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Desculpa a demora, é o primeiro a dizer. Estou trabalhando muito, como já disse antes, mas escrevo sempre que posso e esse capítulo é um especial para mim, pois queria muito escrever cada uma dessas cenas. Espero que gostem de ler tanto como eu adorei escrever.
Eu finalmente desisti e admiti que preciso de ajuda, pois estou muito sobrecarregada e não gosto de ficar tanto tempo sem publicar, assim, a partir do próximo capítulo, terei uma revisora ou beta me ajudando. Ela apenas revisará os erros gramaticais, mas isso me ajudará muito, pois não preciso perder um tempão com isso. Posso me concentrar no próximo capítulo e acho que ganharei de dois a quatro dias com essa ajuda. Então, obrigada, Debora!
No fim, farei umas considerações sobre o capítulo, pois não quero lhes dar spoilers. Boa leitura!
Até mais!

Capítulo 83

Depois de deixarem Stronghold, eles seguiram para uma reunião na GER. Firenze e Flitwick voltaram para Hogwarts, Lisa e Dean, com grandes sorrisos, retornaram às suas casas e Edgar esperava o grupo ansioso por boas notícias. Ao saber das reações positivas da maioria dos líderes ao acordo, começou a dar ordens para todos os lados.

— Se tudo o que falta é a confirmação final e eles reagiram tão bem, devemos deixar tudo pronto. — Ele disse, na sala de reuniões. — Viajarei para o Egito amanhã mesmo e trarei os Tratados. Precisamos organizar o deslocamento de todos para a ilha de maneira trouxa, não queremos atrair a atenção do Ministério usando muita magia, muito menos com chaves de portais.

— Obrigado por ir ao Egito em meu lugar, Edgar. — Sirius disse agradecido.

— Não se preocupe, Sirius, você tem que passar esses dias de férias com o Harry. Quando meus filhos forem para Hogwarts, me sentirei da mesma maneira. — Ele respondeu sorrindo. — Acreditam que o ritual deve acontecer no próximo fim de semana?

— O senhor acha que não? — Harry perguntou, sentado ao lado do Terry.

— Acredito que algo assim tem que ser planejado com calma; precisamos ter cada aspecto mágico organizado e pronto. — Ele respondeu. — Depois de escolhido qual o ritual que utilizaremos, temos que prepará-lo. Você também tem que se preparar, Harry, e os Tratados têm que ser escritos, lidos e assinados. — Edgar enumerou. — Acredito que fazer tudo às pressas seria perigoso, com grandes riscos de erros, e não devemos especular com uma magia tão poderosa.

— Eu concordo. — Serafina disse. — São muitos detalhes e etapas que devem ser respeitadas e realizadas com cuidado. Podemos tentar assinar os Tratados no próximo domingo e realizar o ritual assim que ele estiver pronto.

— Enquanto isso, os Tratados serão uma boa proteção, além das alas que os quebradores de maldição de Gringotes erguerão. — Edgar acrescentou. — Ian e Mac podem iniciar os trabalhos na vila, encerrar a reforma do castelo, então realizamos a mudança de todos os bruxos lobisomens, e nossa equipe do RH pode começar as entrevistas e selecionar cada um para os novos empregos. Sirius, como está a B&P Construções?

— Ah, bem, tivemos um desenvolvimento interessante, Edgar e Harry, vocês ainda não souberam. — Sirius se inclinou à frente da mesa. — Ian e Mac souberam das nossas intenções, porque eu os contatei em busca de pessoal qualificado para as áreas de especialistas em engenharia, arquitetura, elétrica, ferraria... além disso, eu preciso de uma empresa para reformar o prédio onde a nossa empresa se instalará.

— Já temos um prédio? — Harry perguntou curioso.

— Sim, entre as propriedades que herdei do meu tio Alphard, existe um casarão em Kensington, perto do Holland Park. Não é um prédio comercial padrão, mas a localização é excelente e precisamos apenas converter o espaço em escritórios. — Sirius disse. — Seria tolice procurar outra construtora quando o Ian e o Mac também trabalham na Londres trouxa.

— Ok. — Edgar se sentou, pois antes estivera muito agitado e tinha o hábito de andar de um lado para o outro nesses momentos.

— E os dois sabem sobre a ilha e os lobisomens, afinal, eles tiveram que compreender o projeto e aceitar os lobisomens como seus trabalhadores nas reconstruções das casas em Stronghold. — Sirius explicou e todos acenaram. — Então, expliquei a intenção da nova empresa, de conseguir empregos para os lobisomens e como queremos ser uma enorme construtora que trabalha em todo o Reino Unido.

— E como eles reagiram? — Falc perguntou.

— Interessadíssimos, empolgados e propuseram que nos tornemos sócios. — Sirius disse animado. — Eles disseram que sempre quiseram crescer e trabalhar fora de Londres, mas não tinham o capital financeiro para um empreendimento dessa magnitude. Ajudar os lobisomens e revigorar bairros pobres é apenas um grande e especial bônus. Os dois disseram que uma sociedade seria como um atalho para nós, porque eles têm uma boa estrutura, profissionais que seriam a base para uma fusão com a nossa nova empresa e funcionários. — Sirius olhou para Edgar e Falc. — Não sei dizer como ficaria a divisão, e gostaria de ser responsável pelo setor imobiliário da empresa; quero comprar e vender imóveis como meu tio fazia. E, bem, nós confiamos nos dois, assim, acredito que poderíamos deixá-los responsáveis pela área de construção e reformas.

— Eu gosto disso. — Edgar disse pensativo. — Claro, precisaremos de um diretor financeiro e um advogado lidando com as questões legais e fiscais. É possível que Ian e Mac tenham uma base, como você disse, mas a empresa deverá ser ampliada em dez vezes, pelo menos. No entanto, acho que seria uma grande ideia, sem dúvida.

— Bem, precisaremos de uma avaliação do valor de mercado da empresa deles e saber se seremos sócios no mundo mágico também. — Falc fez algumas anotações. — O melhor é nos reunirmos e tentarmos chegar a um acordo justo de sociedade. O que acha, Harry?

— Acredito que é a solução perfeita, principalmente se isso nos ajudar a colocar a empresa no mercado mais rapidamente e os bruxos lobisomens em seus trabalhos. Na verdade, isso me deixa feliz e me faz pensar que esses podem ser os primeiros movimentos para abrirmos filiais dos nossos negócios no mundo trouxa. — Harry disse pensativo. — Apenas, lembre-os que a nossa prioridade não são lucros a qualquer custo e teremos uma Divisão Evans Trouxa na empresa. E, nunca, em hipótese alguma, abandonaremos os lobisomens.

Todos acenaram e começaram a discutir outros negócios. As Feiras seriam inauguradas em 15 de maio, ou seja, em 35 dias, e era o momento de se iniciar a divulgação desse projeto, assim, Harry teria uma reunião importante com Francisco e Faith na terça-feira para se informar sobre o andamento da construção das Feiras, além de receber um relatório sobre as fazendas. Na quinta-feira, Sirius e Harry dariam entrevistas ao Profeta e para uma das rádios bruxas.

O Emporium Hogsmeade seria aberto no mesmo dia. A Casa dos Gritos já fora destruída e um grande mercado estava sendo construído no local, mas com uma arquitetura bruxa de vilarejo, para combinar com a vila. Sirius estava cuidando desse projeto pessoalmente e os funcionários já tinham sido selecionados. Hallanon estava prestes a receber seus animais de volta da África, a longa viagem, que estava acontecendo por um navio trouxa ampliado magicamente, terminaria no próximo fim de semana. Infelizmente, o percurso não podia ser feito com rapidez mágica, como o Expresso de Hogwarts, por exemplo, porque o mar não podia ser assegurado magicamente para não haver colisões com outros navios. Tia Trissie estava conduzindo os animais, e Harry soube que Diona acompanhava o navio de perto.

A fábrica de cosméticos estava avançando, e, em menos de dois meses, começaria a produzir. Inicialmente, ela seria pequena, pois eles tinham apenas uma loja no mundo mágico e duas no mundo trouxa, mas o objetivo era ampliar o número de lojas em shoppings centers de toda a Europa, e, com isso, triplicarem a produção nos próximos dois anos.

A exploração da mina em Hallanon estava em espera, pois todos estavam muito ocupados com tantas coisas diferentes e ainda não tinham encontrado alguém de confiança para gerenciar a extração. O avô de Zane havia sido o braço direito da sua avó, Euphemia, mas seu trabalho sempre foi concentrado nos animais. Ele disse que tudo o que fazia em relação às Hecatitas era entregar as especiais aos trabalhadores que cuidavam dos animais e supervisionar para que todas fossem devolvidas adequadamente. As alas e contratos mágicos de trabalho impediam que as pedras preciosas fossem roubadas por algum mineiro desonesto, e o supervisor-chefe das minas havia morrido há alguns anos.

Edgar também falou um pouco sobre as lojas, o hotel e o sucesso que era a transformação do Beco Diagonal. Algumas das lojas antigas haviam decidido estabelecer alguns dos métodos de atendimento e venda que as lojas GER implementaram – como aceitar libras das famílias nascidas trouxas, por exemplo; assim, elas não precisavam do ônus ou da inconveniência de terem que ir até o Gringotes.

Harry já tinha recebido alguns relatórios nos últimos meses sobre o progresso das lojas e o sucesso lucrativo, mas era a primeira vez que ele ouvia sobre os problemas. Algumas lojas, ao fim do primeiro trimestre, precisaram de mudanças e ajustes para aumentar as vendas. Outras, ao contrário, já planejavam a ampliação ou até mesmo uma filial em Hogsmeade ou Godric's Hollow, já que a vila tendia a crescer com a inauguração do Jardim da Lily. Também houve alguns casos de funcionários realocados, reeducados ou demitidos, mas os dispensados em definitivo eram poucos. Harry acreditava que, com tantos funcionários, as possibilidades de problemas seriam maiores, mas Edgar o lembrou de que apenas três meses tinham se passado e os números poderiam crescer quando completassem um ano.

Harry escolheu ser otimista, como aconselhou ao seu primo, e ficou feliz quando a reunião acabou e ele pode ir para a casa ver se Duda estava bem depois do seu encontro com o pai. Eles deixaram a GER no fim do dia; Serafina, Falc e Terry seguiram para a mansão Boot e Sirius levou Harry até a Evans House, onde se despediram e combinaram de treinarem na manhã seguinte antes de partirem para Hogwarts. Ao entrar na casa, Harry foi recebido por um animado Ffrind, que latia sem parar e corria à sua volta, pulando e sorrindo de alegria.

— Eu também senti sua falta, garoto. — Harry se abaixou e o ergueu nos braços, estranhando o peso e percebendo que o seu filhote havia crescido bem nesses meses. — Você está tão grande, Ffrind, tão grande e bonito. Meu bom garoto... — Ele sussurrou, aceitando as lambidas e acariciando seus pelos vermelhos. — Você vai adorar Hogwarts, tem um jardim bem grande para você correr e brincar, tem o Hagrid e o Canino, mas você tem que ficar longe da floresta porque ela é proibida. Ok?

Ffrind latiu animado e Harry o colocou no chão, rindo. Ao se virar, se deparou com sua tia o observando com uma expressão carinhosa.

— Tia! Não te vi! Como foi? — Ele perguntou em um ímpeto.

— Você estava distraído. — Sua expressão se tornou triste. — Foi difícil, mais do que eu pensei que seria, e... felizmente, Emily nos acompanhou. — Ela pigarreou tentando controlar a emoção. — Você já tomou o chá? Eu preparei algumas coisas, mas o Duda não quis descer... — Ela o abraçou pelos ombros e o levou para a cozinha. — Estava pensando em fazer sua comida preferida para o jantar e ver se ele come um pouco. E, como foi a reunião? Os lobisomens aceitaram a proposta?

— Praticamente. — Harry se sentou à mesa e se serviu de um sanduíche, biscoitos e um pedaço de bolo de coco, enquanto sua tia lhe servia de uma xícara de chá. — Quase todos foram muito positivos, precisamos apenas que eles conversem com o seu pessoal e da confirmação individual de cada um, afinal, a reação dos líderes não é a resposta de todos. — Sua tia acenou entendendo.

— Por que demorou tanto? Pensei que estaria aqui mais cedo. — Ela perguntou, ao servir uma segunda xícara para si mesma.

— Eu tive uma reunião na GER com o Edgar, Sirius, Serafina e Falc. — Harry deu uma mordida em seu sanduíche, percebendo que estava com fome, algo comum desde que seu corpo foi completamente curado. — Edgar viajará amanhã para o Egito em busca dos Tratados. Acreditamos que ele volte até o fim da semana, mas todos estaremos muito ocupados depois para lidar com esses detalhes.

— Pelo que eu entendi da sua programação da semana, você terá pouco tempo livre. — Petúnia confirmou em tom de pergunta.

— Sim. — Harry pensou por alguns segundos enquanto mastigava. — Amanhã, irei a Hogwarts com o Sirius para mostrar a entrada da câmara secreta aos construtores e quebradores de maldições, assim, a reforma daquela área pode ser iniciada. Na terça, tenho mais algumas reuniões na GER, que precisam acontecer mesmo com a ausência do Edgar. Quarta tem a audiência do nosso pedido judicial para publicar os livros da mamãe sem taxas e impostos abusivos. Ah, à noite, jantarei com o Prof. Slughorn, e espero convencê-lo a ser o professor de Poções de Stronghold e treinar um novo mestre de Poções. Na quinta, tenho a entrevista com o Profeta e a rádio bruxa, além de algum tempo de estudo com o Prof. Bunmi, ele quer revisar nossos estudos dos últimos três meses. E na sexta irei com o Sirius até sua casa ancestral, eu não quero que ele enfrente aquele lugar sozinho.

— Uau! — Petúnia disse surpresa. — Você está pretendendo descansar, aproveitar suas férias, talvez, passar um tempo em casa?

Harry riu suavemente.

— Eu dormirei aqui durante toda a semana, mas quero fazer as refeições e passar algumas horas com os Boots. — Ele respondeu. — No fim de semana que vem, adoraria te levar para conhecer Hallanon, mas tia Trissie estará chegando com os animais e visitas só iriam atrapalhá-la. Então, pensei em irmos para a Mansão Potter, se a senhora não tiver outros planos.

— A casa dos seus avós? — Petúnia perguntou, arregalando os olhos.

— Sim. É incrível, tia Petúnia! — Harry sorriu e seus olhos brilharam. — O lugar mais lindo que já conheci, acredite. Tenho que resolver algumas questões, Sirius e eu temos que contar aos Boots sobre um plano que colocamos em prática e preciso acertar o projeto de reforma com o Mac, o arquiteto. A reforma e preparação para o verão e o Baile começará assim que o Sirius terminar de reformar a Mansão Black. E, nós poderemos nadar!

— Ok. Parece uma boa ideia, e isso poderia distrair o Duda. — Ela disse pensativa. — Durante essa semana sem aulas, ele treinará mais horas no Centro Esportivo e terá algumas aulas extras de matemática.

— Matemática? — Harry ficou confuso, pois sabia que Duda detestava matemática.

— Duda está muito interessado nas aulas extracurriculares de mecânica na sua nova escola, mas tem sofrido para avançar por causa da base ruim que ele teve em matemática. — Ela explicou. — O professor não pode se concentrar só nele e explicar os princípios básicos, e, nas aulas de matemática do seu ano, o conteúdo não pode regredir. Assim, encontrei um tutor para revisar o conteúdo de matemática do primário.

— Legal. — Harry disse pensativo. — Hum..., a senhora não me disse o que aconteceu na visita ao Vernon...

— Ah... — Petúnia hesitou. — Desde o julgamento, estou tentando convencer o Duda a ir a um terapeuta, mas não tive sucesso, então... — Sua voz se embargou. — Quando voltávamos para Londres... Graças a Deus por Emily pode ir conosco e assumir a condução, pois eu não tinha condições. Quando voltávamos, eu disse a ele que marcaria uma sessão e, finalmente, Duda disse que sim. O que eu acho positivo, mas também me preocupa pensar em como ele está se sentindo para finalmente aceitar. — Petúnia se levantou e caminhou com a sua xícara até a janela, onde observou o pequeno jardim. — Eu pensei que ver o pai seria difícil, pesado, mas foi muito pior e... Vernon está tão abatido, perdido... — Ela suspirou. — Fiquei completamente perdida também...

Harry engoliu em seco ao ouvir isso, algo que sempre temera que acontecesse.

— A senhora voltará com ele? — Ele sussurrou roucamente.

— O quê? — Petúnia se voltou para Harry, chocada, e viu o medo em seus olhos. — Harry! Não! Não, não, não... — Ela foi até ele e soltou a xícara antes de abraçá-lo com força e de maneira estranhamente espontânea. Harry retribuiu e escondeu o rosto em sua blusa. — Não, meu docinho... não... Eu disse que fiquei perdida porque não sei o que fazer para ajudar ao Vernon, e eu tenho que fazer alguma coisa porque o Duda precisa do pai. — Ela se afastou e se sentou ao seu lado, o encarando nos olhos. — Eu nunca voltarei para ele, não apenas por você, mas por mim também e... Você precisa acreditar, naquele dia, da queda da escada, eu fiquei horrorizada, não com Vernon, mas comigo. Entende? Como eu poderia deixar a situação chegar àquele ponto? Como eu me casei e me mantive casada com um homem que faria e diria coisas tão terríveis? Mesmo se você crescesse e não vivesse comigo ou não precisasse da proteção da Lily, eu não poderia voltar para ele porque, com o Vernon, eu sou uma pessoa pior e... — Seus olhos se encheram de lágrimas. — Eu não quero ser mais aquela pessoa. Entende?

Harry acenou e enxugou uma lágrima do rosto.

— Eu te amo, tia Petúnia. — Ele sussurrou com a voz embargada.

— Oh... eu... eu também te amo e... sou tão privilegiada por ter o seu amor, apesar de tudo. Você tem um coração tão lindo, tão grande, meu docinho. — Ela o abraçou de novo e riu emocionada. — Você herdou isso da sua avó Jacinth, ela tinha um coração tão grande e generoso, mesmo quando tínhamos pouco, mamãe jamais hesitava em ajudar quem precisasse de ajuda.

— Eu acho que tenho um pouco de todos eles. — Harry disse e suspirou. — Às vezes, é difícil não os ter aqui, então há dias em que se torna insuportável. Foi assim ontem, no Jardim, uma parte de mim odiou tudo... — Sua voz se embargou. — Eu não quero um maldito jardim, eu quero eles! É tão injusto! Ele os tirou de mim! — Harry soluçou contra o seu ombro e a sentiu chorar também.

— Eu senti o mesmo. Todos os elogios e expressões encantadas, os sorrisos e... eu só queria chorar e gritar...

— Eu fiz um pouco disso. — Harry se afastou e fungou limpando as lágrimas. — Gritar, quero dizer, com o Sev e com a mãe de uma colega de Hogwarts. Ela disse que eu deveria ganhar dinheiro com o jardim e me esquecer dos mortos.

— Que cadela! — Petúnia mostrou choque e raiva em seus olhos castanhos esverdeados. — E o que o Sev disse?

— Que minha mãe odiaria o Jardim, ter toda a sua vida exposta e ser chamada de heroína. Disse que conhecia ela muito mais que eu, zombou sobre eu não conhecer a sua voz, nunca ter visto o seu rosto, sentir o seu cheiro ou seu abraço... — Seus olhos voltaram a se encher de lágrimas. — Disse que o meu pai não a salvou, que era culpa dele...

— Maldito! — Petúnia tocou o seu rosto. — Eu o matarei quando o encontrar.

— Mas eu disse ao Snape que eu a conhecia muito mais do que ele, porque sou feito de seu amor, sua carne, sua magia. — Harry suspirou exausto. — Eu disse que ela não amou ninguém mais do que eu e que, por mim, mamãe deu sua vida, que ela nunca faria isso por ele, porque ele não era nada para ela. Snape ficou furioso, acho que é por isso que ele me odeia, meu pai e eu sermos parecidos é apenas uma ferida a mais.

— Esse cara é um imbecil obcecado. — Ela respondeu e se levantou para fazer mais chá, pois precisavam se acalmar. — Como ele poderia pensar que a Lily não amaria e morreria por seu bebê? O que? Sev esperava que ela o amasse mais do que a você?

— Sim, ou pelo menos que ela escolhesse não morrer para me salvar e talvez preferisse viver com ele... Quer dizer, Snape disse algo sobre o papai ter vencido, como se houvesse uma disputa e mamãe tivesse escolhido o meu pai. Quando morreu, ela também escolheu a mim, e acho que isso o consome.

— Você não deve nem pensar nesse homem. — Petúnia serviu o chá quente e suspirou. — Esses tipos de pessoas precisam decidir mudar ou sempre serão o que são. Vernon... nunca pensei que o veria tão derrotado. Ele está mais magro, abatido, está sendo tratado por um psiquiatra, tomando remédios para depressão e, quando nos viu, começou a chorar desesperadamente porque não imaginou que viríamos, juro que ele abraçou o Duda apertado por uns 15 minutos.

— Ele parecia arrependido? — Harry franziu o cenho, sem saber o que pensar.

— Não sei, porque não houve como termos uma conversa coerente, Vernon apenas implorou para não o abandonarmos, pediu ao Duda para não o esquecer ou deixar de amá-lo. — Ela suspirou muito cansada. — Pelo que a Emily verificou, eles o estão monitorando para risco de suicídio.

— O que? Vernon? — Harry abriu a boca abismado.

— Sim. Nos primeiros dias, os presos são observados e ajudados a se adaptarem à penitenciaria, mas Vernon não reagiu. Por alguns dias, ele ficou meio catatônico, sem comer ou falar, assim, passou por uma avaliação psiquiátrica e foi colocado sob remédios e observação rigorosa. — Ela disse lentamente. — Emily disse que isso acontece com esse tipo de personalidade abusiva, sabe, pessoas que passam a vida se sentindo as maiores e melhores ao pisotear em outras. É pura insegurança, baixa autoestima ou amor próprio. Então, quando são derrotadas ou apenas sofrem uma grande perda, essas pessoas desabam, pois elas não têm estruturas para se firmarem. Tudo o que existia dentro delas, que as fazia parecerem fortes, era como um castelo de areia que se desmanchou na primeira onda forte.

— Toda aquela arrogância era só bravata... — Harry disse, chocado, então pensou em seu primo e ficou preocupado. — Duda deve estar preocupado.

— Sim, e acho que se sente culpado também. — Ela disse suavemente. — Ele me disse que passou todos esses dias pensando em seu próprio sofrimento, na vergonha, tristeza ou raiva que sentia. Nem por um momento ele pensou no sofrimento do pai, e acho que isso o abalou.

— Bem, Duda não tinha como saber, e acho normal que ele se concentre em seus sentimentos. — Harry deu de ombros.

— Sim, mas... — Petúnia suspirou. — Acredito que ver o pai daquela maneira o abalou muito, Duda está decidido a ajudá-lo a superar tudo isso e se reerguer.

— Espero que eles fiquem bem. — Harry disse, sincero, pois não desejava nenhum mal a Vernon, principalmente se isso machucasse o Duda. — Hum... fico imaginando se o Malfoy ficará igual ao Vernon quando eu terminar de me vingar.

— O quê? — Petúnia olhou surpresa para o Harry, que tinha uma expressão de satisfação.

— Malfoy, o cara que colocou o diário no aluno e tentou nos matar. — Harry explicou. — Sirius e eu colocamos nosso plano de vingança em andamento e, entre outras coisas, espero que Malfoy tenha um fim ainda pior do que o do Vernon.

— Você acha isso sábio? — Petúnia perguntou preocupada. — Esse homem não é perigoso? E, vingança é o melhor caminho?

— Talvez seja o pior caminho. — Harry deu de ombros. — Mas não permitirei que aquele homem viva impunemente depois do que fez com... — Ele se calou, se levantou da mesa e começou a levar a louça para a pia. — Com o aluno que quase morreu... e ainda tem o assassinato da Carole, além de todos os outros que ele deve ter cometido. — Harry continuou falando e sua tia não fez perguntas. — E Malfoy é poderoso, destruí-lo é uma maneira de enfraquecer Voldemort, que não poderá contar com sua influência quando retornar.

— Ainda é perigoso, não é? — Ela disse baixinho.

— Ser Harry Potter é perigoso, tia, e sempre será assim. — Ele hesitou. — Mesmo depois que Voldemort estiver morto, se eu tiver sobrevivido, minha vida nunca será normal ou pacífica.

— Você... acha que vale a pena, Harry? Viver em um mundo em que sempre estará em perigo? Onde não terá paz? — Ela se levantou mostrando certa angústia. — Não seria melhor viver no mundo trouxa? Esquecer...

— Que sou um bruxo? — Harry terminou a frase com certa frieza. — Esquecer quem eu sou? Seria tão difícil quanto viver sem um coração, tia. E a solução não é fugir e sim lutar por um mundo melhor. Além disso, quem disse que quero viver em paz? — Ele sorriu e seus olhos verdes brilharam friamente. — Talvez o Harry que deixou o número quatro pela primeira vez ficasse feliz com uma vida normal e pacífica, mas esse não é o meu destino, tia Petúnia. Então, se querem brigar comigo, é melhor se prepararem, porque eu não sou mais um gatinho na toca dos lobos. Eu sou o lobo.

Mais tarde, no jantar, Duda desceu, mas comeu pouco da sua comida preferida e se manteve silenciosamente pensativo. Harry decidiu não o questionar, pois sentia que seria hipócrita da sua parte começar a fingir pesar e preocupação por Vernon. A verdade era que, apesar de não lhe desejar mal em consideração ao primo, não estava realmente pesaroso por sua condição. Assim, ele se concentrou em falar sobre o próximo fim de semana e a visita à Mansão Potter. No fim, os três foram dormir bem cedo, pois estavam exaustos do longo dia.

A segunda-feira encontrou o Harry correndo pelo parque ao amanhecer com Sirius e Duda, mas seu primo se manteve em seu próprio ritmo, parecendo evitar querer conversar. Harry e Sirius respeitaram seu distanciamento e logo lhe deram algumas voltas. Quando voltaram para casa, Sirius partiu para a Mansão Boot, para tomar banho e o café da manhã antes de saírem.

— Você está correndo ainda mais rápido, e nunca parece se cansar. — Duda finalmente falou e mostrou sua surpresa.

— Bem, desde que fiquei completamente curado dos meus problemas de saúde, sinto uma grande energia e disposição. — Harry explicou. — E posso me exercitar sem restrições, de acordo com a minha idade, claro. Não vejo a hora de voltar a treinar luta, eu tive algumas aulas com meu professor, Joe, mas ele não tem muitos horários disponíveis.

— Eu também adoro o boxe. — Duda disse enquanto subiam as escadas. — Meu professor disse que, se continuar lutando tão bem, poderei participar de competições a partir dos 14 anos.

— Isso é incrível! — Harry sorriu divertidamente. — Adoraria ver você socando alguém que não seja eu para variar e, ainda, com autorização dos adultos!

Os dois riram divertidos e se separaram, cada um para o seu quarto. Harry tomou banho e se arrumou para a viagem a Hogwarts, onde encontraria os quebradores de maldições e os donos da M&T Construções.

Sirius chegou logo depois do café da manhã, eles se despediram e aparataram até Hogsmeade.

— Nossa, como sinto falta desse castelo. — Sirius disse ao contemplar Hogwarts com um sorriso nostálgico.

— Eu aposto que sente mais falta das brincadeiras e das garotas do que do castelo. — Zombou Harry, e Sirius gargalhou o seu riso rouco que lembrava um latido.

— Muito certo, meu afilhado, muito certo. — Ele disse, com um brilho de malícia nos olhos acinzentados. — Hoje posso dizer que me sinto mais feliz do que jamais estive, com você, Denver e os Boots, mas aquela era uma época com mais esperança e menos cicatrizes.

Harry acenou entendendo a parte das cicatrizes.

— Por que você sente menos esperança hoje do que na adolescência? — Ele perguntou curioso.

— Depois de dez anos com aqueles malditos dementadores, não há esperança que sobreviva. — Sirius disse. — Além disso, quando somos crianças, tudo parece possível, a maturidade da vida adulta nos tira essa ilusão.

— Pois eu acredito que você não deve abandonar a esperança. — Harry disse, quando se aproximaram dos portões do castelo, que estava aberto e tinha o Hagrid guardando a entrada. — Seja o que for que deseja para o seu futuro, precisa acreditar que é possível alcançar ou tudo estará perdido antes mesmo de começar. Bom dia, Hagrid!

