Notas do Autor
Oi! Apenas uma revisão, assim, não sejam muito críticos com os erros! Espero que gostem de para onde direcionei a história de dois personagens controversos. Estou curiosa para saber se o amor de seus pais, os transformarão em pessoas melhores. Me digam o que vocês pensam!
Até mais, Tania!
Capítulo 80
Enquanto o mundo mágico se preparava para a inauguração do Jardim da Lily, Lucius e Narcisa Malfoy vivenciavam um grande conflito.
Na noite da visita de Sirius a Narcisa, Lucius teve uma reunião com seus amigos comensais da morte. Desta vez, o encontro foi na casa de Rosier e, com a ausência marcante dos gêmeos Carrows e de Parkinson. O ambiente mais sombrio tornou todos mais cautelosos em se pronunciar, talvez, por sentirem que os ventos das mudanças, sopravam contra as suas velas.
— Então? Não faremos nada? — Perguntou Rowle com expressão irritada.
— Acredito que a cautela é a melhor ação. — Nott disse com sua fala arrastada. — Temos que nos distanciar de quaisquer atividades criminosas, que possam levar o Departamento de Leis a nos associar com Parkinson e o gêmeos, além do que aconteceu na Travessa, no dia de São Valentin.
— Isso inclui a mim, Nott? — Lucius perguntou ironicamente.
— O que você acha, Lucius? — Nott devolveu na mesma hora e, apesar do sorriso, seus olhos eram frios. — Você agiu por nossas costas, depois que todos decidimos paralisar os nossos planos, até que o impudente ataque ao Beco Diagonal fosse esquecido.
— Não os comuniquei porque meu objetivo, naquela noite, nada tinha a ver com vocês ou nossos planos anteriores. — Lucius disse levemente defensivo e detestando ser obrigado a se justificar. — Era um bom plano, mas, infelizmente...
— Não era um bom plano. — Rosier disse com voz suave, mas, sua careta de desagrado dizia muito sobre seus sentimentos. — Era um plano com grande potencial de dar errado, exatamente como aconteceu. Ou, você realmente acreditou, Lucius, que poderia confiar em lobos do tipo de Greyback e sair vitorioso.
— Eu... — Lucius tentou falar, mas, Rosier não tinha terminado.
— Você foi arrogante! — Rosier bateu a mão em sua mesa e Lucius se calou, em respeito ao homem mais velho e por estar em sua casa. — Depois do que aqueles três insanos fizeram, destruíram nossos planos... Planos que você engendrou com muita inteligência e frieza, alias. Nós tínhamos apenas que ser prudentes, manter um perfil baixo, continuar com nossas atividades sem chamar a atenção. Talvez em um ano ou pouco mais, poderíamos colocar suas ideias em prática. Agora... — Rosier abriu os braços e mostrou claramente o seu desapontamento.
— Os nossos planos ainda são possíveis. — Lucius disse, desistindo de tentar justificar suas ações. — Não estão perdidos, apenas adiados e todos temos poder o suficiente para dificultar a vida daqueles que buscam maiores mudanças no mundo mágico. Precisamos apenas...
— Nada. — Avery disse com frieza. — Não temos que fazer nada com você, Lucius, principalmente, se queremos ficar longe do radar dos aurores.
— Eles estão te investigando, garoto, e sugiro a você que aja com extrema cautela se não quiser ser enviado para Azkaban. — Disse Rosier apenas levemente preocupado, afinal, ele era um grande amigo de Abraxas e vira Lucius crescer.
— Tolice. — Lucius zombou arrogantemente. — Isso é o que Black disse naquela entrevista, ele espera que eu acredite e me assuste, recue e o deixe agir livremente. Estive em contato com Fudge e Yaxley, os dois foram claros em informar que não existe nenhuma investigação. Acredito que um auror e o próprio Ministro da Magia saberiam se essa fábula criada por Black fosse verdadeiro.
— Pois, eu tenho informações diferentes. — Disse Nott muito sério. — Soube que o Ministro não foi informado de investigações secretas. Ele apenas será avisado dos resultados e prisões, ao fim das investigações e, Madame Bones conseguiu aprovação para que os relatórios sejam acessados apenas por funcionários de alto escalão dos Departamentos de Leis e Auror.
— Quem autorizou isso? — Avery perguntou furioso.
— Um Juiz do Tribunal Mágico. — Nott disse lentamente. — Fudge poderia contestar e levar o caso para a Suprema Corte, mas, o tolo está muito ocupado em fazer a si mesmo, o pior Ministro de todos os tempos.
— Como soube disso? — Lucius questionou duvidoso.
— Uma amante, que também é secretária do Scrimgeour. — Nott sorriu com malícia. — Infelizmente, ela não tem informações confidenciais, mas, ouve e observa o suficiente para me dar ideia do que está acontecendo no Departamento Auror. Shacklebolt tem tido reuniões secretas com Scrimgeour e Bones com muita frequência, além de estar trabalhando sozinho em alguma missão secreta.
— Isso não diz que essa missão é sobre mim. — Lucius disse e acenou com a mão como se fosse um absurdo. — Até porque, se isso fosse verdade, seria um absurdo Black ser informado e não o Ministro ou Yaxley. Acreditem, Sirius Black apenas queria me provocar com suas mentiras, além de me atingir com a decisão de expulsar Narcisa e Draco da família Black. Uma pequena vingança por minhas ações naquela noite e nada mais.
— Sua segurança mostra a sua arrogância, filho. — Rosier disse suspirando. — Como disse, aconselho-o a manter o perfil baixo e se movimentar com cautela a partir de agora. E, da minha parte, acredito que nossas reuniões e planos devem cessar por um tempo indefinido. Preciso me concentrar em minhas fazendas e no prejuízo que já estou tendo ao competir com os alimentos Potters. Eles ainda não entraram no mercado, mas, a perspectiva tem barateado os preços de maneira alarmante. E, será muito pior em alguns meses, acredito.
— Estou tendo o mesmo problema com minha Fábricas de Calçados. — Nott disse contrariado. — Nos últimos 2 meses, as vendas caíram 35% e fui obrigado a baixar os meus preços, pois a nova loja de calçados da GER tem preços mais competitivos. Os meus clientes exigiram preços mais baixos para poderem competir com essa tal World of Shoes.
— Eu também estou enfrentando problemas em minha Fábrica de tecidos. — Avery disse mal-humorado. — Potter está fornecendo matéria prima para os Fawcets, que aumentaram a produção e vendem seus tecidos para as Fábricas Black. Eles eram nossos maiores clientes e, agora, tive que despedir funcionários e desacelerar a produção.
— Mais uma razão para não deixarmos Black agir livremente! — Malfoy disse irritado. — Ele está nos causando prejuízos imensos e, se no livrarmos dele de uma vez, poderemos retomar nossos negócios e lucros.
— Você está sendo ingênuo, Lucius. — Avery respondeu desapontado. — Não sei qual o seu problema com Black, que o deixa tão cego e, até concordo que a sua libertação de Azkaban, pode ter sido o que iniciou tudo isso. No entanto, o desaparecimento de Black não fará tudo voltar a ser como era antes, a começar pela GER, que é uma empresa independente de Black.
— Ou Potter, que está sendo assessorado pelo Escritório Boots & Davis. — Disse Nott com as sobrancelhas arqueadas. — Black apenas colocou as suas próprias Fábricas para funcionar à sua maneira e, talvez, esteja supervisionando o trabalho de Boot, mas, ele não é o responsável direto pela reativação das Fazendas Potters.
— Mesmo as mudanças no Ministério, foram consequências de sua prisão injusta, ainda que bem-vinda, claro. — Completou Rosier. — O que temos que fazer agora é cuidar dos nossos negócios, nos manter longe de quaisquer investigações do Ministério e também, de qualquer ataque a Black. Sua imagem está se tornando popular por causa de suas entrevistas e se agirmos diretamente contra ele, teremos ainda mais prejuízos.
— Vocês estão recuando? Deixaremos Black livre para ganhar mais poder, ajudar e proteger lobisomens, invadir nossos territórios e lucrar em cima dos nossos prejuízos? — Lucius parecia inconformado.
— Qual a outra opção? Matá-lo? — Avery disse impaciente. — Você já tentou isso e quase acabou morto ou pior, Lucius e, agora, sua família perderá apoio e dinheiro ao ser desvinculada da Família Black. Você pode achar isso apenas uma pequena vingança, mas, garanto que muitas famílias antigas lhe virarão as costas daqui por diante.
— Incluindo vocês? — Malfoy perguntou com voz fria.
— Nós somos Slytherins, e nossa amizade é verdadeira. — Rosier respondeu. — Mas, não somos tolos, Lucius e não nos jogaremos na fogueira com você. Já disse o que farei, me concentrarei em minhas fazendas, preciso melhorar, aumentar e diversificar a produção para competir com as Fazendas Potters. Não me reunirei mais com você ou me juntarei a seus planos ou esquemas, até ter certeza que os aurores não estão te investigando. Ainda somos amigos e nos encontraremos socialmente, nada além disso.
— O mesmo para mim. — Nott disse lentamente. — E, desde já aviso que pretendo fazer o necessário para fugir da falência, assim, baixarei os meus preços, diminuirei os meus lucros, para poder competir com os produtos trouxas vendidos na World of Shoes. Os tempos mudaram e terei que aprender a conviver com essas mudanças para poder continuar no mercado.
— Eu pretendo um acordo com Black. — Avery disse com uma expressão que desafiava alguém a questioná-lo. — Farei o que for necessário para que ele compre de mim parte dos tecidos que sua Fábrica necessita e, também baixarei os preços para outras fábricas têxtis. Por isso, estou desfazendo as nossas sociedades em nossos outros negócios, Lucius, pois Black poderá não ver com bons olhos a nossa associação.
Malfoy empalideceu de fúria ao ouvi-los.
— Então, ao em vez de me ajudarem a destruí-lo, vocês se unirão a ele e essa nova empresa, GER? — Ele perguntou. — E, você, Avery, virará as costas a mim, depois de tantos anos de amizade e bons negócios?
— Você fez isso primeiro, Lucius. — Avery se inclinou e lhe lançou um olhar mortal. — Ao se recusar a vender os prédios da Travessa para Black e armar aquela emboscada fajuta pelas minhas costas, me fez perder uma fortuna! O Ministério se apropriou dos nossos prédios! Todas as mercadorias perdidas! Assim, me sinto no direito de não lhe ter nenhuma lealdade, Lucius! Estou desfazendo as nossas sociedades, não quero mais ser visto em sua companhia e se me encontrar em algum evento social, por favor, finja que não me viu.
O silêncio na sala de jantar era sombrio e as cadeiras vazias só tornavam tudo ainda pior. Os mortos e os presos em Azkaban pesavam sobre todos eles e a ausência mais importante, o Lord da Trevas, parecia finalmente evidenciar que eles não eram mais um grupo. Os comensais da morte não existiam mais, pois não havia a quem servir, pelo que lutar ou, o que os unir.
— Então é assim que terminamos? — Lucius tentou controlar o temperamento e bebeu um gole que whisky de fogo. — Desistimos e observamos, sem fazer nada para impedir, o nosso mundo mudar e se tornar o mundo controlado por aqueles... animais. Aceitaremos, nos associaremos, talvez, no futuro, os receberemos em nossos jantares e festa, quem sabe, nos casaremos com eles e tudo o que defendemos e prezamos por séculos, chegará ao fim.
— Eu não estou desistindo. — Nott disse suavemente. — Mas, ao contrário dos Carrows e Parkinson, eu não serei um extremista enlouquecido. Manterei a minha família pura, mas, se o dinheiro está com mestiços ou sangues ruins, pouco me importa, desde que os lucros também venham para mim. Eu já disse que os nascidos trouxas tem sua serventia e não preciso que sejam expulsos, apenas que se mantenham em seus lugares.
— E, se os Conservadores se mantiverem forte na Suprema Corte e donos da cadeira de Ministro, não vejo como os status sociais em nosso mundo mudará, Lucius. — Rosier disse em tom pacífico. — Você mesmo disse que devemos lutar politicamente, pois, com violência, não podemos vencer. Assim, proponho que individualmente, todos continuemos a apoiar os Conservadores, a conduzir e influenciar a Suprema Corte e o governo de Fudge. No entanto, coletivamente, devemos no manter neutro e, infelizmente, longe de você, Lucius.
— Todos concordam com isso? — Malfoy perguntou olhando para a mesa.
Avery não lhe dirigiu o olhar, mostrando claramente o rompimento da amizade. Nott e Rosier haviam sido bem enfáticos, mas Rowle, Macnair, Goyle, Crabbe e Selwyn, apenas observaram a discussão em silêncio. Agora, com a pergunta de Malfoy, todos se moveram meio incomodados, até que Macnair respondeu.
— Se você está sendo investigado, Lucius, é melhor que não sejamos vistos juntos ou, eu poderia se investigado também e eles descobririam as minhas pequenas atividades especiais. — Ele disse e seus olhos brilharam meio insanos. — Espero que entenda, mas, ainda continuamos amigos.
— Eu digo o mesmo. — Selwyn disse. — Com a morte do meu pai e irmão mais velho, eu herdei as dívidas da minha família, Lucius e não posso correr o risco de que minhas atividades ilegais sejam descobertas. Isso destruiria todo o esforço que fiz para salvar a Mansão Selwyn e o que restou da minha herança.
— Eu trabalho no Ministério, Lucius. — Rowle deu de ombros. — Não sou rico como vocês, por isso, preciso do meu trabalho no Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas, ainda consigo uma grana extra com contrabando e tráfico de criaturas. Se, por um acaso, os aurores cheirarem isso, estou perdido, assim, prefiro que não sejamos vistos juntos.
— Eu sempre o apoiarei, Lucius. — Goyle disse com aquela expressão bobalhona. — Se precisar de ajuda em qualquer coisa..., mas, gostaria que fossemos discretos.
— Pelo menos até termos certeza de que não está sendo investigado, Lucius. — Disse Crabbe apressadamente. — Goyle e eu somos sócios na Tabacaria, mas, também conseguimos alguns produtos altamente ilegais para poções no mercado negro e não podemos ter os aurores nos investigando. Entende?
— Sim, eu entendo. — Malfoy se levantou elegantemente da mesa e observou cada um deles com frieza. — Entendo que todos se tornaram confortáveis demais com as máscaras sociais que usamos desde a morte do Lord das Trevas. Vocês se esqueceram pelo que lutamos, nossos propósitos e valores, pois estão preocupados com ouro e autopreservação.
— Não tente fazer de nós os vilões por despeito, Lucius. — Avery se levantou o encarando frente a frente. — Nós concordamos com suas ideias! Adiamos por causa dos gêmeos e Kevin! Não pense, nem por um segundo, que não agiremos de acordo, quando o momento certo vier. Somos Slytherins e agiremos com inteligência, sangue frio e precisão! Não seremos tolos precipitados e arrogantes! Inclusive, mantendo-nos ao seu lado como bastiões, para cair quando você despencar por seus próprios erros!
— Amigos verdadeiros, não me virariam as costas por rumores infundados! — Lucius respondeu furioso, mostrando claramente o que realmente o incomodava na situação.
— Ah! — Rosier se levantou com um sorriso irônico. — Não é nossa suposta passividade que o indigna! Mas sim, nossa suposta traição! Pois, lhe direi que é um tolo! Amigos Slytherins, fariam exatamente o que estamos fazendo! Por autopreservação, sim! E, aconselho-o mais uma vez, Lucius, lembre-se de quem é, e aja com cautela, se não quiser perder tudo.
— Fiquem com os seus tolos conselhos e suas falsas amizades. — Lucius caminhou em volta da mesa, mantendo o queixo erguido e tentando preservar sua dignidade. — Eu sei o caminho da saída, Edmond, não precisa me acompanhar. Boa noite, senhores.
Ninguém tentou impedi-lo de sair ou minimizar o golpe que Malfoy acabou de sofrer. Ao chegar em sua Mansão, em Wiltshire, Lucius mal conseguia controlar a fúria que sentia ao se encaminhar para o seu escritório. Ele se serviu de uma dose de whisky de fogo e caminhou furiosamente de um lado para o outro sobre o tapete persa caríssimo do escritório. Como ousavam tratá-lo daquela maneira humilhante! Nos últimos 11 anos, qualquer um deles não fez mais do que se esconder, beber, comer e trepar! Foi ele quem se infiltrou no Ministério, pagou propinas e manteve o controle sobre o próprio Ministro da Magia! Ele conseguiu manter Parkinson sóbrio e ainda um dos membros da Suprema Corte, até que os Carrows destruíram tudo!
Agora, nada do que planejou poderia ser realizado. O Ministro estava cada vez mais distante de sua influência e, ele não poderia mais gastar o seu dinheiro sem a certeza de obter resultados. Talvez, considerou Lucius, ele tenha se precipitado em tentar matar Black, mas, ele tinha certeza que sem o maldito, os planos que fizeram de assumir o controle do mundo mágico e expulsar os invasores, poderiam ser colocados em prática com mais rapidez. Apenas se Black tivesse morrido naquela noite... E, aqueles tolos pareciam não perceber que tudo tinha a mão de Black!
Ainda havia o fracasso do diário do seu Mestre. Era uma jogada perfeita! Weasley pagaria por seu atrevimento! Se arrependeria amargamente de defender os sangues ruins! No entanto, de alguma maneira, o monstro da câmara secreta estava morto, o diário perdido, talvez, destruído, pois Dumbledore parecia convicto de que o perigo não existia mais. E, Lucius não conseguiu ao menos que Dumbledore perdesse o seu cargo!
E, agora, teria que encarar mais prejuízos financeiros, pois Tibalt romperia a sociedade em seus outros negócios. Isso sem falar no afastamento social de famílias antigas tão importantes. Lucius não era tolo, em pouco tempo isso se espalharia e os Malfoys seriam evitados como a praga! Malditos!
— Dobby! — Ele chamou decidindo descontar um pouco da sua raiva no pequeno elfo imundo. — Dobby! — Lucius se enfureceu ainda mais quando o elfo não apareceu imediatamente e acenou com a varinha para o chicote, decidido a puni-lo por sua afronta. — Dobby! Apresente-se ao seu mestre! Agora!
Mas, nada aconteceu e Lucius deixou o escritório, subiu as escadas, pois, Narcisa saberia lhe explicar a ausência do elfo. Sua esposa cuidava da administração da casa e Lucius jamais precisou considerar entrar na cozinha para se informar de nada. Ele a encontrou em sua saleta, calmamente lendo um livro, usando um penhoar de seda azul, que fazia um lindo contraste com sua pele branca e cabelos loiros platinados.
— Lucius... — Narcisa se levantou suavemente surpresa. — Está em casa mais cedo do que eu esperava, normalmente, suas reuniões duram até a madrugada.
— Onde está Dobby? — Ele perguntou direto.
— O que? Porque precisa do... — Ela parou ao ver o chicote em sua mão direita. — Ah, vejo que o fim precoce da sua reunião não foi por boas razões, já que procura alguém para castigar e desabafar a sua raiva.
— Exato. Não quero falar sobre isso. Onde ele está? — Malfoy disse com frieza e seus olhos azuis brilharam em fúria.
— Eu o vendi. — Narcisa respondeu dando de ombros. — Estou com um elfo a menos, assim, nem pense em castigar os outros e torná-los inúteis para o trabalho.
— Vendeu? — Lucius se mostrou desconcertado. — Porque?
— Ora, você sabe porque, Lucius. — Narcisa se aproximou do marido e tirou o chicote de sua mão, jogando-o de lado, enquanto o puxava para se sentar ao seu lado. — Dobby vivia nos causando problemas, tão atrapalhado e tagarela, mais de uma vez falamos em vendê-lo e comprar um novo elfo no Jardim do Elfos.
— Bem... — Lucius suspirou ao se sentar ao lado da esposa, se acalmando com seu cheiro suave, que rescindia pela saleta e do seu corpo. — Sim, mas, não esperava que o vendesse assim, subitamente ou durante a noite... Espera, eu nem sabia que pretendia receber visitas.
— Não te contei porque era um encontro secreto. — Narcisa disse despreocupadamente. Como uma exímia oclumente, sabia que o melhor era não mentir e sim, contar versões ou meias verdades. — Porque não me fala da sua reunião e, depois, lhe conto da minha?
— Já lhe disse...
— Você não quer falar sobre isso. — Narcisa suspirou e acenou para sua bebida especial. — Aqui, beba um pouco deste delicioso whisky e conte-me o que aconteceu. Posso não ser um dos seus companheiros comensais, mas, sou sua esposa e quero ajudá-lo, mesmo que seja com o conforto de ouvi-lo.
Lucius bebeu o whisky pensativo e olhou para Narcisa, sentindo que ela estava diferente, ainda que não pudesse compreender o que mudara exatamente.
— Você sabe que não gosto que beba whisky de fogo, é...
— Uma bebida muito masculina. Eu sei, já me disse isso dezenas de vezes ao longo dos anos e, por isso, adquiri o hábito de manter uma garrafa escondida e beber discretamente quando me apetece. — Ela sorriu para sua expressão surpresa ao ouvir sua confissão. — Estou com pouca paciência para esses pensamentos tolos sobre eu ser uma figura feminina frágil e delicada, que não tem que se envolver com questões ou gostos masculinos. Isso inclui sua reunião e o motivo de sua raiva, Lucius, assim, gostaria que me contasse o que aconteceu.
— Nunca a considerei frágil ou delicada, Cissy, mas, é assim que um homem deve agir. — Lucius disse rigidamente. — Eu seria chamado de fraco se permitisse que minha esposa se envolvesse em tais assuntos, bebesse como um homem ou resolvesse os meus problemas.
— Fraco para quem, Lucius? — Narcisa gesticulou para a saleta. — Somos apenas nós dois aqui e, com certeza, seu pai não saberá de nada do que conversamos ou fazemos em nossa intimidade.
— Meu pai não tem nada a ver com isso. — Lucius disse isso com frieza, mas, se levantou e se afastou, mostrando no movimento defensivo a insinceridade da própria afirmação.
Narcisa suspirou ao refletir que seu marido nunca foi uma grande oclumente ou entendeu que esconder a verdade ou seus pensamentos, era muito mais do que limpar a mente ou projetar arrogância e segurança.
— As coisas mudam, Lucius. — Ela também se levantou e esperou que o marido a encarasse antes de continuar. — Eu não sou mais a jovem impressionável com quem se casou, ansiosa por agradá-lo e ser uma boa esposa. Acredito que cumpri o papel para o qual fui treinada desde o berço com perfeição nos últimos 18 anos, não foi?
— Cissy... — Lucius se aproximou confuso. — Você é para mim, muito mais do que uma esposa treinada e conveniente. — Ele segurou suas mãos na sua e as beijou suavemente. — Sabe que é o meu coração.
— Quero mais do que o seu coração, Lucius. — Narcisa não se deixou fraquejar por suas palavras doces, não tinha mais 20 anos. — Quero sua confiança, seus pensamentos, seu respeito, preciso saber que sua prioridade é a nossa família e não convenções sociais tolas.
— Não me diga que também pretende tentar me convencer que devo deixar de lutar pela pureza do nosso mundo? — Lucius se irritou imediatamente. — Que devo deixar que esses invasores destruam todas as nossas tradições e modo de vida.
— O que? — Narcisa se mostrou confusa. — Não estou falando sobre o mundo mágico, Lucius, e sim, sobre a nossa vida, nossa família! Quero fazer parte da sua vida, saber dos seus problemas, ajudá-lo, ser ouvida e respeitada em meus conselhos. Estou cansada de ser jogada para escanteio apenas porque sou mulher!
— Bem, é assim que as coisas são feitas! Mulheres foram feitas para muitas coisas, minha querida, não para serem conselheiras ou sócias de seus maridos! — Lucius se impacientou.
— Pois então, mudaremos isso! A partir de agora! — Narcisa disse com frieza.
— Narcisa... — Lucius suspirou cansado. — Acabei de ser destruído e humilhado por bruxos que considerava meus amigos e companheiros. Tudo porque, eu me recuso a aceitar passivamente as mudanças que acontecem no mundo mágico e, agora, chego aqui e sou obrigado a ouvir que você quer mudanças em nossa própria casa! Em nosso casamento!
— Sim. — Narcisa disse duramente. — E, podemos começar com você me dizendo, o que exatamente aconteceu nesta reunião. Quero saber o que foi lhe dito e feito, que o deixou neste estado.
— E, eu lhe digo não, pois este assunto não lhe concerne! Não voltarei a me repetir! — Lucius disse energicamente.
— Bom, então, também não lhe direi com quem me reuni ou para quem vendi o Dobby. — Narcisa disse com uma expressão ainda mais sem emoção. — A partir de agora, se não me contar sobre a sua vida, também não lhe direi nada sobre a minha.
— Como você ousa!? — Lucius se aproximou irritado. — Acha que permitirei que tenha segredos de mim? Que participe de encontros ou ações secretas?
— E, o que fará para me impedir? — Narcisa sorriu com escárnio. — Tentar ler minha mente? Hum... mesmo o próprio Lord das Trevas jamais pode fazer isso. Talvez, me seguir, quando eu sair? Ora, mas isso seria tão vulgar e não convencional, imagine o que as pessoas diriam, Lucius.
— Cissy...
— Boa noite, Lucius. — Narcisa caminhou para a porta da saleta calmamente.
— Cissy, volte aqui e me diga...
— Ah! — Ela parou e o encarou com frieza. — Até que atenda ao meu pedido, não o desejo em meus aposentos.
— Cissy! — Mas, seu chamado foi ignorado e Lucius ficou sozinho na saleta cheirosa se perguntando o que estava acontecendo com o seu mundo, que parecia desmoronar como uma torre de cartas.
Durante os dias que se seguiram, Narcisa evitou Lucius e se moveu pela mansão silenciosa e reflexivamente. Sua estratégia para conseguir ter maior poder e influência sobre o seu marido poderia ser um grande erro. Lucius, quando pressionado, se fechava atrás de um muro de orgulho e despeito, como uma criança cuja mãe lhe negou as suas vontades. No entanto, Narcisa sabia que não tinha tempo para ser sutil ou sedutora, precisava que Lucius acatasse o seu desejo de terem uma relação mais comunicativa e que ele se abrisse aos seus conselhos. Talvez, se o ajudasse a lidar com seja lá o que acontecera na reunião com seus amigos, seu marido passasse a valorizá-la e suas opiniões.
Lucius tentou conversar, a encurralou e persistiu, mas, Narcisa se manteve fria, com expressão vazia, respostas curtas e básicas. Rapidamente, seu marido fez o que ela esperava e se fechou, devolvendo o seu desprezo com igual fervor e a Mansão se tornou um campo de batalha, que faria os opositores durante a Guerra Fria, se sentirem humilhados. Mais uma semana se passou e, finalmente, Narcisa observou o marido, estranhamente solitário, quebrar o muro, tijolo por tijolo, até que, em uma noite fria e chuvosa do inicio da primavera, ele a procurou em sua saleta.
— Ok. Seu você quer saber o que aconteceu, eu lhe direi. E, se quer me dizer o que fazer, vá em frente, apenas não me culpe se eu não acatar suas ordens, querida esposa. — Seu tom sarcástico era bem defensivo e mostrava sua tentativa de manter o orgulho, obviamente, ferido.
— Luc... — Narcisa disse suavemente e tocou seu rosto com carinho, pois, sabia que a estratégia agora era confortar e não tripudiar com o marido. — Eu jamais duvidei de você ou pretendo lhe dar ordens, meu desejo é fazer parte da sua vida, mas, não com a intenção de desmerecê-lo. Eu confio em você, apenas... — Ela suspirou e o beijou suavemente, Lucius imediatamente tentou aprofundar o beijo, mas, Narcisa se afastou. — Eu recebi um golpe duro, Lucius. Estou profundamente magoada com a expulsão da Família Black e, isso me fez perceber como pouco ou nenhum controle eu tive sobre a minha vida. Primeiro meu pai, depois meu marido e agora o chefe da Família Black, todos decidindo e conduzindo a minha vida, sem que eu nada possa fazer ou opinar.
— Isso nunca a incomodou antes, assim, porque agora? — Lucius perguntou e, como estava caminhando pela saleta, não percebeu o leve olhar de angústia de Narcisa. — Além disso, pela maneira que o Sirius vem conduzindo o nome Black e no que, imagino, ele pretende transformar séculos de tradições, acredito que você não perdeu tanto, minha querida.
