretor Dippet. Hoje, Aragogue tem o tamanho da minha cabana, sabe. No entanto, naquela época, era só um filhotinho inofensivo, mas, uma menina tinha morrido e o Diretor disse que não tinha escolha e, então, eles me expulsaram e queriam me enviar para Azkaban, mas, Dumbledore não deixou e me contratou como Guarda Caça quando se tornou o Diretor de Hogwarts.
Hagrid disse tudo em um só folego, meio divagando e se justificando como se precisasse que o Harry acreditasse nele e temesse que isso não aconteceria.
— Espere. — Harry fechou os olhos e moveu todos os fatos em sua mente. — Você é a pessoa que foi acusada de abrir a Câmara Secreta a quase 50 anos, foi por isso que foi expulso e, ainda, quase acabou tendo o mesmo destino de Sirius. — Disse ele pensativo, lembrando-se do que dissera Dumbledore na reunião que tiveram depois do último ataque. — Hagrid... isso quer dizer que você estava aqui quando a Câmara foi aberta da primeira vez e você estudava com vol..., com ele, você sabe o seu verdadeiro nome! — Harry se levantou chocado, todo esse tempo e Hagrid tinha algumas respostas as suas perguntas e, talvez, não lhe ajudasse a encontrar a garota, mas, ainda assim, poderiam ser importantes. — Conte-me, Hagrid, conte-me tudo o que aconteceu.
— Bem, eu tinha Aragogue escondida em meu quarto em uma caixa e, um dia, logo depois que a menina Myrtle foi morta, Tom apareceu e me acusou de ser o responsável. — Hagrid parecia meio indignado. — Ele disse que eu deveria ter me descuidado dele e, agora que a garota estava morta por minha culpa, Hogwarts seria fechada. Tom disse que não poderia deixar isso acontecer e entregaria Aragogue aos aurores, ele seria morto e eu, preso, mas, eu não deixei, não, não, não. Nós lutamos, eu gritei para Aragogue fugir, ele me atendeu e fugiu para a Floresta. Ainda assim, Tom me acusou para o Diretor Dippet e, ele estava tão desesperado, que decidiu me expulsar. Dumbledore evitou minha prisão, pois alegou que não haviam provas verdadeiras e, mais tarde, me deixou viver e trabalhar.
— E, como não houve mais ataques, você ficou parecendo o culpado, mas, Hagrid, todos sabem agora que a criatura da Câmara é uma basilisco e que você criava uma acromântula. Não entendo porque ainda desconfiam de você. — Harry disse inconformado.
— Dumbledore disse isso mesmo ao Ministro, mas, Fudge respondeu que, se eu criei uma aranha gigante, devo estar criando uma cobra gigante também. — Disse ele voltando a torcer o lenço enorme. — Se fugir, parecerei ainda mais culpado e não sei para onde iria, talvez, as montanhas...
— Não se preocupe, Hagrid, se houver outro ataque e você precisar se esconder, tenho um lugar onde pode ficar seguro e ninguém desconfiará de nada. — Harry pensou por um segundo. — O melhor, se for preciso, é ir até Dumbledore e lhe pedir que o leve até o Chalé Boot, discretamente. Enviarei uma carta ao Sr. Falc para deixá-lo de sobreaviso e ele lhe levará até Hallanon, poderá ficar o tempo que precisar ou até essa bagunça acabar.
Hagrid parecia que ia chorar outra vez de emoção.
— Você faria isso? E, acredita em mim? — Ele fungou e assou o nariz fazendo o som de buzina.
— Claro que acredito e faria o que fosse preciso para te ajudar, somos amigos, não somos? — Harry sorriu e bateu em seu braço carinhosamente.
— Obrigado, Harry. E, se precisar, farei o que me disse, não quero ir para Azkaban. — Hagrid disse mais calmo. — Onde fica essa Hallanon?
— Na Irlanda, você vai adorar o lugar. — Harry disse sorrindo ao imaginar como seria quando ele conhecesse Diona. — Ainda não acredito que você estudou com vold..., quer dizer, com ele.
— Bem, eu estava no 3º ano e ele no 6º, além disso, ele era um aluno modelo, grandes notas, monitor da Slytherin e adorado pelos professores. — Hagrid fez uma careta de nojo. — Foi por isso que acreditaram nele, mesmo que não houvessem provas.
— Espere, esse garoto que te acusou, Tom, ele é... ele? — Harry perguntou abismado.
— Sim. — Disse Hagrid e seu rosto mostrou um pouco de medo. — Ele já era ruim, mesmo naquela época, Harry, mas, Dumbledore percebeu, sabe, era o único professor que não se deixava enganar por suas boas maneiras e notas brilhantes.
— Tom... um nome tão comum... — Harry sussurrou, sentindo-se um pouco desapontado, parecia meio anticlímax. — Tom sabia que você era inocente, claro, já que o responsável era ele mesmo, mas, decidiu enquadrá-lo e parar os ataques... Porque? Apenas porque não queria que a escola fosse fechada?
Hagrid deu de ombros também sem entender completamente, mas, depois, se lembrou e acrescentou.
— Lembro que quando falaram sobre isso, sabe, fechar a escola, alguns alunos pediram para ficar aqui. Eu não tinha para onde ir e quando escrevi meu nome na lista, o de Riddle estava lá, mas, quando a menina morreu, Dippet e o Conselho decidiram que ninguém ficaria. — Hagrid explicou e não viu os olhos arregalados do Harry. — Talvez, ele também não...
— Hagrid... — A voz dele o interrompeu e Harry se levantou sentindo uma urgência estranha, um fogo, uma premonição. — Como era o nome completo dele? Tom o que?
— Tom Riddle. — Disse Hagrid simplesmente, ainda que detestasse o nome, não temia dizê-lo.
Harry ofegou e seus olhos se esbugalharam.
— Eu não acredito! — Harry passou as mãos pelos cabelos e os bagunçou ainda mais, tentando entender. O diário! Jogado no banheiro da Myrtle... Myrtle! — A menina, a que morreu naquela vez, como ela se chamava? E, onde ela morreu?
— Myrtle Warren. — Hagrid disse suavemente. — Ela foi morta em um dos banheiros femininos do segundo andar.
— Merlin! — Harry caminhou freneticamente quando tudo ficou claro. — Os canos! Hagrid!
— O que? — Ele perguntou sem entender nada.
Mas, Harry não lhe respondeu enquanto sua mente continuou a juntar as peças. Freya viajava pelos canos! A entrada da Câmara Secreta poderia... deveria estar em um dos banheiros, o mesmo banheiro onde a garota foi morta e agora, ela o assombrava como um fantasma! Luna foi atacada em frente aquele banheiro e a garota controlada por Voldemort deve ter despertado lá depois do ataque a Caverna. Ela deve ter percebido que algo estava errado, talvez, desconfiou do diário e o jogou longe..., mas, como um diário poderia fazer algo assim?
— Preciso ir, Hagrid, preciso saber... — Harry olhou para o amigo. — Talvez, tudo se resolva em breve e não haverá mais ataques, prometo.
— Harry..., mas, o que? — Hagrid o encarou espantado.
— Depois, eu explico tudo! Obrigado por confiar em mim! — Harry se cobriu com a capa e saiu correndo pelo jardim branco.
Invisível, Harry se desviou dos alunos que voltavam de Hogsmeade, percebendo que todos andavam em grupos e pareciam ansiosos por chegarem as suas Casas, onde estariam seguros e aquecidos. Em poucos minutos ele entrou na Torre e subiu para o seu quarto, felizmente, encontrando Neville e Terry onde os deixara.
— Descobri. — Disse ele correndo para a sua mochila. — Está comigo a semanas! Por isso não houveram mais ataques!
Os dois o encaram completamente confusos.
— O que? — Neville afastou o pergaminho do dever de poções que estava revisando.
— Descobriu o que? — Terry se aproximou ao ver o Harry fuçar na mochila, até pegar um caderninho preto. — O diário? Pensei que ia perguntar a Flitwick qual dos alunos era esse tal de Riddle, para poder devolver?
Harry jogou o diário sobre a mesa, se afastou o observando e tentando entender. Como? Como era possível?
— Eu me esqueci, com toda a confusão que Lockhart armou ontem, esqueci completamente, mas... Não tem nenhum Riddle estudando nesta escola, não agora, pelo menos. — Harry os encarou com os olhos brilhando febrilmente e sussurrou: — T. S. Riddle, ou Tom Riddle, é Voldemort.
Os dois garotos empalideceram, Neville se levantou da mesa e se afastou do diário assustado.
— O que? — Terry sussurrou também, pois parecia o tom apropriado.
— Isso, esse diário é o que estava controlando a garota... não sei como, mas... — Harry contou rapidamente tudo o que Hagrid lhe disse e explicou suas teorias. — Vocês veem? Ela foi dormir em seu quarto e deve ter despertado no banheiro, segurando o diário, aposto que não foi a primeira vez, pois estava lutando.
— Ela deve ter percebido e jogou o diário fora, mas... porque não procurou um dos professores e o entregou? — Terry perguntou sem tirar os olhos do livro de capa preta.
— Com a escola cheia de aurores ansiosos para fazer uma prisão? — Harry disse com amargura. — Eu não contaria a ninguém se fosse eu, não há como saber em quem confiar. Além disso, não sabemos o que aconteceu exatamente, na verdade, ainda estou tentando entender como raios um diário poderia fazer tudo isso.
— Talvez, Voldemort pode se comunicar com ela de onde ele está na Albânia, controlá-la, mesmo à distância. — Neville sugeriu em tom duvidoso.
— Sim, mas... ele não estava controlando-a, Neville. Voldemort estava falando, era sua voz saindo da boca da garota, pelo que pude entender. — Harry hesitou e se aproximou do diário.
— O que vai fazer? — Terry se moveu para perto dele, preocupado.
— Eu já o toquei, assim, é seguro. Tentarei escrever nele e, qualquer coisa, vocês me desacordem e chamem o Flitwick. Entenderam?
Os dois acenaram e sacaram as varinhas. A tensão no quarto se profundou quando Harry pegou a pena que o Neville deixara sobre a mesa e abriu o diário lentamente.
— Aqui vai. — Sussurrou ele e escreveu na primeira página em branco.
Anotações do meu dia:
Eu fui a Hogsmeade hoje com um grupo de amigos, a garota que eu gosto...
Ele se interrompeu um pouco chocado quando viu a tinta desaparecer, olhou para os amigos que também não entendiam nada.
— Olha! — Disse Neville urgentemente.
Harry olhou para a página e viu letras surgindo lentamente com sua própria tinta.
Olá! Meu nome é Tom Riddle. Como você se chama?
— Como? — Terry perguntou confuso, mas ninguém tinha a resposta.
Oi..., hum, quem é você? Como pode me responder?
Eu preservei minhas memórias nas páginas deste diário. Fiz isso para manter a verdade sobre as coisas terríveis que aconteciam em Hogwarts quando lá estudei. Qual o seu nome?
Robert, estou na Hufflepuff e você? Em que ano estudou aqui? Era nascido trouxa como eu?
Sim, era um Hufflepuff, mas era mestiço e estudei na década de 40. Como encontrou o meu diário?
Década de 40? Uau! Isso tem quase 80 anos! Estamos em 2020 agora! Encontrei o seu diário em um armário de livros antigos e pensei em usá-lo para fazer algumas anotações. E, escrever sobre essa garota que eu gosto, sabe.
Interessante. Eu tinha outra dona na década de 90, ela era um doce, mas, muito teimosa. Acredito que gostarei mais de você, Robert. Me fale mais sobre você e essa garota, adoraria que fossemos amigos.