— Harry! Sirius! — Hagrid sorriu e os abraçou amigavelmente. — Bom vê-los, muito bom.

— Bom te ver também, Hagrid. — Sirius disse meio sem fôlego pelo aperto forte. — Todos já chegaram?

— Quase. — Hagrid disse. — Falta apenas os quebradores de Maldição do Ministério; os construtores e os quebradores do Gringotes já estão aqui. Ficarei aqui até eles chegarem, depois me juntarei a vocês, gostaria de ver o lugar em que a Freya viveu.

— Ok. — Harry concordou, antes de Sirius e ele prosseguirem para o castelo pelos jardins que estavam cada vez mais verdes e bonitos com o avanço da primavera.

— Bem, se você sobreviver à guerra e estiver feliz, eu já terei alcançado meus maiores desejos, e, como não pretendo desistir de fazer isso acontecer, acredito que seja mais do que possível. — Sirius continuou a conversa de antes.

— Esses são os seus maiores desejos? — Harry se mostrou surpreso e emocionado.

— Sim. O que mais poderia haver? — Sirius deu de ombros.

— Bem... conquistar o coração da Denver... — Harry disse pensativo. — Casar com ela, ter filhos... hum... ser o Ministro da Magia, mudar as leis discriminatórias... viajar pelo mundo...

Sirius riu meio divertido, meio triste.

— Bom, vamos por partes. — Ele disse pensativo. — Primeiro, ser Ministro não é um sonho ou desejo, apenas algo que eu sinto que devo fazer para trazer justiça ao nosso mundo. Então, realizar esse sonho me faria muito feliz, talvez... — Seus olhos se mostraram assombrados. — Esse seja o meu maior sonho pessoal, e ele caminha comigo desde a minha infância. Viajar pelo mundo parece interessante, mas não é um sonho, apenas algo que seria divertido de fazer. — Então, Sirius parou antes de entrarem no castelo. — Sobre a Denver, esse é um desejo novo e eu seria muito feliz se ela me honrasse com o seu coração, mas não pretendo ter filhos.

Harry franziu o cenho surpreso com essa nova informação.

— Nunca? — Ele perguntou, e, quando Sirius acenou confirmando, questionou. — Por quê?

— Quero que a família Black morra quando eu morrer, assim como desejo que o sangue amaldiçoado dos Blacks desapareça para sempre. — Sirius disse sincero.

— Oh... — Harry não sabia o que dizer, a situação era confusa e ele tinha que admitir que não a compreendia completamente. — Mas Narcisa tem o Draco e está tentando ter outro bebê, Andy tem Tonks, que poderá ter filhos um dia. Você ter ou não os seus não muda isso, certo?

— Verdade, mas... — Sirius hesitou, sem saber como explicar. — Você não tem como imaginar como eles eram, Harry, minha mãe, Bella e seu pai, isso sem falar nos Blacks anteriores, dos quais tenho poucas lembranças ou que nunca conheci, mas ouvi histórias de dar pesadelos. Não consigo conceber a ideia de trazer ao mundo um ser insano como eles... meu sangue, meu descendente, meu filho.

Harry ficou surpreso por sua veemência e olhar aterrorizado com a ideia.

— Bem... se é assim que você se sente... — Ele disse suavemente e voltou a caminhar. — Mas o bom é que você sempre pode mudar de nome e adotar, sabe. Posso até te ver como Sirius Denver.

Sirius encarou suas costas com a boca aberta por pura estupefação pela sugestão e lembrou-se que Lily escrevera James Evans em suas anotações de adolescente. Será?

Harry entrou no Grande Salão com Sirius o seguindo devagar e pensativamente. Perto da mesa alta dos professores, um grupo de adultos conversava, e Harry reconheceu Ian e Mac, que estavam ao lado de dois estranhos, além de Dumbledore, Flitwick e McGonagall.

— Bom dia. — Ele disse educadamente e sorriu ao estender a mão em cumprimento aos donos da M&T Construções. — Prazer em revê-los, Sr. Ian, Sr. Mac.

— Apenas Ian e Mac, Harry, já disse que toda essa formalidade é desnecessária. — Mac disse sorrindo. — Deixe-me lhe apresentar os quebradores de Maldições do Gringotes, nós os contratamos para nos ajudarem a desfazer as magias de Slytherin e com as reformas mágicas que faremos na câmara. Este é Sam Li e seu aprendiz, William Weasley. Pessoal, esse é Harry Potter.

— Prazer em conhecê-los. — Harry disse ao cumprimentá-los. — Tem uma Li em minha casa, um ano abaixo de mim. — Ele disse ao apertar a mão do homem asiático mais velho.

— Essa é minha neta, Sue Li. — Sr. Li disse sorrindo com afeto. — Sue está muito feliz na escola e gosta de ser uma Ravenclaw.

— Somos a melhor casa, claramente. — Harry disse divertido e olhou para William enquanto Sirius cumprimentava o Sr. Li. — Eu sou amigo dos seus irmãos, mas pensei ter entendido que estava trabalhando no Egito.

— Meus irmãos falam muito bem de você, Harry, e pode me chamar de Bill, por favor. — Bill disse com voz profunda e Harry acenou. — Eu continuo a trabalhar no Egito, mas, como ainda sou um quebrador aprendiz, devo participar de todos os tipos de trabalhos e ser treinado em magias de diferentes períodos. Por isso é comum que eu viaje para diversos lugares do mundo, e, como ainda não tinha diagnosticado ou quebrado encantamentos e maldições tão recentes, eles me enviaram para cá, afinal, no Egito as magias são bem mais antigas do que na época em que Hogwarts foi construída.

Harry acenou em compreensão e meio fascinado com a ideia de viajar pelo mundo, conhecer magias tão antigas e poderosas.

— Olá, professores, diretor. — Ele cumprimentou os outros três presentes.

— Harry, agradecemos por vir nos ajudar em suas férias. — Dumbledore disse gentilmente. — Prometo que não o prenderemos muito, assim que abrir a entrada da câmara, acredito que poderá partir.

— De nada, e prefiro ficar, se não se importar. — Harry disse suavemente. — Existe mais de uma entrada e quero lhes mostrar alguns pontos que descobri em minhas explorações.

— Tenho certeza que o diretor e os quebradores serão capazes de encontrar o caminho sem sua ajuda, Sr. Potter. — McGonagall disse, com sua expressão severa de sempre.

— Bem, eu tenho certeza que não. — Harry disse levemente petulante e olhou para Mac. — Hagrid disse que estamos esperando os quebradores de maldição do Ministério, mas não entendi por que duas equipes.

— A equipe do Ministério foi chamada para tentar descobrir se existe uma maldição sobre o cargo de professor de Defesa Contra as Artes das Trevas. — Flitwick explicou. — Eles foram enviados pelo Departamento de Educação e trabalharão durante toda a semana.

— E nós contratamos os quebradores do Gringotes para a reestruturação da câmara. — Mac explicou. — São trabalhos diferentes, Harry, e o Gringotes oferece esse serviço particular por um preço justo, enquanto o Ministério tem seus próprios funcionários.

— Ok. — Harry disse, mas ainda estava preocupado. — Eles nos acompanharão até a câmara secreta?

— Pensamos em ter mais dois quebradores em uma primeira exploração, apenas por segurança. — Ian explicou. — Não sabemos o que encontraremos, além disso, acredito que os funcionários do Ministério poderiam começar seu trabalho pela câmara.

— Algo te preocupa, Harry? — Sirius perguntou.

— Apenas gostaria que o que faremos e como faremos se mantenha em segredo. — Harry disse tensamente.

— Não se preocupe, Harry. — Dumbledore disse. — Todos assinaram contratos de confidencialidade e não divulgarão informação alguma. Eu exigi isso, pois não sabemos que surpresas encontraremos pelo caminho, principalmente em se tratando de figuras como Salazar Slytherin e Voldemort.

— Tudo bem, eu suponho. — Harry disse, ainda não completamente convencido.

— Nós, funcionários do Gringotes, temos contratos de trabalhos muito rígidos, Sr. Potter. — Sr. Li disse seriamente. — Isso nos protege, ao banco e aos clientes, portanto, você pode ficar tranquilo quanto ao nosso sigilo. — Bill acenou antes de perguntar:

— Como você conseguiu encontrar a câmara secreta de Slytherin? Sempre tive curiosidade em saber se era apenas uma lenda e se havia realmente um monstro a guardando. — Ele se mostrava empolgado. — Talvez a criatura ainda esteja lá.

— É mais provável que sejam armadilhas mortais do que uma criatura mortal. — Disse o Sr. Li em tom professoral. — Depois de mil anos, são poucas as criaturas mágicas que poderiam ainda estar vivas e que se manteriam pacificamente dentro de uma câmara, sem comida ou liberdade.

— Faz mais sentido, realmente. — Bill disse sorrindo. — Então, você explorou a câmara? Encontrou algum vestígio de criaturas mágicas? E como descobriu a entrada?

Harry o encarou com o cenho franzido e certo pesar, pois sabia que, quando ele descobrisse a verdade, sua empolgação e sorriso desapareceriam para sempre. Mas essa história deveria ser compartilhada por Ginny e, felizmente, ele não precisou pensar em como responder, porque, nesse momento, Hagrid chegou acompanhado de dois outros bruxos.

As apresentações foram feitas e Harry se viu apertando a mão de uma empolgada Xandra Callander e um taciturno Albert Runcorn, que tinha um vozeirão ainda mais impressionante do que Gun e King.

— Nós trabalhamos no Departamento de Acidentes e Catástrofes Mágicas, no subdepartamento de Magias Complexas. — Disse Xandra, uma mulher de 28 anos, loira e de olhos verdes, mas sua pele e estrutura óssea era de origem mediterrânea, provavelmente grega, adivinhou o Harry. — Eu estudei em Koldovstoretz, na Rússia, e sempre tive vontade de conhecer Hogwarts, afinal, essa é a escola mais famosa e antiga da Europa! Estou muito empolgada sobre o que encontraremos, e ainda desceremos até a câmara de Salazar...

— Callander. — Runcorn a interrompeu em tom impaciente. — Pare de falar sem parar, isso é trabalho, não turismo.

— Bem, parece os dois para mim. — Sirius disse sorridente e lançando um olhar frio para Runcorn. — Pelo sotaque, acredito que você é grega, certo?

— Sim! — Xandra disse, com seu grande e bonito sorriso. — Eu me casei com Leo Callander, me mudei para o Reino Unido há dois anos e tive a sorte de conseguir esse trabalho no Ministério.

— A jovem Xandra é Mestre em Runas e Feitiços. — Dumbledore disse sorrindo. — Sua idade não esconde o seu talento, e o Ministério tem muita sorte em tê-la.

O elogio fez Xandra corar e seus olhos verdes brilharam intensamente. Harry sorriu e trocou um olhar com Flitwick e Sirius, que acenaram entendendo sua ideia.

— Bem, acredito que devemos começar. — Runcorn disse com sua expressão fechada, e Harry teve a sensação de que ele não gostava dos elogios à sua colega. — Onde fica a entrada para a câmara?

— No banheiro do segundo andar. — Harry respondeu e caminhou à frente naquela direção. Os outros o seguiram, e os inúmeros passos lembravam uma procissão.

— Não entendo porque a criança deve estar presente se a localização da entrada não é um segredo. — Runcorn disse, mas Harry o ignorou.

— Harry é o único que pode abrir a entrada. — Sirius disse de má vontade.

— Ainda acredito que deve ficar para trás, jovem Harry. — Sr. Li disse preocupado. — Não sabemos que tipo de armadilhas existem pelo caminho, e não seria seguro para você.

— Eu já estive na câmara antes, como disse. — Harry respondeu respeitosamente. — Duvido que hajam armadilhas, apenas os encantamentos de Salazar para mantê-la muito bem escondida por todos esses séculos.

— Gostaria de saber quando esteve explorando essa câmara, Sr. Potter, posso apenas imaginar quantas regras da escola o senhor infringiu ao fazer isso. — McGonagall disse em tom de reprimenda.

— Como nunca fui pego, acredito que isso me isenta de quebrar regras. — Harry disse sorrindo e Sirius riu divertido.

— Acho que James usou essa desculpa uma ou duas vezes. — Ele disse sorridente.

— Mais como umas dez vezes, Sr. Black. — McGonagall disse séria, mas seus olhos tinham um brilho de tristeza e saudade.

— Sr. Potter, a verdade é que o senhor teve muita sorte por não tropeçar em alguma armadilha mágica mortal. — Sr. Li disse com expressão carregada. — Sendo tão jovem, o senhor não as perceberia, mas elas poderiam tê-lo matado.

— Me chame de Harry, por favor. — Harry respondeu. — Como disse, não acredito que existam armadilhas mágicas na câmara, pois Salazar esperava que o seu verdadeiro herdeiro a encontrasse um dia. Ele não tinha como saber se o seu descendente seria adulto e conhecedor de armadilhas mágicas ou apenas um aluno de Hogwarts. Assim, não acredito que Salazar correria o risco de matar o seu próprio herdeiro com esse tipo de armadilha.

— Claro! — Bill disse, com os olhos azuis brilhando de entusiasmo. — Isso quer dizer que ele deveria ter certeza que apenas o seu herdeiro encontraria a sua câmara, e, se a lenda sobre um monstro for verdade, apenas essa pessoa poderia controlá-lo.

— O monstro já foi cuidado. — Harry disse suavemente. — Mas sim, apenas o descendente de Slytherin, que herdasse o seu talento, poderia acessar a câmara e controlar a criatura.

— Não compreendo. — Disse o Sr. Li confuso.

— Bem, acredito que é possível que exista mais de um descendente de Slytherin por aí, certo? — Harry perguntou, quando entraram no corredor do segundo andar.

— Acredito ser possível, claro. — Sr. Li respondeu.

— Mas apenas o seu verdadeiro herdeiro encontraria a sua câmara e controlaria o monstro que lá habitava. — Harry repetiu a lenda. — Portanto, apenas aquele que herdasse o seu dom de falar com cobras poderia ser considerado o seu verdadeiro herdeiro.

Harry entrou no banheiro e parou em frente à pia, enquanto os adultos se colocavam ao seu redor.

— Eu ouvi um boato pelo Ministério de que Macnair e sua equipe estavam caçando um basilisco em Hogwarts. — Disse Runcorn com sua voz grave.

— Um basilisco? — Bill tinha os olhos arregalados. — Um basilisco de mil anos vivia em Hogwarts? Merlin, meus irmãos estiveram em muito perigo esse ano.

— Hum. — Harry fez uma careta, ainda olhando para a pia. — A entrada é aqui e só abre para quem é um ofidioglota.

— Então, como entraremos? — Perguntou Xandra curiosa.

Harry não respondeu; em vez disso, ele se concentrou em visualizar a Freya, tão mortal, cruel e poderosa.

Abra. — Disse suavemente e o rangido das pedras ecoou sinistramente pelo banheiro, enquanto o cano largo se abria diante deles. Harry enxugou as mãos suadas na calça, tentando não pensar na morte terrível de Lockhart naquele mesmo lugar.

— Uau! — Xandra disse com um grande sorriso e seu sotaque ficou mais pronunciado. — Você é o herdeiro de Slytherin!

Harry riu meio chocado e levemente divertido ao se virar para ela.

— Não diga isso aos comensais da morte ou eles podem começar a se ajoelhar à minha frente e me chamar de mestre. Acredite, isso seria o pior dos pesadelos. — Harry disse, e viu a expressão de Runcorn se tornar ainda mais sombria. — Voldemort é o herdeiro de Slytherin, ele abriu a câmara secreta há quase 50 anos, atacou os alunos e assassinou uma garota. O fantasma dela vive neste mesmo banheiro, pois foi aqui que Myrtle Warren morreu.

— Oh... isso é tão triste. — Xandra disse, olhando em volta como se esperasse ver o fantasma de Myrtle.

— Ela deve estar com os outros fantasmas, eles ficam mais tempo juntos quando a escola está vazia. — Dumbledore disse gentilmente. — Eu era professor do jovem Tom Riddle e acredito que a menina Myrtle foi a sua primeira vítima. Infelizmente, Tom escapou desse crime e, anos mais tarde, se tornou Voldemort, que matou ainda mais pessoas ao longo das décadas seguintes.

O silêncio no banheiro foi sombrio. Sirius se aproximou da boca do cano e observou a longa queda escura, imaginando seu afilhado descendo por ali com seus amigos para lutar contra uma basilisco e um Voldemort de 16 anos.

— Mas, então, como você pode ser um ofidioglota? — Xandra perguntou confusa.

— O dom também está na minha família. — Harry disse simplesmente, pois, apesar de não saber com certeza, não havia outra explicação. — Acho que Slytherin e Voldemort não previram isso.

— Parece uma longa queda. — Sirius comentou com Bill, que se aproximou para observar.

— Será que Macnair retirou a carcaça da basilisco depois que a matou? — Bill disse, parecendo animado. — Seria incrível ver ao menos o esqueleto de uma criatura mágica de mil anos.

— Dá para acionar as escadas, mas deslizando é mais rápido. — Harry disse, se colocando entre os dois. — Macnair não encontraria a câmara ou a basilisco nem se eu lhe desse um mapa, Bill. Eu matei a basilisco e o nome dela era Freya. — E, sem esperar mais comentários, Harry pulou no cano e deslizou para a escuridão.

— Harry... — Sirius pretendia dizer que iria primeiro, mas não deu tempo.

— Ele está brincando, certo? — Sr. Li disse, olhando em volta. — Como uma criança poderia matar um basilisco?

— Por que não pergunta ao Harry? Talvez ele lhe conte. — Sirius disse e pulou atrás do afilhado.

— Coitadinha. — Hagrid disse com olhos tristes. — Viveu presa a vida toda nessa tal câmara e foi escravizada por dois bruxos maus, a pobre Freya não merecia isso. — Então, ele também pulou pela abertura que, felizmente, era larga o suficiente para comportar o seu corpanzil.

Rapidamente, cada um do grupo deslizou pelo cano. O último foi o Sr. Li, que passou alguns minutos verificando as magias que compunham e protegiam a entrada.

— Parece uma maneira rudimentar de colocar senhas, apenas foi elaborado em ofidioglossia. — Ele disse, ao se levantar e limpar as roupas com um aceno de varinha. — Essa é a câmara?

— Não. — Harry disse. — Apenas um corredor que nos levará até a câmara. Vamos?

Todos acenaram e, com as varinhas acesas, prosseguiram a caminhada. Harry percebeu que Ian e Mac tinham blocos e penas flutuando aos seus lados e fazendo anotações.

— Para que as anotações? — Ele perguntou curioso.

— Estou medindo o espaço e, ao mesmo tempo, minha pena desenha uma imagem do espaço. — Mac, que era o arquiteto, disse suavemente. — Apenas uma planta do local.

— A minha pena tem a função de anotar os danos estruturais que identifico com os feitiços, assim teremos uma ideia do trabalho que será necessário quando fizermos o projeto, e poderemos resolver os problemas antes de caminhar ou mexer em algo que pode provocar um acidente. — Ian, o engenheiro, explicou.

Logo mais à frente, o feitiço mostrou um problema sério na estrutura do teto, que tinha uma grande rachadura.

— Qualquer movimento ou feitiço faria com que o teto desabasse. — Disse ele, e, acenando com a varinha, firmou o teto e o consertou. — Isso é provisório. Quando estivermos reformando, teremos que restaurar ou trocar as pedras e argamassa. Além disso, me preocupa toda essa umidade, estou ouvindo pingos de água por toda a parte, e é possível ver que as paredes estão molhadas.

— Tenho a sensação de que estamos abaixo do lago. — Disse Harry.

— Você pode estar certo. — Mac respondeu. — Devemos ter descido uns dois ou três quilômetros; se não estamos abaixo, devemos estar em nível com o fundo do lago.

— Estamos longe da câmara, Harry? — Sirius perguntou, olhando para o túnel escuro.

— Sim, temos que caminhar um pouco mais. Vamos lá. — Harry respondeu, e o grupo prosseguiu por mais dez minutos antes de alcançarem a enorme pele de cobra.

— A cobra era deste tamanho? — Bill se aproximou chocado. — E você a matou? De verdade?

— Sim, mas eu tive ajuda, e Freya foi uma grande oponente. — Harry disse. — Você ficaria orgulhoso, Hagrid, ela foi muito corajosa e honrada em nosso duelo.

— Oh, boa menina. — Hagrid fungou e assoou o nariz, o som como uma buzina de navio ecoou pela escuridão. — Eu gostaria de tê-la conhecido antes, mas foi melhor assim, a pobrezinha deveria estar sofrendo presa e escravizada aqui embaixo.

— Você duelou com ela? — Sr. Li arregalou os olhos, impressionado.

— Sim. — Harry disse suavemente. — É uma longa história...

— Conte mesmo assim, Harry! — Bill sorriu empolgado. — Deve ter sido uma grande aventura!

Harry o encarou com pena e irritação.

— Na verdade, foi o oposto. — Ele caminhou mais alguns metros e se colocou diante da porta arredondada. — Abra. — Disse, olhando para os olhos verdes das cobras, que se moveram sinuosamente destravando a porta. — Chegamos.

Ele entrou primeiro e Sirius o seguiu de perto, pois, apesar de saber que não havia perigo, não podia evitar a preocupação com o afilhado. Assim que todos entraram, exclamações de espanto ecoaram pela enorme câmara.

— Impressionante. — Sussurrou Dumbledore, e McGonagall olhou em volta de boca aberta.

— Uau... — Xandra olhou em volta, impressionada. — Esse cara, Slytherin, tinha um grande ego, hein?

— Mais respeito por um dos fundadores de Hogwarts, Callander. — Disse Runcorn, em tom severo.

— Eu disse a mesma coisa quando entrei pela primeira vez aqui. — Harry disse em tom de zombaria. — Na verdade, tenho certeza de que, se vivessem ao mesmo tempo, Slytherin e Voldemort se matariam para provar quem é o maior bruxo do mundo mágico. — Ele encarou Runcorn com frieza. — Espero que não pretenda me pedir para respeitar o assassino dos meus pais também.

Runcorn devolveu o olhar e fez uma careta de aversão antes de se afastar na direção da estátua.

— A Freya vivia aqui, Harry? — Hagrid disse, sem perceber a tensão. — Até que ela tinha bastante espaço, não é?

— Com certeza a câmara é enorme. — Mac disse, acenando a varinha para medir o espaço. — É como ter dois Grandes Salões, e o teto é tão alto quanto lá em cima.

— Veja como o teto e as paredes estão úmidos, Mac. — Disse Ian preocupado. — Acho que o Harry está certo, o lago está bem acima de nós. Precisaremos reforçar, reestruturar e fortalecer cada parede da câmara. Sabe, parece impressionante, mas, se pensarmos com cuidado, foi uma temeridade o que Slytherin fez, pois o castelo poderia colapsar se o lago inundasse a câmara.

— Sim, mas o fato de isso não ter acontecido em mil anos mostra que Slytherin era um bruxo incrivelmente poderoso e, sinceramente, eu só consigo pensar que tanto espaço me anima a começar o projeto. — Mac respondeu sorrindo. — Poderemos ter uma grande arena de duelo, com uma arquibancada confortável para os espectadores e um rinque de patinação tão grande quanto o do Hyde Park. A área de convivência em comum para as quatro casas será um pouco menor, mas ainda grande o suficiente para dezenas de alunos estarem presentes ao mesmo tempo. Temos apenas que estruturar a entrada de maneira mais conveniente, pois um escorregador gigante no banheiro feminino não é muito adequado.

— Existe outra entrada, assim o corredor poderia ser incorporado à câmara, acho. — Harry disse. — E a Freya não ficava aqui, Hagrid, ela tinha um ninho dentro da estátua e o espaço é bem menor, acredite.

— Outra entrada? — Ian perguntou curioso.

— Um ninho? — Hagrid se mostrou confuso.

— Dentro da estátua? — Flitwick se mostrou confuso, e Harry percebeu que seu professor entendera que ele tinha estado na câmara em outro momento além do dia da luta.

— Vocês trouxeram as vassouras? — Ele perguntou, decidindo ignorar as perguntas e ir em frente. — Precisaremos subir até a boca da estátua, é onde está a abertura.

Todos acenaram; Harry retirou sua própria vassoura do bolso e a restaurou em seu tamanho normal antes de montar e voar para o alto. Ele atravessou a boca aberta de Slytherin e depois embicou em direção ao chão. As paredes circulares do interior da estátua estavam vazias, assim como o pequeno escritório onde apenas os móveis antigos permaneciam. O espaço parecia estranhamente abandonado sem os livros nas prateleiras ou o quadro de Salazar Slytherin na parede.

— Acredito que aqui foi uma espécie de escritório. — Harry disse. — Estive explorando o lugar com esperança de encontrar alguns livros ou anotações antigas, mas acredito que Voldemort retirou tudo o que poderia haver aqui.

— Faz sentido. — Sirius disse, olhando em volta e apoiando a história inventada. — Voldemort não deixaria seus tesouros para trás, e ele consideraria qualquer coisa encontrada aqui como dele.

Houve alguns acenos e olhares duvidosos.

— Provavelmente não havia nada aqui, mesmo há 50 anos. — Disse McGonagall, pensativa, sem saber que ajudava o Harry. — Quando foi expulso, Salazar deve ter levado tudo com ele.

Agora os acenos foram mais convincentes e os olhares duvidosos desapareceram.

— Onde está a outra abertura, Harry? — Ian perguntou ansioso.

— Aqui. — Harry se aproximou da grade que Dobby abriu para ele. — Vejam esse nicho, depois dessa grade estranha no meio do escritório. Se vocês olharem com atenção, existe um recorte no chão e um túnel que parece subir indefinidamente.

Harry deixou o nicho e Ian se colocou em seu lugar, constatando suas palavras.

— Um elevador! Mac! Isso é um elevador! — Seu sorriso era brilhante.

— Uau! Deve ter sido um dos primeiros elevadores criados e, para aquele período, seria uma obra mágica incrivelmente difícil e demorada. — Mac disse, observando o "poço" do elevador de pedra. — Ele deve chegar à superfície, o que faz sentido, pois Slytherin também não acessaria a câmara por um banheiro.

— Posso estar errado, mas acho que deve chegar até as masmorras, que é onde fica a entrada da sala comunal da Slytherin. — Harry disse. — Descer até aqui deveria ser algo rápido, e deslocaria mais de uma pessoa por vez. Certo?

— Sim, sim. — Ian disse, com os olhos brilhando. — Faremos um elevador igual ao do Ministério, isso é o mais simples, difícil será estruturar um elevador passando dentro de um maldito lago. Como Slytherin fez isso, porra?

Harry, Mac, Sirius e Xandra riram de suas palavras.

— Posso dar uma sugestão? — Harry perguntou e Ian acenou, enquanto movia sua varinha e fazia anotações. — Vocês deveriam colocar um elevador de vidro, assim podemos ver o lago enquanto descemos e subimos.

— Isso seria mega! — Xandra disse sorridente.

— É uma grande ideia, realmente. — Mac disse com os olhos brilhando. — Mas deixarei que o nosso engenheiro descubra se isso é possível antes de fazer planos.

— Onde está o ninho, Harry? — Hagrid perguntou, olhando em volta.

— Lá, Hagrid. — Harry apontou para o cano largo no alto da parede do escritório. — O cano leva ao ninho, que incrivelmente tem dezenas de aberturas de canos diferentes. Estive pensando que os canos poderiam levar a Freya para qualquer lugar de Hogwarts, apenas um ritual de escravidão a manteria obedientemente presa aqui, e o fato de ela ser uma criatura tão poderosa e hibernar por séculos permitiu que sobrevivesse. — Harry voou e foi seguido pelos outros; Hagrid estava sendo ajudado por Dumbledore, pois a vassoura não aguentava o seu peso.

O poço escuro tinha cheiro de morte, e Harry sentiu o suor frio escorrer por suas costas ao pensar nos últimos momentos de Lockhart. Alguém iluminou o lugar, mas Harry não prestou atenção enquanto pensava, esperançosamente, que o professor de Defesa deveria ter morrido antes de chegar ali, por perda de sangue.

— Harry! — Sirius o chamou mais alto e ele despertou do poço de horror que era a morte de Lockhart.

— O quê?