— Não ouse dizer isso! Ou tentar minimizar os seus erros e meus sentimentos! — Narcisa estava furiosa, mas, sua expressão se manteve fria, apenas seus olhos cinzas brilharam perigosamente. — Quaisquer ações do meu primo, não apaga a importância da Família Black, seu papel na história e fundação do mundo mágico ou a herança mágica, social e financeira de ser um Black!
— Voltamos a isso! Você diz que confia em mim, mas, não perde a oportunidade de jogar na minha cara o que aconteceu! — Lucius disse zangado.
— Ok! Então, talvez, eu não confie em você como fazia antes. Estou ferida, Lucius! — Narcisa pegou o jornal e o jogou na escrivaninha. — E, o que o meu primo está fazendo é exatamente o que um Black deveria fazer! Sirius está conquistando poder e influência, se infiltrando no Ministério politicamente, assumindo sua importante posição social em nossa sociedade. Na verdade, meus tios estariam extremamente surpresos por suas ações, pois sua natureza Gryffindor pouco ambiciosa sempre lhes causou profundo desapontamento.
— Sim, mas sua busca por influência e poder tem como objetivo defender sangues ruins, lobisomens e outras criaturas inferiores! — Lucius disse tentando manter a discussão sobre Sirius e não os seus erros.
— Eu não me importo! — Narcisa disse em tom definitivo.
— O que? Desde quando o mundo enlouqueceu e ninguém se importa que Black está tentado destruir tudo pelo que lutamos? — Lucius caminhou furioso de um lado para o outro.
— Desde que os problemas enfrentados por nossa família, é muito mais urgente, principalmente depois de suas ações impensadas! — Narcisa disse duramente.
— Isso outra vez! Você nunca esquecerá? Com exceção deste momento, quando te decepcionei ao longo de todos esses anos, Narcisa!? — Lucius se defendeu indignado.
— Ora, não vamos nos esquecer desta tatuagem em seu braço e como esteve muito perto de passar o resto da sua vida em Azkaban! — Ela lhe devolveu na mesma hora.
— Não diga isso! O Lord das Trevas foi a melhor coisa que já aconteceu em nosso mundo e perdê-lo foi uma tragédia, Cissy. — Lucius suspirou ao pensar no quão perto estavam de limpar o mundo mágico das imundices que o invadiam a séculos. — Todos os sonhos e possibilidades foram arrancados de todos nós naquela noite.
— Bem, posso estar me repetindo, mas a verdade é, eu não me importo! — Narcisa disse friamente. — As coisas são como são e não podemos mudá-las! Quero me concentrar no que acontece com nossa família agora, pois suas ações atingiram a mim e ao Draco duramente e, posso ter aceitado passivamente o controle sobre minha vida por todos estes anos, mas, não agirei assim quando se trata da vida no meu filho.
— É disso que isso tudo se trata? Draco? — Lucius perguntou compreendendo melhor o seu comportamento.
— Sim. — Narcisa foi sincera, pois tudo o que fazia era para impedir que seu filho acabasse com uma tatuagem em seu braço esquerdo. — Você sabe como ele é importante, vital, para mim.
— Eu sei... — Lucius disse gentilmente.
— Todos aqueles bebês perdidos... — Ela se virou para que Lucius não visse seus olhos se encherem de lágrimas. Tanto tempo sem pensar naqueles anos terríveis e, mesmo depois de tudo o que chorara, se surpreendia ao perceber que ainda tinha mais lágrimas. — Meses após meses, um aborto após o outro e esperando, implorando para que pelo menos um deles sobrevivesse. A cada vez que ficava grávida, eu não podia comemorar, pois, não havia garantias e ainda pesava em meu coração o aborto anterior.
— Eu sei, Cissy, eu estava lá. — Lucius sussurrou e tocou seu ombro com carinho.
— Você não sabe! — Ela se virou e mostrou a dor em sua expressão, as lágrimas em seus olhos tristes. Era mais emoção que Narcisa gostava de demonstrar a qualquer um, mesmo o marido, mas, precisava ganhar essa disputa. — Não sabe como é ter o seu bebê morrendo e arrancado do seu ventre! Não faz ideia da dor que partiu minha alma quando tivemos um natimorto, todos aqueles meses, sentir os seus movimentos, as dores do parto, para então... segurar um cadáver.
— Cissy... não chore, por favor, parte o meu coração vê-la assim. — Lucius disse tentando se aproximar, mas ela se afastou.
— Mais uma vez, eu não me importo! Se você fica triste ao me ver chorar ou ao se lembrar do que passamos, pouco me importa! Porque fui eu quem passei por tudo aquilo! E, que tive que ouvir sua mãe e seu pai planejando me devolver a minha família, pois estava quebrada, defeituosa demais para ser a esposa de um Malfoy! — Narcisa estava ofegante de fúria. — Aqui mesmo, nesta sala, eu ouvi sua mãe conversando com a sua próxima esposa e combinando detalhes do casamento que aconteceria quando eu matasse o meu próximo bebê e você conseguisse o divórcio.
Lucius abaixou a cabeça envergonhado pelas atitudes dos seus pais, que Narcisa jamais perdoara, mesmo depois que Draco nascera saudável, alguns meses depois.
— Sinto muito, Cissy, de verdade. Você foi tão forte, eu poderia não a amar naquele momento, mas, sua determinação e fortaleza me conquistaram. — Lucius disse segurando suas mãos com carinho.
— O passado não deve continuar a nos atormentar, Lucius, ainda que ele o faça. Você precisa deixar os sonhos que alcançaríamos com o Lord das Trevas para trás e se concentrar no agora, pois ele se foi para sempre. — Narcisa disse com firmeza. — Precisamos cuidar e proteger do mais importante para nós dois, nosso Draco.
— Eu concordo. — Ele suspirou e beijou sua mão. — Ele é tudo para mim e você sabe disso. Lembra-se como eu era antes do seu nascimento? O seu amor e Draco me tornaram um homem melhor e você está certa, o passado e o futuro me pressionam, me angustiam. — Lucius olhou pela janela pensativamente. — O que vejo nosso mundo se tornar, o controle que perdemos mais e mais a cada dia, me leva de volta ao passado e não posso deixar de refletir sobre como o mundo seria diferente se tivéssemos vencido a guerra. O mundo mágico seria verdadeiramente o nosso mundo, Cissy e o legado que deixaríamos para o nossos filhos e netos...
— Filhos? — Narcisa disse o encarando surpresa.
— Desculpe... — Ele pigarreou emocionado. — É que ouvir você falar dos bebês que perdemos, me fez pensar como incrível seria se tivéssemos tido mais filhos além do Draco. O garoto que perdemos no parto teria 15 anos agora e estaria se preparando para os seus OWLs.
Narcisa ficou em silêncio tentando com todas as suas forças não visualizar um garoto alto, loiro e sorridente, entrando pela porta e a abraçando com saudades pelos meses ausentes, enquanto contava entusiasmado sobre seus exames. No entanto, sua mente a enganou e a oclumência pouco pode fazer diante da enxurrada de dor e tristeza que a devastou.
— Oh... — Narcisa se sentou no sofá soluçando dolorosamente. — Meu bebê...
— Cissy... — Lucius pouco poderia fazer para minimizar a sua dor, além de abraçá-la e confortá-la, de uma maneira que o jovem e egoísta Lucius de 15 anos atrás, jamais soube fazer. — Sinto muito, meu amor... sinto muito...
Quando conseguiu se acalmar, Narcisa ficou em silêncio e aconchegada contra o seu peito, tentado pensar no que poderia dizer para se mostrar forte e não uma chorona fraca e, assim, convencê-lo de seu plano. Tantos momentos para chorar e quando mais precisava se mostrar capaz, ela perdia o controle. No entanto, sua tristeza e as memórias do passado, fizeram Lucius se lembrar de quão importante sua família era para ele. Narcisa e Draco eram o seu mundo, sua força e o seu futuro, portanto, não podia esquecê-los e se perder em sonhos destruídos.
— Você está certa. — Ele disse suavemente. — Eu tenho a melhor esposa e amiga que um homem pode ter e não a valorizo como merece. Pior, deixei que a raiva e decepção me cegassem para o mais importante, você e Draco.
Narcisa suspirou suavemente, aliviada por não ter estragado tudo.
— Conte-me sobre a sua reunião. — Ela pediu lentamente e se afastou para limpar o rosto com um lenço rosa chá. — Deixe-me entrar e ajudá-lo, Luc.
— Ok. — Lucius suspirou e contou da humilhação que enfrentara naquele dia.
— Então, basicamente, Tibalt Avery rompeu a amizade que tinham desde antes de Hogwarts, além de desfazer a sociedade em seus negócios restantes. — Narcisa caminhou até a janela e observou a chuva fria que caia no jardim. — Terrowin Nott tem informações de sua mais nova amante, de que você é alvo de uma investigação secreta e todos os outros seguiram a decisão de se manterem afastados de você, pois temem serem investigados por associação.
— Exato. — Lucius olhava para o chão humilhado e furioso. — Todos covardes e tolos...
— Todos Slytherins. — Narcisa o cortou com dureza e se voltou para o marido. — Pare de choramingar, Lucius e pense, por um instante, se a situação fosse contrária, e me diga que não faria o mesmo.
Lucius a encarou com raiva, pouco interessado em aceitar a verdade e sim, em se remoer em auto piedade.
— Essa investigação é uma falácia, Cissy. — Ele defendeu como um menino teimoso.
Suspirando, Narcisa se sentou ao seu lado e segurou em sua mão.
— Mesmo que você esteja certo, cautela é a resposta, Lucius. E, todos eles estão corretos em agirem com prudência e autopreservação, algo que nós dois faríamos se qualquer um deles estivesse sendo investigado pelos aurores. Ainda que isso seja apenas um boato. — Narcisa disse em tom suave para amenizar o golpe. — O que precisamos fazer é parar de nos concentrar no que está feito ou mergulhar em auto piedade.
— Eu não estou fazendo isso. — Lucius disse em tom defensivamente teimoso.
— Claro que não. — Narcisa sorriu com doçura. — Mas, está magoado pelo que considera uma traição de seus amigos.
— Bem... sim. Roger Goyle e Walter Crabbe mostraram mais apoio, mas, ainda decidiram se manter afastado de mim, temporariamente. — Lucius disse pensativo. — Os outros deixaram claro que, se estou caindo, não o farão comigo. Edmond é o melhor amigo do meu pai e, eu esperava mais do que conselhos sobre ser prudente. E, Tibalt...
— Vocês são os melhores amigos. — Narcisa disse suavemente.
— Sim. Éramos um trio, Todd Egan, Tibalt e eu. — Lucius fez uma careta. — Entramos em Hogwarts no mesmo ano e não poderíamos ser mais amigos, como irmãos, pelo menos até Egan ser mordido. Agora, Avery, simplesmente rompe nossa amizade por causa de um erro e alguns galeões!
— Vocês perderam uma fortuna ao não venderem os imóveis da Travessa quando tiveram a chance, Lucius, e você agiu por suas costas com aquele plano tolo. — Narcisa falou duramente.
— De que lado você está? — Lucius questionou chateado.
— Do seu, Lucius, mas, você precisa parar de agir como se os seus erros fossem sem importância! Eu não minimizarei ou fingirei para lhe agradar! — Narcisa se levantou impaciente. — Você precisa encarar a realidade, parar com essa absurda ilusão de que nunca erra ou é perfeito, e aceitar que o que aconteceu foi muito grave. Tibalt tem razão de estar magoado e já esclarecemos que se distanciar de você e uma possível investigação do Departamento Auror, é a coisa mais inteligente a se fazer.
— Talvez. — Lucius se levantou e assumiu a posição de Narcisa, olhando pela janela e o dia sombrio. — Ok. Você quer que eu admita? Bem! Fiz uma grande tolice!
— Ótimo! — Narcisa sorriu ironicamente. — Agora, precisamos concertar isso!
— Eu não vejo como, Narcisa. — Lucius se sentia derrotado.
— Você não está mais sozinho, Luc. — Narcisa o abraçou por trás e recostou a face em suas costas. — Nós dois juntos, concertaremos essa bagunça, acredite.
— Incrivelmente... — Ele se virou e a observou com carinho. — Eu acredito.
Narcisa sorriu e aceitou seu beijo, mas, quando ele tentou se aprofundar, mais uma vez, ela se afastou.
— Cissy! — Lucius protestou frustrado. — Você me mantém longe dos seus aposentos há 2 semanas!
— Bem, agora não é o momento para os prazeres da vida, Lucius, e sim, para o trabalho. — Narcisa disse voltando a se sentar. — Precisamos de nossas mentes afiadas, não embotadas pelo desejo.
— Ok. Acho que é a sua vez de me contar sobre a sua reunião. — Lucius disse, se sentando elegantemente.
— Não, primeiro, quero saber o que já fez depois dessa reunião. Sua sociedade com Avery já foi desfeita? — Ela questionou, adiando por um pouco mais a conversa mais difícil.
— Sim. Nos encontramos há 4 dias, Avery me deu o valor da minha parte em nossos negócios e eu assinei os contratos, passando tudo para ele. — Lucius parecia contrariado. — Ele se manteve muito frio e distante, talvez, magoado, como você disse.
— Isso passará. — Narcisa disse convicta. — Todos eles, depois que tiverem certeza que os aurores não estão te investigando, voltarão a se aproximar de você. E, você pode usar esse dinheiro que Avery lhe deu, para iniciar um negócio lícito e lucrativo por si mesmo. Isso nos ajudará em nossos possíveis problemas financeiros e mostrará ao investigador que você não está envolvido em negócios ilegais.
Lucius levantou as sobrancelhas por suas palavras e parecia meio desconcertado.
— Bem...
— Lucius, você não está envolvido em negócios ilegais, certo? — Narcisa questionou preocupada.
— Nada tão grande quanto o que tinha na Travessa. — Lucius disse lentamente. — Apenas, você sabe, alguma atividade no mercado negro e no tráfico de criaturas.
— Lucius! — Narcisa estava pálida. — Como pode ser tão imprudente!
— Cissy, eu não acredito nesta história de investigação secreta! E, Fudge também não! Eu estive com ele e o Ministro me disse que isso é uma ilusão! — Ele se defendeu com veemência.
— Fudge está tirando fotos com lobisomens para o Profeta Diário, fazendo doações e gentilezas para aquelas criaturas! Tudo para limpar sua imagem e ficar bem com Bones! — Narcisa apontou para o jornal. — Acredita que se for verdade, aquele covarde admitiria ou compraria uma briga por você?
— Então... você acredita que... — Lucius olhou pensativo para o jornal.
— Que Fudge sabe que Bones lhe tirou o acesso aos relatórios e investigações confidenciais, mas, não lutará contra isso, porque não quer se indispor com ela publicamente. Pelo contrário! Bones tem recebido muitos elogios por seu apoio a causa dos lobisomens e Fudge se apegará a isso para ganhar as eleições. — Narcisa disse inteligentemente. — Precisamos agir como se essa investigação secreta fosse real, Lucius e, isso inclui parar com todas as suas atividades ilegais. Agora.
— Ok. E, o que você sugere que eu faça para ganhar dinheiro? Com exceção desses poucos lucros, no momento, nosso cofre está apenas vendo retiradas de galeões, Narcisa. — Lucius se levantou impaciente. — Temos a Fazenda Redoutable em Reims, onde papai vive, mas, está desativada a anos e, pouco sei sobre agricultura.
— Você poderia aprender, Lucius. — Narcisa sorriu aliviada que ele tocou no assunto da fazenda por si só. — Além disso, se precisarmos fugir dos aurores, a fazenda é o lugar ideal, pois ninguém tem conhecimento de sua localização. Você deveria pensar em providenciar uma ou duas casas seguras também, apenas por precaução, talvez, uma em Paris e outra em Berlin, temos amigos nas duas cidades.
— Acredita que poderia chegar a tanto? — Lucius questionou tenso.
— Acredito que não devemos ser arrogantes e ingênuos, sentar em nossos traseiros e esperar o melhor, não somos Gryffindors ou Hufflepuffs. — Narcisa disse direta. — Ficar longe da Inglaterra talvez seja o melhor no momento. Você pode colocar a Fazenda Redoutable para produzir e investir em mais alguns negócios lícitos na França. Ao mesmo tempo, ficaria longe de qualquer possibilidade de ser seguido ou espionado por esse auror, Shacklebolt, e se distancia dos nossos amigos. Quando tudo isso passar, aposto que eles estarão ansiosos por revê-lo e desfrutarem da sua companhia.
— E, então, poderemos colocar o meu plano em movimento. — Malfoy disse pensativamente. — Nenhum deles desistiu das minhas ideias de retomarmos o controle do mundo mágico, apenas, adiaram para um momento mais propício. — Ele olhou para a esposa. — Nunca pensei que consideraria deixar a Inglaterra para viver na mesma casa que meu pai e brincar de fazendeira, Cissy.
— Não brincarei de nada, Lucius e seu pai é mais fácil de aturar do que foi a sua mãe, que está morta há muitos anos. — Narcisa disse suavemente. — Apenas, me parece que temos a possibilidade de investir em algo sólido e lucrativo ao reativar a fazenda e, se iniciarmos outros negócios legais, a França oferece menos competição, pois aqui existe a GER, Sirius e seus próprios amigos.
— Você está certa. — Lucius acenou. — Não que me agrade a ideia de me desfazer de todos os meus negócios ilegais e lucrativos, mas, já perdi quase tudo mesmo e o que restou não vale a pena o risco de ser preso por algum auror intrometido.
— E, aposto que Draco adorará passar o verão na França, visitar o avô e acompanhar o pai na reativação da Redoutable. — Narcisa disse sorrindo levemente. — Acredito que também me divertirei aproveitando o verão francês.
— São boas ideias, Cissy. — Lucius sorriu de volta. — Estou me sentindo mais otimista. Agora, conte-me sobre sua reunião secreta.
— Eu me reuni com Sirius e vendi o Dobby a ele, Lucius. — Narcisa respondeu diretamente.
— O que? — O sorriso e otimismo desapareceram de sua expressão, que se tornou sombria e dura. — Porque você faria isso?
— Você sabe porquê. — Narcisa respondeu com igual frieza. — Estava tentando concertar a situação em que você nos colocou. Social e financeiramente fomos muito prejudicados e cabia a mim, como uma Black, tentar convencer o Sirius a mudar de ideia.
— Não cabia coisa nenhuma! — Lucius não gritou, mas era possível ver sua fúria. — Trazer seu primo a nossa casa e implorar! Você jamais deveria ter se rebaixado, Narcisa!
— Bem, lamento que pense que a situação não exige atitudes desesperadas, afinal, quem sofrerá a desonra de ser expulsa da Família Black, será Draco e eu, assim, entendo sua tranquilidade. — Ela mordeu de volta e teve o prazer de vê-lo se conter, pois, já tinha admitido o seu grave erro. — De qualquer forma, eu não implorei, ainda que estivesse disposta a isso se fosse necessário. — Ela disse sincera e resoluta. — O que eu fiz, foi tentar negociar com Sirius.
— O que ofereceu a ele? — Lucius perguntou surpreso.
— Nada. Eu lhe perguntei o que ele queria para não nos expulsar da Família, mas, Sirius exigiu um preço muito alto, que eu não estava disposta a pagar. — Narcisa suspirou se preparando para o ponto mais importante desta conversa.
— O que Black lhe pediu? — Lucius tentou controlar a ansiedade, pois sentia que já sabia a resposta.
— Que eu abandonasse você, Lucius. — Narcisa o encarou nos olhos. — Sirius exigiu que eu me divorciasse e voltasse a ser Narcisa Black, assim, ele atenderia o meu pedido e me daria o seu apoio.
— Maldito! — Lucius se levantou e andou pela sala furioso e tentando não admitir que o peso em seu estômago era de medo ao pensar que sua esposa pudesse aceitar tal exigência. — E, você considerou aceitar tal... exigência absurda?
— Não. — Narcisa disse sincera. — O que deu fim à negociação logo de início, pois Sirius deixou claro que apenas isso o demoveria de sua decisão. Ele disse também que lamentava não ter se aproximado de mim antes deste evento, pois, talvez, uma reaproximação entre nossas Famílias, poderia ter impedido sua tentativa de assassiná-lo.
— E, ele acredita que teríamos aceitado uma reaproximação? — Lucius perguntou sentindo seu corpo ainda tenso ao imaginar aquele maldito em sua casa, tentando convencer a sua esposa a abandoná-lo. Isso era uma afronta imperdoável!
— Porque não aceitaríamos, Lucius? — Narcisa questionou levemente irritada. — Sirius e eu somos primos irmãos, fomos muito bons amigos em nossa infância e, opiniões políticas aparte, manter uma relação social e amigável com o Chefe da Família Black não me parece algo prejudicial.
— Não apenas opiniões políticas, minha querida, ou você esquece que o seu primo foi expulso por seus tios ao deixar claro que lutaria contra a própria família por causa daqueles sangues ruins? — Lucius disse igualmente irritado. — Ou, talvez não se recorda que Black era parte da Ordem de Dumbledore e, ainda hoje, está empenhado em defender suas causas absurdas? Ele é o inimigo, Narcisa, e brincadeiras de infância não mudará essa verdade!
— Acha que sou tola? — Narcisa se levantou com seu olhar mais frio. — Nunca seriamos amigos próximos e estaríamos em lados opostos no Ministério e na Suprema Corte, mas, ainda seriamos familiares e nos beneficiaríamos do seu poder e prestígio social, além de manter os ganhos da minha herança. Mais importante, e você precisa encarar essa verdade, Lucius, Sirius não é mais nosso inimigo, a guerra acabou a mais de 11 anos e seguir com essa postura foi o que nos colocou nesta posição.
— A guerra acabou? — Lucius zombou com escárnio. — Isso é o tipo de tolice que uma mulher diria. Nosso mundo está sendo invadido e tomado por aquelas imundices, Narcisa! E liderados por Black! E, esse maldito tem a coragem de vir a minha casa e tentar destruir a minha Família!
— Me parece um retorno justo depois que você tentou matá-lo! — Narcisa apontou ironicamente. — Sirius deixou bem claro que poderia perdoar-me e Draco, mas, não você, pelo que fez.
— E, você concorda com isso? — Lucius se mostrou despeitado. — O que mais Sirius lhe disse? E, porque vendeu o nosso elfo doméstico a ele?
— Sirius também disse que poderia até repensar a punição por suas ações, por mim e nossa amizade de infância, mas, que o seu amor pelo afilhado não o permitia. — Narcisa disse suavemente. — Ele disse que o garoto já perdeu muito e sofreria imensamente com a sua morte e, por isso, Sirius estava muito zangado com você, mas, não se engane, Lucius. Meu primo sabe exatamente o que está fazendo e sua intenção é atingi-lo, mesmo que lamente me ferir no processo.
— E, você acreditou nele? — Ele perguntou sarcasticamente. — Parece que vocês tiveram um lindo reencontro, relembrando suas amizades perdidas.
— Não chegamos a tanto. — Narcisa disse dando de ombros. — Como disse, estamos em lado opostos e não o perdoo por me expulsar da Família, e Sirius sabe disso. No entanto, ele é parte da minha família, Lucius e para um bruxo, sangue é importante. De qualquer forma, eu consegui convencê-lo da minha tristeza e, apesar de não atender o meu pedido, Sirius não fechou todas as portas. Dobby, por exemplo, meu primo precisava de um elfo doméstico treinado, pois pretende reformar e reabrir a Mansão Black.
— Imagino que viver de favor como fez no último ano não o agrade mais. — Lucius disse curioso. — Ou, talvez, seu primo pretenda realizar jantares e festas sociais.
— Acredito que as duas coisas. — Narcisa explicou. — E, em troca da minha disposição em vender um elfo treinado, para que ele não tivesse que ter o trabalho de colher e treinar um, do Jardim do Elfos, Sirius concordou em me dotar de todos os móveis, quadros e objetos da Mansão Black.
— Tudo? — Lucius levantou a sobrancelha surpreso e Narcisa sorriu arrogantemente. — Você sabe negociar muito bem, pelo que vejo, minha querida.
— Todo Black que se prese, sabe negociar, Lucius. — Narcisa disse com arrogância. — Claro, agora terei que comprar um elfo e treiná-lo, mas, acredito que a recompensa vale o custo.
— Concordo. Aposto que alguns daqueles tesouros nos renderão uma pequena fortuna. — Lucius disse caminhando pensativo. — Então, Black disse que sua intenção era me punir ao expulsar você e Draco da Família? Isso condiz com minha opinião sobre essa tal investigação, acredito que é uma intriga que ele inventou e espalhou naquela entrevista, apenas para me castigar.
— É possível. — Narcisa disse suavemente. — Mas, como você, Sirius pode ter contatos confiáveis no Ministério e saber com certeza. Ainda acredito que nossa melhor decisão é deixar a Inglaterra, reconstruir nossa vida na França, mesmo que seja apenas por alguns anos. — Ela tentou não mostrar sua ansiedade ou o desejo de que nunca retornassem para a Inglaterra e, decidiu dar a sua última cartada. — Temo por você, Luc...
Narcisa se aproximou e o abraçou, deitando a face em seu peito e lhe dando beijos suaves sobre a camisa.
— Cissy... — Ele passou a mão por seus cabelos. — Não me rejeitará mais?
— E você, não me rejeitará mais? — Ela sussurrou o encarando amorosamente. — Eu te expulsei do meu quarto, mas, você, me mantem longe de sua vida, por tempo demais.
— Nunca mais... — Lucius disse suavemente antes de beijá-la profundamente, desta vez, ela não o afastou. — Prometo que não a afastarei mais...
— É assim que devemos estar, Luc, juntos... — Ela disse e sorriu, puxando-o pela mão e parecia mais jovem, alegre e feminina ao lhe lançar um olhar sedutor. — Vem... quero-o agora... em minha cama.
E, Lucius a seguiu, sem perceber que sua inteligente esposa o conduziu exatamente para onde ela o queria.
Mais tarde, enquanto Lucius dormia tranquilamente, Narcisa repensou toda a conversa que tiveram e o sucesso em convencê-lo a se mudarem para a França. Talvez, se estivessem felizes e obtendo sucesso em seus novos negócios, Lucius não se sentiria tentado a voltar para a Inglaterra nunca mais, mesmo com o retorno do Lord das Trevas.
Suspirando, ela se virou e observou seu rosto bonito e sereno. Narcisa não podia esperar por isso, pensou, precisava de algo maior e mais forte que o afastasse completamente dos serviços do seu Mestre. Tinha que ser mais importante e precioso que seu desejo por um mundo puro ou sua lealdade ao Lord das Trevas. Algo que o mudaria, o transformaria, assim como aconteceu quando Draco nasceu e Lucius deixou de ser o marido egoísta e ausente. Ser pai o dotara de um senso de propósito e dedicação que, mesmo o seu maldito Mestre, fora incapaz de ganhar. Lucius ainda participava das missões, ainda comemorava as conquistas e ansiava pela vitória final, no entanto, ele era muito mais cuidadoso, dedicado a família e preocupado em preservá-los acima de tudo e todos.
A perda dos seus bebês, a preciosa e frágil vida de Draco o obrigara a crescer e perceber que causa alguma era mais importante que seu filho e herdeiro. Se pelo menos isso tivesse acontecido antes que Lucius se tornasse um comensal da morte, se ela tivesse lhe dado um filho e conseguido convencê-lo a não tomar a marca e sim, dedicar-se a ser um pai bom e protetor. Talvez, então...
Narcisa se sentou na cama quando a ideia surgiu em sua mente. Seria essa a solução? Era possível que... depois de tantos anos... Não, estava sendo tola. Suspirando, meio trêmula, Narcisa voltou a se deitar e tentar dormir, apesar dos pensamentos errantes.
No entanto, a ideia não lhe abandonou nos dois dias seguintes enquanto ela ajudava o marido na preparação de sua viajem para a França.
— Ficarei uma semana com meu pai, Cissy e retornarei a tempo para a inauguração desse tal Jardim. —Lucius informou pouco antes de partir. — Não que acredite que apreciaremos tal aberração, mas, um evento social tão importante não deve ocorrer sem a nossa presença. Tem certeza que não quer vir comigo?
— Sim. — Narcisa sorriu suavemente. — Eu tenho muito o que organizar por aqui, treinar o novo elfo, pegar o meu vestido para a inauguração e Draco chegará na quinta-feira. Não quero que ele encontre a casa vazia, Lucius e, você não pode adiantar a sua volta, porque tem muito o que fazer em apenas uma semana.