Mais tarde, preciso apagar a luz do dormitório agora. Boa noite, Tom.
Boa noite, Robert.
Harry fechou o diário e se afastou dele sentindo uma grande vontade de tomar banho.
— O que raios é isso? — Ele perguntou aos amigos, que o acompanharam para o outro lado do quarto. — Senti mais e mais vontade de escrever, era como se ele me passasse confiança e segurança. Se não soubesse a verdade, acreditaria e confiaria nele sem pensar duas vezes.
— Não entendo. —Terry estava pálido. — Como Voldemort preservou suas memórias em um diário? Que tipo de magia é essa?
— Magia negra. — Neville respondeu — Harry, você o estava testando? Para saber se ele podia nos ouvir ou ler nossos pensamentos?
— Sim. Ele não pode ler nossos pensamentos e não tem noção da passagem de tempo, o diário foi jogado a 1 mês e meio e pareceu acreditar que já faz 20 anos. — Harry disse e esfregou o rosto cansado. — Isso quer dizer que ele obtém informações apenas quando alguém escreve no diário. Você viu como ele me pediu para escrever e contar sobre mim? Como disse querer ser meu amigo? Talvez, quanto mais você escreve, mais forte ele fique ou tenha mais domínio sobre sua mente, mas... Não era a menina sendo controlada por ele... Eu tenho certeza, era ele quem assumiu, como se a possuísse e...
— Não poderia ser apenas memórias preservadas nas páginas de um diário, nesse caso. — Terry disse olhando para o livro sobre a mesa.
— É claro que não é. — Neville disse tenso. — Pensem, memórias teriam informações sobre o passado, mas, não seria onisciente. Esse Tom tem uma personalidade, vontade própria e, aposto que se continuássemos a escrever, rapidamente, perceberíamos que ele não é tão gentil. Essa menina deve ter pensado que ele era um amigo, assim, fingir ser bonzinho para conquistá-la, faz parte da sua personalidade.
— Isso combina com o que sabemos sobre Voldemort, ele era educado, persuasivo, mas, esse não é Voldemort. — Harry disse entendendo. — Esse é Tom Riddle! Por isso que ele diz que é uma memória, porque, na verdade, esse Tom não sabe nada sobre o que o seu eu futuro fez ou se tornou. Se ele souber algo, será o que a garota escreveu no diário... Por isso, ele acreditou em minha entrevista para o Profeta! E, também, por isso, ele me pareceu mais infantil e impulsivo que Voldemort, porque esse Tom fez esse diário, seja o que for, quando estava na escola. Hagrid disse que quando a câmara foi aberta, Tom estava no 6º ano.
— Ele era um 6º ano, fez magia negra e matou alguém? Como ninguém na escola percebeu nada? — Terry parecia inconformado.
— Hagrid disse que ele era o monitor da Slytherin, muito educado e com notas brilhantes, os professores o adoravam, apenas Dumbledore parecia desconfiar dele. Isso não me surpreende, quando adulto, Voldemort reuniu centenas de seguidores e deve ter sido muito convincente. — Harry se lembrou de tudo o que ouvira sobre ele e sua própria experiência. — Lembra-se do que contou o Sr. Brand, como ele agiu tão educadamente e elegante enquanto tentava recrutá-lo. Em nossa luta, ele foi tão sinuoso e persuasivo, não é para menos que essa garota acreditou que ele era um bom amigo. Isso sem falar nos encantos, são sutis, mas, eu queria continuar escrevendo e contando a ele sobre mim.
— É incrível que ela tenha conseguido lutar, perceber que algo estava errado e jogar o diário. — Neville disse surpreso. — Não apenas sua magia deve ser forte, sua mente também.
— Bem, o que faremos? — Terry questionou. — Não creio que devemos continuar escrevendo nessa coisa, seja o que for, é muito perigoso.
— Concordo. — Harry suspirou e bagunçou mais os cabelos. — Isso está muito acima da nossa capacidade e o melhor é entregarmos o diário ao Flitwick, ele poderá mostrar a Dumbledore... Posso não confiar no diretor, mas, ele é o único que consigo imaginar descobrindo o que é isso e o destruindo.
— Porque não destruímos nós mesmos? — Neville perguntou. — Não sei se entregar algo assim a Dumbledore é sensato, como podemos garantir que ele não o usará erradamente?
— Não acho que esse diário seria algo fácil de se destruir... — Harry foi até ele, o pegou e se ajoelhou em frente a lareira. Suavemente, colocou a ponta no fogo, mas as chamas passavam por ele sem tocá-lo. — Viram?
— Uau! — Neville sussurrou preocupado.
— Foi o mesmo com a água. — Harry se levantou e voltou a colocá-lo sobre a mesa, pois a vontade de escrever retornara. — Não, o melhor é confiarmos que Dumbledore o destruirá, pedirei a Flitwick que acompanhe tudo e não perca o diário de vista. Além disso, o diretor poderá descobrir o que é, e entender como ou porque Voldemort fez isso. Tenho um péssimo pressentimento sobre essa coisa.
— Eu também. — Terry parecia muito sombrio e Neville acenou, pois concordava.
— Bem, o mistério acabou e nunca descobriremos quem foi a garota que passou por tudo isso, mas, temos a localização da entrada da Câmara. — Harry disse sentindo um certo alívio. — Acredito que o mais sensato, já que a vida ou liberdade da garota não está mais em risco, é dar essa informação ao King e Moody, assim, eles podem matar a Freya.
— Pensei que você quisesse fazer isso. — Neville se mostrou surpreso.
— Sim, mas, agora que está tudo bem, seria apenas uma caçada e não uma batalha, sou um guerreiro, não um caçador. — Harry disse suavemente e sentindo que era a decisão certa. — Prefiro deixar que os caçadores cuidem dela.
— Eu não poderia concordar mais. — Terry se sentou na cama e parecia aliviadíssimo. — Não posso acreditar que acabou e... desta maneira. — Ele apontou para o diário. — Isso quase que, literalmente, caiu no seu colo.
— Você não vai me ouvir reclamar. — Disse Harry rindo e seus amigos o acompanharam. — Eu levarei para o Flitwick agora e, depois, podemos ir jantar, estou meio faminto.
— Ok, vou tomar um banho antes, estou me sentindo meio sujo de estar na presença dessa coisa. — Disse Terry olhando com nojo para o diário.
— Eu desço com você, Harry, vou para o meu quarto me arrumar para o jantar também, acho que não tem mais problemas em andar sozinho pela escola. — Disse Neville e Harry acenou negativamente. — Ou você quer que te acompanhe ao Flitwick?
— Não precisa e também não precisa ir até a Torre Gryffindor, Nev, pode tomar banho no meu banheiro mesmo. Eu devo demorar um pouco até explicar tudo ao professor e, quando voltar, você já deve ter terminado e posso me arrumar também. — Harry disse apontando para o banheiro. — Eu também estou precisando de um banho, me sinto meio contaminado... não posso nem imaginar o que essa menina passou. — Ele suspirou sentindo seu coração se apertar com o pensamento.
— Tem certeza? — Neville arregalou os olhos. — Eu não me importaria de tentar essa sua banheira enorme.
— Fique à vontade e pode pegar uma troca de roupa também, acho que deve ter algo que te sirva... — Harry franziu o cenho duvidoso, porque seu amigo era mais troncudo e alto que ele.
Neville e Terry riram divertidamente.
— Duvido muito que suas roupas sirvam em mim, magrelo. — Disse Neville sorridente.
— Ei! — Harry protestou, também sorrindo.
— Vem, Nev, vamos conseguir algo para você lá no meu guarda roupa. — Terry disse rindo.
Harry os viu sair e sorriu ao ver suas expressões alegres, se não fosse a ausência da Hermione, poderia dizer que estavam voltando ao normal. Suspirando, ele pegou o diário e deixou o quarto, não se preocupou em colocar a capa, porque não estava fazendo nada errado e não havia mais perigo. Ele desceu a escada em espiral tranquilamente, sem imaginar que estava sendo esperado e, assim que pisou no corredor, antes que pudesse se virar para o escritório do Flitwick que ficava à direita do corredor, Harry sentiu um movimento a sua esquerda. Foi um segundo, uma sombra, o vislumbre do brilho de um feitiço e Harry entendeu, se moveu velozmente tentando se esquivar, mas, não foi rápido o suficiente. O feitiço de concussão não o acertou em cheio, apenas resvalou em seu ombro esquerdo, mas, sua força o fez girar em um eixo e ser jogado contra a parede.
— Uff! — Harry gemeu ao pousar no chão, seus óculos voaram longe, sua cabeça explodiu em luzes brancas de dor e o mundo pareceu girar e escurecer assustadoramente.
— Desculpe, desculpe... — Um sussurro e uma fungada suave soaram perto do seu ouvido. — Não queria que fosse tão forte, desculpe...
Harry se forçou a ficar acordado e abrir os olhos, quando sentiu mãos pequenas e suaves tocar seu ombro, seus braços e sua cabeça, como se o examinasse, mas, tudo o que conseguiu, foi espiar um pouquinho e gemer de dor.
— Tudo bem... você vai ficar bem... — A voz suave e trêmula de menina soou perto do seu rosto. — Desculpe, não queria te machucar, desculpe...
Harry ignorou a dor e virou a cabeça na direção da voz, mas, tudo o que viu foi um borrão vermelho.
— Eu precisava te salvar, não deixarei o Tom te machucar, prometo, vou destruir o diário... não importa o que tenha que fazer, não importa o custo... — Um soluço soou e Harry tentou falar, mas apenas um resmungo soou da sua boca. — É tudo minha culpa, mas, vou resolver, prometo... desculpe, Harry, desculpe...
Harry apertou os punhos, tentando falar, mas apenas outro resmungo de protesto soou. Não! Não pegue o diário! Vou destruí-lo! Sua mente gritou, mas nada saiu da sua boca.
— Não deixarei que ninguém te machuque, prometo... — Ela sussurrou e, se inclinando, o beijou suavemente no rosto.
Harry sentiu seus cabelos roçarem por seu rosto e o perfume de flores do campo o envolveu. O perfume! Não! Não! Não! Harry sentiu ela se afastar e tentou se mover, agarrá-la, gritar, mas, tudo o que conseguiu, foi fazer a dor explodir em seu cérebro e o mundo escureceu.
Ginny passou o dia todo escondida em seu pequeno nicho escuro. Ela se embrulhou em dois pulôveres de lã tricotados por sua mãe, para se manter aquecida e comeu algumas frutas e um sanduíche que pegara da mesa do café da manhã. Ainda assim, o dia se moveu lentamente, ansioso e muito solitário. Quando a noite começou a cair, Ginny já duvidava da eficiência do seu melhor..., quer dizer, do seu único plano.
Durante todo o dia, sua mente se movia febrilmente procurando outras soluções e formulando alguns planos bem malucos, como lançar algumas bombas de bostas no Grande Salão ou na Biblioteca e aproveitar a confusão para roubar a mochila do Harry. Em outros momentos, Ginny sentia um grande desanimo e solidão, uma letargia quase depressiva a envolvia e ela teve que se esforçar para não cair no sono ou desistir de tudo. No entanto, quando passos surgiam na escada, ela voltava a despertar, se beliscava e se forçava a se lembrar o que estava em jogo. Harry estava em perigo! Por sua culpa! Ela não podia abandoná-lo e deixar que Tom o ferisse! E, assim, mais uma vez, sua mente entrava no caleidoscópio de ideias e ansiedade sem fim.