— Você está bem? — Seu padrinho se aproximou e tocou o seu ombro. — Eu te chamei algumas vezes, mas você parecia longe... e está muito pálido! — Sirius se ajoelhou na sua frente. — O que está sentindo?

Harry engoliu em seco e olhou em volta, percebendo diversos olhares preocupados e curiosos em sua direção.

— Não sinto nada. — Ele deu de ombros displicentemente. — Apenas sou um pouco claustrofóbico, acho que os esperarei lá fora, se não se importarem.

Harry não esperou nenhuma confirmação e voltou a voar para fora do ninho, depois saiu de dentro da estátua até a câmara ampla, onde pode respirar fundo e tentar não pensar. "Não pense!"

Alguns poucos minutos depois, o grupo também saiu, e Hagrid chorava baixinho de tristeza.

— Pobrezinha, ela não merecia essa crueldade. — Ele voltou a assoar o nariz. — Você a libertou, Harry, muito bem, muito bem mesmo.

— Foi uma honra, Hagrid. — Harry sorriu, concordando que a liberdade era melhor do que qualquer prisão.

— Ainda estou chocado que uma criança tenha matado uma basilisco em um duelo mágico, mas se você realmente fez isso, é um privilégio cumprimentá-lo por seu feito honroso, jovem Harry. — Sr. Li se inclinou quase tanto quanto Dobby fazia, e Harry entendeu que isso era uma grande honra em se tratando de um japonês.

— Obrigado, Sr. Li. — Harry disse, se inclinando com igual respeito.

— Vocês pretendem destruir a estátua de Slytherin? — Runcorn perguntou bruscamente e ignorando completamente o momento solene.

— Por que, Runcorn? Quer levá-la para decorar a sua casa? — Sirius disse em zombaria.

— Não. — Ele disse com sua expressão mais severa. — Apenas se trata de história, Black, você deveria entender melhor do que qualquer um sobre tradições. Esse lugar foi construído há mais de mil anos por um grande bruxo, ele fez todo esse incrível lugar sozinho, e destruir tudo apenas para construir uma sala de convivência me parece um despropósito.

— Em termos de arquitetura mágica, esse lugar é fenomenal mesmo. — Mac disse sincero. — Poderíamos tirar algumas fotos, conservar algumas colunas e construir uma estátua menor para homenagear o seu construtor original. No entanto, em minha opinião, existem circunstâncias em que não devemos impedir o novo, apenas para preservar o antigo.

— Principalmente se o antigo é um templo de autoadoração e a prisão de uma criatura mágica. — Disse Flitwick inteligentemente. — Esse lugar foi construído para que Slytherin se mantivesse separado dos outros fundadores, para se autoafirmar o melhor entre eles e planejar expulsar os nascidos trouxas do nosso mundo. Assim, transformar a câmara em uma sala de convivência para as quatro casas confraternizarem sem separações e preconceitos me parece um grande e brilhante propósito.

— Concordo. — Harry disse sorrindo. — E, como sou um dos financiadores do projeto, acredito que deveríamos ter as estátuas e decorações das quatro casas na sala de convivência. Essa não deveria ser uma câmara secreta ou a câmara de Slytherin, e sim a câmara de todos.

— Esse seria um bom nome. — Dumbledore disse com voz suave e os olhos brilhando. — A Câmara dos Quatro.

Houve muitos acenos e Harry sorriu.

— Eu gosto.

— Bem, se não precisarem de nós aqui, podemos iniciar o nosso trabalho. — Runcorn disse impaciente. — Vamos, Callander. — Disse ele, depois que Dumbledore os liberou. — Nos concentraremos no castelo e, assim que uma entrada livre for providenciada, poderemos examinar a câmara.

Runcorn deixou a câmara sem olhar para trás ou se despedir de ninguém, enquanto Xandra apertou as mãos de todos e sorriu animadamente.

— Foi um prazer conhecer todos vocês. — Ela disse, antes de correr atrás do bruxo mal-humorado.

— Eu vou indo também. — Hagrid disse ainda fungando. — Tenho muito o que fazer...

— Pensei que gostaria de saber como consegui vencer a Freya, Hagrid. — Harry disse sorrindo. — Agora que o ambiente ficou mais leve, posso contar como tudo aconteceu.

Seu amigo arregalou os olhos e acenou concordando.

— Bem, acredito que, para ouvir um conto como esse, devemos ficar confortáveis. — Disse Dumbledore, e, acenando com a varinha, fez surgir confortáveis poltronas de chita para todos.

Todos se sentaram e Harry se inclinou para a frente.

— Bem, tudo começa no ataque à Luna, foi quando descobrimos sobre o basilisco. Mas, na noite em que o Colin foi atacado, tudo mudou. — Harry contou sobre aquela noite, sem mencionar o Dobby, apenas contando o que ouviu e como impediu que Freya matasse seu pequeno amigo.

— Merlin! — McGonagall estava pálida. — O Sr. Creevey esteve tão perto de ser morto!

— Por que não nos contou a verdade, Harry? — Dumbledore disse curioso, mas não parecia chateado.

— Temi que o senhor, Sirius e os Boots decidissem me tirar de Hogwarts, e eu sabia que precisava ficar, pois era o único que tinha uma chance de parar a basilisco. — Harry explicou, e o diretor acenou entendendo.

— Quem era o atacante? O que falava com a Freya? — Sr. Li perguntou, e parecia meio verde.

— Voldemort. — Harry respondeu e o homem ficou ainda mais pálido.

— Mas... Voldemort está morto! — Bill disse chocado.

— Infelizmente, Voldemort está apenas enfraquecido e continua tentando recuperar seus poderes. — Dumbledore disse serenamente. — Imagino que você não pretenda nos contar qual aluno Voldemort controlava?

— Não, senhor. — Harry disse com firmeza. — E ele não quer que ninguém saiba, então respeitaremos a sua privacidade.

— Muito bem. — Disse Dumbledore, e parecia olhá-lo com aprovação. — Continue.

— Bem, eu pretendia descobrir qual o aluno que estava sendo controlado por Voldemort e a entrada da câmara, depois chamaria os aurores e os informaria, mas não podia confiar que tudo daria certo, assim, preparei um plano B. — Harry explicou sobre os galos, sem contar quem cuidou deles, depois explicou sobre a decisão de não confiarem nos aurores.

— Os aurores pretendiam prender ou expulsar o aluno? — Bill parecia enojado.

— Não chegaria a isso. — Dumbledore disse firme. — Nunca pretendi chamar os aurores. A situação acabou saindo do meu controle, mas, quando o aluno fosse encontrado, eu não planejava divulgar essa informação aos aurores ou ao Ministro.

Harry o encarou com atenção e percebeu a sua sinceridade.

— O senhor disfarçou muito bem na reunião, senhor, porque eu tinha certeza de que o senhor pretendia deixar que o aluno fosse expulso de Hogwarts. — Harry disse muito sério.

— Nem os aurores ou eu queriamos isso, Harry. — Dumbledore disse suavemente. — Assim como prender a criança não era uma possibilidade. Foi por isso que eles nos alertaram sobre os fatos, era um aviso para quando descobríssemos tudo: não deveríamos chamá-los e envolvê-los. Eu apenas acompanhei a conversa fingindo que aceitava a situação, porque dizer a eles que pretendia enganá-los não me pareceu o melhor caminho.

— Bem, vendo por esse lado... — Harry disse, ao reavaliar toda aquela terrível reunião. — O senhor poderia ter nos chamados e dito a verdade, assim não pensaríamos que pretendia expulsar o aluno.

— Sim, teria sido bom saber que poderíamos convocar a sua ajuda, Albus. — Flitwick disse, com um olhar desconfiado.

— Sinceramente, com tantos aurores, acreditei que muito em breve tudo se resolveria, e estive muito ocupado pensando em como evitar que o aluno fosse prejudicado, além do Hagrid, claro. — Dumbledore disse e Harry franziu o cenho, não completamente convencido. — Continue a sua interessante história, Harry.

— Bem, então, nós planejamos com cuidado o que faríamos, mas tinha algo me incomodando. — Harry contou sobre o seu desejo de matar Freya honradamente e ofertá-la à magia. Explicou o seu pedido a Firenze e a visita ao clã dos centauros, informação que tornou a expressão de McGonagall ainda mais rígida e severa.

— Sr. Potter, quebrar as regras com tanta displicência e se colocar em perigo mortal desta maneira... — Ela parecia furiosa. — Nunca em todos os meus anos... acredito que nem seu pai agiu de maneira tão temerária.

— Sei de fonte segura que isso não é verdade. — Harry disse com certa malícia. — Além disso, eu não sabia o que aconteceria na vila e confio em Firenze com a minha vida, assim fiz o que tinha que fazer.

— Bem, mas essa é a questão. — Ela respondeu. — Você não deveria fazer nada, não era a sua função correr pela Floresta Proibida, zanzar por Hogwarts como um herói, se colocando em perigo e aos seus colegas. — Seu tom era muito severo. — Existem professores, aurores, o Hagrid, todos bruxos adultos e capazes, mas você parece acreditar que é o único com talento ou poder nesta escola para solucionar problemas.

Harry não sabia o que dizer para a severa reprimenda e olhou para Sirius, confuso.

— Professora...

— Não, Sr. Black, você não irá defender suas ações na minha frente. — Ela o cortou. — Tudo pode ter dado certo e seu afilhado está aqui para nos contar a história, mas poderia não ser assim, e hoje estaríamos lamentando a sua morte.

— Eu não me joguei em uma aventura sem pensar! — Harry disse com firmeza. — Um aluno estava morrendo, outros tantos em perigo e os aurores seguiam o Hagrid para cima e para baixo, convencidos de que ele era o atacante! E onde estava a senhora? Ou o senhor? — Ele olhou para Dumbledore. — Eu posso não ter entendido a sua intenção naquele dia, mas depois de quase morrermos no ataque à Caverna, não era o momento de fazer jogos de palavras, e sim de falar claramente! Planejar, prever, nos prepararmos para vencer Voldemort e matar a basilisco! Mais uma vez, suas ausências foram gritantes, e não me arrependo de assumir as rédeas da situação! — Ele disse com firmeza. — Freya está livre, o aluno vivo, Voldemort fugiu mais uma vez e o perigo para Hogwarts se foi, por enquanto. — Harry voltou a encarar McGonagall. — Nada disso aconteceu por acaso, não sobrevivi por sorte, nós planejamos e nos preparamos com cuidado e, por isso, vencemos. Não me desculparei por fazer o que tinha que fazer quando todos vocês pareciam apenas se sentar e esperar que outra pessoa resolvesse o problema.

O silêncio na câmara foi tenso e pesado, Bill o encarava com olhos esbugalhados por sua coragem em enfrentar McGonagall e o Sr. Li o observava com admiração.

— O verdadeiro guerreiro é aquele que se move para alcançar a vitória, não aquele que espera que o mundo a oferte sem luta. — Disse ele sabiamente.

Harry acenou e ignorou a expressão zangada da professora e os olhos azuis brilhando em diversão do diretor.

— Bem, então, depois da difícil conversa, o pai de Firenze me ensinou a matar a basilisco em um duelo honrado e ofertar a sua morte para a magia. — Harry disse e, rapidamente, resumiu o duelo. A ajuda que recebeu de Terry, Neville e dos galos tiveram um grande destaque, assim como a coragem de Freya, que parecia surpresa por ser tratada com tanto respeito e honra. Ele não falou nada sobre onde estava o Flitwick ou sobre o diário e a luta contra Riddle.

— E o aluno? Como você o salvou? — Bill perguntou interessado.

— Ele fez isso por si mesmo. — Harry disse com orgulho. — Lutou com Voldemort e saiu do seu controle, mostrou muita força mental e mágica, tudo o que fiz foi ajudá-lo em sua batalha.

— Ainda é muito impressionante, jovem Harry. — Sr. Li disse suavemente. — E me sinto mais leve ao pensar que a energia da Freya se espalhou para o todo, agora ela também faz parte de nós.

— Sim, foi muito bonito, Harry. — Hagrid enxugou as grossas lágrimas com seu lenço que parecia uma fronha e suspirou. — E a maneira como ela se despediu, colocou você no chão com tanta gentileza... linda criatura, muito especial, apenas teve os donos mais cruéis possíveis. Eu lhes digo, Freya seria boa se não fosse por aqueles dois malditos.

Harry acenou concordando, mas também sabendo que Freya sempre seria uma caçadora mortal, afinal, essa era a sua natureza.

— Bem, depois de ouvir essa história tão incrível, me senti ainda mais inspirado para fazer o projeto da Câmara dos Quatro. — Mac disse sorrindo. — Acho que não deveríamos colocar estátuas dos fundadores, e sim das mascotes das casas. Isso seria mais interessante e lúdico, o que combina com a informalidade de uma área que existirá para os alunos se divertirem e confraternizarem. Podemos misturar as cores das casas, tornar o ambiente descontraído e único.

— E sobre a arena de duelos? — Flitwick perguntou curioso. — Como será uma arena profissional, acredito que deve haver uma maior formalidade, principalmente se esperamos realizar campeonatos de duelos no futuro.

— Claro! — Mac disse sorridente. — Talvez o senhor pudesse me ajudar com o projeto e decoração da arena, professor! Com certeza o senhor sabe mais sobre elas do que eu!

— Eu gostaria disso. — Flitwick respondeu com sua voz mais esganiçada pela animação.

— Quanto tempo demorará para reformar tudo aqui embaixo? — Harry perguntou.

— Com muito otimismo, quatro meses, mas não duvido que nos leve mais tempo. — Ian respondeu. — A parte de construção não é tão demorada, mas a engenharia e magias necessárias serão trabalhosas e desafiadoras. Aliás, devemos começar, Mac. Sr. Li, Bill, quero terminar o dia com um diagnóstico detalhado de toda a estrutura, e temos que abrir uma entrada que não precise de ofidioglossia.

— Podemos partir? — Sirius perguntou, se levantando. Todos fizeram o mesmo e Dumbledore desapareceu com as poltronas.

— As portas se fecharão depois que sairmos, Harry? — Ian perguntou e Harry acenou.

— Sim. Depois de um tempo, tudo é selado, apenas a boca da estátua não se fechou depois que a Freya morreu. — Ele explicou. — Eu posso fechar ao sair, mas se não conseguir por algum motivo, as portas se fecham sozinhas.

— Mais como se fecham magicamente. — Mac disse. — O melhor é trabalharmos nisso primeiro para podermos liberá-los. Vocês se importam de ficar mais um pouco?

Sirius e Harry disseram que não, mas decidiram deixar a câmara e esperar no Grande Salão. Hagrid, Dumbledore e McGonagall também subiram, enquanto Flitwick decidiu ficar para ajudar e descobrir quais feitiços e encantamentos Slytherin usou há mil anos.

Assim que deixaram o banheiro feminino, Dumbledore falou:

— Harry, gostaria de alguns momentos com você, se não se importar.

— Claro. — Harry respondeu, hesitante, e olhou para o padrinho. — A sós? Ou Sirius pode vir?

Sua pergunta fez com que Dumbledore hesitasse, mas ele acabou acenando em acordo.

— Não vejo por que não. — Respondeu suavemente.

McGonagall e Hagrid foram em direções diferentes, e os três seguiram até o escritório do diretor. Assim que entrou, Harry olhou em volta, mas Fawkes não estava por perto e ele lamentou não poder ver a linda fênix.

Dumbledore se sentou em sua cadeira e, educadamente, pediu que Harry e Sirius se sentassem nas cadeiras em frente à mesa.

— Gostaria de saber um pouco mais do seu encontro com Tom Riddle. – disse Dumbledore, pensativo. — Imagino que ele estivesse interessadíssimo em você...

— Mais interessando em me matar, acredito. — Harry respondeu divertido. — Ele também se mostrou curioso em saber como o derrotei há 12 anos, a entrevista no Profeta o confundiu e Tom acreditou no que eu disse sobre um ritual familiar. Eu desmenti a informação e isso o deixou imprudente, ele queria saber a verdade e concordou em me explicar o que era o diário se eu lhe contasse como o derrotei, ainda que ele não me dissesse como deixou um pedaço da sua alma em um objeto ou porque.

— Muito inteligente, Harry. — Dumbledore disse, com seus olhos brilhando em aprovação. — Como foi para você conhecê-lo?

Harry franziu o cenho para a estranha pergunta e pensou um pouco antes de responder.

— Bem, foi bom compreender melhor porque Voldemort é como é. — Ele disse pensativamente. — Saber mais sobre sua história, o que motiva as suas ambições e ações é importante. Também me fez perceber algumas das suas fraquezas, como o seu ego e arrogância, além do seu temperamento e narcisismo exagerado, que são fatores que podemos explorar no futuro. Diretor, o professor Flitwick nos disse que o senhor pretende pesquisar o diário e tentar descobrir o que ele é exatamente. O senhor já descobriu alguma coisa?

— Não, infelizmente. — Dumbledore disse displicentemente. — Como você, estou tentando descobrir mais sobre o passado de Tom, começando com o dia em que o conheci, quando lhe entreguei a sua carta. Acredito que isso nos ajudará a entendê-lo, e também penso que isso é importante.

Harry apenas acenou com expressão neutra, a última coisa que pretendia era deixar Dumbledore perceber que ele já sabia o que era o diário.

— Se o senhor descobrir algo importante, eu gostaria de saber, diretor. — Harry disse muito sério. — Tudo a ver com Voldemort e aquele diário estranho me interessa.

— Eu compreendo, Harry, acredito que muito em breve deveremos nos reunir. — Dumbledore disse serenamente. — Eu lhe prometi que participaria mais da sua educação e, mesmo não sendo mais o seu tutor, gostaria de cumprir essa promessa. — Harry acenou concordando. — Me dedicarei a descobrir mais sobre o diário e Tom Riddle durante o verão, mas, no próximo ano, acredito que devemos nos concentrar em desenvolver a sua magia.

Isso surpreendeu Harry completamente.

— O senhor pretende me treinar?

— Sim. — Dumbledore respondeu muito sério. — Você me pediu e ao professor Flitwick que o ensinemos a duelar e, enquanto uma parte de mim sente que você é muito jovem, outra entende a realidade do que enfrentará no futuro. Espero que encare com a maior seriedade essa responsabilidade, Harry, pois, com tanto conhecimento, não lhe será permitido cometer erros tolos de adolescentes comuns.

Harry acenou, tentando disfarçar o choque e imaginando qual seria a sua reação ao saber que ele já estava sendo treinado.

— Eu não sou um adolescente comum, diretor, e sei disso muito bem. — Harry disse convicto. — E agradeço que leve a sério o meu desejo de sobreviver, prometo me dedicar e valorizar os seus ensinamentos.

— Fico feliz em ouvir isso. — Dumbledore pareceu hesitar antes de fazer a pergunta seguinte. — Diga-me, Harry, você realmente descobriu antepassados com a habilidade da ofidioglossia?

— Não, senhor. — Harry respondeu, confuso com a mudança de assunto. — Impossível saber com certeza, mas não vejo outra explicação, assim, supus que essa habilidade está em minha família também.

— Claro, é possível, bem possível. — Dumbledore sussurrou pensativamente.

— Mas o senhor acredita que seja outra coisa? — Sirius perguntou franzindo o cenho.

— Bem, não posso afirmar saber com certeza, mas... — Dumbledore analisou o Harry com muita atenção. — Talvez, Harry, você e Tom tenham percebido algumas semelhanças entre si.

— Ah! Riddle tentou jogar com isso, senhor. — Harry disse com um sorriso malicioso. — No entanto, eu lhe disse que não éramos nada parecidos, pois posso ser órfão, mas sou muito amado por meus pais. O chapéu disse que eu poderia ter sucesso na Slytherin, mas decidiu pela Ravenclaw, pois sentiu o meu desejo de ter amigos e aprender. Riddle nunca se importou com ninguém ou foi verdadeiramente amigo de qualquer um dos seus seguidores. Na verdade, ele é uma vergonha para a casa das cobras.

— Eu não poderia ter dito melhor. — Dumbledore disse, com admiração e orgulho. — Me alegra perceber que você está tão amadurecido, Harry. Na verdade, suas ações para resolver o mistério da câmara secreta foram o ponto final que me convenceu de que você está pronto para avançar em seus estudos mágicos.

— Imagino que isso não me capacita para saber o porquê de Voldemort me atacar? — Harry especulou com olhar intenso.

— Ainda não. — O diretor parecia sinceramente arrependido. — Estive refletindo muito sobre isso, Harry, acredite, e minha recusa não vem com certezas, pelo contrário. Sinto que devo proteger a sua infância um pouco mais, não pesar sobre os seus ombros algo que nenhuma criança deveria ter que lidar, mas admito o meu temor de não saber quando é o momento certo.

— Não fingirei que compreendo, senhor, mas espero que reflita sobre o fato de que eu já sei que o meu destino é destruir Voldemort. — Harry disse com firmeza. — Depois dessa verdade, não sei o que poderia ser mais pesado. Bem, mas porque me perguntou sobre a ofidioglossia? O senhor acredita que exista outra explicação para que eu fale a língua das cobras?

— Como eu disse, não há como ter certeza, Harry, mas por um acaso você tem muitas das qualidades que Salazar Slytherin prezava nos alunos que selecionava. O seu dom raro de falar a língua das cobras, criatividade, determinação, um certo desprezo pelas regras. — Os olhos azuis brilharam em diversão com a última parte. — Isso pode ser apenas quem você é, mas a habilidade da ofidioglossia me faz pensar que você fala a língua das cobras porque Lorde Voldemort, que é o último descendente de Salazar Slytherin, sabe falar a língua das cobras. A não ser que eu muito me engane, ele transferiu alguns dos seus poderes para você na noite em que lhe fez essa cicatriz. Não era uma coisa que tivesse intenção de fazer, com toda certeza...

— Espere... — Harry o encarou com os olhos esbugalhados e lançou um olhar rápido para o padrinho, que tinha uma expressão semelhante. — O senhor acredita que Voldemort deixou parte dos seus poderes em mim?

— Parece que sim.

— Mas... — Sirius parecia perdido. — O senhor não tem certeza disso?

— Não. — Dumbledore respondeu sincero. — Realmente não temos como saber, mas me parece que seria muita coincidência que o Harry tenha a mesma habilidade que Voldemort, e não podemos desconsiderar o que aconteceu naquela noite de Halloween. Acredito que o mais provável é que o encontro de vocês, que provocou um fenômeno mágico tão raro e especial como a proteção de Lily, poderia também ter lhe dotado de alguns dos poderes de Lord Voldemort.

— Eu... não sei o que pensar... — Harry tinha uma expressão perdida. — Não consigo imaginar como isso poderia acontecer... Suponhamos que a explosão mágica que destruiu o seu corpo quando a maldição da morte se refletiu, talvez, tenha lançado um pouco da sua magia em mim, mas eu não me sinto mais poderoso do que deveria ser.

— Talvez poder não seja a palavra certa, e sim habilidades. — Dumbledore disse lentamente. — Ofidioglossia não é um poder, é uma habilidade hereditária, como a metamorfomagia, por exemplo.

— O senhor sabe se Voldemort tinha outras habilidades além da língua de cobra? — Harry perguntou, curioso e ainda abalado com a notícia.

— Como um dom natural e não aprendido, acredito que Tom tinha um grande controle da sua magia, mas isso não é exatamente uma habilidade. — Dumbledore disse pensativamente. — Mas ele era extremamente hábil em legilimência e controle mental, mesmo antes de vir a Hogwarts já mostrava essas habilidades.

— Controle mental? — Sirius parecia chocado. — Como o Imperius?

— Possivelmente, mas acredito que Tom também conseguia projetar terrores mentais nas crianças do orfanato em que cresceu. Um mestre legilimente poderia, facilmente, enviar imagens com sua magia mental para as mentes de outras pessoas, alguém sem proteções mentais. — Dumbledore explicou. — Quando levei sua carta, Tom já se mostrava hábil em perceber mentiras, manipular, enganar, iludir e aterrorizar, mágica e mentalmente.

— Que horror. — Sirius disse e parecia aterrorizado.

— Eu sou bom em sentir e me conectar com a magia, mas gosto de pensar que esse é um dom natural meu. — Harry disse chateado. — Não quero pensar que qualquer coisa que eu faça não seja meu e sim dele.

— Acredito que você não deve pensar assim, lembre-se que, se faz parte da sua magia, lhe pertence. — Dumbledore disse sabiamente. — No entanto, nós todos, ao longo das nossas vidas, adquirimos conhecimento, energia e habilidades em nossas relações, mesmo que breves, com outras pessoas. Cada um dos seus encontros com Voldemort lhe acrescentou, Harry, e isso não deve ser encarado como algo ruim, você deve tentar enxergar como uma possibilidade de fortalecimento.

Harry acenou, franzindo o cenho ao tentar entender o que Dumbledore queria dizer.

— Devo tentar ver o lado bom? — Ele perguntou confuso.

— Não, dificilmente a noite do assassinato dos seus pais tem um lado bom. — Dumbledore respondeu suavemente. — No entanto, além do sacrifício da sua mãe, que lhe deu uma proteção tão poderosa, você adquiriu os meios de resolver o mistério da câmara secreta e salvar toda a escola. Você está certo em dizer que os aurores ou nós professores não estávamos perto de pôr um fim ao perigo, e, caso você não tivesse recebido, mesmo que involuntariamente, a habilidade da ofidioglossia de Voldemort, é possível que a escola estivesse fechada, os jovens Colin e Luna estariam mortos e o aluno que foi usado tão cruelmente com certeza não teria sobrevivido.

Harry arregalou os olhos ao entender e engoliu em seco ao pensar no que aconteceria com a Ginny caso ele não pudesse ajudá-la a enfrentar Riddle. Ele a daria para Freya se alimentar ou sugaria toda a sua energia, até que Ginny morresse bem lentamente. O pensamento era abominável e angustiante. Dumbledore tinha razão, não havia nada de bom naquela noite de Halloween, mas, se Voldemort lhe dera algumas das suas habilidades ou poderes, bem, ele faria bom uso delas, para destruí-lo de uma vez.

— Compreendo. — Harry disse tensamente.

— E, isso nos leva ao seu primeiro ano. — Dumbledore disse em tom culpado. — Eu pensei muito sobre minhas ações e lamento dizer que meu objetivo era que você enfrentasse Voldemort e adquirisse maior conhecimento, força e experiência. Queria prepará-lo para a guerra e acreditei que a melhor maneira seria lhe permitir experimentar, se fortalecer e aprender como lutar contra Lord Voldemort. — Harry o encarou com muita atenção, imaginando onde ele queria chegar com essa confissão, afinal, Dumbledore já deixara claro que não pretendia lhe contar sobre a profecia. — No entanto, eu não considerei o quanto isso o afetaria diretamente, afinal, como você disse, esses encontros não são uma aventura. O espelho foi um erro imperdoável, os pesadelos que vivenciou depois da morte de Quirrell lhe causaram sofrimentos desnecessários e o peso que sei que carrega me fez reavaliar meus planos. — Dumbledore olhou para o Sirius. — Minha participação na sua prisão me assombrará para sempre, nunca poderei avaliar o quanto das minhas preocupações com o Harry e a proteção influenciaram, inconscientemente, as minhas inações. Espero que acreditem que jamais condenaria um homem inocente àquele inferno propositalmente... — O diretor hesitou e seus olhos caíram de tristeza. — Poucos sabem que meu pai foi preso em Azkaban quando eu tinha dez anos. Infelizmente, ele morreu e foi enterrado lá, na ilha.

Harry abriu a boca chocado, enquanto Sirius empalideceu e seus olhos ficaram assombrados ao pensar na maldita ilha e se lembrar dos momentos em que teve certeza de que morreria lá.

— O que quero dizer, Harry, é que meus erros, não importam as boas intenções, se acumulam sobre os seus ombros. — Dumbledore disse lentamente. — Tenho noites em claro pensando no que me disse aquele dia, no Chalé Boot, sobre como minhas visitas teriam feito diferença em sua vida, e você estava certo em seu argumento. Eu poderia tê-lo mantido longe da sua fama, de verdades difíceis e não teria me custado muito lhe dar algumas horas por semana da minha atenção. É por isso, entre outras coisas, que não esperarei até que fique mais velho para começar a ensiná-lo pessoalmente, pois percebo que, além de aprender em seus encontros com Voldemort, você também pode ganhar experiência comigo.

Harry tentou disfarçar a surpresa com suas palavras. Isso era o mais perto que Dumbledore se mostrou de verdadeiramente arrependido, e, apesar da falta de um pedido de desculpas, sua decisão de ensiná-lo ainda era significativa.

