Olá! Sei que estamos passando por um momento difícil e parece que não se resolverá brevemente, mas, acredito que somos fortes para enfrentá-lo. Espero que minha história os ajude de alguma maneira e que estejam se cuidando e de suas famílias.
Este capítulo teve apenas uma revisão, estou cansada e atrasada demais para fazer uma dupla! Não fiquei completamente satisfeita com isso porque acredito que ele precisava de um pouco mais de afinação, mas, espero que desconsiderem os erros e sintam a emoção.
Até mais, Tania
Capítulo 74
Petúnia, pensativamente, folheava a nova edição de domingo da revista Épique que chegara naquela manhã. Sua mente se distanciou para a conversa que tivera com a fundadora da revista na festa de ano novo dos Coltons. Ainda era surpreendente ter conhecido Julia Clark, uma mulher a quem sempre admirou por seu trabalho, inteligência e elegância. Mais agradável, foram seus conselhos e apoio ao seu desejo de compensar os seus erros e realizar sua própria magia no mundo.
Seu primeiro e empolgante movimento foi renovar a casa, pintar as paredes, comprar e reformar alguns móveis e personalizar a decoração ao seu gosto, tornando-a seu lar e não apenas a antiga casa dos seus pais. Até mesmo Dudley, um pouco reticente no começo, se empolgou com a redecoração e a ajudou, o que tonou o trabalho e os resultados, ainda mais especiais. Seu filho confessou que nunca imaginou sentir tanta satisfação ao ver algo feito por seu próprio esforço.
Seu outro movimento foi começar a trabalhar como voluntária no Abrigo St. Andrews em Lambeth, o lugar onde os Boots doavam e serviam comida às vésperas dos natais. No começo, ela temia não ser muito útil, afinal, não se achava particularmente talentosa, mas, Petúnia logo descobriu que todo o pouco que cada um fazia, trazia uma enorme diferença àquelas almas sofridas. Assim, Petúnia logo se viu ajudando a preparar e servir comida, separar, concertar e distribuir roupas. A máquina de costura antiga de sua mãe foi muito útil para realizar esses concertos e Petúnia se sentiu gratificada quando observou os sem teto usando casacos mais quentes e limpos. Os móveis que ela doara, foram entregues às famílias muito pobres que mal tinham o que comer. E, Petúnia descobriu que o tempo que dedicava a tornar suas vidas um pouco melhor, tornava a vida dela melhor e a fazia se sentir mais forte e realizada.
Como não precisava trabalhar, Petúnia ia duas vezes por semana ao Abrigo e, nos outros dias da semana, se dedicava a sua casa, Dudley e a retomada dos seus estudos. Depois de algumas pesquisas sobre novos cursos, ela se decidiu por concluir o curso de Administração. Como terminara apenas 4 semestres, há mais de 15 anos, Petúnia descobriu que precisava reciclar algumas disciplinas antes de retomar o quinto semestre, assim, duas manhãs por semana, ela ia até a Universidade de Londres para aulas de atualização disciplinar. Petúnia ficou muito alegre ao ser aceita pela Universidade e estava ansiosa por reiniciar o terceiro ano do curso de Administração em setembro.
Em suas pesquisas e seguindo os conselhos da Sra. Clark, ela percebeu que não queria voltar a se especializar em contabilidade, os números não a atraiam mais, pois não era a mesma Petúnia de 19 ou 20 anos. Seus interesses eram pelas pessoas e a área de Recursos Humanos estava crescendo a cada dia. Parecia muito interessante trabalhar em apoiar, treinar e melhorar a vida dos trabalhadores de uma empresa, além de tornar seus trabalhos mais humanamente eficientes.
Então, um dia, Petúnia viu o anúncio, no mural da Universidade, sobre uma palestra sobre Gestão de ONGs e suas Estratégias Interventivas. A palestrante era uma jovem que realizava trabalhos e pesquisas por toda a Europa em comunidades carentes, minorias perseguidas e abandonadas pelos governos, imigrantes, mulheres e crianças vítimas de violência.
Francesa, formada em Sociologia e Mestre em Antropologia, Annabelle Perrin abriu os olhos de Petúnia para esse novo modelo de administração, onde se busca organizar e administrar a ajuda aos necessitados com a máxima inteligência e eficiência. Criar meios e estratégias para atingir a todos é tão importante quanto a ajuda em si, assim, como conseguir recursos e geri-los de modo inteligente. As estratégias de intervenção devem pensar maneiras de repassar as doações com foco nas prioridades, levando-se em conta a necessidade individual/coletiva das comunidades que coexistem com sua rica diversidade em uma mesma cidade. A educação, ela disse, a pesquisa, investigação, observação, eram fundamentais para se descobrir maneiras de crescer, pois todas as organizações que existiam e se estruturavam com um objetivo, tinham que estar prontas para percorrerem um caminho contínuo de evolução.
Em suas poucas semanas de trabalho voluntário no Abrigo, Petúnia observou muitas coisas que aconteciam que poderiam ser melhores organizadas e distribuídas. Ela até tomou a iniciativa em alguns momentos e fez pequenas sugestões, aqui ou ali, que foram bem aceitas pelos Gestores. Depois dessa palestra, lhe ocorreu que ela poderia usar seus modestos talentos administrativos para organizar melhor a gestão dos trabalhos realizados pelas ONGs. Claro que ela ainda pouco sabia sobre isso, uma palestra estava longe de ser o suficiente, mas, ao menos tempo, Petúnia sentiu que, talvez, ela tivesse encontrado um caminho onde poderia unir as ambições profissionais da antiga Petúnia, com o desejo que tornar o mundo melhor da nova Petúnia.
Assim, ela passou a pesquisar e ler sobre o assunto, descobriu uma pós-graduação em Cambridge que estava interessadíssima em fazer, assim que se formasse. Também se inscreveu em mais palestras sobre o tema durante o semestre e descobriu que, no verão, a Universidade de Londres promoveria um curso de extensão sobre Gestão Ambiental e Social. E, a socióloga francesa, Belle Perrin, com quem conversou brevemente depois da palestra e que escrevera dois livros fascinantes sobre suas pesquisas, seria uma das promotoras das palestras e do curso. Petúnia tinha um calendário e pilhas de livros em sua cabeceira ou espalhados pela mesa da cozinha, onde dedicava horas de leituras todos os dias. Estava ocupada, animada e, com altos e baixos emocionais, nunca se sentiu tão viva como nas últimas semanas.
Dudley ficou um pouco desconcertado com a ideia de que alguém gostaria de voltar a estudar por conta própria, sem ser por obrigação, mas, ao vê-la tão alegre, se mostrou um grande apoiador.
O que mais vinha trazendo preocupações aos dois era a proximidade da audiência de Vernon e a preocupação com a segurança do Harry em Hogwarts. As últimas notícias não foram nada promissoras, Harry escreveu que os aurores continuavam investigando sem sucesso e que ele, apesar das muitas pistas, ainda não conseguira encontrar a pessoa que estava sendo obrigada a abrir a Câmara. Ela lhe escrevera com palavras de incentivo e enviara uma foto de Ffrind, que crescia tão rápido, a cada dia era mais doce e gentil.
Seu olhar distante se desviou para o pequeno filhote que dormia sobre o tapete, deitado de bruços com as quatro patas abertas. Petúnia tinha que admitir que apesar do medo inicial, o pequeno Setter não deu nenhum trabalho, além de ser uma boa companhia para Dudley. Quando Harry pudesse levá-lo para Hogwarts, sabia que seu filho sentiria falta do pequeno amigo. Ainda, Ffrind sentia muito a falta do Harry, Petúnia o encontrou encarando com olhos tristes as fotos do sobrinho que ela espalhou pela casa. As fotos, em sua maioria, eram mais recentes e algumas poucas que ela tirou escondida de Vernon ao longo dos anos.
Como um bebê, Harry fora tão lindo, mas, tinha um olhar triste de saudades que ela observara muitas vezes naqueles primeiros meses depois das mortes de sua irmã e cunhado. Depois, ele se tornou um menino muito sorridente e brincalhão, várias fotos mostravam aqueles olhos verdes maliciosos e divertidos. Mais à frente, as fotos diminuíram, mas, as poucas que tirara, mostrava um menino sério, de olhar confuso e perdido, que parecia buscar respostas para perguntas que não podia ou sabia formular.
Espalhar as fotos de Harry em bonitos porta-retratos pela casa fora um momento de grande tristeza, arrependimento e, ao mesmo tempo, de liberdade quase catártica. A certeza dos seus erros, a dor que sua fraqueza causou e o desejo imenso de voltar no tempo e refazer tudo, eram quase insuportáveis. A única coisa positiva, era ter o poder de fazer esse movimento, sem o controle e determinações de Vernon.
Abalada, Petúnia seguiu outro conselho da Sra. Clark e procurou uma terapeuta. A brilhante mulher lhe dissera que todos precisavam de apoio para enfrentar as tempestades, mas, ainda mais, precisávamos de ajuda para nos reerguermos quando a tempestade se fosse. Contar sobre as fotos do Harry e o seu significado, foi um dos momentos mais dolorosos, onde Petúnia se quebrara em lágrimas e desejo de alto punição. Também foi o momento em que sua própria infelicidade se tornou mais evidente e Petúnia passou a viver com um novo olhar e encarar a verdade sobre aqueles tristes anos.
— Petúnia, você saberia me dizer o seu peso? — Sua terapeuta, Ellen, lhe perguntou.
— Eu... acho que 50 ou 52 quilos, é meu peso atual, mas, nunca mais que 52. Porque? — Petúnia perguntou confusa. O que o seu peso tinha a ver com o sofrimento que causara ao seu sobrinho?
— Qual a sua altura? — Ellen questionou gentilmente, seus cabelos negros, cortados rentem ao queixo, combinava com seu rosto caramelo e de expressivos olhos castanhos. Petúnia se identificou facilmente com esses olhos bondosos que nunca julgavam.
— Hum... 1,76... — Ela sorriu pensativa. — Minha irmã sempre lamentou não ser um pouquinho mais alta, Lily apenas chegou a 1,69. — Petúnia pigarreou. — Eu puxei a altura do meu pai, mas me pareço com minha mãe, seus cabelos e olhos. Mas..., desculpe, porque me pergunta sobre meu peso e altura?
— Em nossa primeiro encontro, lhe pedi que fizesse um exame físico. Lembra-se? — Ellen questionou suavemente. — É uma orientação padrão, apenas para descartamos problemas emocionais causados por doenças físicas. Você fez ou marcou os exames?
— Eu... não, desculpe. Estive tão ocupada, minha vida é uma correria tão boa nessas últimas semanas que me esqueci. Porque? Você acredita que posso estar doente? — Petúnia questionou preocupada.
— Acredito que está abaixo do peso, muito abaixo. — A terapeuta, rapidamente, usou uma calculadora para mostrar os números e qual deveria ser o seu peso ideal. — Nunca seu médico lhe disse que estava abaixo do peso?
— Oh, eu não vou ao médico há anos e sempre me senti bem. — Petúnia disse ansiosamente. — E, me alimento bem, hum...
— A quanto anos não vai ao médico? — Ellen perguntou suavemente.
— Não sei. Isso é importante? — Petúnia perguntou tensa.
—Acredito que sim. Consegue me responder? — Seu tom era tranquilo e passava confiança, assim, Petúnia acenou.
— Uns 8 anos, mais ou menos. — Ela engoliu em seco.
— E, quando você emagreceu tanto? — Ellen acrescentou.
— Oh, eu sempre fui magra... — Petúnia disse defensivamente.
— Sim, mas se estivesse tão abaixo do peso antes dessa data, seu médico teria lhe alertado, passado um tratamento e aconselhado a comer mais. — A terapeuta observou inteligentemente.
— Bem, acho que foi na mesma época... Desculpe, eu não entendo porque falamos disso, depois do que lhe falei sobre as fotos do meu sobrinho, como elas espelham sua dor... Dor que eu causei. — Petúnia disse e seu olhos se encheram de lágrimas. — Você deveria me odiar, todos deveriam me odiar...
— No entanto, todos a amam e te perdoaram. — Ellen disse. — Pergunto sobre isso porque, na mesma época em que você foi obrigada por seu marido a trancar o seu sobrinho no armário, a diminuir a quantidade de comida ou puni-lo sem refeições, você, Petúnia, perdeu muito peso. Visivelmente, você é muito mais magra do que deveria e alguns cálculos mostram que está severamente abaixo do peso idealmente saudável. — Petúnia arregalou os olhos de surpresa e encarou, como se os visse pela primeira vez, seus braços finos e magros com os ossos do pulso saltados sob a pele branca. — Também acho curioso que, na mesma época em que não foi lhe permitido amar e cuidar do seu sobrinho, você parou de ir ao seu médico, parou de se cuidar, de se alimentar e de se amar.
As palavras foram como tapas violentos na sua realidade ou como ela enxergava a sua realidade. Foi como se uma cortina caísse e todos aqueles anos vividos no número 4 se mostrasse como eles realmente foram.
— Eu... eu... acho que não conseguia... — Sua voz sussurrante se embargou e ela soluçou tristemente. — Como poderia comer se ele estava com fome... então, eu fingia, comia um pouquinho, sorria quando queria chorar... — Escondendo o rosto nas mãos de vergonha e autodesprezo, Petúnia soluçou mais fortemente. — Eu poderia ter saído de lá, tirado o Harry do armário e o alimentado, mas, eu era tão fraca... como poderia merecer algo bom, como poderia ser feliz... se fazia aquilo com ele. Como?
Petúnia não sabia muito bem porque saber a verdade era tão importante, mas, a compreensão de que ela se punira, inconscientemente, pelo mal que fazia ao Harry, fora como uma libertação, de certa forma. Ela percebeu que não era indiferente como se forçou a acreditar, não era fria, ausente e negligente propositalmente, não sentia satisfação com o sofrimento do Harry, apenas, para se manter sã, Petúnia se obrigou a aparentar isso ao marido, aos vizinhos e para si mesma. No entanto, seu inconsciente sabia a verdade e a punia continuamente por suas escolhas, fato que de certa forma aliviava o seu coração, pois lhe dava o conhecimento de que não era verdadeiramente má.
Naquele dia, ao voltar para casa, Petúnia se olhou no espelho e, pela primeira vez, percebeu as consequências físicas de suas ações em seu próprio corpo. Estava magra demais, quase anoréxica, seus ossos se sobressaiam nos ombros, quadris, pulsos e joelhos. Suas pernas e braços eram finos e suas costelas se mostravam bem aparentes. Pior, seu rosto era tão magro que os ossos da face e queixo se sobressaiam de uma maneira nada elegante. Parada em frente ao espelho, Petúnia tentou se lembrar de como era antes, mas não conseguiu, pois, uma parte dela reconhecia a feiura externa como um reflexo do seu interior. Uma punição justa por seu erros e fraquezas, ela supôs.
Seu primeiro pensamento foi que precisava ir ao médico, não podia ficar tanto tempo sem exames físicos, isso era perigoso. Haviam notícias de mulheres que descobriam o câncer de mama, por exemplo, tarde demais para tratamento, por causa da falta de exames preventivos. Ela também deveria começar a comer mais, afinal, o Harry não estava mais passando fome ou preso em armário. No entanto, os dias passaram e Petúnia percebeu que estava comendo até menos do que antes, até Dudley percebeu, assim, ela se forçou a comer mais ou acabaria por adoecer.
A animação das últimas semanas não se apagou, ao mesmo tempo, uma manta de tristeza se mantinha no fundo de sua mente e a impedia de reagir como deveria. Na sessão seguinte com a terapeuta, Petúnia conseguiu falar sobre os tratamentos que o Harry fazia para recuperar sua saúde, que ficou comprometida pela desnutrição.
— Acredito que é isso me impede de me cuidar, me sinto tão culpada ao saber que ele está enfrentando tudo isso e que talvez nunca seja completamente saudável. — Ela disse apertando o lenço com força. — Como posso me perdoar? Como posso comer ou ir ao médico? Eu não mereço estar bem, quando ele não está bem.
— E o que acontecerá com ele se sua autopunição a levar a morrer? Ou com Dudley? Ele e Harry ficarão bens? — Ellen perguntou objetivamente. — Você veio aqui, no primeiro dia, disse que queria compensar seus erros, se tornar um ser humano melhor, ser uma mãe melhor. Lembro-me de suas dúvidas, mas do desejo verdadeiro de cuidar dos seus problemas emocionais, superar os sentimentos negativos e ter uma vida produtiva. Esse desejo era falso?
— Não... — Petúnia sussurrou pensando em como sua vida mudara nos últimos meses. — Eu me sinto tão leve, livre e desejosa de viver... Não quero morrer ou desistir. — Ela pensou na proteção que o Harry precisava para derrotar o assassino de Lily. — Eu preciso viver. Meu desejo de compensar os meus erros e levar a minha magia ao mundo é real, verdadeiramente sincera. Como faço... — Seus olhos se encheram de lágrimas. — Como faço para não me odiar mais? Para me perdoar?
— Acredito que descobriremos com o tempo. — Ellen disse. — Não desistir de si mesma é o primeiro passo, Petúnia. Eu não pretendo desistir e quero que esteja nesta caminhada comigo. O que me diz?
— Sim... eu quero isso e não desistirei, prometo.
E, essa última sessão a levou a entrar em contato com seu médico e marcar uma consulta, além de torná-la pensativa e ausente, Dudley percebeu, mas Petúnia lhe disse que estava com muitas coisas novas em sua mente e seu filho não insistiu.
Suspirando, Petúnia decidiu fazer um chá e preparar algo para seu filho lanchar. Apesar de mais magro, Dudley continuava a comer bastante, apenas, agora, comia de maneira mais saudável. Enquanto a água esquentava, ela preparou alguns sanduíches, mas, o barulho na janela a interrompeu.
Edwiges bicava o vidro impaciente e imperiosamente, como sempre, e Petúnia sorriu animada por ter notícias do Harry. Abriu e fechou a janela rapidamente para manter o frio do lado de fora, enquanto a coruja branca voava até a mesa. Ela preparou água, guloseimas e a serviu antes de tirar a carta que tinha o seu nome, outra carta, com o nome de Sirius, continuou na perna de Edwiges.
— Descanse um pouco depois de comer e se hidratar, Edwiges, antes de prosseguir para St. Albans, Harry ficaria chateado se você adoecesse. — Disse ela suavemente, depois serviu uma xícara de chá para si mesma e abriu a carta do sobrinho com um sorriso ansioso.
Querida, tia Petúnia,
Tenho muitas novidades que soube a pouco em minha última consulta com a curandeira da escola, Madame Pomfrey. Decidi escrever imediatamente para compartilhar essas boas e surpreendentes notícias!
ESTOU CURADO! COMPLETAMENTE CURADO!
Eu sei que parece impossível e que o tratamento deveria durar mais alguns meses ou quem sabe um ano, mas acabei de deixar a enfermaria com o atestado de alta e sem mais nenhuma poção! Acredita!? Isso não é incrível!?
— Mas... como? — Petúnia tinha as mãos trêmulas e releu as palavras para ter certeza que não eram seus próprios desejos que mudavam as letras. — Devo estar enlouquecendo... Com isso é possível?
Levantando-se, Petúnia foi até a base da escada e gritou:
— Dudley! Desça aqui! Dudley!
Ela voltou para a cozinha tremendo das cabeças aos pés, tentou se acalmar colocando as mãos trêmulas e geladas no rosto e no coração acelerado.
— Acalme-se. — Sussurrou para si mesma.
— O que foi? — Dudley, mais alto e mais magro que a dois meses, apareceu na cozinha iluminada e redecorada. A mesa repintada de amarelo era a grande atração do espaço bonito. — Aconteceu alguma coisa? Eu não fiz nada, juro.
— Não, não... leia aqui, o que seu primo diz no começo da carta. Leia em voz alta, Dudley! — Petúnia lhe entregou a carta frenética.
— Ok? — Dudley decidiu não fazer perguntas, até porque estava curioso para saber o que dizia a carta.
Querida, tia Petúnia,
Tenho muitas novidades que soube a pouco em minha última consulta com a curandeira da escola, Madame Pomfrey. Decidi escrever imediatamente para compartilhar essas boas e surpreendentes notícias!