Ignorando o estômago roncando, Ginny segurou sua varinha e suspirou mais uma vez ao ver outro grupo de alunos descendo para o jantar. Ela decidiu esperar apenas até o Harry descer com seus amigos para o Grande Salão, então, ela os seguiria e tentaria outra vez no dia seguinte. Ainda não tinha pensado no que fazer a partir de segunda-feira, quando tivesse que ir para as aulas, o melhor era esperar que seu plano desse certo. Mais uma vez, a porta acima da escada em espiral se abriu e Ginny se tencionou em expectativa, mas, não ouviu passos. Ela franziu o cenho, pois era a segunda vez que a porta se abria e não havia passos ou alunos descendo ou subindo as escadas. Ginny já pensava que a porta tinha algum defeito porque, mais uma vez, ninguém parecia descer as escadas, quando Harry, sozinho e com o passo silencioso, surgiu no último degrau.
Sim! Ela sabia o que fazer e estava pronta! E, ele segurava o diário! Tom deveria estar controlando-o! Sem hesitar, Ginny ergueu o braço segurando a varinha com firmeza, apontou para o Harry e lançou o feitiço de concussão.
— Concussio. — Sussurrou Ginny desejando intensamente que desse certo. E, arregalou os olhos quando uma luz amarelada intensa deixou a sua varinha e acertou o Harry no ombro quando ele tentou se esquivar. — Oh! Não! — Sussurrou ela chocada quando o viu ser jogado para traz, girar e bater na parede do corredor. — Não, não...
Ginny deixou o seu nicho e correu para ele ouvindo-o gemer de dor. Não queria machucá-lo! Ela pesquisara bastante por um feitiço bem simples e que não lhe faria mal. O Estupefaça também era inofensivo, mas, Harry ficaria inconsciente até alguém acordá-lo e, por isso, ela preferiu o Concussio, assim, depois de alguns minutos, ele acordaria sozinho, com apenas uma leve dor de cabeça.
— Desculpe, desculpe... — Ginny sussurrou desesperada e fungou tentando se controlar, precisava ver se havia algo quebrado e chamar por ajuda, pensou, preocupada. — Não queria que fosse tão forte, desculpe...
Ela tocou em seu ombro, braço e cabeça, acariciando seus cabelos macios, mas nada estava ferido. Graças a Merlin! Então, Harry gemeu de dor e seu coração afundou de remorso.
— Tudo bem... você vai ficar bem... — Ginny se inclinou perto do seu rosto e tentou acalmá-lo. — Desculpe, não queria te machucar, desculpe...
Ele virou o rosto em sua direção, seus olhos estavam semicerrados e ela ficou surpresa que ainda estivesse consciente. Decidiu tentar se explicar um pouco, mesmo que, talvez, ele poderia não se lembrar do que dissesse.
— Eu precisava te salvar, não deixarei o Tom te machucar, prometo, vou destruir o diário... não importa o que tenha que fazer, não importa o custo... — Ginny sentiu lágrimas escorrer por seu rosto e soluçou sentindo o coração se apertar de tristeza. — É tudo minha culpa, mas vou resolver, prometo... desculpe, Harry, desculpe... — Harry resmungou e Ginny acrescentou com determinação. — Não deixarei que ninguém te machuque, prometo... — Ela sussurrou e, se inclinando, beijou suavemente sua bochecha esquerda antes de se levantar, pegar o diário e os óculos caídos.
Ginny parou apenas por um momento para colocar a armação sobre o seu peito e, percebendo que ele estava inconsciente, correu para a Torre Gryffindor com o diário firmemente em sua mão.
Harry acordou subitamente alguns minutos depois, quando o efeito do feitiço desapareceu e sua mente consciente continuou o movimento desesperado de antes de tudo se apagar.
— Não! — Gritou Harry sentando-se bruscamente e movendo o braço para agarrar a garota, mas, apenas encontrou o vazio, pois era assim que o corredor estava, completamente vazio.
Com a cabeça doendo e o mundo girando, Harry olhou em volta ofegante e sentiu seu estômago embrulhar quando não viu a garota ou o diário. Ainda assim, ele pegou os óculos que estava no chão ao seu lado, os colocou e voltou a procurar. Se levantando, meio trôpego e sentindo ainda mais tontura, Harry se apoiou na parede e percebeu que tudo estava perdido.
— Não, não, não... — Estava tão perto! — Maldição!
Harry ouviu passos, risos e, rapidamente, acionou a capa e ficou invisível antes que os alunos, descendo a escada, aparecessem no corredor. Ainda um pouco tonto, começou a subir as escadas em espiral e, antes que pudesse acionar a gárgula, mais três meninas do 4º ano aparecerem, uma delas reclamando que estava faminta e a outra garota demorou para se arrumar. Ele entrou na Sala Comunal e, em segundos, estava em seu quarto.
— Neville! — Harry gritou abrindo a porta do banheiro, onde encontrou seu amigo na banheira cheia de espuma.
— Ahh! — Gritou Neville assustado e se afundou na espuma tentando se esconder, mas, Harry mal percebeu.
— Ela me roubou, Neville! Ela pegou o diário! — Ele voltou para o quarto e foi na direção da mochila fuçando até conseguir o mapa, talvez... — Eu juro solenemente que não farei nada de bom... Vamos, vamos... — Harry colocou o mapa sobre a mesa e procurou alguém se afastando, correndo, mas não havia nada. Nada! Ele a perdera!
Sentindo seu estômago dar uma cambalhota de ânsia, Harry voltou para o banheiro e se ajoelhou na privada vomitando violentamente. Neville, que estava em pé na banheira, se assustou e voltou a entrar sob na água e se esconder com a espuma mais do que arrependido dessa ideia idiota de tomar banho no banheiro do Harry.
Harry nem percebeu e depois que a ânsia de vômito passou, foi até a pia e começou a lavar a boca.
— Não consigo acreditar! Como fui idiota! Como não previ isso!? Como!? — Ele não conseguia parar de se recriminar. — Neville! Você não vai sair daí!? Não é hora de banhos de espuma! O diário foi roubado pela garota!
Harry voltou para o quarto meio indignado, se deitou na cama com as pernas para fora e fechou os olhos, desejando que o mundo parasse de girar. Respirando fundo, tentou se acalmar, precisava analisar tudo o que aconteceu, todas as novas informações e juntar com as anteriores de sua investigação. Porque, obviamente, a investigação continuava e ele precisava agir rapidamente, pois tinha certeza que Tom faria algo se conseguisse assumir. Claro, a garota de voz suave e perfume floral disse que tentaria destruí-lo, mas, Harry não podia esperar que ela conseguiria algo que, ele desconfiava, apenas um bruxo adulto poderia fazer. Os encantos poderiam obrigá-la a escrever no diário e Tom poderia assumir, descobrir que ela estava tentando destruí-lo e matá-la!
Merlin! Tudo era ainda mais urgente que antes! Ela estava em grande perigo! "Vou destruir o diário... não importa o que tenha que fazer, não importa o custo". Ela sabia! Estava disposta a se sacrificar para destruir o diário e deter Tom! Garota corajosa! Mas ele não permitiria! Não a deixaria morrer! Apenas, tinha que descobrir quem ela era!
O perfume! Essa era a maior pista! O Portal Adler insistira que ele se lembrasse do perfume, era um cheiro delicioso que fazia seu coração se acelerar e agora, Harry podia entender porque era tão importante que se lembrasse! Era o cheiro dos cabelos dela!
Respirando fundo mais uma vez, Harry tentou organizar os pensamentos, pois sentia que estava perto da verdade, tão perto... Lembrou-se do cheiro floral e o borrão vermelho... o que era o borrão vermelho? Sua blusa? Não devia ser, pois ela não parecia muito alta e suas mãos eram pequenas quando tocou o seu ombro. Seriam seus cabelos? Sua mente se lembrou das fitas de fogo em que o Portal o envolveu, como seda quente e vermelha. O cheiro floral, cabelos ruivos e cumpridos... Sua mente se movia tentando encontrar alguém com essa descrição, mas, imediatamente um rosto pulou a frente de seus pensamentos e Harry sentiu um gelo se afundar em seu estômago de puro terror. Não! Não podia ser... não...
Sentando-se ofegante na cama, Harry arregalou os olhos estupefato. Não! Ela não! Não podia ser ela! Mas, a realidade se sobrepôs à sua veemente negação.
"Ginny sentiu a gripe que todos estavam pegando no mês passado e decidiu tirar um cochilo antes do banquete, mas dormiu até quase à meia noite. "
"A menina está despertando..."
" O alvo é alguém que eu conheço? "
" Não, Harry Potter, senhor. "
" Malfoy tem um problema com os Weasleys... a lei de proteção... Sr. Weasley revistou a Mansão Malfoy por objetos de magia negra..."
" Lembre-se do cheiro... lembre-se..."
A porta se abriu e Terry entrou com um grande sorriso parecendo leve e alegre. Neville estava sentado na cadeira a alguns minutos, já vestido e observando o amigo refletir. Tentara chamá-lo, mas ele não lhe ouviu, assim, Neville decidiu esperar que terminasse o processo de pensamento.
— Descobriu? — Ele perguntou tenso, ao ver o rosto pálido e apavorado de Harry.
— Descobriu o que? — Terry perguntou confuso com a tensão no quarto. — O que aconteceu? Harry, porque já está de volta?
— É ela! Não pode ser... não, mas, sei que é ela, Nev! — Muito angustiado, Harry se levantou da cama e correu para sua mochila.
— É ela o que? O que diabos está acontecendo? — Terry perguntou chateado e Neville apenas acenou negativamente, enquanto Harry o ignorou como se não tivesse percebido sua presença.
— Preciso... — Harry revirou a mochila angustiado. Precisava ter certeza... Onde está!? — Onde... preciso... Onde está!? — Gritou furioso e jogou todo o conteúdo da mochila pelo chão chacoalhando os braços freneticamente, até que... — Aqui! — Se ajoelhando, Harry pegou o cartão dos namorados e levou ao nariz, cheirando profundamente.
O cheiro floral o envolveu, sutil, mas ainda, inconfundível. Não! Harry se levantou chocado e cambaleando, se apoiou na mesa sentindo um grande choque envolvê-lo. Mas, em um segundo o choque se transformou em raiva, fúria, fria, dura, imensa...
— AHHHHHHHHHHHH! — Quando gritou, sua magia pulsou para fora dele revirando tudo ao redor, mas, ainda não o ajudou a conter a explosão fria que tinha dentro de si. Pegando a cadeira, Harry a jogou contra a parede e a viu se estraçalhar em várias partes. Tentou pegar outra coisa para jogar, mas, dois braços fortes o contiveram e o apertaram com força. Mesmo quando tentou resistir e se soltar, o abraço de ferro o conteve, assim, só lhe restou gritar para extravasar sua fúria. — AHHHHHHHHHH!
Ofegante, Harry percebeu que alguém gritava em seu ouvido.
— Pare! — Terry disse. — Você precisa se acalmar ou todo a Torre aparecerá aqui!
Harry acenou e tentou controlar a respiração entrecortada, mas, percebeu que mal conseguia respirar e Terry o restringindo não ajudava.
— Janela... — Sussurrou rouco e desesperado.
Terry o arrastou até a janela mais próxima e, sem soltá-lo, a abriu e o vento frio entrou pelo quarto furiosamente. Mas, Harry não se importou e, colocando a cabeça para fora, respirou fundo o ar gelado e sentindo as gotas de uma chuva fina e fria tocar sua pele. Foram várias respirações profundas até que se sentiu razoavelmente calmo e percebeu que Terry ainda o segurava com força.
— Estou bem... juro, pode me soltar. — Disse ele com a voz ainda rouca.
Terry o soltou e se afastou para aumentar a lareira que estava se apagando. Neville estava de pé, com a varinha na mão, pronto para ajudá-lo, mas Harry parecia ter se acalmado, assim, ele a guardou.