— Isso tudo é verdade, mas, sentirei a sua falta. — Lucius lhe deu um último beijo antes de caminhar para fora da Mansão. — Nos vemos na sexta-feira à noite.
Depois de sua partida, Narcisa se trocou e também deixou a Mansão, usando o flu para o St. Mungus, onde tinha uma consulta marcada.
— Sra. Malfoy, muito tempo sem nos vermos. — O Curandeiro Turver a cumprimentou sorridente. — Quando recebi a sua carta, me lembrei do nascimento do pequeno Draco, ele completará 13 anos em breve, acredito.
— Exato, Curandeiro. Turver. — Narcisa se sentou em frente a sua escrivaninha e tentou manter sua ansiedade longe de sua expressão, mas, sua mão apertando a bolsa, a denunciava para olhos atentos.
— A que devo sua visita? Não me diga que se sente doente? — O velho curandeiro perguntou com um sorriso suave e tranquilo, sua maneira de tratar os pacientes o fazia muito popular, pois ele passava segurança e empatia.
— Apenas... como o senhor disse, já fazem 13 anos que dei à luz ao meu filho e, ocorreu-me que ao longo desse tempo, os estudos da Cura poderiam ter evoluído o suficiente para permitir que os meus problemas fossem superados. — Narcisa disse em seu tom mais indiferente, mesmo que por dentro estivesse gritando e implorando para que isso fosse possível.
— A senhora se refere ao seu útero fraco? — O Curandeiro Turver perguntou suavemente. — Está pensando em engravidar outra vez, Sra. Malfoy?
— Bem, Lucius e eu, sempre quisemos muitos filhos, mas... isso não aconteceu, infelizmente. Depois que Draco nasceu, me senti tão feliz e realizada, que desisti de tentar, principalmente porque, eu não precisava me arriscar a um novo aborto, já que tinha um filho bruxo saudável. — Narcisa sorriu e deu de ombros como se não fosse importante. — Outro dia, meu marido e eu conversávamos sobre o bebê natimorto que tive e como seria incrível se Draco tivesse irmãos. Assim, apenas por curiosidade, pensei em procurá-lo e questioná-lo se alguma descoberta foi feita para superar o meu... útero fraco e, assim, permitir uma gravidez segura.
— Infelizmente, não, Sra. Malfoy. — Curandeiro Turver tinha olhos tristes, pois ao longo dos anos, tivera inúmeras entrevistas parecidas com esta, e vira muitas mulheres bruxas abortarem, parirem natimortos ou abortos. — Os estudos no ramo da Cura estão sempre acontecendo, mas, nada mudou nos últimos 13 anos sobre o seu problema em particular.
Narcisa teve que usar toda a sua habilidade em oclumência para esconder sua decepção.
— Entendo.
— A senhora deveria se considerar uma das privilegiadas, pois conseguiu segurar uma criança por pura determinação e muito repouso, claro. — Curandeiro Turver sorriu gentilmente. — E, Draco nasceu saudável e com magia! Dado o estado do seu útero, Sra. Malfoy, eu diria que isso foi quase um milagre.
Narcisa deixou St. Mungus e caminhou por Londres trouxa pensativamente. O único conhecimento que tinha do mundo trouxa, ela adquirira em escapadas com Sirius quando eram adolescentes. Seu primo adorava levá-la para Londres, em meio aos trouxas e chocá-la com suas atividades, músicas, comida, roupas. Narcisa sempre teve a impressão que Sirius buscava tentá-la a se apaixonar pela aventura do diferente. Talvez, ele pudesse fazer isso mais uma vez, decidiu e, entrando em um beco, aparatou para o Beco Diagonal.
Ao tocar o Portal de Adler, luzes cintilantes se moveram em um fundo azul escuro como o céu. Pareciam estrelas cadentes percorrendo o céu estrelado, em seguida, uma voz falou:
A realização do seu desejo, a levará para um caminho transformador, jovem flor.
Narcisa atravessou o Portal pensando nas palavras e sorriu ao entender que estava certa. Se conseguisse ter um outro filho, Lucius se transformaria outra vez e poderia se tornar o homem que jamais abandonaria a família para servir a um insano em uma guerra.
Na recepção da GER, Narcisa foi atendida por uma jovem sorridente e gentil, solicitou um encontro com Sirius Black e, rapidamente, foi direcionada para o segundo andar e, depois, para o seu escritório, por uma secretária muito educada e eficiente. Sirius se levantou assim que a viu, mostrando uma leve surpresa, mas, nada disse até dispensar a secretária e pedir que avisasse sobre o seu atraso para a próxima reunião.
— Impressionante, Sirius, nunca imaginei que um escritório combinaria com você. — Narcisa disse quando ficaram sozinhos. — Se não fosse as roupas pretas de couro e os cabelos compridos, eu acreditaria estar diante de um impostor.
— Cissy. — Ele a cumprimentou gentilmente, mas franziu o cenho ao sentir suas mãos geladas. — Não esperava qualquer contato até que eu iniciasse a reforma em Grimmauld Place. Algo mudou? Você já tem uma resposta a minha proposta?
— Esta sala é segura? — Narcisa perguntou baixinho.
— Sim. Você está em perigo? — Sirius a conduziu a um sofá e acenou com sua varinha, iniciando o preparo do chá.
— Não, Sirius e me desculpe vir sem avisar ao seu escritório, sei que não gosta de tratar assuntos familiares aqui. — Narcisa disse em tom suave. — Mel para mim, por favor.
— Eu me lembro, o Harry gosta do dele assim também. — Sirius disse a olhando pensativo. — Você está com uma expressão incrivelmente... desarmada, assim, ou está em sérios problemas ou quer algo de mim.
— Acho que a resposta é, as duas coisas. — Narcisa disse lentamente e aceitou sua xícara, provando o chá perfeito antes de continuar. — E, sim, respondendo a sua pergunta, tenho uma resposta a sua proposta.
— Ok? — Sirius respondeu com uma pergunta.
— Eu aceitarei ser a sua espiã, apenas e tão somente, se Lucius voltar a servir o Lord das Trevas. — Narcisa o encarou duramente. — Você me disse que eu tenho um tempo indefinido para convencer o meu marido a desistir dessa lealdade, pois poderia levar anos para que o Lord retorne. Eu aproveitarei cada segundo desse tempo e, na verdade, já coloquei meus planos em prática e consegui convencer o Lucius a nos mudarmos para a França por alguns anos.
— Estou impressionado. — Sirius disse a encarando pensativo. — Isso me parece justo, afinal, a última coisa que quero é que chegue perto daquele insano, muito menos se o único propósito é ser minha espiã. E, prometo que se conseguir manter Lucius e Draco longe dos serviços de Voldemort, eu restituirei você e seu filho de volta a Família.
— Bem, não preciso dizer que quero tudo isso por escrito em um contrato mágico. — Narcisa disse erguendo a sobrancelha esquerda. — Preciso saber que não me arriscarei e ao meu filho por nada, Sirius, quero garantias de que teremos um plano de fuga e uma casa segura no momento em que precisarmos sair.
— Não se preocupe, organizaremos cada detalhe e você pode escolher a casa segura em qualquer lugar do mundo. — Sirius disse sincero. — Como você conseguiu convencer o Lucius tão facilmente a se mudarem para a França?
— Bem, não foi tão fácil e, na verdade, você me ajudou um pouco, primo. — Narcisa explicou e ao ver sua expressão curiosa, continuou. — Devido a insinuação que fez naquela entrevista, de que Lucius está sendo investigado pelos aurores, meu marido vem enfrentando alguns dissabores em seus negócios e algum distanciamento social. Imagino que era essa a sua intenção, não?
Sirius sorriu divertidamente e se recostou no encosto do confortável sofá.
— Minha intenção era tornar a vida de Lucius um inferno ou o mais perto disso, Cissy e, não se engane, o motivo de não ter feito nada mais agressivo contra ele até agora, é por consideração a você. — Sirius respondeu lentamente.
— Isso quer dizer que a investigação não existe? — Narcisa especulou indiferente, o que fez Sirius rir.
— Cissy, Cissy, isso não foi muito sutil e você sabe que não lhe direi nada. — Ele lhe lançou um olhar afiado. — Mas, não acredito que foi por isso que arriscou vir até aqui hoje. Estou certo?
— Sim. — Narcisa pousou a xícara tentando conter a ansiedade. — Ainda que não seria tola em perder a oportunidade de saber com certeza. De qualquer forma, não importa, pois, como lhe disse, estaremos partindo para a França em breve e Lucius pretende dedicar o seu tempo a negócios totalmente legais.
— Hum... Interessante que você acredite nisso ou, talvez, você quer acreditar. — Sirius disse levemente preocupado. — O Lucius Malfoy que conheci nunca deixaria de se envolver em seus negócios escusos ou com a sordidez do mundo, assim, sem mais, apenas porque sua esposa lhe pediu.
— Eu estou usando todas as armas e poder de persuasão que possuo, Sirius, acredito que longe daqui, talvez... — Narcisa parou e o encarou diretamente. — Depois que Draco nasceu, Lucius mudou muito, primo, verdadeiramente.
— Bem, suponho que mesmo os piores podem sentir amor paterno. — Sirius deu de ombros.
— Não foi apenas sua atitude comigo. — Narcisa continuou como se Sirius não tivesse dito nada. — Éramos tão jovens quando nos casamos e tivemos tantos problemas, minhas dificuldades para engravidar, seus pais nos pressionando, a guerra avançando e se tornando mais mortal. Quando Lucius se tornou parte do círculo íntimo do Lord das Trevas, ele se tornou tão cruel e egoísta, maldoso ou indiferente. Eu suportei tudo, como uma boa esposa, exatamente como fui treinada, desde o dia em que nasci.
— Eu me lembro. — Sirius disse suavemente. — Lucius era o mais cruel tenente de Voldemort, apenas ficando atrás de Bella. — Ele não disse que foi nesse período que Carole Boot foi assassinada.
— Então, Draco nasceu e, pouco a pouco, esse sentimento o mudou, sabe. Acredite, não aconteceu do dia para a noite, mas, ele quase não nos deixava, apenas por ordens diretas do seu Mestre e, algumas vezes, quando voltava, parecia cansado e impaciente. — Narcisa tinha um olhar distante.
— Ele queria a vitória, Narcisa, não que tudo acabasse como acabou. — Sirius se mostrou impaciente. — Não acredita que me convencerá de que Lucius estava cansado de matar e torturar inocentes porque, se isso fosse verdade, ele não teria feito o que fez em Hogwarts este ano.
— O que quer dizer? — Narcisa se mostrou confusa.
— Pergunte ao Lucius, Cissy e, então verá a verdade. — Sirius disse duramente.
— Que ele é cruel com os outros? Eu não me importo. — Narcisa se levantou e caminhou impaciente. — Meu marido se tornou um bom e amoroso marido, um pai dedicado e protetor, não ligo a mínima para quem ele matou ou torturou.
— Claro, tinha me esquecido como seu nome combinava tão perfeitamente com a sua personalidade. — Sirius suspirou cansado. — Você sempre se recusou a enxergar a dor e desespero alheio, sempre focada em si mesma. A linda e fria Narcisa, se estiver satisfeita, segura e feliz, o resto do mundo pode queimar.
Narcisa voltou a se sentar indiferente e fria, como sempre se mostrou quando o assunto era alguém que não a si mesma.
— Eu me importo comigo, com meu marido e meu Draco, mais nada ou ninguém. — Ela levantou o queixo com arrogância. — É por isso que farei qualquer coisa para nos proteger, mesmo ser sua espiã e foi por isso que me procurou, Sirius, porque sabia que eu aceitaria sua proposta.
— Você está certa. — Sirius disse com um sorriso sem humor. — Agora, conte-me o que a trouxe aqui, Narcisa, pois, acredito que não foi para me convencer que Lucius ser um pai amoroso, o redime dos seus crimes.
— Se eu tivesse tido um filho antes dos Lucius se tornar tão importante para o Lord das Trevas, talvez, as coisas fossem diferentes, Sirius. — Narcisa tentou explicar seu raciocínio.
— O que? Você acredita que ser pai o impediria de ser um comensal da morte? — Sirius questionou incrédulo.
— Não, mas, talvez, não se tornasse parte do círculo íntimo e... Não importa, apenas, tive uma ideia a poucos dias e, isso não deixa a minha mente, primo. — Narcisa respirou fundo. — Lucius sempre quis mais filhos, mas, tivemos apenas o Draco e me ocorreu que, se eu conseguisse lhe dar mais um filho agora, talvez, quando o Lord das Trevas retornar, Lucius não deseje deixar nossa família, nosso frágil bebê ou a segurança da França, para lutar em outra guerra.
Sirius a encarou estupefato por alguns segundos, enquanto se perguntava se Narcisa também herdara a loucura da Família Black.
— Você enlouqueceu? — Ele sussurrou chocado.
— Sirius... — Ela tentou explicar, mas Sirius se levantou e se afastou horrorizado.
— Você só pode ter perdido a sua mente!
— Eu não vim aqui para ser insultada por você! — Narcisa se levantou também e o enfrentou de queixo erguido.
— Narcisa! Ter mais dez filhos não fará o Lucius deixar de ser um purista assassino! Ou, que seu desejo de limpar o mundo mágico desapareça! — Sirius expôs o absurdo de sua teoria brutalmente. — Quando Voldemort retornar e lhe der a esperança de que isso aconteça, Lucius não hesitará em se juntar a ele! Você está se iludindo!
— Pode ser! — Narcisa gritou e suas mãos tremeram quando tentava buscar algum controle. — Talvez, eu esteja enlouquecendo! Apenas desejo proteger minha família da maneira que for! Usarei todos os recursos que me parecerem possíveis! Além disse, eu conheço meu marido melhor do que você e, realmente... Não, escute, Sirius, eu realmente acredito que Lucius pode não voltar.
— Cissy... — Sirius mostrou sua incredulidade.
— Pense por um instante, seus negócios na Inglaterra se desfizeram e tenho algumas ideias de novos negócios na França, que se forem lucrativos, manterá Lucius ocupado. — Narcisa explicou ansiosamente. — Eu consegui que Lucius prometesse aceitar os meus conselhos em uma espécie de compensação pela dor que me causou, com a expulsão da Família Black. Com uma criança pequena e frágil, além de Draco, que poderia ser obrigado pelo Lord das Trevas a lutar na guerra, Lucius pensará duas, três vezes, antes de voltar. E, eu criarei o lar mais feliz e amoroso do mundo, lutarei dia e noite para que a única pessoa que meu marido seguirá, será eu.
Sirius a observou em silêncio, percebendo sua crença em conseguir tudo o que disse, mas ele sabia que no momento em que fosse convocado por seu Mestre, Lucius retornaria.
— E, você está disposta a se arriscar? — Sirius decidiu se concentrar no mais urgente.
— Arriscar? — Narcisa perguntou confusa, pois tinha certeza que o primo não sabia dos abortos que teve há tantos anos.
— Sim, Cissy! Você está disposta a correr o risco de ter uma criança louca? Como Bella, minha mãe e seu pai? — Sirius caminhou sentindo o estômago se embrulhar com o pensamento. — Você teve uma grande sorte com Draco, além de ser um bruxo, seu filho parece não ter herdado a doença da nossa família.
— Uma mãe não se importa com isso. — Narcisa gesticulou com impaciência. — Quando você for pai, verá que pouco importa se o seu filho é ou não insano.
— Ah! Eu me esqueci que você nunca se importaria se o seu filho fosse um assassino louco feito a Bella! Desde que ele não destrua a sua preciosa família! — Sirius disse com raiva. — E, não venha com essa história de que pais não se importam porque, se fosse assim, os abortos não seriam mortos ou abandonados no Orfanato. — Narcisa não respondeu e o encarou com frieza. — Cissy, o que está fazendo? Trazer uma criança ao mundo, correr o risco de ter outro Black insano, em uma tentativa bem fraca de talvez, quem sabe, sensibilizar o Lucius? Porque não me conta o que realmente está se passando com você?
Narcisa hesitou e voltou a se sentar no sofá e se servir de mais chá, enquanto tentava buscar controle e forças para falar.
— Talvez... — Ela parou e pediu com um gesto que Sirius se sentasse ao seu lado. — Eu acredito que um filho pode ser a resposta, mas, talvez, eu esteja iludida demais com essa possibilidade porque quero muito ter outro filho. — Narcisa olhou para o chá escuro e a fumaça fumegante que flutuava sobre a xícara. — Eu perdi um bebê antes de ter Draco. — Ela disse baixinho, decidindo não contar sobre os 8 abortos.
— Eu não sabia disso. — Sirius sussurrou e segurou sua mão ao ver sua dor.
— Ninguém soube, além da minha mãe e os Malfoys, é claro. — Narcisa disse e agradeceu que chorara a poucos dias, pois seria vergonhoso se descontrolar em frente ao primo. — Houve alguma complicação no parto, disseram que foi culpa do meu útero que sufocou o bebê, mas... não importa. Eu esperava um menino, lindo e loiro, como Draco e segurei um cadáver frio em meus braços.
— Sinto muito, Cissy. — Sirius retirou o chá de sua mão e lhe serviu um copo de whisky. — Aqui, acredito que é a bebida mais adequada.
— Você me conhece bem. — Narcisa disse e bebeu um gole, engolindo a tristeza e amargura junto. — Meus sogros começaram a falar sobre desfazer o meu casamento e encontrar uma esposa adequada para Lucius, então, em um milagre, Draco nasceu, forte e saudável. O curandeiro disse que eu não deveria tentar mais, pois, o que aconteceu na primeira vez, poderia se repetir. E, eu estive com ele a pouco, em uma consulta, que apenas confirmou que nada mudou.
— Ok. — Sirius a encarou pensativo. — Se isso é verdade, o que a fez me procurar depois de seu encontro com o curandeiro?
— Eu tinha esperança de que... — Ela hesitou e o encarou com seus idênticos olhos cinzas. — Talvez, no mundo trouxa haja algo, qualquer coisa, que poderia me permitir ter um bebê saudável.
— O que? — Sirius ficou ainda mais chocado. — Mas, você odeia os trouxas!
— Eu não os odeio! — Narcisa disse irritada. — Apenas, os considero inferiores e... sem importância! Para mim, eles não existem e acho que nosso mundo seria melhor sem trouxas, mas, pouco se me dá se eles vão para Hogwarts ou não. Ou se vivem ou morrem, aliás, mas, eu sinto isso pelos bruxos também, então. — Ela deu de ombros indiferente e Sirius riu, pois conhecia muito bem a sua natureza narcísica. Desde criança, o único mundo que existia para sua prima, era o Mundo de Narcisa, os outros nunca foram importantes, pelos menos até Lucius e Draco.
— Você quer tanto ter um filho que procuraria a ajuda de seres inferiores? — Sirius perguntou ironicamente. — Agora acredito que tudo é possível mesmo, talvez, um dia, eu veja Lucius Malfoy sendo amigo de um trouxa.
— Não zombe, Sirius. — Narcisa disse levemente divertida. — Lucius preferiria a morte do que sequer pensar nessa possibilidade. — Isso fez Sirius rir levemente.
— Você está certa de que quer isso? — Ele perguntou gentilmente.
— Sirius, estou me mudando para a França, para viver na mesma casa que aquele vil do meu sogro, isolada em uma fazenda no campo, onde manterei uma vida social medíocre, por segurança. — Narcisa apontou. — Tenho planos de nunca retornar a Inglaterra e, ainda, aceitei espionar o próprio Lord das Trevas se o pior acontecer. Tudo isso para manter minha família segura e, você acredita que ter um filho seria uma decisão tão complicada assim? Ou que poderia não querer isso?
Sirius deu de ombros e bebeu seu próprio whisky sem tentar explicar como não compreendia completamente o seu desejo e tranquilidade em colocar no mundo uma criança feita a Bella ou sua mãe. Ele estremeceu de horror só de pensar em gerar algo assim.
— Ajude-me, primo. — Narcisa implorou, deixando o orgulho de lado sem pensar duas vezes. — Por todos os motivos que lhe dei e porque, acredito que o meu filho não será como Bella.
— E, se for? — Sirius sussurrou meio assombrado. — Você trará trouxas para ele ou ela matar?
— Merlin, Sirius! — Narcisa se levantou enojado com o comentário vil.
— Você sabe que é isso o que o seu pai fez! Quando percebeu que Bella era como ele, seu pai trouxe trouxas para que Bella jogasse os seus malditos jogos insanos! — Sirius disse igualmente enojado. — Você não poderá ignorar isso, se acontecer do seu filho ser assim, Cissy!
— Eu lidarei com isso, caso aconteça, mas, não acredito que vá. — Narcisa disse impaciente. — Você precisa seguir os seus instintos, ter fé e se arriscar as vezes, Sirius. E, juro que nunca pensaria, um dia, ter que lhe dizer isso, primo.
— Eu jamais poderia me arriscar com algo assim. — Sirius disse sombrio.
— Quer dizer que não pretende ter filhos? — Narcisa se mostrou surpresa e, quando ele confirmou, chocada. — Deixará a Família Black morrer por causa do seu medo?
— Não. Eu quero que a Família Black morra porque não quero que nenhum dos meus descendentes se tornem assassinos cruéis como a Bella. — Sirius disse determinado. — Eu serei o último Black, Cissy e é assim que deve ser.
— Não sabia que se sentia assim. — Narcisa suspirou sentindo-se cansada. — Acredita que se Bella tivesse sido criada de outra maneira, com um pai diferente, ela não poderia...
— Narcisa! — Sirius a encarou chocado. — Você sabe o que ela fez!
— Eu... sim... — Narcisa empalideceu quando a lembrança retornou, algo que se esforçara tanto para esquecer que parecia apenas um pesadelo. — Scorpius...
— Ela matou o seu irmão. — Sirius tinha uma expressão assombrada. — Ela era mais velha que todos nós e nos levou para passear no bosque da casa de campo da Família.
— Sirius... — Narcisa se distanciou fisicamente como se pudesse se afastar da lembrança.
— Nós estávamos correndo por todos os lados, brincando e nos escondendo em meio as árvores, então...
— Sirius! — Ela tapou os ouvidos. — Pare! Eu não quero me lembrar.
— Ela o matou. — Sirius disse baixinho. — O preferido do seu pai, seu herdeiro e orgulho.
— Bella o odiava, mas, ela disse que ele caiu por acidente...
— Nós sabemos que não é verdade! — Sirius se afastou até a janela e olhou para o Beco, tentando tirar da mente a imagem da floresta, o penhasco, Bella empurrando o garotinho loiro como Narcisa. — Apenas... nos convencemos disso porque, como duas crianças poderiam acreditar nos próprios olhos ou falar isso em voz alta?
— Você era tão pequeno e, eu nunca poderia acusar minha própria irmã. Bella disse e insistiu, jurou que Scorpius tinha caído. — Narcisa engoliu em seco. — Escolhi acreditar e esquecer o que vimos, a casa de campo foi vendida depois da tragédia e nunca mais precisei retornar aquele lugar. — Ela respirou fundo tentando se acalmar. — Mas, isso nada tem a ver com a minha decisão de ter outro filho e, talvez, você esteja certo e seja um grande risco, no entanto, estou disposta a enfrentar esse desafio. E, lamento que não se sinta como eu, Sirius, pois acredito que você seria um grande pai.
Sirius fechou os olhos incomodado com o elogio e pensou no Harry. A verdade é que se pudesse ser uma figura parental positiva para o seu afilhado, já se consideraria realizado.
— Eu posso ajudá-la, Cissy, mas, você terá que assinar contratos de confidencialidades, pois não colocarei inocentes em risco por sua causa. Caso eles não possam ajudá-la, não quero que os culpe e tente se vingar. — Sirius disse, voltando a encará-la.
— Eu assinarei o que for necessário. Obrigada, Sirius. — Narcisa disse, sinceramente grata.
— Não me agradeça, pelo menos até que uma criança saudável e sã esteja em seus braços. — Sirius suspirou. — Eu preciso de alguns dias para organizar tudo...
— Lucius retorna na sexta-feira à noite da França, se puder organizar uma consulta ainda esta semana, Sirius. — Narcisa não conseguiu esconder a ansiedade.
— Eu farei isso. — Ele disse positivo. — Estou sobrecarregado, mas, prometo que conseguirei algo em breve. Apenas, aguarde a minha carta.
No dia seguinte, terça-feira, Narcisa recebeu sua mensagem, que também continha os contratos de confidencialidade. Ela enviou os contratos assinados de volta e, na manhã seguinte, estava sentada na sala de espera da Clínica Relive. A Curandeira que a atendeu se apresentou como Doutora Yasmin Nassid, uma jovem de origem indiana de 30 anos, muito bonita e gentil.
Sirius lhe recomendou que não fizesse muitas perguntas ou tentasse adivinhar a localização da tal Clínica, mas, Narcisa pode perceber que o lugar era clandestino por uma razão justa. Os Curandeiros, claramente, utilizavam métodos trouxas e mágicos para atender pacientes trouxas e bruxos, o que lhes renderiam muitos anos de prisão em Azkaban.
Doutora Nassid era muito gentil e eficiente, não tentou falar sobre amenidades ou fez perguntas pessoais, além das questões do seu histórico de saúde. Sua concentração se manteve o tempo todo, não demostrando nenhuma hesitação ou surpresa em seu rosto bonito, enquanto realizava seus exames e explicava calmamente cada um deles. Narcisa é quem teve dificuldades em se manter tranquila e indiferente aos exames estranhos e invasivos. A tal ponta de metal que penetrou sua pele e se chamava agulha, colheu seu sangue em um pequeno vidro, chamado ampola. Deixar seu sangue ser levado era contra tudo o que aprendeu como bruxa, mas Dra. Nassid explicou que precisavam examiná-lo em busca de doenças.
Mas, o mais estranho e assustador, foi quando ela usou um aparelho chamado de Transdutor de Ultrassom Transvaginal para visualizar o seu útero. Depois do desconforto e constrangimento, Narcisa observou chocada quando o seu útero apareceu em uma tela colorida, como uma espécie de penseira quadrada. Dra. Nassid fez dezenas de anotações e mais algumas perguntas sobre suas gravidezes e abortos.
— Sra. Malfoy, acredito que terei um diagnóstico e tratamento disponível amanhã, depois que me reunir com a junta médica da clínica. — Ela disse suavemente ao fim de todos os exames.
— Amanhã? — Narcisa ficou confusa, pois imaginou que, sem magia, levaria mais tempo.
— Sim, infelizmente, como utilizamos métodos trouxas, auxiliados por magia, não conseguimos resultados instantâneos, mas, ainda é mais rápido do que em uma clínica trouxa normal. — Dra. Nassid respondeu com um sorriso suave. — O que me diz de nos reunirmos às 10 horas da manhã de amanhã?
— Perfeito. — Narcisa disse e se despediu.
As horas seguintes pareceram se arrastar e Narcisa chegou a Clínica Relive com 20 minutos de antecedência, tamanha a sua ansiedade. Dra. Nassid a recebeu pontualmente em sua sala, que era acolhedora e decorada com objetos indianos e coloridos.
— Bem, vamos começar explicando seus resultados sanguíneos, Sra. Malfoy. — Dra. Nassid disse suavemente. — Os resultados foram positivos, felizmente não encontramos nenhuma doença autoimune, trombolíticas, crônicas ou problemas hormonais e tireóideos, que são comumentes associados aos abortos de repetição ou mesmo infertilidade. A sua única alteração, é seu baixo nível de ferro, um mineral muito importante para sua saúde e de um possível futuro feto. Na verdade, se a senhora decidir engravidar, recomendo um tratamento vitamínico para o fortalecimento nutricional do seu corpo em preparação para uma gestação.
— Mas... você acredita que posso engravidar? E, quanto ao meu útero fraco? — Narcisa de mostrou confusa e levemente esperançosa.
— Esse termo não existe, Sra. Malfoy, se há algo de errado em algum órgão do corpo, seja o útero, o coração ou o cérebro, chamá-lo de fraco não é diagnosticar o problema. — Dra. Nassid mostrou pela primeira vez uma certa irritação. — É preciso um diagnóstico da doença para se realizar o tratamento correto ou o problema nunca deixa de existir.
— Sinto muito, mas, não sei se a compreendo. — Narcisa disse perdida.