ESTOU CURADO! COMPLETAMENTE CURADO!
Eu sei que parece impossível e que o tratamento deveria durar mais alguns meses ou quem sabe um ano, mas acabei de deixar a enfermaria com o atestado de alta e sem mais nenhuma poção! Acredita!? Isso não é incrível!?
— Oh! — Petúnia se sentou à mesa com as pernas bambas e soluçou descontroladamente.
— Mamãe? — Dudley perguntou confuso e preocupado. — Isso é bom, certo? Harry estar curado?
— Sim... — Ela respirou fundo tentando parar de chorar. — Sim, é muito bom... apenas, estava pensando nisso esses últimos dias... — Petúnia usou um lenço para enxugar as lágrimas do rosto. — Como era terrível que minha covardia o deixou doente... que ele teria ainda muito tempo de tratamento e poderia nunca ficar completamente curado. Eu merecia ser presa com seu pai...
— Mamãe! — Dudley protestou e a abraçou com força. — Não diga isso, a senhora se arrependeu e... e... o Harry está bem, ele disse na carta que está completamente curado. A senhora não pode ser presa, eu ficarei sozinho se isso acontecesse!
Dudley parecia que começaria a chorar também e isso ajudou Petúnia a se acalmar.
— Desculpe, querido... Eu apenas estou deixando minha culpa falar por mim, mas, estou tão aliviada e feliz que o Harry está bem. — Ela o abraçou com força também, antes de se afastar. — Está tudo bem, provavelmente o seu pai também não será preso, aposto que pegará apenas uma pena de trabalho comunitário ou algo assim. Vamos terminar a carta? Você quer ler?
— Sim. — Dudley, um pouco mais calmo, se sentou à mesa ao lado da sua mãe.
Bem, a senhora já deve saber os detalhes de tudo o que aconteceu no último domingo, assim, não me repetirei, mas, segundo a curandeira, minha luta com a basilisco foi o que causou isso.
— O que? — Petúnia olhou para a carta surpresa.
— Harry lutou contra a basilisco outra vez? — Dudley perguntou de olhos arregalados. — A senhora sabia disso?
— Não, ninguém me disse nada... Continue, talvez ele escreva mais detalhes ou se ficou ferido. — Petúnia disse se inclinando para frente ansiosamente.
— Bem, se ele está curado, deve estar bem. — Dudley deu de ombro.
Nossa teoria é que, quando eu matei a Freya com o Athame e ela se explodiu em energia mágica...
— Ele matou a basilisco com a adaga? — Dudley ficou pálido. — Mas, pensei que era uma cobra gigante?
— E, ela se explodiu? Deus! Como ele pode estar vivo? — Petúnia estava horrorizada. — Leia, Dudley!
Nossa teoria é que, quando eu matei a Freya com o Athame e ela se explodiu em energia mágica, minha própria magia absorveu um pouco dessa energia. O Athame, com sua lamina especial, absorveu o que mais o fortaleceria, ou seja, o veneno da basilisco. Em teoria, minha magia fez o mesmo e, ao absorver a energia mágica de Freya, converteu no que eu mais precisava para ficar mais forte!
Um fenômeno mágico inesperado e incrível! Um presente da magia e da Freya ao qual estou muito grato! Queria lhe contar rapidamente porque sei que ficará tão feliz como eu e que se preocupa com minha saúde! Estou curado, tia Petúnia, mas, não apenas curado! A magia regenerou meu corpo, assim, é como se eu nunca estivesse estado doente! Acredita nisso! Meus ossos, músculos e todos os meus órgãos são perfeitos! Fisicamente, é como se eu nunca tivesse vivido no número 4!
— Uau! — Dudley exclamou impressionado.
— Curado... regenerado... como se nunca tivesse estado doente. — Petúnia estava em choque absoluto.
— Isso é bom, certo? — Dudley perguntou pouco antes de sua mãe cair em mais lágrimas. — Pelo jeito, não tão bom.
Petúnia demorou uma pouco para se acalmar, então pegou a carta e a releu tentando acreditar desesperadamente que isso era possível. Curado! Ele estava curado! Saudável! Como se nunca tivesse estado com fome e ficado doente! Que presente! Da magia e da basilisco, ele dizia, mas, Petúnia apostava que Lily o ajudou também.
— Oh! Nossa! Dudley! Ele está curado, totalmente curado! — Petúnia disse sorrindo entre as lágrimas.
— Sim, entendi isso, mas, porque está chorando? Isso é bom! — Dudley disse exasperado.
— Claro que é bom! Mais que bom, é maravilhoso! Estou chorando de alegria, pura alegria, meu filho. — Ela disse se levantando ansiosa. — Fiz alguns sanduíches para o seu chá da tarde, mas, de repente, estou com fome também, muita fome.
Petúnia se agitou pela cozinha servindo chá, sanduíches, um bolo e biscoitos que assara no dia anterior. Enquanto eles comiam, ela leu o fim da carta, silenciosamente.
Agora, poderei crescer a toda a minha altura justa e alcançarei todo o meu potencial mágico! Estarei ainda mais forte para enfrentar e vencer Voldemort, tia!
Além das boas notícias, queria lhe agradecer pela foto do Ffrind! Ele está incrivelmente fofo! E, crescendo muito rápido! Agora que a basilisco está morta, poderei trazê-lo para a escola na páscoa e ele fará ainda mais sucesso pessoalmente do que sua foto fez com meus colegas.
Essa última semana tem sido muito tranquila, sem mais basilisco, a garota que lutou com Voldemort segura e, apenas esperamos ansiosos para que os petrificados acordem. Te aviso assim que acontecer.
As aulas estão indo bem e espero que as suas estejam ainda tão incríveis como me contou. Diga a Dudley que lhe envio um grande abraço.
Não se preocupe em contar para os Boots ou meu padrinho, pois estou enviando uma carta ao Sirius e lhe peço que conte ao resto da família.
Nos vemos na Páscoa, tia Petúnia. Espero que esteja tão feliz como estou.
Afetuosamente,
Harry J. Potter
— Oh... ele vai levar o Ffrind. — Disse Dudley lendo com a mãe meio que lateralmente.
Tendo terminado, Petúnia lhe entregou a carta e se levantou rapidamente, na gaveta do armário, pegou caneta e papel.
Ffrind ao ouvir seu nome, se aproximou de Dudley que terminou de ler e o pegou no colo.
— Dudley, já lhe disse para não o pegar na hora das refeições, vai lavar as mãos. — Disse Petúnia sentando-se, afastou sua xícara e começou a carta.
— Não estou mais com fome. — Disse ele olhando para o filhote tristemente. — Sentirei sua falta, mas sei que você ficará feliz de ir com o Harry. — O filhote latiu animado com o nome do seu humano. — Espero que sinta minha falta, um pouco. — Ffrind lambeu seu queixo e o olhou com carinho. — O que está escrevendo, mãe?
— Uma carta para os Boots e Sirius, quero saber exatamente o que aconteceu com o Harry e porque ainda não fomos informados. — Disse Petúnia seriamente. — Tire a mesa para mim, ok? Também perdi a fome.
Mais tarde, logo depois do jantar, Serafina, Falc e Sirius apareceram. Suas expressões eram solenes e, assim, que se acomodaram na cozinha, Sirius se apressou em se desculpar.
— Petúnia, foi minha culpa, sinto muito. — Ele disse e resumiu os acontecimentos que levaram ao jantar com Flitwick, onde o professor contou os acontecimentos da Câmara. — Tudo aconteceu tão rapidamente que não me ocorreu te convidar para o jantar.
— Entendo. Então, há quase uma semana, vocês sabem que o Harry não está mais em perigo e a razão disso, que é porque ele matou uma cobra gigante de mil anos. — Petúnia disse com falsa tranquilidade. — Mesmo que vocês, Serafina e Falc, não soubessem sobre o jantar ou seu objetivo, a verdade é que, há uma semana, todos estão cientes de que o Harry não está mais em perigo. Vocês dormiram tranquilos todos esses dias e eu estou aqui, aflita e preocupada que algo terrível lhe aconteça!
— Você está coberta de razão. — Serafina parecia muito envergonhada. — Isso foi imperdoável...
— Não! — Petúnia disse firmemente. — O motivo pelo qual fizeram isso é imperdoável! Eu posso ser trouxa e não entender nada de magia, mas, eu ainda sou a guardiã principal do Harry! Eu posso ter sido uma péssima cuidadora enquanto ele crescia e Deus sabe que nunca me redimirei pelo que fiz, mas, eu ainda sou a tia do Harry! Seu sangue! O sangue da Lily! E a partir de agora, quero saber todos os detalhes da vida dele! Todos! — Ela os encarou com dureza e os viu acenar castigados. — Começando com o que aconteceu no último domingo. Agora, por favor.
Seu tom furioso e magoado não admitia discussão e, rapidamente, Sirius contou sobre a investigação do Harry e sua equipe.
— Aquele menino... — Petúnia parecia chocada. — Ele fez tudo isso? Como é possível que três crianças matem uma cobra gigantesca? E, porque os aurores não ajudaram?
— Ah, deixe-me explicar sobre o Dobby e Fudge. — Sirius, então, contou sobre os galos jovens e como os aurores estavam sendo pressionados a prender a aluna que era vítima de Voldemort.
— Mas, que Ministro é esse que decide enviar para a cadeia uma criança? Ele enlouqueceu? — Petúnia se mostrou indignada.
— Infelizmente, Fudge está muito preocupado com a própria carreira, em manter o cargo a todo custo e quer calar os críticos. — Falc disse suavemente. — A imprensa e a população mágica se mostram cada vez mais sem paciência para suas incompetências. Legalmente falando, a garota não seria condenada, porque provaríamos que ela sofreu manipulação mental e não se lembra de abrir a Câmara.
— Mas, revelar o seu nome ao público e levá-la a julgamento, poderia destruí-la e sua família. — Sirius encerrou e Falc acenou concordando.
— Isso é monstruoso. — Petúnia disse chateada. — Harry fez bem em manter sua identidade em sigilo, ainda que me aflija que ele, Terry e Neville, tenham que se colocar em tantos perigos.
— Exatamente o meu ponto. — Serafina disse suavemente. — Estou tentando me ajustar ao fato de que o Harry é a peça central em toda essa situação e na guerra que enfrentaremos, mas, ainda não consigo aceitar todos os perigos que as crianças estão correndo. Nós adultos é quem deveríamos estar enfrentando esses perigos e resolvendo esses mistérios. Se não podemos confiar no Ministério, somos nós quem devemos agir e não as crianças.
— Mas, quando o Harry tentou compartilhar informações e considerações, você foi a primeira a calá-lo. — Petúnia disse duramente. — Ele deixou bem claro que não queria se colocar em luta com a basilisco ou enfrentar Voldemort mais uma vez, tudo o que ele queria era ajudar a encontrá-los o mais rápido possível e todos os adultos o ignoraram. Com exceção de Flitwick, claro.
— Isso é verdade. — Serafina se mostrou envergonhada. — Eu entendo que errei ao perder sua confiança, mas, tudo o que eu queria era protegê-lo.
— Essa justificativa não o alcançará, Serafina. — Petúnia disse mais suavemente. — Harry viveu sem controle sobre sua vida, sua voz, decisões e ações por toda a sua infância. Ele passava dias e dias sem falar uma única palavra porque era proibido de fazer perguntas ou castigado por tecer comentários. Se Vernon se zangasse, Harry passava dias trancado no armário sem refeições ou com o mínimo... — Ela se emocionou e tentou controlar a voz embargada. — Harry não aceitará ser calado nunca mais ou controlado, censurado e prisioneiro das circunstâncias, não importa quais sejam as suas boas intenções.
— Então... O que faremos? — Serafina se mostrou perdida. — Eu não sei o que fazer.
— Precisamos respeitá-lo, incentivá-lo a pensar por si mesmo e a expor seus pensamentos. Não devemos tentar calar a sua voz. — Petúnia disse convicta.
— E, temos que confiar nele. — Sirius disse. — Serafina, pense em tudo o que o Harry já fez até agora, além de todas as novas ideias para ajudar mais e mais bruxos. Quando o vejo falando, percebo que ele não quer ser calado e também quer que todos tenham direito a voz. Harry foi tratado injustamente e agora luta por justiça para todos os perseguidos e injustiçados do nosso mundo.
— Sim, e eu o admiro por isso. — Serafina disse sincera. — Apenas, meu instinto de mãe me diz que ele e as outras crianças devem ser protegidas, sabe.
— Claro que devemos protegê-los, mas, não podemos aprisioná-los. — Petúnia disse pensativa. — E, Lily... seria a primeira a dizer que devemos deixar o Harry crescer livre e forte, para se tornar quem ele tem o potencial de ser. Harry merece alcançar o seu potencial físico e mágico, que essa cura incrível lhe presenteou, mas, também merece ter a chance de ser um ser humano forte e autoconfiante. Não o quero carregado de traumas e culpas, mais do que as que ele já tem.
Sirius e o casal Boot ficaram pensativos com essas palavras, pois ainda não tinha considerado a importância que confiar no Harry teria para sua saúde emocional.
— Ainda estou absolutamente assombrado com esse fenômeno mágico. — Sirius disse sorrindo. — A alegria que Harry expressa na carta ao falar que está curado... acredito que nunca o vi tão feliz.
— Não deveríamos estar tão surpresos, em se tratando do Harry, tudo é possível. — Falc acrescentou.
— Sim, nós estamos felizes, Harry está feliz, mas sua primeira consideração sobre isso, é que estará mais forte para vencer Voldemort. Isso me preocupa também, que toda a sua vida gire em torno da guerra. — Serafina disse preocupada.
— Ele quer sobreviver, Serafina. — Petúnia disse apertando as mãos com força. — Quando se tem sede, só se pensa em água, quando se tem fome, em comida e, quando existe a possibilidade da morte, só se pensa na vida.
— Você está certa, Harry não está pensando em morte e guerra, ele está pensando em vida, em vencer. — Sirius disse pensativo. — Precisamos nos concentrar e lutar por isso também, ao mesmo tempo em que os protegemos como pudermos.
— Para vocês será mais fácil encontrar o equilíbrio, pois lutarão ao lado deles quando for necessário. Eu terei que me sentar aqui e confiar que o Harry sabe o que está fazendo e voltará inteiro para casa. — Observou Petúnia cansada.
— Harry quer se preparar para a guerra, treinar, estudar e enfraquecer os aliados de Voldemort. — Sirius disse e viu a expressão surpresa de Serafina. — Ele precisará do nosso apoio e ajuda em seus planos, acredito que não importa nossas dúvidas, todos podemos oferecer isso.
— Se tudo o que puder lhe oferecer for minha fé e apoio, Harry as terá de mim. — Petúnia disse com determinação. — Mas, também gostaria de saber sobre essas novas ideias do Harry e seu planos para enfraquecer Voldemort. Quero ajudar no que ele precisar e para isso tenho que estar informada.
— Ok. Primeiro, os lobisomens... — Sirius contou sobre a ilha e como proteger os lobisomens era uma ação humano e inteligente como estratégia de guerra.
— Interessante. — Petúnia disse pensativa. — E, o problema é ter emprego para todos no caso de a maior parte da comunidade se interessar por essa nova vida?
— Sim. — Falc disse respondeu. — Estamos com um número pequeno comparado ao tanto de lobisomens que existem.
— E, não há mais empresas para se abrir no mundo mágico? — Petúnia questionou. — Além da Fábrica de Cosméticos?
— Suponho que podemos pesquisar que área está em crescimento e qual a perspectiva de se investir em uma nova fábrica ou loja. — Falc disse pensativo. — Mas, isso levará tempo e tem que ser feita com cuidado para não investirmos errado no momento errado.
— E, no mundo trouxa? — Ela perguntou e estranhou suas expressões surpresas. — O que? O mundo mágico não é o único que existe, vocês sabiam? O Reino Unido é uma superpotência mundial que tem vários setores industrias diferentes em crescimento saudável. — Petúnia apontou para os livros que esteve estudando nas últimas semanas. — O mundo mágico britânico é, comparativamente, muito menor, por isso, abrir os olhos para o mercado trouxa me parece uma ideia razoável.
— Isso é uma boa ideia. — Falc disse espantado por não ter considerado antes. — Que setores estão em maior crescimento no momento?
— Construção Civil está em alta, graças ao aquecimento econômico. — Petúnia expôs. — Existem mais pessoas com mais estudos, mais rendas e que querem uma casa melhor. A área de alimentação e bebidas também é muito forte, assim como a Industria Têxtil e de Manufatura, afinal, roupas, carros, comidas e bebidas são fortemente consumidos por uma população com renda estável. Existem previsões muito otimistas, alguns mais conservadores diriam arriscadas, na área de eletrônicos e química. Eu, particularmente lhes digo que tudo a ver com telefone, televisores, computadores e vídeo games será o grande boom financeiro das próximas décadas.
— Como sabe tudo isso? — Serafina perguntou surpresa, pois a Petúnia que conheciam era só uma dona de casa.
— Ah, eu não tive a oportunidade de lhes contar que decidi voltar a estudar. — Petúnia ajeitou o cabelo timidamente. — Não nos encontramos muito desde... — Ela olhou para o Falc que sorriu tristemente. — Desculpe.
— Não se desculpe, Petúnia, e você tem razão, não nos reunimos muito nessas últimas semanas e isso é imperdoável. — Falc disse e Serafina apertou sua mão com carinho. — Conte-nos o que tem feito.
— Bem... Eu decidi terminar meu curso de Administração, estou fazendo algumas aulas de reciclagem antes de retomar o quinto semestre no outono. — Ela sorriu empolgadamente ansiosa. — Incrível como o mundo muda em 15 anos, a área administrativa, econômica e o mercado financeiro sofreu um grande avanço. Estou reaprendendo e aprendendo todos os dias, tem sido empolgante.
— Parabéns, Petúnia. — Serafina sorriu sincera e animada. — Isso é realmente incrível, principalmente se você estiver feliz. No que está pensando em trabalhar depois de se formar?
— Bem, tem muitas áreas novas e incríveis, a contabilidade não me atrai como antes e o trabalho voluntario no Abrigo tem sido uma revelação. — Petúnia sorriu. — Estou pensando em trabalhar no Terceiro Setor.
— O que é isso? — Sirius perguntou confuso.
— Organizações não governamentais, basicamente. — Petúnia disse ansiosa. — Instituições sem fins lucrativos que tem como missão a realização de um trabalho civil e voluntário para a sociedade. Estou pensando em trabalhar com ONGs, Abrigos ou outras instituições que proporcionam um trabalho tão importante e que precisam de bons gestores e pensadores. Estive em uma incrível palestra com uma especialista na área, Srta. Perrin, ela é uma socióloga francesa e defende que devemos desenvolver maneiras mais inteligente e eficazes de gerir as ONGs e Instituições. Por isso precisamos pesquisar, observar e desenvolver novas estratégias...
— Espere. — Falc interrompeu seu discurso animado. — Srta. Perrin? Como em Belle Perrin?
— Sim! — Petúnia exclamou surpresa. — Vocês a conhecem?
— Claro! Ela é uma das diretoras da GER! — Falc disse sorrindo. — Uma grande contratação e tem feito um trabalho maravilhoso na Divisão Evans!
— O que? — Petúnia sentiu seu coração se acelerar. — Divisão Evans? O que é isso?
— Harry não lhe contou? — Serafina se mostrou surpresa. — Imagino que naquela época, quando a GER começou, tanta coisa acontecia e vocês não estavam tão próximos como agora.
— A Divisão Evans é uma divisão da GER e tem esse nome em homenagem a Lily. — Sirius explicou. — Harry escolheu, assim como criou esse setor da empresa para ajudar as pessoas.
— Seria o setor social da empresa no mundo trouxa, Petúnia. — Serafina explicou. — O objetivo principal é ajudar os nascidos trouxas com seus estudos no mundo mágico e trouxa.
— Sim, mas o Harry quer ampliar. — Falc disse. — Ele quer ajudar outras criaturas e seres mágicos, creio que a Divisão Evans será um grande apoio para Stronghold, por exemplo.
— Ora, que incrível... — Petúnia colocou a mão no peito emocionada. — Divisão Evans, um nome muito apropriado... Lily e... meus pais amariam.