— Eu aceito os seus ensinamentos, diretor. — Harry disse pesando as palavras. — E fico feliz que entenda que posso ter uma infância feliz enquanto me preparo para sobreviver à guerra, porque eu pretendo sobreviver. — Ele disse com determinação. — Sua ajuda é bem-vinda. — Harry acrescentou sincero. — O senhor já sabe o que pretende me ensinar? E quando começaremos?

— Eu percebi, ao avaliar as suas notas, que Transfiguração é o seu pior assunto de varinha. — Dumbledore disse em tom mais leve. — Defesa é impossível uma avaliação precisa, mas em Feitiços, você é o melhor do seu ano. Na verdade, já esperava que estivesse no Clube de Feitiços do professor Flitwick.

— Ele me convidou, mas eu recusei, senhor. — Harry mentiu e mostrou em seus pensamentos superficiais as horas que passava estudando Defesa básica com os amigos. — Sei que Defesa Contra as Artes das Trevas é um assunto importante para o meu futuro, então utilizo minhas horas de folga para treinar à frente com meus amigos. Participar do Clube teria sido legal, mas, como o senhor disse, essa é uma disciplina em que não tenho problemas.

— Bem, não pensar em Feitiços e Transfiguração como uma poderosa arma de defesa é um erro comum dos mais jovens. — Dumbledore disse, e, acenando com a varinha, rapidamente tornou vivos todos os enfeites, estátuas e alguns móveis do escritório. — Com apenas seu poder e intenção, você pode mudar toda uma batalha. — Os objetos animados cercaram Sirius, o derrubaram no chão e o prenderam fortemente.

— Ahhhhhggggghhhhh! — Gritou seu padrinho, de puro susto, e Harry arregalou os olhos, pois toda a ação não durou mais do que 2 segundos.

— Transfiguração pode lhe dar uma grande vantagem, seja para o ataque ou a defesa e, se você me permitir, começaremos as suas lições com a Transfiguração de Batalha. — Dumbledore disse levemente divertido e acenou com a varinha, soltando Sirius e enviando os objetos animados de volta a cada um de seus lugares, onde voltaram a ser inanimados.

— Uau... — Ele disse, surpreso e ansioso por aprender. — Quando começamos?

— Em setembro me parece um bom momento. — Dumbledore disse, olhando divertido para o Sirius, que se levantara do chão, ajeitava as roupas e lançava olhares desconfiados para o escritório e seus objetos, que agora eram inofensivos. — Gostaria de lhe enviar alguns livros e que começasse a aprender oclumência, Harry. Sei que teve as suas diferenças com Severus Snape, mas ele é um dos melhores oclumentes que já conheci e gostaria que tivesse algumas aulas com ele durante o verão.

— Isso não acontecerá. — Sirius disse na mesma hora. — Snape odeia o Harry e deixou isso muito claro. Na verdade, na inauguração do Jardim da Lily, ele praticamente culpou o Harry e o James pela morte dela.

— Ora... — Isso desconcertou levemente Dumbledore, que depois encarou Harry para saber a sua opinião.

— Sinto muito, diretor, mas Snape não pode me perdoar por ter sobrevivido graças ao sacrifício da minha mãe, e minha semelhança com o meu pai apenas torna tudo pior. — Harry disse sincero. — Mas não se preocupe, eu estou aprendendo oclumência há mais de um ano e acredito que estou em um bom nível. Talvez o senhor possa me ajudar a avançar além do que fiz até agora.

— Muito bem. — O diretor parecia levemente surpreso com essa informação, mas não contrariado. — Então, começaremos as aulas no verão, oclumência e legilimência, para sabermos se Voldemort também lhe passou essa habilidade. E, em setembro, iniciamos as lições de Transfiguração, eu lhe enviarei alguns livros e espero que consiga lê-los nos próximos meses.

— Eu conseguirei. — Harry disse convicto. — Diretor, foram apenas as nossas conversas que o fizeram mudar de ideia sobre a minha educação?

— Apenas? — Dumbledore o olhou levemente divertido. — Estou seguro em afirmar que nossas discussões me ensinaram tanto quanto as suas conversas com Voldemort e Riddle lhe ensinaram, Harry. E, se ele fosse um homem mais sábio, que valorizasse minimamente os bons sentimentos, é possível que Voldemort estivesse tão envergonhado de suas ações quanto eu estou das minhas, menino.

Harry acenou pensativamente e, logo depois, ele e o padrinho se despediram e deixaram o escritório. Quando estavam no corredor, Harry olhou em volta e sinalizou para uma sala vazia, eles entraram e Sirius fechou a porta, lançando o feitiço de imperturbabilidade.

— O que você achou disso tudo? — Harry perguntou direto.

— Eu acho... — Sirius parou e coçou o cavanhaque, pensativo. — Eu não sei, sinceramente.

— Você pensa que pode ser fingimento? Ele me manipulando, me dizendo o que quero ouvir para se aproximar de mim e conquistar a minha confiança? — Harry expressou o seu temor.

— Não... — Sirius não parecia convencido. — Olha, ele não disse o que você quer ouvir, mentiu sobre o diário, não contou sobre a profecia e me pareceu muito sincero ao expressar arrependimento e culpa por seus erros.

— Sim, eu senti isso também. — Harry disse confuso. — Dumbledore parece realmente ter reavaliado suas ações, talvez por entender que, se continuasse com os planos de antes, nós nunca poderíamos trabalhar juntos na guerra. Isso não quer dizer que essa aproximação não tenha como intenção descobrir uma maneira de me controlar.

— Acho que ele ainda está te subestimando, e provavelmente espera que você o veja como um mentor e conselheiro, por isso oferece lições tão valiosas. — Sirius disse pensativo. — A jogada do Snape me confundiu, existem muitos que podem lhe ensinar oclumência, inclusive ele mesmo, por que tentar reaproximá-lo daquele idiota? Principalmente quando Dumbledore sabe muito bem tudo o que aconteceu entre vocês.

— Acho que devemos ir para casa e contar aos outros, aposto que o Sr. Boot, Serafina e Falc terão boas ideias. — Harry disse e olhou para o relógio. — Acho que chegaremos a tempo para o almoço se partirmos agora. Será que o Sr. Li e o Bill conseguiram desfazer os encantamentos da entrada da câmara?

— Bem, por que não vamos descobrir? — Sirius abriu a porta e eles voltaram para o corredor. — Se não for possível partirmos agora, podemos almoçar por aqui mesmo, estou muito faminto e sinto falta da comida de Hogwarts.

— Combinado. — Harry disse e, alguns minutos depois, eles chegaram ao banheiro do segundo andar, que estava vazio e a entrada selada. — Eles devem ter saído da câmara...

— Ou estão presos lá embaixo. — Disse Sirius preocupado.

— Espera, eu trouxe o mapa. — Harry disse pegando o mapa do maroto da mochila que estava em suas costas. — O jeito mais rápido de encontrá-los é verificá-lo. Eu juro solenemente que não farei nada de bom.

O mapa se abriu e Harry moveu o olhar por sua extensão procurando por ele e Sirius, o que foi simples, afinal a escola estava vazia. No segundo andar não havia sinal dos construtores ou quebradores de maldição, assim, ele olhou para as masmorras, e, para sua surpresa, encontrou o nome de Severus Snape parado em um ponto fixo.

— Ora, ora... — Ele sussurrou lentamente. — O morcego raivoso ainda vive aqui...

— Hum? — Sirius tinha saído para o corredor e segurava a porta aberta, para o caso de alguém aparecer.

Harry não respondeu e arquivou essa nova informação para refletir mais tarde. Seus olhos se moveram pelo mapa por toda a extensão das masmorras e encontraram os nomes de Flitwick, Ian, Mac, Bill e o Sr. Li em um ponto específico, mas eles se moviam ocasionalmente. Antes de fechar o mapa e dizer ao padrinho onde precisavam ir, Harry decidiu procurar por Runcorn e ter certeza de que o homem purista e mal-encarado não estava por perto. Seus olhos varreram os andares e encontraram Runcorn no sexto andar, acompanhado de Xandra e McGonagall, que deveria estar supervisionando o trabalho dos dois funcionários do Ministério.

Harry pretendia fechar o mapa e descer para as masmorras, quando o seu olhar captou um movimento inesperado no sétimo andar. Empurrando os óculos para trás, Harry olhou com mais atenção e arregalou os olhos de puro assombro com o que viu. Porque, na Torre Gryffindor, que deveria estar completamente vazia, tinha um único nome, de alguém muito conhecido e ansiosamente odiado. Sentindo a adrenalina percorrer cada poro do seu corpo, Harry olhou para o padrinho com uma expressão de triunfo.

— O que...? — Sirius perguntou confuso com a sua expressão.

— Você esqueceu de mencionar um desejo hoje mais cedo. — Harry disse, sorrindo divertido e malicioso.

— Qual? — Sirius estava perdido.

— Pegar o Rabicho. — Harry disse e viu o olhar do padrinho se escurecer.

— Eu nunca me esqueço daquele maldito, apenas não deixo que isso se torne uma obsessão, não mais. — Sirius disse com voz dura. — Mas, acredite, pegá-lo me deixaria muito satisfeito, quase tanto quanto destruir Voldemort.

— Bem, o segundo eu não posso lhe dar por enquanto, mas o primeiro... — Harry sorriu e estendeu o mapa. — Olha. Veja quem está tranquilamente na Torre Gryffindor!

— O quê!? — Sirius se adiantou e agarrou o mapa. — Ele!? Mas como? Não é possível... — Sirius havia empalidecido de fúria e, ao ver que o nome Peter Pettigrew aparecia no segundo andar masculino da Torre, seus olhos brilharam. — Claro! Por que não? Ele pode não ter sido o mais brilhante dos bruxos, mas tinha um bom instinto de sobrevivência. Maldito!

— O quê? Por que você acha que ele está aqui? — Harry disse ansioso.

— Proteção, Harry. — Sirius disse, deixando o banheiro e caminhando apressado, sem tirar os olhos do mapa.

— Não entendo. — Harry correu para alcançá-lo.

— Ele é um rato, assim, que melhor maneira de passar despercebido, ser considerado inofensivo, do que como um rato de estimação de um aluno de Hogwarts? — Sirius disse apressadamente. — E um de família bruxa, aposto, pois isso lhe daria a oportunidade de ouvir conversas, saber de rumores e descobrir se deveria fugir ou continuar escondido.

— Ou ir atrás de Voldemort. — Harry disse de olhos arregalados. — Pare, Sirius.

Seu tom não admitia recusa, mas Sirius quase não conseguiu conter o velho ímpeto da vingança obsessiva que o acompanhou por uma década.

— Precisamos pegá-lo, Harry, agora! — Sirius disse com os olhos brilhando de ódio. — Eu já esperei muito tempo! Foram onze anos!

— Eu sei, mas precisamos pensar e planejar com calma. — Harry disse, e, olhando para o mapa, localizou Dumbledore deixando o seu escritório e caminhando em direção a sala dos professores. — Dumbledore deve chamar os aurores, King ou Moody, vamos pegá-lo e enviá-lo para Azkaban, lá é o seu lugar.

— Eu não o quero preso! Peter viveu mais do que deveria e podemos nos livrar dele sem ninguém saber, Harry. — Sirius protestou furioso e Harry empalideceu. — Pense, ele é só um rato de estimação, o garoto pensará que ele fugiu ou morreu de fome, pois não tem como imaginar que o rato é um animagus. Eu o matarei, vingarei James e Lily, farei isso rápido e sem confusão, desaparecemos com o corpo e ninguém saberá de nada.

Harry sentiu o estômago se embrulhar e se afastou do padrinho, mas ao olhar para trás, se deparou com o corredor que levava à porta do banheiro feminino. A cena da morte de Lockhart voltou como um soco na nuca. Seus gritos patéticos e desesperados, o cheiro de sangue, o gorgolejo dos seus últimos momentos, os ossos, escondidos para sempre na floresta antiga de Yorkshire. O mundo pareceu girar, o suor frio escorreu por seu rosto e costas, um zunido agudo e estranho soou em seus ouvidos e pontos brilhantes pipocaram em sua visão.

— Harry... — A voz veio de longe, como se camadas e mais camadas de algodão os separasse. — Harry! — Seu padrinho o segurou pelos ombros e o sacudiu, fazendo o seu mundo girar e seu estômago se contrair fortemente.

Harry tentou se soltar, mas o refluxo de vômito veio violentamente, e tudo o que ele conseguiu fazer foi se desviar de Sirius e se inclinar para o chão. O café da manhã e a bile amarga queimaram sua garganta e sujaram o chão de pedra do corredor. Ofegante, Harry mal se deu conta do que acontecia ao seu redor, mas sentiu um corpo quente o apertando fortemente e um sussurro gentil contra seu ouvido. Quando o mundo pareceu voltar ao normal e seu estômago vazio se acalmou, ele finalmente entendeu as palavras do seu padrinho.

— Desculpa, me desculpa... eu não estava pensando... — Sirius sussurrou arrependido. — Não faremos isso, eu prometo, fique calmo agora... respire... tranquilo, está tudo bem... tudo ficará bem...

— Sirius... — Sua voz saiu embargada e lágrimas escorreram por seu rosto, a vontade de contar ao padrinho a verdade sobre Lockhart e sua morte horrível preencheram toda a sua mente.

— Não fique assim, não chore... — Sirius sussurrou e o abraçou com força. — Me perdoe, eu falei sem pensar... Olha, vamos fazer o que você disse, chamar Dumbledore e os aurores, Azkaban é castigo o suficiente para ele.

Harry acenou tentando se controlar e fechou os olhos com força, usando a sua oclumência para afastar as lembranças, o horror e a culpa. Sua magia cantarolou amorosamente e atendeu o seu pedido, protegendo sua mente e fortalecendo seu espírito.

— Nós não somos assassinos, Sirius. — Harry falou com voz rouca, sua garganta ardia pelo vômito e o cheiro embrulhava seu estômago outra vez. — Eu matei o Quirrell, mas foi em legitima defesa, em uma luta de vida ou morte. Eu matei a Freya, mas foi em um duelo justo e honrado. No entanto, fazer o que você sugeriu seria planejado, frio e vil. — Ele se afastou de vez do padrinho. — Eu entendo como se sente, pois também o odeio, mas nós não somos assim, nunca seremos como eles e, quando a guerra começar, tiraremos muitas vidas, pois é assim em uma guerra, apenas...

— Hoje não é assim, não precisa ser assim e, mesmo quando estivermos em guerra aberta, não seremos assassinos frios e cruéis. — Sirius completou, se levantou do chão onde estava ajoelhado e desapareceu o vômito. — Você está certo, e nunca quero que deixe de pensar assim, sinto muito sugerir... — Ele parecia envergonhado. — Todos temos luz e escuridão dentro de nós, Harry, o que importa é o lado do qual decidimos agir, isso define quem somos. Eu descobri isso há muito tempo, pois escolhi não ser um Black, eu escolhi a luz que existe dentro de mim e não deixarei que Peter e sua traição me tire isso. — Harry apenas acenou, sentindo-se aliviado. — Obrigado por me lembrar... você está bem?

Seu padrinho parecia preocupado, e Harry desviou o olhar, pois não gostava de mentir para ele.

— Estou bem. Eu apenas... preciso de água para tirar esse gosto horrível da boca. — Ele disse, e pegou o mapa enquanto o padrinho conjurava um copo e enchia de água. — Rabicho ainda está lá, deve estar dormindo, pois não se moveu... Ele está no segundo andar dos meninos... — Harry tinha certeza disso, pois sabia onde estava Ginny, no primeiro andar do outro lado da Torre, pensou, ao beber a água deliciosa. — Neville tem um sapo... Dean é nascido trouxa e não tem animais mágicos, hum... Seamus... ele é mestiço, então, talvez...

— Não. Eu conheço Peter, ele se esconderia em um lugar onde poderia obter informações, qualquer coisa sobre Voldemort ou sobre o Ministério. — Sirius se aproximou e olhou para o mapa depois de desaparecer o copo vazio. — Ele não tinha como saber se o seu plano de me incriminar daria certo, se eu ficaria preso e por quanto tempo, nem como receber notícias sobre o meu julgamento e se os aurores o estavam perseguindo.

— Claro. — Harry disse pensativo. — Sem as informações de uma família bruxa, Rabicho não teria como saber que você não teve um julgamento, assim, era provável que, cedo ou tarde, a verdade apareceria e ele seria caçado. Se é esse o caso, então só resta uma possibilidade: Rabicho é o rato de estimação da família Weasley.

— Maldito! — Sirius disse furioso. — Claro que o fato de o Arthur trabalhar no Ministério o fez escolhê-los, e, quando percebeu que eu estava condenado a Azkaban para sempre e que a verdade nunca apareceria, Peter decidiu se manter em seu disfarce.

— Ele é um maldito espião, Sirius, e deve ser bom para ter enganado você e meus pais. — Harry disse, e seus olhos se estreitaram de raiva quando um novo pensamento lhe ocorreu. — Se Ron o levou para as reuniões do Covil, Rabicho obteve mais informação do que esperava, e, se fugisse, poderia contar os nossos planos ao Malfoy ou a Voldemort! — Então, outro pensamento lhe ocorreu. — Sirius! Ele poderia contar para os aurores os nossos planos para os lobisomens!

— Calma. — Sirius disse pensativo. — Você não pode ter certeza se ele esteve em alguma reunião ou se Ron falou algo em sua frente...

— Ron tem uma boca grande, aposto que falou mais do que deveria em algum momento, principalmente porque não tinha como imaginar quem era de verdade o seu rato de estimação. — Harry disse, aflito, porque o pensamento de matá-lo lhe parecia cada vez mais necessário. — Podemos obliviá-lo?

— Sim, mas, nesse caso, Dumbledore seria a melhor varinha, ainda que eu duvide que ele concordaria. — Sirius disse com uma careta.

— E também, ele não saberia o que esquecer. — Harry disse, pensativo, e seu olhar foi na direção do Weasley presente em Hogwarts. — Bill... você acha que ele saberia fazer esse feitiço com qualidade?

— Ele é um quebrador de maldições, seria impossível não saber algo assim. — Sirius disse. — Eu poderia tentar, mas se vamos enganar os aurores, precisamos de alguém com alta habilidade.

— Ginny me falou só coisas boas sobre o irmão mais velho, assim, acho que podemos confiar nele. — Harry disse decidido. — Eu subirei, entrarei no quarto do Ron e estupefarei o rato, enquanto isso você desce e pega o Bill, diga que temos algo particular para lhe contar.

Sirius hesitou preocupado e acenou negativamente.

— Vamos pegá-lo juntos, depois um de nós buscará o rapaz...

— Sirius...

— Não, Harry, não o deixarei enfrentar esse maldito sozinho. Se algo lhe acontecesse... — Sirius parecia aflito com o pensamento terrível.

— Ele está dormindo, Sirius, eu entrarei embaixo da capa, invisível e silencioso. Com você lá, as chances de ele perceber algo e tentar fugir ou se defender são muito maiores. — Harry disse seriamente. — Prometo que não o deixarei fugir... espere, podemos chamar o Flitwick, ele pode entrar embaixo da capa comigo e, talvez, até obliviar o rato, assim não precisamos envolver o Bill.

— O Bill será envolvido, ou você acha que os aurores não informarão aos Weasley que eles abrigaram um comensal da morte em sua casa por onze anos? — Sirius disse ironicamente. — Mas eu gostei da sua ideia. Vamos descer, você chama o Flitwick para uma conversa em particular e eu subo logo depois.

Harry apenas acenou e os dois desceram para as masmorras, onde encontraram o grupo em frente a uma estátua de uma mulher muito bonita, que tinha uma cobra em volta dos ombros.

— Ah! Harry, já pretendíamos chamá-lo! — Ian disse animado. — Aqui fica a abertura do elevador, já descobrimos, mas ela tem os mesmos encantamentos da entrada do banheiro. Acredito que você poderá abri-la para nós com a ofidioglossia.

— Ok. — Harry se colocou em frente à estatua e olhou para os olhos de esmeraldas da cobra. — Abra. — Nada aconteceu e ele estreitou os olhos. — Fale comigo, maior dos quatro de Hogwarts. — Imediatamente, os olhos da cobra brilharam, ela levantou a cabeça e deslizou pelo corpo da mulher, que se curvou e deixou o nicho. A cobra deixou a estátua e se colocou na parede do nicho, seu corpo grande e grosso se enrolou sinuosamente, uma luz amarelada brilhou e o chão rangeu.

— Merlin... — Sr. Li disse chocado. — Um encantamento duplo! Aposto que, ao entrar no nicho, Harry teria que pedir que o elevador descesse. A cobra o acompanhará na descida e subida, ela é a chave do elevador, por assim dizer.

— A estátua é apenas uma distração. — Bill disse olhando para a mulher inanimada. — A cobra é quem comanda os encantamentos... Isso é brilhante!

— Bem, incrivelmente, apesar do encantamento duplo, acredito que poderemos acessar o elevador mais facilmente do que a abertura do banheiro. — Disse o Sr. Li. — Aquele lugar é uma passagem secreta e tem muitas defesas, que levarão mais tempo para superar, mas essa me parece uma entrada mais acessível.

— Ótimo! — Mac disse sorrindo. — Vamos começar!

— Vocês precisarão de mim agora? — Harry perguntou. — Me lembrei que preciso falar com o professor Flitwick.

— Não, jovem Harry, agora começaremos o trabalho de varinha mais pesado, e isso demandará algum tempo. — Disse o Sr. Li olhando com atenção para a cobra enrolada na parede.

— Se precisarmos, nós te chamamos, Harry, muito obrigado. — Acrescentou o Ian com um sorriso suave.

— Eu ficarei por aqui, assim posso chamá-lo pelo espelho se eles precisarem que você fale esquisito outra vez. — Sirius zombou levemente, mas seus olhos estavam estranhamente sérios.

— Combinado. — Harry olhou para o seu chefe de casa, que apenas acenou e o acompanhou em questionamentos.

Quando deixaram as masmorras, Harry apressou o passo e olhou o caminho no mapa, queria ter certeza que estava livre para subirem até o sétimo andar. Flitwick o seguiu silenciosamente e, quando Harry tirou a capa, se colocou embaixo dela e eles prosseguiram o trajeto, se desviando de Runcorn, que descia do sexto para o quinto andar. Em frente à Senhora Gorda, Harry o encarou pela primeira vez.

— O senhor sabe a senha?

— Sim. Bombas de Bosta. — Disse o professor, enquanto a mulher do quadro olhava em volta confusamente.

Assim que entraram na sala comunal da Gryffindor, Flitwick deixou a capa e suspirou.

— Estamos de férias, Harry, como você consegue arrumar confusão até nas férias? — Ele parecia exasperado e Harry riu baixinho.

— Dessa vez não é minha culpa, eu prometo. — Harry se defendeu. — Veja o que caiu em nosso colo. — Ele mostrou o nome no mapa e explicou sua localização, as teorias de Sirius e sua preocupação sobre o que Rabicho poderia ter ouvido nas reuniões do Covil ou nas conversas de Ron e seus amigos.

— Entendo. — Flitwick acenou ao ouvir a ideia de obliviar o pequeno espião. — Imagino que vocês consideraram a possibilidade de nos livrarmos do problema em definitivo.

— Bem... — Harry hesitou, mas, como sempre, não viu nenhum julgamento em sua expressão. — Consideramos por um segundo, mas decidimos que não podemos descer ao nível dos comensais e matar tão friamente. Fazer isso seria diferente de matar em um duelo ou em defesa própria, assim, deixemos esse pensamento como um último recurso.

— Muito justo. — Flitwick olhou pensativamente para o mapa. — Antes de obliviá-lo, precisamos saber com certeza se ele ouviu alguma informação perigosa, pois seria tolice usar um feitiço tão perigoso levianamente.

— Como assim? — Harry perguntou confuso.

— O feitiço de Obliviação apaga da mente consciente uma informação específica, Harry. Por exemplo, podemos intencionalmente direcionar o feitiço para que qualquer informação que Pettigrew tenha sobre o Covil, reuniões no Covil, reuniões com Harry Potter, lobisomens, ilha, Harry Potter ajudar os lobisomens, desapareçam de suas lembranças conscientes. Entendeu até agora? — Harry acenou com expressão concentrada. — Mas se ele não tiver essas informações, poderíamos destruir sua mente, pois o feitiço apagaria um rastro de lembranças conectadas a essas palavras.

— Ele poderia esquecer sobre a existência de lobisomens, sobre Harry Potter. — Harry olhou para o mapa, pensativo.

— Exato, principalmente se formos detalhistas e usarmos o feitiço com razoável potência. — Flitwick explicou. — Esse feitiço tem que ser controlado habilmente ou pode causar danos mentais sérios, Harry, mas o que você deve considerar é que, mesmo se fizermos tudo perfeitamente, a obliviação deixará um rastro. — Ao ver sua expressão confusa, Flitwick continuou. — Um hábil legilimente poderá perceber a marca do feitiço, descobrir que informações foram apagadas da mente consciente e acessar o inconsciente para obter a informação. Claro, invadir tão profundamente a mente de uma pessoa poderia destruir sua mente de maneira irreparável.

— O senhor poderia usar legilimência para descobrir se Rabicho sabe de algo? — Harry perguntou, mantendo o olhar no mapa.

— Sinto muito, Harry, mas eu não tenho essa habilidade. Apesar de compreender a teoria, nunca aprendi a realizar a legilimência na prática. — Flitwick disse pesaroso.

Harry suspirou e voltou a pensar se deveria chamar o Bill, mas então se lembrou do que Dumbledore dissera mais cedo, sobre como Voldemort, involuntariamente, tinha transferido alguns dos seus poderes a ele. Todos sabiam que Voldemort era um hábil legilimente, assim, a questão que ficava era: ele também tinha essa habilidade? Ou apenas a ofidioglossia? Só havia uma maneira de saber, decidiu Harry.

— Ok. Eu nunca tentei, mas eu também conheço a teoria e, talvez, tenha adquirido a habilidade de Voldemort. — Harry disse, e, ao ver o olhar horrorizado de Flitwick, acrescentou. — Dumbledore me disse mais cedo que Voldemort pode ter transferido alguns dos seus poderes para mim naquela noite, como a ofidioglossia, mas depois conversamos sobre isso, professor. Agora, vamos pegar um rato.

Flitwick não discutiu, mas era possível ver por sua expressão carregada que a informação não o agradara. Os dois subiram as escadas e, invisíveis, silenciosos e cautelosos, entraram no quarto que tinha Weasley escrito na porta. No entanto, tanta cautela não era necessária, pois o rato cinza com um dedinho faltando dormia tranquilamente no meio da cama do seu "dono". Rabicho – ou Perebas, seu nome como animal de estimação dos Weasley nos últimos doze anos – não ouviu ou percebeu nada ao ser estupefato habilmente por Harry, que pode ter colocado um pouco mais de força do que o necessário no feitiço.

— Ok. — Harry hesitou levemente. — Tentarei entrar em sua mente...

— Posso sugerir transformá-lo em humano antes? — Flitwick disse, com a sobrancelha erguida. — Não acredito que você gostará de entrar na mente simples de um rato.

— Oh! — Harry corou envergonhado, pois não tinha pensado nisso. — Certo, transformação primeiro.

— Deixa essa parte comigo. — O professor disse, e, acenando com sua varinha, eles observaram como, lentamente, o corpo do rato se expandiu enquanto se transformava em um ser humano.

Peter Pettigrew não envelhecera muito bem. Estava gordo, com papadas sob o queixo, feições de rato, rugas e uma palidez doentia. Harry o olhou com nojo e raiva, mas respirou fundo tentando se controlar, pois sabia que não tinha muito tempo. Fechando os olhos, Harry alcançou a sua magia e a conectou com a do ambiente que os cercava, suspirando quando a magia de Hogwarts, poderosa e gentil, o acolheu. Imediatamente, mesmo com os olhos fechados, a energia laranja azulada de Flitwick foi captada, assim como a energia marrom esverdeada de Rabicho. Seu asco pelo homem aumentou ao olhar para a sua magia bolorenta e fraca.