— Não, Sra. Malfoy, sou eu quem tenho que lhe dizer que sinto muito por tudo o que passou. — Dra. Nassid sorriu gentilmente. — A senhora não tem um útero fraco e, como eu disse, tal problema não existe. O que acontece é que a senhora tem uma malformação uterina congênita chamada de Septo Uterino. Infelizmente, é hereditário e pode estar relacionada as alterações genéticas que a endogamia causa em populações que a praticam, como os bruxos puros sangues.
— Eu... já tinham me dito que meus abortos poderiam ter como causa essa questão, mas, os Curandeiros que me trataram se mostraram céticos. — Narcisa disse, sabendo que provavelmente não era coincidência que tantas bruxas puras tivessem os mesmos problemas que ela teve em suas gestações. — Então, não posso engravidar?
— Claro que pode, Sra. Malfoy. — Dra. Nassid sorriu. — O Septo Uterino é um tipo de alteração do útero que dificulta o desenvolvimento do embrião e aumenta o risco de abortos espontâneos. O que acontece, Sra. Malfoy, é que o seu útero tem uma parede fibrosa que divide a cavidade uterina ao meio e, essa parede, limita o espaço para o crescimento do bebê. Infelizmente, essa doença não tem sintomas e é diagnosticada apenas quando a mulher tem dificuldades para engravidar ou sofre de abortos recorrentes, como aconteceu com a senhora. — Narcisa se mostrou interessada e apertou as mãos trêmulas ao ouvir suas palavras. — No mundo trouxa, a cada dia mais, esses problemas são descobertos mais cedo, pois, existe uma nova campanha que orienta para a prevenção, ou seja, jovens mulheres e adolescentes sexualmente ativas, são aconselhadas a fazerem exames preventivos anuais para detectar doenças em seus estágios iniciais. A ultrassonografia permite um diagnóstico precoce e preciso de diversas doenças, incluindo o Septo Uterino.
— Interessante. — Narcisa disse sincera. — No entanto, não entendo como essa malformação em meu útero fez com que eu perdesse meus bebês.
— Bem, o que acontece é que essa parede fibrosa que mencionei, Sra. Malfoy, não tem veias ou vasos sanguíneos. Quando o embrião se forma em suas trompas, aqui. — Dra. Nassid mostrou uma ilustração colorida em um livro médico. — Este é o útero de uma mulher, aqui estão suas trompas de falópios e seus ovários. A função dos ovários é produzir os óvulos que receberão o espermatozoide do homem e, ao ocorrer a fecundação, se tornam um embrião. Isso acontece nas trompas de falópios. Tudo certo até aqui? — Narcisa não sabia nada sobre ciência ou medicina, mas, tinha um conhecimento básico de Cura e alguma noção de reprodução humana, assim, acenou afirmativamente. — O embrião então, se desloca da trompa para o útero, onde se desenvolverá normalmente, mas, no seu caso, Sra. Malfoy, o seu útero tem uma parede que o divide ao meio. Se o embrião se alojar nesta parede, ele fica preso e não consegue se desenvolver, ocorrendo assim, a sua morte e levando ao aborto.
— Mas, eu não abortei em duas ocasiões. — Narcisa disse de olhos arregalados. — Eu tive dois bebês, mas, um nasceu morto.
— Sim, nestas duas vezes, o embrião não se alojou nesta parede e conseguiu crescer, mas, em um espaço muito reduzido, afinal, ele só tinha metade do seu útero disponível. A senhora me contou que os dois partos foram prematuros, certo? — Dra. Nassid perguntou gentilmente.
— Sim. O primeiro, eu senti dores com 30 semanas, aproximadamente, mas, na segunda vez, meu Curandeiro recomendou que eu fizesse repouso absoluto e Draco nasceu de 34 semanas.
— Infelizmente, bebês prematuros abaixo de 32 semanas quase nunca sobrevivem no mundo mágico, mas no mundo trouxa, conseguimos salvar bebês de até 24 semanas. — Dra. Nassid disse e ignorou a expressão espantada de Narcisa. — O que aconteceu nas suas duas gestações, Sra. Malfoy, é que o espaço para os bebês, que cresciam mais a cada dia, era mínimo e levou ao parto prematuro. A senhora me disse que o seu primeiro filho nasceu morto, certo? Ele não morreu depois de nascer? — Narcisa acenou afirmativamente e apertou as mãos ao se lembrar do bebê morto. — Acredito, ainda que não possa afirmar com certeza, que o seu bebê ficou sem espaço e a maneira em que estava posicionado, impediu que o sangue chegasse até ele.
— Não compreendo. — Narcisa franziu o cenho chocada.
— O cordão umbilical que leva o sangue e nutrientes do seu corpo para o corpo do bebê, deve ter sido pressionado tão fortemente que, o que ele precisava para viver e crescer, não o alcançou. — Dra. Nassid disse gentilmente. — O mesmo não aconteceu com o Draco, porque, o cordão umbilical estava livre, sinceramente, acredito que o repouso, pouco contribuiu para que o seu filho nascesse saudável.
— Então, tudo foi apenas um acaso... — Narcisa disse assombrada. — Um bebê encostou na parede e morreu, outro também e mais um, então, um dia, um deles viveu, mas, quando cresceu, a posição tornou impossível para o meu corpo alimentá-lo e ele morreu também. Mas, na vez seguinte, por um acaso, tudo ocorreu diferente e Draco viveu.
— Exatamente. E, isso não é sua culpa, Sra. Malfoy, nada disso. — Dra. Nassid disse suavemente. — Essa é uma doença simples de tratar, se os Curandeiros tivessem o conhecimento, a senhora teria meia dúzia de filhos. Mais uma vez, lamento muito que tenha passado por tudo isso.
Narcisa engoliu o choque e as lágrimas, pois, era uma Black, afinal e acenou agradecendo suas palavras.
— O que devo fazer agora? Qual o tratamento?
— O tratamento é cirúrgico. É chamado de metroplastia histeroscópica, o nome é estranho, mas, basicamente, realizaremos um pequeno corte em seu abdome, dissecamos o Septo Uterino até que ele desapareça completamente e com o auxílio da magia, não deixaremos nem mesmo uma cicatriz. Depois, a senhora terá que tomar os medicamentos indicados para prevenir a inflamação do útero, além de manter algumas semanas de resguardo, sem pegar peso, fazer exercícios físicos ou atividades sexuais.
— Quanto tempo eu teria que ficar internada? E, quando poderei engravidar? — Narcisa perguntou ansiosa, enquanto sua mente tentava encontrar uma maneira de fazer tudo isso sem que Lucius desconfiasse.
— Ora, não precisará de internação, Sra. Malfoy. — Dra. Nassid sorriu. — Esse é um procedimento muito simples, em duas ou três horas, poderá estar em sua casa, pois aplicaremos apenas anestesia local. Quanto a engravidar, minha sugestão é que fique de resguardo por um mês, mas, só engravide três meses depois da cirurgia. Isso dará tempo para o seu corpo ser preparado com os nutrientes necessários e para o seu útero estar completamente curado. — Dra. Nassid hesitou. — Eu não disse antes, mas, teremos que remover algum tecido cicatricial do seu útero e trompas, causados pelas repetidas curetagens realizadas após os abortos. Felizmente, elas foram feitas com uma mão muito delicada e não existem nenhum dano grave no colo do útero, mas, ainda, existem tecidos endométrios que precisam ser retirados.
— Isso poderia me impedir de engravidar? — Narcisa disse preocupada.
— Infelizmente, esse tipo de tecido cicatricial pode levar ao aborto, pois pode impedir que o embrião se desloque da trompa para o útero. O embrião não teria espaço para se desenvolver na trompa e morreria. — Explicou a Dra. Nassid.
— A senhora acredita que isso poderia ter contribuído para os meus abortos? — Narcisa perguntou baixinho.
— É possível. — A medica suspirou. — Com 8 abortos, eu esperaria ainda mais cicatrizes, Sra. Malfoy. Acredite, já vi pacientes que depois de duas curetagens, tinham mais cicatrizes do que a senhora, assim, digo que teve um Curandeiro muito gentil na realização desse procedimento. Quanto aos seus abortos, talvez, um dos últimos, pode ter ocorrido porque o embrião não alcançou o útero, mas, não tem como sabermos com certeza, Sra. Malfoy.
Narcisa acenou em entendimento e sabendo que provavelmente não faria diferença, pois, se alcançasse o seu útero, o embrião ainda tinha mais uma armadilha.
— Eu quero fazer o procedimento, todo o tratamento e ter outro filho, Dra. Nassid, apenas, preciso organizar minha vida e conseguir liberar tempo para tudo, incluindo o resguardo. — Narcisa disse, sua mente trabalhava rapidamente planejando como se manter afastada sexualmente de Lucius por um mês.
— Isso me parece perfeito. Assim que a senhora tiver uma data liberada, me envie uma coruja e marcamos o procedimento. — Dra. Nassid se levantou sorrindo. — Estou otimista, Sra. Malfoy e espero que consiga realizar o seu parto em quem sabe, 13 ou 15 meses?
Com o coração disparado com o pensamento, Narcisa sorriu pela primeira vez para a jovem médica/curandeira.
— Nada me faria mais feliz, Dra. Nassid.
— Pode me chamar de Dra. Yasmin, é assim que meus pacientes me chamam. — Disse ela simpaticamente.
— Obrigada. Acredito que preciso pagar pelos exames e a consulta, certo? — Narcisa hesitou, sem saber se deveria enviar um pagamento de Gringotes depois.
— Não se preocupe, o Sr. Black já cuidou de tudo isso. E, ele disse que os gastos com o tratamento, acompanhamento da gestação e nascimento do bebê, é tudo por conta da Família Black. — Yasmin sorriu divertida. — Sr. Black disse para lhe informar que é um presente de padrinho.
— Oh... — Narcisa ficou sem palavras pela emoção que a tomou. Há muito tempo ela não recebia um presente de um Black e, nunca, um tão bonito. — Obrigada, Dra. Yasmin.
Ao deixar a Clínica Relive, com todos os trouxas e nascidos trouxas presentes, Narcisa Malfoy seguiu para a Estação King Cross, onde Draco chegaria dali a pouco. Seu passo era mais leve, sua expressão menos vazia e seu coração, mais esperançoso. Ela não sabia, mas, a verdadeira transformação, estava apenas começando.
Em Hogwarts, as duas semanas que antecederam as férias de Páscoa foram muito movimentadas. A começar pelas aulas, pois os professores pareceram perceber que os exames se aproximavam e decidiram ser mais exigentes nas lições, além de lhes encherem de deveres de casa. Neville teorizou que o mistério da Câmara Secreta e os petrificados tinham tornado os professores mais solidários academicamente, pois sabiam como os alunos estavam tensos e assustados. Agora que tudo se resolveu e os pacientes voltaram as suas vidas normais, eles decidiram compensar com deveres extras.
Além dessa carga de deveres dos professores, Neville e Terry passaram muito tempo ajudando Hermione a acompanhar o material atrasado e Harry se juntou a Ginny para ajudar Luna e Colin. Assim, todos passaram muito tempo na biblioteca ou salas comunais, com seus livros abertos e tentando dar conta de tudo antes do feriado prolongado. Harry cancelou um treino com Flitwick e uma aula de galês para poder dar conta e não ter que cancelar suas aulas extras de Defesa avançada. Isso o deixou mal-humorado, pois acreditava que todos aqueles longos pergaminhos de deveres de casa eram bem inúteis.
Hermione, ao contrário, estava muito feliz com tantos estudos, novos conteúdos e ainda pegou livros extras na biblioteca para leituras complementares. Seu humor melhorou muito depois que compreendeu porque Ginny se tornou tão próxima dos meninos e o motivo de Harry decidir treiná-la com antecedência. Verdadeiramente, Hermione não podia imaginar o quanto a menina ruiva tinha sofrido durante aqueles meses terríveis, lutando contra Voldemort, sozinha, com seus amigos sendo tirados dela e seus irmãos a ignorando. Como alguém que foi solitária e sofreu bullying na escola trouxa, Hermione sabia que Ginny passara por meses difíceis, por isso, não podia deixar de admirá-la por sua força e coragem ao tentar superar o que aconteceu.
Nos dias que se seguiram a sua percepção, Hermione decidiu não comentar que sabia a verdade, apenas observou como Ginny treinava duro na Caverna e com o Harry, ao mesmo tempo em que se esforçava para ajudar Luna e Colin a recuperar o conteúdo atrasado. Os meninos se mostravam protetores, mas, era possível perceber que os três a respeitavam como uma igual e, sabendo o quanto Ginny lutou contra o diário, Hermione podia compreender esse respeito. Harry era o mais próximo, orbitando a sua volta ou em sua direção em diversos momentos do dia, fosse para um comentário, pergunta ou sussurro divertido, que levava a menina ruiva a gargalhar ou corar com um sorriso alegre. O mesmo acontecia com Ginny, que poderia aparecer a qualquer momento e, Hermione logo percebeu que sua impressão inicial não era verdadeira. Ginny não vinha até os meninos ou os meninos iam até ela, na realidade, Harry ia até Ginny e, a menina ruiva vinha até o Harry. Neville, Terry e, agora, ela, apenas acompanhavam porque estavam juntos do Harry. Levemente divertida, Hermione se perguntou se Harry percebia que tinha uma queda por Ginny e que ela lhe devolvia o sentimento.
No entanto, assim como não contaria que sabia que Ginny era a garota controlada por Voldemort, Hermione guardou para si as suas observações. Com uma rara dose de tato, mas, com sua conhecida sensibilidade, Hermione compreendeu que certas coisas não devem ser ditas, assim, sem mais. Na verdade, algumas coisas deveriam ser percebidas no tempo certo, com naturalidade e sem constrangimento. Essa conclusão a fez perceber que os meninos estavam certos em não lhe revelar a verdade, pois o melhor era que Ginny confiasse nela e contasse por si mesma quando se tornassem amigas. Assim, Hermione parou de se sentir frustrada e enciumada com os meninos, ao mesmo tempo em que se esforçou para passar mais tempo com a Ginny e conquistar a sua confiança.
Isso não foi difícil, Hermione era naturalmente generosa e gentil, Ginny logo se sentiu mais e mais segura em sua presença, além de feliz com essa nova amizade que brotava. Naquele primeiro fim de semana, depois da reconstituição do ataque a Caverna, Hermione convidou Ginny e Luna para a noite das meninas no quarto da Morag. As duas meninas ficaram encantadas e se mostraram uma divertida companhia, fazendo Mandy rir até fazer xixi em suas calcinhas graças aos seus comentários engraçados. Ginny adorou ser incluída e que nenhuma das meninas maltrataram a Luna, além de estar aliviada que Hermione parecia aceitá-la como parte do grupo.
Harry percebeu um olhar astuto de Hermione e desconfiou que ela tinha adivinhado a verdade, mas, assim como com Penny e Daphne, ele decidiu não falar ou admitir nada. O mais importante, em sua opinião, era que o tema não fosse discutido, comentado ou questionado, pois assim, não haveria a possibilidade de as pessoas erradas descobrirem. A única dificuldade em tudo isso, era a morte de Lockhart. Era impossível prever se o seu desaparecimento não acabaria sendo investigado por membros da sua família e Harry ainda não tinha certeza sobre como lidar com o que tinha visto e fora obrigado a esconder.
Apesar de tudo estar bem, Harry voltou a ter pesadelos, onde o cadáver esquartejado do professor aparecia. Em sua cabeça, separada do resto do corpo, havia uma fita calando sua boca e uma venda cegando os seus olhos. Harry não precisava falar com um psiquiatra para saber que ele estaria para sempre assombrado ao impedir que a verdade sobre Lockhart fosse vista e ouvida. E, ele realmente não podia falar sobre isso com ninguém, mesmo com Martin, pois isso faria o segredo deixar de ser secreto e os riscos, para Ginny e ele, eram grandes demais.
Ele tinha decidido contar a verdade para Ginny, pois sentia que ela precisava saber e lidar com isso. E, Harry não queria mentir para ela, mas, passados quase 2 meses de sua morte, ele ainda esperava, pois queria ter certeza que Ginny estava forte o suficiente para aguentar essa verdade terrível. Então, nos dias em que ela parecia forte, alegre e animada, Harry se perguntava se teria coragem de acabar com isso ou deveria manter o peso da morte de Lockhart para si mesmo.
Em Hogwarts, mais mudanças estavam ocorrendo. Ginny, Terry e Harry apresentaram ideias para os alunos, integrantes da AP e Flitwick. Eles, então, as apresentaram em uma reunião entre a AP e o Conselho de Governadores. A grande reunião aconteceu uma semana antes das férias de primavera e um relatório, resumindo as novas mudanças, foi entregue aos alunos e enviadas aos pais, membros da AP. Rapidamente, além do Jardim da Lily, o assunto e fofocas entre os alunos se tornou as mudanças que aconteceriam nas próximas semanas e meses.
Primeiro, durante as férias de Páscoa, além dos quebradores de maldições visitarem Hogwarts para tentar descobrir se havia uma maldição no cargo de professor de Defesa Contra a Arte das Trevas, os construtores da M&T Arquitetura e Construção fariam uma grande reforma em Hogwarts. Saídas de emergência e alarmes estariam sendo instalados na Caverna, Biblioteca e nas Salas Comunais de todas as Casas. Depois do ataque da basilisco a Caverna, ficou claro que as crianças precisavam de rotas de fugas ou maneiras de pedirem ajuda com rapidez e precisão.
Harry explicou a Flitwick suas ideias para a câmara secreta e, com a aprovação da AP e do Conselho de Governadores, o antigo espaço seria transformado em uma grande Sala Comunal Inter Casas. Uma visita foi agendada, durante as férias, em que o Harry se encontraria com os construtores, Ian e Mac, para mostrar a entrada da Câmara. Eles também aproveitariam os quebradores de maldição para mudar as magias de Salazar Slytherin e criar um acesso possível para todos. Por intermédio do Sr. Falc, Harry doou a construção de um rinque de patinação para os alunos e com dinheiro da escola, eles construiriam uma arena de Duelos de nível internacional.
Além disso, Madame Pomfrey estaria recebendo a ajuda que mais um Curandeiro e uma Medibruxa, permanentemente. E, a partir de maio, iniciaria exames de saúde em todos os alunos, além de trabalharem diretamente com os professores Prices em esquemas de exercícios, que auxiliariam as crianças com excesso ou falta de peso. Madame Pomfrey seria a chefe da pequena equipe e também professora dos alunos que, a partir do sexto ano, mostrassem interesse em participar das aulas de Cura, A Introdução. E, aos alunos do primeiro ao quarto ano, o novo Curandeiro daria aulas de Saúde, com a medibruxa como sua assistente.
De fato, assistentes, eram outra novidade em Hogwarts, pois todos os professores teriam assistentes a partir de setembro. A intenção era que, com o auxílio extra, os professores pudessem se dedicar mais as aulas, deixando as correções dos deveres de casa e organizações das aulas por conta do assistente. E, os assistentes também poderiam estar disponíveis para os alunos tirarem dúvidas das aulas, enquanto o professor pesquisava ou preparava os conteúdos. Esse movimento também era importante para a continuidade do trabalho de professor que precisava ser ensinado para a próxima geração. Os assistentes seriam escolhidos entre os alunos que fossem aceitos nas aulas de Mestres do Ministério. De acordo com as melhores notas, cada aluno estagiaria 6 meses em Hogwarts, sob a orientação do Professor do seu Mestre escolhido.
Esse projeto e a reformulação da grade curricular foram propostos por Serafina, assim, durante o verão, todos os professores, o diretor, o Chefe do Departamento de Educação, Sr. Ollerton, membros da AP e do Conselho de Governadores, se reuniriam para discutirem e reformularem a grade disciplinar e o currículo de Hogwarts. Esse era um feito que não acontecia há 93 anos.
Além dos novos assistentes, o Diretor e Vice-Diretora, teriam uma secretária para auxiliá-los em todos os documentos e detalhes burocráticos referentes a administração de Hogwarts. E, acrescentou o Harry, para que McGonagall não envie os alunos por toda a escola como seus assistentes de recados. Ninguém precisou perguntar, de quem foi a ideia de uma secretária para McGonagall.
Havia também a informação sobre a contratação do novo professor de Defesa Contra a Arte das Trevas, que causou muita curiosidade e especulações entre os alunos. A verdade é que todos estavam ansiosos por terem um bom professor de Defesa, para variar. E, a notícia de que o Prof. Slughorn não continuaria a ser o professor de Poções ao fim deste ano, desagradou a muitos, que não queriam perder um bom professor ou temiam que Snape poderia voltar.
Entre todas essas novidades, assuntos, fofocas e muitos deveres de casa, havia a ansiedade pela inauguração do Jardim da Lily. Harry, particularmente, estava contando os minutos e se cansou de receber agradecimentos de seus colegas, principalmente os nascidos trouxas, que poderiam levar suas famílias trouxas no Expresso de Hogwarts. Incrivelmente, apesar de haver tanto o que se fazer ou conversar, algo surgiu que deixou tudo isso em segundo plano. Alguns alunos receberam outro convite inesperado, desta vez não era para todos, apenas alguns escolhidos especialmente. Porque eles eram especiais, ninguém sabia, mas, Harry desconfiava saber o que os diferenciava.
— E, não se esqueça que você pode levar uma convidada, Harry. — Prof. Slughorn lhe deu uma piscadela divertida depois de lhe entregar o convite para a sua Festa de Primavera.
Harry deixou a sala e encontrou Terry o esperando, depois foram encontrar Neville e Hermione. Sua amiga também tinha recebido o convite, assim como Colin e Luna, mas, Terry e Neville não. Quando se sentaram à mesa para almoçar, descobriram que Michael também tinha sido convidado, além de Roger Davies. Ao olhar em volta, Harry percebeu que alguns poucos alunos de cada mesa tinham o convite em mãos e comentavam com seus amigos.
— Acho que a escolha não é por status de sangue. — Harry disse pensativo. — São por famílias importantes, famosas ou poderosas dentro ou fora do Ministério ou Suprema Corte.
— Faz sentido, pelo que estou vendo, os filhos ou netos dos membros da Corte foram convidados. — Terry disse olhando em volta.
— Mas, então, porque convidar Colin e eu? — Hermione disse confusa.
— Porque vocês, mais a Luna, foram petrificados. — Harry deduziu. — Ele disse que haverá convidados de fora de Hogwarts, famosos e importantes, assim, imagino que Slughorn gostará de exibir as crianças que se depararam com uma basilisco de mil anos e sobreviveram.
— Oh! — Hermione fez uma careta, desconcertada. — Acho que prefiro não ir, então.
— Todos devemos ir. — Tracy apareceu sorridente, mesmo que seus olhos estivessem sérios. — Olá, Terry! — Exclamou e acrescentou em tom mais suave. — Daphne pediu para lhes dizer que todos devem comparecer, pois a festa será importante para os nossos planos.
— Ah! Oi, Tracy. — Terry disse sorrindo de volta.
— Estou ansiosa pelo jantar de Páscoa, mamãe disse que comprou um vestido novo para mim. — Disse ela lhe lançando aquele olhar guloso estranho e batendo os cílios. — Daph disse que haverá muitas pessoas importantes de fora de Hogwarts, talvez, alguns membros da Corte.
— Que legal! — Terry disfarçou meio sem graça.
— Até mais! — Ela disse sorridente e deu um aceno para todos, antes de se afastar lançando uma última piscadela para Terry.
— Daphne está certa. — Harry disse, ignorando a expressão surpresa da Hermione que olhou de Terry para Tracy algumas vezes, como se entendesse alguma coisa. — Todos devemos ir e o melhor é convidarmos pessoas do Covil para ir conosco, assim, talvez, quase todos nós estaremos lá para socializar.
— Ok. — Hermione acenou e, pigarreado, acrescentou. — Bem, eu convido o Terry, então, e Harry, você pode convidar a Ginny. Precisamos apenas descobrir como o Neville poderia ir...
— Ah, não, eu não... — Neville ficou corado. — Não precisam de mim...
— Bobagem, Nev. — Harry olhou para a mesa da Gryffindor e viu Ginny com as meninas. — Talvez, a Luna o convide, se não tiver decidido por outra pessoa. Você é um Longbottom, deveria ter recebido um convite do próprio Slughorn.
— Bem, minha avó não está envolvida com política, apesar de ser bem respeitada na sociedade bruxa. — Neville disse timidamente. — E, não tenho outros parentes importantes ou famosos, também não sou bom em Poções, assim...
— Assim, Slughorn é um idiota e ficarei feliz quando não precisar mais vê-lo. — Harry disse mal-humorado.
— Ele é um bom professor, Harry, estamos aprendendo tanto. — Hermione protestou na mesma hora.
— Ele é bom comparado ao Snape, Hermione, talvez, tenhamos sorte e o próximo será ainda melhor. — Disse Terry enquanto Harry se levantava. — Aonde você vai?
— Conversar com as meninas. — Harry disse. — Sugiro que se espalhem e, discretamente, espalhem o recado da D.
Harry seguiu até a mesa Gryffindor e conseguiu um lugar ao lado da Ginny.
— Ei. — Ela disse sorrindo. — Estávamos falando sobre a festa do Slug Club.
— O que? — Harry ficou confuso.
— O Clube do Slughorn. — Disse Lavander sorrindo. — Pelo que entendi, na época em que ele dava aulas aqui, Slughorn formou um clube com os melhores alunos, que mostravam talentos e grande potencial. O professor os ajudava a conseguir bons empregos com cartas de recomendação ou os apresentando as figuras importantes em suas festas. Depois, esses alunos se tornavam importantes e famosos ou poderosos quando adultos e Slughorn mantinha contato e aceitava seus "agradecimentos".
— É assim que se formou o Slug Club, e quem é convidado para as suas festas, pode se tornar parte do clube e ter contatos sociais e profissionais importantes. — Parvati acrescentou. — Sem contar que sempre aparece algum cantor ou jogador de quadribol famoso. — Ela parecia feliz. — Padma e eu conseguimos um convite.
— Eu não consegui. — Lavander disse chateada. — Os Browns não são tão ricos quanto os Patils.
— Bem, espero que consiga ir, mesmo assim. — Harry disse e, se inclinando, explicou o recado de Daphne, tentando evitar que Abla e Demelza ouvissem algo, felizmente, elas estavam distraídas por Colin e Luna. — Tentem, discretamente, passar o recado.
— Ok. Isso é legal. — Lavander disse e sorriu animada. — Então, quem você pretende convidar, Harry? — Seu tom era açucarado e seus olhos azuis imploravam, mas, Harry não percebeu.
— Ginny. — Ele disse olhando para a menina ao seu lado e não vendo a expressão de decepção de Lavander. — Eu convido você e pensei que a Luna poderia convidar o Neville. Tudo bem?
— Eu... oh... bem, quer dizer, sim. — Ginny gaguejou e tentou não, não corar! Infelizmente, era quase impossível, assim, ela se virou para a Luna ao seu lado, tentando disfarçar e se perguntando se o seu coração poderia explodir ao bater tão rápido. — Luna, você se importa de ir com o Nev como seu acompanhante?
— Neville? — Luna olhou para Ginny com um sorriso suave. — Não, não me importo, sabe, Neville cheira bem, para um menino.
Isso fez as meninas rirem, Harry franziu o cenho e Colin tentou se cheirar para ter certeza que não fedia.
— Combinado, então. — Harry sorriu antes de se levantar, pegar uma maçã e ir para a sua próxima aula.
A Festa de Primavera do Slug Club seria na quarta-feira à noite, na véspera da viagem dos alunos para Londres. Entre a equipe do Covil, a importância da festa se espalhou e muitos compareceriam, por convite direto ou indireto. Apesar de não saber quem seriam os convidados de fora de Hogwarts, Harry tinha esperança de conseguir se aproximar de alguns dos alunos cujos pais ou avós, estavam na Suprema Corte. Ele não tinha feito isso abertamente como os seus colegas do Covil, porque sabia que atrairia a atenção, mas, na festa, era esperado que ele conversasse com os outros convidados.
Ao fim das aulas da quarta-feira, as meninas convidadas desapareceram para se arrumar, o que os meninos consideraram bem estranho, afinal, a festa estava marcada para às 8 horas. Não haveria um toque de recolher, já que no dia seguinte, eles não tinham aulas e o trem partiria apenas às 10 horas da manhã.