Harry olhou para as montanhas e tentou usar todo o seu treinamento em oclumência para se acalmar e organizar seus pensamentos. Precisava fazer algo, salvá-la..., mas... Como? Por onde começava?
— Você poderia nos explicar o que foi tudo isso? — Terry disse como se lesse os seus pensamentos.
Harry se voltou para os amigos, fechou a janela e suspirando, explicou sobre o roubo do diário.
— Não! — Terry parecia angustiado, arrasado e zangado. — Esse inferno estava tão perto do fim! Não acredito! Que garota estúpida!
— Não repita isso! — Harry gritou na mesma hora, igualmente zangado. — Ela não sabia! Não tinha como saber! Você não percebe? Ela pensou que Tom estava me controlando! Queria me ajudar, me manter seguro e está disposta a arriscar sua vida para me proteger.
— Bem, isso pode ser verdade, mas não a torna mais inteligente, não é? — Terry disse puxando os cabelos e tentando se acalmar. — Será que não lhe ocorreu te procurar e contar sobre o maldito diário, ao em vez de te atacar e roubá-lo!?
— Deve ter ocorrido. — Neville disse pálido de preocupação. — Mas, ela teria medo de se deparar com Tom e não o Harry ou que ele não acreditasse nela, ou a entregasse para os aurores depois que a Hermione foi petrificada... Não tem como saber o que ela estava pensando, mas, é óbvio que está muito assustada e tentando fazer a coisa certa.
— Ela está sozinha e assustada... — Harry fechou os olhos tentando se controlar. — Se sentindo culpada pelos ataques... Deve ter sido por isso que ela jogou o diário, culpa e medo, mas..., então, ela percebeu exatamente o perigo que o diário era para outra pessoa. Aposto que ela voltou ao banheiro para pegá-lo e destruí-lo, mas, eu já o tinha.
— Ela deve ter tentado encontrá-lo, observado em volta... — Terry disse pensativo. — Como nós estávamos fazendo e, então, ela o descobriu com você…, mas, como?
Harry franziu o cenho confuso também, pois o diário ficou esquecido em seu baú por todas essas semanas e apenas ontem, ele o reencontrou. Pretendia perguntar para o Flitwick ou outro professor quem era Riddle, para poder devolvê-lo, mas, o dia fora uma bagunça por causa dos eventos de São Valentin que Lockhart inventou e...
— O anão! — Harry exclamou se lembrando. — Ontem, Terry, quando o anão me entregou o cartão cantante dos namorados, minha bolsa se rompeu e caiu tudo pelo chão, inclusive o diário que...
— Eu peguei e te devolvi, pois percebi que o Malfoy o estava olhando com um sorriso malicioso. — Terry completou arregalando os olhos. — Ela devia estar lá e o viu! Por isso armou essa emboscada! Aposto que ela estava desiludida, apenas esperando que você aparecesse sozinho ou com um de nós. Ela deve saber magia o suficiente para nos tirar se estivesse invisível...
Mas, Terry se deteve ao ver o Harry negar com a cabeça.
— A emboscada foi boa, mas ela estava escondida no nicho sob a escada em espiral, não desiludida e duvido que conheça muita magia. — Harry disse e indo até a mesa, olhou para o mapa que deixara aberto mais cedo.
— Quem é a garota afinal? — Neville perguntou se aproximando, Terry também o cercou pelo outro lado.
— A garota, é ela... — Harry sussurrou sombrio e apontou para o seu nome no mapa.
Ginny Weasley estava em seu quarto, andando de um lado para o outro, desesperadamente, tentando pensar em maneiras de destruir o diário. Nada do que tentara até o momento dera resultado, fogo, água, tesoura, facas, rasgar... Nada! Era um objeto mágico, assim, deveria ser destruído por magia! Poderosa magia! O que faria? Para quem perguntaria? Em quem poderia confiar? Torcendo as mãos, Ginny olhou para o diário sobre a mesa de estudo. Confiar! Ela confiara em Tom! E, ele a enganara, a fizera machucar sua melhor amiga!
Não! Não podia confiar em ninguém! Estava sozinha! Sozinha! Seria expulsa e enviada para Azkaban. Merlin, o que faria? Deveria fugir? Mas, para onde iria? Talvez... Bill! Sim, Bill era o seu irmão favorito! Ele era o melhor, a receberia e a ajudaria! Escreveria para ele..., sim, isso era uma boa ideia! Devia ter pensado nisso antes...
Sentando-se na mesa, Ginny puxou um pergaminho, pena e começou a escrever, sem dar grandes detalhes, que precisava que Bill voltasse urgentemente para a Inglaterra. Uma questão de vida ou morte, escreveu e assinou a carta com mão tremulas.
— Amanhã vou enviar por uma coruja da escola e Bill virá me ajudar... Tudo ficará bem... — Sussurrou ela cansada e decidiu ir dormir, assim, o amanhã chegaria mais rápido.
Sua fome desaparecera a muito tempo e Ginny associou o seu cansaço ao dia estressante que tivera. Não percebeu que ainda estava conectada emocionalmente ao diário, pois se sentia traída e magoada. Também não percebeu que desde que tocara o diário, Tom voltara a se alimentar de sua magia e, lentamente, voltava a se fortalecer e influenciar negativamente os seus sentimentos, além de tentar fazê-la escrever no diário. Mas, Ginny mal percebeu tudo isso tamanha era a sua angústia e racionalizou que o seu desejo de escrever no diário, era apenas a vontade que tinha de dizer ao Tom o quanto o odiava.
Exausta, ela se arrumou para dormir e se enfiou embaixo da coberta, tentando afastar o frio que parecia vir de dentro dela. Amanhã... pensou Ginny, antes de dormir, amanhã as coisas ficarão melhores...
Tom assumiu alguns minutos depois e franziu o cenho entre confuso e irritado.
— Quem era aquele garoto que escreveu aquelas bobagens? — Perguntou ele com voz enfadada. — Talvez, um dos irmãos de Ginny, fazendo uma piada de mal gosto.
Se esticando, Tom se levantou, se sentindo surpreendentemente mais forte que da última vez.
— Talvez, Ginny esteja triste pela morte de Potter... — Seu sorriso frio aumentou e ele decidiu ir visitar sua Freya.
Tom tinha certeza que conseguiria ir e vir antes que Ginny acordasse, pois, sua angústia, tristeza e solidão a enfraqueciam e o fortaleciam.
— Me preocupei sem motivo... — Suspirando, ele começou a se trocar. — A garota estúpida deve ter pensado que estava sonâmbula, por isso que acordou no banheiro... Bem, agora que Potter está morto, vou me livrar do velho e, depois, me concentrar em sugar toda a sua energia e recuperar o meu poder.
Vestido e, como sempre, gostando do som da própria voz, Tom se aproximou da mesa para pegar o diário que o ajudaria a ficar mais forte. Franziu o cenho ao ver a carta, escrita com letras trêmulas, aberta sobre a mesa...
— O que... 14 de fevereiro... Mas, não pode ser! — Disse Tom furioso e leu a carta, que era um pedido de ajuda para o seu irmão mais velho e que se encerrava: — "Por favor, Bill, estou desesperada! Preciso que venha urgentemente! Não confio em ninguém, além de você! Preciso que me ajude a destruir um objeto escuro! É um caso de vida ou morte! — Rosnando, Tom amassou a carta e a jogou no fogo da lareira. — Maldita seja! Garota estúpida e teimosa! O que farei agora? Preciso pensar...
Tom andou pelo quarto com os punhos cerrados, tentando se controlar para não esganar a garota porque, afinal, ele precisava dela no momento... Isso! Ele precisava dela agora, mas, muito em breve, não precisaria mais, decidiu. Ele apenas precisaria encontrar outra pessoa para escrever em seu diário, alguém como esse Robert da Hufflepuff... se é que seu nome era aquele. Tom sorriu com malícia, pois agora tinha um bom plano, mas, antes de colocá-lo em prática, decidiu visitar sua querida amiga e ouvir os detalhes de como ela matou o maldito garoto Potter.
— Ela? — Terry sussurrou chocado.
— Não... — Neville empalideceu e pareceu profundamente abalado. — Não pode ser, eu... nunca percebi nada... Harry! Ginny é apenas um 1º ano! Flitwick disse que deveria ser uma aluna mais velha por causa de quão poderosa ela é por resistir... Você tem que estar errado...
— Ela é bem poderosa, acredite. — Disse Harry e passou a mão pelo ombro dolorido. — Ginny está com o diário, tenho certeza absoluta, mas, gostaria muito de estar errado, pois, assim, não me sentiria tão culpado. Merlin! Como foi que não percebi antes!?
— Espere, não adianta se sentir culpado, as pistas eram mínimas e, na verdade, ainda não entendi o que o fez concluir que Ginny Weasley é a garota controlada por Voldemort. — Disse Terry tentando entender algo tão absurdo.
Harry fez uma careta para a composição de palavras de Terry, na verdade, detestava a ideia de o nome dos dois estarem na mesma frase. Suspirando, ele explicou tudo em detalhes e os viu arregalar os olhos de assombro!
— O Portal! — Neville exclamou. — Ele também me ajudou!
— Inacreditável! — Terry caminhou pensativo pelo quarto. — Claro! Malfoy detesta os Weasleys e Arthur dever ter o irritado muito no ano passado, primeiro, com a lei de proteção aos trouxas e, depois, com as invasões a sua Mansão. Assim, que melhor maneira de se vingar do que plantar um objeto amaldiçoado na filha dele? Provavelmente, ele acreditou que sendo tão jovem, Ginny não conseguiria resistir ao diário e já estaria morta a uma hora dessas, além de ter matado um monte de alunos nascidos trouxas.
— Mas, Ginny resistiu, lutou e, a meses, ela deve estar sendo enganada e influenciada por Tom, ... Merlin, ele petrificou a Luna por causa dela! — Harry disse irritado consigo mesmo por não ver antes. — Claro! Que melhor maneira de conseguir mantê-la solitária, triste e fácil de influenciar do que, se sua melhor amiga, estivesse petrificada! Eu pensei na possibilidade de ela ser o alvo, mas, na verdade, o alvo sempre foi a Luna!
— Você acha que o Colin também foi por isso? — Neville perguntou ainda muito pálido e com o estômago embrulhado. — Para isolar a Ginny?
— Não... acho que não... — Harry bagunçou os cabelos tentando se lembrar de tudo o que acontecia naquele período. — Luna era sua melhor amiga, Ginny passava muito tempo aqui na Torre, até dormiu aqui algumas vezes. — Ele lembrou-se das muitas vezes em que a notou pela Sala Comunal Ravenclaw, sorridente e cheia de energia. Terry e Neville franziram o cenho e negaram com um aceno de cabeça, pois nunca a tinham notado. — Aposto que Ginny mal escrevia no diário e como não é um objeto que ela carregue por toda a parte, Tom não poderia fazer, seja lá o que ele faz, para assumir o controle. Colin estava na porta da enfermaria, provavelmente tentando me visitar, como especulamos e, por coincidência, se deparou com o Tom, tentando me matar.
— Ok... isso faz sentido. — Neville olhou para o mapa onde o nome da menina parou de se mover pelo quarto e estava imóvel, talvez, tenha ido dormir. — Precisamos tirar o diário dela e entregar ao Flitwick ou, talvez, devemos pedir a ele que nos acompanhe até lá, Harry, assim, ela perceberá que nossa intenção de o destruir é sincera. — Neville falou com firmeza, Harry e Terry acenaram.