Harry andou mais alguns passos até ficar ao lado da cama e estendeu a sua magia na direção de Rabicho. Ele sabia o que tinha que fazer: seu exército mental, que protegia a sua mente com lealdade e força, precisava ser dividido e enviado para uma missão de ataque. Harry tinha uma magia naturalmente voltada para a Defesa, e, como a melhor defesa é o ataque, ele não se surpreendeu ao ser atendido facilmente. Na verdade, Harry achou fácil demais e foi obrigado a admitir que essa habilidade não deveria ser totalmente dele. Fazia sentido que, assim como a ofidioglossia, a legilimência poderia ser um poder dotado por Voldemort, não que Harry não poderia ter a habilidade por si mesmo, mas provavelmente não seria ou deveria ser tão facilmente acessível em uma idade tão jovem.

Mas Harry decidiu ignorar essa reflexão por enquanto e se concentrar na tarefa à sua frente. Decidindo não agir com brutalidade, ele sutilmente alcançou a energia bolorenta e buscou a sua mente. Seu cenho se franziu quando não encontrou nada, até se lembrar que usava magia e, nesse caso, a sua magia precisava encontrar a fonte da magia do outro bruxo. Intencionalmente, Harry solicitou à sua magia que se conectasse com a magia asquerosa, e, assim que isso aconteceu, ele se viu inundado de informações.

Harry deu um passo para trás e ofegou quando sentimentos e palavras aleatórias invadiram a sua mente como um vulcão transbordando. Imagens desconexas saltaram aleatoriamente, quase rapidamente demais para ele compreendê-las.

Vergonha, tanta vergonha... Peter fugindo por uma rua desconhecida. "Por favor, por favor, não deixe que eles me encontrem! Sirius me matará!"

Medo! Escuro e paralisante medo! Rabicho em uma cozinha simples ouvindo um homem ruivo ler o jornal para a esposa. " Sirius está livre! Ele virá atrás de mim!"

Dúvidas, inseguranças. O rato encolhido em sua gaiola. "Devo fugir? Ou estou seguro aqui!?"

Fraqueza, resignação. Peter encolhido de terror em frente a Voldemort. "O que eu deveria fazer? O Lord das Trevas estava tomando tudo! Se negar a ele seria uma grande tolice!"

Raiva, inveja, desespero. Peter observando Remus, Sirius e James rindo, confiantes e corajosos. "Eles nunca me entenderão! Eles sempre foram tão fortes e corajosos! Não podem entender o medo dos fracos, o medo da dor e da morte!"

Tudo isso pulou em sua mente em um segundo e Harry percebeu que, inconscientemente, sua vontade direcionou a sua magia para os pensamentos sobre o porquê de Rabicho ter traído os seus pais. Se concentrando, Harry fechou os punhos para os pensamentos do maldito covarde e exigiu da sua magia que acessasse as informações que precisava.

"O menino!" Surpresa, hesitação. Rabicho o observando na Sala Comunal da Gryffindor conversando com os gêmeos. "Ele é tão brilhante! Como a Lily! Mas se parece tanto com James!"

Curiosidade, vergonha, arrependimento. Peter sentado à mesa com os pais de Harry em um jantar, rindo e conversando. "Oh, Lily, James, sinto tanto! Mas o que eu poderia fazer? Ele me mataria!"

Ansiedade, medo, dúvida. Rabicho observando e ouvindo Ron conversar com Seamus. "O Mestre está vivo! Ron soube por Harry e tagarelou sobre como eles formariam um grupo para lutar contra o Mestre, mas o seu dono parece pensar que os Slytherins não deveriam estar participando."

Ansiedade, dúvida. "O que fazer? Sirius me matará se me encontrar, assim, fugir para o meu Mestre é minha melhor opção. Certo? Devo partir agora? Ou esperar?"

Sobrevivência, desespero. Rabicho seguindo Ron, Seamus e Dean. "É a única maneira! Conseguirei informações para o meu Mestre e o encontrarei! Preciso entrar nas reuniões do menino!"

Raiva, desespero. Rabicho não consegue entrar no Covil. "Não! O menino protegeu a sala! Se tentar entrar, ele perceberá a minha presença!"

Esperteza, sobrevivência, desespero. Rabicho seguindo Ron para todos os lugares da Torre. "Ouvirei com atenção tudo o que Ron disser e assim serei valioso para o meu Mestre, talvez... talvez ele não me puna muito."

Triunfo, incredulidade. Rabicho ouvindo Ron e Dean falando sobre os lobisomens, depois com Seamus sobre o Ministério. "Ele ajudará os lobisomens! Um lar para eles! Mas Ron não sabe onde! E Harry pretende mudar as leis no Ministério! Sirius como um Ministro! Se preparar para a guerra! Como Harry fará isso? O Mestre ficará furioso!"

Medo, dúvida. "Talvez não deva procurá-lo! O Mestre descontará a sua raiva em mim, e, se os planos do Harry derem certo, ele poderia ser vencido outra vez e eu estarei perdido! Devo continuar escondido!"

Dúvidas, insegurança. "Não irei para a Toca! Ficarei em Hogwarts e fugirei, com a varinha do Mestre posso fazer magia e desaparecer. Para onde irei? Posso confiar em alguém? Devo sair do país? Não procurarei o Mestre, não é seguro ao seu lado, mas não sei para onde ir! O menino me descobrirá! Ou Sirius! Os Weasley podem perceber que eu deveria já ter morrido!"

Exausto, Harry afastou seu exército mágico, o desconectou da magia do Rabicho e a agradeceu por sua ajuda. Sua magia cantarolou e acariciou os seus cabelos carinhosamente antes de se acomodar. Abrindo os olhos, Harry suspirou e se sentou em uma das cadeiras do quarto bagunçado de Ron.

— Não conseguiu? — Flitwick perguntou, estranhando a sua palidez e cansaço. — Eu poderia tentar...

— Eu consegui. — Harry disse com voz fraca. — Ele sabe muito mais do que eu poderia imaginar, estava planejando procurar Voldemort e ganhar a sua complacência com as informações. No entanto, ao saber das nossas preparações para a guerra e da possibilidade de o Sirius se tornar Ministro, Rabicho mudou de ideia, não acredita mais que estará seguro ao lado de Voldemort, teme que ele perca a guerra por causa dos nossos planos.

— Espera. — Flitwick o encarou confuso. — Você conseguiu acessar a sua mente? E descobriu tudo isso?

— Sim. Ah, e ele sabe sobre os lobisomens, felizmente o Ron não mencionou a ilha e não sabe a sua localização. — Harry disse, e ficou confuso com a expressão chocada do professor. — O quê?

— Harry... você esteve com os olhos fechados por não mais do que 20 ou 30 segundos. — Informou Flitwick, com sua voz esganiçada no tom mais alto.

— O quê? — Confuso, Harry se levantou, mas cambaleou fracamente. — Mas pareceu muito mais tempo, longos minutos, eu diria, e fiquei tão cansado e fraco...

— O cansaço e a fraqueza vêm do fato de que você tem a magia de um adolescente, e não a de um adulto. — Flitwick disse. — Obviamente, a legilimência exige muito magicamente, e será menos desgastante quando você for mais velho. E suponho que o tempo de leitura também diminuirá quanto mais você praticar, pois acredito que um hábil legilimente realizaria o que você fez em um ou dois segundos. — Seu professor sorriu com admiração. — Ainda assim, seu feito não deixa de ser muito impressionante, Harry, e isso não deveria me surpreender mais, pois tenho a sensação de que você não tem limitações no que diz respeito à magia.

— Na verdade, achei bem fácil. — Harry disse, e isso não o deixou feliz. — Não sei o que pensar...

— Depois conversaremos sobre o que disse Dumbledore, mas sua conexão com a magia é um dom natural, Harry, não adquirida ou desenvolvida. — Flitwick ergueu a mão quando Harry tentou protestar. — Eu sei, a ofidioglossia parece o mesmo, mas ela não é um dom, é uma habilidade. A legilimência também é uma habilidade, mas sua conexão natural com a magia faz parte de você, Harry, de quem você é. Essa conexão é que lhe permite ver a magia e torna tão fácil a legilimência, assim como o seu bom coração o faz usar a ofidioglossia para o bem.

Harry acenou enquanto se ajustava a esse novo raciocínio. Mesmo que Voldemort tenha lhe passado alguns dos seus poderes ou habilidades, algo como sua conexão natural com a magia não viria disso, pois isso fazia parte da sua magia, da magia Potter, herdada dos seus pais, avós e de outras famílias com quem seus antepassados se casaram ao longo dos séculos. Os O'Hallahans eram ótimos em feitiçaria, os Fleamont hábeis mestres rúnicos, os Potters incríveis potioneers e assim por diante. Provavelmente, sem a sua conexão com a magia, a habilidade de legilimência que Voldemort lhe passou precisaria de muito treinamento, e ele só conseguiria alcançar um bom nível ao se tornar adulto e ter toda a sua magia disponível.

Aliviado com a constatação de que a facilidade em usar essa habilidade era mérito dele e não de Voldemort, Harry voltou sua atenção para o homem inconsciente deitado na cama. Como podia ser tão egoísta e covarde!? Como podia pensar que viver desta maneira, servir o seu Mestre e sentir culpa e vergonha pela morte dos seus pais para sempre, era melhor do que a morte?

— O senhor precisa tirar tudo da mente dele, professor. — Harry disse com firmeza. — Eu não o quero morto, Rabicho deve viver, por muitos e muitos anos, eu o quero vivo, se lembrando e sentindo toda essa culpa e vergonha pelo que fez aos meus pais.

— Muito bem. — Flitwick disse com um sorriso orgulhoso. — Me diga tudo o que ele sabe, em detalhes, farei o feitiço com muito cuidado e tentarei não deixar um rastro muito evidente. Com sorte, os aurores do Ministério não se preocuparão em verificar algo assim, e, preso em Azkaban, Pettigrew não se encontrará com hábeis legilimentes.

Harry acenou e explicou em detalhes as informações e sentimentos que captara de Rabicho.

— Curioso. — Flitwick disse pensativo. — Realmente não é uma leitura de mente, se trata mais de uma absorção de informações com a sua magia, algo bem sutil e delicado.

— Alguns diriam que é uma invasão, professor. — Harry disse, meio envergonhado.

— Sim, suponho que seja isso também. Bem, vamos lá. — Flitwick se concentrou e Harry observou enquanto o diminuto professor enviava um fio brilhante de magia para a cabeça do traidor.

Ele se manteve em silêncio, mas quando muitos minutos se passaram, decidiu deixar o quarto e chamar por Sirius sem perturbar o seu chefe.

— Ei, o rato está na caixa, você poderia subir? — Harry disse e os olhos do seu padrinho brilharam de triunfo.

— Ok. Estarei levando o diretor. — Sirius disse apressadamente.

Harry guardou o espelho e voltou para o quarto de Ron, onde encontrou Flitwick sentando com um sorriso de vitória.

— Feito perfeitamente, Harry. — Ele disse alegremente. — Nunca pensei que me sentiria satisfeito em realizar um feitiço tão vil, mas não posso negar que estou alegre com o resultado.

— Não se sinta culpado, professor, estamos apenas apagando informações que o rato conseguiu espionando. Sirius está vindo com o Dumbledore, talvez devêssemos amarrá-lo e fazer parecer que o senhor estava aqui apenas para garantir que ele não fugisse de mim. — Harry disse olhando o mapa, Sirius e o diretor já estavam no quarto andar.

— Bem, então, por que você não o prende, Harry? Adoraria ver o seu Incarcerous Metallum em ação, e você pode exibi-lo na prática para a comissão de patentes do Ministério. — Flitwick propôs divertidamente.

Harry arregalou os olhos e sorriu animado. Apontando a varinha, ele falou com intensidade.

Incarcerous Metallum! — As correntes de metal surgiram como cobras sinuosas e apertaram o corpo do Rabicho em um abraço doloroso. O guincho sufocado que saiu do traidor lembrava mesmo o de um rato.

— Acho que você tem que diminuir o aperto, Harry, ou o matará sufocado. — Seu professor o alertou divertido.

— Que pena... — Harry fez um bico, mas, mantendo o controle sobre o feitiço, acenou com a varinha e diminuiu o aperto para um nível que não cortaria a pele ou sufocaria o traidor. — Bem, ele ainda está bem preso.

— Bom... — Passos foram ouvidos e, um segundo depois, Sirius entrou impetuosamente no quarto.

— Veja, diretor. Eu lhe disse, o mapa nunca mente! — Sirius disse triunfante, lançando um olhar de profundo ódio para o homem inconsciente e acorrentado.

Dumbledore olhou para a cama e sua expressão sempre serena tornou-se sombria e furiosa.

— Todo esse tempo... — Ele disse com voz decepcionada. — Ele esteve bem aqui.

— O senhor acredita que Rabicho está aqui há mais tempo do que esses dois anos, diretor? — Harry perguntou suavemente.

— Acredito que, se Peter esteve escondido com os Weasleys nos últimos doze anos, é mais do que provável que ele foi o rato de estimação dos irmãos mais velhos do Sr. Weasley. — Dumbledore respondeu, se aproximando da cama. — Minerva saberá com certeza... Filius? Você conjurou correntes mágicas?

— Não, Albus. — Flitwick se mostrou divertido. — Eu vim apenas como proteção extra, Harry o estuporou e acorrentou com uma variação do Incarcerous.

— Bem, ele estava dormindo, então não foi grande coisa. — Harry se apressou em dizer, timidamente.

— Ainda assim, parabéns, Harry. — O diretor olhou com mais atenção para as correntes. — Eu não sabia que alguém tinha criado uma variação do Incarcerous, sempre recebo um informativo da Comissão de Patentes quando algo assim acontece.

— Bem, eu ainda não tive a oportunidade de registrar essa modificação do feitiço, diretor. — Harry disse, e, quando o diretor o encarou boquiaberto, literalmente, ele corou. — Eu ainda estava treinando dominar essa variação do feitiço Incarcerous completamente e encontrando o nome certo.

— Ora... — Dumbledore parecia completamente desconcertado. — Você criou essa variação?

— Sim, senhor. Eu chamo de Incarcerous Metallum. — Harry acenou com a varinha e apertou as correntes, arrancando um guincho agudo do rato. — Já consigo controlar bem o feitiço quando o realizo e acredito que o nome é bem específico, isso ajudará para que todos compreendam a diferença entre um e outro.

— Impressionante. — Dumbledore olhou para Harry e Flitwick por cima dos óculos. — Tenho a sensação de que, mesmo sem fazer parte do Clube de Feitiços, Harry tem tido um pouco de atenção extra, Filius.

— Meu aluno é extraordinário por si mesmo, Albus, eu apenas o incentivo a ir além. — Flitwick disse sabiamente divertido.

— Eu não duvido, Filius, na verdade, tenho percebido isso por mim mesmo, caro amigo. — Dumbledore disse suavemente. — Bem, o melhor é transferirmos essa inesperada reunião para o meu escritório, chamar a professora McGonagall e os aurores.

— Quero que um representante legal nosso acompanhe todo o processo e julgamento de Peter, diretor. — Sirius disse resoluto. — E eles precisam colocá-lo em uma cela que o impeça de se transformar em seu animagus.

— Vamos nos mover e providenciar tudo isso. — O diretor respondeu.

E foi o que o grupo fez. Em poucos minutos, eles estavam no escritório circular do diretor, que chamou os aurores pelo flu e enviou a McGonagall uma mensagem por seu patrono fênix. Sirius manteve o olhar cheio de ódio e mágoa sobre Rabicho, enquanto Harry voltou a desapertar as correntes, depois que Flitwick o lembrou que as havia apertado.

A professora chegou primeiro e empalideceu ao ver quem estava acorrentado no escritório de Dumbledore.

— Mas... Como!? — Perguntou ela, ao levar a mão ao peito de susto.

Dumbledore explicou o que Sirius tinha lhe falado mais cedo e como Harry e Flitwick o tinham capturado.

— Mapa? — Ela olhou estranhamente para Harry, que ignorou a questão.

— Você saberia nos dizer se os outros irmãos Weasley também tinham um rato de estimação, Minerva? — Albus focou no mais importante.

— Eu... sim, claro. — Ela respirou fundo, tentando recuperar a compostura. — Percy também teve um rato como seu animal de estimação em seus primeiros anos, mas é improvável que fosse Pettigrew disfarçado, pois ratos não vivem por tanto tempo, afinal. Quero dizer, não sei que espécie de rato é o seu animagus...

— Peter é da espécie ratazana, professora. — Sirius se apressou em dizer.

— Pois então, essa espécie vive por apenas dois anos, não existem ratos mágicos ou algo do tipo. Sendo assim, a família Weasley perceberia se um rato vivesse por mais do que isso. — McGonagall explicou rigidamente. — Acredito que ele deve ter sido o rato de estimação apenas do mais jovem Weasley.

— Isso faz sentido. — Flitwick opinou seriamente. — Seria o ano em que o Harry começaria Hogwarts, e aposto que Pettigrew acreditou que você seria um Gryffindor como os seus pais. Seria a espionagem perfeita.

— Quando Voldemort voltasse, Peter estaria posicionado perfeitamente para entregar o Harry ao seu "mestre". — Disse Sirius com fúria. — Acorde-o, diretor, quero saber onde ele esteve por todos esses anos enquanto eu estava mofando naquela maldita cela.

Dumbledore hesitou, mas acabou acenando a varinha e acordando o homem rechonchudo com o Rennervate.

Peter acordou de um sono profundo e desconfortável para uma realidade aterrorizante e muito dolorosa.

— O que... não... o q... Não! — Seu rosto se tornou esverdeado e pálido instantaneamente, enquanto seus olhos se esbulharam de horror. — Por favor! Não!

— Olá, Peter. — Sirius se inclinou sobre o homem reclinado em uma das cadeiras do escritório e o encarou com maldade. — Muito tempo sem nos encontrarmos, velho amigo.

— Si... Si... rius... — Peter o encarou com profundo terror e depois olhou em volta. — Não... por favor... Não me matem...

— Ninguém pretende matá-lo, traidor. — Harry se adiantou e o encarou com toda a sua mágoa. — Você irá para o lugar a que pertence, e espero que nunca se esqueça que matou James e Lily, porque eu nunca me esquecerei.

— Harry... sinto...

— Não diga o nome dele! — Berrou Sirius com o rosto pálido de fúria. — Não ouse tentar se desculpar ou se justificar! Você os matou! Por quê!?

— Ele ia me matar, Sirius...

— Então, você deveria ter morrido! Como teríamos feito por você! — Sirius se afastou e era possível ver a dor, as lágrimas e o ódio em seus olhos cinzas. — Mas a sua covardia não me interessa ou qualquer justificativa patética. Eu passei dez anos naquele inferno, e dormirei tranquilo a partir de hoje ao saber onde exatamente você estará. — Sua expressão se tornou maldosa. — Eu saberei exatamente com quem você estará e o que sentirá quando os Dementadores o vigiarem bem de perto.

Harry viu Rabicho ofegar e empalidecer a ponto de parecer um cadáver. Suor brotou em sua testa e ele parecia bem perto de vomitar.

— Não! Por favor... qualquer coisa... por favor, não Azkaban... — Ele balbuciou, olhando em volta em busca de ajuda. — Professora... professor... diretor... eu imploro... por favor...

— O que você prefere? — Harry se colocou à sua frente. — Você achou preferível matar os meus pais e viver em fuga como um rato do que ser morto por Voldemort. — Rabicho estremeceu violentamente ao ouvir o nome. — Agora, você escolheria o que, Rabicho? Azkaban ou a morte? — Seus olhos castanhos redondos e feições de rato o encararam desesperado. — Não existe outra escolha! Ou é um ou o outro! Diga! Qual inferno você quer conhecer primeiro!? — Mas, em vez de responder, Rabicho começou a chorar e soluçar pateticamente. Harry o encarou com nojo e se afastou. — Não tenho mais nada a falar para você, pois sei que estará pagando pelo que fez, e isso é tudo o que eu preciso.

— Por favor... — Seus soluços poderiam ter comovido alguém, se todos naquela sala não tivessem conhecido e amado James e Lily de alguma maneira.

Harry percebeu que Dumbledore era o único que mostrava alguma pena em sua expressão, misturada com decepção. McGonagall mostrava nojo e raiva, enquanto Flitwick parecia apenas frio e indiferente.

— Eu quero saber onde esteve durante todos esses anos. — Sirius disse com voz fria. — E o que planejava fazer contra o Harry? E não minta, Peter, você me deve ao menos saber isso depois de me colocar em Azkaban e matar James e Lily.

— Eu... eu... — Rabicho demorou um pouco para se acalmar, mas ainda respondeu em balbucios patéticos. — Vivi como um rato da família Weasley desde que a guerra acabou...

— Mas isso é impossível! — McGonagall exclamou chocada. — Ratos não vivem por doze anos! Eles deveriam ter esperado a sua morte há vários anos!

— Eles estão sempre distraídos... muitas crianças, e são tão pobres, não podem comprar animais de estimação... nunca questionaram... — Gaguejou ele entre os soluços. — As crianças não sabem... não aprendemos sobre ratos em Hogwarts, afinal...

— Merlin... — A professora se sentou em uma cadeira ao ficar pálida com a verdade.

— E quais eram os seus planos para o Harry? — Sirius perguntou, sem se preocupar em comentar a informação anterior.

— Nada. Juro que não faria nada... pensei em fugir para longe, deixar o pais, mas... Eu não sei para onde irrrrr. — Ele voltou a soluçar, e Harry refletiu que Rabicho se arrependeria de não ter fugido quando teve a chance. — Por favor... piedade... meu amigo... tenha piedade...

— Eu terei. — Sirius disse cruelmente. — A mesma que você teve comigo e com James... — Sua voz se embargou. — James amava você, o considerava da família e... não existe misericórdia para alguém como você, Peter. Tudo o que lhe acontecer a partir de agora é mais do que merecido.

Sirius também se afastou para perto do Harry e colocou a mão em seu ombro, mostrando que também não tinha mais nada a dizer. Peter voltou a chorar copiosamente, e Harry se sentiu enervado por sentir pena do infeliz.

— Podemos esperar lá fora? — Ele perguntou cansado. — Os aurores farão perguntas a nós, certo?

— Acho que podemos deixar vocês dois de fora nesse caso. — Dumbledore disse suavemente. — E o seu mapa especial também.

— Isso é bom, não quero que se espalhe que eu o capturei. — Harry disse aliviado, então olhou para Flitwick. — Professor, o senhor pode ficar com o crédito, se não se importar.

— Claro, Harry, e direi que usei o feitiço que você modificou, aproveitarei a nossa ida ao Ministério e registrarei a variação no Departamento de Patentes. — Flitwick disse carinhosamente.

— Obrigado, senhor. — Harry sorriu para o seu chefe e acenou para Dumbledore e McGonagall antes de descer as escadas com Sirius logo atrás.

Quando a gárgula voltou ao seu lugar, o silêncio no corredor encontrou os dois paralisados no lugar com expressões muito diferentes. Harry se sentia muito aliviado, mas Sirius tinha tanto vazio e tristeza em seu peito que parecia sufocá-lo.

— Com licença, preciso de um minuto. — Sirius disse, e caminhou apressadamente para a sala vazia mais próxima.

Harry o seguiu mais devagar e o encontrou jogando as carteiras na parede violentamente.

— Maldito! Desgraçado! — Harry ficou em silêncio e deixou o padrinho descarregar toda a sua fúria destruindo a sala de aula. — Traidor maldito!

Por fim, Sirius parou ofegante no meio da sala destruída, não se sentindo muito melhor do que antes.

— Acabou, Sirius. — Harry disse suavemente. — Ele está preso agora e pagará pelo que fez.

— Nunca acabará... — Sirius suspirou cansadamente. — Mesmo que ele viva por cem anos em Azkaban, sua traição nunca desaparecerá, meus anos na prisão não deixarão de existir, James e Lily não deixarão de estarem mortos. Essa satisfação é superficial e vazia, e eu pensei... pensei que me sentiria diferente...

Harry acenou compreendendo que Sirius não só perdeu os seus melhores amigos; seu padrinho também fora cruelmente traído por um grande amigo e sofrera cruelmente na prisão. Ele, Harry, perdera os pais por causa do Rabicho, e saber que o traidor estava sendo punido por isso era o suficiente para encontrar um pouco de paz, mas seria diferente se Harry tivesse lhe entregado a sua confiança e amizade como Sirius fizera. Na verdade, Harry não conseguia imaginar como se sentiria se Terry, Neville ou Hermione o traísse e, por causa dessa traição, ele perdesse os outros dois. E, além disso, essa traição terrível fez Sirius passar dez anos de sua vida encarcerado, sem direito a defesa, abandonado por amigos e familiares, convivendo com as piores criaturas que habitavam essa terra e longe dele.

— Acho que nunca poderemos mudar o passado, então precisamos aprender com ele, certo? Aceitar e usar o que a vida nos deu para vencer os desafios e seguir em frente como der. — Harry pensou em Lockhart, em sua morte terrível e como nunca poderia ser chorado e lembrado por sua família e amigos. Ele não podia mudar isso, decidiu, por toda a sua vida teria que carregar esse peso, conviver com a verdade que só ele sabia. Suspirando, Harry endireitou os ombros sentindo-os se fortalecerem sob essa nova constatação. Não se deixaria abater pelo que acontecera, assim como não permitiria que Voldemort, Rabicho ou Vernon o quebrassem. Ele era um guerreiro Potter, afinal. — Nós podemos fazer isso, Sirius, somos fortes para enfrentar o pior e seguir em frente.

Sirius sorriu com amor e orgulho para o afilhado, se aproximou e o puxou para um abraço forte.

— Sim, se estivermos juntos, acredito que somos mais fortes sim, e poderemos enfrentar o que vier. — Suspirando, eles se afastaram e sorriram um para o outro. — Vamos lá, estou faminto e aposto que os elfos estão com saudades dos alunos e ansiosos por algum trabalho.

O almoço na cozinha reuniu todo o grupo que estava em Hogwarts naquele dia. Runcorn se manteve silencioso e rabugento, Xandra e Bill conversavam em voz alta e animada com Ian e Mac. O Sr. Li mantinha sua expressão serenamente divertida enquanto ouvia a conversa e, de vez em quando, fazia um ou outro comentário. Sirius e Harry se mantinham mais discretos, ainda impactados com os acontecimentos da manhã.

— Eu conheci o meu marido em uma conferência da ICW, ele trabalha no Departamento de Cooperação Internacional em Magia do seu Ministério e eu estava terminando o meu treinamento de quebradora de maldições. — Xandra explicava. — Pensei que trabalharia para a Confederação e viajaria pelo mundo, mas acabei me apaixonando e vindo viver na fria Inglaterra. — Seu sorriso brilhante mostrava que ela não lamentava o novo caminho.

— Bem, eu gosto de viajar pelo mundo. — Bill disse, depois de colocar uma montanha de comida em seu prato. — Ainda que esteja estacionado no Egito, sou enviado para algumas missões de treinamento em outros países e era exatamente o que queria quando decidi trabalhar no Gringotes.

— Não pensou em trabalhar para a ICW? — Xandra perguntou curiosa. — Eles pagam melhor que os goblins.

— Eu não queria nada muito institucional, sabe. — Bill disse com uma leve careta. — Eu ouvi minha mãe falando a vida toda que eu deveria conseguir um bom trabalho no Ministério e me acomodar, o que para mim sempre significou um trabalho rotineiro e tedioso. Em termos de possibilidades e aventura, o Gringotes me oferece mais.

— Isso é verdade. — Xandra disse. — Em seu Ministério, por exemplo, eu faço muito trabalho de mesa, o que não deixa de ser bem chato, mas eu não pretendo trabalhar lá para sempre. Leo e eu combinamos em economizar para uma casa maior, sabe, com espaço para crianças, e depois poderei trabalhar em algo mais divertido, mesmo que não seja tão estável.

— Duvido que o Ministério esteja estável para uma estrangeira, Xandra. — Sirius disse. — Aposto que ganha um terço do que qualquer um dos seus colegas ingleses do seu Departamento.

Isso fez Xandra arregalar os olhos e olhar para Runcorn, que deu de ombros desinteressado.

— Mas isso seria um absurdo! — Exclamou ela chocada.

— É como funciona no Ministério inglês, infelizmente. — Disse Mac chateado. — Estrangeiros e nascidos trouxas têm menos direitos e privilégios, mulheres também, portanto, você ganha menos e isso é feito legalmente.

O rosto de Xandra ficou vermelho de raiva e ela voltou a lançar um olhar mortal para Runcorn.

— Escute, tenho uma proposta de trabalho para você, se estiver interessada. — Disse Sirius, depois que Harry o cutucou.