— É incrível o trabalho que Belle está fazendo. — Sirius disse suavemente. — Sua equipe está conseguindo fornecer bolsas de estudo em faculdades trouxas para os jovens que se formaram em Hogwarts nos últimos anos e não têm opções de empregos no mundo mágico, algo que só descobriram quando era tarde demais para se dedicarem aos estudos trouxas. Conseguimos uma imensa lista de alunos nascidos trouxas formados nos últimos dez anos e a Divisão Evans procura e entrevista cada um para saber como podemos ajudá-los. Também iniciou um projeto para bolsas estudantis para os abortos de vivem no Orfanato dos Abortos. — Sirius gesticulou com as mãos. — A intenção é transformar o mundo mágico, suas leis discriminatórias e política elitista, mas, enquanto isso, o Harry insiste que todos devem ter acesso ao conhecimento.
— Harry está certo, uma sociedade mais educada gera pessoas mais capazes de gerar retorno evolutivo com seus conhecimentos e talentos. O Centro Esportivo, por exemplo, todas aquelas crianças aprendendo sobre esportes, comunidade, amizade, saúde, alimentação. — Petúnia disse. — Não tenho dúvida que o reflexo disse durará por gerações e fornecerá no futuro grandes esportistas, professores, fisioterapeutas, médicos. Quando se investe na educação, uma sociedade só tem a ganhar. Eu adoraria ajudar... quer dizer, eu não sou uma bruxa, mas, se houvesse qualquer coisa que pudesse fazer, isso me deixaria muito feliz.
— Com certeza. — Falc disse olhando para Sirius, pois toda a ajuda que pudessem ter era muito bem-vinda. — Estamos precisando de ajuda e se puder nos orientar sobre opções de investimento que gere empregos no mundo trouxa. Quer dizer, Edgar poderia fazer isso, mas está extremamente sobrecarregado no momento.
— Bem, essa não é minha área e acabei de retomar os meus estudos... — Petúnia parecia insegura.
— Qualquer ajuda é bem-vinda, Petúnia. — Sirius disse. — Mesmo que seu interesse seja na área de ONGs e nós tenhamos que encontrar um administrador em um futuro próximo, se puder nos orientar agora, ficaremos gratos.
— E, podemos lhe apresentar a Belle, tenho certeza que poderá ajudar na Divisão Evans também se estiver interessada. — Disse Falc pensativo.
— Verdade? Eu adorei a palestra dela, na verdade, me abriu os olhos. — Petúnia disse ansiosa. — Eu comecei a fazer o trabalho voluntário no Abrigo duas vezes por semana desde o início de janeiro e adorei, mas, foi depois da palestra que percebi que posso ajudar ainda mais se puder aprender sobre o desenvolvimento de estratégias de gestão das ONGs. — Petúnia apertou as mãos ansiosa e empolgada. — Ok. Quero ajudá-los e ao Harry com suas ideias brilhantes. Podem contar comigo.
— Bem, acho que isso também a torna parte da Equipe do Harry. — Sirius sorriu divertido.
Petúnia arregalou os olhos para a ideia e, depois que seus convidados partiram, decidiu que estava com fome outra vez e voltou para a cozinha para fazer um lanche, enquanto animadamente pegava o próximo livro da sua lista de leituras.
Na sede do jornal, o Profeta Diário, Sirius observou quando o editor e colega, Barnabas Cuffe, dispensou a secretária depois que ela lhes trouxe um chá cheiroso em uma bandeja de prata.
— Não precisa de tanta cerimonia, Barnabas. — Sirius disse aceitando a xícara de porcelana delicada e decorada com pomos dourados.
— Bobagem, uma deliciosa xícara de chá não é cerimonia, é uma obrigação inglesa. — O editor era alto e encorpado, tinha um rosto largo, cabelos compridos e negros, com alguns fios grisalhos e olhos castanhos escuros. — Você me disse que essa entrevista deve ser escrita por mim e com a maior qualidade. Não seria outra declaração do seu afilhado, não é? — Seu sorriso era amplo e sua expressão ambiciosa. — As vendas subiram consideravelmente depois daquela entrevista.
— Não, a entrevista é minha mesmo, Barnie e quero que você escreva porque confio em seu trabalho. — Sirius disse. — Seus outros jornalistas não são do meu agrado e o que preciso dizer necessita de competência e seriedade.
— Entendo. — Barnie, como era mais conhecido pelos amigos e colegas, encarou Sirius com atenção. — Estou vendo que o assunto é sério e fico feliz com sua confiança, na verdade, ultimamente, venho redescobrindo o prazer de escrever graças a você e ao jovem Sr. Potter. E, sobre os meus jornalistas, infelizmente, tenho que me contentar com o que recebo.
— Como assim? — Sirius perguntou confuso.
— Jornalismo, em nosso mundo, não tem escola ou, como os trouxas dizem, universidades. — Barnie disse suspirando. — Os alunos que têm interesse em trabalharem no jornal e, não são muitos, iniciam como estagiários aqui e nós os ensinamos como um dia aprendemos. Você não sabe quantas vezes recebemos aspirantes a jornalistas que não sabem escrever uma simples dissertação decente. Dos poucos estagiários, aqueles que se mostram mais promissores, promovemos a assistente de jornalista ou assistente de editor. Um dia, se tornam jornalistas, mas, isso não quer dizer que são bons jornalistas, ainda que eu tenha alguns que me dão muito orgulho de ter treinado pessoalmente.
— Como Skeeter? — Sirius provocou e recebeu uma careta de revolta.
— Merlin me salve daquela mulher! — Barnie suspirou. — Ela estava aqui antes que eu pisei neste prédio e, apesar do trabalho no mínimo duvidoso, o dono do Profeta nunca a despediu. Felizmente, quando eu assumi como Editor, consegui a garantia de que teria o controle total sobre a edição do jornal, inclusive qual jornalista enviar para cada reportagem. Mas, não posso negar que ela consegue alguns furos bem suculentos algumas vezes.
— Bem, eu confesso que seu tom de escrita não me agrada... — Sirius parou pensativo. — Hum..., Barnie, você é alguns anos mais velho que eu, certo?
— Mais do que alguns, acredito. — Barnie sorriu divertido. — Porque?
— Bem, eu tenho uma querida amiga que estudou alguns anos à frente de mim em Hogwarts, Emmeline Vance. — Sirius disse sorrindo. — Muito inteligente e séria, queria ser auror, mas não conseguiu uma vaga no treinamento e acabou indo trabalhar como Obliviadora.
— Ah, imagino que não seja o trabalho mais emocionante. — Barnie comentou com uma expressão pensativa. — Entendo onde quer chegar e estou precisando de alguém com talento e seriedade para escrever sobre assuntos mais importantes, principalmente com as eleições do ano que vem e Fudge se queimando mais a cada dia.
— Vance pode escrever sobre política, corrupção e fatos policiais com brilhantismo, tenho certeza. Quando a conhecer perceberá o seu senso crítico carregado de sarcasmo. — Sirius vendeu mais um pouco sua ideia.
— Ok. Me envie ela e, se me mostrar que consegue escrever uma dissertação decente, eu a contrato. — Barnie disse sorrindo. — Na verdade, se ela for tão boa, serei eu que lhe agradecer. Agora, vamos a entrevista, estou curioso, confesso. — Disse Barnie preparando um pergaminho e uma pena para escrever automaticamente.
— Bem, eu me senti na obrigação de dar essa entrevista. — Sirius disse suavemente com a expressão certa. — Estive acompanhado as notícias impressas no Profeta e em contato com os aurores para quem dei meu depoimento na semana passada, mas descobri que a única maneira justa de agir é falar diretamente a verdade para o público.
— Verdade? — Barnie se mostrou surpreso.
— Sim, eu estive na Travessa na noite do suposto ataque dos lobisomens, Barnie. — Sirius disse e viu o homem arregalar os olhos de empolgação.
— Conte-me tudo. — Barnie o incentivou amigavelmente.
— Quando os aurores invadiram a Travessa e iniciaram essa limpeza, eu tinha acabado de descobrir que não poderia realizar o meu sonho de ser um auror, pois fui recusado no treinamento. — Sirius explicou. — Estava pensando sobre o que fazer da minha vida, profissionalmente e, ao mesmo tempo, reestruturando as Fábricas Blacks, que por muito anos foram gerenciadas pelo Departamento de Patrimônio do Ministério. Não preciso dizer que eles fizeram um péssimo trabalho e a maneira que as leis permitem que as famílias antigas e puras explorem seus funcionários apenas porque eles são nascidos trouxas, é algo criminoso e uma vergonha para a nossa sociedade. Assim, passei muito meses me recuperando da minha injusta prisão e tornando minhas fábricas um local adequado e justo para os meus funcionários. Além disso, meu tio Alphard me deixou seu negócio imobiliário, onde ele comprava, reformava e revendia casas por toda a Europa. Com as informações de que a GER estava comprando prédios e transformando em novos negócios no Beco Diagonal, tive a ideia de investir na Travessa do Tranco.
— Com assim? O que você pretendia fazer com os prédios que comprasse na Travessa? — Barnie perguntou curioso.
— O mesmo que meu tio. Eu pretendia reformar os imóveis e vender para a GER, isso geraria um bom lucro para os meus bolsos e veríamos a Travessa ser transformada em uma bonita continuação do Beco Diagonal. — Sirius disse sorrindo.
— Mas, os boatos eram de que você pretendia reiniciar os antigos negócios escusos da sua família na Travessa. — Especulou Barnie inteligentemente.
— Boatos, apenas, Sr. Cuffe. — Sirius disse usando de mais formalidade. — Jamais me identifiquei com minha família, fugi de casa aos 16 anos, pois me recusei a me tornar um seguidor de Voldemort. Meu pai, em sua velhice, se desfez de alguns negócios mais escusos por suas próprias razões e jamais me envolveria em atividades criminosas. Tenho grande respeito pela lei e pela justiça.
— E o que aconteceu na noite de 13 de fevereiro? — Barnie perguntou, depois da boa introdução.
— Bem, tive um encontro marcado com o representante do dono das casas do fundo da Travessa. — Sirius explicou. — Eu já tinha desistido de encontrá-los, na verdade, pois todas as minhas tentativas foram ignoradas. No entanto, alguns dias antes daquela noite, recebi um contato e marcaram um encontro na própria Travessa.
— E, não teve receio de entrar nos fundos da Travessa do Tranco sem saber quem iria encontrar? — Barnie questionou surpreso.
— Fiquei preocupado, mas, sinceramente, não pensei que haveria algo a temer, Sr. Cuffe. — Sirius disse sincero. — Eu pretendia oferecer uma proposta de compra que poderia ser recusada ou não, além de imaginar que me encontraria com um representante do dono ou donos dos imóveis. Também havia o fato de que haviam aurores vigiando a Travessa, assim, não temi que nada perigoso poderia me acontecer.
— Mas, ao chegar ao ponto de encontro, tudo mudou. — Barnie disse suavemente entendendo a armadilha.
— Sim. Logo descobri que os donos dos prédios decidiram aparecer pessoalmente. — Sirius disse tenso. — Primeiro, Todd Egan apareceu, ele é meu primo de segundo grau que foi expulso da Família Egan quando foi mordido por um lobisomem.
— Isso é terrível! — Barnie exclamou chocado.
— Ele teve sorte, Sr. Cuffe. —Sirius disse tristemente. — A maioria das famílias antigas que defendem a pureza de sangue teria matado Todd sem um segundo de hesitação.
— Eu não sabia disso! — Barnie empalideceu chocado. — Você presenciou algo assim quando vivia com seus pais, Sr. Black?
— Sim, infelizmente. E, não apenas bruxos e bruxas infectados por licantropia são mortos por suas próprias famílias, Sr. Cuffe. Os abortos também são assassinados quando não recebem sua carta de Hogwarts. — Sirius sentiu o estômago embrulhar com as lembranças. — A família Egan teve uma criança aborta, uma menina, irmã de Todd, que foi morta aos 11 anos, usaram o Avada Kedrava na pobre. E, os Lestrange, o gêmeo de Rodolfo, segundo testemunhado por meu avô, Orion, foi queimado vivo.
— Merlin... isso não é possível... — Barnie parecia assombrado ou que vomitaria a qualquer momento.
— Infelizmente é verdade e muito comum. — Sirius disse aliviado por poder falar toda a verdade. — Por causa da endogamia que ocorre com o casamentos entre primos ou irmãos, que continuam a acontecer apesar da proibição do Ministério, muitas crianças nascem sem magia. Nas famílias mais piedosas e menos radicais em seus preconceitos, elas acabam no Orfanato dos Abortos, mas, em outras famílias, consideradas mais radicais, elas são assassinadas.
— Estou chocado, Sr. Black, pensei que vivíamos em uma sociedade civilizada e não medieval! — Barnie exclamou enojado.
— Bem, como dizia, Todd tentou sentir se podia confiar em mim e se eu estava disposto a ouvir uma contraproposta dos lobisomens. Eu deixei claro que não tinha preconceitos e não me importava de conversar e negociar com lobisomens. — Sirius disse. — Sei que a lei Anti-Lobisomem diz que é proibido que lobisomens tenham casa, negócios ou empregos, mas, sou absolutamente contra tirar toda a possibilidade de eles viverem com dignidade. Todd percebeu minha sinceridade e chamou seus amigos, para minha completa surpresa, mais 3 lobisomens se apresentaram e propuseram se tornarem meus sócios.
— Sócios? — Barnie se mostrou surpreso.
— Sim, eles tinham ouvido os boatos sobre eu fazer negócios escusos e queriam me oferecer entrar como sócio na sociedade deles. Eles se manteriam por traz, fazendo o trabalho duro e eu seria o rosto dos novos e legalizados negócios. — Sirius explicou. — No momento, achei melhor, por minha segurança, não lhes dizer meus verdadeiros planos e aceitar a proposta.
— Você aceitou ser sócio dos lobisomens? — Barnie perguntou surpreso.
— Sim, por duas razões. Primeiro, me pareceu o mais inteligente não discordar deles, afinal, eu estava em uma situação vulnerável. Segundo, porque estava sendo sincero. — Sirius disse se preparando para a sua melhor jogada. — Ali, no meio da reunião, percebi que poderia empregá-los, abrir algum negócio verdadeiramente legal com eles e ajudá-los deixar o mundo do crime, que sei que a maioria deles vive por não ter opções.
— Você acredita mesmo nisso, Sr. Black? Que a maioria dos lobisomens que se tornam marginais, o fazem apenas por falta de opções? — Sr. Barnie perguntou inteligentemente e Sirius sorriu pela oportunidade.
— Com certeza. Imagine, você, que está lendo esse jornal em sua casa, tomando o café da manhã com sua esposa, filhos pequenos, se preparando para ir ao trabalho. Pare por um segundo e imagine perder tudo, um dia, você tem uma vida e, no dia seguinte, perde tudo, inclusive sua saúde. A licantropia é uma condição médica, não é uma escolha ou um defeito abominável de caráter. Imagine como seria ser expulso da sua família, perder sua casa, seus amigos, seu emprego e descobrir que a lei diz que você não é mais um bruxo ou um ser humano, você é uma criatura escura que deve viver nas florestas, longe dos bruxos e sem direito a casa ou trabalho. Reflitam, por favor e imaginem isso acontecendo com você. — Sirius fez uma pausa de quase um minuto. — Se você tem o mínimo de bondade e solidariedade em seu coração, acredito que entendeu a injustiça dessas leis Anti-Lobisomem. Não estou dizendo que todos os lobisomens são bons ou que não gostem da vida de bandido, mas, tenho certeza absoluta que a maioria, se tivessem uma oportunidade de ter um lar e trabalho, deixaria a vida de crime.
— Realmente... algo que nunca tinha pensado, Sr. Black, mas é chocante considerar que algo assim poderia acontecer conosco ao qualquer momento. — Barnie parecia inconformado com a reflexão. — E, o que o senhor diria sobre aqueles que não se tornam marginais.
— Bem, esses vivem abandonados em florestas frias demais no inverno, Sr. Cuffe, sem lar, comida, roupas quentes. Adoecem e morrem em invernos rigorosos, pois como disse, a licantropia é uma condição que enfraquece seus corpos. — Sirius foi duro e cru em suas palavras e até Barnie ficou meio pálido com a verdade. — Posso apenas imaginar o medo, desesperança, fome, frio e desespero com que eles convivem todos os dias, tudo porque o preconceito do mundo mágico os impede de serem apoiados e ajudados como merecem e precisam.
— Realmente, se o Ministério e suas leis cuidassem dos lobisomens e não os abandonassem como fazem agora, talvez, não haveria gangues de lobisomens cometendo crimes. Parece que é isso que quer dizer, Sr. Black. — Barnie alçou a bola e Sirius sorriu ao dar a cortada perfeita.
— Absolutamente. Sr. Cuffe, estou convencido dessa verdade e soube que alguns funcionários do Ministério querem endurecer ainda mais as leis Anti-Lobisomem. Criando inclusive campos de concentração ou acampamentos, como existiram até a década de 70. — Sirius disse. — Esses acampamentos eram terríveis, pois ofereciam condições insalubres, pouca comida, atividades ou liberdades. Basicamente, o Ministério quer prender milhares de bruxos apenas porque eles têm licantropia. Infelizmente, e ainda mais chocante, descobri que uma certa Madame Umbridge pretende que os lobisomens que fugirem ou esconderem sua condição, serão abatidos como são outras criaturas escuras sem controle.
— Merlin... isso é terrível, mas, eu pensei que os direitos humanos impedissem tal atrocidade. — Sr. Barnie parecia outra vez enjoado.
— Sim, porque estão em nossas leis que sem um julgamento ninguém deve ser preso e a pena de morte foi abolida na década de 60. No entanto, se a Suprema Corte votar para as mudanças de leis, poderia tornar legal julgar e condenar a morte apenas os lobisomens. — Sirius informou. — A ICW não pode interferir, pois as leis internacionais não reconhecem os lobisomens como humanos e sim, como criaturas, portanto, eles repudiam a morte sem um julgamento justo. Mas, isso acontece com todas criaturas, um hipogrifo pode ser julgado e condenado a morte se for considerado perigoso.
— Mas, isso é abominável! — Barnie exclamou e era sincero.
— Esse é mundo em que vivemos, Sr. Cuffe e é por pessoas assim, desumanos, que somos governados. — Sirius suspirou. — O senhor pode imaginar como tudo isso me atinge diretamente, depois de passar 10 anos em Azkaban, sem julgamento e sendo inocente.
— Claro. Eu sabia da incompetência do Ministro, mas nunca pensei que também poderíamos classificá-lo como cruel e desumano. — Barnie disse. — Por favor, Sr. Black, continue a contar os acontecimentos daquela fatídica noite.
— Infelizmente, eu cometi um erro naquela noite, Sr. Cuffe. — Sirius continuou. — Depois que conheci os outros 3 lobisomens, descobri que os quatro eram sócios e dois deles mantinham a sociedade para alimentar suas matilhas. E, claro, entendi porque mantiveram qualquer tipo de negócio com o terceiro, alguém que sei que a maioria dos lobisomens abominam.
— Quem era esse último sócio?
— Fenrir Greyback. — Sirius disse e Barnie exclamou chocado. — Sim, também me senti chocado, mas as surpresas da noite ainda não tinham acabado. Enquanto lhes dizia que aceitava a sociedade com uma condição, um comensal da morte apareceu.
— Um comensal da morte!? — Barnie exclamou incrédulo. — Mas, eles não estão todos presos?
— Acredita mesmo que todos os fiéis seguidores de Voldemort estão em Azkaban, Sr. Cuffe? Não, muitos conseguiram escapar com mentiras ou dinheiro e devido a incompetência do Ministério, a mesma que me colocou naquele lugar horrível. — Sirius se mostrou cansado. — Mas, o comensal da morte estava lá, na minha frente, com capa e máscara, se gabando que tudo era uma armadilha que ele tinha engendrado. Ele confessou que procurou Greyback e propôs um acordo financeiro para que eles me atraíssem até ali para morrer. Por um preço, Greyback me mataria ao seu comando.
— Você reconheceu o comensal da morte por traz da máscara? — Barnie perguntou ansioso.