— Teremos que ser muito discretos, os aurores não estarem aqui ajudará, mas, ainda... Não podemos permitir que ninguém perceba nada, nem mesmo os outros professores. — Disse Harry com firmeza. — Não podemos deixar que ela acabe expulsa ou pior.
— Faremos isso hoje? — Terry perguntou também muito preocupado com a garota, ela mal era mais velha que Ayana e isso o assombrava.
— Eu prefiro. — Disse Neville determinado. — Ginny já sofreu o suficiente, deve estar desesperada por não conseguir destruir o diário. — Ele apoiou o rosto em uma das mãos, chateado. — Ela é da minha Casa, um primeiro ano e eu deveria ter estado mais atento. Deveria ter tentado fazer amizade, talvez, me oferecido para ajudar com seus deveres e estudos, principalmente depois que a Luna foi petrificada.
— Ela estava solitária, triste e confusa, Tom se aproveitou disso, se tornou seu único amigo porque não fizemos nada... — Harry disse olhando para o mapa e sentindo a culpa engolfá-lo. — Eu... eu pensei que ela poderia ser um alvo, mas, não tentei me aproximar porque, ela sempre fugia de mim e, então, eu disse aos gêmeos... — Ele parou por um segundo e olhou para os amigos. — Os gêmeos! Eles me disseram que ela estava bem, para não me preocupar! Eu disse a eles para ficarem atentos a ela! Eu disse!
— Eles estavam muito ocupados, mal estão na nossa Torre, é raro que sejam vistos por lá, duvido muito que prestaram muita atenção a Ginny. — Neville disse muito sério e começando a ficar com a mesma raiva que o Harry sentia. — A questão é, como...
— Seus quatro irmãos mais velhos, entre eles um monitor, não perceberam nada!? — Harry terminou furioso.
— Harry... — Terry sussurrou sem fôlego. — Olha!
Harry olhou para o mapa e abriu a boca de espanto quando viu que, no quarto de Ginny, seu nome não aparecia mais e sim, o de Tom Riddle.
— Ele assumiu! Mas... como? — Harry o viu andar pelo quarto sentindo um frio terrível de pavor. — Eu não entendo. Ela não escreve no diário a semanas e não teria escrito hoje, mesmo com os encantos, Ginny estava muito determinada em destruí-lo! Não entendo!
— Talvez... — Terry olhou pensativo, tentando encontrar uma explicação. — Harry, ela escreve nele a meses, talvez, desde antes da escola. Malfoy deve ter plantado o diário durante o verão e, como você disse, ela ficou períodos sem escrever porque estava ocupada com a Luna, as aulas, mesmo as férias de Natal.
— E, assim que voltamos para a escola, Ginny voltou a escrever no diário, talvez o tenha deixado aqui durante a pausa de inverno. Ainda assim, Tom assumiu na manhã seguinte e nos atacou... — Harry olhou muito confuso para o mapa. — Deve ser alguma ligação, mágica ou... não sei, emocional? Tom não podia fazer nada conosco porque não nos conectamos ao diário, mas, a Ginny...
— Ela com certeza deve ter se ligado emocionalmente, é um diário, um amigo gentil e bondoso, depois, se tornou seu único amigo. — Terry disse. — Tom deve se fortalecer com sua magia, sugar sua energia e influenciar suas emoções.
— Como um dementador? — Neville sussurrou apavorado. — Eles se alimentam de emoções positivas, talvez, o diário se fortaleça com emoções negativas? Quanto mais triste Ginny estiver, mais forte ele fique?
— Isso explicaria porque tirar a Luna do caminho era importante, Ginny sempre estava mais feliz com ela. — Disse Harry e viu Tom deixar o quarto e depois a Torre Gryffindor. — E, porque ela estava tão forte no último ataque, Ginny teria estado cheia de felicidade depois de passar o Natal com sua família. Isso quer dizer que, hoje, Riddle estará mais forte, porque Ginny me pareceu muito angustiada.
— O que faremos? — Neville perguntou cada vez mais pálido ao observar o mapa. — Vamos detê-lo? Precisamos salvá-la!
Harry engoliu em seco e tentou se acalmar.
— Não podemos fazer nada agora, precisamos ter certeza que a entrada da Câmara é no banheiro e como entrar. — Ele fechou os olhos e respirou fundo ao ver o nome, Tom Riddle continuar a descer os degraus, andar por andar e, acrescentou com determinação. — Temos um plano e vamos segui-lo.
— Mas... não podemos deixar que ele a machuque mais... — Disse Neville com lágrimas nos olhos.
— E, não vamos, Nev, não vamos... Mas, confrontá-lo agora, poderia enviá-la a ser expulsa ou para Azkaban se houver uma luta e as pessoas descobrirem a verdade. Além disso, essa versão de Voldemort pode ser um adolescente, mas ele sabe mais magia do que nós três juntos, aposto. — Harry observou e viu o ponto de Riddle chegar ao segundo andar, ao em vez de descer mais, ele entrou no corredor que levava a enfermaria e ao banheiro do fantasma Myrtle. — Não se esqueça que ele nos prendeu na Caverna facilmente e fez esse diário aos 16, 17 anos.
— Ele ainda estava na escola e já fazia magia negra... — Terry parecia meio enojado.
— E, já era um assassino, Voldemort matou Myrtle e enquadrou o Hagrid... Nosso amigo está apavorado com a possibilidade de ser enviado para Azkaban. — Harry disse e sua voz saiu fria de pura raiva. — Vamos seguir o plano e acabar com ele.
Os dois acenaram e respiraram fundo tentando se acalmar, pois o Harry precisava que eles não entrassem em pânico. Os três acompanharam o ponto se mover pelo mapa, chegar até o banheiro, entrar e, em segundos, desaparecer.
— Ele sumiu! — Neville exclamou.
— Ele entrou na Câmara Secreta. — Harry disse muito calmo e foi para o seu armário começar a se preparar. — Não está no mapa porque meu pai, Sirius e Remus nunca a descobriram, mas, é uma boa notícia, agora temos a confirmação que precisávamos.
— O que faremos agora? — Terry perguntou pronto para segui-lo.
— Precisamos informar o Flitwick e nos preparar. Vamos colocar nosso plano em prática hoje, não tem como adiar porque Tom descobrirá que estamos vivos, que várias semanas se passaram, talvez, descubra que Ginny está tentando destruí-lo. — Harry colocou a bota de couro de dragão, já tinha vestido um colete, jaqueta e calças mais confortáveis e resistentes para a luta.
— Ele irá matá-la. — Neville disse sem fôlego e Harry acenou.
— Sim, mas não vamos deixar que isso aconteça e aposto que Ginny lutará ao nosso lado. — Harry ajustou a bolsa de poções, pois ela era muito importante. — Eu preciso ir para aquele banheiro, estar lá quando o Tom sair, descobrir exatamente onde é a entrada e como acessá-la.
— Mas, e se ele sair com a basilisco? — Terry disse angustiado.
— Por isso preciso ir primeiro ao Flitwick, ele poderá tirar o meu cheiro e a batida do meu coração. — Harry pegou os espelhos que tinha comprado para esse momento e entregou um a eles. — Se vistam, se preparem, fiquem juntos esperando o meu aviso, assim que souber que chegou a hora de descermos para a Câmara Secreta, aciono o espelho. — Ele pegou o mapa e hesitou. — Talvez, vocês devam ficar com o mapa...
— Não! — Terry e Neville gritaram ao mesmo tempo e Terry acrescentou. — Você estará em muito mais perigo que nós, precisa ficar com o mapa.
— Ok. — Harry olhou o mapa em busca de Flitwick e o encontrou no Grande Salão. — Flitwick já desceu para o jantar, isso será mais problemático, mas, tudo bem, vou descer e chamá-lo para o seu escritório. Dumbledore não está lá e isso é bom, porque não precisamos dele ou qualquer outro professor fazendo perguntas. — Harry os olhou com firmeza. — Se preparem, não mostrem nervosismo ou chamem a atenção, depois, voltem ao escritório de Flitwick e aguardem com ele. Eu não terei tempo para lhe explicar tudo o que aconteceu, assim, contêm tudo a ele.
Os dois acenaram e Harry viu o medo, determinação, ansiedade e coragem misturados em suas expressões. Sem hesitar, abraçou os dois com força e, como não haviam mais palavras a serem ditas entre eles, deixou o quarto. Antes de fechar a porta atrás de si, Harry já estava invisível e pôde descer o caminho até o Grande Salão rapidamente. Ele ficou atento ao mapa, pois temia que Riddle deixasse a Câmara antes de chegar lá e lamentou ter que perder esse tempo precioso, mas, se estivesse no banheiro e ele aparecesse com Freya, ela poderia sentir o seu cheiro, ouvir o seu coração e, então, tudo estaria perdido.
Quando Harry se aproximou do Grande Salão, se escondeu em um nicho e voltou a ficar visível. Os alunos entravam e saiam pela porta, conversando sobre a visita a Hogsmeade, apesar de sorrirem, não estavam completamente relaxados e muitos sussurravam que esperavam a volta dos aurores muito em breve. Harry os ignorou e, discretamente, caminhou para a parte de traz das cadeiras dos professores. Alguns professores lhe notaram e mostraram curiosidade, mas Harry sorriu suavemente e aparentou calma, assim, eles logo voltaram aos seus jantares e conversas.
Flitwick estava conversando com Slughorn e parecia tentar acalmá-lo de que nada aconteceria antes dos aurores retornarem.
— ... Porque, Dumbledore me garantiu que seria apenas por um ano, mas, com esses ataques, estou pensando em voltar para minha querida aposentadoria. Não tenho mais idade... — Dizia Slughorn parecendo meio apavorado.
— Prof. Flitwick. — Harry falou suavemente e os dois se viraram em sua direção, ambos com expressões surpresas. — Desculpe interrompê-lo, senhor, mas queria lhe avisar que já terminei o jantar e estou pronto para a nossa reunião. O senhor me pediu para te avisar, lembra-se?
Seu tom era calmo e sua expressão neutra, mas, seus olhos passaram a verdadeira mensagem e Harry percebeu que seu Chefe a entendeu, pois ele se tencionou levemente antes de sorrir amplamente.
— Ah! Sempre ansioso para aprender, como a mãe. — Disse Flitwick com sua voz esganiçada. — Eu também terminei, Harry, suba e me espere em frente ao meu escritório, estou curioso para saber mais sobre o seu projeto e do menino Longbottom.
— Ok. Boa noite, Prof. Slughorn. — Disse Harry educadamente e se afastou sem perceber o olhar atento e desconfiado de Gilderoy Lockhart.
— Boa noite, Harry, meu garoto. — Disse Slughorn o olhando com uma espécie de carinho.
— Filius, você nem comeu a sobremesa, tenho certeza que essa reunião pode esperar. — Disse Lockhart sorridente. — Não se deve trabalhar demais, meu bom professor.
— Ah! Eu tenho evitado as sobremesas, para perder um pouco de peso, na minha idade isso é importante. — Disse Filius meio sem graça, pois todos sabiam que ele amava doces. — Além disso, Harry está ansioso para me mostrar o seu projeto. — Ele desceu da cadeira e se inclinou levemente em cumprimento. — Boa noite, senhores.
— Boa noite, Filius. — Slughorn sorriu enquanto o professor de Feitiços se afastava, depois, olhou para a própria barriga protuberante. — Talvez não seja uma má ideia fazer uma dieta para perder um pouco de barriga...
— Hum... essa é uma ótima ideia, eu também já terminei e nada de doces para mim, poderia me dar uma espinha. Que horror isso seria! — Disse Gilderoy e, rapidamente, deixou a mesa, saiu do Salão e se desiludiu.