Harry havia combinado com Ginny de se vestir de maneira casual, assim, ele optou por jeans preto, camisa branca e jaqueta de couro marrom. Eles combinaram de se encontrar nas escadarias de mármores do saguão de entrada e Ginny apareceu usando uma roupa trouxa emprestada de Abla, que tinha mais o seu tipo físico. Harry a viu descer com uma saia jeans com bordados, uma blusa branca e uma jaqueta jeans preta e curta. Seu cabelo estava em um rabo de cavalo e, estranhamente, a fazia parecer mais alta do que a sua figura pequena de costume. Seu rosto estava corado e hesitante, Harry a achou bonita, mas, algo parecia diferente da Ginny de todo dia, apesar de ele não conseguir compreender o que era.
— Você está muito bonita, Guinevere. — Harry disse sorrindo com certa timidez
— Obrigada, Harry. — Ginny corou um pouco mais e seu sorriso aumentou. — Você está muito bem também.
— Obrigado. — Harry olhou em volta, para os outros convidados de Slughorn, que se encontravam com seus convidados. — Lembro-me que nos conhecemos aqui.
— Oh! Não me lembre, Harry, foi tão constrangedor. — Ginny disse com uma leve careta. — Eu estava ansiosa por conhecê-lo e causar uma boa impressão, mas, então, meu irmão abriu a boca e...
— Você causou uma boa impressão. — Harry sorriu ao se lembrar. — Eu que fui grosseiro porque estava mal-humorado com Malfoy e Snape, seu irmão e sua boca grande não ajudaram a me lembrar de ser educado.
— No entanto, você compensou ao se desculpar tão gentilmente depois, Harry. — Ginny sorriu, sentindo as borboletas voando agitadas em seu estômago. — Vamos esperar os outros?
— Não, podemos ir. — Eles lentamente refizeram os passos pela escadaria de mármore até chegarem ao sexto andar, onde ficava o escritório de Slughorn.
— Eu ouvi um boato de que Gwenog Jones pode ser uma das convidas. — Ginny disse com os olhos brilhando de entusiasmo.
— Quem é essa? — Harry perguntou confuso.
— Oh! Harry! Ela a melhor batedora dos últimos dois campeonatos! E, a capitã do time das Holyhead Harpies! — Ginny exclamou sem acreditar que ele não sabia. — Ela se formou a uns 14 anos, conseguiu a vaga titular no time a 4 anos e, nos últimos dois, as Harpies chegaram muito perto de vencerem a Liga de Quadribol.
— E, você é uma fã dela e das Harpies, acredito. — Harry disse divertido.
— O que me revelou? — Ela piscou brincalhona e o Harry riu levemente. — Eu sou fã dos Kestrels de Kenmare, mas, confesso que não acompanho a Liga tanto assim.
— Bem, porque você tem três melhores amigos que não prestam atenção, mas, em maio, o novo campeonato começa e nós o acompanharemos juntos. — Ginny caminhou saltitando animadamente. — Podemos ouvir os jogos pela Rádio Bruxa, enquanto estamos aqui, claro, e acompanhar as notícias e dados estatísticos pela página esportiva do Profeta.
— Vamos? — Harry parou surpreso e sorriu quando ela acenou sorridente. — E, durante o verão?
— Bem, podemos nos encontrar para os jogos dos nossos times, você seria muito bem-vindo em casa e podemos trocar cartas, claro. — Ginny disse como se fosse óbvio. — Bem, se você quiser e não estiver ocupado.
— Eu gostaria disso. — Harry disse pensativo. — Preciso mesmo começar a aprender mais sobre a Liga e, com você, será mais divertido. — Ele voltou a caminhar sem perceber que o que disse fez Ginny corar levemente, enquanto seu estômago dava uma cambalhota. — E, estarei ocupado durante o verão, mas, prometo deixar livres os dias dos jogos dos nossos times. Você sabe quando sai a tabela de jogos, Guinevere?
— Acredito que foi publicada no Profeta a essa altura, falta apenas 1 mês para o início do campeonato, mas acho que se escrevermos para o jornal, eles nos enviarão a tabela. — Ginny caminhou ao seu lado pensativa. — Oh! Isso será tão divertido!
— Quem sabe o meu ou o seu time, ganham o campeonato! — Harry se animou com a ideia.
— Sinto muito, Harry, mas, os Kestrels não têm a menor chance. — Ginny zombou. — Seu time terminou em 5 lugar nos últimos 3 campeonatos, vocês nem conseguiram chegar às semifinais.
— Bem, as coisas podem mudar, Guinevere. — Harry sorriu com malícia.
Ginny não teve a oportunidade de responder porque eles já estavam perto do escritório de Slughorn, e os sons de risada, música, e conversação alta, estavam crescendo mais ao se aproximarem da porta aberta. Eles entraram e Harry desconfiou que o espaço tinha sido ampliado magicamente, pois era muito maior que os escritórios de professor habituais. O teto e paredes tinham sido drapejados com esmeralda, rubis, e toques de ouro, de forma parecida a uma vasta tenda. O quarto era abarrotado e sufocante, uma luz vermelha fixa a um abajur dourado fazia parte do elenco, ornado, oscilando no centro do teto no qual fadas de verdade estavam tremulando, como pontos brilhantes de luz. Também havia um som alto, acompanhado pelo que parecia bandolins soando em um canto distante, além de uma neblina de fumaça, vinda de um tubo pendurado em cima de vários feiticeiros anciãos, que conversavam ao fundo. E, uma grande mesa com comida estava disposta perto das amplas janelas, que estavam fechadas, felizmente, pois, apesar de já ser primavera, fazia muito frio no norte da Escócia.
— Harry, meu garoto! — Slughorn os alcançou, quase assim que Harry e Ginny apareceram pela porta.
— Boa noite, Prof. Slughorn. — Harry disse formalmente. — Obrigado pelo convite. Essa é minha amiga, Ginny Weasley.
— Ora, ora, de nada, meu garoto! Eu que me sinto feliz e animado em tê-lo aqui esta noite! E, a senhorita também, Srta. Weasley! A cada dia você mostra mais e mais potencial para Poções, me deixa orgulhoso em ver a sua evolução. — Slughorn olhou sorridente para Ginny, que trocou um olhar divertido com Harry, pois sua melhora se devia em grande parte ao livro de Lily, que ele lhe emprestou. — Harry! Existem muitas pessoas que eu gostaria de lhe apresentar esta noite!
— Claro, professor, será um prazer. — Harry se esforçou para sorrir e se deixou ser conduzido por Slughorn para o meio da festa. Felizmente, ele conseguiu segurar a mão de Ginny com firmeza e levá-la junto, ou eles se perderiam em meio a tantas pessoas.
Os dois logo se viram sendo apresentados a muitas pessoas diferentes. Um vampiro chamado Sanguini e o escritor Eldred Worple, o autor de Os Irmãos Consanguíneos: Minha Vida Entre os Vampiros foram muito interessantes, apesar da insistência de Worple em escrever sua biografia. Finalmente, Harry conseguiu fazê-lo entender sua opinião contrária.
— Vamos colocar assim, Sr. Worple, minha biografia só será escrita depois da minha morte porque, eu não estarei aqui para impedir, mas, se alguém se atrever a escrevê-la enquanto estou vivo, essa pessoa terá uma morte precoce e dolorosa. — Harry disse com uma seriedade disfarçada de sarcasmo que fez Slughorn gargalhar. Worple também começou a rir até que Sanguini sussurrou em seu ouvido.
— Ele não está mentindo, Eldred.
Isso fez o sorriso de Worple morreu e sua expressão ficar meio sem graça e medrosa.
— O senhor pode perceber quando alguém está mentindo, Sr. Sanguini? — Ginny perguntou curiosa.
— Sim. — Ele disse e sorriu sedutor para ela. — Uma habilidade que alguns vampiros possuem. A minha é bem sutil, conheço uma irlandesa ruiva, como você, que pode perceber qualquer mentira, não importa quão bom oclumente o bruxo seja.
Eles conversaram mais um pouco antes de Slughorn arrastá-los até um grupo de pessoas que lembrou a Harry dos roqueiros trouxas. Eram dois membros do grupo as Irmãs Estranhas, com Sebastian Adler e o Profs. Jonas e Bathsheda. Harry ficou muito animado em conhecer o pintor mágico que criara o Portal Adler e não escondeu como achou a sua obra fantástica.
— Ora, obrigada, Harry. — Sebastian, como preferia ser chamado, era alto, bronzeado, cabelos pretos compridos, usava dois brincos em cada orelha e se vestia com um manto preto de seda brilhante, que tinha um tigre de corpo inteiro pintado. — Eu recebi muitos elogios e trabalhos depois daquela criação, mas, sempre digo o mesmo a todos. Eu apenas, indiretamente, tornei o Portal uma realidade, o verdadeiro mérito é da magia.
— Eu posso entender isso. — Harry sorriu ao pensar que Sebastian lembrava um hippie trouxa dos anos 70, que fumava maconha e vivia em comunhão com a natureza. Ele ouviu seu ex-tio xingando-os mais vezes do que poderia se lembrar. — Mas, ainda, indiretamente, você me ajudou em algo muito importante, Sebastian e, por isso, agradeço.
— Não compreendo. — Ele disse pensativo.
— Bem, o conselho do Portal me ajudou a encontrar alguém importante e impedir que essa pessoa fosse ferida. — Harry sorriu suavemente.
— Interessante. A magia feérica pode ser bem brincalhona ou sábia, assim, acredito que você se beneficiou de sua sabedoria. — Sebastian disse e seus olhos azulados encaram o Harry com atenção. — O mundo poderia se tornar muito sombrio se você não ouvisse o Portal, não é?
— Sim. — Harry disse e lançou um olhar para Ginny, que conversava com a vocalista da banda mágica de rock. — Pelo menos o meu mundo.
Slughorn também os apresentou a Dâmocles Belby o inventor da poção wolfsbane e Harry aproveitou para fazer inúmeras perguntas sobre a poção.
— Ah, Dâmocles, meu melhor aluno desde a mãe dele! Harry herdou o talento da Lily! — Slughorn parecia emocionado. — Eu adorava aquela garota. Com licença, vou pegar uma bebida.
— Horace sempre se emociona ao falar de Lily Potter e quão talentosa ela era. — Sr. Dâmocles disse. — Você deve ter muito orgulho dela, Harry.
— Eu tenho, senhor. — Harry disse com expressão solene. — Eu queria saber, senhor, sobre o que pensa em relação a toda essa polêmica dos lobisomens e as ações do Ministério.
— Ah! — Sr. Dâmocles exclamou curioso. Ele era um homem magro de estatura mediana, tinha cabelos brancos e meio bagunçados, lembrando a Harry de um cientista meio maluco. — Um assunto um pouco sério para dois jovens tão bonitos. Já lhe disseram que vocês são um lindo casal?
Harry e Ginny coraram, sorriram timidamente, mas não se olharam, por puro constrangimento.
— Obrigado, senhor. — Harry disse antes de continuar no ponto. — Apenas, meu padrinho está empenhado em ajudá-los, Sr. Dâmocles e eu também me importo com os lobisomens. Infelizmente, nenhum dos dois possíveis candidatos estão interessados em ajudar a comunidade, efetivamente.
— Verdade? Interessante. — Ele se mostrou pensativo e levemente sombrio. — Porque Albert Finley me convidou para apoiar sua campanha e contribuir com uma soma substancial, em troca de sua promessa de ajudar os lobisomens. Inclusive se comprometeu a conseguir orçamento para que a poção wolfsbane possa ser ministrada a todos os lobisomens do Reino Unido, gratuitamente.
— Hum... — Harry trocou um olhar com Ginny. — Sirius me disse que recebeu o mesmo convite, mas pretende declinar, pois, acredita que Finley está apenas se apoiando no assunto do momento para se eleger.
— O Sr. Finley nunca mostrou interesse em defender ou ajudar os lobisomens antes, Sr. Dâmocles e parece não ter qualquer projeto para mudar as leis e tornar suas vidas dignas. — Ginny disse suavemente. — Doações de comidas e barracas não é ajuda, senhor, é esmola.
— Sim, concordo. — Sr. Dâmocles os encarou surpresos por ver dois garotos tão jovens discutindo assuntos tão importantes com tanta propriedade. — A poção poderia ser o início dessa mudança para uma vida digna, entendam que minha descoberta foi como uma vitória sem comemoração. Eu passei décadas em busca de algo que os ajudasse durante a transformação ou, quem sabe, os curasse da doença. Mas, quando finalmente alcancei a wolfsbane, descobri que ela era tão cara, que tornava impossível que fosse utilizada para o seu honorável propósito. Tinha esperança que Finley... O que seu padrinho está pensado em fazer?
— Muitas coisas, senhor. — Harry disse sincero. — Mas, não apoiará políticos que não se importam e fingem o contrário.
— Bem, talvez, eu precise falar com o Sr. Black. — Sr. Dâmocles disse interessado.
— Acredito que isso seria uma boa ideia, senhor. — Harry sorriu divertido.
— Eu não sabia que tinha interesse em política, Harry. — Slughorn disse com um olhar atento a conversa.
— Ora, professor, eu sou um Potter, temos interesses em muitas coisas. — Harry disse, sem dizer muito.
— Harry! — Uma voz o chamou e Harry se virou, deparando-se com Dempsey Murray, que estava acompanhado de seu pai, Ernest Murray, membro da Suprema Corte e do Partido Conservador. — Queria lhe apresentar o meu pai, Ernest Murray. Papai, este é meu amigo, Harry Potter.
— Boa noite, Sr. Potter, é um grande prazer conhecê-lo.
— Boa noite, senhor. — Harry estendeu a mão formalmente. — Para mim, também é um prazer conhecê-lo, Sr. Murray, Dempsey falou muito bem do senhor.
— E, sobre você também. — Sr. Murray sorriu, depois cumprimentou Ginny, Slughorn e Dâmocles. — Dempsey estava me contando que você e seu padrinho estão muito interessados em ajudar a causa dos lobisomens. Isso é verdade?
— Sim, senhor. — Harry disse lentamente. — Não apenas os lobisomens, mas, qualquer ser mágico ou não mágico, me interessa ajudar e proteger, senhor. Os lobisomens são o assunto do momento, digamos assim, mas, acredito que ajudá-los a ter uma vida digna está há muito atrasado.
— Bem, não posso dizer que toda essa história dos aurores matando lobisomens não tenha me chocado. — Sr. Murray disse e colocou a mão no ombro do filho com afeto. — Me fez perceber que as antigas tradições estão nos impedindo de ver o mais importante, a família, o sangue e a união dos bruxos.
— Seu partido estaria interessado em ajudar os lobisomens, Murray? — Dâmocles perguntou curioso.
— Rá! Só se a ajuda consistir em enfiá-los em um buraco escuro e profundo, Sr. Belby. — Sr. Murray parecia desiludido. — Acredito que as palavras de Waffling na última reunião foi, "vamos jogar alguns restos e ossos para os cães até que as pessoas se esqueçam dessa tolice".
Isso causou expressões de raiva e choque, de Dâmocles e Slughorn.
— Bem, acredito que ele terá uma surpresa então, Sr. Murray, porque, meu padrinho e eu não pretendemos esquecer. — Harry disse com frieza.
— Soube que Black pretende apoiar os Progressistas, na verdade, Finley tem se gabado disso por todos os lados. — Murray especulou e Harry riu divertido.
— Bem, é outro que será surpreendido, então. — Ele disse com malícia. — Meu padrinho ou eu, não apoiaremos ninguém que não estiver verdadeiramente comprometido em ajudar os lobisomens. Pelo que Dempsey me disse, o senhor parece disposto a defender essa causa.
— Sim, depois do que aconteceu com meu irmão... — Sr. Murray se entristeceu. — Eu não poderia continuar a fingir que não me importo ou que não vejo tamanha injustiça, que como você disse, já dura tempo demais.
— Talvez, possamos nos unir ao Sr. Black e encontrar uma maneira de ajudá-los, Sr. Murray. — Sr. Dâmocles disse com seu olhar inteligente. — Eu percebo que fui enganado por Finley, mas, me recuso a me deixar iludir por promessas políticas vazias. Os lobisomens precisam de nossa intervenção e proteção agora, sem mais protelação.
— Bem, meu Partido não me apoiará, poderia até ser expulso caso me dispusesse a votar contra suas determinações. — Disse Sr. Murray sincero.
— Não se o senhor deixar os Conservadores antes, papai. — Dempsey disse ansiosamente. — Harry teve uma ideia de como resolver toda essa história, mas, está tentando convencer o seu padrinho.
— Uma ideia, Sr. Potter? — Sr. Murray perguntou curioso.
— Bem, foi uma boa amiga que sugeriu isso e meu padrinho se sente tentado, mas, precisará do apoio e conselhos de homens experientes e sinceros em sua disposição. — Harry disse lembrando-se que Sirius se mostrou mais aberto a ideia de fundar um novo Partido, do que a de ser o Ministro da Magia.
— Agora estou curioso, Harry, meu garoto. — Slughorn disse sorridente. Harry sentiu que ele parecia uma grande e gorda aranha tentando coletar informações valiosas.
— Bem... eu não sei se esse é o melhor lugar para falarmos sobre algo tão importante e que deve ser mantido em sigilo por mais um tempo. — Harry fingiu insegurança.
— Ora, Harry, você está entre amigos e boas pessoas. — Slughorn lhe assegurou.
— Prometo manter o assunto entre nós, Sr. Potter. — Sr. Dâmocles disse sincero e o Sr. Murray acenou concordando.
— Bem, a ideia é que Sirius e, bem, alguns outros bons bruxos, que tiverem interesse em ajudar, fundem um novo Partido. — Harry disse e viu os três homens arregalarem os olhos. — Isso permitiria que houvesse mais pressão e cobrança contra o Ministro, seja qual deles for eleito no ano que vem e, talvez, nas eleições de 1999, esse novo Partido possa ter um candidato. E, quem sabe, eleger um Ministro que, realmente, realize mudanças justas e positivas para o mundo mágico.
— Um novo Partido... — Sr. Murray o encarou estupefato. — Sirius Black está realmente considerando fazer isso?
— Sim, mas, como eu disse, Sirius não quer saber dessa política mesquinha e enganosa, Sr. Murray. — Harry disse firme. — Ele quer se cercar de pessoas que realmente se interessem em ajudar a população mágica, não em alcançar benefícios próprios, pessoais ou profissionais.
— Claro. — Sr. Dâmocles tinha os olhos arregalados e parecia muito impressionado. — Talvez, seja de algo assim que precisamos para ajudar a comunidade lobisomem, mesmo que possa levar alguns anos para mudar as leis na Corte.
— Bem, se alguém poderoso como um Black decidir fazer algo assim, suponho que talvez não demore tanto. — Sr. Murray disse pensativo. — E, com as pessoas certas ao seu lado, que entendem de política e políticos, seu padrinho poderia realizar grandes coisas, Sr. Potter.
— Apenas Harry, por favor. — Harry disse sorrindo. — Grandes coisas me parece legal, Sr. Murray, mas, grandes coisas boas, me parece ainda melhor.
Isso fez todos rirem e Harry trocou um olhar divertido com Ginny. Eles seguiram para a mesa de comida e avistaram vários amigos do Covil, que se espalhavam por todos os lados e conversavam com pessoas importantes. Harry viu Penny em um profundo debate com o Sr. Ollerton, Trevor estava ao seu lado, como seu acompanhante.
— Penny conseguiu um convite do Slughorn porque é membro da AP. — Disse Harry baixinho.
— Sim, ela tem sorte, pois está tendo uma conversa bem interessante com o Chefe do Departamento de Educação do Ministério. — Hermione disse surgindo com Terry. — Eu fui questionada por várias pessoas se poderia descrever a aparência ou energia do basilisco, alguém até me perguntou se, durante a petrificação, eu senti o meu corpo ou o ambiente. Juro, se alguém mais me perguntar algo sobre isso, perderei a cabeça.
— Bem, isso seria muito doloroso, não é? — Luna disse ao se aproximar com um corado Neville. — Eu prefiro manter minha cabeça onde está e responder as perguntas, na verdade, tem sido muito divertido conversar com todas essas pessoas. Elas estão estranhamente curiosas sobre a petrificação, sabe, como se tivessem interesse em experimentar. Eu não recomendo isso também, não é doloroso, mas, também não é muito divertido. Certo?
— Com certeza. — Ginny disse com um grande sorriso, enquanto os outros riram. — Nós conseguimos um bom contato hoje, e vocês?
— Nada. Depois que Slughorn me apresentou como a garota petrificada por um basilisco. — Hermione disse mal-humorada.
— Não se importe com isso, Hermione, aqui, coma alguma coisa, os sanduíches são pequenos, mas, muito bons. — Terry lhe estendeu um prato com pequenos sanduíches em forma de flores.
— Bem, tirando a fumaça estranha ali, até que a festa está bem legal e o escritório do Slughorn é bem luxuoso. — Neville disse suavemente e se serviu de comida também.
— Eu o ouvi se exibir de muitas dessas coisas que ele ganhou de bruxos importantes e famosos. — Harry disse e sorriu ao reconhecer alguém. — Um minuto, olha quem está ali.
Era Vance com o Sr. Cuffe e os dois estavam muito próximos, como se namorassem. Harry e Ginny se despediu dos colegas e foi cumprimentá-los, o Sr. Cuffe pareceu encantado ao vê-lo.
— Ansioso por sábado, Harry? — Vance perguntou carinhosamente.
— Muito. Obrigado pelo texto incrível, Vance, foi muito emocionante. — Harry disse suavemente.
— Apenas, escrevi a verdade. — Ela disse sincera.
— Barnie, espero que esteja pronto para me ver muito na próxima temporada, porque você me terá em sua capa o tempo todo. — Uma voz rouca disse atrás do Sr. Cuffe, que riu divertido antes de se virar.
— Gwenog! — Sr. Cuffe a abraçou paternalmente antes de apresentá-la a Vance. — Esta é minha repórter sensação e namorada, Emmeline Vance. Querida, esta é Gwenog Jones, além da jogadora sensação da Liga, ela é filha de uma ex-namorada, quase fui seu padrasto e somos próximos até hoje.
— Mamãe foi uma boba em te dispensar, Barnie, ainda que ela esteja muito feliz com o seu novo brinquedo. — Gwenog tinha cabelos castanhos escuros na altura dos ombros, pele amendoada e olhos negros. — Prazer com conhecê-la, Srta. Vance.
— Apenas Vance, por favor. — Vance sorriu educadamente e, ao ver os olhos de Ginny brilhando de emoção, acrescentou. — Estes jovens aqui são, Harry Potter e sua acompanhante, Ginny Weasley.
— Olá, pequenos. — Ela disse sorrindo mais, pois seus fãs mais queridos eram as crianças. — Potter, já ouvi falar de você.
— Oh... sim, posso imaginar. — Harry disse meio brincalhão.
— Não, quero dizer, que ouvi falar sobre o seu jogo. — Gwenog disse divertida. — O buscador mais novo em um século e um bom pelo que dizem. Se fosse uma garota, poderia estar nas Harpies um dia, Merlin sabe que precisamos de uma buscadora melhor. Não digam que eu disse isso. — Disse ela com uma piscadela marota e Harry se apressou em responder.
— Bem, se, eu pretendesse jogar profissionalmente, preferiria fazê-lo pelo meu time, os Kestrels, mas, minha amiga Ginny aqui é uma grande fã das Harpies e, ela é a nova buscadora do time Gryffindor, primeiro ano como eu, assim...
— Ela também é a mais nova buscadora em um século! — Gwenog disse divertida. — Merlin, vocês estão começando cada vez mais cedo nos dias de hoje! Só me tornei batedora da Hufflepuff no meu quarto ano, crianças. Prazer em conhecê-la, garota.
— O prazer é meu, senhora. — Ginny disse meio sem fôlego. — Eu acompanhei suas estatísticas nos últimos dois campeonatos e a senhora deveria ter sido considerada a melhor jogadora, não apenas a melhor batedora.
— Está ouvindo isso, Barnie? — Gwenog olhou para o Sr. Cuffe. — Até as crianças sabem fazer contas, mas aqueles bastardos do Ministério... E, não me chame de senhora, garota, apenas Gwen ou Gwenog está bem. — Ela abriu a bolsa e pegou uma revista colorida. — Aqui, trouxe algumas revistas Harpies com fotos e informações da pré-temporada, tem também um pôster do time e o calendário do próximo campeonato. Como é o seu nome mesmo? — Ela perguntou ao pegar uma pena para autografar.
— Merlin... — Ginny arregalou os olhos abismada. — Quer dizer, Ginny, senhora... quer dizer, Gwen... Merlin, estou gaguejando feito uma idiota.
— Seu nome é Ginny ou Gwen? — Gwenog perguntou confusa.
— Guinevere. — Harry respondeu rapidamente.
— Ah... Ok, quantos nomes, garota, isso deixará seu namorado confuso. — Ela disse enquanto terminava de escrever e entregava a revista a Ginny. — Aqui.
— Obrigada, Gwen. — Disse Ginny corada e sorridente.
— Gwen, mais cedo, Guinevere me falava sobre seus números e fiquei curioso sobre algo. — Harry disse suavemente.
— O que? — Gwen se mostrou interessada.
— Ela disse que você se formou a 14 anos, mas só se tornou a batedora titular a 4 anos, mas, sendo tão boa, como isso não aconteceu antes? — Harry perguntou inteligentemente.
— Bem, você quer a versão curta ou a longa? — Gwen perguntou divertida.
— A verdade, me agradaria mais, acho. — Harry respondeu com uma piscadela, que fez Gwen, Cuffe e Vance rirem.
— Bem, quando terminei a escola a guerra era um pesadelo, garoto. — Gwen deu de ombros. — Eu consegui um teste nas Harpies e nos Arrow, mas, o campeonato daquele ano tinha sido cancelado e não havia previsão de quando voltariam. Consegui passar nos dois times, mas, fiquei sem emprego, sabe, então, Slughorn me ajudou. Ele tinha o contato de um ex-aluno na França e fiz um teste nas Veelas de Lyon, consegui uma vaga de batedora reserva. Um ano depois, consegui me tornar titular e joguei três anos direto sendo a melhor da Liga francesa.
— Então a guerra acabou... — Harry entendeu pensativo.
— Sim, bem, a guerra acabou no meio do campeonato e, eu tinha um contrato de mais um ano para honrar, portanto, voltei para a Inglaterra há 10 anos e aceitei a oferta das Harpies, pois era o meu sonho jogar lá. — Gwen disse e fez uma careta. — Eles não se importaram que eu já tinha jogado pro na França, me deram a reserva, mas não me importei, pois tinha certeza que era boa para conseguir a titularidade.
— Mas, as outras batedoras eram melhores que você? — Harry meio que perguntou e Gwen bufou exasperada.
— Só em seus sonhos, garoto. Shirley era tão boa quanto eu, mas, a Gisele, nem pensar, no entanto, ela estava transando com o dono do time e ficou com a vaga. — Gwen disse mal-humorada.
— Gwen, não deve dizer essas coisas na frente de crianças. — Sr. Cuffe a repreendeu.
— Ela tem que saber, Barnie. — Gwen disse rabugenta. — Garota, se você quer entrar neste mundo, deve saber que tem gente de todo o tipo, inclusive gente bem podre. O importante, é você não se deixar apodrecer também, sacou? Gisele arrastou o time para baixo e agradou o dono ao mesmo tempo, mas, eu não me importei, porque sabia que chegaria a minha vez e esperei com paciência. Não precisei me vender e, há 4 anos, Gisele engravidou de um fã e foi expulsa do time pelo mesmo cara com quem transou durante todo aquele tempo. E, eu me tornei a melhor batedora... inferno, a melhor jogadora da Liga, com a minha consciência tranquila. Isso é importante, garota, dormir toda a noite com a consciência tranquila. Sacou?
— Sim, senh... Gwen. — Ginny disse ansiosa.
— Está vendo, Barnie? As crianças de hoje em dia aprendem cada vez mais rápido também. — Gwen disse divertida.
Depois desse encontro, Ginny parecia estar flutuando de emoção e Harry a acompanhou escadaria acima ouvindo divertido quando ela contava sobre a sua jogadora preferida.
— Eu também gostei dela. — Harry disse sincero. — Apenas acho que a Liga de Quadribol é um grande problema, sabe.
— Como assim? — Ginny saltitou ao seu lado curiosa, Harry já percebeu que ela estava sempre cheia de energia.