— Com certeza, infelizmente, não posso dizer, pois seria a minha palavra contra a dele e essa é uma investigação ativa dos aurores. — Sirius disse. — Quero apenas contar a verdade dos fatos, mas, não atrapalhar o trabalho do aurores, entende?
— Claro, claro. — Barnie tinha o cenho franzido diante a contradição da frase.
— Posso apenas dizer que é alguém que ganharia muito com minha morte. — Sirius disse e o viu arregalar os olhos em entendimento. — O fato é que Greyback decidiu trair o seu contratador, pois percebeu que, em uma sociedade comigo, ele ganharia muito mais dinheiro. Ele pretendia matar o tal comensal, mas, foi então que eu cometi o meu erro. Arrogância, acredito, me fez apresentar a minha condição para a sociedade.
— Qual condição?
— Eu aceitaria a sociedade se Greyback não fizesse parte dela, afinal, eu jamais me associaria a um monstro terrível como ele e não estou falando do seu lobo. — Sirius disse. — Os dois outros lobisomens, Gun e T, tinham muitos homens na Travessa e Todd também tinha alguns do seu grupo, Greyback estava sozinho, afinal, ele não tem matilha. Percebi que era a chance de livrar o nosso mundo de Greyback, seus assassinatos e contaminação. Propus que o matassem e o negócio estava fechado
— Era um bom plano. —Barnie considerou seriamente.
— Mas, o que eu não podia imaginar, era que Todd fosse leal a Greyback e, quando fiz essa proposta, os dois decidiram honrar o acordo com o comensal da morte e me matar. — Sirius disse ironicamente. — T e Gun pareceram querer me apoiar e eu estava otimista de que, juntos, poderíamos vencer Greyback, mas, antes que qualquer coisa acontecesse, Greyback me distraiu e Todd Egan enfiou sua espada em mim.
— Merlin! — Barnie o olhou chocado como se procurasse o ferimento, Sirius ergueu a blusa mostrando a cicatriz.
— Percebi, quando caí no chão, Sr. Cuffe, que estava morrendo. — Sirius disse suavemente. — Então, os aurores chegaram atacando por todos os lados. Em um segundo, tudo virou uma confusão, Todd instigou seus homens a matarem os aurores, T criou distrações para os seus homens fugirem e Gun tentou ajudar todos os seus a saírem. Eles gritavam que não era para lutar com os aurores ou machucar ninguém, o objetivo era fugir em segurança, mas Egan e seus homens pareciam enlouquecidos. Greyback veio atrás de mim, mas, um dos aurores me tirou de lá e consegui atendimento de um curandeiro que salvou minha vida.
— Então, os lobisomens não estavam tentando tomar a Travessa? — Barnie perguntou e dava para perceber sua expressão ferozmente zangada. — O Ministério mentiu?
— Com certeza! E, não sei de onde eles tiraram essa suposição absurda! — Sirius disse com veemência. — Egan, quando se viu cercado decidiu fugir e, ao mesmo tempo, matar alguns aurores porque ele é mal e cruel. No entanto, T e Gun estavam ali em paz e apenas procuravam uma maneira de alimentar suas matilhas. Não houve ataque ou tentativa alguma de tomar a Travessa e só posso supor que essa mentira inventada pelo Ministério tem como intenção perseguir os lobisomens, além de endurecerem de maneira cruel e desumana as leis Anti-Lobisomem. — Sirius mostrou sua indignação. — Por isso, Sr. Cuffe, decidi vir até aqui hoje, assim que me recuperei completamente de meu ferimento e percebi que as notícias eram completamente falsas e injustas, não pude me manter calado. Detesto injustiças e me pareceu que alguém deveria defender a verdade e os lobisomens, por isso, quero anunciar que pretendo contratar o melhor advogado disponível para defender os lobisomens da matilha de Gun que foram presos e que o Ministério pretende condenar a prisão perpetua em Azkaban. Também quero avisar que pretendo lutar com todo o meu poder para que as leis Anti-Lobisomem não sejam ampliadas, pelo contrário, espero convencer a nossa Suprema Corte que essas terríveis leis devem ser extintas e novas leis, justa e humanas devem ser formuladas.
— Isso é incrivelmente generoso de sua parte, Sr. Black. — Disse Barnie sincero. — E, compreendo a sua indignação, pois me parece que além de mentiroso, o Ministério continua incompetente. Eles capturaram alguns lobisomens que nada fizeram além de tentarem uma maneira de subsistir e continuam a perseguição ao resto da matilha. No entanto, não se ouve uma única palavra sobre tentar prender os verdadeiros criminosos, Greyback e Egan.
— Exatamente. — Sirius mostrou estar inconformado. — Tentei me informar, claro que tem informações confidenciais, mas, como sou uma das principais testemunhas, exigi saber o máximo possível sobre o que estão fazendo para prender esses dois ou descobrir sobre o comensal da morte. Fui informado que o foco das investigações, por ordem do Ministro, é prender o maior número possível de lobisomens das matilhas do Gun e T. — Sirius estava furioso. — Não foi declarado, mas estava explicito que a intenção do Ministro Fudge é usar essas prisões como alavancagem para sua campanha de reeleição. Algo sobre se mostrar um Ministro competente em tornar o nosso mundo mais seguro, ao tirar a liberdade de tantos lobisomens inocentes. Fiquei absolutamente indignado, Sr. Cuffe, porque perseguir inocentes e abandonados é fácil, quero saber e ver o Ministro comandar seus aurores a prender os verdadeiros bandidos da nossa sociedade. Mas, claro, todos sabemos que Fudge é fraco e covarde demais, além de ter amizades muito próximas com muitas figuras questionáveis.
— Essas são declarações fortes, Sr. Black. — Disse Barnie surpreso, mas animado.
— São declarações verdadeiras, Sr. Cuffe. Nosso mundo está mudando e precisa continuar nesta direção. O ataque ao Beco Diagonal por puristas defensores de Voldemort, da morte e da tortura de nascidos trouxas, nos mostrou duas coisas. Que ainda tem muitos desses soltos por aí e que eles comandam nossa política e leis, afinal, Parkinson era um dos membros da Suprema Corte do nosso país. Mas, o ataque mostrou também que o nosso povo está cansado desses preconceitos que duram séculos, que provocam guerras e mortes de inocentes. Nós vencemos a última guerra, Sr. Cuffe, a um custo muito alto, mas não verdadeiramente mudamos nada, pois nossa sociedade continua sendo guiada por pensamentos puristas ultrapassados. Pior, nossas leis e políticas sociais se baseiam no mesmo conceito elitista, eugenista e discriminatório, assim, basicamente, os nascidos trouxas e outros mestiços são prejudicados por seu próprio Ministério e Suprema Corte, que deveriam defendê-los.
— Isso é muito impressionante. — Barnie disse pensativo. — Nunca tinha me ocorrido que as leis e políticas do Ministério e Suprema Corte foram o que permitiram que alguém como você-sabe-quem se sentisse no direito de matar trouxas e nascidos trouxas.
— Sim, e não nos esquecemos da inação criminosa do Ministério na época de guerra, Sr. Cuffe. — Sirius disse inteligentemente. — Demoraram para agir e impedir Voldemort de formar um exército de seguidores. Quando perceberam a gravidade da situação, não tiveram competência para detê-lo ou seus comensais da morte. Desesperados, decidiram começar a matar indiscriminadamente, sem prender e julgar a culpa do acusado, me pergunto quantos outros inocentes não pagaram com a vida por essa incompetência.
— E, ao fim da guerra, nada fizeram para impedir que algo assim voltasse a acontecer! — Barnie disse de olhos arregalados.
— Esse é o meu maior temor, Sr. Cuffe. — Sirius disse chateado. — Parkinson e os Carrows estavam bêbados e agiram cruelmente, imagine se esses puristas decidirem se organizar e recomeçar a guerra. Ou se outro Voldemort surgir, pior, se os boatos de que Voldemort não morreu forem verdadeiros?
— Merlin! — Barnie empalideceu.
— Não estamos preparados para nada disso, Sr. Cuffe e nossas leis ainda mantêm a cruel e injusta discriminação contra nascidos trouxas. Assim, lhe pergunto, do que valeu todas as mortes? Anos de terror e guerra, onde pessoas boas e corajosas morreram em vão, porque ainda vivemos em um mundo segregador e cruel que Voldemort e seus comensais da morte defendiam e ambicionam. — Sirius disse solenemente.
— Realmente, me parece que o senhor tem muitos motivos para se indignar e lutar por melhores leis na Suprema Corte, Sr. Black. Pessoalmente, desejo sorte em sua missão. — Barnie disse solene. — E, aplaudo sua disposição e humanidade para ajudar os lobisomens injustamente acusados e caçados por esse Ministério corrupto e mentiroso.
— Obrigada, Sr. Cuffe, por me dar a chance de falar a verdade. — Sirius disse formalmente. — Gostaria também de anunciar que entrei com um processo para expulsar da Família Black minha prima, Narcisa Black Malfoy e seu filho, Draco Malfoy. Em poucos dias, legalmente, os dois não serão mais aceitos como herdeiros ou acionistas passivos da herança ou linha Black.
— Realmente? Isso é uma grande decisão, Sr. Black, não sabia que estava rompido com os Malfoys. — Barnie especulou surpreso.
— Nunca tive amizade com os Malfoys, Sr. Cuffe, pois, assim como os Blacks, eles são uma família purista. No entanto, minha decisão se deve a informações de que Lucius Malfoy esteve participando de algumas atividades não muito honestas. — Sirius disse sorrindo com malícia. — Além de sua longa amizade com Parkinson, Lucius tem grande interesse em minha morte, se é que pode me entender.
— Claro, entendo muito bem. — Disse Sr. Cuffe de olhos arregalados para a clara insinuação. — Bem, Sr. Black, fale mais sobre os planos que tem para a Travessa do Tranco.
— Bem, manterei meu plano original, reformarei os prédios e os venderei para a GER. — Sirius disse sorrindo. — Na verdade, já estamos em contato e pretendo entrar em sociedade em alguns dos novos empreendimentos. Como, por exemplo, o Caldeirão Furado, onde construiremos uma Boate. Na verdade, aqui é onde farei o primeiro anúncio oficial, Sr. Cuffe. Em agosto, inauguraremos a Boate Black...
Quando terminou a entrevista, Sirius deixou a sede do Profeta no Beco Diagonal e aparatou na pequena fazenda de Vance. A tarde fria e chuvosa de segunda-feira terminava, por isso, Sirius tinha certeza que sua amiga já estaria em casa. A porta se abriu um segundo depois que bateu.
— Ei. — Ele sorriu e Vance retribuiu.
— Ouvi o barulho de aparatação. — Vance disse e o deixou entrar. — Não te esperava, algo aconteceu?
— Algo bom, acredito. — Sirius disse e os dois foram para a cozinha onde Vance começou a preparar um chá. — Você tem algo para comer? Passei quase duas horas em uma entrevista e estou faminto.
— Claro. — Vance abriu a caixa fria e começou a preparar alguns sanduíches. — Me conte sobre essa entrevista e o motivo de sua visita.
— A quanto tempo somos amigos, Vance? — Sirius perguntou depois de um momento de silêncio.
— Acredito que desde a escola, mais precisamente desde que te encontrei chorando e queimando uma carta do seu pai na lareira da sala comunal da Gryffindor. — Vance riu divertida, mas seus olhos mantiveram aquela tristeza de sempre.
— Eu não estava chorando. — Sirius se defendeu falsamente indignado e deu uma grande mordida em seu sanduíche. — Bem, talvez só um pouco. Suponho que deveria lhe agradecer...
— Por favor. — Vance suspirou. — O que é isso? Sabe que não precisa agradecer nada, somos amigos a tantos anos e não preciso de agradecimentos.
— Eu sei, o que faz sua amizade ainda mais preciosa. — Sirius disse sorrindo com carinho. — Você me ofereceu o que eu mais precisava e que até hoje me faz um homem melhor.
— Perder a virgindade faz todos os homens melhores, Sirius. — Provocou Vance e os dois gargalharam.
— Tem razão, não tinha pensado por esse ponto. — Sirius disse. — Sabe, quando recebi aquela carta do meu pai, dizendo que me levaria a um prostíbulo na Travessa do Tranco para me tornar um homem e perder a virgindade, meu desespero foi imenso. No entanto, você me ajudou, me ofereceu a chance de fazer sexo por minha escolha, sem pressão ou abusos e isso me tornou um homem e amante melhor. Acho que é por isso que quero lhe agradecer, não pelo sexo, mas pela chance de ter uma relação saudável com o meu corpo e com o sexo.
— Ok. De nada. — Vance disse sorrindo timidamente. — Bem, mas, o que o trouxe aqui hoje?
— Tenho uma proposta para você e quero que se sinta livre para dizer não, e dane-se o resto. — Sirius disse intensamente. — O mais importante para mim é sua amizade, seu afeto e sua segurança.
— Mas...? — Vance especulou entendendo nas entrelinhas.
— Sem, mas. — Disse resoluto. — No entanto, acredito que essa oportunidade pode vir a beneficiar a nós dois no futuro, se estiver interessada. — Sirius disse dando de ombros.
Vance o encarou com sua expressão curiosa e Sirius se perguntou quando ela parou de cuidar da própria aparência. Sua amiga parecia anos mais velha e seu olhar triste nunca a deixava. Era tão diferente da garota de 16 anos linda e jovial que, de maneira despretensiosa e generosa, ajudou um garoto de 13 anos que estava desesperado com seu destino iminente.
— Sei o que está pensando. — Vance disse se levantando e olhando para o pequeno jardim pela janela da cozinha. — Porque estou com essa aparência...
— Me ocorreu perguntar quando deixei a prisão, mas não quis ser insensível, além disso, você continua linda como sempre, apenas... Triste e melancólica. — Sirius disse suavemente. — O que aconteceu, Vance?
— Você se lembra da guerra, Sirius? De todos que vimos morrer ou matamos? — Vance sussurrou com expressão assombrada. — Nunca me esqueci. Pensei que estava fazendo a diferença, você sabe a minha amargura quando não fui aceita no programa de treinamento auror. Eu queria tanto e era mais do que capaz, mas, naquela época, uma mulher auror era muito mais raro que hoje. Tonks conseguiu uma vaga porque tem um incrível talento, mas poderia ter sido recusada se tivesse um entrevistador machista.
— Moody tem chefiado essa área a alguns anos pelo que sei e mais mulheres têm sido aceitas no programa. — Sirius disse.
— Bem, ser Obliviadora é a coisa mais chata do mundo e a mais triste também. — Vance voltou a se sentar. — Hoje criei novas histórias para várias meninas e meninos, alguns jovens trouxas que precisaram ser esquecidos da terrível experiência que viveram ao serem sequestrados, vendidos e prostituídos por bruxos. Eu sou boa em meu trabalho e eles não se lembrarão de nada, assim como acreditarão nas histórias inventadas para explicar os seus desaparecimentos. Amanhã, visitarei suas famílias e farei o mesmo com todos eles, mas, no fim, apesar de terem paz, ela é baseada na mentira.
— Lamento que não goste do seu trabalho, Vance, mas, você não respondeu minha pergunta. — Disse Sirius ao encará-la intensamente. — O que aconteceu?
— Perdi a vontade de viver, Sirius. — Vance disse. — A vida se tornou um grande vazio de mesmice e coisa alguma. Meus amigos, a maior parte, estavam mortos e eu os vi ser trucidados por fazerem parte de um grupo que queria salvar o mundo. Lembra-se, Sirius? Como éramos tolos, acreditando que salvaríamos o mundo mágico de Voldemort? E, quando ficou claro que estávamos com uma toupeira e que ele estava nos matando, eu fui até Dumbledore e sua indiferença foi revoltante. — Vance mostrou sua amargura. — Ele ignorou os meus avisos e decidi deixar a Ordem, isso me salvou, Sirius e, por anos, depois, me perguntei porquê. Qual o propósito, Sirius? Porque estou viva, se não tenho nada pelo que viver?
Sirius sentiu os olhos se encherem de lágrimas ao ver sua tristeza.
— Minha amiga... — Sirius deu a volta na mesa e a abraçou.
— Estou tão solitária, Sirius, não tenho ninguém, nada e, há dias em que tudo parece sem sentido. — Vance se inclinou contra seu peito tristemente, mas não chorou, sentindo apenas o vazio que a acompanhava a muitos anos.
— Sinto muito, por tudo o que perdeu e passou. — Sirius sussurrou acariciando seu cabelo negro comprido. — As pessoas dizem que os que se foram são as vítimas, mas, a verdade é que nós que ficamos para lamentar suas mortes, também somos vítimas, Vance. E, não há nada de errado em sentir tristeza e culpa por estarmos vivos enquanto eles se foram para sempre... Não há um dia em que não lamente e me pergunte... — Ele se afastou e a encarou nos olhos. — Mas, você deve reagir e o primeiro passo é deixar esse emprego horrivelmente chato e triste que você detesta.
— Só assim? E vivo do que? — Ela perguntou levemente chocada.
— Sim, só assim, Vance, porque algumas vezes temos que mudar de direção, esquecer as decepções e nos redescobrirmos. — Sirius disse com veemência. — Esqueça dos sonhos antigos que não se realizaram e crie um novo caminho, com novos sonhos e que te levem a realizações que a deixem orgulhosa de si mesma. Tenho certeza de que se tiver um propósito que a faça se sentir útil, você se amará e verá sentido em sua vida.
— Quem é você e o que fez com meu amigo, Sirius Black? Espere... — Vance o encarou entre divertida e assombrada. — Eu conheço essa expressão, você está apaixonado! Eu já vi isso antes! James e Lily, Frank e Alice...
— Sim, estou, mas isso não é importante agora, quer dizer... — Sirius se sentiu desconcertado pela afirmação espantosa.
— Como assim, isso não é importante? — Vance disse e bateu em seu peito. — Porque não me disse assim que chegou e quem é ela?
— Não te contei porque não sabia, exatamente... olha, depois explicarei tudo, prometo. — Sirius disse. — Antes, quero lhe dizer que o que me inspira a me redescobrir é o fato de quase ter morrido a uma semana...
— O que? — Vance empalideceu de choque.
— Te contarei tudo, mas, antes, quero lhe dizer que consegui uma entrevista no Profeta Diário para você, se interessada e se tornar uma jornalista investigativa. — Sirius disse e apertou sua mão. — Vamos nos sentar e você me diz o que pensa.
— Jornalista? — Vance se sentou na cadeira pensativa. — Nunca pensei em ser uma jornalista...
— Barnabas Cuffe está precisando de alguém com talento para escrever e investigar, ele quer alguém sério e de confiança que descubra os podres dos políticos, das famílias antigas puristas, crimes cometidos. — Sirius disse. — Um trabalho embasado em provas e não boatos, investigação de qualidade e jornalismo sério. Eu indiquei você e ele quer conhecê-la e fazer uma entrevista.
— Jornalismo investigativo... — Vance disse pensativa. — Eu sempre fui boa em descobrir mistérios, por isso queria muito ser auror e, um trabalho assim, poderia ser minha chance de fazer algo realmente interessante e útil. Mas, porque você pensou em mim, Sirius?
— Você acabou de dizer, você tem talento para ser investigadora e imagino que deva escrever bem, além do fato de que confio em sua seriedade e honestidade para escrever a verdade. — Sirius disse. — Você não se deixaria intimidar ou comprar, Vance e preciso que alguém assim revire o Ministério da Magia e descubra cada podre, de cada político daquele lugar, principalmente do Fudge.
— Você quer que eu trabalhe para você? — Vance parecia surpresa.
— Não, Vance, você trabalhará para o Profeta, mas, ao fazer o seu trabalho muito bem feito, irá me ajudar. — Sirius disse. — Não conheço mais ninguém com seus talentos para investigação e que eu confie, por isso acho que seria perfeita para o trabalho, sinceramente.
— Ok. Eu acredito, mas, antes de ir nessa entrevista, quero que me conte tudo o que está acontecendo. Como você quase morreu e quem é a garota, não deixe nada de fora. — Vance disse e, se levantando, pegou uma garrafa de whisky de fogo e lhes serviu em dois copos. — Como já escureceu e a conversa será longa, prefiro me aquecer com isso do que com chá, se não se importa.