O dia todo, ele tivera certeza que, com a ausência dos aurores, Harry aproveitaria para lançar mais um ataque. Assim, tentara ficar atento ao garoto, estivera em Hogsmeade por apenas umas horinhas, para algumas comprar e fotos com fãs. Durante o jantar, observara com atenção, esperando a chegada do Harry e seus amigos, assim, ele sabia que era mentira do garoto quando disse que já terminara o seu jantar. Ele nem ao menos aparecera no Grande Salão até aquele momento e viera com uma mensagem mais do que suspeita para Flitwick. Agora, Lockhart poderia ser chamado de muitas coisas, mas, não de burro, ele era um Ravenclaw, afinal!
Essa seria a noite, ele poderia sentir e, o primeiro a fazer, era descobrir qual a participação de Filius neste plano de Potter. Seria possível que o garoto o estava controlando de alguma maneira? Talvez com feitiços escuros! Afinal, o garoto que derrotou aquele-que-não-deve-ser-nomeado aos 15 meses, deveria ser um bruxo das trevas e saber alguns truques sujos. Claro, poderia se apenas a velha e boa chantagem. Lockhart sorriu com o pensamento, pois já utilizara algumas vezes essa prática, principalmente, para ter algumas lindas mulheres em sua cama.
Bem, seja o que for, ele, Lockhart descobria tudo essa noite e ficaria ainda mais rico e famoso ao desmascarar o herdeiro de Salazar Slytherin para todo o mundo mágico. E, se seu plano desse certo, se tornaria o maior e mais adorado dos heróis que já existiram.
Harry ficou esperando o professor na porta de seu escritório, visível, assim, quem o visse entrar, acreditaria no álibi de sua reunião com o seu Chefe. Para seu alívio, Flitwick chegou em poucos minutos e os dois entraram no escritório sem trocarem uma palavra.
— Conte-me. — Disse Flitwick quando entrarem, sua expressão séria e tensa.
— Não tenho tempo para os detalhes, mas chegou a hora de colocar nosso plano em ação, senhor. — Harry disse apressadamente e voltou a olhar para o mapa, o banheiro continuava vazio. — Neville e Terry estão se preparando e vindo encontrá-lo aqui, eles lhe explicarão tudo o que aconteceu. Também estão com o espelho e, assim que for o momento de descermos, me comunico com vocês. Agora, para descobrir a localização exata da entrada, preciso vigiar, mas, antes, vim até o senhor como combinamos. Sem cheiro e sem som. A basilisco não pode ouvir meu coração ou sentir meu cheiro.
Flitwick acenou e, sem mais perguntas, tirou a varinha e lhe lançou os feitiços com expressão determinada.
— Pronto. Vá e fique seguro. — Disse ele com firmeza, no tom do Meistr e Harry endireitou a postura.
— Sim, Meistr.
Agora, invisível, Harry chegou em segundos ao banheiro e entrou. Tudo parecia exatamente igual a quando ele visitou da última vez, apenas o chão não estava inundado e não havia sinal de Myrtle. Ele guardou a capa para que não o atrapalhasse, mas, se manteve muito atento a qualquer barulho e olhava o mapa a todo instante. Se ele ouvisse algo, se cobriria com a capa em segundos, na verdade, ela estava conectada com sua magia e ansiosa para protegê-lo.
Harry, diligentemente, começou a examinar as paredes e o chão de traz da grande pia circular, mas, nenhum tijolo ou piso estava solto ou lhe pareceu diferente. Ele sabia que a gigantesca e feia pia poderia ser a melhor possibilidade, afinal, os canos eram uma certeza justa, mas Harry estava decidido a examinar tudo. Quando Riddle aparecesse, Harry teria que ficar de olhos fechados, por precaução, e não poderia mais do que ouvir onde ficava a entrada. E, o mais importante, considerou, seria descobrir como ou qual o feitiço era utilizado para abrir...
— Ahhrá! — Gritou uma voz da porta do banheiro e Harry saltou espetacularmente de susto, mas, se posicionou de frente para a ameaça e com a varinha empunhada.
No entanto, a ameaça era um sorridente Lockhart que parecia muito satisfeito consigo mesmo e também segurava sua varinha, mas, displicentemente. Harry franziu o cenho, mas não relaxou nem um milímetro, pois não confiava neste idiota incompetente nem um pouco. Além disso, parecia que ele descobriria porque Lockhart vinha seguindo-o ou pairando a sua volta irritantemente, mas, não poderia ter sido em pior momento.
— Me pegou, professor. — Disse ele sorrindo timidamente e baixando a varinha, apesar de se manter atento. — Não deveria estar no banheiro das meninas, sinto muito, mas...
— Não precisa vir com desculpas tolas, Potter, não me enganará, pois sou muito mais inteligente que você. Afinal, já estou a anos fazendo o mesmo que você planejou fazer aqui e, na verdade, estou quase orgulhoso. — Lockhart sorria ainda mais e pareceu fazer uns passos de dança de comemoração. — Eu já sei de tudo e, encontrá-lo aqui, apenas confirma, o que já sabia.
Harry abriu a boca e ficou um segundo tentando entender o que exatamente Lockhart sabia. Franzindo o cenho, considerou que ele pode ter percebido o seu plano de pegar o herdeiro de Slytherin, enganar os aurores e não entregar o "atacante" a justiça. Bem, em seus livros, Lockhart bancava o herói o tempo todo e, talvez, por isso, tenha percebido os seus planos, considerou Harry. Ainda que ele nunca pensou que o homem poderia ser chamado de herói em qualquer dia.
— Ok. Hum... porque não deixamos o banheiro para outro lugar menos... estranho, e conversamos sobre isso. — Harry disse caminhando, deu a volta completa na pia circular grande e parou bem na sua frente, além de estar em frente ao corredor estreito onde ficava os reservados.
— Ah! Ah! Ah! — Lockhart riu e Harry franziu o cenho para o homem insano. — Você quer me tirar daqui porque é onde tudo acontece, não é mesmo? Aposto que a entrada da Câmara está aqui em algum lugar e quero que me mostre onde está, Potter. Agora. — Seu sorriso era mais frio e intenso, enquanto apontava a varinha para o Harry com mais firmeza.
— Professor... — Harry se deteve confuso, sentiu que estava perdendo algo importante aqui e não tinha tempo para erros. — O que exatamente o senhor acredita que descobriu, professor?
— Óbvio, Potter. — Seu sorriso aumentou enquanto pensava em sua genialidade. — Eu te vi entrando na Caverna depois do ataque, todo sorrateiro e misterioso, aposto que estava verificando para ter certeza que não deixou nada incriminatório para traz. E, claro, você e seus amigos estarem vivos, fez muito mais sentido quando entendi a verdade.
Harry franziu o cenho e queria fazer um monte de perguntas, mas, não tinha tempo para isso.
— Incriminatório? Acho que o senhor entendeu errado, professor, eu estava apenas...
— Harry, Harry, Harry, não precisa inventar mentiras para mim, como lhe disse, eu estou do seu lado e me deixa feliz o quão parecido somos. — Disse ele com um sorriso estelar. — Eu também verifico duplamente os locais dos meus golpes, você sabe, precaução nunca é demais.
— Golpe? Merlin, isso só pode ser brincadeira. — Harry bagunçou os cabelos. — Eu não sei do que o senhor está falando e não tenho tempo para essa conversa insana, assim, é melhor sairmos e...
— Não sairemos daqui enquanto não me disser onde está a entrada da Câmara Secreta, Harry. Eu também tenho um golpe em mente, você vê, podemos dividir os louros, claro, eu não sou egoísta, mas, não deixarei que se dê bem sozinho. — Lockhart parecia estranhamente ansioso, quase faminto, e Harry começou realmente a duvidar de sua sanidade.
— Eu... sinceramente, estou completamente perdido e não sei onde é a entrada da Câmara, professor, mas, para sairmos mais rápido daqui, porque não me conta sobre esse golpe que eu planejo. — Disse Harry exasperado e preocupado com o tempo. — Rapidamente, por favor.
— Harry, Harry, Harry, não precisa se fazer de inocente comigo, você está falando com um igual, afinal. — Lockhart com seu grande sorriso, voltou a fazer a dancinha estranha. — Eu sei quem você é!
— Ok, eu pensei que sabia também, mas porque o senhor não me conta. — Disse ele irritado com a calma e lerdeza que o homem explicava.
— Você é o herdeiro de Slytherin!
Harry o encarou por um segundo e abriu a boca tentando encontrar o que dizer diante de tamanho absurdo.
— Eu sou? Hum..., não, eu, com certeza não sou...
— Ora, devia ser óbvio para todos, claro, inclusive os aurores, mas foi, EU, quem descobriu a verdade. — Disse Lockhart completamente apaixonado por si mesmo.
— Professor... — Harry começou tentando explicar, mas o homem nem pareceu ouvi-lo.
— Você esteve envolvido nos três ataques, apenas lá, no momento certo para bancar o herói e salvar os seus amigos. — Disse ele sorridente. — É óbvio que, com seu histórico, você deve ser um bruxo das trevas, por isso derrotou você-sabe-quem...
— Eu não o derrotei, meus pais fizeram. — Harry protestou, mas foi completamente ignorado.
— Ah, mas isso foi uma boa jogada sua, Harry, brilhante, eu diria. Você deu todas aquelas entrevistas dizendo que você não é o verdadeiro herói, que foram seus pais que derrotaram você-sabe-quem. Ao fazer isso, você se mostrou o bom filho, humilde e amoroso para todos, fez as pessoas gostarem ainda mais de você e, assim, todos o veem como apenas um garotinho de 12 anos. — Lockhart bateu palmas. — Brilhante! Você ganhou ainda mais fãs com essa jogada e ainda se vestiu com o pelo de uma ovelhinha fofa e branquinha quando, na verdade, é um lobo bem escuro por baixo.
— Merlin... o senhor perdeu o juízo? — Harry sentiu seu estômago se embrulhar com tanta baboseira e a situação em que se encontravam. — Olha, tudo bem, mas, podemos sair daqui? Estamos em grande perigo e, se formos para outro lugar, eu prometo que lhe conto tudo o que está acontecendo, toda a verdade.
— Ah! Ah! Ah! — Lockhart riu e acenou negativamente com a varinha. — Você quer me tirar daqui para esconder a verdade, aposto que tem um cúmplice, eu já desconfiava que não poderia fazer tudo sozinho, mas não imaginava que Flitwick era o seu ajudante. — Harry se engasgou com mais essa bobagem absurda. — Eu os vi hoje, você o chamando para uma reunião e dizendo que terminou o jantar quando não tinha se sentado à mesa para a refeição ainda. Eu percebi a mentira, até porque estou muito atento a você desde o último ataque. — Lockhart riu ainda mais de sua expressão de espanto. — Ah, você nem tinha percebido, não é mesmo? Eu o segui e observei com atenção durante todas essas semanas e você nem me notou, mas, hoje, quando descobri que os aurores tinham sido retirados de Hogwarts, tive a certeza que você agiria, finalmente e eu estava certo.
Harry, mais uma vez, abriu a boca, mas seu cérebro não conseguiu formular palavras. Lembrou-se de Moody dizendo que todos pensariam que ele era o herdeiro se soubessem a verdade da luta ou sobre a ofidioglossia. No entanto, Harry não imaginou que isso era a explicação para a perseguição estranha de Lockhart nas últimas semanas. E, agora, no momento mais importante, tudo isso explodia bem na sua cara. Maldição!