— Que trabalho? — Xandra o olhou curiosa e surpresa, seu rosto voltou ao tom azeitonado do mediterrâneo.

— Prefiro que nos falemos em particular. — Sirius estendeu um cartão de visita. — Por favor, me procure nos Escritórios Blacks no prédio da GER na semana que vem e poderei lhe explicar em mais detalhes.

— Claro... — Ela olhou para o cartão, pensativamente curiosa, e sorriu ao guardá-lo. — Bem, Bill, voltando ao que falamos, quais são seus planos para o futuro?

— Eu tenho 22 anos, Xandra, posso deixar o futuro para depois. Além disso, tenho muita vontade de aprender o máximo de magias que puder e viver muitas aventuras. Esse é o meu maior foco no momento. — Bill disse determinado.

— E as garotas, não se esqueça das garotas, William. — Disse o Sr. Li com uma piscadela, e todos (menos Runcorn) gargalharam enquanto Bill ficou vermelho como só um Weasley poderia.

— Aposto que, quando se apaixonar por uma dessas garotas, começará a pensar no futuro e em se estabelecer. — Disse Xandra divertidamente.

— Bem, prefiro não a encontrar agora se não se importar, ainda tem muitas garotas para conhecer antes da certa. — Brincou Bill, o que provocou risos.

— Eu acho que encontrar a garota certa bem cedo não é tão ruim. — Disse Harry, e corou levemente com os olhares que se dirigiram a ele. — Quer dizer, você pelo menos já sabe quem é, não precisa ficar procurando ou temendo nunca encontrá-la. Certo?

— Garoto sábio. — Sr. Li disse com uma expressão de aprovação.

— Sábio ou ingênuo? — Bill disse divertido. — Harry, você ainda é muito jovem para entender, mas a diversão de encontrar a garota certa é toda a procura, sabe, você precisa tentar e tentar até acertar.

Isso provocou mais risos, e Harry corou ainda mais, pois sabia que ele estava falando de sexo.

— Bem... — Harry começou maliciosamente e o riso diminuiu. — Mas eu poderia tentar e tentar muito com a pessoa certa, sabe, até encontrar a perfeição.

A mesa gargalhou e até os elfos que estavam por perto riram, corados. Ian, que estava ao seu lado esquerdo, bateu em seu ombro o congratulando.

— Esse garoto é muito inteligente para o seu próprio bem, e eu concordo plenamente. — Ian lançou um olhar quente para Mac, que sorriu. — Eu encontrei a pessoa certa no meu quinto ano aqui em Hogwarts e ainda estamos tentando muito encontrar a perfeição. Nunca senti falta de variedade, pessoal, porque, quando é o certo, é especial.

— Ah! Posso até imaginar vocês dois tentando por toda a Hogwarts. — Disse Sirius sorridente. — Imagino como disfarçaram que um quinto ano da Gryffindor passava mais tempo com um quarto ano da Ravenclaw do que patrulhando.

— Bem, ser um monitor tem suas vantagens. — Ian disse maliciosamente.

— Sim, como o banheiro exclusivo para monitores com uma enorme banheira. — Mac acrescentou. — Harry, eu o aconselho a ser um monitor só para ter acesso àquele banheiro, vale a pena.

Harry corou levemente e percebeu que Runcorn olhava para Ian e Mac com nojo, antes de se levantar e deixar a mesa, depois a cozinha, sem terminar a refeição. Enquanto isso, Bill falava sobre o banheiro dos monitores e que ele o ajudou a "tentar" com muitas garotas em sua época.

— Não ligue. — Ian disse suavemente para Harry, que olhava com raiva para a saída da cozinha por onde Runcorn desaparecera. — Esse tipo de coisa é muito comum nos dois mundos, infelizmente, mas Mac e eu não deixamos que nos atinja mais.

— Ele é um idiota purista, então eu não deveria estar surpreso. — Harry disse suavemente. — Bem, eu não sabia que você e Mac eram casados.

— Bem, casamento gay não é legal em qualquer dos mundos, e aqui é ainda pior, assim tentamos ser discretos, apesar de não escondermos se o assunto surge. — Ian explicou. — Nós dois namoramos escondido em Hogwarts por mais de dois anos, eu concluí Hogwarts primeiro e concordamos em terminar, afinal, morávamos em pontos opostos do Reino Unido. — Harry acenou, sabendo que Mac era escocês e Ian londrino. — Havia também o fato de que estaríamos indo para universidades diferentes, então concordamos que ficarmos presos em uma relação à distância era tolice.

— Imagino que tolice foi terminar. — Harry considerou sorrindo.

— Eu tinha 18 anos. — Ian deu de ombros. — Na época, me pareceu o certo. Além disso, nós dois estávamos no armário para as nossas famílias, e se esperava que encontrássemos boas garotas, nos casássemos e tivéssemos filhos. Assim, por que não encarar nossa relação como algo passageiro que precisava ficar em Hogwarts?

— O que mudou? — Harry perguntou curioso e o viu lançar um olhar de amor para o seu parceiro.

— Mac pensava diferente, e é a pessoa mais determinada que eu conheço. Sendo assim, ele concordou com tudo sem discussão, mas escolheu estudar Arquitetura na mesma faculdade que eu estudava Engenharia Civil. — Ian sorriu divertido. — Imagine o meu choque quando o vi, bem ali, tão incrível como sempre, não resisti mais do que algumas horas e o levei para a minha cama... quer dizer, para a minha vida outra vez. — Harry corou e Ian riu. — Desculpa, muita informação para alguém tão jovem, por um momento eu me esqueci. O fato é que começamos a namorar, falar do futuro, nos revelamos para as nossas famílias e estamos juntos até hoje.

— Suas famílias aceitaram? — Harry perguntou curioso.

— A minha se mostrou chocada e precisaram de tempo para se adaptarem, Mac conquistou a minha mãe com um único sorriso. — Ian disse carinhoso. — Meus pais são divorciados e trouxas, assim, quando o meu pai não aceitou muito bem, acabamos nos afastando naturalmente, e ele, como tem outra família, outros filhos, não sente falta do seu filho gay. — Ian não parecia se importar. — No começo, eu me ressenti, mas o pai do Mac, ele é um bruxo nascido trouxa, nos aceitou de braços abertos e se tornou o meu pai. A mãe dele é trouxa e maravilhosa, mas o pai dela, avô do Mac, o rejeitou e deserdou da herança familiar.

— Que velho tosco. — Harry disse com uma careta.

— Agora, essa é uma ótima descrição do velho Arnie. — Ian disse rindo. — Sabe, existem desafios, Harry, mas se você encontrou a pessoa certa, sua alma gêmea, vale a pena enfrentar qualquer coisa para estar com ela. — Harry acenou sorrindo, e a lembrança do cheiro de flores e fitas vermelhas de seda o fez suspirar levemente. — Exatamente, o mundo só vale a pena se tivermos amor. — Ian disse sorrindo para sua expressão sonhadora.

Enquanto Harry e os outros tinham um divertido e saboroso almoço, no Ministério, o Departamento das Leis da Magia vivia um verdadeiro caos. A notícia da captura do fugitivo Peter Pettigrew se espalhou, causando alvoroço, especulações e comemorações. Depois das explicações de Flitwick e Dumbledore, Pettigrew foi levado para uma sala de interrogatório, um advogado de defesa do Ministério foi chamado e Falc apareceu para acompanhar o trabalho auror e processual do Tribunal de Justiça do Departamento de Leis.

Sirius tinha enviado uma mensagem urgente por Fawkes, e Falc conseguiu chegar ao Ministério pouco antes do interrogatório liderado por Moody começar. O temor era que Peter inventasse alguma história ou tentasse fugir como o seu animagus rato, mas, depois de solto das correntes do Harry, Moody tratou de assegurá-lo em uma cela especial supressora de magia e com algemas mágicas que inibia a transformação animagus. Felizmente, e para espanto de todos, Peter não tentou mentir ou iludir os aurores, confessou os seus crimes e explicou onde esteve por todos aqueles anos. Também contou sobre sua intenção de deixar o país, pois temia que Sirius o encontrasse, mas sua hesitação temerosa o atrasou e impediu a fuga. Ele não soube explicar por que não fugiu logo que Sirius deixou Azkaban ou se espionou o Harry em Hogwarts nos últimos anos, apenas repetiu continuamente que nunca planejou fazer mal ao Harry, que apenas queria se manter escondido e seguro.

O advogado de defesa apenas acompanhou tudo porque era o seu direito, pouco havia para fazer em sua defesa, ainda que, ao ver o estado abatido de Peter, ele solicitou que seu cliente fosse examinado por um curandeiro e vigiado, pois temia que Peter pudesse sofrer retaliações por vingança ou mesmo se auto infringir algum ferimento.

Bones, que acompanhou o caso pessoalmente desde o momento em que foi informada, aceitou o seu pedido e solicitou junto ao Tribunal que o julgamento fosse marcado em caráter de urgência. Assim que essa parte do processo seguiu o seu caminho, Peter foi colocado em sua cela, Flitwick e Dumbledore ouvidos e liberados, Falc voltou para a sua família e Bones teve mais uma importante e dura missão.

— Chamou, Amélia? — Arthur Weasley sorriu amigavelmente ao entrar no escritório.

— Arthur... — Bones se mantinha de pé atrás da sua mesa. — Há quanto tempo nos conhecemos? — Perguntou direta e severamente.

Isso fez Arthur arregalar os olhos em surpresa e sentir as entranhas se contorcerem com um mau pressentimento.

— Hum... Merlin, acredito que já faz uns 24 anos, ou quase isso. — Ele respondeu e ajeitou os óculos tortos, desajeitadamente. — Quando consegui o meu primeiro emprego no Ministério, depois de Hogwarts, você já era uma advogada de sucesso, depois se tornou juíza do Tribunal de Justiça. Lembro-me que quando estagiei no Tribunal, você tentou me convencer a me tornar um advogado.

— Sim, eu fiz isso mesmo e ainda me lembro do porquê. — Amélia disse. — Acredite, eu não saí do meu caminho para aconselhar ou convencer muitos estagiários ao longo da minha carreira, fiz isso apenas com aqueles em que vi potencial. — Arthur corou e sorriu agradecido. — Você era brilhante, Arthur, um pouco ingênuo e sonhador, mas com um grande potencial intelectual e emocional para ser um bom defensor público. Alguns dizem que ter cérebro é mais importante, mas nós dois sabemos que os melhores advogados não são os frios Ravenclaws; na verdade, são os Gryffindors e Hufflepuff, pois temos um grande coração.

— Você sabe que nunca tive essa ambição, Amélia, sempre quis trabalhar com invenções mágicas, e, no meu departamento, consigo ter contato com um pouco disso, além das invenções trouxas mais incríveis. — Arthur disse, mas não acrescentou que nunca quis trabalhar no Ministério da Magia, pois queria ter passado a vida na antiga fábrica de invenções do seu avô, que falira há quase 30 anos.

— Verdade. — Amélia suspirou adivinhando o que não fora dito. — Mas nós dois sabemos que isso é mais uma atividade preferida do que uma carreira; sendo assim, você sempre poderia ter mantido esses interesses pessoais e, ao mesmo tempo, feito um grande trabalho defendendo as leis injustas contra os nascidos trouxas. No início, você seria mais um advogado de defesa, mas com o seu brilhantismo e o meu apoio, poderia subir no Departamento de Leis e lutar por boas causas. — Arthur ameaçou protestar, mas Amélia ergueu a mão e o impediu. — Você sabe que estou certa. Há menos de um ano, o seu projeto de proteção aos trouxas passou pela Suprema Corte, Arthur, não porque aqueles idiotas se importam com a segurança dos trouxas, mas porque você os convenceu de que isso era o melhor para eles. Eu li o seu texto brilhante e não houve base para argumentos contrários porque você solidificou cada aspecto irrefutavelmente.

— Obrigado, Amélia. — Arthur corou ainda mais com os elogios.

— Não me agradeça, não o chamei aqui para te elogiar, muito pelo contrário. — Bones disse com voz fria. — Eu não sei o que lhe aconteceu quando deixou de viver o seu potencial, quando abandonou seu sonhos e projetos, e, na verdade, isso não me interessa. Apenas me sinto deveras desapontada com você, com o jovem estagiário que se tornou meu amigo e desprezou a chance de ser um grande jurista para brincar de inventor.

— Amélia... — Arthur se mostrou chocado e magoado.

— Não estou falando do seu trabalho, Arthur, que é importante como qualquer outro, mas que poderia ser feito por qualquer um, pois pouco ou nada se exige de cérebro ou coração. — Bones disse. — Estou falando do mundo que criou em sua vida, além da basicidade de ajudar aos trouxas vítimas de trotes cruéis. Além do projeto de leis do ano passado, o que fez nos últimos 25 anos, Arthur? — Ele engoliu em seco e ficou pálido. — Nós dois sabemos que o trabalho não exige muito do seu cérebro ou magia, e as horas extras podem ter sido cruéis porque o departamento é pequeno...

— Não existe departamento. — Arthur falou irritado. — Eu nunca reclamei! Nem uma vez! Mas não existe departamento! Sou eu e mais um funcionário! Para todo o Reino Unido! As horas extras não são cruéis, são desumanas! Houve períodos em que não via os meus filhos por dias seguidos, e, durante o verão, quase não podia estar com eles antes que voltassem para Hogwarts! — Ele se calou, então, chocado por seu atrevimento em levantar a voz para a sua chefe dessa maneira.

— Bem, bem... — Bones o olhou atentamente. — Muito bem, que bom que me contou sobre isso, mas por que não falou antes? Eu estou neste cargo há cinco anos, Arthur! E somos amigos há duas décadas! Por que só agora você vem e me fala que as coisas não estão boas? Por que não exigiu mudanças antes?

— Eu... — Ele parou, desconcertado por não ter uma resposta.

— Eu sei porque. — Ela respondeu chateada. — Porque você se acomodou em sua vidinha rotineira e confortável, sem desafios, sem problemas ou mudanças. Você tem 43 anos, mas age como um homem de 80, cuja vida não tem mais para onde ir ou acrescentar!

— Eu... isso... meus filhos... — Arthur disse perdido. — Eu criei meus filhos, precisei trabalhar muito para provê-los e... eles são bons garotos... muito inteligentes e com potencial...

— Parabéns, você é um ótimo pai, mas viver pelos feitos dos seus filhos é algo muito tolo, e não tenho mais nada a dizer sobre isso. — Amélia disse com firmeza.

— Não entendo, Amélia, por que... Por que está me dizendo... — Arthur empalideceu. — Você está me demitindo?

— Não, Arthur, eu não estou te demitindo, apenas... olhando incrédula e tentando encontrar o meu amigo brilhante. — Ela suspirou, parecendo cansada e desapontada. — Você deve ter ouvido os boatos de que Peter Pettigrew foi capturado no dia de hoje.

— Sim... sim, claro que sim, mas... — Arthur parecia mais perdido do que nunca e voltou a ajeitar os seus óculos tortos.

— Na investigação sobre o aprisionamento injusto de Sirius Black, revelou-se que Pettigrew tem a forma animaga de um rato, da espécie ratazana. — Bones disse lentamente.

— Oh... sim, eu recebi o memorando, mas o que... não compreendo...

— Pettigrew foi capturado em Hogwarts hoje pela manhã, pelo professor de Feitiços, Filius Flitwick. — Bones disse objetivamente. — Enquanto os quebradores de maldições do Ministério realizavam uma inspeção solicitada pelo Conselho de Governadores e o Departamento de Educação, os professores fizeram uma vistoria nos quartos dos alunos. Eles queriam ter certeza de que os alunos atenderam à orientação de retirarem todos os seus pertences pessoais antes que os quartos fossem examinados pelos quebradores. — Arthur ainda se matinha perdido, mesmo que suas entranhas voltassem a se contorcer e um arrepio percorresse a sua espinha. — O Prof. Flitwick encontrou um rato de estimação no quarto de um dos alunos, mas seu comportamento estranho o alertou e o fez se lembrar da informação de que Pettigrew é um animagus. Você entende aonde estou tentando chegar, Arthur?

— Eu... eu... — Arthur sentiu suas pernas bambearem, e mal percebeu quando se sentou na cadeira em frente à mesa de Bones.

— Foram onze anos! Merlin nos salve! Onze anos! — Ela exclamou e bateu a mão na mesa impaciente. — Pettigrew foi descoberto no quarto de Ron Weasley e confessou que esteve escondido nos últimos onze anos como o rato de estimação da família Weasley! — Arthur ficou cadavericamente pálido. — Arthur! Você esteve nas aulas de Trato de Criaturas Mágicas! Você sabe que ratos mágicos não existem! E deve ter uma mínima noção de que ratos não vivem por muitos anos! — Bones deu a volta na mesa e continuou, implacavelmente. — Ratazanas vivem por dois anos! Arthur, são apenas dois anos! E mesmo que você não saiba disso, deve ter alguma noção de que um rato não viveria por onze anos! — Arthur parecia se encolher, murchar e perder a capacidade de respirar. — A verdade sobre Sirius Black poderia ter aparecido anos e anos atrás, Arthur, e ele não teria ficado por dez anos em Azkaban. Mas o pior não é isso... — Bones parecia perder o ímpeto e mostrar apenas desapontamento. — Como o meu brilhante estagiário e amigo deixou um comensal da morte viver por onze anos em sua casa? Escondido e protegido, depois de trair seus amigos e seu país ao espionar para Voldemort. Onde está o meu brilhante amigo? — Bones se inclinou e o encarou nos olhos azuis. — Porque esse não pode ser ele, meu amigo não deixaria um comensal assassino viver no quarto dos seus filhos por onze anos, então... Onde está você, Arthur Weasley?

Onde... Onde... Onde...

Perdido... Perdido... Perdido...

O mundo parecia girar em um eixo absurdo, pois não poderia haver um mundo em que esse cenário era possível.

Comensal da morte... Assassino... Voldemort...

Seus filhos... Desprotegidos... Grave perigo...

— Aqui, beba esse chá, talvez o ajude a se acalmar...

As palavras vieram de longe, mas eram confiáveis, então Arthur bebeu automaticamente, sem perceber que não pegou a xícara e era alimentado com o chá morno batizado com um poção calmante. Mesmo se tentasse pegar a xícara, ele não poderia, pois Arthur não sentia os braços; seu corpo parecia dormente, sem membros, paralisado. Apenas seus pulmões funcionavam por um impulso natural de sobrevivência, e seu cérebro também não parou, pois palavras e imagens brilhavam como um caleidoscópio de luzes. A cada momento, as imagens das possibilidades ficavam mais e mais terríveis; mesmo que não fossem a realidade, causavam tremores e um medo amargo que parecia viver para sempre em seu coração.

— Vamos, Arthur, você precisa ir para casa. — Outra voz retumbou em sua consciência, uma voz diferente, calma e serena. — Eu ajudarei você...

Arthur se levantou e caminhou com a ajuda da voz, mas parecia flutuar, pois ainda não sentia os seus membros. A flutuação se tornou brusca e sufocante por um tempo, até que acabou e ele foi flutuado com a ajuda da voz para um ponto de parada. Arthur não sabia que foi sentado no sofá da Toca, pois o seu corpo não sentia o acento macio do sofá e seu cérebro ainda parecia flutuar.

Molly foi surpreendida pelo barulho do flu e deixou a cozinha, onde amassava o pão para o jantar, em direção à sala de estar, para encontrar seu marido sendo ajudado por King Shacklebolt a se sentar no sofá.

— Arthur... — Molly perguntou, completamente confusa.

— Ah, Molly... — King disse em tom constrangido e preocupado. — Arthur não está muito bem, ele recebeu más notícias...

— O quê!? — Gritou Molly aflita e se aproximou do marido catatônico. — ARTHUR! — Seu berro não fez nada para o homem de expressão sem vida. — O que houve com ele!? — Ela direcionou a sua raiva para King, que se esforçou para não se encolher.

— Eu não sei os detalhes, Molly, e o que sei não posso falar, mas tenho certeza de que Arthur voltará em breve e...

O barulho dos passos nas escadas bambas soou como uma sucessão de pancadas que lembravam um acidente ou luta violenta. A escada estava perdendo, claramente.

— Mãe? — Fred perguntou, antes de chegar ao último degrau.

— Você gritou com o papai? — George questionou logo atrás.

Percy franziu o cenho para os irmãos por não deixarem o irmão mais velho presente fazer as perguntas. Então viu o pai sentado no sofá e sua expressão o assustou de um jeito que ele nunca sentiu antes.

— Pai...? — Ele sussurrou confuso.

Ron e Ginny chegaram logo depois e deram a volta nos irmãos mais altos para verem o que acontecia. Ginny empalideceu ao ver o pai e o auror presente, sua mente imediatamente foi em direção aos acontecimentos do seu ano e à certeza de que fora descoberta e seria presa. No entanto, antes que pudesse dizer qualquer coisa ou cumprir o impulso de fugir, Ron se adiantou e, completamente sem noção, se sentou no sofá e falou:

— Ei, pai, você ficou ruim do estômago também? — Suas palavras eram sobre o fato de que havia passado mal no dia anterior, depois de comer demais no almoço de Páscoa que sua mãe preparou, além de todos os sapos e ovos de chocolate que havia ganhado.

Incrivelmente, sua voz foi o que despertou Arthur do estado catatônico em que estava, e, pela primeira vez, ele percebeu os seus arredores. Sua família o cercava com expressões preocupadas em graus diferentes: Ginny era a mais pálida e Percy o mais assustado, Fred e George estavam estranhamente sérios, Molly parecia que começaria a berrar a qualquer momento e Ron, sem perceber nada de mais, olhava para ele acariciando o próprio estômago, sensível depois de tanta dor de barriga.

— Ron... você está bem... — Ele puxou o menino para um abraço de esmagar os ossos. — Você está seguro... Graças a Merlin... você está bem... meu menino...

— Paigghhh... — Ron resmungou surpreso e constrangido.

— Arthur? — Molly o encarava como se ele tivesse perdido o juízo. — Arthur, querido, Ron precisa respirar... me diga o que houve...

— Bem, eu vou deixá-los. — Disse King, não querendo se meter na conversa particular da família, mas ninguém lhe respondeu, concentrados em Arthur. Apenas Ginny lhe lançou um olhar desconfiado antes de se aproximar do pai, preocupada; assim, ele partiu sem despedidas, aliviado que Arthur tinha saído de seu estado catatônico.

Enquanto isso, um Arthur emocional e trêmulo abraçou fortemente cada um dos seus filhos, parecendo querer ter certeza de que eles estavam bem e seguros.

— Onde está o Bill? Ele não veio ainda? — Desorientado, Arthur olhou em volta.

— Ainda é cedo, querido. — Molly disse angustiada ao ver sua preocupação. — Estou surpresa que você tenha saído mais cedo do trabalho... não irão descontar do seu salário, não é?

— Não importa, nada importa. — Ele disse e voltou a olhar para os filhos, então seus olhos se encheram de lágrimas. — O mais importante é que todos estão seguros... meus filhos... sinto muito... tenho sido um péssimo pai...

— Não!

— Papai!

Exclamações de negação e surpresa ecoaram pela sala, e Arthur se viu esmagado pelos filhos em um abraço coletivo.

— Nós te amamos, papai. — Disse Ginny contra a sua barriga.

— Você é o melhor dos pais... — Disse George carinhoso.

— Não sou não... — Arthur começou a chorar em soluços sentidos e assustou os filhos ainda mais. — Não sou...

— Arthur... — Emocionada, Molly se aproximou e o abraçou junto com os filhos. — Seja o que for, nós podemos resolver juntos, como uma família. Tudo ficará bem, meu amor...

Arthur acenou e tentou recuperar a compostura. Provavelmente, ele nunca se recuperaria do que acontecera, para sempre ficaria marcado em sua alma e pesaria sobre os seus ombros, mas agora era o momento de se firmar e explicar para a sua família os terríveis acontecimentos.

— Precisamos todos nos sentar... hum... na cozinha... Molly, querida, você poderia preparar um chá para todos, acho... bem, acredito que todos precisaremos... — Ele disse com voz entrecortada.

Ninguém questionou e, em poucos segundos, todos se sentaram na grande mesa da cozinha, Arthur na cabeceira e Molly se agitando de um lado para o outro, preparando o chá e fazendo alguns sanduíches.

— Esqueça a comida, Molly, eu duvido que alguém terá estômago para comer... — Ele disse cansadamente. — Por favor, faça apenas o chá e sente-se aqui...

— O que aconteceu, Arthur? — Molly o atendeu e, para decepção de Ron, desistiu dos sanduíches e deixou que a magia preparasse o chá. — Você foi demitido?

— Não... isso não seria tão ruim comparado... — Arthur suspirou e bebeu um gole do seu chá quente. —Ainda que provavelmente eu mereça ser demitido depois do que fiz... Merlin me ajude...

— O quê? Mas... o que aconteceu? — Molly parecia meio em pânico.

— Nos conte, papai. — Ginny pediu com voz trêmula, uma parte dela ainda temia que o terrível acontecimento fosse sobre o diário.

— Você deixou o seu rato em Hogwarts, Ron. — Disse Arthur, e o assunto inusitado desconcertou a todos.

— Hã? — Ron perguntou meio bobamente.

— Por que não trouxe o seu rato, Perebas, para casa? — Arthur perguntou suavemente.

— Espera. — Molly franziu o cenho. — Você deixou o seu rato em Hogwarts sozinho? Sem ninguém para alimentá-lo? E depois de ser avisado que deveria tirar todos os seus pertences do seu quarto?

— Bem... — Ron pigarreou e corou levemente. — Perebas fugiu e eu estava atrasado para pegar o trem, pois não tinha terminado de arrumar todas as minhas coisas, então... bem, não tive tempo de procurá-lo. — Ao ver o olhar zangado da sua mãe, acrescentou rapidamente. — Mas ele não estava preso na gaiola, Perebas poderia se alimentar em qualquer lugar da escola.

— Ron! Quantas vezes eu já disse para arrumar o seu baú com ante...

— Isso não importa! — Arthur gritou. — Eu não estou assim porque Ron esqueceu o seu maldito rato! Preste atenção, Molly! — Ele raramente erguia a voz, muito menos para a esposa, que o encarou chocada.

— Arthur...

— Felizmente, o Ron esqueceu o rato em Hogwarts... está havendo uma inspeção na escola, os quebradores de maldição do Ministério estão fazendo uma varredura mágica, então... — Arthur bebeu mais chá com a mão trêmula. — O professor Flitwick estava verificando os quartos, para ter certeza de que não tinham deixado nada para trás, e, ao entrar no quarto do Ron, encontrou o rato agindo estranhamente. Então... ele o estuporou, e descobriu que Perebas não é um rato, na verdade, ele nunca foi um rato...

— O quê!? — Foi o grito geral na mesa.

— Ele machucou o meu rato? — Ron questionou indignado, o rosto vermelho de raiva.

— Presta atenção, idiota! — Fred lhe deu um cascudo na nuca. — O pai está falando que o Perebas não é um rato!

— É claro que ele é um rato! — Ron falou furioso enquanto esfregava a nuca. — Ele é o meu rato! Está na nossa família há anos!

— Exato. — Arthur disse com voz derrotada. — Perebas é um rato da espécie ratazana e elas vivem apenas dois anos... — Molly soltou um grito e colocou as mãos sobre a boca para tentar se conter. — Deveríamos ter percebido... quer dizer, eu não sabia que eles viviam tão pouco, mas com certeza não era possível que vivessem mais de onze anos... Merlin... — Ele suspirou, com raiva de si mesmo.

— Que... quem? — Balbuciou Molly apavorada.

— Peter Pettigrew. — Todos empalideceram e Molly soltou um gemido agudo. — Por isso que Flitwick o reconheceu, ele sabia que Pettigrew estava escondido em algum lugar e que era um animagus rato dessa espécie. Diante do seu comportamento estranho, ele ficou desconfiado, e, quando verificou, constatou que nós estivemos abrigando um Comensal da Morte assassino e traidor em nossa casa por todos esses anos.

A incredulidade, palidez e pavor se expressaram em todos os rostos sardentos da família Weasley. Molly, muito angustiada, começou a chorar; Percy voltou seus pensamentos para o momento em que encontrou o rato no jardim, aquele ratinho que lhe pareceu tão amigável e interessante. No entanto, aos quatro anos, tudo parecia fascinante, e o desejo de aprender, saber, conhecer e experimentar o motivava a aventuras de exploração por todo o terreno da Toca.