— Nem um pouco. — Sirius bebeu um gole do whisky que desceu queimando e o fez sorrir. — Bem, tudo começou...
Sirius contou tudo o que aconteceu desde o início da OP Travessa do Tranco, que foi uma ideia do Harry de transformar o lugar em algo tão bonito como o Beco Diagonal prometia ficar com a reformas.
— Utilizei sua ideia para convencer o Chefe Auror e a Madame Bones a iniciar a OP, ao mesmo tempo em que realizava o meu treinamento com a Agente Denver. — Sirius encerrou essa parte da história.
— Bem, foi um bom plano e isso explica o que você disse naquele churrasco em agosto, sobre ficar um pouco sumido. — Vance disse pensativa. — E, explica porque não o vejo desde o Ano Novo.
— Desculpe por isso. — Sirius disse timidamente.
— Tudo bem. Agora, me conte sobre essa Agente Denver, no jantar em dezembro a achei meio... mal-humorada. — Vance disse com um sorriso divertido.
— Oh! Sim, mal-humorada a descreve bem. — Sirius riu. — Mas, nossa relação é recente, deixe-me explicar...
Sirius, então, contou porque não podiam começar uma relação antes e o desastre da última parte da OP, onde ele quase morreu. Explicou como, depois de ser salvo por Fiona e Snape, terminou no apartamento de Denver, pois estava sendo caçado por Greyback. Também explicou a perseguição injusta do Ministério aos lobisomens e como pretendia ajudá-los com advogados, além de começar a combater as leis injustas na Suprema Corte e impedir a reeleição do Fudge. Sirius apenas não falou sobre a ilha, a GER e os planos do Harry.
— Ok, eu entendo porque quer ajudar a mudar as leis, você sempre detestou injustiças e a maneira como tratam os lobisomens é desumano. — Vance disse pensativa. — Apenas não entendo porque não quer que o Fudge seja reeleito. Nunca o vi se interessar por política, Sirius e mesmo com ele no cargo, é possível criar e defender projetos de leis mais justas na Suprema Corte.
— Talvez, mas, a maneira como o Fudge age, priorizando a sua carreira e manter o seu cargo de Ministro a qualquer custo, não é melhor para o povo e não pode continuar, Vance. — Sirius disse preocupado. — Precisamos de um Ministro forte e que tenha coragem de fazer o certo e não o conveniente.
— Bem, pelo que soube, Madame Bones tem tentado aconselhá-lo em alguns aspectos, mas, Fudge é um covarde. Quando a questão financeira se tornou um problema, Bones lhe deu várias ideias, cortes de salários de todos os funcionários, incluindo os deles, cortes de benefícios para os chefes de Departamentos, mas, Fudge foi pressionado pelos puros sangues a não fazer isso, assim, seguiu com as ideias de Umbridge de despedir em massa os funcionários nascidos trouxas ou mestiços, além de cortar seus salários e acabar com as horas extras.
— Isso é tão absurdo e injusto, mas, legalmente o Ministro pode agir de maneira discriminatória. — Sirius disse irritado. — A questão é que essas leis demorarão anos para serem alteradas, isso se conseguirmos a maioria do apoio dos membros da Corte. E, a verdade é que não temos muito tempo, Vance, precisamos de um Ministro forte que não trabalhe para os puros sangues e sim para todos os bruxos e bruxas.
— Tempo? — Vance o encarou preocupada. — O que é isso? O que você sabe, Sirius?
— Voldemort está vivo, Vance. — Sirius disse suavemente e a viu empalidecer.
— Não... não, Sirius, não... Não! — Ela se levantou furiosa, apavorada. — Nós já perdemos demais! Ele tem que estar morto! Aquele monstro não pode estar vivo!
— Vance... — Sirius pode ver a dor em seus olhos.
— Sirius... não, isso... por favor, diz que é mentira. Por favor...
— Ei, olha para mim! — Sirius a segurou pelos ombros. — Eu sei, eu sei, mas você pode enfrentar isso! Vance! Nós sobrevivemos a última guerra e faremos o mesmo na próxima!
— Eu não me importo de sobreviver, Sirius! Eu apenas não aguento mais, não suportarei ver tantos morrerem outra vez. — Seus olhos, antes secos, brilharam de lágrimas, mas elas não caíram.
— Então me ajude, Vance. — Sirius disse intensamente. — Precisamos sair na frente e nos preparar para quando Voldemort recuperar o seu poder. Quando isso acontecer, ele encontrará um mundo mágico diferente, um Ministério fortalecido e bruxos prontos para detê-lo de uma vez.
— Eu não sei se tenho forças dentro de mim para lutar outra guerra, mas, se você precisa da minha ajuda para se preparar, então, pode contar comigo. — Vance disse com a voz embargada, parecia cansada, quebrada e Sirius apertou seus ombros com força.
— Eu acredito que pode fazer isso, Vance. — Sirius suspirou. — E, você não trabalhará para mim, quero que faça um trabalho íntegro como jornalista investigativa. O resto acontecerá naturalmente, sei que tem competência e contatos para descobrir os crimes de Fudge e escrever com justiça. Cuffe quer alguém que mantenha a linha crítica do Profeta com seriedade e você odeia o seu trabalho atual. Assim, como eu disse, essa oportunidade será boa para nós dois, tenho certeza.
— Ok, vou a entrevista e, se conseguir o emprego, tentarei fazer o meu trabalho bem feito. — Vance serviu mais whisky aos dois parecendo desanimada e apagada como sempre. — Quem você pretende apoiar como candidato a concorrer com o Fudge? Porque se escolher alguém com podres, terei que divulgar a verdade, Sirius, não escreverei o que lhe for conveniente.
— Perfeito. — Sirius disse aceitando a bebida. — Não pretendo corromper nada, muito menos o jornalismo que deve ser livre e imparcial. E, jamais a colocaria nesta posição, minha amiga. Ainda estou iniciando contato com os membros dos partidos e famílias influentes, mal comecei, mas, assim que tiver um nome, você saberá em primeira mão. — Sirius observou os seus olhos escuros sem brilho e tentou imaginar como poderia ajudá-la a encontrar a vontade de viver. — Espero que esse emprego a ajude a se sentir melhor, Vance, pois não é sua culpa ter vivido e os outros não.
— Você acredita nisso? Não se sente mais culpado? — Ela perguntou bebendo o whisky do copo e colocando mais.
— Claro que me sinto. James e Lily... — Ele fechou os olhos pela dor e raiva. — Foi minha culpa, minha ideia que o Peter fosse o fiel do segredo, não há um dia em que não lamente, mas, preciso me concentrar no que posso fazer a partir de agora. Harry precisa de mim, quando Voldemort retornar, ele estará em perigo e farei o que puder para protegê-lo.
— Temos uma nova chance. — Vance acenou pensativa. — Espero que não esteja planejando voltar para a Ordem da Fênix, porque eu não farei isso, Sirius, não confio naquele velho.
— Eu também não. — Sirius disse e percebeu seu alívio. — Olha, quero lhe dar uma notícia em primeira mão, para escrever e apresentar ao Cuffe como uma reportagem teste. Aposto que esse furo lhe ajudará a conseguir o trabalho.
Vance olhou para sua expressão maliciosa e se viu sorrindo, incrivelmente a ideia de conseguir esse trabalho a fez se sentir estranhamente bem. Talvez, ela não se lembrasse, mas o sentimento era animação.
— Ok, vou pegar pena e pergaminhos. — Disse ela se afastando para dentro da casa e voltando em minutos. — Será uma entrevista?
— Não, acabei de dar uma entrevista para Cuffe e é melhor as pessoas não saberem que somos tão amigos. — Sirius disse. — Soube de fonte segura, não posso dizer quem, que as vítimas sequestradas e prostituídas na Travessa do Tranco, que foram resgatadas pelos aurores, serão reintegradas as suas famílias ou colocadas em orfanatos.
— Eu também sei disso. — Vance parou de escrever surpresa. — Eu lhe disse que estou obliviando as vítimas trouxas.
— Sim, mas, você sabe que o Ministério se apropriou de alguns prédios da Travessa do Tranco e os vendeu, nesta última semana, para a GER? E, que o dinheiro das vendas será revertido as vítimas? — Sirius disse sorrindo. — Sabe que Fudge teve que ser convencido por Bones a usar esse dinheiro para indenizar as vítimas? Ou que eles planejam indenizar apenas as vítimas mágicas? Todos esses trouxas que você obliviou hoje, serão devolvidos às suas famílias com uma história inventada, mas, sem dinheiro ou qualquer outro auxilio? Ou eles mudaram de ideia? Porque, até ontem, a informação que tive é que, como eles serão esquecidos, não precisam de indenização. Na verdade, a ideia de dar uma história para eles foi minha, Vance, porque o plano brilhante do Ministro era jogar todas essas pessoas sequestradas e desmemoriadas no mundo trouxa sem qualquer cuidado com o Estatuto de Sigilo.
Vance arregalou os olhos e anotou as informações rapidamente.
— Eu obliviei apenas 4 vítimas hoje e farei o mesmo com suas famílias amanhã. É um trabalho lento e tem que ser feito com extremo cuidado, para não haver erros, pois as consequências... — Ela disse enquanto escrevia. — Inventei histórias para o desaparecimento delas, mas, não haviam indenizações envolvidas. Isso é um grande furo, Sirius, posso conseguir provas facilmente, entrevistar as assistentes sociais, questionar a posição do Ministro e de Bones, mas, se fizer isso enquanto funcionaria do Ministério, poderia ser processada.
— Bem, se demita, então. — Sirius disse com um sorriso brincalhão.
— Mas... E, se não conseguir o emprego? — Vance protestou chocada.
— E daí? Você odeia esse trabalho e está mais do que na hora de deixá-lo para traz! Vance, você melhor do que ninguém sabe como a vida é curta e acredito que nós dois já perdemos muito bons anos presos. — Sirius disse e bebeu seu whisky. — E, estou certo de que conseguirá aquele trabalho, principalmente quando escrever a melhor reportagem que Cuffe já viu. Estou errado?
Vance olhou para o pergaminho e suas anotações, sua insegurança e conformismo lutando ferozmente com a vontade de ajudar aquelas pobres garotas e Sirius. No entanto, a semente havia sido plantada e os sentimentos estranhos de animação e desejo, que não sentia a muito tempo, estavam surgindo e agora não conseguiria recuar.
— Você está certo, Sirius, aquele trabalho é meu. —Vance disse com convicção e bebeu o resto do seu whisky de uma vez, esperando sentir essa mesma certeza na manhã seguinte.
Adam acordou bem cedo na manhã de terça-feira, ainda estava escuro, todos dormindo, assim, silenciosamente, ele se vestiu e desceu as escadas. Como as árvores pediram no domingo, Adam não voltou para o bosque, mas, muito tempo se passou desde de domingo, assim, ele suponha que estava tudo bem ir brincar hoje. A porta dos fundos estava trancada, mas, Adam sempre conseguia destrancá-la com sua magia, porque queria muito que ela se abrisse. Harry disse que ele deve acreditar em sua magia, acreditar que pode fazer o que quiser... como voar! Rindo, ele correu para o meio das árvores e se conectou com a magia do bosque que se agitou a sua volta e cantarolou.
— Bom dia, arvorezinhas! — Ele gritou com um grande sorriso. — Podemos brincar hoje?
Mas, as árvores se agitaram e pareciam querer empurrá-lo, uma força ou energia agitou os seus cabelos, os galhos balançaram e Adam se mostrou confuso.
— O que é? Porque não querem mais brincar? — Ele olhou para a casa, que ainda podia ver por entre as árvores. — Ayana também está zangada e não quer mais brincar...
Um choro agudo o interrompeu e Adam olhou para a escuridão das arvores a frente. Um arrepio estranho o percorreu e seu coração bateu mais acelerado, alguém menos inocente perceberia ser o instinto natural que todos sentimos quando estamos em perigo.
— O que... quem está aí? — Adam sussurrou e voltou a olhar para a casa. Talvez devesse ir buscar o seu papai...
Outra vez um choro de algo com dor ou medo, parecia um cachorro, considerou Adam e avançou alguns passos para tentar enxergar melhor.
— Olá? Filhotinho? — Perguntou mais alto para a escuridão.
As árvores se agitaram e Adam parou confuso.
— O que é? — Sussurrou ele para as árvores e os galhos se envergaram parecendo furiosos. — Você quer que eu suba?
Adam não tinha certeza, mas, talvez, algum animal grande e mau estivesse machucando o filhotinho e as árvores o queriam no alto. Usando sua vontade e o controle de sua magia, Adam flutuou até um galho mais alto, a uns três metros do chão.
— Agora, fiquem calmas e me ajudem a achar o filhotinho. — Adam disse e começou a avançar, voando de galho em galho, de árvore em árvore.
Os galhos se acalmaram para não o derrubar, mas a energia mágica crepitava por todo o bosque. Sussurros eram ouvidos por todos os lados, mas, Adam apenas sentia a impaciência, desespero ou medo da magia.
— O que? Eu não entendo... — Mas, algo não estava certo e ele estava começando a ficar preocupado. Uma tensão estranha, desconhecida, se instalou no fundo do seu estômago, uma emoção que Adam nunca sentiu antes, o medo.
O choro do filhotinho voltou a soar mais perto e ele parecia estar com dor, assim, deveria estar machucado, pensou Adam. Ele se apressou em avançar, sem perceber o quão longe estava de casa, pois, além de escuro, não estava andando e se cansando. Finalmente, uma pequena clareira apareceu a frente e, no meio dela, havia um pequeno cachorro orelhudo, branco e marrom. Adam viu um pouco de vermelho em sua pata e adivinhou que era sangue, mas, ao dar um passo em sua direção, uma energia mágica mais forte o empurrou para traz e uma voz sussurrou com força, "Não! ".
Parando, Adam estendeu sua magia e sentiu uma barreira mágica.
— Oh! As alas! — Confuso, ele olhou para traz percebendo que se afastou mais do que estava acostumado e que estava bem longe de casa. — Filhotinho. — Adam se agachou e olhou para os olhos escuros que o encaravam com medo e dor. — Eu não posso sair, minha mamãe e meu papai não deixam, assim, você tem que vir até mim e eu te ajudarei. Ok?
O filhote tremia e gania baixinho, mas, começou a se arrastar lentamente na direção de Adam.
— Isso! Bom garoto! Vem, filhotinho, vem. — Adam se ajoelhou e o chamou, gesticulando com as mãos. — Vou te levar para casa, assim, ficará quentinho e curado. Você pode dormir com o Kalil, ele é um bom garoto também e gostará de você.
O arrepio de antes voltou e Adam teve a estranha sensação de que tinha alguém o encarando, o sentimento pesado voltou a se instalar em seu estômago. Ele olhou em volta, ainda estava escuro, mas, era possível perceber que acima das árvores havia uma claridade cinzenta surgindo. Adam sentiu um grande desejo de voltar para casa e abraçar sua mamãe, olhando para traz, ele hesitou e voltou a tentar apressar o filhote que se arrastava lentamente.
— Vamos, você consegue, só mais um pouquinho, amiguinho. — Adam sussurrou sentido a crepitação da magia que se agitava urgentemente. — Vem, acho que tem algo errado, tenho que voltar para casa. Vamos, filhotinho, mais rápido.
Mas a uns 20 centímetros das alas, o filhote parou ganindo assustado e com dor, seu pequeno corpo tremeu descontroladamente e seus olhos estavam apavorados.
— O que é isso? Está com dor? — Adam se inclinou para frente e a ideia surgiu em um segundo. Enfiar o braço para fora das alas não era sair das alas, certo? Eram só alguns centímetros, não demoraria nem um segundo para pegar o filhotinho e trazê-lo para dentro da proteção. — Ok, vou te ajudar, mas, não me morda.
Adam respirou fundo e, sentindo que estava fazendo a sua maior traquinagem, enfiou o braço para fora da ala e segurou o filhote pelas costas peludas, mas, antes que pudesse puxá-lo, uma mão grande, escura, com unhas compridas que pareciam garras, agarrou o seu pulso. A pequena clareira desapareceu, substituída por um arbusto alto de onde saiu um homem de sorriso maldoso. A magia se agitou violentamente, a neve no chão rodopiou e Adam foi puxado para fora das alas completamente e erguido, apenas por seu pulso direito, até ficar na altura do homem. Adam ficou mudo de susto e aquele sentimento do fundo do estômago se ampliou, causou enjoo, um gosto metálico se instalou em sua boca e seu coração se acelerou.
— Olá, olá, coisinha fofa. — A voz rouca lembrava um latido de cachorro. — Vamos nos divertir muito juntos, não vamos?
De olhos arregalados, Adam encarou seu rosto animalesco, seus dentes amplos, os pelos, os olhos escuros maus e maliciosos. Era como cair em um pesadelo, mas, ele tinha certeza que estava acordado, ainda assim, ele queria correr para o quarto dos seus pais e ser abraçado, como quando tinha um pesadelo.
— Eu... quero... voltar para casa, por favor. — Gaguejou em um sussurro entrecortado.
— Oh! Não, não, filhotinho. Não tenha medo do velho Fenrir, nós seremos bons amigos, eu prometo. — Greyback acariciou seu rosto chocolate ao leite suave. — Você parece um anjinho com esse rostinho e os cachos... hum, e o cheiro do seu medo, tão saboroso... acho que nunca comi alguém tão bonito...
— Por favor, senhor... — Adam sussurrou outra vez, sem perceber, pelo menos ainda, que Greyback não era igual as pessoas que ele já tinha conhecido em sua vida. Apesar de assustado, Adam agiu como era esperado em seu repertório, desejando do fundo do seu coração ser atendido, mas, temendo que não fosse.
— Hum... não posso pensar nisso, em seu cheiro ou sabor, tenho que me concentrar porque, ainda não é o momento do jogo final. Você será muito útil, filhotinho... — Greyback ampliou seu sorriso, mostrando suas presas e jogou Adam sobre seus ombros, antes de se abaixar e pegar o filhote de cachorro, colocando-o no bolso ampliado do seu casaco.
Adam se viu de ponta cabeça e, paralisado de medo, olhou na direção onde estava sua casa, ao mesmo tempo em que ouviu as unhas/garras do homem mau raspar as árvores, que continuavam se agitando com a energia violenta que os cercavam. Em seu desespero e pavor, só lhe restou um último apelo desesperado.
— MAMÃE!
Serafina acordou bruscamente e se sentou na cama olhando em volta em busca de Adam. Tinha certeza que o ouviu chamá-la...
— Adam... — Sussurrou confusa ao encontrar o quarto vazio.
— O que... — Falc sussurrou sonolento ao seu lado. — Pesadelo?
— Não, acho que Adam me chamou, você não ouviu? — Serafina afastou as cobertas e olhou para as frestas das cortinas, por onde a claridade do dia penetrava, ainda não o suficiente para clarear o quarto. — Incendio. — Sussurrou para a vela ao lado da cama, colocou o chinelo, o penhoar e se levantou.
— Não ouvi... — Falc se virou sonolento, mas preocupado. — Se tivesse tido um pesadelo, teria vindo aqui...
— Vou apenas checá-lo. — Disse ela pegando a vela e caminhando para a porta. — Ele teve alguns pesadelos depois do enterro da sua mãe, talvez tenha gritado durante o sono.
— Ok. — Falc disse suavemente e se aconchegou contra o travesseiro dela, curtindo o cheiro agradável da sua esposa.
Serafina alcançou o quarto de Adam em segundos, mas, encontrou sua cama vazia. Uma busca rápida mostrou que não estava ali, então, ela foi para o quarto de Ayana e descobriu que apenas a menina dormia tranquilamente. Saindo para o corredor, Serafina parou por um segundo, sentindo o coração acelerar e um medo enregelante se instalar, algo que apenas um pai ou mãe pode compreender. Era o sentimento de pavor quando não conseguia encontrar o seu filho.
— Talvez... — Serafina entrou no quarto do Terry, nada, do Harry, nada.
Onde ele estava!? Não devia ser nada, ela estava sendo boba, sua mente racional lhe disse. Mas a vela tremia em sua mão quando voltou para o seu quarto em busca da varinha e do marido.