— Quando te vi se esgueirando pela Caverna, eu o segui desiludido e você veio direto para esse banheiro, onde ficou um bom tempo. Visitando as cenas dos crimes, isso é um clássico dos criminosos! — Lockhart fez a dancinha outra vez. — Percebi, então, que você era o herdeiro e estava controlando o basilisco para salvar os alunos nos momentos certos e, assim, se tornar o grande herói do mundo mágico outra vez. Fiquei verdadeiramente impressionado e me perguntei como nunca tinha pensado em um golpe tão brilhante!
— Professor, o senhor entendeu tudo errado e posso explicar se sairmos daqui agora! Estamos ficando sem tempo. — Harry disse urgentemente e apertou a varinha. Talvez, o melhor fosse estupefá-lo e levá-lo embora inconsciente, pensou.
— Ah! Você está tentando me enganar, para que eu não descubra a verdade, mas não conseguirá, Harry. Olha. — Lockhart falou como se fossem velhos amigos. — Minha primeira ideia, foi pegá-lo em flagrante e ficar com a gloria de ter capturado o herdeiro de Slytherin, seria ainda mais impressionante por ele ser, Harry Potter! Eu ficaria por meses em todos os jornais e revistas, com certeza, ganharia uma Ordem de Merlin 1ª Classe e escreveria mais um livro que seria um grande sucesso de vendas. Mas, depois, percebi que estava pensando pequeno. — Lockhart voltou a abrir aquele sorriso guloso. — Se me juntar a você em seu plano de bancar o herói, se capturarmos o basilisco juntos e salvarmos toda a escola, eu serei eleito o próximo Ministro da Magia!
— Merlin, o senhor está completamente insano. — Harry disse com frieza e, empunhou sua varinha, pronto para atacá-lo. — Se não concordar em sair daqui comigo por bem, sairá por mal e não serei delicado.
— Ora, ora, ora... — Lockhart disse, também apontando a varinha, mas, com bem menos habilidade que o Harry. — Mostrando sua verdadeira face. Você é quem sabe, Harry, se decidir ser egoísta e não compartilhar a gloria, eu a tomarei de você. Já fiz isso antes, viajei o mundo todo em busca de heróis que realizaram grandes feitos, os entrevistei para conseguir todos os detalhes e depois, escrevi suas histórias em meus livros como se fossem minhas.
— O senhor tomou as histórias das pessoas? — Harry o olhou chocado e furioso. — Isso é terrível! Como conseguiu isso? Escrever todos esses livros falsos, ficar famoso e rico, sem que ninguém o denunciasse?
— Um simples Obliviate e todos se esqueceram do que fizeram ou da minha visita. — Lockhart voltou a fazer a dancinha da vitória bizarra.
— Então, o senhor atacou essas pobres pessoas e tem recebido os créditos pelo que outros bruxos e bruxas fizeram? — Perguntou Harry, incrédulo. — O senhor é uma maldita fraude! Se pensa que não irei expô-lo, está muito enganado. — Disse Harry pronto para lutar.
— Meu caro rapaz — disse Lockhart se endireitando e amarrando a cara para Harry. — Use o bom-senso. Meus livros não teriam vendido nem a metade se as pessoas não achassem que eu fiz todas aquelas coisas. Ninguém quer ler histórias de um velho bruxo feio da Armênia, mesmo que tenha salvado uma cidade dos lobisomens. Ele ficaria medonho na capa. Nem sabe se vestir. E a bruxa que afugentou o espírito agourento tinha lábio leporino. Quero dizer, convenhamos...
— Acredita que isso justifica o seu crime? — Harry estava furioso. — Ou o torna menos um embusteiro?
— Harry, Harry, Harry. — Disse Lockhart, sacudindo a cabeça com impaciência — A coisa não é tão simples assim. Há muito trabalho envolvido em meus golpes, sabe. Não é só autografar livros e tirar fotos de publicidade, se você quer ser famoso, tem que estar preparado para dar duro. E, agora, com esse seu plano brilhante, passarei a um novo nível de heroísmo, não duvido que serei considerado, por todo o mundo mágico, o maior bruxo de todos os tempos. — Lockhart lhe apontou a varinha. — Ou fazemos isso juntos ou lançarei um feitiço de memória em você e ficarei com toda a gloria só para mim. Escolha com...
Mas, o que ele iria dizer ou o que o Harry faria, se perdeu para sempre, quando a pia grande e circular do meio do banheiro rangeu sinistramente e os dois a encararam com expressões bem diferentes. Lockhart estava confuso, depois entusiasmado ao perceber que aquela era a entrada para a Câmara Secreta. Harry estava horrorizado e tão pálido quando um fantasma, o tempo se esgotara e não havia mais o que fazer.
— O senhor precisa sair agora! — Sussurrou ele urgentemente, antes de recuar de costas pelo corredor dos reservados, enquanto mantinha os olhos arregalados na pia que se abria. Quando alcançou a parede, já estava invisível e com os olhos fechados, mas, sua magia se expandiu e, na escuridão, Harry pode ver a energia amarela opaca e doentia de Lockhart.
A pia parou de ranger e uma abertura larga se mostrou, de onde o Harry ouviu passos suaves e, um segundo depois, uma energia vermelha quente surgiu. As fitas quentes e vermelhas eram lindas, mas, estavam entrelaçadas por veias escuras que pareciam contê-las, prendê-las e machucá-las. Harry sentiu seu estômago se embrulhar e desejou poder salvá-la ali, naquele momento, mas sabia que era perigoso demais e ele não arriscaria sua vida ou liberdade.
Lockhart não se moveu ou pareceu perceber que Harry desaparecera, enquanto encarava a pia com um sorriso guloso e animado.
— Sim! Eu sabia que estava certo! — Disse ele fazendo a sua dancinha da vitória, mas, ficou surpreso quando, ao em vez de Flitwick, como esperava, uma menina minúscula, ruiva e pálida, apareceu na abertura.
Tom, ao ver Lockhart, mostrou surpresa e hesitou, tentando pensar em qual a melhor coisa a fazer. Seu primeiro pensamento foi um feitiço de memória, mas, antes que pudesse decidir ou agir sobre isso, o homem idiota começou a falar.
— Ah! Já sei porque está aqui, querida. Você é a vítima da vez e ele irá salvá-la, certo!? Isso é brilhante! Claro! Se as supostas vítimas estiverem participando do golpe, pode tornar tudo mais crível e é por isso que ninguém morreu! — Lockhart sorriu e bateu palmas para a sua esperteza. — Esse é realmente um golpe genial... — Ele se interrompeu ao não encontrar o Harry no local em que estivera a alguns segundos. — Ora, onde ele está?
— Ele? — Tom perguntou com voz suave e fria.
Harry sentiu sua pele se arrepiar, pois, a voz quase poderia ser confundida com a de uma garota, quase. Mas, Lockhart nem percebeu enquanto girava em volta de si mesmo, como um cachorro, procurando pelo Harry, pois não havia como o garoto ter deixado o banheiro, afinal, ele estava bem em frente a porta.
— Sim, ele. Eu descobri tudo, já sei quem é o herdeiro de Slytherin... — Lockhart abriu as portas dos seis reservados absolutamente seguro que Harry se escondera em um deles. — Ora, ele não pode ter saído do banheiro... Ah! Talvez, ele tenha se desiludido!
— Não há ninguém desiludido neste banheiro, mas, você está certo sobre uma coisa. O herdeiro de Salazar Slytherin está aqui. — Tom disse com completa calma, quase indiferença.
Isso chamou a atenção de Lockhart, que olhou para a garotinha com leve surpresa, mas ainda não percebeu o terrível perigo em que estava.
— Hum... como é o seu nome mesmo? Não me lembro de você em minhas aulas... — Disse ele e Harry supôs que Lockhart só notaria as meninas fãs e duvidava que Ginny estaria nesta categoria. — Bem, não importa e você não precisa ficar com medo, porque não pretendo denunciá-la, na verdade, quero que me ajude. Eu não sei o que o herdeiro lhe ofereceu, mas eu faço uma contraproposta. Você se faz de vítima como o combinado, mas, quando for dar o seu depoimento, diz que eu a salvei!
— Eu não tenho ideia do que está falando e todas essas baboseiras só estão me deixando ainda mais irritado. — Tom disse e sorriu com crueldade. — Acredito que você terá a honra de me ajudar com isso, preciso liberar um pouco dessa raiva pelo meu último fracasso.
Harry não podia ver a expressão de Riddle, mas, ouviu nessas palavras a sentença de morte de Lockhart. Apertando os punhos e os olhos com força, tentou pensar em maneiras de salvá-lo, inúmeras ideias pipocaram em sua mente, mas, nenhuma garantia que eles sairiam vivos daquele banheiro. Pior, todas elas tornariam o seu plano de salvar Ginny, completamente impossível.
— Venha até mim, Freya. — Disse Tom em ofidioglossia e Harry percebeu, pela forma como o som ecoou em sua mente, que a basilisco ouviria o chamado de uma longa distância.
— Ora, o que foi isso? Que língua é essa? — Lockhart perguntou confuso.
"Fuja! " Harry gritou mentalmente, pois com os segundos que tinha, era a única coisa que poderia fazer por Lockhart. "Fuja agora! "
— Nenhuma que lhe interesse. — Disse Tom levemente entediado pela idiotice do bruxo a sua frente. — Você queria ser o herói e acho que posso lhe ajudar com isso. Aposto que será lembrado e chorado por anos e anos.
— Isso seria incrível! Você me ajudará, então? Pensei que teria que obliviá-la... Espere, chorar? Porque minhas fãs chorariam? — Perguntou Lockhart estupidamente e Harry se perguntou como o homem foi classificado na Ravenclaw.
"Mestre... sinto o cheiro de carne fresca..."
— Sim, Freya, um pequeno contratempo e uma prazer especial para nós dois. Não que você mereça depois do seu último fracasso. — Disse Tom um pouco petulante. — Potter ainda estar vivo me enfureceu, mas, ver esse idiota morrer me dará a satisfação que preciso para me acalmar.
"Com prazer... atendo o meu mestre..."
— Não use os olhos, quero ouvir os gritos.
— Mas que língua sinistra, garota e sua voz, você até parece um garoto... — Lockhart não percebeu até o último segundo, quando Freya deixou o cano largo com os olhos fechados, se guiando pelo cheiro e o som do coração. — Ahhhhhhh! — Ele gritou em pânico quando viu a gigantesca cobra e, instintivamente, seu corpo se paralisou, como acontece nesses momentos de medo extremo.
Quando sua mente registrou que precisava fugir, não houve mais tempo e Freya o abraçou com seu corpo imenso, musculoso e sinuoso. Harry ouviu o seu grito grotesco de dor acompanhado pelo som dos ossos sendo esmagados e triturados obscenamente. Colocando a mão sobre seus ouvidos, Harry tentou não visualizar o que acontecia bem na sua frente, mas era impossível desligar sua magia e ele pode ver e cheirar o momento em que Freya o mordeu, arrancando o seu braço do seu corpo e o engolindo. O cheiro de sangue se espalhou e, ao fundo dos gritos gorgolejantes e patéticos de dor emitidos por Lockhart, Tom ria friamente com uma animação sombria.
"Delícia... muito saboroso... obrigada, mestre...
— Bom. Leve-o para a Câmara e desfrute pedaço por pedaço, Freya, amanhã lhe levarei mais um petisco. Assim, que encontrar alguém vulnerável para escrever no meu diário, arrastarei essa garota estúpida e teimosa para você desfrutá-la como sobremesa.
Harry ouviu Freya voltando para o cano da pia, seu corpanzil se arrastou pelo chão centímetro por centímetro, enquanto Tom falava de seus planos e ignorava completamente os gritos e apelos moribundos de Lockhart.
— Não... por favor... me ajude... alguém me ajude... alguém... Ahhhhhhhh! Por favor...