— Bem. Primeiro, por que tão poucos times? Porque não tem segunda e até terceira divisão? Porque não tem times juniores? Com as crianças antes de Hogwarts? Ou times juvenis, com os adolescentes de Hogwarts? Eles poderiam jogar no verão. — Harry parou de andar e olhou para a Ginny, que o encarava de boca aberta. — Porque eles não fazem um campeonato de estreantes e um campeonato de seniores. Porque além da Liga, eles não fazem copas especiais, como a Copa da Inglaterra ou a Copa do Reino Unido. Porque existe apenas uma copa do mundo de seleções e não de times? Como uma Euro Copa?
— Você teve todas essas ideias, não teve? — Ginny o encarou chocada e divertida.
— Não, meu pai teve. — Harry disse sorridente. — Se não estiver muito cansada, eu poderia lhe contar os meus planos para a Liga.
— Eu não sei que horas são, mas, não estou cansada. — Ginny disse sorridente. — Onde conversamos?
— Pode ser na sua sala comunal ou de convivência, deve estar vazia agora. — Harry deu de ombros e, eles voltaram a subir as escadas, mas, quando chegaram ao quinto andar, viram uma cena inusitada.
— ... como uma vagabunda! — Gritava Percy e Trevor lhe deu um soco, que o fez cair no chão, segurando a boca ensanguentada e gemendo de dor.
— Trevor! — Penny o repreendeu chateada.
— Nunca mais fale com ou sobre a Penny assim, seu imbecil! — Trevor disse furioso.
— Contarei sobre isso para o seu chefe! E, são 50 pontos por estarem fora além do toque de recolher e mais 50 por agredir um monitor! — Percy disse furioso ao se levantar do chão e arrumar a roupa bagunçada.
— Você sabe que não estamos quebrando o toque de recolher, Percy, pois ele foi liberado para os convidados da festa do professor Slughorn! — Penny disse zangada.
— Sim. A festa em que você levou esse... troll fedorento! Depois de me dizer que não tinha nada com ele e me garantir que não foi por ele que me deixou! Mentirosa! — Percy disse parecendo magoado.
— Seu... — Trevor tentou avançar sobre ele, mas Penny o segurou com forçar.
— Não, Trevor, não vale a pena se prejudicar por causa dele. — Depois ela olhou para o garoto ruivo — Percy, eu não tentarei explicar nada, obviamente, você está muito chateado para ouvir ou acreditar na verdade, mas, até que se desculpe por suas palavras ofensivas, não volte a me dirigir a palavra. — Penny se virou e se afastou, levando um furioso Trevor com ela
— É melhor sairmos daqui. — Sussurrou Ginny pegando o braço do Harry e também tentando levá-lo para longe rapidamente, mas, era tarde demais, pois Percy se virou e os viu.
— Ginevra! — Percy gritou e Ginny pulou de susto.
— Merda. — Ela sussurrou de olhos arregalados, antes de se virar e enfrentar o irmão de frente. — Ei, Percy, como está?
— O que pensa que está fazendo fora da Torre a essa hora? — Percy se aproximou uns pouco metros e pareceu perceber Harry. — E, com um garoto! E, vestida assim!?
— Acho que isso é óbvio, Percy. — Ginny disse tentando agir como se não fosse nada demais, mesmo que soubesse que estava em uma enrascada. — Eu estava na festa do Slughorn, como convidada do Harry e, agora, estamos voltando para a Torre, onde pretendo ir dormir.
Seu irmão abriu a boca de espanto e ficou vermelho de fúria, antes de tomar fôlego e começar a gritar.
— Você só tem 11 anos! Não tem autorização de ir a festas com meninos! Mamãe jamais permitiria isso ou que se vestisse dessa maneira vulgar! — Percy disse reprovador, depois estufou o peito. — Tenho certeza que nesta festa havia um limite de idade e você foi sem autorização, Ginevra. Não pense que não contarei isso para a mamãe e ela ouvirá sobre os seus modos nada decentes, mocinha!
— Deixe de ser idiota e intrometido, Percy! — Ginny deu um passo à frente zangada. — Não existe nenhum limite de idade e meu comportamento não é nada indecente! Bem diferente de você que está ofendendo e perseguindo a Penny!
— Cale-se! Não quero ouvir você falando sobre isso e, agora, nós vamos subir e conversaremos sobre o seu comportamento, mocinha. — Percy fez um movimento para pegar seu braço, mas Ginny se afastou e deu um passo para trás. — Eu estava certo sobre você não estar pronta para a responsabilidade de ser uma estudante em Hogwarts, imagine, se esgueirando pela escola com meninos! Como uma qualquer!
— Seu... — Sem hesitar Ginny lhe deu um soco no estômago que fez Percy ofegar e gemer de dor ao se curvar. — Não ouse me chamar assim!
— E, sugiro que não toque nela se não quiser acabar passando as suas férias de primavera no St. Mungus. — Harry disse suavemente, mas, havia uma frieza em sua voz que era de arrepiar. — Eu convidei a sua irmã porque ela é minha amiga e somos jovens demais para sermos mais do que amigos, Weasley. A não ser que você esteja nos julgando baseado em seu próprio comportamento.
— Fique longe da minha irmã, Potter. — Percy disse e tentou segurar o braço de Ginny outra vez, mas, Harry alcançou a sua mão primeiro e a torceu dolorosamente para trás. Percy gemeu agudamente, parecia um rato, e caiu de joelhos.
— O que eu lhe disse sobre não a tocar? — Harry disse com frieza. — Eu não gosto de fazer isso, mas, se não guardar suas mãos, eu as quebrarei.
Ele o soltou e Percy se levantou parecendo razoavelmente intimidado, pois não tentou tocar em Ginny outra vez.
— Apenas pense em envenenar a mãe contra mim com esses seus pensamentos maldosos, Percy e farei questão de lhe dizer que você entrou em uma briga porque chamou sua ex-namorada de vagabunda. — Ginny disse com um olhar afiado. — Papai adorará saber disso. — Percy empalideceu com a menção ao seu pai e acenou duramente, concordando com o duplo segredo. — Agora, Harry me acompanhará até o retrato da Mulher Gorda, como um bom acompanhante e amigo faz. Com licença.
Eles subiram os restos das escadas em silêncio, Percy se afastou em outra direção para continuar com suas rondas.
— Sinto muito, Harry, mas, acredito que é melhor não ficarmos conversando até mais tarde. — Ginny disse muito chateada. — Isso seria confiar demais no medo do Percy de ter problemas com os meus pais.
— Tudo bem, Guinevere. — Harry disse suavemente. — Não se sinta chateada, nós nos divertimos muito e poderei falar sobre as ideias do meu pai em outro momento.
— Apenas, a noite foi tão perfeita. — Ginny suspirou e seus olhos caíram para o chão. — Percy tinha que estragar tudo.
— Ele não estragou nada, só mostrou o quanto estou certo em não gostar dele e o péssimo irmão que continua a ser. — Harry hesitou um segundo, antes de levar a mão direita ao seu queixo e erguer o seu rosto até que seus olhos se encontrassem. — Para mim, a nossa noite continua a ser perfeita. Boa noite e tenha bons sonhos. — Ele se inclinou e beijou sua bochecha suavemente antes de se afastar, sorrir, lhe dar uma piscadela e começar a descer as escadas saltitando levemente.
Ginny ficou paralisada por um segundo se perguntando se o seu coração acelerado se acalmaria algum dia. Depois, com um sorriso suave e olhos sonhadores, ela flutuou até o seu quarto.
Na manhã seguinte, depois de um café da manhã tardio e apressado, Harry e os amigos caminharam lentamente para a estação onde o Expresso os aguardava.
— Já que não treinaram na Caverna hoje, o mínimo que podem fazer é caminharem. — Harry disse lhes lançando um olhar afiado.
— Fomos dormir muito tarde, Harry. — Terry se justificou. — Não somos como você, sabe, que só precisa de duas ou três horas de sono e já está recuperado.
— Eu também não acordei às 5 horas e sim, às 7, tive tempo de treinar, tomar banho e descer para o café da manhã. — Harry disse em tom ácido. — Se acreditam que não pegarei no pé de vocês só porque estamos de férias, tratem de repensar essa ideia. A partir de amanhã, quero que todos corram o dobro do que estão habituados, afinal, não teremos piscina, dança e a musculação.
Seus amigos gemeram com o pensamento, mas não o questionaram.
— A primavera está finalmente aparecendo. — Neville disse respirando o ar frio da manhã. — Aposto que as flores que plantamos na beira da Floresta Proibida germinarão em breve, Harry.
— Podemos ir visitar quando voltarmos. — Terry acrescentou entendendo que Neville tentava melhorar o humor do Harry, que sorriu para o pensamento.
— Isso seria bom. — Harry disse suavemente ao olhar para o céu e deixar o sol fraco aquecer o seu rosto. — Talvez, eu encontre o Firenze, estamos trocando cartas, mas, não o vejo há semanas.
— Harry! — Ele se virou ao ouvir a Ginny chamá-lo e esperou que ela os alcançasse em um passo apressado. — Obrigada por esperar. — Ela disse levemente ofegante. — Precisa te contar o que acabei de saber. Bom dia, pessoal. — Ela olhou para Terry, Neville e Hermione. — Harry já lhes deu uma bronca por faltarem ao treino na Caverna?
— Você foi? — Hermione perguntou surpresa.
— Claro, estou tentando ficar em forma para acompanhar o treino de vocês, não vou parar por causa de férias. — Respondeu Ginny quando retomaram a caminhada.
— Merlin, vocês dois são iguaizinhos. — Terry resmungou.
— Sim, igualmente insanos. — Neville disse brincalhão.
— O que aconteceu, Guinevere? — Harry perguntou ignorando a brincadeira.
— Percy. — Ginny disse e sua expressão divertida de tornou sombria. — Vector e Flitwick o chamaram hoje para questionar porque tirou 100 pontos da Ravenclaw.
— O que? — Hermione pareceu chocada. — Eu não vi isso nas ampulhetas.
— Porque os pontos já foram devolvidos. — Ginny disse apressadamente. — Percy nunca foi bom em mentir e contou o que aconteceu ontem, o que, claro, obrigou Flitwick a chamar Penny e Trevor. Depois de tudo esclarecido, Trevor está em detenção e perdeu 10 pontos por socar um colega. E, Percy está suspenso de suas atividades de monitor, uma reunião acontecerá durante as férias para decidir se devolvem o seu emblema ou não. Ele também pegou detenção pelo resto do mandato, perdeu 30 pontos e a Vector escreverá aos nossos pais informando o que aconteceu.
— Isso faz parte das novas regras de comunicação com os pais, eles devem receber relatórios trimestrais sobre os filhos, os acontecimentos e atividades escolares, além de serem informados imediatamente de qualquer acontecimento disciplinar ou de saúde. — Terry disse. — O relatório que recebemos sobre a última reunião da AP com o Conselho de Governadores, com a descrição de suas decisões, também foi enviado aos pais que são membros da AP.
— Bem, não sei se os meus pais são membros da AP, mas, com certeza, eles receberam o relatório trimestral de nós 5. Agora, ainda receberão essa carta extra sobre o Percy. — Ginny disse com uma careta de preocupação.
— Mas, afinal, o que o Percy fez? — Hermione perguntou curiosa.
— Bem... — Ginny contou o que eles presenciaram na noite anterior e o acordo que ela fez com o irmão. — O problema é que agora, Percy não tem motivos para não contar aos meus pais que fui a festa, pois eles descobrirão o que ele fez.
— Não acredito que Percy fez isso, tirar pontos porque estava com ciúme. — Hermione disse exasperada. — E, você não deveria se preocupar, Ginny, era apenas uma festa entre amigos, diga aos seus pais que fomos todos em grupo, pois somos muito jovens para encontros.
— Essa é uma boa ideia. — Ginny olhou agradecida para a nova amiga e suspirou com expressão ainda fechada. — Mas, minha mãe não verá desta maneira, acredite.
— Guinevere... — Harry parou de andar e a encarou nos olhos. — Eu entendo que eles podem ficar zangados com você, mas, o que você faz ou sente sobre isso depende de você. Me diga, você acredita que fizemos algo errado? Inapropriado? Sente-se culpada por ir à festa comigo?
— Não! — Ginny respondeu na mesma hora. — É claro que não! Somos amigos e a festa não tinha limite de idade, minhas roupas não eram indecentes ou algo assim.
— Bem, aí está. Se você sabe que não fez nada errado, não deve permitir que sua mãe a faça se sentir culpada ou mal pelo que aconteceu. — Harry disse com firmeza.
— Você está certo. — Ginny respirou fundo e levantou os ombros. — Mesmo se eles me criticarem ou me colocarem de castigo, não deixarei que isso me afete porque, eu sei que não fiz nada errado. — Eles voltaram a andar e Ginny suspirou. — Bem, eu tinha pensado em lhes contar sobre o diário e a câmara nestas férias, mas, acho que tudo isso pode tornar mais difícil.
— Não pense negativamente, Ginny. — Disse Hermione e abraçou o seu ombro com carinho. No último domingo, Ginny havia contado sobre o diário por si mesma, mostrando sua confiança nela e isso tinha aproximado as duas ainda mais. — O seu irmão Percy agiu exageradamente porque estava furioso, aposto que seus pais não verão a situação da mesma maneira. Então, você poderá compartilhar com eles o que aconteceu.
— Hermione está sendo otimista como sempre. — Harry disse sabendo que as coisas nem sempre vão como queremos. — Você conhece sua mãe melhor do que todos nós e, por isso, deve se preparar por sua reação de acordo com o seu conhecimento, Guinevere.
— Bem, tem isso. — Hermione disse e deu um olhar afiado para o Harry. — O senhor pessimista está certo, acho.
— Vocês todos estão certos, de certa forma. — Ginny disse. — Obrigada por me ouvirem, pessoal. — Ela sorriu feliz com seus apoios.
— Você sempre pode contar conosco... Guinevere? — Neville perguntou levemente confuso.
— Só o Harry me chama assim
— Só eu a chamo assim. — Disseram Harry e Ginny ao mesmo tempo.
— Ah! — Neville pareceu levemente divertido, apesar de ainda confuso. — De qualquer forma, Ginny, eu também estou tomando coragem de contar para a minha avó que comprei uma varinha nova durante o último verão. Acredite, essa não será uma conversa agradável.
— Bem, o conselho do Harry vale para você, Nev. — Terry disse quando alcançaram o trem vermelho que liberava fumaça, tornando a estação meio nebulosa. — Você não fez nada errado e não deve deixar a sua avó o fazer se sentir culpado.
— Vou me lembrar disso. — Neville disse sorrindo quando subiram as escadas.
— Mais tarde apareço, pessoal. — Ginny disse acenando e arrumando a mochila nos ombros. — Vou encontrar Luna e os outros.
— Até mais, Ginny. — Eles disseram, Harry também, pois estavam cercados de estranhos.
Quando se sentaram no compartimento, Hermione o olhou com um sorriso brincalhão.
— Guinevere? — Ela disse levantando as sobrancelhas.
— Sim, mas ela é apenas minha Guinevere, vocês podem continuar com Ginny. — Harry disse sorrindo e corando levemente.
Isso fez os três amigos rirem, mas, felizmente, nenhum deles zombou ou fez qualquer comentário constrangedor. Ao longe da viagem de 3 horas, eles receberem a visita do pessoal do Covil, que compareceram à festa do Slughorn, e queriam relatar os bons contatos que fizeram com os convidados importantes. Até mesmo Tracy apareceu para relatar as informações que Daphne conseguiu. Ela se sentou bem perto do Terry, sorriu e manteve os olhos azuis claros gulosamente sobre ele o tempo todo em que falava.
— É tão bom que sejamos amigos de infância, não é, Terry? — Ela disse suavemente. — Assim, posso vir passar recados da Daphne sem que nenhum Slytherin desconfie de nada.
— Oh, sim, bem, quer dizer... acho que isso é bom sim. — Terry disse gaguejando um pouco. — Ainda que seria melhor se pudéssemos ser todos amigos sem problemas.
— Hum, não sei. — Tracy se inclinou e baixou o tom de voz. — Sabe, eu até gosto de todo esses encontros meio proibidos e como temos que nos ver sempre por causa das informações secretas. É, bem... excitante, você não acha?
Uma batida forte soou no compartimento e fez todos pularem de susto. Era Hermione que tinha aberto a janela com força e a fez bater na moldura.
— Desculpa, não tinha percebido que não estava presa. — Hermione disse com um sorriso doce. — Tracy, agora que você deu o recado, não deveria voltar ao seu compartimento? Não devemos abusar, certo?
— Oh, sim. — Tracy olhou para o relógio. — Nossa! Preciso correr, pessoal! Terry, espero que possamos conversar mais no sábado!
E, saiu correndo do compartimento sem esperar uma resposta.
— Ugh! — Terry estremeceu meio apavorado. — Porque ela fica em cima de mim assim? Parece que quer me comer ou algo assim!
— Talvez, ela seja carnívora. — Neville sugeriu, também confuso pelo comportamento da garota loira.
— Neville! — Terry protestou. — Eu estava brincando! Agora terei pesadelos sobre isso, Merlin me ajude.
Hermione riu levemente e se escondeu atrás do livro Hogwarts, Uma História.
— Vocês são muito lentos, meninos. — Ela disse divertida.
— Você sabe? — Terry perguntou chocado. — Como assim? Você sabe e não me conta?
— Não contei ou pretende fazê-lo. — Hermione disse olhando por cima do livro. — Você deve perceber por si mesmo, Terry.
— Todos ficam me dizendo isso e é muito irritante. — Terry disse chateada. — Por favor, Hermione, não aguento mais esse jeito estranho dela. Antes, éramos bons amigos e, agora, não gosto quando ela está a 10 metros de distância porque começa a me olhar daquele jeito arrepiante.
Hermione o olhou pensativa, mas, não conseguiu resistir aos seus olhos castanhos de filhote que implorava e suspirou acenando.
— Ok, mas quero que me prometa que não será grosseiro com a Tracy, se a magoar, se verá comigo, Terry. — Ela disse séria.
— Eu prometo e jamais faria isso. — Terry disse e, porque era ele, sempre doce e gentil com todos, Hermione acenou acreditando.
— Tracy tem uma queda por você, Terry. — Hermione disse gentilmente.
— Queda? — Ele se mostrou confuso.
— Ela gosta de você, sabe, como mais do que um amigo e, Tracy não quer te comer, acho que ela quer te beijar. — Hermione disse mais claramente, se perguntando como um garoto tão inteligente poderia ser tão obtuso. Deveria ser uma coisa de meninos, pensou, ao observar que Neville e o Harry tinham expressões de entendimento semelhantes.
— Oh! — Terry disse, finalmente desfazendo o mistério. — Oh! — Ele disse outra vez quando seu cérebro terminou de absorver a situação. — Oh! — Seu rosto ficou vermelho de vergonha, algo difícil em sua pele amorenada.
— Muito articulado. — Ela disse divertida.
— Merlin! O que eu faço? — Terry parecia aflito e confuso. — Acho que eu não queria saber.
— Terry, apenas seja gentil e amigável com ela. — Hermione disse exasperada. — Mas, se você não gosta dela assim, não lhe dê esperança ou quebrará o seu coração.
— E, se ele gostar? — Harry perguntou curioso.
— Bem... — Hermione o encarou desconcertada. — Mas, ele não gosta, certo? — Ela perguntou encarando o Terry com um olhar afiado.
— O que... Não! Não, eu não gosto dela assim! Na verdade, crescemos juntos e eu a vejo como uma prima ou irmã, sabem, como Tianna ou Ayana. — Terry se apressou em dizer e afastou o colarinho, pois estava com muito calor, seu rosto vermelho de constrangimento poderia ser a causa, claro. — E, acho que somos muito jovens para pensar nessas coisas de namorados. Certo?
— Bem, as meninas costumam amadurecer mais rapidamente que os meninos, além disso, eu apenas acho que ela tem uma queda por você, Terry, não quer dizer que Tracy pensa em algo sério, como namorar. — Hermione disse enquanto sua postura relaxava sutilmente.
— Meninas amadurecem mais rápido? — Harry se mostrou interessado. — Com que idade? E, como um menino sabe que ela tem a idade certa para namorar?
— Bem, não sei. — Hermione deu de ombros. — Não sou uma especialista em namoro, Harry, acho que cada pessoa é diferente dá outra, sejam meninas ou meninos. Não tem uma idade igual para todos, sabe, cada um tem o seu próprio tempo.
— Isso tudo me parece bem confuso e estranho. — Neville disse tímido e corado. — Fico feliz que somos muito jovens para pensar nisso.
— Sim. — Harry acenou concordando e desviou o olhar para a janela. Suspirando, fechou os olhos e sua mente foi inundada por fitas de seda vermelhas e mágicas.
Alguns minutos depois, a senhora do carrinho apareceu, mas, eles recusaram sua oferta de doces, pois almoçariam quando chegassem em Londres. Assim que ela se afastou, Draco Malfoy surgiu e segurou a porta, impedindo-a de se fechar.
— Potter. — Ele disse levemente hesitante.
— Malfoy. Onde estão o seu gremlins? — Ele perguntou curioso.
— Não importa. — Sua expressão era séria e levemente confusa. Harry o analisou com atenção tentando entender o que ele fazia ali.
— Ok. Algo que eu possa fazer para ajudá-lo? — Ele perguntou mais educadamente.
— Bem, estou aqui apenas porque minha mãe me enviou. — Ele disse defensivamente.
— Soube que ela é prima do meu padrinho e eles foram amigos de infância. — Harry disse. — Ela me enviou algum recado?
— Não. Apenas, me disse que deveria vir agradecer-lhe por seu convite para a inauguração do Jardim da Lily. — Draco disse parecendo chateado pela obrigação materna.
— Eu enviei convites para todos os bruxos do mundo mágico do Reino Unido, Draco. — Harry disse. — Sem qualquer tipo de distinção ou preconceitos, assim, ela não precisa me agradecer especialmente.
— Eu penso assim também. — Draco disse meio rabugento. — Mas, minha mãe me ordenou e saberá se eu não cumprir a sua ordem, assim...
— Aqui está você. — Harry disse e acenou suavemente para que continuasse.
— Sim. Ela me lembrou que um bruxo de distinta família como a nossa, nunca deixa de agradecer por um convite, não importa quem nos convidou ou qual o evento. — Draco parecia muito contrariado com as palavras que deixavam a sua boca. Harry ergueu a sobrancelha sabendo muito bem que esse movimento de Narcisa Malfoy tinha pouco a ver com ser educado e sim, o início de sua tentativa de transformar o filho em alguém melhor do que Lucius Malfoy. — Assim, Potter, aceite os agradecimentos da Família Malfoy, por seu gentil convite.
Draco parecia estar falando com cacos de vidro na boca, mas, Harry decidiu não forçar a situação. Se houvesse uma maneira de ter um inimigo a menos lutando ao lado de Voldemort, não seria ele a colocar obstáculos.
— Eu aceito os seus agradecimentos, Malfoy. Por favor, envie meus cumprimentos a sua mãe e diga-lhe que, como familiares, estou ansioso por conhecê-la. — Harry disse se levantando e estendendo a mão formalmente.
— Eu direi. Até mais, Potter. — Draco apertou sua mão com uma careta de desagrado. — Boot, Longbottom... Granger. — Ele acenou rigidamente e depois saiu do compartimento se afastando pelo corredor.
O compartimento ficou em silêncio por alguns segundos antes de os três falarem ao mesmo tempo.
— O que diabos foi isso? — Disse Terry irritado.
— Ele está polissuco? — Perguntou Neville.
— Draco bateu a cabeça enquanto estive petrificada? — Questionou Hermione.
Harry riu de suas expressões e acenou negativamente.
— Não, apenas um plano que o Sirius e eu colocamos em movimento, parece que está dando resultados. — Ele deu de ombros. — Ainda é cedo para saber se dará certo, por isso, não direi nada por enquanto, principalmente, porque quero suas reações mais sinceras.
— Somos bons atores, Harry. — Protestou Hermione, irritada por ser deixada de fora.
— Fale por si mesma. — Neville disse. — Mas também não gosto do segredo.
— Não é uma questão de confiança. — Harry disse. — É uma questão familiar, como disse, Narcisa Malfoy é prima do Sirius e...
— Sabemos disso, Harry. — Neville falou irritado. — Sei bem quem é Narcisa Malfoy, ela é irmã de Bellatrix Lestrange.
— Fale por si mesmo. — Hermione devolveu com o cenho franzido. — Eu não sabia disso.
— Olha, não estou mantendo segredos, apenas deixando um plano se mover por si mesmo. — Harry disse suavemente. — Sirius acredita que por ser uma questão de família, deve ser conduzido com discrição, por enquanto.
— Desde quando os Malfoys são família? — Terry parecia muito chateado.
— Eles não são, mesmo o Sirius não os vê assim e já entrou com o processo para expulsá-los da Família Black. Lembram-se? — Harry disse em tom mais firme e os três acenaram. — O plano é para o futuro, não direi aqui, onde podemos ser ouvidos, mas, Sirius quer ver se os seus movimentos iniciais levam a alguma coisa ou se fracassará logo de cara. E, vocês não são tão bons atores assim.
— Ei! — Hermione protestou cruzando os braços. — Eu posso atuar muito bem.
— Sim, mas, você ainda revela muito em sua expressão, Hermione, por exemplo, eu percebi que você sabia que a Ginny era a aluna que lutou contra o diário, antes de ela lhe contar por si mesma. — Harry disse erguendo as sobrancelhas quando ela corou.
— Você já sabia? — Terry se mostrou confuso.
— Como? — Questionou Neville.
— Bem, ela parecia ter se tornado amiga de vocês três do dia para a noite e Harry concordou em treiná-la antes do resto do pessoal do Covil, mesmo que Ginny seja um primeiro ano. — Hermione disse. — Isso me levou a um monte de perguntas sem respostas, mas, no treinamento de reconstituição do ataque da Caverna, percebi sua expressão.
— Culpada? — Terry perguntou curioso.
— Não. — Harry respondeu. — Determinação em superar o que aconteceu e ser a bruxa guerreira que ela nasceu para ser.
— Sim. Exatamente o que eu sentia naquele momento e, então, tudo ficou claro, mas, decidi não falar nada e sim, conquistar sua confiança e amizade. — Hermione encerrou.
— Muito gentil, Hermione. — Terry disse docemente.
— Sim, mas, ficou olhando para ela com esses seus olhos curiosos de quem tenta desvendar um quebra-cabeça muito difícil. — Harry disse divertido. — Eu podia ler seus pensamentos facilmente.
— Não podia não! — Hermione disse indignada e Harry riu.
— Oh, sim, eu podia. Algo como, "como ela conseguiu ser tão forte e corajosa? " E, "como posso ajudá-la", tinha também, "o que devo fazer para que ela confie em mim? " — Harry disse e Hermione corou.
— Ugrrrr. — Ela rugiu irritada. — Como?
— Seus olhos curiosos, Hermione, você deve aprender a não colocar suas perguntas e curiosidade infinita em seus olhos. — Harry disse dando de ombros.
— Ok. E, sobre Neville e Terry? — Ela perguntou, não querendo ser a única que não era boa em algo ali.
— Neville hesita muito, mostra dúvida em si mesmo, por isso, ainda não sabe mentir ou esconder informações. — Harry disse e seu amigo acenou sem contestar. — Terry é o melhor dos três, mas, como não gosta de mentir, revela culpa em seus olhos quando tem que fazê-lo. Para alguém experiente é fácil perceber a culpa e, por consequência, a mentira.
— Bem, prefiro não superar meu incomodo por mentiras. — Terry disse mal-humorado. — Ainda não entendo porque não podemos saber o plano, afinal, não temos que mentir para o Draco e sua mãe.
— Que plano? — Ginny perguntou ao entrar no compartimento. — E, porque estão falando daquele desagradável e sua mãe?
— Estão vendo como esse assunto não deve ser discutido aqui? — Harry disse abrindo espaço para Ginny sentar-se ao seu lado, Luna se sentou ao lado dela. — Não é nada, apenas, uma ideia que eu tive, o Sirius gostou, mas, é algo delicado que tem que ser feito sem erros. Eu não contei aos três, porque eles não são bons atores, mas, estão incomodados porque lhes escondi algo.
— Segredos não são legais. — Luna disse suavemente. — Mas, se você precisa manter isso para si mesmo, tudo bem por mim.
— Obrigado, Luna. — Harry sorriu para a menina loira.