— Era um pesade... — Falc se interrompeu ao ver sua expressão e palidez. — O que? Ele está doente?
— Não consigo encontrá-lo. — Disse ela e sua voz expressou todo o pânico que tentava controlar.
— O que? — Falc se levantou confuso e preocupado.
— Não consigo encontrá-lo! — Ela exclamou impaciente. — Juro que o ouvi me chamar, mas não está em seu quarto! Em nenhum dos quartos! Falc!
— Calma, talvez tenha decido a cozinha e foi de lá que te chamou, pode ter se ferido ou caído. — Falc disse e sem esperar desceu as escadas apressado com Serafina o seguindo de perto. — Adam!
Mas, Adam não estava na cozinha, que estava vazia e limpa. Eles voltaram para a sala, talvez estivesse dormindo no sofá. Não. Depois na sala de jogos. Não. O solar. Não. Subiram, primeiro andar. Não. O segundo andar de novo. Não. Terceiro andar. Não. O sótão...
— Onde ele está!? — Serafina exclamou em pânico. — Eu ouvi a voz dele me chamar! Eu ouvi claramente, mamãe!
— Vamos no vestir e procurar no jardim, talvez, a estufa... — Falc disse pálido e tentando controlar o tremor na voz. — Ele sabe que não pode sair de casa, mas, se teve um pesadelo com minha mãe, pode ter ido até lá, Adam sabe que ela adorava a estufa.
Eles voltaram para o quarto e se vestiram com roupas quentes. Serafina passou pelo quarto dele e pegou um casaco para o caso de Adam ter esquecido, mas, imediatamente percebeu o seu pijama dobrado aos pés da cama.
— Ele se trocou... — De olhos arregalados, Serafina abriu o armário e rapidamente percebeu as peças que faltavam. — Adam tirou o pijama e colocou sua calça jeans azul, a blusa amarela, com o garoto no skate... suas botas pretas e o casaco azul.
— Então, ele saiu. — Falc disse e se apressou a descer as escadas.
Os dois saíram pelos fundos e correram para a estufa que estava vazia.
— Adam! — Serafina gritou olhando pelo jardim frio e branco. — Adam, responda para a mamãe!
— Adam! — Falc chamou do outro lado.
Eles caminharam, deram a volta na casa procurando se ele havia caído, escorregado no gelo, até se reencontrarem em frente a estufa outra vez.
— O bosque. — Falc disse olhando para as árvores que se agitavam com o vento frio, o dia estava claro, mas cinzento e nublado, entre as árvores, ainda parecia escuro.
— Porque ele entraria no bosque!? — Serafina disse pálida e com os olhos cheios de lágrimas. — Ele sabe que não pode, Falc, porque...
— Porque é o que as crianças fazem, Serafina, eles têm uma ideia, sabem que não receberão permissão, assim, fazem escondidos. — Falc disse e pegando a varinha, disse. — Aponte-me Adam Boot.
Sua varinha girou e parou com a ponta na direção do bosque.
— Adam! — Serafina correu para as árvores.
— Espere. — Falc a deteve. — Ayana, não podemos deixá-la sozinha... se ela acordar. Vamos enviar uma mensagem ao meu pai, ele chegará mais rápido que a Anna, depois entramos no bosque para procurar o Adam...
— Você espera, não perderei mais tempo, Falc, eu sinto... Adam está em perigo. — Serafina disse e determinada, mergulhou entre as árvores.
— Se o encontrar, lance fagulhas de sinalização! — Falc gritou pouco antes de vê-la desaparecer.
Ele voltou para casa e enviou seu patrono para a Abadia. Esperou diante da lareira, até que seu pai e Sirius apareceram em pouco minutos.
— O que houve com meu neto? — Sr. Boot perguntou sem preâmbulos.
— Não sabemos, por alguma razão, ele entrou no bosque, Serafina já o está procurando, preciso ir ajudá-la. — Falc disse com voz entrecortada. — Ayana ainda está dormindo.
— Eu cuidarei dela, vá e encontre o Adam. — Sr. Boot disse e Falc acenou, antes de olhar para Sirius.
— Você acredita que Almofadinhas pode ajudar? — Ele perguntou ansioso.
— Claro que sim, Almofadinhas conhece o cheiro de Adam muito bem e o adora. — Sirius disse antes de se transformar no cão gigantesco e peludo.
No bosque, Almofadinhas encontrou o cheiro de Adam facilmente, mas, logo percebeu que estava por todos os lados.
— O que foi? — Falc perguntou quando Sirius retornou.
— O cheiro dele está por todo o lado, Falc, e é de semanas, dias, horas atrás. Adam está vindo muito aqui. — Sirius disse olhando em volta.
— Serafina o deixa brincar quando eles chegam da escola. Adam gosta de se conectar com a magia das árvores, como o Harry lhe ensinou. — Falc disse. — Ele deve ter acordado essa manhã e vindo... você consegue encontrar o cheiro mais recente?
— Vou tentar. — Sirius disse e voltou a ser Almofadinhas.
Eles caminharam para a frente e pelas árvores em um movimento lateral, até que o cheiro terminasse abruptamente, com exceção em um ponto.
— Ele só brincava até essa distância, mas hoje, continuou a ir mais à frente. — Sirius disse apontando para a direção onde o cheiro avançava.
— Não estamos tão longe do Chalé... Porque ele decidiu avançar para o fundo do bosque hoje? — Falc perguntou tenso.
— Vamos descobrir. — Sirius disse antes de se transformar e correr a frente com Falc o seguindo de perto.
— Serafina! Adam! — Falc gritou algumas vezes enquanto corriam. — Serafina! Adam!
O bosque era grande e ela poderia ter ido em qualquer direção, ainda assim, ele continuou a chamá-la e lançou algumas fagulhas para o alto com esperança de que Serafina, ou mesmo Adam, os encontrassem. Finalmente, vindo lateralmente da direita, ela apareceu correndo.
— Falc! Você o encontrou!? — Sua palidez e desespero deveria refletir o seu rosto, pensou Falc.
— Não, mas, Almofadinhas encontrou o rastro do seu cheiro. — Ele apontou para o cachorro que parou com seu focinho bem levantado no ar, na direção das árvores, que se agitavam, os galhos se curvando como se um vento forte o pressionasse, mas, não havia um vento forte.
— O que ele está fazendo? E as árvores? Eu percebi que estão agitadas, mesmo que o vento não esteja forte, a impressão que dá é que parecem furiosas. — Serafina disse se aproximando do cão negro que se tornou Sirius.
— Elas estão me mostrando que o cheiro dele está no alto, parece que Adam voou de galho em galho. — Sirius disse e apontou para o caminho de árvores que se agitavam. — Elas estão mostrando o caminho, devem saber onde ele está.
— Adam deve estar ferido. — Serafina sussurrou e recomeçou a correr, com os dois a seguindo facilmente.
Não demorou muito para se aproximarem das alas e começaram a gritar por Adam.
— Ele sabe que não pode deixar as alas, Adam não as teria atravessado. — Serafina disse procurando nas moitas, talvez, ele tivesse desmaiado ou dormido em uma delas.
— Não é o que as árvores dizem. — Sirius apontou para a agitação das árvores além da proteção.
— Porque? Porque ele sairia a noite e viria tão longe de casa? — Falc não se conformava. — O que estava acontecendo com ele, Serafina?
— Nada que justifique isso. — Serafina respondeu. — Adam estava encantado com a conexão com o bosque, mas, eu permiti que brincasse um pouco todos os dias depois de voltar da escola.
— Mas, ele deve ter dito alguma coisa... — Falc protestou.
— Nada! E, porque eu devo saber e não você? — Serafina disse duramente. — Ele é seu filho também!
— Agora não é hora de brigarem. — Sirius disse secamente. — Tentarei recuperar o cheiro dele, talvez, Adam não percebeu que deixou as alas.
Sirius se tornou Almofadinhas e começou a farejar ao longo da proteção, até que encontrou o lugar com o cheiro mais forte de Adam, acompanhado do cheiro de um filhote de cachorro e outro, bem mais sinistro.
— Varinhas. — Sirius disse ao voltar a ser humano.
— O que? — Serafina perguntou, mas sacou a varinha e Falc também.
— Eu vou atravessar as alas como Almofadinhas, vocês me cubram. — Disse ele pálido e sem mais explicações.
Almofadinhas atravessou a proteção e farejou o filhote que sangrava, sua mente visualizou facilmente o que tinha acontecido. Os cheiros do cachorro e do Adam se uniam brevemente, mas, em seguida, o caçador pegou os dois filhotes e os levou embora. Ele seguiu mais a frente, 10, 20 metros, até que os cheiros de todos desapareceram completamente. Ganindo de angústia pelo filhote perdido, Almofadinhas retornou e, então, viu os riscos de garras nos troncos das árvores. Sirius se transformou e olhou para a evidência de que Greyback esteve ali e sequestrou Adam.
— Sirius... — Falc sussurrou encarando o amigo pálido e as garras nos troncos. — Não...
— O que? O que aconteceu? — Serafina perguntou apavorada.
— Um filhote... — Sirius disse com voz sufocada. — Adam veio nesta direção porque foi atraído, deve ter ouvido o filhote chorar e tentou ajudar. — Ele se aproximou da área exata. — Ele ficou aqui, escondido neste arbusto, talvez, tenha criado uma ilusão... assim, Adam apenas veria um filhote inofensivo ferido. Vejam... — Sirius apontou para as marcas de calçado e de afundamento na neve rala. — Adam ficou de joelhos e tentou pegar o filhote sem deixar as alas, como vocês ensinaram, mas, ele estava esperando isso e o agarrou assim que Adam estendeu o braço para fora da proteção.
— Ele? Quem? Quem pegou meu filho? — Serafina perguntou desesperada, furiosa e Falc, entendendo quem era, se inclinou para frente meio sem ar.
— Greyback. — Sirius sussurrou com expressão sombria. — O cheiro é dele, consigo reconhecer facilmente, e ele não tentou disfarçar, aqui, as garras nos troncos. Isso é um recado, Greyback quer que saibamos que ele sequestrou o Adam.
— Sirius... Meu filho... — Falc falou ofegante e tão pálido que parecia que ia desmaiar. — Ele irá mata-lo, Sirius...
— Não! Não! — Serafina gritou enraivecida, desesperada. — Precisamos encontrá-los! Se ele machucar meu bebê, vou matá-lo!
Ela se moveu a frente, mas, Sirius a agarrou e a impediu de correr pelo bosque outra vez. Serafina lhe deu um empurrão e, quando ele insistiu em não a soltar, ela lutou mais ferozmente e lhe deu um tapa no rosto que terminou com um arranhão doloroso e sangrento.
— Pare! — Sirius gritou prendendo seus braços.
— Solte-me! Eu vou encontrar o meu filho! Solte-me! — Ela tentou usar as pernas e toda a sua força, mas, apesar de alta, fisicamente não era muito forte ou sabia lutar.
— Eles não estão mais aqui! Greyback aparatou! — Sirius disse tentando alcançá-la e, finalmente, ela parou de se mover. — Ele o levou. Sinto muito, mas... eles não estão mais aqui.
— Não! — Serafina gritou desesperada. — Não! Não! Eu preciso... precisamos encontrá-lo, me solte! Isso é culpa sua! Me solte!
— Eu sei. — Sirius disse com voz sufocada e sem soltá-la. — Eu sei, sinto muito... — Olhando para Falc, Sirius tentou passar o sentimento de lamento e culpa. — Sinto muito, Falc...
— Falc! — Serafina olhou para o marido com lágrimas no rosto. — Adam! Eu preciso do meu filho! Preciso do meu bebê! Por favor!
Falc acenou tentando levar ar aos pulmões, sim... encontrar Adam, precisavam..., mas, a realidade terrível se sobressaiu em seus pensamentos e o paralisou. Eles nunca o encontrariam vivo, as informações do que Greyback fazia com suas vítimas se tornaram letreiros luminosos em seus pensamentos e Falc se ajoelhou, vomitando no chão frio de neve rala.
— Ei! — Sirius soltou Serafina e ergueu Falc do chão. — Vamos encontrá-lo! Você dois! Respirem fundo! Isso é uma armadilha e Greyback quer a mim, assim, para me ter, manterá Adam vivo. Estão me escutando!? — Sirius segurou os dois e os chacoalhou desesperado. — Não é hora de entrarem em choque! Precisamos manter a cabeça fria e encontrar uma maneira de salvar o Adam!
— Ele vai matá-lo... — Falc disse e Serafina gemeu dolorosamente.
— Não... por favor...
— Sim, depois que ele conseguir sua vingança comigo, Greyback não o deixará viver, mas, nós não ficaremos de braços cruzados. — Siris disse suavemente. — Vamos voltar para o Chalé e nos recompor, chamar por ajuda e formular um plano. Temos uma chance e vamos usá-la.
Os dois acenaram, mas, era claro que estavam perdidos, desesperados e apavorados. Sirius meio que os empurrou para frente e eles caminharam meio trôpegos, com lágrimas silenciosas deslizando por seus rostos. Enquanto isso, a mente de Sirius se movia em todas as direções tentando pensar em uma maneira de salvar o Adam caso estivesse certo e Greyback pretendesse usar o garoto para atraí-lo para uma armadilha. Tinha que ser isso, pensou desesperado, não podia conceber o pensamento de que Greyback pretendia apenas matar Adam em vingança.
— Precisamos de Remus. — Ele disse pensativamente. — King e Moody também... não gosto do Ministério, mas eles são competentes e podem ter alguma informação útil. E, precisamos de cérebros, assim, Denver, Harry... Todos que puderem pensar em um plano para quando Greyback enviar sua mensagem.
Serafina e Falc acenaram, mas, nenhum dos dois pareciam ter compreendido o que ele disse.
O Chalé apareceu e os três se apressaram. Sr. Boot ainda estava na sala e ficou mais tenso quando os viu entrar sem Adam.
— Onde... — Mas, parou ao ver suas expressões.
— Greyback o sequestrou. — Sirius disse simplesmente e o amparou quando o homem robusto cambaleou.
— Não... Merlin, não... Carole, Honora e agora... eu não vou suportar... — Ele sussurrou empalidecendo.
— Meu filho não está morto! — Gritou Serafina furiosa. — Não repita isso!
Isso pareceu despertar Falc e o Sr. Boot, que acenou.
— Sim, você está certa... desculpe. — Ele disse, respirou fundo e se firmou. — Como o traremos de volta?
— Sirius? Você realmente acredita que ele tentará atraí-lo...
— Mamãe... — A voz suave e sonolenta soou das escadas e interrompeu Serafina. — Ouvi a senhora... — Ayana apareceu e parou surpresa ao ver todos reunidos na sala com expressões tensas ou desesperadas. — O que foi?
— Merlin... — Serafina sussurrou e respirou fundo. — Ayana... vem aqui, querida.
Sirius se afastou para mais perto da porta da cozinha lhes dando privacidade, ao mesmo tempo que moveu sua varinha.
— Expecto Patronum! — Sussurrou, mas apenas um fiapo de luz apareceu. — Concentre-se. — Ele fechou os olhos e pensou no Harry, seu coração se transbordou de amor. — Expecto Patronum!
Almofadinhas apareceu, grande e brilhante, girou a sua volta, quente e animado, antes de parar, esperando sua ordem.
— Olá, preciso que encontre o Remus, Emily, King e Moody, diga-lhes para vir ao Saguão do Beco Diagonal. Urgentemente. — Sirius disse baixinho e viu o cachorro desaparecer na direção da janela.
— Mas... onde ele está? Porque não podemos ir buscá-lo? — Ayana perguntou confusa e angustiada.
— Não sabemos onde ele está, querida. — Falc disse. — Você precisa ser forte, ok? Nós tentaremos descobrir quem o levou e trazê-lo de volta para casa.
— Eu enviei mensagens, irei ao Beco e os trarei para cá, precisamos de toda a ajuda possível. — Sirius disse. — Libere a lareira, por favor.
— Mas, eu quero o Adam agora! Porque alguém o levou? — Ayana disse zangada.
— Nós também queremos, Ayana e não sabemos ainda quem o levou ou porquê. — Serafina disse suavemente. — Olha, mamãe vai te levar para a casa dos seus avós e...
— Não! — Ayana gritou. — Eu quero ficar aqui, quero ajudar!
Sirius decidiu ir e sinalizou para o Falc liberar a lareira para os visitantes. No saguão, não esperou mais do que alguns minutos para Denver aparecer, séria e preocupada. Ao vê-lo, seu rosto mostrou alívio e depois ficou neutro.
— No que se meteu dessa vez, Black? — Perguntou sem cumprimentos.
Sirius não respondeu, apenas sinalizou para a lareira, de onde Remus saiu olhando em volta apressadamente.
— Sirius! — Ele exclamou preocupado e sua voz ecoou mais alta no amplo Saguão, que estava vazio a essa hora da manhã. — Você está bem? — Remus perguntou em tom mais suave.
— Não. — A lareira voltou a ser acionada e Moody apareceu, ao mesmo tempo que a lareira ao lado se iluminou e King surgiu.
— O que é isso? Uma convenção de bruxos? — Denver falou secamente.
— Sirius, seu tom parecia mais preocupante do que a mensagem em si. — King disse preocupado.
— O que aprontou dessa vez, garoto? — Moody questionou mal-humorado.
— Preciso de ajuda, Greyback sequestrou Adam Boot. — Ele sussurrou e viu Remus empalidecer.
— Não! — Ele sussurrou segurando o braço de Sirius apavorado. — Onde? O que podemos fazer?
— Vir comigo ao Chalé e me ajudar a formular um plano... — Sirius fechou os olhos e respirou fundo. — Eu sei que ele me quer, assim, acredito que Adam ainda está vivo. Quando Greyback enviar sua mensagem, me deixarei cair em sua armadilha, mas, preciso de ajuda para tirar Adam vivo de lá.
— Ok. — King disse com expressão sombria. — Imagino que não quer que acionemos todo Departamento.
— King, eu o deixaria acionar o próprio Voldemort se isso me assegurasse que Adam estará a salvo, mas acredito que descrição é o melhor no momento. — Sirius disse angustiado.
— Eu concordo. — Moody disse seco. — Em casos de sequestro, cada movimento tem que ser calculado. Greyback tem todo o poder aqui e temos que agir com cautela ou perdemos o garoto antes mesmo de começar.
— Isso não é uma opção. — Sirius disse fortemente emocionado. — Preciso de ajuda, não importa o que aconteça comigo...
— Ei! — Denver falou duramente. — Ninguém aqui formulará plano algum que não envolva salvar vocês dois, Black, assim, se está pensando em algum tipo de auto sacrifício nobre, corte a besteira. Vamos fazer isso direito e acabar com esse psicopata. Entendeu?
Sirius a olhou nos olhos e acenou, mostrando sua gratidão e sentimentos que não poderia colocar em palavras.
— Obrigado. — Sirius disse e suspirou. — Os Boots estão desesperados, é melhor não os deixarmos esperando mais.
Sirius os ensinou a localização e um a um, eles viajaram pelo flu até o Chalé Boot.
Sr. Boot era o único na sala quando retornaram e os conduziu para o escritório, onde Falc escrevia uma carta, enquanto King, a coruja, aguardava.
— Serafina foi levar Ayana para a casa dos pais, em Oxford e também avisará a escola que não poderá ir trabalhar por causa de uma emergência familiar. — Ele disse quando entraram. — Eu estou escrevendo a minha secretária e sócio, para reprogramarem meus compromissos. Também precisamos avisar o Edgar, tínhamos uma reunião com ele, Sirius...
— Falc, está tudo bem. Eu escreverei a mensagem ao Edgar. — Sirius disse se aproximando da mesa.
— Não está tudo bem, Sirius! — Falc gritou zangado. — Meu filho foi sequestrado! Meu garotinho! Por aquele monstro!
Sirius parou desconcertado e acenou.
— Desculpe... não devia ter dito isso. — Ele se aproximou da mesa para escrever o bilhete. — Acredito que devemos agir como se nada estivesse acontecendo, não seria bom se a imprensa descobrisse sobre o sequestro.
— Não sabemos como Greyback reagiria a isso. — Remus disse pensativamente. — O melhor é manter isso entre nós.