A voz desapareceu completamente e deixou de ecoar no banheiro alguns segundos depois de Freya deslizar para dentro da Câmara.
— Que imbecil irritante, até para morrer não cala a maldita boca. — Disse Tom e acenou com a varinha para tirar o feitiço de contenção de som. — Terei que limpar todo esse sangue, quando descobrirem que esse imbecil e a garota desapareceram, não quero mais ninguém bisbilhotando aqui. Feche.
Harry o ouviu dizer em língua de cobra e, em segundos, a entrada da Câmara que ficava na pia grande e circular se fechou. Tom acenou com a varinha e limpou o sangue em segundos, o desaparecendo completamente.
— Perdi o jantar, mas, no café da manhã, encontrarei o substituto para escrever em meu diário, alguém solitário e vulnerável, mais fácil de influenciar do que essa garota imbecil. — Tom disse e dava para ver sua raiva por Ginny facilmente em sua voz. — Então, você será completamente descartável, pequena Ginevra...
Ele saiu pela porta enquanto falava e Harry rezou para que não encontrasse mais ninguém em seu caminho.
Mesmo depois que ficou sozinho, Harry não se moveu um milímetro. Os minutos se passaram e ele perdeu a noção do tempo, sentindo o suor frio escorrer por seu corpo, o estômago se embrulhar e seu coração bater tão forte que era impossível que a escola inteira não o ouvisse.
"Não pense"! "Não pense"! Disse a si mesmo, tentando não pensar no que acontecia lá embaixo, na Câmara Secreta. Mas, sua mente não podia não imaginar, os cheiros, os sons, os gritos desesperados muito frescos em sua memória e para sempre gravados em seu cérebro. Seu único desejo era que Lockhart já estivesse morto de perda de sangue neste ponto.
Finalmente, Harry percebeu que não podia continuar ali, precisava deixar aquele lugar e... O mapa! Ele rapidamente pegou o mapa de seu bolso e examinou o caminho, precisava ter certeza que Riddle não estava no corredor. Se ele desconfiou que havia mais alguém no banheiro, poderia estar esperando que Harry saísse, mas não havia ninguém. Suspirando de alívio ao ver Riddle já na Torre Gryffindor, Harry deixou o banheiro e subiu correndo os degraus que levavam ao terceiro andar. Precisava chegar ao escritório de Flitwick e contar o que aconteceu... Sua perna bambeou de repente quando percebeu exatamente o que significava o que acabou de acontecer.
"Isso, talvez possa ser possível, Albus, se ninguém for morto até lá, mas, caso isso aconteça, dificilmente ele se livrará de Azkaban. "
A voz pessimista de Moody ressoou em sua mente e Harry sentiu seu estômago voltar a se agitar, assim, entrou em um banheiro masculino e, se ajoelhando em frente a privada, vomitou o pouco que tinha em seu estômago. Quando só havia bile amarga, ainda assim, a lembrança do cheiro de sangue o fez continuar a vomitar dolorosamente. Exausto, tentou se acalmar e controlar os pensamentos, respirando fundo várias vezes e utilizando o treinamento de oclumência, Harry finalmente parou com a ânsia e foi até a pia. Lavou a boca, molhou o rosto e a nuca, acalmou a respiração, desacelerou o coração e percebeu o que tinha que fazer.
Mais calmo, ele se endireitou e começou a planejar. Primeiro, não deveria envolvê-los, se a verdade fosse descoberta, só ele saberia e enfrentaria as consequências por si mesmo. Além disso, quanto mais pessoas soubessem, mais vulnerável estaria a informação, um bom segredo deveria ser conhecido apenas por você e, assim seria, decidiu Harry com firmeza. No entanto, ele precisava de ajuda, pois fazer isso sozinho seria muito mais demorado e poderia ser pego ou visto por alguém. Tinha que ser alguém leal e amigo, que o ajudaria sem fazer perguntas e manteria segredo absoluto sobre tudo, o que seria quase nada, pois Harry não precisaria ou poderia lhe explicar coisa alguma. Sim, isso era o ideal, assim...
— Dobby! — Ele chamou suavemente e esperou alguns segundos. — Dobby, preciso da sua ajuda, você poderia vir, por favor?
Houve um estalo alto e o elfo dos Malfoys e amigo de Harry, Dobby, apareceu na sua frente. Ele tinha os olhos arregalados de temor e ansiedade, olhou em volta tenso e parou em Harry, abrindo um grande sorriso.
— Eu senti na magia de Dobby que Harry Potter estava chamando Dobby. Chegou o momento de Dobby ajudar o grande Harry Potter? — Perguntou ele com olhos admirados e uma pitada de orgulho.
— Ainda não, Dobby, estamos quase lá. — Harry se ajoelhou na frente do elfo. — Acredito que amanhã, o chamarei para colocar nosso plano em prática, você deve ficar preparado, mas, aja normalmente e não chame a atenção de Malfoy para você. Ok?
— Sim, Harry Potter, senhor. Dobby disfarçará e virá ajudar o corajoso Harry Potter. — Dobby acenou erguendo os ombros em prontidão, depois olhou em volta confuso e percebeu a palidez de Harry. — O senhor está doente, Harry Potter, senhor?
— Não, não, estou bem, Dobby. Eu... chamei você aqui porque preciso muito da sua ajuda, mas, você não deve fazer perguntas e, nunca, nunca, deve contar a ninguém o que faremos. Você me ajudaria, Dobby? — Harry disse com intensidade e o viu arregalar os olhos, acenar e engolir em seco.
— Dobby ajuda, Harry Potter, senhor. E, Dobby promete que nunca contará a ninguém e não fará perguntas. O que Harry Potter quer que Dobby faça? — Ele perguntou tenso.
— Algo bem simples, mas, muito importante, Dobby. — Harry pegou o mapa e observou o caminho que tinha até o seu alvo. — O caminho está livre e nós estaremos invisíveis, ainda assim, mantenha o silêncio o tempo todo. Ok? — Dobby acenou e Harry tirou a capa da braçadeira se cobrindo completamente. — Aqui. Entre embaixo da capa comigo, seremos rápidos e silenciosos.
Dobby tinha os olhos esbugalhados de surpresa, mas atendeu o seu pedido sem questionamentos e eles rapidamente pegaram o ritmo na caminhada até a sala de Defesa Contra as Artes das Trevas. Tendo certeza que o corredor estava vazio, Harry abriu a porta e encontrou as fotos de Lockhart em todas as paredes sorrindo e acenando alegremente. Harry ignorou isso, trancou a porta, tirou a capa e subiu os degraus até o escritório e quarto do professor falso. Ela estava trancada, mas, um simples Alohomora a abriu e o quarto de Lockhart apareceu, tão cheio de fotos e decorações extravagantes que parecia meio obsceno.
Concentrado e sabendo que tinha pouco tempo, Harry sufocou qualquer culpa e acenou para Dobby segui-lo.
— O que preciso que você faça, Dobby, é empacotar todas essas coisas nos baús. — Harry usou a manga da jaqueta para abrir os guardas roupas e gavetas, assim não deixaria impressões digitais para traz, apenas como precaução extra. — Coloque tudo, Dobby, como se o dono estivesse indo embora para sempre... — Sua voz falhou e Harry fechou os olhos. "Não pense! " Pigarreando, Harry pontou para as paredes. — As fotos também, Dobby, daqui e da sala lá embaixo, tudo o que tiver nas gavetas, livros, roupas, sapatos, tudo.
Dobby o encarou com olhos arregalados de apreensão e Harry sentiu seu coração afundar. Ele poderia fazer isso, mas demoraria muito mais tempo, além disso, tudo precisava desaparecer depois de empacotado e Harry ainda não sabia fazer isso.
— Isso não seria roubar, Harry Potter, senhor? Elfos domésticos são punidos com a morte se forem pegos roubando. — Disse ele em um sussurro assustado.
— Oh... Merlin, eu não sabia disso... Eu... — Completamente desconcertado, Harry parou para pensar e encontrar uma solução. — Nenhum de nós dois roubará nada, Dobby, e lembre-se, ninguém saberá o que faremos aqui hoje. Será um segredo nosso e nunca mencionaremos o que estamos fazendo nem para nós mesmos, assim, não precisa se preocupar com ser punido. Ok?
Harry esperou com o coração acelerado que seu amigo concordasse com esse plano insano, mas o único que ele conseguia imaginar, salvaria a Ginny de Azkaban. Lockhart era conhecido por ser meio covarde, o que era mais do que verdade depois da sua confissão, assim, ele fugir depois da retirada dos aurores, seria algo plausível. Mas, para isso, ele precisava desaparecer com todas as suas coisas e dar a impressão que o homem realmente partiu rapidamente.
— Não é roubo, Harry Potter? — Dobby perguntou, apenas para ter certeza.
— Não, Dobby, juro a você que não é roubo e salvará alguém muito especial. Por favor. — Ele não se importou de implorar, pois estava desesperado.
— Ok. — Disse Dobby que estalou os dedos e, em alguns segundos, tudo estava nos malões. Harry suspirou, impressionado e aliviado.
— Eu teria demorado horas e não temos tempo. — Harry disse e, ao olhar para os 7 malões, engoliu em seco sabendo que, o que faria agora, apagaria a existência de Gilderoy Lockhart para sempre. — Desapareça tudo, Dobby, envie para o lugar onde vão as coisas que evanescemos.
— Sim, senhor, Harry Potter. — Disse Dobby de olhos arregalados e Harry teve a impressão que o pequeno elfo já entendera o porquê de estarem fazendo isso. Ele voltou a estalar os dedos e todos os 7 malões sumiram para sempre. — Pronto, senhor.
Aliviado e chocado com o que acabara de fazer, Harry suspirou trêmulo e tentou recuperar a calma. Valia a pena, pensou, para salvá-la, mais do que valia a pena.
— Obrigado, Dobby. Muito obrigado. — Harry o encarou com gratidão e decidiu verificar apenas mais uma coisa. — Se alguém investigar, eles podem descobrir o que fizemos?
— Não, Harry Potter, senhor. A magia dos elfos estão em todos os lugares do castelo e ninguém descobrirá nada. — Disse ele solenemente.
— Bom. Você deve ir agora, ficar de prontidão esperando o meu chamado e, Dobby, quando vier na próxima vez, quero que venha com os olhos fechados e espere pelo meu pedido especial, silenciosamente. Ok? — Harry disse suavemente.
— Ok. O senhor ficará bem? — Perguntou Dobby preocupado.
— Sim, obrigado. Por tudo. E, não chame a atenção para você. Agora vá. — Harry disse e, com um estalo alto, Dobby desapareceu.
Com as mãos trêmulas, Harry olhou o mapa e encontrou o caminho para o escritório de Flitwick livre. Aliviado, percebeu que no quarto de Ginny, era seu nome que aparecia no mapa e sua mente começou a pensar em outras maneiras de salvá-la, além do seu plano. Olhando em volta, Harry deixou os armários e gavetas abertas, para dar a impressão de que Lockhart saiu rapidamente, verificou tudo para ter certeza que nada importante ficou para traz e deixou a sala, invisível.
Harry caminhou rapidamente até o 5º andar, mas, parou em frente a porta de Flitwick e respirou fundo várias vezes tentando se acalmar. Usou toda a sua habilidade em oclumência para guardar tudo o que aconteceu e proteger as informações com sua magia, que cantarolou entendendo a importância e o atendeu. Movendo os ombros, fechou os olhos tentando afastar o horror e choque que ainda sentia e se concentrar no que era importante. Depois, bateu na porta do escritório onde sua equipe o esperava, preparado para mentir para eles, pois o mais importante, era salvar Ginny Weasley, não importa o custo.