— Bem, eu confio em você, mas, também não gosto de ficar no escuro. — Ginny disse lentamente. — Se o problema é que não sabemos esconder segredos, precisamos apenas ficar melhores nisso, assim, você pode confiar em nós.
— Você sabe guardar segredo, Guinevere. — Harry disse. — Precisa apenas ter mais controle sobre as suas emoções e observar quem observa você. — Ginny acenou seriamente.
— E, eu? — Luna perguntou curiosa.
— Ainda não a conheço o suficiente, Luna, faz pouco tempo que somos próximos e não convivemos muito. — Harry disse sincero.
— Ok. Quando descobrir, me conte, Harry, assim, posso te ajudar a carregar os segredos mais difíceis. — Luna disse gentilmente.
— Harry não tem segredos difíceis. — Hermione disse divertida. — Ele apenas gosta de manter algumas coisas de nós, porque gosta de mistérios.
— Merlin, sim. — Terry gemeu. — Ele adora isso, contar metade da informação e nos deixar curiosos até a grande revelação.
— Como Sherlock. — Neville disse divertido
— Quem é esse? Algum trouxa famoso? — Luna perguntou curiosa.
— Não, Luna, ele... — Enquanto Neville, Terry e Hermione contavam sobre Sherlock Holmes e seu criador, Harry desviou o olhar para a janela e se concentrou na paisagem rural, enquanto um arrepio frio percorria sua espinha ao pensar em um segredo que mantinha e sempre manteria de todos eles.
Ignorando o conselho que acabara de dar a Ginny, Harry não percebeu como ela observava atentamente a sua expressão sombria e olhos assombrados.
A plataforma estava abarrotada de pais quando o Expresso chegou. Harry se despediu dos amigos, combinando de se verem no sábado de manhã e, acompanhado por Terry, seguiu para onde estava a Serafina, que os esperava com um sorriso feliz.
— Ah! Estou tão feliz em vê-los! O Natal parece que foi há séculos! — Ela disse abraçando os dois e os direcionando para a passagem para o mundo trouxa. — Vamos direto para casa, todos estão esperando ansiosos por vocês.
— Todos? — Terry perguntou curioso.
— Bem, não estão todos em casa, afinal, estamos hospedados em Londres e seus tios têm suas próprias casas. — Ela disse ainda sorrindo. — Mas, seus irmãos e avós, além de Petúnia, que não está hospedada, mas, chegará daqui a pouco com o Duda, com certeza, todos estão ansiosos por vê-los.
Eles seguiram para o estacionamento da estação e, em poucos minutos, Serafina dirigia pelo transito de Londres em direção da Mansão Boot.
— Seu avô e Sirius estão bem acomodados na Mansão e Dobby tem sido muito útil, aquele doce adora ajudar. — Serafina disse sorrindo. — Nós viemos para cá, pois é mais fácil sairmos todos juntos no sábado de manhã para pegar o Expresso, inclusive com a parte trouxa da família. Estão todos animados, Harry, em passearem no Expresso de Hogwarts e, em conhecerem o Jardim da Lily. Como foram essas últimas semanas? Como está Hermione e os outros petrificados?
— Foi tudo traquilo, mamãe e Hermione está bem, finalmente se sentindo menos atrasada com as novidades e as aulas. — Terry disse. — E, os outros estão bem, também. Apenas, a professora Charlie ainda não voltou a dar aulas.
— Não, ela ainda está de licença. — Serafina disse suavemente. — Seu trabalho exige muito fisicamente e seu braço ainda precisava de fisioterapia, mas, acredito que ficarão felizes em saber que ela voltará depois das férias de primavera.
— As meninas gostarão de saber disso. — Harry sorriu animado. — Elas estavam ansiosas pelas aulas de dança.
— Oh! Estamos tentando organizar um Baile de Verão para junho! Penny está muito entusiasmada, ela presidirá o comitê de organização. — Serafina informou. — Ainda não foi confirmado, mas, acredito que temos tudo para a aprovação oficial na próxima reunião.
— Todos poderão comparecer? Sem limite de idade? — Harry perguntou curioso.
— Sim, mas, às 11 horas, os alunos de primeiro, segundo e terceiro ano, devem ir para os seus dormitórios e o Baile continuará até à 1 hora para os alunos mais velhos. — Ela disse.
— Isso é muito legal, mamãe! — Terry disse sorrindo.
— Bem, mas, em um Baile, teremos que dançar, certo? — Harry disse com uma careta. — Eu nunca aprendi a dançar.
— Ora, querido, podemos resolver isso facilmente. — Serafina disse. — Eu lhe darei algumas aulas de dança e, Terry poderia ter umas também, para relembrar.
— Isso será divertido. — Terry disse. — Nós fomos a festa do Slughorn ontem e foi muito legal, mas, um Baile, será ainda melhor.
— Festa do Slughorn? — Serafina se mostrou surpresa. — Ora, elas eram um sucesso e muito disputada em meu tempo, mas, o velho Horace só convidava aqueles que mostravam potencial de serem importantes e famosos depois de Hogwarts.
— Não foi diferente agora. — Harry disse com uma careta de desagrado. — Estou feliz que outro professor o substituirá no ano que vem.
— Horace quer voltar para a sua aposentadoria, mas, não o descarte tão facilmente, Harry. — Serafina disse baixinho. — Estamos pensando em contratá-lo para ser o professor de Poções de Stronghold.
— O que? — Harry se mostrou surpreso.
— Você prefere Snape? — Serafina perguntou ironicamente e Harry fez uma careta de nojo.
— Eu prefiro alguém qualificado, na verdade. — Harry disse.
— Slughorn é qualificado e temos alguém que tem interesse em fazer o Mestre em Poções. Robyn O'Connor, que trabalha na Rituum & Potions, lembra-se dele? — Serafina perguntou.
— Sim, claro. Nós o enviamos para trabalhar na Fábrica de Poções de alta periculosidade do Sirius, depois ele se tornou um dos funcionários da Fiona na nova loja do Beco. Lembro-me que na entrevista, Robyn disse que pretendia se candidatar a uma vaga no curso de Mestres do Ministério, mas, ele não conseguiu a vaga. — Harry disse pensativo.
— Sim. Muitos dos primeiros funcionários contratados pela GER no ano passado, estão terminando seus estudos trouxas e se decidindo sobre quais profissões querem seguir e se dedicarem a estudar no futuro. — Ela explicou. — Robyn quer ser um Mestre de Poções, e tem interesse em ser professor, assim, pensamos que ele poderia fazer o seu Mestre com o Slughorn, ao mesmo tempo em que assume o cargo de assistente.
— Então, Slughorn daria aulas em Stronghold por alguns anos enquanto treina o Robyn, que assumiria a função depois. — Harry disse e Serafina assentiu. — É um bom plano, se eles aceitarem e Slughorn mantiver sigilo sobre a ilha.
— O contrato de sigilo resolve a última parte, mas, a questão é o Slughorn aceitar, quando está tão ansioso por retornar a sua aposentadoria. — Serafina entrou na rua da Mansão e estacionou o carro. — Sirius acredita que você seria a pessoa ideal para convencê-lo.
— Eu? — Harry desceu do carro e se mostrou surpreso.
— Sim. Horace adorava a Lily e, se você lhe disser sobre os seus planos e pedir sua ajuda, em nome da sua aluna preferida, duvido que ele negaria. — Serafina disse e Harry acenou meio confuso.
— Suponho que sim, mas, não temos outra opção? Outro Mestre de Poções? — Harry perguntou esperançoso.
— Conseguimos entrevistar 3, Harry, 3 Mestres de Poções durante todos esses meses, para o cargo em Hogwarts, que é uma escola prestigiada. Dois eram estrangeiros e exigiram uma fortuna para se mudarem para a fria Escócia. O único inglês era um purista esnobe que faz o Snape parecer agradável. — Serafina suspirou cansada. — Temos mais uma entrevista depois do feriado e ele é estrangeiro também, mas, temos ótimas referencias, assim, estou otimista. No entanto, nossa esperança para Stronghold é que Slughorn se interesse em participar de um projeto tão bonito, treinar um novo Mestre talentoso e agradar a Harry Potter, que também é filho de sua aluna preferida.
Harry parou pensativo e olhou para o jardim da frente da Mansão Boot. Aqui, a primavera chegava com mais força e a temperatura era muito mais agradável do que na Escócia.
— Ok. Eu farei isso.
Eles, então, entraram na Mansão e se viram cercados pela família. Ayana e Adam não parecia que os largaria tão cedo, mas, Harry viu o olhar triste de Terry ao ver que o irmão ainda não estava falando. Os avós Madakis e o Sr. Boot queriam ouvir sobre a escola e lhes serviram um almoço tardio delicioso. Dobby se sentou à mesa com eles e parecia tão feliz que seu corpo vibrava de emoção. Sirius e Falc chegaram trazendo Remus. Tia Petúnia apareceu depois de pegar o Duda na escola, seu primo, estranhamente mais magro, pareceu feliz em vê-lo, mesmo que seus olhos estivessem sem o mesmo brilho de sempre.
Harry olhou em volta da mesa de jantar desconhecida e, apesar de não estar no Chalé Boot ou na Evans House, ele se sentiu em casa, porque sua família estava ali e só isso importava.
Na Família Weasley, o clima não era tão alegre e amistoso. A carta de Vector chegou logo depois que Molly Weasley chegou com os filhos da estação. Ela tinha percebido um clima diferente durante a viagem de carro, os gêmeos pareciam estranham bem-comportados, Ginny parecia tensa e Percy, abatido, como se o seu animal de estimação tivesse morrido. Apenas Ron era o mesmo de sempre, reclamando da longa viagem e como estava com fome.
— Eu já tenho o almoço pronto, Ron, agora, pare de resmungar. — Ela disse irritada.
— Deveríamos usar o flu, mãe, é mais rápido do que com o carro. — Fred observou pensativamente.
— E, mais caro também. — Ela disse. — O pó de flu custa uma fortuna, com nós 6 passando pela lareira da plataforma, custaria muito caro, vocês sabem, e viajar com o carro não custa nada. Além disso, com a magia que o seu pai colocou no carro, mesmo que eu não aprove suas experiências estranhas, a viajem é mais curta do que seria em um carro trouxa.
Isso fez a viagem de 4 horas durar a metade do tempo, tornando todos mal-humorados por causa da fome e do estômago de Ron, que não parava de rosnar audivelmente. Quando chegaram a Toca, Percy foi para o seu quarto, alegando não estar com fome, o que preocupou sua mãe. Os outros almoçaram com satisfação, ainda que Molly pegou George e Fred lançando olhares preocupados na direção de Ginny, que continuava tensa.
Molly estava tirando a mesa quando a coruja com a carta de Vector chegou.
— Fred e George Weasley! O que vocês aprontaram desta vez? — Ela gritou ao pegar a carta.
Os dois olharam para a mãe e a carta, surpresos e confusos.
— Não fizemos nada. — Fred disse sincero e firme. — Mas, eles iam enviar um relatório aos pais sobre as mudanças que farão em Hogwarts nos próximos meses.
— Deve ser isso, mãe. — Disse George dando de ombros.
— Hum... — Disse ela enquanto os encarava com olhos afiados. — Vocês me parecem estar com expressões muito inocentes para o meu gosto. Tenho certeza que estão aprontando alguma coisa.
— Mãe, não temos mais 5 anos. — Fred se levantou irritado e levou o seu próprio prato a pia.
— Mãe, você e o pai pretendem se tornarem membros da AP? — Ginny desviou a atenção da mãe enquanto os gêmeos deixavam a cozinha.
— O que... Ah! Você está falando da Associação de Pais? — Molly olhou para a filha. — Nós recebemos o convite com uma explicação sobre o que eles fazem, mas, não vimos motivos para nos envolver.
— Bem, é que os pais que se associarem a AP, receberão informações rapidamente, quer dizer, a reunião do Conselho de Governadores e a AP aconteceu tem mais de uma semana. A senhora está recebendo um relatório da Vice-diretora agora, enquanto os pais da AP, devem ter recebido as informações dias atrás. — Ginny explicou.
— Hum... eu não tinha pensado nisso, falarei com seu pai depois. — Molly disse pensativa e acenou com a varinha para a louça começar a se lavar na pia. — Mas, o que são todas essas mudanças que eles estão fazendo? Espero que não nos custe mais dinheiro, quer dizer, se for para aumentar a mensalidade, o melhor é que fique como está.
— Mãe, foi a AP que conseguiu abaixar os preços da mensalidade no semestre passado. — Ginny protestou. — Eles não iriam aumentar agora.
— Bem, abrirei a carta quando o seu pai chegar, assim, podemos conversar e decidir o que fazer. — Molly disse. — Agora, suba, arrume as suas coisas, tome um banho e desça para me ajudar a começar o jantar, mocinha.
Ginny deixou a cozinha e fez uma careta de desagrado, se controlando para não lhe perguntar porque não pediu aos seus outros 4 filhos que a ajudasse na cozinha. Sinceramente, era mais inteligente de sua parte não a irritar antes que sua mãe lesse aquela carta.
A carta só foi aberta no fim do dia, quando o Arthur Weasley chegou. O jantar estava quase pronto, eles estavam acostumados a jantarem mais cedo agora, pois, às 8 horas, o Arthur assumia seu turno no The Bar, onde trabalhava até às 2 horas da manhã. Molly lhe serviu um chá e lhe entregou a carta, Arthur a abriu e começou a ler, enquanto sua esposa falava sobre suas preocupações com os gêmeos e verificava as batatas assando no forno. Quando chegou ao fim da carta, ele se levantou com as orelhas vermelhas de constrangimento e raiva, foi até a base das escadas e gritou bem alto.
— Percival Weasley! Desça aqui agora mesmo! — Ele voltou para a cozinha e ignorou o olhar espantado de sua esposa, lhe entregou a carta e sinalizou para a filha. — Suba para o seu quarto e diga aos seus irmãos que não os quero espiando ou todos ficarão de castigo durante o fim de semana.
Ginny apenas acenou e subiu correndo, encontrou os irmãos no corredor com expressões espantadas, pois nunca tinham visto o pai gritar com tanta raiva. Percy estava parado, como se tomasse coragem e Ginny não pode deixar de sentir pena dele, dando um tapinha em seu braço, sussurrou:
— Tudo ficará bem, Percy.
Ele a olhou por um segundo, depois para a sua mão e afastou o braço.
— Não pense que ficarei calado, Ginevra, pode se preparar porque a próxima será você. — Ele disse sem malícia, endireitou os ombros e pomposamente desceu as escadas.
— Você sabe o que aconteceu? — Ron perguntou de olhos arregalados.
— Sim, e é melhor eu lhes contar, porque o papai disse que se pegar alguém espiando, estaremos todos de castigo durante o fim semana. — Disse ela lentamente.
— Vem, então. — George passou o braço por seus ombros e a levou até o seu quarto e do Fred, Ron os seguiu.
Ginny se sentou ao lado de George em sua cama, de frente para Fred e Ron. Respirando fundo, contou sobre o que viu ontem e ouviu hoje antes de deixarem Hogwarts.
— Percy está perdido. — George disse, sabendo como o pai não tolerava esse tipo de desrespeito contra mulheres.
— Como você soube que a Vector e McGonagall descobriram o que aconteceu? — Fred perguntou curioso.
— Eu vi quando Vector veio buscá-lo, então os segui e ouvi por trás da porta. — Ginny disse dando de ombros.
— Você nos deixa orgulhosos, irmã. — Disse Fred sorridente. — Acho que não podemos mais chamá-la de Ginnygirl, muito menos de Ginnybaby.
— Vocês nunca puderam, seus trolls. — Ginny disse divertida.
— Bem, e sobre o que ele disse de você ser a próxima a entrar em problemas? — Ron perguntou.
— Ah. Percy acha que foi inapropriado eu ir à festa do Slughorn ontem à noite e contará a mamãe, esperando que ela me castigue. Eu tinha feito um acordo com ele, não contaríamos nada um do outro, mas, agora, acho que Percy não tem motivo para manter o meu segredo. — Ginny disse e se apressou em acrescentar. — Não que eu ache que ir à festa foi errado.
— Eu não sabia que você tinha sido convidada. — Ron disse levemente enciumado. — Porque Slughorn te convidaria?
— Ele não convidou. — Ginny disse e não acrescentou mais nada apesar dos seus olhares curiosos.
Na cozinha, Percy se sentou à mesa e Arthur esperou a esposa terminar a carta antes de colocá-la diante do filho.
— Você pode me explicar isso? — Ele perguntou com voz dura, raramente ouvida dentro da Toca. Percy apertou a mandíbula e não respondeu. — Eu lhe fiz uma pergunta, Percival! Você pode me explicar isso?
— Arthur... — Molly falou suavemente tentando acalmá-lo. — Percy é um bom garoto, um aluno esforçado e talentoso, tenho certeza que não passa de um mal-entendido.
— Você precisa que sua mãe arrume desculpas para você? Quer que ela te defenda e justifique suas ações? Por acaso não é capaz de fazer isso por si mesmo, Percival? — Arthur perguntou ignorando as palavras de sua esposa. — Por um acaso estou criando um covarde e não sabia disso?
— Arthur! — Molly protestou zangada.
— Responda ao seu pai! — Arthur bateu com força a mão na mesa, o que fez Percy pular assustado. — Levante essa cabeça e fale! Agora!
Percy fez o que seu pai lhe pediu e encarou seus olhos azuis zangados.
— Desculpe, papai. — Ele disse fracamente.
— Eu não quero se desculpe comigo. — Arthur falou sem desviar o olhar. — Quero que explique o que acabei de ler naquela carta.
— Ontem... eu... — Percy tentou falar e arrumou os óculos tentando se controlar. — Eu estava namorando com uma monitora do sexto ano da Ravenclaw, Penny Clearwater. Nós terminamos... ela terminou comigo, porque... eu não sei porque... Pensei que ela estivesse gostando de outra pessoa.
— O garoto que te deu um soco. — Molly perguntou ao se sentar em frente ao filho. — Espero que ele seja punido...
— Fique quieta, Molly. — O marido a interrompeu. — O outro garoto não é nosso filho, estou interessado em saber sobre as ações de Percival, aqui.
— Penny passava muito tempo com Trevor e mantinha segredos sobre suas atividades. — Percy engoliu em seco. — Ela me disse que algumas coisas eram sobre o trabalho, Penny trabalha na GER e, às vezes, se envolve em coisas confidencias. Mas, eu não acreditei, achei que ela simplesmente não confiava em mim, então, um dia, Penny sumiu, deixou Hogwarts com Trevor. Penny me disse que pediu que ele a levasse ao Beco, pois Trevor já pode aparatar e era urgente, ela precisava estar na GER rapidamente. Eu não acreditei, obviamente, e lhe disse que ela não deveria se aproveitar dos privilégios de ser um membro da AP e ter autorização para deixar a escola, para sair com garotos.
— E, você não sabe porque ela terminou com você? — Arthur disse sarcasticamente. — Sabe o que sua mãe faria comigo se eu lhe chamasse de mentirosa, Percival?
— Mas, talvez, essa garota esteja mentindo, com tantos segredos... — Molly tentou defender o filho outra vez.
— Isso não importa! — O marido a interrompeu outra vez. — Obviamente, Percival não confiava nela ou ela tinha qualquer confiança nele para contar informações que não fossem sigilosas. Isso só teria um resultado, vocês dois não estão destinados a ficar juntos e a garota me pareceu muito sensata em terminar uma relação negativa.
— Mas... eu a amava! — Percy protestou magoado. — Eu... eu lhe disse que estava disposto a mudar, ser menos desconfiado e ciumento, mas, Penny se recusou a me dar uma chance! Então, menos de um mês depois, ela está indo a um encontro com o garoto que ela jurou que não tinha nada! Obviamente era mentira! Todo esse tempo, eles devem ter estado juntos pelas minhas costas e rido de mim!
— Oh, Percy... — Sua mãe o olhou desapontada também. — Isso não lhe dá o direito de fazer o que você fez.
— Mas... mãe... — Percy ficou perdido porque pensou que ela o entenderia.
— Nada de, mas, mãe. — Molly disse chateada. — Nós lhe ensinamos a ser melhor do que isso, Percy. Mesmo que você esteja certo sobre suas conclusões, ofender uma colega desta maneira e usar sua posição de monitor para puni-los, era o caminho errado, filho.
— Eu perdi a cabeça! — Percy apoio a cabeça entre as mãos e puxou os cabelos ruivos. — Estava com tanta raiva! Eu ainda gosto dela e tinha esperança de reconquistá-la, mas, agora...
— Agora, você perdeu até sua amizade e a confiança das Profs.ª Vector e McGonagall, além de ter nos decepcionado. — Arthur disse com seu rosto ainda severo. — Você cometeu erros em sua relação com essa jovem e ela deve ter cometido os dela, pois os dois são jovens e tem muito o que aprender. Mas, existem algumas coisas que um homem sempre deve compreender, não importa a sua idade, Percival, e juro, que nunca pensei que seria obrigado a ter que repreender um filho meu por isso. — Ele se levantou e se inclinou perto da orelha de Percy. — Um bruxo, um cavalheiro, um homem decente jamais importuna uma mulher! Ele não a assedia, a segue, a ofende ou persegue, mais importante, um filho meu nunca ignora quando uma mulher lhe diz não!
— Eu sei, pai... — Percy tentou falar, mas o pai bateu com a mão na mesa e fez pular outra vez.
— Quantas vezes neste último mês, desde que vocês terminaram, você a seguiu, a emboscou ou tentou convencê-la a voltar? — Sr. Weasley perguntou, e viu a expressão de culpa de Percy. — Responda!
— Eu apenas... queria que ela me ouvisse e queria ter certeza que Penny não mentiu! Ela me disse que terminou porque percebeu que nossa relação era ruim, pois, enquanto ela tentava me transformar em alguém diferente, eu a criticava sem parar por sem quem ela era. —Percy arrumou os óculos agitadamente. — Mas, eu tinha certeza que o motivo era o Trevor! E, eu estava certo!
— Percival! — Arthur falou furioso. — Você está se ouvindo? Você diz que gosta dela, mas tudo o que ouvi até agora, foi um garoto imaturo e arrogante dizendo que não aceitou ser largado! Você ficou com o orgulho ferido, porque Penny ousou lhe dizer que você não é perfeito! Então, ao em vez de reconhecer os seus erros, você decidiu que o motivo do fim do namoro era porque Penny te traiu! Não contente, você decidiu segui-la pela escola, emboscá-la e assediá-la, até encontrar uma situação que comprovasse sua conclusão egoísta! — Percy abriu a boca chocado, mas nenhuma palavra de defesa lhe ocorreu. — O que aconteceria se Penny tivesse ido a um encontro com outro garoto? Você mudaria suas desconfianças de traição para ele? Ou, talvez, se Penny só aceitasse sair com Trevor daqui um mês, no verão ou em um ano? Você ainda acreditaria que foi ele quem provocou o fim da relação de vocês?
— Eu... — Percy olhou para as próprias mãos ainda chocado.
— Mesmo se Penny começou a gostar deste garoto antes de vocês terminarem, acredita mesmo que ela o traiu com ele? Você a conhece melhor do que nós, é sua colega há 6 anos e deve saber do seu caráter. — Arthur voltou a se sentar. — Responda!
— Não... acho, Penny é muito correta, mas, ela mudou ultimamente, desde que começou a trabalhar na GER. — Percy deu de ombros confuso.
— Ela tem mais responsabilidades, foi obrigada a amadurecer, isso não a transforma em um adultera. — Arthur suspirou. — E, não importa, se Penny fez algo da qual deva se envergonhar, ela e seus pais lidarão com isso, assim como Trevor e seus pais devem ter recebido uma carta não muito agradável. O que discutimos aqui, são as suas ações, porque, independente do que você pode pensar que Penny fez ou não fez, a maneira como você agiu, é intolerável e decepcionante.
— Desculpe, pai. — Percy continuou a olhar para as mãos.
— Não é a mim que você pedirá desculpas, Percival, mas, sim, para a menina que você chamou de prostituta. — Arthur respondeu e Molly escondeu o rosto nas mãos de vergonha. — E, você está de castigo. Eu conversarei com a sua mãe e decidiremos qual o castigo, depois lhe informamos. Suba para o seu quarto e não saia até que eu vá procurá-lo amanhã.
— Sim, senhor. — Percy se levantou e deixava a cozinha, quando parou e se voltou para os pais. — Ginny também foi a Festa do Slughorn.
— Ginny? — Molly perguntou confusa.
— Eu não sabia que ela se destacava em Poções. — Arthur disse suavemente.
— Não sei sobre as suas notas, mas, ela não foi convidada pelo Prof. Slughorn. Ginny foi convidada por um menino e se vestiu de maneira muito inapropriada para ir a tal festa. — Percy disse com amargura. — Eu a encontrei vagando por Hogwarts com o garoto e já era mais de meia noite.
Percy deixou a sala e subiu para o seu quarto, enquanto Molly resmungava sobre Ginny.
— Vamos jantar e conversamos com ela, sinceramente, duvido que a versão de Percy esteja correta. — Disse Arthur cansado.
— Porque você diz isso? — Sua esposa perguntou surpresa. — Percy não mentiria.
— Não, mas, ele tem uma maneira bem particular de interpretar e concluir os fatos, como percebemos há pouco. — Ele respondeu. — E, estava com raiva depois do seu confronto com Penny e Trevor, assim, qualquer coisa que a irmã estivesse fazendo, se tornaria maior do que a realidade.
— Pode ser, mas, independentemente disso, Ginny não tem autorização para ir a encontros e festas com meninos. — Disse Molly zangada.
— Bem, vou tomar um banho e me arrumar para o trabalho. — Arthur se levantou cansadamente.
Pouco depois, enquanto eles jantavam, Molly perguntou a Ginny sobre a tal festa e quem a convidou para um encontro.
— Harry me convidou para ser a sua acompanhante, mãe. — Ginny disse tranquilamente, pois não sentia que estava errada.
— Harry? Como em Harry Potter? — Seu pai perguntou surpreso.
— Sim, papai, nós somos amigos. — Ela sorriu feliz por poder dizer isso, seu pai devolveu o sorriso. — De qualquer forma, não foi um encontro ou algo do tipo, apenas fomos como amigos, na verdade, fomos em um grupo de amigos. Luna foi com o Neville, Hermione com o Terry e, nos divertimos muito, a comida era muito boa e havia muitos bruxos importantes. Gwenog Jones era uma das convidadas. — O sorriso de Ginny era megaestrelado. — Consegui uma revista da pré-temporada das Harpies autografado e uma foto!
— Uau! — Ron falou com a boca cheia. — Uma pena que ninguém me convidou. Tinha algum jogador dos Canhões, Ginny?
— Não. Sinto muito, Ron, mas, não acho que eles seriam suficientemente importantes para serem convidados pelo Slughorn. — Ginny disse com um sorriso provocador.
— Ei! — Seu irmão a olhou irritado e voltou a comer.
— Percy disse que a encontrou vagando por Hogwarts com um menino e era bem tarde. — Sua mãe perguntou ainda com expressão reprovadora. — E, que você estava vestida inapropriadamente.
Isso fez a expressão dos gêmeos se fechar, obviamente chateados com o Percy por dedurar a irmã e ainda inventar calúnias.
— Eu não estava vagando. — Ginny disse tentando controlar o temperamento, mas seus olhos castanhos brilharam em chamas raivosas. — Harry estava me acompanhando até o retrato da Mulher Gorda, como um cavalheiro deve fazer. Foi quando passamos pelo quinto andar e vimos o Percy discutindo com Penny e Trevor. — Ela deu de ombros como se não fosse da sua conta. — Percy ficou zangado quando me viu e tentou me arrastar para a Torre agarrando o meu braço, mas, Harry o impediu e disse que me acompanharia, já que eu era a sua convidada. E foi só.
— Bem, e quanto as suas roupas? — Sra. Weasley persistiu e Ginny suspirou, tirou a foto com Gwenog do bolso e estendeu a eles.
— Veja por si mesma, mãe, não tem nada demais. — Ginny disse e voltou a comer tranquilamente, enquanto seus pais olhavam a foto que ela e Harry tiraram com Gwenog. Vance a batera e pedira autorização para publicar no Profeta, com um pequeno artigo sobre a festa do Slughorn, Harry disse que tudo bem. — A Srta. Vance a tirou e fará uma reportagem para o Profeta, assim, essa foto pode estar nos jornais.