George e Fred tinham expressões sombrias idênticas, ao pensarem que o responsável pela morte dos pais do Harry tinha usado a sua família, sua casa, para se esconder da justiça. Isso tinha impedido que Sirius deixasse Azkaban mais cedo e que o Harry fosse protegido dos seus parentes. Tudo por causa daquele rato! E por que nenhum deles tinha percebido o óbvio? Afinal, não existem ratos mágicos, e os ratos comuns vivem apenas alguns poucos anos. Como eles poderiam não ter percebido antes? Era igual ao que acontecera com Ginny e o diário: eles não tinham pensado, percebido ou realmente olhado com o cérebro, apenas com os olhos. Suas posturas caíram, e, ao olharem para o pai, entenderam porque ele estava tão abalado e com sentimento de culpa.

Ginny também pensou no Harry, seus pais, Sirius e como a prisão de Pettigrew lhe traria alguma paz. Depois, considerou o perigo terrível que eles correram por todos aqueles anos, e um arrepio de medo a percorreu ao pensar no que aconteceria com todos eles quando Voldemort retornasse e tivesse um espião tão bem localizado. Ao mesmo tempo, uma raiva quente e furiosa a envolveu, por Riddle, sua maldade e covardia, por seus malditos seguidores e pelo medo que continuava a sentir. Ela detestava se sentir assim. Será que algum dia o medo frio e congelante passaria? Haveria um momento em que poderia não se sentir temerosa, culpada, perseguida e sem esperança no futuro? Não até o fim da guerra, pelo menos, considerou Ginny, e olhou tristemente para o pai, sabendo que ele enfrentaria mais um grande golpe quando soubesse sobre o que lhe acontecera. Angustiada e culpada, percebeu que mentir e esconder tudo dele não era a coisa certa a se fazer, mas, ao mesmo tempo, como poderia lhe contar agora, quando estava tão abalado?

Ron estava de boca aberta e tentando compreender as palavras do pai, mas antes que usasse o cérebro, sua boa decidiu agir irrefletidamente, como sempre.

— Ele deve ter se enganado, papai! Provavelmente, ele encontrou um rato que se parece com Perebas e agora está dizendo que esse cara era o meu rato!

— Enganado? — Arthur olhou para o filho, incrédulo. — Você acredita que o seu professor de Feitiços, McGonagall, Dumbledore, os aurores e até a Madame Bones, que assistiu ao interrogatório de Pettigrew, se enganaram?

— Ma... mas... — Ron franziu o cenho tentando entender. — Talvez, então... esse tal Pettigrew matou o Perebas e assumiu o seu lugar...

— Ron! — Arthur o interrompeu. — Minha chefe acabou de me dizer que Pettigrew confessou ter passado os últimos doze anos escondido aqui, como nosso rato de estimação. Ele disse que escolheu uma família bruxa, com informações privilegiadas de dentro do Ministério, para ter conhecimento do julgamento de Sirius Black. Quando não houve julgamento e os aurores não começaram a caçá-lo, Pettigrew se sentiu seguro e confortável para ficar por aqui...

— Esperando que Voldemort retornasse. — Ginny disse com expressão resignada. Seu pai, Ron e Percy tremeram, e sua mãe deu um gritinho agudo.

— Ginny! — Molly a olhou chocada. — Não diga esse nome!

— É só um nome. — Ginny disse, indiferente, e trocou um olhar com Fred e George. — Seu nome verdadeiro nem é esse, mas isso não importa agora. Pettigrew ficou escondido esperando ouvir sobre o retorno do seu mestre, e provavelmente tinha a intenção de continuar a espionar por ele.

— O senhor acha que ele poderia ter nos enfeitiçado para que não percebêssemos ou questionássemos o fato de que um rato não poderia viver por tanto tempo? — George perguntou chateado.

— Não sei... é possível, mas acredito que Bones me diria se ele tivesse confessado isso. — Arthur ajeitou os óculos. — Amanhã farei mais perguntas, preciso entender como tudo aconteceu, saber todos os detalhes, hoje... quando Bones me disse que um assassino esteve dormindo no quarto dos meus filhos por todos esses anos... — Ele apoiou o cotovelo na mesa e escondeu o rosto na mão. — Merlin... felizmente, nada terrível aconteceu com vocês... Bones está certa em seu desapontamento... não entendo como posso ter perdido algo assim...

Arthur se levantou e deixou a cozinha meio cambaleante e subiu para o seu quarto resmungando, perdido em pensamentos incrédulos e culpados, questionando a si mesmo e sua vida.

Molly, que era uma mulher prática, que enfrentou a perda de muitas pessoas amadas e tinha pouco tempo para reflexões profundas, logo respirou fundo e agradeceu por toda a sua família estar segura e bem. Então, se levantou e continuou a preparar o jantar.

— Vocês querem um lanche antes do jantar, crianças? — Perguntou ela, decidindo se concentrar em sua rotina, e não em pensamentos sobre o que poderia ter acontecido.

— Sem fome. — Disseram os gêmeos ao mesmo tempo e deixaram a cozinha.

Ginny não respondeu, apenas acenou negativamente e foi para o jardim em silêncio. Seus pensamentos se tornaram conflituosos, pois a certeza de que não deveria mentir para o seu pai guerreava com o seu desejo de protegê-lo neste momento difícil. Enquanto caminhava em meio às árvores, um pio agudo atraiu o seu olhar e Ginny sorriu ao ver a bonita e altiva coruja branca.

Percy ainda não tinha dito uma palavra desde que compreendeu os fatos, e, estranhamente, sua mente se voltou para pensamentos sombrios. Uma mistura de vergonha, raiva e decepção o envolveu, pois sabia que, se sua família tivesse dinheiro para comprar bichos de estimação, ele não precisaria ter um rato comum e feio para mantê-lo entretido. E como os seus pais não consideraram verificar o rato? Ou perceberam que ele não poderia ainda estar vivo depois de tanto tempo? Impaciente e inconformado, Percy deixou a cozinha para o seu quarto, sentindo aumentar o desprezo pelos seus pais, sentimento que vinha crescendo mais a cada dia.

Ron suspirou meio esverdeado ao pensar que um homem e assassino dormiu ao lado da sua cama por quase dois anos. Como era possível que... Seus pensamentos foram interrompidos pelo cheiro de comida e Ron percebeu que estava com fome, além de estranhamente vazio depois da crise intestinal.

— Eu gostaria de um lanche, mãe.

Naquela noite, na Mansão Boot em Londres, Harry e seu pessoal discutiam o que acontecera naquela manhã e os desdobramentos no Ministério.

— A previsão é que o julgamento ocorra em duas semanas no máximo, e os repórteres estavam em peso no saguão do Ministério, esperando por mais informações e uma possível coletiva do Ministro. — Falc explicou. — Na verdade, eu não duvidaria que Fudge usasse o show do julgamento como plataforma para a sua campanha de reeleição, que será lançada em 1º de maio.

— Desde que Rabicho seja condenado, o resto não importa. — Harry disse. — E sobre Arthur Weasley? Ele conseguiu explicar como não percebeu que o seu rato de estimação tinha vida eterna?

— Bem, na verdade, isso foi bem abafado. — Falc disse. — Weasley é amigo pessoal de Madame Bones, que deixou bem claro que essa informação não deve ser divulgada para a imprensa, e os aurores foram orientados a manter o bico calado.

— E a recomendação para nós em Hogwarts foi de não divulgar o nome do aluno em cujo o quarto Pettigrew foi encontrado. — Acrescentou Flitwick.

— É melhor assim. — Sr. Boot disse pensativo. — A família Weasley já deve estar sofrendo com o conhecimento de que abrigaram um assassino por tanto tempo, eles não precisam passar pela vergonha da repercussão.

— Bem, espero que o Sr. e a Sra. Weasley realmente estejam percebendo a gravidade do que aconteceu. — Harry disse com uma careta. A verdade é que ele não tinha uma boa opinião sobre os pais Weasleys, afinal, eles nunca perceberam que Ginny estava com problemas. O Sr. Weasley estava presente e não notou que Malfoy tinha colocado o diário entre os livros do Ron. Percy se comportava de maneira egoísta e cruel com os irmãos, embasado no apoio dos pais de que seu comportamento moralista era correto e esperado. Além de Fred e George, que sempre tinham que mentir para poderem fazer as coisas mais simples ou que os faziam felizes. Mesmo a Serafina teve que admitir que esse comportamento era culpa das reprimendas e castigos injustos que os meninos recebiam por parte da mãe.

— O que me incomoda mais do que qualquer coisa é como Hogwarts não é um local seguro para as crianças. — Serafina disse irritada. — Por Merlin! Um professor assassino, Voldemort, depois um basilisco e uma versão aborrecente e rebelde de Voldemort...

— Não se esqueça do troll e do Cerberus, mamãe. — Disse Terry solicito.

— Eu estava tentando esquecer, muito obrigada, mas ainda mantenho o meu ponto. — Serafina respondeu exasperada. — Como é possível que um assassino tenha se mantido em Hogwarts por seis anos e ninguém percebeu nada?

— Acho que não devemos culpar o diretor ou professores por isso. — Disse Sirius, surpreendentemente. — O que? Eu também posso ser razoável. — Ele sorriu ao receber os olhares surpresos. — Dumbledore tem culpa em muitas coisas, mas ele não sabia que Peter era um animagus rato ou que estava vivo. Os professores e Filch também não tinham esse conhecimento, e, depois da minha libertação, não poderíamos esperar que todos começassem a olhar pelos cantos em busca de um rato cinza com um dedo faltando.

— Você está certo. — Sr. Boot disse. — Essa função era dos aurores, mas duvido que eles tenham feito qualquer movimento para caçá-lo.

— Eu perguntei ao King e ele disse que essa tarefa era do Robards, mas que esteve suspensa desde a sua morte. Na verdade, alguns dos seus casos estão sendo divididos entre os outros aurores e têm ocorrido atrasos em algumas investigações. — Falc disse. — Robards era um bom auror, mas sobrecarregado com muito trabalho, assim, encontrar um rato escondido não deveria ser a sua prioridade.

— Ainda não consigo acreditar na sorte que foi encontrá-lo, justo quando Rabicho estava se preparando para fugir e desaparecer para sempre. — Harry disse com um suspiro.

— E eu não consigo acreditar que você usou legilimência para ler os pensamentos de Pettigrew. — Terry disse sorrindo. — Hermione ficará roxa de inveja, ela está treinando e estudando há meses.

— Bem, para começar, ela deve parar de resistir à sua conexão com a magia natural. — Harry disse exasperado. — Nunca vi alguém tão inteligente com tanta resistência ao imaterial, à intuição e aos sentidos. Depois, eu não li seus pensamentos exatamente, a legilimência é mais sutil, é como captar a informação com a sua magia, mas você precisa saber o que quer saber ou é inundado com todos os tipos de fatos, pensamentos, reflexões, sentimentos e até imagens.

— Imagens? — Remus perguntou interessado.

— Sim... quer dizer, quando eu iniciei a legilimência, eu não percebi, mas queria saber por que Rabicho traiu os meus pais, então essas informações pipocaram primeiro. Depois, eu me concentrei e consegui captar as informações que precisava. — Harry explicou.

— Você descobriu? — Remus perguntou angustiado. — Por que ele fez isso?

— Por covardia. — Disse Harry. — Ele temia ser morto e acreditava que Voldemort venceria, que o nosso lado já tinha perdido a guerra, e, na sua mente, Rabicho não tinha uma escolha, pois a outra opção era a morte.

— Maldito. — Sirius disse, com sua expressão mais sombria.

— Ele sente vergonha do que fez, uma boa dose de lamento, mas não verdadeiro arrependimento, pois sente que não teve escolha. — Harry continuou. — Rabicho nos espionou para poder voltar para Voldemort com informações valiosas e não ser punido, mas, ao saber dos nossos planos sobre a ajuda aos lobisomens, Sirius tentando ser Ministro e a luta na Suprema Corte, ele desistiu.

— Por que? — Sr. Boot se mostrou confuso.

— O mesmo motivo que antes. — Harry disse ironicamente. — Ele podia sentir a nossa força, como estávamos nos preparando para a guerra e que o Voldemort enfraquecido era a aposta errada, pois temos uma boa chance de vencer a guerra. Então, Rabicho decidiu desaparecer, não ser pego por nós e não voltar para o seu mestre. Foi por isso que ele se escondeu do Ron, a intenção era fugir durante essa semana de férias, deixar o país e ir para bem longe.

— Bem feito que Peter não conseguiu fugir a tempo. —Remus disse com raiva e olhar triste. — Mas não entendo por que ele hesitou até ser pego.

— Ele sempre foi hesitante e inseguro, Remus. — Sirius disse. — Demorava horas, às vezes dias, para tomar as decisões mais simples e era o último a entregar os testes aos professores, pois sempre ficava em dúvida entre as alternativas.

— Rabicho não sabia para onde ir, sem dinheiro, com medo, inseguro, não tinha total certeza se partir era a decisão certa. E, mesmo que já tivesse decidido não procurar Voldemort, pensava se não seria mais seguro continuar como o rato dos Weasleys. — Harry explicou e Remus suspirou, lamentando que o menino inseguro e doce que fora o seu amigo tivesse se transformado em um assassino covarde.

— Mesmo com sua conexão natural com a magia, Harry, ainda é impressionante que você consiga realizar a legilimência com tanta facilidade. — Disse Serafina. — Eu não tinha ideia de que esteve treinando essa habilidade.

— Eu não estava, e não sabia que podia fazer isso, na verdade. — Harry disse levemente constrangido. — Mas Dumbledore me disse que, na noite do Halloween, Voldemort transferiu alguns dos seus poderes para mim, e que é por isso que sou um ofidioglota.

— O quê!? — As exclamações e expressões foram de espanto e incredulidade.

— Sim. — Sirius suspirou ao pensar naquela conversa estranha; com tudo o resto, isso ficou esquecido. — Dumbledore estava muito estranho, quase pediu desculpas por suas ações contra nós dois e basicamente declarou que esteve errado em não participar da infância do Harry. — Ele resumiu o encontro no escritório e todos se mostraram confusos ou desconfiados.

— Ele deve estar mentindo. — Disse Terry com expressão desconfiada.

— E como é possível que você seja um ofidioglota porque Voldemort também era? — Remus disse chocado.

— Acredito que ele estava sendo sincero ao dizer que nossas duras conversas o fizeram repensar suas atitudes. Foi tudo muito estranho, Dumbledore explicou que sua intenção em meu primeiro ano era permitir que eu me encontrasse e experimentasse enfrentar Voldemort, para ter mais força e confiança para os nossos próximos encontros. — Harry disse pensativo. — Ele disse que, a cada encontro, eu adquiro mais experiência ou conhecimento para vencê-lo, como o fato de eu ter me tornado um ofidioglota depois do Halloween, ou descobrir sobre a profecia em nosso segundo encontro, ao mesmo tempo em que fiquei mais confiante para lutar contra a versão dele este ano. E, em nosso encontro na câmara, descobri sobre as Horcrux, sua infância e fraquezas, além de derrotar sua basilisco e me curar fisicamente no processo, ainda que Dumbledore não saiba de tudo isso, claro.

— Interessante. — Disse o Sr. Boot e os outros acenaram em acordo. — É como se, a cada vez, você adquirisse mais armas para enfrentá-lo e vencê-lo na vez seguinte. Ao mesmo tempo, tudo se acumula, e não é ingenuidade pensarmos que, quando o momento final chegar, vocês estarão em nível semelhante de força, confiança e conhecimento.

— Não preciso ser tão forte ou conhecedor quanto ele, apenas preciso do suficiente para vencê-lo, pois, somado a isso, usarei o meu cérebro e terei o apoio das pessoas que me amam. — Harry disse. — Tom não sabe nada sobre isso, e talvez seja por isso que ele perderá.

— Bem, então como ficamos com Dumbledore? — Serafina perguntou curiosa. — Não consigo confiar nele, sinceramente, mas admito que sua decisão de treinar o Harry conta a seu favor.

— O fato de ele admitir que estava errado me parece uma evolução, e todos nós temos o direito de corrigir nossas falhas. — Flitwick disse. — Acredito que isso é mérito do Harry, que se impôs, mostrou o seu valor e não abaixou a cabeça para o poderoso Albus Dumbledore. Em minha opinião, devemos nos alegrar por esse desenvolvimento, mas sermos cautelosos com nossa confiança.

Houve inúmeros acenos de concordância, mas Terry não parecia convencido.

— Sinceramente, acho que ele está fazendo tudo isso para ganhar a amizade e confiança do Harry, como era a sua intenção desde o começo. Dumbledore quer ser o seu mentor, influenciar os seus pensamentos para que você siga os planos que ele traçou para você, que muito bem pode significar a sua morte. — Terry disse com veemência. — O fato de ele não contar sobre a profecia, me leva a pensar que o diretor cedeu um pouco, esperando ganhar a partida.

— Você pode estar certo. — Sirius disse. — No entanto, eu não o condeno por não falar sobre a profecia.

— O quê? — Harry franziu o cenho contrariado. — Eu mereço saber, foi o motivo pelo qual ele nos caçou e matou os meus pais. É a razão que me fez um alvo e o motivo de eu nunca ter paz até que Voldemort esteja finalizado.

— Não questiono o seu merecimento, Harry. — Sirius disse sorrindo. — Mas, se eu tivesse esse conhecimento e a responsabilidade de lhe contar, eu também hesitaria, esperando o momento certo, querendo lhe dar mais alguns dias, meses e anos de paz.

— Falsa paz. — Harry disse duro.

— Verdade, mas ainda alguma paz e leveza. — Sirius disse, encarando o afilhado nos olhos. — Não pense que não vejo o peso que carrega sobre os ombros e como amadureceu além dos seus anos nos últimos meses graças a esse conhecimento. Dumbledore admite que não sabe o momento certo, o que me leva a pensar que o peso dessa informação o assombra, pois ele sabe que, no momento em que a passar para você, a carga será transferida para uma criança.

— Ok. Eu posso entender isso. — Harry admitiu a contragosto. — Mas como ele poderia querer me deixar no escuro e sem treinamento? Quando Voldemort voltasse, eu seria um filhote fraco, incapaz e ignorante. Posso até aceitar que Dumbledore quer que eu esteja mais velho para saber a verdade, mas nunca aceitarei que ele não pretendesse me preparar para vencer.

— Acho que a sua preparação era os seus encontros com Voldemort, assim você adquiriria treinamento na prática. — Falc considerou e os outros acenaram. — Mais de uma vez, o diretor disse que você precisava ser preparado, e acho que tirar todas as distrações de sua vida e mantê-lo focado em Voldemort era sua principal intenção.

— Agora ele reconsidera isso, pois acha que também pode lhe dar conhecimentos que o ajudem a vencer e, talvez, esteja realmente arrependido de suas ações ou inações — Sr. Boot disse. — Eu acho esse raciocínio muito óbvio, e Dumbledore dizer que o Harry não deveria ser treinado para poder ter uma infância é uma grande tolice. Fico feliz que ele tenha mudado de ideia, mas o que acontecerá quando o diretor descobrir que o Harry já está em treinamento?

— O melhor é dizermos a verdade. — Flitwick opinou. — Será impossível para o Harry esconder os seus conhecimentos, então diremos que, como um Mestre em Duelos, eu escolhi o Harry como meu aprendiz por causa do seu potencial. O diretor pode não gostar, mas é o que é.

— Ele precisará entender que eu já tenho um mentor, mas que também quero muito aprender o que puder ou o que ele escolher me ensinar. — Harry disse. — Não me preocuparei com isso até o verão, sendo assim, vamos ao próximo assunto?

— Acho que precisamos dar mais atenção ao fato de o Harry ter recebido habilidades de Voldemort. — Serafina disse preocupada. — Entendo que os acontecimentos daquela noite foram raros e únicos, mas ainda não parece estranho que isso tenha acontecido?

— Com certeza. — Remus disse preocupado. — Talvez dévessemos pesquisar um pouco, e o Harry poderia fazer alguns exames...

— Mas eu estou bem! — Harry protestou. — Madame Pomfrey me fez dúzias de exames durante mais de um ano, e, depois da luta com a Freya, eu fiquei completamente saudável.

— Não exames com um curador qualquer, Harry, mas com um especialista em magia do sangue e da alma, ou magias hereditárias. — Remus disse suavemente. — O último que eu soube que era conhecedor dessa área era Calixto Olivaras, pai do Garrick Olivaras, o fabricante de varinhas.

— Ele ainda está vivo, mas é muito idoso. — Sr. Boot disse pensativo. — Não é uma ideia ruim e, na verdade, não entendo por que Dumbledore não pensou em fazer algo assim antes.

— Porque ele nunca se preocupou com o Harry antes. — Disse Terry.

— Ok. Então, durante o verão, posso me encontrar com esse senhor Olivaras. — Harry disse levemente impaciente, pois não queria saber de curandeiros por muito tempo.

— Ainda tem algo me incomodando. — Terry disse. — Por que Dumbledore queria que o Harry aprendesse oclumência com Snape, de todas as pessoas possíveis? Ele realmente acha que o que aconteceu entre eles não foi grave? Ou tem algum motivo oculto?

— Ah! — Harry exclamou subitamente. — Esqueci de lhes dizer que eu vi o Snape no mapa hoje mais cedo, acho que ele ainda vive em Hogwarts.

Isso causou expressões confusas e contrariadas em Remus, Sirius e Terry, que parecia que iria protestar, mas o Sr. Boot falou primeiro.

— Nós já sabíamos disso.

— O quê? Mas por que ele vive na escola depois do que fez, ainda mais quando deixou de ser um professor? — Terry perguntou furioso.

— Foi uma solicitação do Dumbledore ao Conselho de Governadores. — Seu avô respondeu. — Ele alegou que Snape foi declarado um espião durante as audiências dos comensais da morte e, ao fazer isso, Dumbledore o salvou de Azkaban, mas o transformou em um alvo. Snape tem vivido isolado e protegido em Hogwarts por todos esses anos, e expulsá-lo seria o mesmo que enviá-lo para a sua execução.

— Existe um outro motivo mais sombrio, por assim dizer. — Flitwick acrescentou. — Não que essa alegação não seja verdadeira, mas Snape poderia ter deixado o país e desaparecido para sempre. O principal motivo, em minha percepção, é o fato de que Dumbledore espera que Snape volte a ser o seu espião quando Voldemort retornar.

— E, estando em outro país ou morto, Snape não poderia cumprir essa função. — Terry acenou entendendo. — Ok, mas por que o diretor sugeriu ao Harry que aprendesse oclumência com aquele homem?

— Acho que sei a resposta para isso. — Disse Remus pensativo. — Quando você é um espião, tem que ter uma vantagem a oferecer.

— O quê? — Sirius franziu o cenho confuso.

— Vantagem? — Serafina e todos os outros pareciam não compreender.

— Sim, ao se aproximar de alguém com a intenção de espioná-lo, você precisa de uma vantagem, algo para oferecer e usar como pretexto para essa aproximação. — Remus respondeu. — Snape se tornou o espião de Dumbledore, e isso não é mais um segredo, então como ele poderia voltar a ser um Comensal da Morte? Voldemort provavelmente o matará assim que o vir, certo? — Todos acenaram. — No entanto, Snape dirá que fingiu ser um espião ou que implorou a Dumbledore que o livrasse de Azkaban, pois estava arrependido. É possível que Snape tenha se tornado um espião a mando de Voldemort, que acreditava que seu servo era um duplo espião, passando informações falsas a Dumbledore, mas colhendo informações verdadeiras para ele.

— Como sabemos que isso não é a verdade? — Sirius perguntou desconfiado.

— Porque sabemos que, toda vez que as casas seguras onde estavam os meus pais eram descobertas, Snape alertou Dumbledore. — Harry respondeu. — Isso sempre me pareceu estranho, por que Snape avisou sobre o perigo aos meus pais, mas nunca avisou aos outros membros da Ordem que foram mortos?

Houve um silêncio estranho na sala, até que Sirius fez uma careta e Remus suspirou ao responder.

— Posso estar errado, mas acredito que Snape se tornou espião porque sabia que Lily estava em perigo e queria mantê-la a salvo. Ele não se preocupava com outros ataques ou armadilhas, apenas com o que aconteceria à sua mãe.

— Isso o torna mais desagradável em minha opinião. — Terry disse com uma careta. — Ainda não entendi por que Dumbledore queria que Harry aprendesse oclumência com Snape.

— Pela mesma razão que Snape precisa continuar a viver em Hogwarts. — Remus disse. — Por ser uma vantagem! Quando Voldemort retornar, Snape voltará a ser um dos seus comensais, usará de todos os recursos e mentiras para não ser morto e convencer o seu mestre da sua verdadeira lealdade. E, assim como Peter tentou informações para ser mais valioso, Snape sabe que tem mais chances de sobreviver se tiver uma vantagem a oferecer a Voldemort. Como professor de Hogwarts, ele tinha contato com Dumbledore, professores, membros da Ordem e com Harry Potter.

— Mas agora ele não é mais um professor de Hogwarts. — Disse Harry pensativo. — Por isso ele precisava continuar a viver na escola! Para que Voldemort pense que tem uma grande vantagem, ou seja, um espião enfiado dentro da casa de Dumbledore e..., bem, perto de mim. E, se ele for meu professor, terá informações valiosas sobre mim que interessarão muito a Voldemort, além de acesso constante caso ele decida me sequestrar ou me matar.

As expressões se tornaram mais sombrias com a constatação da verdade.

— Então, Dumbledore pretende usar o Harry e sua mente para dar uma vantagem a Snape? — Sirius perguntou furioso. — Quando penso que o homem parece um pouco mais humano... E como saberemos que Snape não se tornará um espião duplo desta vez? Lily não está mais aqui para ele mantê-la a salvo, afinal.

— Dumbledore confia nele, não importa nossa opinião, então acredito que o diretor não se deixaria iludir sobre algo tão importante. — Remus considerou sabiamente.

— Ok, mas o que o motiva? — Terry perguntou. — Depois que a Sra. Potter morreu, por que Snape concordou em ficar à sombra de Dumbledore? Entendo a questão da proteção, mas ele poderia ter desaparecido para bem longe, sabemos disso. Portanto, Snape ficou porque ele e Dumbledore sempre planejaram que, quando Voldemort retornasse, Snape voltaria a ser um comensal espião. — O raciocínio trouxe acenos e expressões questionadoras. — Mas por que Snape concordou com isso? O que o motiva a arriscar sua vida desta maneira, se não há mais ninguém que ele ama para salvar?

O silêncio se prolongou, enquanto todos refletiam em busca de uma resposta a essa importante questão.

— Vingança. — Harry respondeu pensativo e encarou a todos com convicção. — Acredito que Snape nunca amou alguém como ele amou a minha mãe, ou pelo menos é o que ele acredita, se é que essa obsessão estranha pode ser considerada amor. — Ele deu de ombros. — Mas ele a amou do seu jeito e ainda sofre com a sua morte, assim, Snape não serviria ao seu assassino, aposto que deve ansiar por se vingar, e foi por isso que ele não desapareceu.

— Faz sentido. — Serafina disse. — Essa obsessão pela Lily pode ter se voltado para a vingança, mas isso me faz pensar que Dumbledore sempre soube que Voldemort não estava morto. Quer dizer, você não posiciona um espião tão perfeitamente se não tivesse certeza de que irá usá-lo.

— Por causa da profecia. — Terry concluiu. — O diretor provavelmente sabia que Voldemort e Harry ainda se reencontrariam pelo texto da profecia.

— Que, aliás, ainda não sabemos o que diz. — Sr. Boot franziu o cenho. — King falou algo sobre isso?

— Sim. Ele descobriu que existe uma sala de registros no Departamento de Mistérios com todas as profecias já realizadas e apenas os Indivisíveis ou os mencionados no texto das profecias podem acessá-las. — Sirius respondeu. — King disse que, assim que descobrir como conseguir que o Harry acesse a profecia sem que ninguém descubra nada, nos avisará.

— Acredito que saber o texto é muito importante para os nossos planos. — Sr. Boot disse e todos acenaram. — Dumbledore lhe contou algo sobre o diário e Riddle, Filius?

— Não, apenas o que disse ao Harry, que está investigando os seus passos, tentando apreender informações que nos digam mais sobre as Horcrux. — Flitwick respondeu.