— Precisamos formular um plano para quando a mensagem dele chegar. Precisamos estar prontos. — Disse Sirius ao terminar o bilhete e amarrar na outra pata de King.
— Você tem certeza que ele enviará uma mensagem, Sirius? — Sr. Boot questionou angustiado.
— Não, senhor, mas, é o que acredito que acontecerá. — Sirius disse. — Ele quer vingança e Greyback é conhecido por ser vingativo...
— Mas ele matou ou mordeu crianças antes para se vingar dos adultos que o enfureceram. — Falc disse e puxou os cabelos ansiosamente. — O que o faz pensar que meu filho... já não está morto?
— Eu só tenho minha intuição, Falc. — Sirius disse sincero. — E, precisamos trabalhar nos dois caminhos, acredito.
— Greyback não quer apenas vingança, ele quer tirar do caminho um adversário perigoso. — Remus disse inteligentemente. — Acredite, sei muito sobre aquele crápula, meu pai o pesquisou incansavelmente. Greyback se vingava nas crianças daqueles que não são um desafio ou perigo para ele, pois, antes de mais nada, Greyback é um caçador.
— O que isso quer dizer? — Sr. Boot perguntou confuso.
— Quer dizer que um lobo solitário caça sem ninguém para proteger suas costas, assim, ele tem sempre que identificar seus inimigos mais poderosos. — Remus explicou. — E, tirá-los do caminho rapidamente. Sirius não apenas o afrontou ou enfureceu, ele quase o matou. Naquela noite, Greyback deve ter sentido um profundo medo de morrer e isso o levou a iniciar uma caçada ao seu adversário. Mas, ele é um covarde, quando não conseguiu matar o Sirius ferido, procurou outra vantagem. Acreditem, ele está com medo do Sirius e por isso quer eliminá-lo, aposto que pretende matar Gun e T também, pois os dois consideraram aceitar a condição do Sirius.
— Claro! — Sirius disse. — Greyback os veria, líderes de matilhas fortes, como uma ameaça a ele e também os usaria como exemplos. Os matar e a mim, o tornaria mais temido e, assim, poderoso.
— Ok. — Falc disse, mas era claro que não acompanhara completamente o raciocínio. — E, como isso nos ajuda a trazer o meu filho para casa? Vivo!
— Eles disseram. — Denver disse secamente. — O plano de Greyback não é apenas matar o garoto para machucar o Sirius, até porque eles não são pai e filho. O plano é atrair o Sirius para uma armadilha e, assim, tirá-lo do caminho.
— Isso faz sentido. — Sr. Boot disse. — Se ele quisesse apenas se vingar do Sirius, teria ido atrás do Harry em Hogwarts.
— Sim, mas o Sirius se entregar não garante que Greyback não matará o Adam. — Falc protestou desesperado.
— E, é por isso que estamos aqui, garoto. — Disse Moody em tom incrivelmente gentil. — Para formular um plano para salvar o pirralho.
— Ok. — Falc disse olhando em volta e parecendo perceber quantas pessoas estavam no escritório. — Eu devo agradecer, então.
— Não precisa agradecer. — King disse. — Esse é o nosso dever, Falc, além disso, Greyback já esteve livre por muito tempo.
— Sim, na verdade, será um prazer caçá-lo. — Disse Denver com uma expressão feroz.
Falc apenas acenou e olhou em volta meio sufocado, pediu licença e subiu até seu quarto, entrou no banheiro e, se inclinando contra a parede, caiu em um choro convulsivo. O desespero e choque davam lugar a realidade fria do tempo que passava, a cada segundo, seu filho poderia estar sendo ferido ou morto e a equipe de caça que estava em seu escritório era apenas mais uma evidência dolorosa. Quando conseguiu se acalmar, lavou o rosto e voltou para o escritório tentando manter o mínimo de clareza.
No escritório, Remus falava tudo o que sabia sobre Greyback, repetia informações que quase todos sabiam, algumas eram inéditas e todos ouviam com atenção.
— Conhecer o inimigo é importante. — Disse Moody quando Serafina entrou no escritório apressadamente.
— Ayana me disse algo. — Ela falou sem se preocupar em cumprimentar qualquer um. — Ela me contou que no domingo, Adam lhe disse que as árvores estavam agitadas e lhe disseram para não voltar ao bosque.
— As árvores lhe disseram? — Moody perguntou confuso.
— Sim, Adam consegue conectar sua magia com a magia natural do bosque, das árvores. — Sirius disse. — Harry o ensinou e ele consegue entender o que a magia diz, não com palavras, mas, com sentimentos.
— O que mais ele disse? — Falc perguntou parado na porta.
— Ayana disse que não estava interessada e não o deixou falar mais que isso. — Serafina disse e seus olhos brilharam de dor. — Ela está arrasada acreditando que é culpa dela, que ela não o ouviu... Eu a deixei com meus pais, eles disseram que querem atualizações a cada duas horas ou viajarão de carro até aqui.
— Eu posso ir lhes informar. — Sr. Boot disse sentado em uma poltrona com expressão triste e cansada.
— O que estamos fazendo? Qual o plano? — Serafina disse olhando em volta.
— Remus estava nos falando tudo o que sabe sobre Greyback, o que é muita coisa. — Sirius disse.
— Acreditamos que Greyback enviará uma mensagem para atrair Sirius para uma armadilha. — Remus disse e refez seu raciocínio de antes, Serafina assentiu.
— Ok, isso até faz sentido, mas não podemos nos sentar aqui e ficar esperando uma mensagem que pode demorar horas, dias para chegar. — Disse ela com veemência. — Temos que sair e tentar encontrá-lo.
— Onde? — Denver questionou enquanto caminhava pensativamente pelo escritório. — Não fazemos ideia de onde eles podem estar e nossa inteligência diz que Greyback não tem laços, assim, não teríamos por onde começar.
— Podemos descobrir, perguntar aos outros lobisomens. — Serafina disse enérgica. — Ficarmos parados aqui sem fazer nada é que não podemos.
— Não estamos parados sem fazer nada, garota. — Moody disse suavemente. — Estamos aprendendo sobre o nosso inimigo, reunindo informações e formulando alguns planos iniciais. Se saíssemos loucamente por aí a cada vez que uma situação ruim se apresentasse, estaríamos todos mortos a essa altura.
— Então, devo me sentar e confiar que vocês salvarão o meu filho? — Serafina perguntou duramente.
— Exatamente. — Denver disse com bem menos gentileza que Moody. — Que escolha você tem?
Serafina parecia que ia responder asperamente, quando King falou lentamente com sua voz profunda.
— Serafina, não estamos tentando lhe dizer como agir ou não agir, apenas pedindo que confie em nós. Todos aqui, estamos empenhados em trazer o Adam para casa vivo, mas, para isso, precisamos agir com calma e formular um plano de ação. — Ele apontou para Remus. — Antes, precisamos repassar tudo o que aconteceu, recolher dados e, neste caso, Remus nos oferece uma visão única sobre Greyback. Também precisamos saber como e porque Adam foi sequestrado, tudo isso são dados que nos ajudarão a resgatá-lo.
Serafina parecia que não sabia o que dizer e apenas acenou, mesmo que no fundo a raiva a fizesse querer gritar com todos eles. Era o seu garotinho! Seu filho! Nenhum deles podia entender como ela se sentia! Como ousavam exigir calma e que ficasse parada sem procurar seu Adam!?
— Antes de continuarmos, quero trazer o Harry para a conversa. — Sirius disse.
— O que? — Moody e Serafina falaram quase ao mesmo tempo. — Porque quer o garoto aqui?
— Não aqui, apenas na discussão. — Sirius disse. — Ele livrou a cara de vocês dois nesta história da Câmara, ao matar a basilisco, salvar o aluno e deter Voldemort mais uma vez. Harry pode nos ajudar a formular um plano, e um dos bons.
— O garoto só fez tudo isso porque escondeu informações. — Moody resmungou irritado. — E, não soubemos nada sobre ser ele quem fez tudo isso, até onde o Dumbledore informou, um grupo de alunos e um professor resolveu tudo isso.
— E, qual grupo de alunos você acredita, poderia ter se juntado e feito todas essas coisas? — Sirius perguntou cinicamente.
— Isso não importa agora! — Sr. Boot disse em tom de comando, quando parecia que Moody ia discutir. — Temos que nos sentar naquela mesa e discutir como salvar o meu neto! E, precisamos de todos os melhores cérebros, assim, chame o Harry, Sirius.
Eles se sentaram à mesa e Sirius pegou o espelho.
Em Hogwarts, Harry estava treinando na Caverna dos Marotos. Agora que estava saudável, seu corpo respondia cada dia melhor e seu treino estava se fortalecendo. No dia anterior, ele passou um tempo com Joe, explicando sobre o seu corpo curado e como isso poderia impactar nos seus exercícios, para que ele se fortalecesse ainda mais. A intenção não era ganho de músculos e sim, o fortalecimento físico e ganho de musculatura magra. Harry insistiu que não queria ganhar muito peso em músculos e perder a vantagem da rapidez que vinha com sua leveza. Isso não apenas ao ajudava no quadribol, mas também mantinha seus inimigos com a enganosa ideia de que ele era fraco.
Sorrindo com malícia ante a ideia de ser subestimado, Harry observou Melrose dar outra volta na pista de corrida e seu sorriso se tornou uma careta. No fim, ele tinha que admirar a teimosia do garoto mais velho, pois, além dos exercícios exigidos a todo o time de quadribol da Ravenclaw, ninguém estava conversando com ele, mas, ainda assim, Melrose não desistiu de sua vaga. Harry achava que era só orgulho e teimosia, tinha esperança de que ele se cansaria e desistiria, mas Trevor disse que acreditava que Melrose, com seus preconceitos a parte, era muito determinada e gostava de ser parte do time, de jogar quadribol, de vencer e até dos exercícios, mesmo fingindo odiar. Como isso não era parte do plano, que Melrose começasse a gostar dos exercícios físicos, Harry teve que considerar que sua ideia foi um grande fracasso.
Suspirando, ele observou as meninas fazendo ginástica com uma música bem legal, assim como a Charlie lhes ensinou. Esperava que a professora voltasse logo, todos estavam ansiosos para as aulas de dança que foram prometidas para esse semestre. Seu olhar acompanhou a figura de Daphne, com mais curvas que as outras meninas, pois assim como Hermione, ela já tinha 13 anos e meio. Ela também era a melhor dançarina, apesar de Mandy ser quase tão boa. Então, ele olhou para a figura que mais se destacava, apesar de ser a mais pequena e magra de todas. Devia ser o cabelo, pensou distraidamente, ao olhar para seus cabelos flamejantes que estavam presos em uma trança grossa.
Então, uma vibração em sua perna o fez pular de susto, como se tivesse sido pego fazendo o que não devia. Olhando em volta, para ter certeza que ninguém o viu saltar como um sapo, Harry pegou o espelho e, discretamente, caminhou para o vestiário.
— Oi, Sirius. — Harry disse baixinho e sorrindo. —O que aconteceu? — Seu sorriso morreu ao ver sua palidez e machucado. — Você está ferido.
— Não é nada. Pode reunir os garotos e Flitwick? O mais rápido possível? — Ele pediu sem cumprimentos e desconsiderando o arranhão.
— Sim. — Harry pegou a mochila e sem se preocupar em tomar banho ou se trocar, deixou o vestiário. — Quem está em perigo?
— Adam. — A voz dele saiu meio engasgada e Harry sentiu o coração gelar de pavor.
— Vivo? — Harry perguntou, a palavra queimando em sua boca.
— Até onde sabemos. Greyback o levou. — Sirius respondeu e Harry acenou sem mais perguntas, isso era o suficiente.
— Me dê 5 minutos. — Harry respondeu e cortou a chamada. — Neville. — Ele parou ao lado da piscina e chamou o amigo baixo, mais urgentemente.
Neville percebeu, apenas pelo tom, que algo estava errado e se aproximou da borda da piscina rapidamente.
— Sim?
— Escritório do Flitwick, 5 minutos. — Harry disse sem se preocupar em dar explicações, seu amigo entenderia, pois, a última vez que estiveram naquele escritório, alguém estava em grande perigo.
Terry estava conversando com Michael, a discussão era Transfiguração, pois os dois gostavam da matéria e, sem Hermione, eles vinham disputando quem era o melhor da turma.
— Terry, temos que ir, Flitwick pediu para não nos atrasarmos. Lembra-se? — Harry disse com naturalidade, seu amigo apenas piscou uma vez antes de acenar.
— Verdade, perdi a noção do tempo. Pegarei minha mochila, acho que não dá mais tempo para tomar banho, certo? — Terry sondou.
— Nem para se trocar. — Harry disse com um sorriso sem graça. — Subirei na frente, espero você e o Neville na frente do escritório do professor.
Harry recebeu um aceno e depois subiu as para o quinto andar em passo ligeiro, mas não tão rápido que chamasse a atenção. Os corredores estavam mais vazios pelo horário, mas, ainda era possível encontrar algum professor ou monitor aqui ou ali. Assim que chegou ao escritório, Harry bateu na porta e aguardou, Flitwick a abriu sorridente, mas, quando viu a sua expressão, seu sorriso desapareceu.
— Bom dia, senhor. — Harry disse enquanto entrava sem esperar convite. — Terry e Neville devem chegar em instantes.
— O que aconteceu? — Ele perguntou em tom preocupado.
— Adam... — Harry parou por um segundo, engolindo em seco. — Adam foi sequestrado por Greyback.
— Oh! Minha nossa! — Flitwick levou a mão ao peito e empalideceu apavorado. — Serafina... Terry, ele já sabe?
— Não. — Harry pegou o espelho e colocou sobre a mesa. — Vamos acalmá-lo e depois retornamos a chamada do espelho, eles querem a nossa ajuda.
— Ok. — Flitwick começou a mover a varinha e o jogo de chá começou a trabalhar ao mesmo tempo que uma poção calmante flutuou de seus aposentos. — Apenas como precaução...
A batida na porta o interrompeu e, em alguns segundos, Terry e Neville estavam no escritório com expressões tensas.
— O que aconteceu dessa vez? — Terry perguntou exasperado.
— Adam foi sequestrado por Greyback. — Harry disse de uma vez e viu os amigos empalidecerem.
— É... o que? — Terry sussurrou apavorado. — Jesus Cristo! Adam! — Ele se moveu como se quisesse ir até o irmão e suas apernas bambearam. Neville o segurou e Harry parou na frente dele.
— Respire fundo. Você precisa se acalmar. — Ele disse com dureza.
— Adam... — Terry sussurrou e seu olhos se encheram de lágrimas. — Harry... meu irmão...
— Acalme-se. Agora! — Harry usou todo o tom de comando que tinha e viu seu amigo titubear, respirar fundo e acenar ao se endireitar.
— Ok. Ok. — Ele disse com mais firmeza.
— Eles precisam de nós com a cabeça no jogo. — Harry disse firme. — Depois você desmorona, mas, se quer ajudar o Adam, preciso que respire fundo e mantenha a calma.
— Eu posso fazer isso. — Terry disse engolindo em seco e acenando a cabeça afirmativamente em ritmo constante. — Eu quero ajudar.
— Bom. — Harry disse e viu em seus olhos que ele estava mais firme. — Vou fazer a chamada. — Ele pegou o espelho e chamou o nome do Sirius, enquanto Flitwick olhava espantado para a poção calmante em sua mão e o chá que não foi necessário para acalmar o Terry. — Sirius, estamos todos aqui. Comece do início.
No Chalé, Sirius, pegou o espelho para chamar o Harry.
— Não estamos perdendo tempo? — Moody disse irritado. — São apenas três crianças, até esperarmos eles reagirem ao serem informados, se reunirem, pois devem estar dormindo a uma hora dessas, perderemos mais tempo. Não precisamos de três garotos de 12 anos com sono, podemos formar um plano entre nós mesmos.
— O três já estão acordados a muito tempo. — Sirius disse. — Devem estar treinando na Caverna, além disso, precisamos de todos os cérebros possíveis. Harry Potter.
Não precisou esperar mais do que alguns segundos antes que Harry atendesse com seu sorriso animado, olhos verdes brilhantes e cabelos bagunçados.
— Oi, Sirius. — Harry disse em tom baixo e agradável, mas seu sorriso desapareceu e seus olhos se tornaram atentos ao ver sua expressão. — O que aconteceu? Você está ferido.
— Não é nada. — Tinha se esquecido disso. — Pode reunir os garotos e Flitwick? O mais rápido possível? — Sirius pediu sem perder tempo com cumprimentos.
— Sim. — Harry respondeu e seu moveu rapidamente, Sirius pode ver que estava no vestiário da Caverna. — Quem está em perigo?
— Adam. — A voz dele saiu meio engasgada e Harry parou por um segundo, seu rosto perdendo a cor.
— Vivo? — Harry perguntou, a palavra saiu pesada.
— Até onde sabemos. Greyback o levou. — Sirius respondeu e Harry acenou.
— Me dê 5 minutos. — Disse ele antes de cortar a ligação sem fazer mais perguntas.
Sirius respirou e colocou o espelho sobre a mesa.
— Ok, não foi tão ruim. — Disse suavemente.
— O garoto é frio como gelo. — Moody disse com uma careta de apreciação. — Será um grande auror um dia.
— Enquanto os esperamos, seria bom providenciarmos chá e sanduíches. — Sr. Boot disse suavemente olhando para Serafina. — Acredito que ninguém tomou café da manhã e o dia promete ser longo.
— Não olhe para mim, não tenho condições de comer, muito menos cozinhar. — Disse Serafina friamente. — Cada um que vá a cozinha e se sirva se estiver com fome.
— Eu posso fazer isso. — Falc disse se levantando com a aquela expressão ausente de choque ainda presente.
Todos o olharam deixar o escritório com expressões preocupadas ou solidárias. Na cozinha, Falc acenou com a varinha de maneira ausente e distraída, os utensílios, comidas e louças começaram a flutuar sem uma direção específica, mas ele não percebeu.
— Pensei em vir te ajudar... — Remus entrou e parou ao ver tudo flutuando pela cozinha e Falc olhado para o vazio em expressão. — Falc, coloque tudo na mesa. — Ele disse gentilmente e Falc o olhou surpreso, pois não o vira entrar.
— Ok. — Ele acenou com a varinha e tudo pousou na mesa. — Não precisava vir ajudar, Remus, eu posso...
— Eu sei que pode. — Remus o interrompeu suavemente e o levou até a mesa. —Você faz os sanduíches, que eu farei o chá. Ok?
Falc apenas acenou e começou a preparar os sanduíches manualmente. Quando o chá ficou pronto, Remus veio ajudá-lo, pois só havia 2 sanduíches terminados, mais ou menos.
— Nós vamos encontrá-lo. — Remus disse gentilmente.
— Não vamos não. — Falc respondeu em tom ausente. — Meu filho já está morto, Remus e você sabe disso.
— Falc... — Remus parou sem saber o que dizer. — Greyback...
— Greyback é um monstro e você, melhor do que qualquer um aqui, sabe disso, Remus. — Falc disse encarando seus olhos castanhos. — Ele não resistirá, não importam os seus planos... quando estiver com meu filho e puder... Greyback não conseguirá se deter. Mesmo que o encontremos, não conseguiremos meu Adam de volta vivo. Estou tentando não pensar... — Falc ofegou meio sem ar. — Rezando para que Adam morra rápido e não sofra... Merlin! Meu menino! — Ele se inclinou soluçando de dor e desespero.
— Escute. — Remus o endireitou e sacudiu. — Escute! Até que encontremos o corpo dele com seu coração parado, não desistiremos! Entendeu!? Mesmo se a chance for remota, nos agarraremos a ela e iremos até o fim!
— Não posso... — Falc soluçou quebrado. — Não posso viver em um mundo sem meu garoto... não tenho forças...
— Não precisa. — Remus disse e o abraçou com força. — Eu lutarei por você. Ok? Eu vou substituí-lo e morrerei por Adam se for necessário. Você não precisa ser forte agora, Falc.
Quando voltaram para o escritório com a comida e o chá, Sirius repassava com o Harry e os outros, o sequestro de Adam.