— Legal, Ginny! — George disse animado olhando a foto com Fred, Ron também deu uma espiada, mas, apenas fez uma careta rabugenta, provavelmente estava com inveja, pensou Ginny, divertida.
— Bem, realmente a roupa não é inadequada, mas, você é muito jovem para ir à festas com meninos, mocinha. — Disse a Sra. Weasley reprovadora. — Porque os outros do seu grupo não os acompanhou quando deixaram a festa?
— A festa não tinha limite de idade, mãe, e havia um monte de adultos, não era como se fossemos apenas nós, sem supervisão. — Ginny disse irritada por ter que ficar se justificando. — E, Harry e eu, deixamos a festa mais cedo porque íamos treinar hoje de manhã na Caverna, os outros preferiram ficar até mais tarde. Isso não foi bem, porque eles dormiram demais e ninguém apareceu para o treino.
— Ai, aposto que o Harry lhes deu um esporro. — Fred disse malicioso.
— Acho que ouvi algo sobre correr o dobro da distância durante as férias. — Ginny disse divertida e os gêmeos arregalaram os olhos de pavor.
— Ainda bem que não perdemos o treino, Fred. — Disse Fred divertido.
— Sim, mas nós não perderíamos, George. — Disse George.
— Ah, sim, não fomos convidados para essa festa chique de bruxos importantes. — Disse Fred e, ao mesmo tempo, eles encerraram. — Como a nossa irmã!
Os três riram divertidos e Arthur os acompanhou, Ron sorriu levemente, apesar de ainda estar meio rabugento. Molly ainda encarava a foto com olhar reprovador, mas, não disse mais nada.
Enquanto Molly acompanhava o marido até a lareira para se despedir, Fred e George se inclinaram perto da irmã.
— Imagino que já esteja planejando sua vingança contra o Percy. — Disse Fred com um sorriso malicioso.
— Pode contar conosco, cara irmã importante. — Disse George sincero.
— Hum... — Ginny os olhou pensativamente divertida. — Deixarei que o Percy enfrente o castigo do papai primeiro e relaxe durante a semana de férias, mas, quando voltarmos para Hogwarts... — Seu sorriso se tornou malicioso. — Ele é todo meu.
Isso fez os gêmeos se olharem brevemente e pensarem, por apenas um segundo, "coitado do Percy", antes de sorrirem animados com a expectativa da vingança.
Na manhã seguinte, antes de sair para o seu trabalho no Ministério, um cansado Arthur entrou no quarto do Percy e o despertou.
— Pai? — Percy se sentou na cama rigidamente.
— Estou saindo para o trabalho, mas, antes, quero conversar com você. — Arthur disse. — Não preciso lhe dizer como o seu comportamento me decepcionou.
— Sim, papai. — Percy olhou para baixo envergonhado.
— Entendo que você é jovem e não sabe todas as respostas, mas, o seu problema é que você age como se soubesse todas as respostas. — Seu pai disse. — Sua arrogância e prepotência o afasta de seus irmãos, que não aceitam ser lecionados o tempo todo por cada pequena coisa.
— Eles estão sempre quebrando as regras... — Protestou Percy, mas, ao ver o olhar do pai, abaixou a cabeça.
— Você não é seus pais, professores ou um adulto, Percy, até onde sei, você é o seu irmão, mas age como se fosse o monitor particular deles. Mesmo aqui, em casa, você está sempre controlando, cheio de regras, criticando o que, na sua opinião, é um comportamento errado. — Arthur o encarou. — Você fez o mesmo com Penny, tentou impor suas regras e opiniões, criticou quando ela fez ou falou algo do qual discordava. Mas, Percy, você não é o dono da verdade e precisa parar de ver o mundo por trás dos seus óculos quadrados e intolerantes. Não há nada de errado em querer seguir regras, mas, não cabe a você impor aos outros o seu modo de ver e agir.
— O que devo fazer, então? — Percy disse engolindo em seco.
— Primeiro, você deve admitir que está errado, aceitar que algumas pessoas têm suas próprias opiniões ou visões do mundo e que está tudo bem sermos todos diferentes. Então, você deve aprender a ser mais tolerante, generoso e paciente, pois se continuar a ser tão crítico e arrogante, apenas afastará a todos e acabará sozinho. — Percy acenou olhando para as mãos envergonhado. — Você cumprirá suas detenções, se desculpará com Penny e Trevor, não quero saber de você nem mesmo olhar na direção deles, muito menos os seguir. — Percy voltou a acenar. — Também se desculpará com a sua irmã por tentar colocá-las em problema.
— Mas, papai! — Percy arregalou os olhos indignado.
— Aqui. — Arthur lhe mostrou a foto. — Ginny foi com um amigo, em um grupo de amigos, a uma festa cheia de adultos e professores. Ela estava vestida de maneira apropriada e Harry apenas a acompanhou até a entrada da Torre, onde se despediram. Acredito nisso porque confio em minha filha e sei que ela não faria nada inapropriado, muito menos aos 11 anos de idade. Se você não confia em sua irmã, também não ouse julgá-la, Percy Weasley!
— Eu... — Percy olhou a foto e franziu o cenho, pois a roupa da irmã, apesar de trouxa, não tinha nada demais.
— Eu entendo que você estava com raiva depois do seu confronto com Penny e Trevor, mas, ofender e tentar arrastar a sua irmã pelo braço, não é o comportamento que eu espero de você. — Arthur continuou severo. — Apesar de ser o seu irmão mais velho, tecer julgamentos intolerantes ou tentar controlá-la fisicamente, não é o jeito certo de agir, Percy.
— O que eu faço, então? — Ele perguntou confuso.
— Respire fundo, observe a situação, pergunte com calma o que está acontecendo, escute a resposta com atenção. Depois de tudo isso, se ainda acreditar que o que eles estão fazendo é muito grave, você deve informar um professor ou a sua mãe e eu. — Arthur disse. — Se não for grave, você pode aconselhá-los, não criticar, não lecionar e ser dono da verdade, apenas escute e diga o que pensa, oriente com generosidade e paciência. Eles são seus irmãos, Percy e precisam do seu apoio, afeto, não de alguém que lhes diga que não são bons o suficiente. Isso também serve para os alunos mais jovens, que estão aprendendo, conhecendo Hogwarts, que podem cometer erros e precisam ser ajudados, ensinados, nunca, humilhados, Percy.
Percy acenou sentindo o rosto esquentar de vergonha ao perceber o seu comportamento arrogante.
— Tentarei melhorar, papai, prometo. — Ele sussurrou e sentiu o seu pai bater em seu braço com carinho.
— Eu sei que vai, mas, a partir de agora, nós dois passaremos muito tempo juntos, Percy e, me assegurarei de que você não apenas tente melhorar, mas se torne o homem que sua mãe e eu o criamos para ser. Entendido? — Percy acenou levemente confuso. — Bom, durante o dia, você deixará o seu quarto apenas para ajudar sua mãe com as tarefas de casa, limpeza, cozinha, jardinagem e o que mais ela precisar. Nada de enviar cartas para os seus amigos e estudará apenas 3 horas por dia...
— Apenas 3? — Percy arregalou os olhos apavorado. — Mas, os exames estão chegando e...
— 3 Horas é tempo o suficiente, Percy. — Seu pai disse com firmeza. — Durante o resto do tempo, além de ajudar a sua mãe, quero que reflita sobre tudo o que conversamos. E, à noite, você irá trabalhar comigo no The Bar.
— O que? — Percy encarou o pai chocado.
— Com as férias de primavera, o movimento aumentará e eles pretendem contratar mais ajuda, assim, solicitei a minha gerente, uma vaga para você e ela concordou. Você começa hoje a noite e, se mostrar-se eficiente, poderá trabalhar durante as férias de verão também. — Arthur disse seriamente. — Espero que se mostre eficiente, Percy, pois acredito que está na hora de trabalhar e ajudar esta família.
— Eu..., mas, eu, nunca trabalhei de garçom, papai. — Percy disse meio assustado com a pressão de trabalhar com seu pai em algo que nunca fez.
— Você não trabalhará atendendo os clientes e sim, na cozinha do The Bar. Cuidará da limpeza, basicamente, lavará os pratos e ajudará o cozinheiro ou a gerente no que eles te mandarem fazer. — Arthur se levantou e bocejou, decidindo tomar mais um café antes de sair. — Esteja pronto para sairmos no horário, Percy, sem atrasos.
— Sim, senhor. — Percy observou o pai sair do quarto, se deixou cair em sua cama e encarou o teto enquanto se perguntava como ele, justo ele, se meteu em tantos problemas.
Na Mansão Malfoy, o novo elfo doméstico recolheu a bolsa de Narcisa e a mochila de Draco quando eles chegaram da estação naquela tarde de quinta-feira. Draco olhou estranhamente para a mãe que parecia muito, mas muito diferente da sua mãe de sempre.
— Obrigada, Nifty. — Narcisa disse sorrindo suavemente para o elfo, que acenou e sorriu de volta.
— Mãe? — Draco parou confuso ao ouvir sua mãe agradecendo ao elfo. — Você está bem?
— Sim, querido. — Narcisa disse meio sonhadora. — Estou ótima.
— Onde está o papai, mesmo? — Ele perguntou preocupado.
— Está na França, visitando o seu avô. — Narcisa respirou fundo antes de olhá-lo com atenção. — Sei que estou agindo estranhamente, mas, você não deve se preocupar. Suba, se troque e lave as mãos, o almoço será servido em 10 minutos.
— Ok. — Draco disse mais calmo, porque isso era mais normal.
Depois do almoço, em que Draco tentou atrair a atenção da sua distraída mãe com os acontecimentos de Hogwarts, ele decidiu perguntar o que o vinha incomodando mais.
— Mãe, porque a senhora me obrigou a agradecer a Potter pelo convite para a inauguração do tal Jardim da Lily? — Finalmente Narcisa deixou os pensamentos do futuro bebê de lado e deu toda a sua atenção ao filho.
— Você fez o que lhe orientei? O que Potter disse? — Ela perguntou interessada.
— Potter enviou os seus cumprimentos e que, como familiares, ele espera conhecê-la em breve. — Draco disse mal-humorado. — E, disse que agradecimentos não se fazem necessários, pois ele enviou convites para todos os bruxos do Reino Unido.
— Ainda assim, você fez bem em atender o meu pedido, Draco. — Narcisa o elogiou.
— Porque a senhora queria que eu fizesse isso? — Ele perguntou confuso.
— Vamos até a saleta e conversaremos, existem algumas coisas que você precisa saber, meu filho. — Narcisa se levantou da mesa e, elegantemente, caminhou até a saleta do segundo andar, fechando a porta depois que Draco entrou.
— Algo ruim aconteceu? Com o papai? — Ele perguntou sentindo o estômago se contorcer de tensão.
— Sim e não. Seu pai está bem, mas... — Narcisa se sentou e pediu ao filho que se sentasse ao seu lado no sofá confortável. — Você leu nos jornais que meu primo, Sirius Black, entrou com o pedido oficial para nos expulsar da Família Black.
— Sim. — Draco deu de ombros. — Pensei que não era importante, quer dizer, papai pode dar um jeito de impedi-lo. Certo?
— Draco... — Narcisa suspirou com certa pena do filho que ainda enxergava o pai como um ser perfeito. — Seu pai não pode impedir e, na verdade, foram suas ações que causaram isso.
— O que? — Draco se mostrou chocado.
— Eu não mentirei para você, Draco, pois não é mais uma criança e tem idade o suficiente para entender sobre erros e consequências. — Narcisa falou com firmeza. — Seu pai cometeu um erro muito grave...
— Mentira! Meu pai não fez nada errado! — Draco se levantou zangado e se afastou da mãe. — Como pode dizer isso?
— Digo, porque é a realidade e você precisa encará-la de frente, Draco! — Narcisa disse com frieza, mas, seus olhos mostravam preocupação pelo filho. — Você não pode se deixar cegar pelo amor e lealdade que tem por seu pai, filho. Eu também o amo e lhe sou leal, mas, não me sentarei atrás e permitirei que seu pai destrua a nossa família, tudo por causa dessa sua obsessão pela pureza de sangue.
— Não tem nada de errado nisso. — Draco o defendeu. — É assim que o mundo mágico deveria ser, puro.
— Sim? — Narcisa suspirou cansada. — Eu escuto sobre isso desde que era uma garotinha pequena, Draco, e, mesmo com a guerra terrível que vivemos, ainda não me convenci dessa afirmação. No entanto, a questão não é como o mundo deveria ser e sim, como ele é. Diga-me, Draco, seja sincero comigo, como estou sendo com você. Realmente, você acredita que chegará o dia em que não haverá nascidos trouxas ou mestiços em nosso mundo?
Draco franziu o cenho confuso, depois acenou negativamente, pois apesar de não gostar de todos aqueles sangues ruins, não acreditava que algum dia eles desapareceriam.
— Bem, você é um Slytherin, Draco e, desde o nascimento está aprendendo sobre o que isso significa. — Narcisa disse quase gentilmente. — Alguns podem dizer que a principal característica da nossa Casa é a ambição, mas nós dois sabemos que não é verdade. Qual é a qualidade mais importante para um verdadeiro Slytherin?
— Hum... — Draco tentou se lembrar das lições que aprendera com a mãe sobre ser um Slytherin. Seu pai diria algo sobre a superioridade puro sangue ou atingir seus objetivos a qualquer custo, mas, sua mãe falaria sobre ser esperto, inventivo e... — Adaptação. Um Slytherin se adapta a qualquer situação rápida e espertamente.
— Sim. — Sua mãe sorriu orgulhosa e Draco retribuiu sentindo o estômago se esquentar ao sentir o seu carinho. — Você entende, porque você é um Black, como eu, Draco. Nosso sangue tem magia desde os tempos dos Druidas, nossa magia é forte e adaptativa, desde que o mundo se tornou um mundo. E, nós prosperamos, evoluímos e seguimos fortes, mesmo nos tempos difíceis... mesmo quando nos retiram o privilégio de pertencer a Família Black. Nós dois encararemos essa perda terrível e desonrosa com nossa cabeça erguida e, nos adaptaremos, prosperaremos e sairemos mais forte ao fim. Entendeu?
— Sim, senhora. — Draco engoliu em seco ao perceber que a situação era mais complicada do que pensou ao ler a entrevista de Black no Profeta. — Porque Black decidiu nos expulsar?
— É Sr. Black ou primo Sirius, para você, Draco, não quero que o desrespeite quando o conhecer. — Narcisa disse firme e Draco acenou. — Seu pai tentou assassiná-lo há algumas semanas, no incidente da Travessa do Tranco.
— O que? — Draco não escondeu o choque ao ouvir suas palavras.
— No dia de São Valentin, quando os lobisomens supostamente tentaram invadir e tomar a Travessa. — Narcisa explicou. — Na verdade, o que aconteceu foi que o seu pai se aliou aos lobisomens e planejou matar Sirius em uma emboscada. Não deu certo, apesar de muito ferido, meu primo não morreu e os aurores apareceram, pois estavam vigiando a Travessa. Seu pai fugiu por muito pouco, Draco, e, ele pode ter sido identificado, portanto, apesar de não ter sido preso, rumores dão conta de que os aurores o estão investigando.
Draco abriu a boca em choque e empalideceu com o pensamento horrível do seu pai ser enviado a Azkaban. Pansy Parkinson viveu essa terrível tragédia há alguns meses, a garota chata ficou inconsolável, sempre pálida, com olheiras, mal se alimentando, até que Slughorn a enviou para a Curandeira da escola, que lhe deu um fim de semana em casa para ficar com sua mãe. Depois disso, apesar de mais silenciosa, Pansy pareceu ficar melhor pouco a pouco. As gêmeas Carrows, apesar de mais jovens e de terem perdido a mãe, morta no ataque ao Beco, e da prisão do seu pai/tio, agiram normalmente, como se nada demais tivesse acontecido. Até mesmo Draco achou isso bem assustador.
— Porque? — Draco se mostrou confuso. — Porque papai fez isso?
Narcisa acenou aprovadora por seu filho fazer a pergunta certa ao em vez de se lamuriar ou se indignar, este era um hábito detestável que o menino pegou de Lucius.
— Essa é uma boa pergunta, Draco. — Narcisa disse com um leve sorriso. — Você conhece o seu pai, então, me responda, porque ele fez isso?
— Hum... o pai não gosta do Sr. Black? — Draco especulou.
— Isso é verdade, mas, seu pai é um Slytherin, afinal. Acredita que ele correria tantos riscos apenas porque não gosta de alguém? — Draco olhou para os olhos cinzentos de sua mãe e acenou negativamente.
— Não. Papai fez isso por dinheiro, não é? E, talvez, porque o Sr. Black estava no caminho de alguns dos seus planos. — Ele disse lentamente.
— Muito bem. — Narcisa apertou seu ombro em um cumprimento orgulhoso. — Agora, seu pai cometeu um erro, Draco e, esse erro teve consequências. Escute com atenção tudo o que aconteceu... — Narcisa falou sobre quais eram os planos de Lucius, trair os lobisomens e reivindicar a herança Black na justiça.
— Potter jamais aceitaria isso. — Draco disse convicto.
— Mesmo? Acredita que um menino poderia lutar contra o seu pai? — Narcisa se mostrou curiosa e Draco endireitou os ombros animado por ela querer sua opinião, seu pai sempre o descartava.
— Eu o observei durante o último ano, bem... Potter é muito discreto, não mostra muito, mas, depois do que aconteceu no trem, quando ele me ameaçou com a adaga.
— Eu me lembro disso. — Narcisa franziu o cenho com a lembrança. — Eu lhe aconselhei a não o provocar infantilmente e seu pai ficou muito zangado com suas indiscrições.
— Sim. — Draco fez uma careta se lembrando da bronca que levou do seu pai por falar o que não devia na frente do Potter e seus amigos. — Bem, o fato é que ele me ameaçar com a faca não me preocupou, sabe, mas, sim, ele ter mentindo tão bem depois, e na frente de Dumbledore! Eu juro, mãe, Potter praticamente obrigou o diretor a fazer o que ele queria, tinha resposta para tudo, enfrentou o pai e o professor Snape. E, Potter fez tudo isso, com um sorriso no rosto.
— Interessante. — Narcisa disse pensativa ao se lembrar que Sirius lhe disse que a ideia de a recrutar, por assim dizer, era do seu afilhado. — Depois disso, você decidiu observá-lo? E o que viu?
— Bem, como disse, Potter não mostra muito, mas, ele é muito forte, socialmente falando. — Draco disse suavemente. — E, tem a amizade e lealdade de muitos alunos, puros, mestiços e nascidos trouxas, sem distinção.
— Eles os seguem? — Narcisa perguntou sentindo um frio na espinha.
— Seguir? — Draco se mostrou confuso. — Não, é mais como se Potter os unisse, entende? Eu o vejo conversando com um garoto do sétimo ano da Ravenclaw, então, uma garota do quarto ano da Hufflepuff chega e eles conversam e riem tranquilamente. No minuto seguinte, Potter toma café da manhã na mesa da Gryffindor com primeiros anos ou almoça com os quartos anos, então, ele janta na Ravenclaw, mas, uma aluna ou aluno da Hufflepuff se senta ao seu lado para conversarem... — Draco parou com o cenho franzido. — Parece estranho dizer isso, mãe, mas, eles todos parecem amigos entre si, no entanto, tudo gira em torno do Potter.
Narcisa franziu o cenho tentando entender o que exatamente isso significava, mas, seus pensamentos acabavam sempre voltando para o Lord das Trevas, com seu carisma e habilidades em conquistar seguidores.
— Ok, isso é interessante, mas, ainda não podemos dizer o que significa, assim, o melhor é que se mantenha observando, Draco. — Narcisa disse. — Agora, mais do que nunca, precisamos compreender o outro lado e nos adaptar com rapidez e esperteza.
— Certo, eu farei isso. Bem, como dizia, depois que vi o Potter enfrentando o diretor e o pai daquela maneira, não acredito que ele aceitaria que alguém o roubasse. — Sua mãe acenou entendendo sua colocação. — Continue me contando o aconteceu depois do que aconteceu na Travessa, mãe. — Draco pediu educadamente.
— Bem, além da expulsão da Família Black e a investigação dos aurores, seu pai também enfrentou outros dissabores, financeiros e sociais, principalmente. — Narcisa contou sobre os problemas financeiros que enfrentavam, a perda da amizade e sociedade com Tibalt Avery e o afastamento social dos seus outros amigos. Por fim, explicou como Lucius concordou em desfazer todos os negócios ilegais, investir em negócios lícitos, se mudarem para a França e reativarem a Fazenda Redoutable.
— Quer dizer que vamos viver com o vovô? — Draco arregalou os olhos. — Nunca voltaremos para a Inglaterra? Mas, e Hogwarts? Eu não quero sair da escola!
— Draco, isso é maior do que Hogwarts. — Narcisa disse com firmeza. — Mas, não, você não mudará de escola e, sim, viveremos com o seu avô, Abraxas.
Seu filho pareceu aliviado, mas, fez uma careta com a ideia de viver com o seu impaciente e crítico avô.
— Não gosto da maneira como ele te trata, mãe. — Draco disse baixinho.
— E, eu não gosto da maneira como ele te trata, filho. — Narcisa lhe deu um meio sorriso. — No entanto, essa foi a única maneira de impedir que o seu pai acabe em Azkaban.
— Então, você acredita que os rumores sobre a investigação são verdadeiros? — Draco perguntou baixinho.
— Sim, acredito. Infelizmente, seu pai não está levando tão a sério como deveria e tem agido imprudentemente. No entanto, se ficarmos por alguns anos na França, investirmos em negócios lucrativos e lícitos, o que aconteceu no passado não poderá ser provado e seu pai estará seguro. — Narcisa expôs sua ideia. — Quando retornarmos, não haverá mais investigações e nossa vida social e financeira voltará a ser o que era, quem sabe, seu pai e Tibalt poderão até retomar a amizade.
— Ok. Me parece uma boa ideia, mas, o que isso tem a ver com Potter? A senhora acredita que agradecer por um convite, mudará a decisão do Sr. Black em nos expulsar? — Draco perguntou confuso.
— Esse agradecimento, Draco, foi uma lição sobre o que significa ser um verdadeiro Slytherin, além de sua mãe lhe ensinando a ser um Black. — Narcisa disse com determinação. — O mundo está mudando, Draco, e não podemos fazer nada para impedir isso. Cada vez mais mestiços e nascidos trouxas ganham espaço, direitos e deveres em nosso mundo. A partir de agora, eu participarei ativamente da sua educação e o ajudarei a aprender como se adaptar a esse novo mundo.
— Quer dizer, que devo aceitar que eles ganhem poder? Papai jamais concordará com isso! — Draco protestou. — Ele os odeia, mamãe, eles são intrusos!
— Draco! Olhe para mim! — Narcisa segurou seus braços com força e o encarou olho no olho. — Eu sou sua mãe! Sua carne! Seu sangue! Você é o meu coração, minha vida e tudo o mais que importa neste mundo! Eu morreria por você, aqui e agora! Lançaria o meu último suspiro para que você viva! Para que esteja seguro!
— Mamãe! — Draco protestou emocionado por suas palavras.
— Eu entendo Lily Potter, e um dia, você terá um filho e a entenderá também. — Narcisa disse ignorando a única lágrima que correu por seu rosto e surpreendeu seu filho, que nunca a viu tão viva de emoções. — Mesmo acreditando que somos superiores e desejando um mundo livre dos sangues ruins, se o Lord das Trevas tivesse decidido subir ao seu quarto e matá-lo em seu berço, eu faria o que Lily Potter fez. — Sua expressão se tornou feroz e protetora. — Eu me colocaria em frente ao seu berço, imploraria, lutaria, morreria e mataria ele, sem pensar duas vezes. Entendeu?
— Sim, mamãe. — Draco enxugou o rosto no ombro da camisa, pois sua mãe ainda segurava os seus braços com firmeza.
— Agora, se você entende, apenas um pouco, o quanto eu o amo, preciso que você aceite que qualquer coisa que eu lhe ensinar, te aconselhar ou te pedir para fazer, a partir de hoje, estou fazendo por uma única razão. — Ela disse e levantou uma sobrancelha esperando sua resposta.
— Para me manter seguro. — Draco disse com a voz entrecortada.
— Sim. Sempre. — Ela o puxou e o abraçou com força. Draco fungou contra o seu peito e também a apertou forte ao sentir, pela primeira vez, um verdadeiro medo de perdê-la. — Não estou lhe pedindo que se case ou seja amigo deles, mesmo que deixe de vê-los como inferiores, Draco, apenas, preciso que aceite que eles são parte do nosso mundo e seremos espertos se nos adaptarmos, prosperarmos e sobrevivermos. Entendeu?
Fungando, Draco se afastou acenando e, discretamente limpou o rosto, pois era muito constrangedor estar chorando feito uma menininha.
— Nem seu pai ou seu avô saberão de nossos novos pensamentos ou do que lhe ensinarei. — Narcisa continuou também enxugando o rosto discretamente. — Isso será um ótimo treino para a sua oclumência que está há muito atrasada e precisa de avanço rápido. Durante os próximos anos, eles tentarão transformá-lo em cópias de si mesmo, mas, você não será como eles, Draco. Você não se tornará um Lucius ou um Abraxas, você será Draco! Você é um Malfoy e deve se orgulhar disso, mas, você também é meu filho! Você é minha carne, minha magia! Você é um Black e, a partir de hoje, você não se esquecerá disso!
— Sim, mamãe. — Disse Draco endireitando os ombros e erguendo o queixo com determinação.
— Primeira lição. — Narcisa disse com voz forte. — Você não ofenderá qualquer nascido trouxa, com palavras ou atitudes. Você não humilhará ou agredirá nenhuma ser ou criatura mágica. Mesmo que seja a mais reles criatura, ninguém ouvirá da sua boca o que pensa sobre ela. — Ela se levantou e pegou alguns livros. — O mundo não é preto ou branco, Draco, existem mentiras, verdades, meias verdades, mentiras que são tão repetidas que se tornam verdades. E, verdades que se perderam no tempo ou foram destruídas.
— Não entendo. — Draco se mostrou confuso com a segunda lição.
— Você lerá esses livros, discretamente. — Narcisa lhe entregou alguns livros sobre as teorias da Endogamia, que foram proibidas de serem lidas pelas famílias puras. — Comece por esse. — Ela mostrou um livro de uma Curandeiro que escreveu sua teoria de que os nascidos trouxas existem porque são descendentes de bruxos antigos.
— Ok. — Draco os pegou se mostrando curioso.
— Seja discreto, aqui e em Hogwarts, são livros proibidos, Draco. — Narcisa baixou o tom de voz, mesmo que soubesse que ninguém poderia ouvi-los.
— Sim, senhora.
— Bom, além de oclumência, quero que retome suas aulas de francês e alemão. — Narcisa prosseguiu. — E, durante o verão, contratarei um tutor para que tenha lições extras de Defesa e Esgrima, além de qualquer disciplina em que estiver tendo mais dificuldades. — Draco apenas acenou imaginado que seu verão não seria muito divertido com lições e a presença do seu avô. — Seu pai reativará a fazenda e começará novos negócios, nós dois participaremos disso ao seu lado, ativamente. Seu avô não gostará do envolvimento de uma mulher nos negócios, mas, seu pai me prometeu me tratar como uma igual. Sabe porque faremos isso, Draco?
— Não, mamãe. — Ele disse sincero.
— Porque se o seu pai tivesse sido preso ou morto naquela noite, na Travessa, nenhum de nós dois saberíamos gerenciar os negócios ou os galeões em nosso cofre. — Narcisa disse zangada. — Como uma mulher, eu fui ensinada a ser um esposa e mãe, nunca me ensinaram a sobreviver sem um homem. E, você, como um herdeiro, deve aprender com seu pai desde cedo, pois não pode contar que o terá em sua vida até se tornar um adulto.
— Então, nós dois aprenderemos como nos adaptar no caso do pai... Se, um dia, o pai não puder nos cuidar e proteger, nós faremos isso, um para o outro e por nós mesmos. — Draco disse a encarando nos olhos.
— Sim. — Ela sorriu orgulhosa e Draco engoliu em seco.
— Pode contar comigo, mamãe, para te proteger e cuidar, sempre. — Ele disse sincero.
— Eu sei. Nós dois cuidaremos um do outro, Draco, a partir de agora, nos adaptaremos e sobreviveremos ao que vier. Como verdadeiros Blacks.