— Ele aparatou. — Sirius encerrou. — Podemos ir vasculhar o resto do bosque, mas não acredito que ele ficaria por perto.
— Greyback deve ter muitos esconderijos, ele é experiente. — Disse King. — Sua inteligência descobriu alguma coisa sobre ele, enquanto investigava os lobisomens, Moody?
— Não conseguimos descobrir a localização de Gun ou T, cheirei mentiras aqui ou ali. — Moody explicou. — Quando se trata de Greyback e Egan, ninguém sabe de nada, verdadeiramente, e se mostram revoltados com a ideia de serem associados a esses dois.
— Não podemos pressioná-los, interrogá-los? — Serafina questionou tensa.
— Isso seria uma perda de tempo. — Harry disse do espelho.
— E, uma perigosa. — Acrescentou Flitwick. — Pois isso poderia chegar aos ouvidos de Greyback.
— Então o que fazemos!? — Exclamou Serafina impaciente e cheia de energia raivosa.
— Qual é o próximo passo de Greyback? — Harry disse. — Precisamos prever vários cenários e nos preparar para cada um deles.
— Acreditamos que sequestrar o Adam é uma armadilha, Harry. — Sirius disse. — Greyback quer me atrair para se vingar e me matar, acredito que enviará uma mensagem a qualquer momento.
— Ok. Isso é uma boa notícia. — Harry respondeu.
— Mas de onde veio essa crença? — Terry perguntou com voz calma. — Não podemos ficar adivinhando, precisamos de fatos concretos.
— Remus. — Sirius falou e seu amigo voltou a explicar tudo o que sabia sobre Greyback e sua forma de pensar.
— Ele não conseguirá se deter, Harry. — Disse Terry tenso quando Remus terminou sua análise do lobisomem. — Não precisamos de uma avaliação psiquiatra formal para entender que Greyback não conseguirá deixar de machucar ou matar o Adam. Isso o fará apressar o plano de atrair Sirius ou tentar, mesmo depois que meu irmão já estiver morto.
— Precisamos distraí-lo, então. — Harry disse pensativo.
— Como vamos distraí-lo se não fazemos ideia de onde ele está!? — Gritou Serafina furiosa.
— Um movimento em falso e ele pode se enfurecer. — Flitwick disse suavemente e ignorando a explosão de Serafina.
— Como chamar os aurores, por exemplo? — Neville sugeriu timidamente. — Todos os livros policias trouxas que li, o sequestrador deixa claro que se a família chamar a polícia, matará a vítima.
— Ok, mas, Greyback não tem como saber que Moody e King estão no Chalé. — Harry considerou, mas o silêncio na mesa o pegou de surpresa. — O que é isso?
— Lobisomens tem boa audição e olfato, Harry, provavelmente, Greyback tem sentidos ainda mais superiores pela maneira como aceita o seu lobo. — Remus apontou lentamente.
— Estamos muito longe das alas para que ele escute nossa conversa, mas, poderia sentir nosso cheiro. E, se tiver algum contato no Ministério, saberá que não aparecemos para trabalhar hoje... — Considerou King pensativo.
— Mas, vocês não justificaram suas ausências? — Harry perguntou tenso. — Não podem desaparecer os seus cheiros?
— Pretendemos enviar uma mensagem mais tarde, ainda é cedo... — King disse e sacou a varinha, Moody fez o mesmo. — Não tinha pensado sobre o cheiro.
— O melhor é vocês irem trabalhar, então. — Sirius disse pensativo. — Se ele tiver algum contato no Ministério, os verá agindo normalmente e acreditará que não os informei. Minha entrevista para o Profeta sai hoje e nela, deixo claro que não tenho uma boa relação com o Ministério.
— Podemos fazer isso e voltar mais tarde. — King concordou e Moody acenou positivamente.
— Sim, mas ainda temos tempo, só chegamos ao trabalho às 8 horas. — Moody explicou e olhou para o relógio, ainda não era 7 horas da manhã.
— Acho que a distração de ser a movimentação. — Harry disse. — Remus, ao em vez de interrogar ou pressionar os lobisomens, precisamos alertá-los. A palavra de que Greyback sequestrou uma criança deve se espalhar, assim como sua intenção de se vingar de Gun e Teagan. Avisamos da ameaça e eles se movimentarão para alertar diferentes matilhas do Reino Unido, para que se protejam e as crianças, principalmente.
— Claro! — Terry exclamou. — Se ele quer encontrar Gun e Teagan, provavelmente tentará ficar atento a uma possível localização.
— Espere, espere! — Moody disse. — Eu tenho homens observando as matilhas, se eles se moverem, talvez, eu consiga prender esses dois.
— E no que isso nos ajudará? — Harry perguntou irritado. — Nós precisamos de movimentações que causem distração e não de prisões, além disso, se Gun e T forem presos, Greyback pode se enfurecer por não conseguir sua vingança e descontar no Adam!
— Ok. Se Remus procurá-los, pode avisá-los e também pedir ajuda. — Sirius disse. — Deixando claro que não desconfiamos deles e que qualquer informação sobre Greyback ou Egan é bem-vinda. Tenha a sensação de que, se encontrássemos meu primo, poderíamos encontrar Greyback.
— Isso é bom, criaremos uma teia de espionagem e poderemos chegar a Greyback antes mesmo que ele marque um encontro. — Denver disse tensa.
— Os lobisomens são desconfiados demais e duvido que eles falem com qualquer um de nós, muito menos com um Lupim. Sem ofensa. — Moody disse secamente. — Mas, estou curioso sobre como você pode contatá-los, garoto.
— Da mesma maneira que eu os contatava em minhas missões secretas para a Ordem a mais de 11 anos, Alastor. — Remus respondeu seriamente. — Eu sou um lobisomem e tenho alguns bons amigos por aí.
Moody o encarou atentamente, depois passou o olhar pela mesa, não encontrando nenhuma expressão surpresa.
— Entendo. — Ele disse lentamente. — Albus disse que você usava os antigos contatos do seu pai e pensei que todos esses conhecimentos sobre o Greyback vinham do trabalho que ele fazia para o Departamento de Controle e Regulamentação das Criaturas Mágicas.
— Bem, agora, você sabe a verdade. — Remus disse engolindo em seco. — Não é mais o tempo de manter segredos, temos que nos concentrar em salvar o Adam.
— Você sabia. — Afirmou Moody olhando para o King.
— Soube quando recebi o relatório final da ICW sobre o caso do Sirius. — King disse. — A informação é confidencial, assim, civis não foram informados e a orientação foi de não utilizarmos as informações para futuras investigações.
— A orientação veio de mim. — Denver disse severamente. — Algum problema com isso?
— Não. — Moody disse secamente. — Apenas, me pergunto como manteremos essa informação de Fudge neste momento. — Ele se levantou, bateu o cachado no chão em um som oco e olhou para King. — Acredito que nós dois devemos partir agora mesmo. Oficialmente não estivemos aqui e não ouvimos nada sobre esse sequestro. Sirius, quando e se der um depoimento, diga que recebeu um aviso de Greyback para não chamar os aurores.
King se levantou acenando seriamente e era possível ver a raiva em seus olhos, apesar do seu rosto se manter neutro.
— Vocês vão partir? — Serafina parecia chocada. — Não podem fazer isso! Precisamos de ajuda!
— Já partiríamos de qualquer forma para evitar suspeita. — King disse serenamente. — O melhor é que vocês formulem seus planos fora dos livros e sem relatórios oficiais.
— Se precisarem de varinhas para o momento do resgate, podem nos chamar, ajudaremos extraoficialmente. — Moody disse rabugento. — Mas, se assumirmos a investigação, teremos que seguir os protocolos e os relatórios não podem ser adulterados ou nós mentirmos para os nossos superiores.
— Se for por causa da minha condição, eu não me importo — Remus disse tenso. — Eu mantive segredo por muito tempo e tive uma longa vida de mentiras e falsa segurança. Como eu disse, a prioridade é salvar o Adam.
— Sim, e assim que apresentarmos nossos relatórios ao Scrimgeour e Fudge, eles nos mandarão te prender. — Moody disse duramente.
— Prender? — Remus se mostrou surpreso.
— Sim, pense por um momento. — Moody continuou. — Você escondeu todo esse tempo que é um lobisomem, tem uma casa, um emprego, duas coisas proibidas legalmente e, ao mesmo tempo, manteve contato com a comunidade lobisomem. Indiretamente, pode chegar a dois dos 4 lobisomens mais procurados no momento e Fudge poderia até alegar que você teve participação direta em toda aquela bagunça da Travessa.
— Mas, eu não os conheço ou sei onde eles estão, muito menos tenho qualquer culpa no que aconteceu naquela noite. — Protestou Remus confuso e indignado.
— Eles não acreditarão, Remus, tentarão tirar a informação de você a todo custo e depois o condenarão, mesmo com provas mínimas, apenas porque é um lobisomem. Aposto que Fudge o usará como exemplo do que acontece com lobisomens que se escondem e quebram as leis. — King disse chateado.
— E, se não conseguirmos prender os outros dois ou Egan e Greyback, você pagará o pato, garoto. — Moody disse. — Acredite, esse não é o melhor momento, politicamente falando, para sair da caverna e se revelar.
— Isso é um tremendo monte de merda de dragão. — Disse Harry e alguns acenaram concordando.
— O melhor é nos movermos normalmente em nosso dia e vocês formulem esse tal plano. — Moody disse e King concordou. — Quando tiverem um ponto de encontro, podemos ajudar com nossas varinhas, sem saber detalhes e não oficialmente.
— Apenas por fazermos isso, estamos cruzando algumas linhas perigosas. — King disse sombrio. — Estamos vinculados a contratos mágicos de trabalho que nos impedem de ir além disso. Lamento muito.
— Não, não. — Sirius se levantou e apertou a mão dos dois. — Não precisam se desculpar, nada disse é culpa de vocês. Na verdade, eu deveria ter me lembrado disso, pois sei como está a situação no Ministério, mas estava tão ansioso por ajuda que... — Ele suspirou. — E, depois disso, minha entrevista no Profeta se torna ainda mais importante e verdadeira. Acredito que vocês devem ir para a Ministério, pois imagino que Fudge estará soltando fogo pelas orelhas de fúria.
— Bem...
— Moody, antes de ir... — A voz do Harry soou do espelho com certa dureza e ouviu-se alguma movimentação. — Você precisa recolher os seus homens e impedi-los de prender Gun e T.
— Eu não preciso nada, garoto! Não recebo ordens suas! — Moody disse zangado. — Meus homens estão fazendo os seus trabalhos e não tenho autorização do meu Chefe para impedi-los de prender ninguém.
— Bem, se for o nível de trabalho que eles faziam aqui em Hogwarts, dificilmente devemos nos preocupar, então. — Harry provocou sarcasticamente.
— Escute aqui, garoto! — Moody se aproximou do espelho. — Não se sinta o maioral por ter escondido informações e descumprido a lei! E, agradeça a dona sorte por estar vivo!
— Rá, rá. — Harry disse ironicamente. — O senhor é que deveria agradecer por ainda ter uma perna se o nível de aurores que cobrem as suas costas são iguais aos que estavam aqui, perseguindo o Hagrid para cima e para baixo! Pode ir lá agora mesmo e avisar aos seus garotos inúteis que os lobisomens irão se movimentar e não esqueça de lhes ensinar como fazer uma investigação decente porque, mesmo se a verdade caísse em seus colos, eles não a compreenderiam!
— Seu... — Moody parecia sem palavras ao encarar o rosto atrevido e desafiador do Harry pelo espelho. — Pois farei isso mesmo! E, aposto que os meus homens encontrarão uma pista de Greyback muito antes que vocês possam formular um plano de resgate!
Depois de falar, ele deixou o escritório claudicante e seguiu furiosamente para a sala de estar, fingindo não perceber que Flitwick estava na sala, sob uma capa de invisibilidade. O pequeno professor, silenciosamente, enviou um feitiço de rastreamento que acertou seu casaco, mas, Moody continuou sem revelar que percebeu o plano do garoto. Por que falar se, afinal, era um bom plano? Então, ele entrou na lareira e partiu para o Ministério, tinha muito trabalho pela frente.
No escritório, Flitwick esperou em silêncio até King se despedir e deixar o Chalé antes de tirar a capa.
— Consegui, Harry, mas, desconfio que seu olho mágico podia me ver claramente. — Flitwick enquanto todos pulavam de susto ao vê-lo.
— Eu já imaginava e ele é esperto o suficiente para perceber o meu jogo. — Harry disse serenamente.
— O que é isso? — Sirius perguntou confuso.
— Se vamos enviar o Remus para alertá-los de Greyback e seus planos contra Gun e T, podemos também avisá-los sobre os aurores. — Disse Harry. — Isso os fará confiarem mais em nós e, quem sabe, estarão mais dispostos a nos ajudar.
— Eu coloquei um feitiço de localização em Moody, assim, poderemos descobrir onde está colocado cada um dos seus homens. — Flitwick disse olhando para Remus. — Acredito que precisamos apenas mostrar a presença de alguns e ajudar os lobisomens a se desviarem deles quando se movimentarem.
— Mas, não precisamos seguir o Moody? — Remus disse se levantando apressadamente.
— Não, tenho controle sobre o meu feitiço e consigo localizar onde a magia do Moody esteve em um quadrante específico. — Flitwick disse e, acenando com a varinha, ela se moveu e apontou para a cadeira onde o auror esteve sentado.
— E, Moody permitiu isso? — Sr. Boot perguntou surpreso.
— Ele está furioso que seus homens não conseguiram ser mais do que uma piada aqui em Hogwarts. — Harry disse. — Resolvi arriscar que ele iria querer ajudar de alguma maneira para compensar o fiasco e, nos dar a localização de seus homens para que consigamos movimentar os lobisomens sem que Gun e T sejam presos, é sua maneira de fazer isso.
— Mas, ele não poderia fazer oficialmente, nos levar até lá ou retirar os seus homens, no entanto, fingir que não me viu sob a capa, me parece uma linha justa. — Flitwick disse.
— E, isso nos dá a distração que precisamos. — Remus disse animado. — Se partirmos agora, poderemos avisar meus amigos e, se Greyback tem algum olheiro observando as matilhas, poderá se afastar de Adam por algumas horas.
— Não deveríamos tentar caçá-lo e pegá-lo quando ele estiver observando as movimentações dos lobisomens? — Serafina questionou ansiosa.
— Muito arriscado. — Sirius disse pensativo. — Se ele perceber a armadilha e fugir, não sabemos o que ele faria com Adam.
— Além disso, pegá-lo assim seria um risco enorme para o Adam, pois Greyback pode se recusar a dar a localização dele. — Terry disse pelo espelho. — Na verdade, seu sadismo o faria ter muita satisfação em nos ver desesperados de preocupação por não sabermos onde ou em que condições o Adam está.
— Nosso melhor movimento será quando Greyback enviar sua mensagem para o Sirius. — Harry disse. — Quando isso acontecer...
— Se acontecer. — Serafina disse duramente. — Estamos adivinhando que ele tentará atrair o Sirius para uma armadilha, mesmo que seja uma suposição forte, ainda não temos certeza.
— Precisamos trabalhar com o que temos, mamãe. — Terry disse com voz calma. — A verdade é que não temos como encontrá-los, não dá para revirar todo o país ou todas as suas florestas.
— Mas... e se ele não enviar uma mensagem? — Serafina perguntou com voz sufocada.
— Se ele não tivesse essa intenção, Adam já estaria morto. — Harry disse duramente. — Greyback não teria porque sequestrá-lo, poderia tê-lo matado no bosque e deixado o corpo para vocês encontrarem. Seria um recado bem forte para Sirius...
— Que recado? — Sirius perguntou curioso.
— Não se meta comigo, olha o que acontece quando você faz isso. — Harry respondeu. — Mas, Remus está certo, ele sabe que você é poderoso, Sirius e que viria atrás dele, assim, apenas um aviso não é suficiente, Greyback quer eliminar o outro caçador. — Harry fez uma pausa enquanto todos refletiam. — A única outra possibilidade é que ele pretende morder o Adam, mas, faltam 9 dias para a lua cheia e Greyback não conseguiria aguentar tanto tempo.
— Assim, a tendência é que ele não demore muito para o próximo passo. — Neville apontou. — Principalmente se os lobisomens se movimentarem, Greyback pode temer que eles se organizem contra ele ou que escondam e protejam Gun e T ainda mais.
— Isso o deixará acuado, confuso sobre o que está acontecendo. — Remus disse ansioso. — Vocês estão certos, quando nos movermos até os lobisomens, precisamos nos preparar para o encontro entre ele e Sirius.
— Como faremos isso? — Sr. Boot disse. — Como resgataremos Adam? Porque, aposto que seu plano é matar o Adam na frente do Sirius.
— Com certeza. — Terry disse. — Seu nível de psicopatia narcísica sádica o fará sentir prazer em punir o Sirius, machucar o Adam será um instrumento de vingança e satisfação. Como um jogo que ele tem que vencer e se divertir enquanto joga.
— Como revertemos isso? Como viramos esse jogo? — Flitwick questionou pensativo e o silêncio se prolongou por alguns instantes.
— Jogo... tem a ver com poder. — Harry disse. — É por isso que ele quer eliminar o Sirius, Gun, T, para continuar o mais poderoso nesse jogo que existe em sua mente. Aposto que ele não teme o Ministério, que não o capturou por décadas, ou os comensais da morte que lutaram ao seu lado por ordem de Voldemort, apesar de desprezá-lo. Seu movimento de sequestrar o Adam é uma maneira de voltar a se sentir poderoso, de firmar em sua mente a certeza de que ele é invencível. Porque pensar o contrário, sentir medo, ficar acuado, o faz fraco, pequeno e isso não é uma opção.
— Sim. — Terry pegou o fio de pensamento do Harry. — Por isso que ele gosta de matar, porque se sente poderoso quando os vê a sua mercê, sob o seu controle, com medo, frágeis.
— Isso deve fazê-lo se sentir forte e poderoso. — Neville acrescentou angustiado. — Ao sentir o cheiro do medo...
— Cheiro! — Harry exclamou e riu animado. — Isso! Isso!
— Você já sabe o que fazer. — Disse Terry aliviado.
— Sim! — Harry encarou o Remus e o Sirius com seus olhos brilhando. — Precisamos de mais espelhos e de Tonks, vamos dar o que o Greyback quer. Poder.
— O que? — Sirius, Remus e Serafina perguntaram confusos.
— Vassouras! — Harry exclamou sem lhes responder. — Precisamos de vassouras para todos! Professor!
— Sim, Harry? — Flitwick subiu na cadeira para poder ser visto pelo Harry.
— Precisamos de seus encantos de ausência de cheiros, mas, mais importante, precisamos de cheiros falsos. Isso é possível? — Harry perguntou ansioso.
— Hum... engenhoso, Harry, muito engenhoso. — Flitwick disse pensativo. — É possível sim, claro.
— Eu fico na equipe de voo. — Denver disse pegando uma papel e pergaminho. — Precisamos de um terrestre para tirar o alvo um e dois.
— Não, o alvo dois terá que sair por voo também se estiver ferido. — Harry disse rapidamente. — Precisamos de uma terceira equipe surpresa que elimine Greyback.
— Eu quero essa satisfação. — Denver disse. — Precisaremos de mais varinhas, Moody e King terão que voltar.
— Se acrescentarmos Tonks e o elemento surpresa, teremos uma boa equipe se coordenarmos bem. — Harry disse. — Sugiro que Denver assuma a liderança das equipes, ela tem mais experiência.
— O que está pensando para o resgate principal? — Denver escreveu mais alguns pontos em seu pergaminho, desenhando um diagrama de resgate.
— Tem que ser o mais forte e rápido com as pernas, pois o movimento pode se tornar terrestre por uma questão de tempo. — Harry disse.
— Boa ideia. — Disse Flitwick. — Provavelmente estaremos com o tempo apertado, mesmo se coordenarmos com precisão.
— Do que diabos estão falando!? — Serafina gritou de olhos arregalados.
— Será que vocês poderiam ser mais claros? — Sirius disse e os outros acenaram com expressões confusas.
— Mas, nós acabamos de explicar todo o plano! — Harry disse indignado. — O que não ficou claro?