— Dumbledore é misterioso, desconfiado e autocentrado. — Harry observou. — Ele não falará nada até o último minuto ou se for obrigado, como sua mudança de atitude em relação a me treinar. O diretor parece ter percebido que estava sendo colocado como um observador nesse jogo e decidiu voltar a jogar. Ele recuou, observou seus movimentos, analisou os seus erros e escolheu um novo caminho para as suas peças, mas, essencialmente, não acredito que Dumbledore pretenda mudar.

— Essa é uma maneira interessante de ver a situação. — Sr. Boot disse, levemente divertido com a referência ao xadrez.

— Bem, mudando de assunto, alguma resposta dos lobisomens? — Harry perguntou ansioso.

— Sim. — Falc disse com um sorriso. — Elfort, Becky, os dois grupos de anciões, Gun e as Águias do Sino escreveram confirmando que se mudarão para a ilha.

— Incrível! — Harry disse sorrindo entusiasmado. — Todos em um dia! São mais do que eu esperava.

— Aposto que amanhã todos os outros escreverão aceitando a proposta. — Falc disse e olhou para suas anotações. — Edgar viajou hoje para o Egito por meios trouxas, assim não chamamos a atenção do Ministério. Ele deve retornar no máximo até quinta-feira e podemos assinar os Tratados no sábado...

— Pode ser no domingo à tarde? — Harry perguntou ansioso. — Eu convidei a minha tia e Duda para passarmos o fim de semana na Mansão Potter, eles concordaram e gostaria que vocês todos viessem também. Tem muita diversão por lá e eu preciso decidir o que quero para as reformas que se iniciarão depois que o Sirius terminar de reformar a Mansão Black, aqui em Londres.

— Isso parece interessante. — Serafina disse pensativa. — Podemos te ajudar com isso e nos divertimos ao conhecer a propriedade.

— E vocês terão uma ou duas surpresas. — Disse Harry, com um sorriso misterioso que arrancou risos de todos.

— Você e seus mistérios. — Sirius disse divertidamente, pois sabia que o afilhado falava sobre a piscina natural, a cachoeira e o quadro de Salazar Slytherin.

— Estou curioso, pois você fala sobre como a Mansão Potter é incrível desde o Natal. — Terry disse. — Deveríamos convidar Neville e Hermione?

— Claro! — Harry sorriu ainda mais. — Sra. Serafina, podemos incluir os pais da Hermione? Não sei se ela quererá deixá-los depois de ficar tanto tempo petrificada, e... — Ele corou levemente. — Gostaria de convidar os gêmeos e a Ginny também, se ninguém se importar.

— Por que nos importaríamos? — Serafina disse sorrindo suavemente. — Vamos incluir os seus amigos, e estou muito curiosa para conhecer essa menina, Ginny, que ouço falar o tempo todo.

— Legal! — Harry abriu um grande sorriso, animado com o fim de semana.

— Bem, então agendarei as assinaturas dos Tratados para o domingo à tarde. — Falc disse, fazendo suas próprias anotações. — Eu entrei em contato com a Ferraria Longbottom, questionando a possibilidade de nos fazerem um objeto mágico semelhante ao Cálice de Fogo, que possibilitaria escolher os futuros líderes da nova matilha. Eles podem fazer o objeto no formato que quisermos e no metal que escolhermos, mas as magias necessárias não são as suas especialidades. Os goblins têm algumas magias interessantes, os elfos da floresta também, e, claro, podemos encontrar um artesão de feitiçaria.

— Eu conheço um artesão. — Flitwick disse sorrindo. — Mas não seria ruim se tivermos mais opções, afinal, a magia goblin e élfica são muito poderosas.

— Qual metal escolheremos? E, em que formato? Um cálice? — Terry perguntou curioso.

— Acredito que devemos nos encontrar com o artesão de feitiçaria primeiro. — Flitwick respondeu. — Diante da nossa intenção, ele poderá nos orientar nessas escolhas, ainda que me parece que um cálice seja uma boa opção. Posso lhe escrever e solicitar uma visita, mas teremos que viajar para a Romênia, pois meu antigo amigo, Mihai Ardelean não deixa o seu lar com muita frequência.

— Bem, a Romênia é mais perto do que o Egito, e poderei ir com você na semana que vem, Filius. — Sirius disse pensativo. — Acredito que já terei esvaziado Grimmauld Place e os construtores estarão iniciando o projeto de reforma.

— Bem, eu ficarei e ajudarei os lobisomens a se mudarem para a ilha. — Falc disse.

— Acho que temos uma nova professora para a escola da ilha. — Harry disse sorrindo, e falou sobre Xandra Callander.

— Espera, ela é tão jovem e já tem dois Mestres? — Serafina arregalou os olhos impressionada. — Com certeza ela está sendo subaproveitada no Ministério, e seria incrível ter alguém com tanto talento. Se ela tiver interesse, podemos lhe dar as duas disciplinas, Feitiços e Runas Antigas.

— E os outros professores? — Terry perguntou, e sua mãe olhou algumas anotações.

— Remus será o professor de Defesa e Aritmancia, além do diretor, mas continuaremos a procurar alguém para ministrar as aulas de Aritmancia, para que ele não fique sobrecarregado. — Ela disse suavemente.

— Eu não me importo, pretendo deixar de trabalhar para o Sirius e me dedicar só à escola. — Remus explicou timidamente. — Ser professor é o que eu sempre quis, e estou muito feliz com a oportunidade de ensinar.

— Eu entendo. — Serafina disse sorrindo. — Eu serei a professora de História, Geografia, História da Magia e a vice-diretora. Meu pai ficará com as outras áreas humanas, Inglês, Francês, Latim e Cidadania.

— Vovô dará todas essas aulas? — Terry se mostrou chocado. — Mas como ele conciliará com a Universidade?

— Ele não irá. — Serafina disse suavemente. — Papai pretende se aposentar, era algo que ele pensava fazer em dois ou três anos, mas decidiu antecipar para poder se dedicar ao nosso projeto. Ele disse que ensinar um povo que nunca teve acesso à educação formal é o motivo pelo qual se tornou professor, lutou em favor da igualdade social e pelo fim das discriminações.

Terry parecia chocado, mas também emocionado e orgulhoso com a decisão do avô.

— Isso é muito legal. — Disse Harry sorrindo. — Prof. Bunmi é um professor incrível e os lobisomens aprenderão muito com ele.

— Concordo. — Serafina disse orgulhosa. — Bem, se Xandra aceitar as cadeiras de Feitiços e Runas, e o Slughorn Poções, ainda precisaremos de professores de Herbologia, Transfiguração, Trato de Criaturas Mágicas, Astronomia, Artes, Matemática e Ciências. — Ela suspirou. — Precisaremos procurar com calma, mas acho que tenho alguém interessado em Trato de Criaturas, pelo menos.

— Quem? — Harry perguntou curioso.

— Firenze. — Ela respondeu. — Obviamente que ele assumirá as aulas de Adivinhação, mas eu tive a oportunidade de conversar com ele ontem e Firenze se mostrou interessado em ensinar sobre criaturas e seres mágicos aos alunos.

— Bom, precisaremos de um nome melhor então, assim como para Adivinhação. — Harry disse. — Quando conversamos sobre essa arte, Firenze disse que adivinhar era a última coisa que um vidente deve fazer. Um bom vidente é um conhecedor e estudioso dos movimentos celestes, ele deve ler e interpretar esses movimentos com o máximo de ausência de sentimentos pessoais. Eu chamei de Arte da Vidência, e Firenze pareceu gostar do nome, assim como Trato das Criaturas Mágicas parece o nome errado para uma aula em que as criaturas e seres mágicos serão estudados juntos.

— Essa é uma boa ideia. — Disse Serafina. — Existem tantas palavras ou termos no mundo mágico que não fazem sentido ou estão completamente errados, acredito que essas duas disciplinas são apenas duas delas.

— Talvez seja algo que possa ser abordado em Hogwarts também, Serafina. — Flitwick disse pensativo. — Defesa Contra as Artes das Trevas sempre me pareceu que teria potencial para subdivisões como: Defesa, Defesa Avançada e Defesa & Duelo. Poderiam ser divididos entre primeiro e segundo ano, depois terceiro e quarto, e, por fim, do quinto ao sétimo.

— Isso é muito interessante. — Serafina disse. — É como com cálculo ou outras disciplinas que estão divididas em Cálculo I, Cálculo II e assim por diante. Você continua na mesma disciplina, ao mesmo tempo que pode se permitir mudar e acrescentar mais conteúdo. Torna mais abrangente e específico, o que parece contraditório, mas ainda é o que acontece.

— E quando você tira o "Contra as Artes das Trevas", permite que Defesa se amplie em diversas direções. — Remus disse animado. — Acredito que deveríamos incorporar essa ideia na escola da ilha.

— Que ainda precisa de um nome. — Harry brincou, e houve muitos sorrisos e acenos. — Hogwarts conseguiu encontrar um professor de Defesa para Hogwarts, Sra. Serafina?

— Ainda não. — Ela parecia chateada. — A última entrevista não foi muito boa, mas conseguimos um professor de Poções, que começará em setembro. Edward Connor é o seu nome, ele é irlandês, tem um Mestre em Poções e uma pequena loja de poções em sua cidade, Drogheda, que fica no norte da Irlanda.

— Espera, Edward Connor é o mestre de Poções que certificou os livros da mamãe! — Harry disse surpreso.

— Sim, foi assim que o conhecemos. — Falc explicou. — Ele é muito talentoso, fez o seu Mestre no curso do Ministério e se destacou, recebendo muitos elogios dos professores.

— Ele também passou alguns anos viajando por outros países, pesquisando, estudando, e foi assistente do mestre de Poções da Escola de Magia e Bruxaria de Salem, nos Estados Unidos. — Serafina explicou. — Acredito que vocês terão um grande professor de Poções.

— Bem, Slughorn não é tão ruim. — Harry admitiu, pois até que gostava do velho professor da sua mãe e sentiria a sua falta. — E sobre o mestre em Herbologia que certificará os livros? Ele não se interessaria por uma vaga na escola da ilha?

— O nome dele é Simon St. Clair, ele é americano e mestre em Herbologia e Poções, mas não tem interesse em se mudar para a Inglaterra. — Falc explicou.

— St. Clair? Esse não é o amigo da Denver? O potioneer que enviou a poção restauradora para os petrificados? — Harry perguntou espantado.

— Sim. — Sirius respondeu. — Descobrimos que ele estudou com o sobrinho da Sra. Clark e com a Denver em Ilvermorny, assim, Simon nos ajudou ao mesmo tempo em que certificava os livros da Lily para a Editora Aprilis. Uma pena que ele não se interesse em vir trabalhar aqui.

— Espere. — Harry disse pensativo. — Vocês ofereceram a vaga de Poções de Hogwarts?

— Sim. Por quê? — Serafina o encarou curiosa.

— Bem, eu não o conheço, Denver poderia nos informar melhor, mas acredito que, se oferecêssemos a vaga em Stronghold, de professor de Herbologia, e explicássemos o projeto, além de quem serão os seus alunos, talvez St. Clair aceitasse. — Harry considerou. — Esse é um projeto especial, e acredito que muitos bruxos estudiosos e de bom coração se interessariam em participar, como aconteceu com o prof. Bunmi. Além disso, podemos pedir que ele ensine um novo mestre, assim como pediremos ao Slughorn. Depois de dois ou três anos, St. Clair voltaria para os Estados Unidos.

— Isso é uma boa ideia! — Serafina olhou para Sirius.

— Eu conversarei com Denver, talvez ela concorde em intervir em nosso nome. — Sirius respondeu.

— Tenho outra sugestão para o professor de Matemática. — Harry disse empolgado. — Kiefer Macpherson!

— Claro! — Sirius acenou com entusiasmo. — Ele é o marido da Jesse! A gerente da Fazenda Callander! Kiefer é muito legal, e é professor de matemática em uma escola trouxa na cidade de Callander.

— Isso é um grande alívio. — Serafina disse, fazendo anotações, com um grande sorriso. — Espero que ele se interesse pelo cargo, o pagamento deve ser equivalente, apenas teremos que descobrir quais suas ambições e planos de carreira. Agora temos que encontrar um professor de Ciências e Artes, além das disciplinas mágicas.

— Mamãe, será que entre os currículos que pedimos aos familiares de nossos colegas que se interessassem em trabalhar na empresa de construção do Sirius, não teria alguém qualificado? — Terry sugeriu. — E os estudos trouxas, serão aceitos oficialmente?

— Boa ideia. — Serafina sorriu para o filho. — Sim, estamos fundando uma escola de internato trouxa, o endereço é falso, claro, mas toda a papelada e burocracia são oficiais, por isso precisamos de professores qualificados. — Serafina disse. — Apenas Remus não tem papeis trouxas, mas pretendemos falsificá-los, e os estudos mágicos serão escondidos, claro.

— E a esposa do Henderson? — Sr. Boot perguntou. — Ela é professora, certo?

— Sim. — Falc respondeu. — O grupo de Henderson ainda não respondeu, então não podemos fazer planos com ela.

— Constance é o seu nome, ela é professora de inglês. — Serafina disse. — Pensei que ela poderia dar essa aula para as crianças e papai ficaria com os adultos, afinal ele é professor universitário e Constance do ensino básico.

— Talvez ela possa dar aulas de Artes também, se tiver algum conhecimento na área. — Harry sugeriu e Serafina anotou a ideia.

— Bem, assim que eles confirmarem, podemos marcar uma reunião e descobrir isso. — Ela disse baixinho enquanto escrevia.

— Bem, acho que devemos falar sobre os Malfoys agora. — Sirius disse, e o clima na sala mudou completamente.

— O que eles aprontaram dessa vez? — Sr. Boot perguntou com uma expressão sombria.

— Vocês sabem que Harry e eu colocamos um plano em prática para destruir Lucius Malfoy. — Sirius disse.

— Sim. Você insinuou que ele estava sendo investigado pelos aurores em sua entrevista e expulsou Narcisa e o filho da família Black. — Falc disse.

— Exato, mas o projeto principal vai além disso. Queremos que Malfoy perca seu poder e influência no mundo mágico, pois, assim, enquanto ele paga por tudo o que fez, também estará enfraquecido quando Voldemort retornar. — Harry explicou.

— Entendo que isso é algo que todos concordamos, além de importante, mas estou preocupada que entremos em um projeto de vingança. — Serafina considerou. — Não quero que percamos o controle sobre a situação.

— Acho que é impossível que isso não aconteça. — Remus disse seriamente. — Viveremos uma guerra, Serafina, tudo o que planejarmos e todas as boas intenções saem pela janela quando estamos em uma situação de vida ou morte, a nossa e daqueles que amamos.

— Além disso, Malfoy viveu todos esses anos sem pagar por seus crimes. — Harry disse. — Sua liberdade, poder e riqueza lhe permitiram influenciar o mundo mágico à sua conveniência e atacar crianças inocentes. — Sua expressão endureceu ao pensar em Ginny. — Ele tem sorte que eu não sou um assassino ou tornaria a sua morte bem dolorosa pelo que ele fez com a... — Harry se interrompeu a tempo. — Pode parecer vingança, mas, nesse caso, a vingança anda de mãos dadas com a justiça, Sra. Serafina, e temos o prazer de dar outro golpe em Voldemort.

— Bem, vendo por esses aspectos... — Serafina acenou aceitando. — E o que mais vocês fizeram?

Sirius e Harry trocaram um olhar, pensando ao mesmo tempo em como eles reagiriam a todo o plano. As expressões foram mudando aos poucos, mostrando confusão, dúvida, incredulidade e espanto.

— Espere... — Falc era o mais tenso. — Vocês estão basicamente enviando Lucius Malfoy para a França? Isso o manterá longe das investigações do King, principalmente se ele encerrar todos os seus negócios escusos. Isso é quase um passe livre, Sirius, pensei que quisessem destruí-lo, não o enviar para viver como um rei na França!

— Isso porque você não conhece o Lucius como eu. — Sirius disse. — Acredite, eu cresci com tipos como ele e tive algum contato com o próprio Lucius, portanto, sei muito bem que viver tranquilamente em uma fazenda no interior francês não o distrairá por muito tempo.

— Você acredita que Malfoy voltará a cometer crimes? — Sr. Boot perguntou com o cenho franzido.

— Sim. Quando o Harry me disse quais eram os seus planos para o Lucius, eu usei todo o meu conhecimento sobre ele e Narcisa para ajustar e colocar as ideias em prática. — Sirius acrescentou.

— E chantagear a sua prima e obrigá-la a se tornar uma espiã foi sua ideia? — Serafina disse meio chocada. — Não sei se gosto ou me sinto confortável com algo tão... drástico.

— Vocês precisam abrir a mente. — Sirius disse olhando para todos os rostos de expressões desconfortáveis. — Não estamos lidando com pessoas inocentes, justas ou boazinhas, e minha prima faria o mesmo comigo sem piscar, acreditem. Além disso, eu não pretendo colocar sua vida em risco e não pediria isso a ela se não soubesse que Narcisa é mais do que capaz.

— Se ela é uma oclumente tão incrível e capaz de enganar o próprio Voldemort, será um grande trunfo para nós, mas sua vida estará em risco o tempo todo, Sirius. — Flitwick considerou.

— E, mesmo sem espionar para nós, isso ainda seria verdade, Filius, pois conviver com aquele monstro todos os dias será um grande risco. — Sirius defendeu. — Nós organizaremos muito bem a situação, primeiro, para que Narcisa não tenha como nos trair, e, segundo, para removê-la e seu filho no instante em que a situação ficar insustentável.

— Os riscos são enormes, mas o plano me parece bom. — Sr. Boot disse. — O que não entendi é como isso tudo irá enfraquecer ou destruir Malfoy? Se vocês esperam que ele volte a servir Voldemort, o que fazer toda essa jogada para enviá-lo para a França muda qualquer coisa?

— A França não é importante. — Sirius disse sincero e olhou para o Harry, que acenou. — Os planos iniciais do Harry eram destruir os negócios Malfoy, empobrecê-lo, desmoralizá-lo e enfraquecê-lo até que Lucius preferisse estar em Azkaban do que livre.

— Isso me parece mais justo. — Falc disse com os olhos brilhando com a ideia.

— Mas Narcisa é minha prima, uma Black e, apesar de purista, egoísta e egocêntrica, não é como Bella ou Lucius. — Sirius disse suavemente. — E Draco é praticamente uma criança, não podemos culpá-lo por agir como foi treinado a vida toda.

— Então, você alterou os planos para salvá-los? — Remus perguntou surpreso.

— Para lhes dar a oportunidade de se salvarem, Remus, pois isso não está em minhas mãos. — Sirius disse com força. — Eu propus que ela o deixasse, Narcisa recusou, mas eu também lhe dei muito o que pensar, planejar e esperar. Eu conheço a minha prima: quando ela quer algo, nada a impede, sua determinação beira a obsessão. Agora, Narcisa quer manter sua família unida, afastar a possibilidade de Lucius ser preso, impedir que Draco se torne um mini Comensal da Morte e, mais importante, construir uma vida que desestimule o marido de retornar quando o seu mestre chamar.

— E se ela alcançar os seus objetivos? — Falc disse chateado. — O que acontece se Narcisa impedir Lucius de voltar?

— Então, Lucius terá mudado, mas não viverá por muito tempo. Voldemort o matará rapidamente por sua traição. — Sirius deu de ombros. — Mas isso não acontecerá, pois Lucius voltará correndo no momento em que Voldemort o convocar. O fato é que Narcisa terá alguns anos para treinar o Draco em outra direção e perceber que Lucius não vale a pena.

— Você não espera que ela espione para nós, na verdade, seu desejo é que Narcisa deixe Lucius e se esconda quando Voldemort retornar. — Remus disse impressionado. — Mas se sua prima ainda for muito teimosa ou orgulhosa, poderá ser um grande trunfo como espiã. Realmente, Sirius, é um grande plano.

— Enquanto isso, nós enfraquecemos o Malfoy. — Harry disse animado. — Ele está sendo investigado pelos aurores, seus amigos lhe viraram as costas e desfizeram negócios lucrativos. Sirius tirou uma boa renda que vinha da porcentagem da herança da Narcisa e Lucius está praticamente fugindo para a França com o rabo entre as pernas.

— Socialmente e politicamente, tudo isso terá impacto. — Sr. Boot considerou. — E, com menos dinheiro, Malfoy também perde poder e possibilidades de manobrar situações à sua conveniência com subornos. Vocês estão certos, é um grande plano, ainda que seja difícil esperar mais para ver aquele homem pagando por tudo o que fez.

— Falc? — Sirius perguntou e viu o amigo suspirar.

— O plano é bom, apenas detesto pensar que Lucius Malfoy está indo passar uma longa e tranquila temporada na França. — Ele disse chateado. — Tinha esperança de que a investigação do King o colocasse em Azkaban para sempre.

— Não pense que a investigação desaparecerá ou terminará em nada. — Sirius se inclinou para frente com um sorriso. — Na verdade, eu estive conversando com o King, contei sobre Julius e o que ele disse sobre o seu pai, Corban Yaxley. King pretende reunir provas o suficiente para prender o auror traidor e pegar o Lucius no processo. Talvez não seja o suficiente para Malfoy ficar a vida toda na prisão, mas podemos sempre manter as esperanças.

— Se Malfoy não parar suas atividades criminosas e continuar a usar as informações de Yaxley, King pegará os dois. — Harry disse sorrindo. — Sinceramente, acredito que é uma questão de tempo até que Azkaban ganhe mais alguns hóspedes além do rato traidor. O que levanta a questão de como os manteremos lá quando Voldemort retornar.

— Estive pensando sobre isso desde que Travers mencionou a possibilidade de Voldemort resgatar seus seguidores. — Sr. Boot tomou a palavra. — Em meus longos anos como advogado e juiz do Ministério, a discussão sobre o acordo que temos com os Dementadores era constante. E isso também existia antes do meu tempo, pois eles guardavam Azkaban bem antes da guerra com Voldemort.

— Quer dizer que os Dementadores traíram os bruxos uma vez e o Ministério voltou a se aliar a eles? — Terry disse abismado. — Quanta burrice!

— O meu ponto é que, com um novo Ministro e o Partido Liberal no controle do Ministério, poderemos voltar a discutir o assunto e, quem sabe, desfazer esses acordos. — Sr. Boot prosseguiu. — Se enviarmos os prisioneiros mais perigosos para uma prisão desconhecida e protegida por magias poderosas, acredito que aleijaremos Voldemort definitivamente.

— Então esperamos para ver se Finley será o Ministro e o que fará sobre os Dementadores? — Harry perguntou, levemente contrariado com a ideia de ter que esperar e depender de outra pessoa.

— O que mais poderemos fazer? — Falc questionou. — Alguém tem alguma ideia?

— E matar os prisioneiros não é uma possibilidade, obviamente. — Serafina disse meio brincalhona, meio séria.

— Que pena. — Sirius disse meio brincalhão, meio decepcionado.

— Eu acho que a solução seria destruirmos os Dementadores. — Terry disse. — Porque, desfazer o acordo com eles e assegurar os prisioneiros contra uma possível fuga, não impedirá que Voldemort use os Dementadores para machucar pessoas.

— Eles são quase imbatíveis, Terry, a ideia de destruí-los é boa, mas impossível. — Remus disse sinceramente.

— Não existe maneira de combatê-los e destruí-los? — Harry perguntou confuso. — Existem tantas outras criaturas mágicas poderosas que podem ser mortas, por que não os Dementadores? Ora, há dois meses, eu matei um basilisco de mil anos.

— O problema com os Dementadores é que eles são impossíveis de serem estudados, Harry. — Remus explicou. — Seu efeito sobre os seres humanos é intenso e debilitante, os prisioneiros em Azkaban podem enlouquecer e ter sua magia severamente afetada ou enfraquecida. Quando eles deixam a prisão, levam meses para que consigam realizar o mais simples dos feitiços.

— Isso tudo não aconteceu comigo porque eu passava muito tempo como Almofadinhas, e, como os Dementadores não enxergam, eles pensavam que era o efeito da minha magia mais fraca ou da minha mente destruída. — Sirius acrescentou. — E, apesar disso, eu estava muito enfraquecido fisicamente, apenas tive sorte de manter minha mente e magia sãs.

— Ok. Mas alguém criou o Expecto Patronum, então não deveria ser impossível encontrarmos ou criarmos uma magia que faça mais do que afastar os Dementadores. — Terry protestou.

— O Expecto Patronum foi criado há séculos por um bruxo africano para combater Mortalhas Vivas, Terry. — Foi Remus quem explicou. — Elas vivem abundantemente em países quentes e tropicais, em florestas ou nos desertos. Os ataques aconteciam com tanta frequência que os registros históricos catalogam dezenas de mortes todas as noites. Então, como ela é composta por escuridão, uma massa ou manto escuro e agressivo, o bruxo Nassor Salá pensou em criar um feitiço defensivo que iluminasse, revelasse e combatesse essa escuridão.

— E ele teve sucesso. — Sr. Boot acrescentou. — Apesar de ser muito difícil de realizar, o feitiço Patrono é capaz de matar Mortalhas Vivas e, ao ser usado contra os Dementadores, consegue espantá-los. E isso é importante, ou os Dementadores seriam uma praga impossível de controlar.

— Bem, então devemos encontrar uma maneira de matar Dementadores. — Harry propôs. — Se isso nos ajudar a enfraquecer Voldemort, me parece o melhor caminho.

— Harry, existiram milhares de bruxos ao longo dos séculos que buscaram esse feito. — Serafina apontou. — Isso sem falar no Departamento de Mistérios do Ministério, que tem as mentes mais brilhantes trabalhando em pesquisas como essas. O que o faz pensar que nós conseguiremos o que eles não puderam?

— Bem, temos uma grande motivação e, na verdade, não saberemos se é possível ou não sem tentarmos. — Harry deu de ombros. — Eu quero aprender o feitiço do Patrono, e, a partir daí, tentarei encontrar alguma coisa que os machuque. Pesquisarei em meus Grimoires e livros familiares antigos, e vocês deveriam fazer o mesmo, depois podemos reunir nossas pesquisas.

— Bem, acho que não custa tentar. — Flitwick disse, e Remus parecia interessado também.

— Se quiser, posso lhe ensinar o Patrono durante o verão, Harry. — Remus disse com um sorriso suave.

— Combinado! Depois poderei ensinar à Equipe Covil! — Harry se entusiasmou e trocou um sorriso com Terry.

— Bem, se ninguém tem mais nada, acho que podemos encerrar essa reunião e irmos descansar. — Serafina sugeriu se levantando. — O dia foi tão estranho, imagino que o resto da semana não será diferente.

— O Sr. Anton disse algo sobre a nossa reunião de sábado, Sr. Falc? — Harry perguntou enquanto todos deixavam o escritório.

— Conversamos rapidamente antes da mensagem do Sirius chegar, então tive que ir ao Ministério. Anton disse que está muito chocado, que Tracy não parece a mesma e que ainda não sabe o que fazer sobre a guerra. — Falc respondeu. — Mas assegurou que, se precisarmos do seu apoio jurídico, ele estará a postos.

Harry apenas acenou se perguntando se os Davis escolheriam manter a neutralidade na guerra ou fugir, e como isso afetaria Tracy e seu desejo de lutar.

Sirius e Remus deixaram a Mansão Boot depois da reunião, pois tinham outro importante encontro marcado.

— Você lhe avisou que nos atrasaríamos? — Sirius perguntou tenso, enquanto caminhavam pelo calçado que levava ao pequeno chalé.

— Sim, expliquei que os acontecimentos do dia foram confusos e para não nos esperar antes das 10 horas. — Remus disse. Seu rosto pálido e olhos castanhos estavam tristes desde que Sirius o informou da captura de Peter. — Eu falei em remarcarmos, mas ela disse que, se era importante, poderíamos aparecer em qualquer horário.

Sirius acenou e diminuiu o passo, até parar hesitantemente.

— Não sei se consigo fazer isso... — Ele disse com expressão sofrida. — Como direi...?

— Sirius, vamos. — Remus apertou o seu ombro. — Eu estou aqui, nós podemos fazer isso, meu amigo.

Sirius acenou pigarreando e eles prosseguiram até a porta, que se abriu depois do primeiro toc toc. Maria MacDougal apareceu na frente deles sorridente, com as bochechas coradas e olhos castanhos brilhando.

— Rapazes! Venham! Estamos comemorando! — Ela disse e, segurando seus braços, os puxou para a sala de estar, onde Emmeline Vance segurava um copo de whisky de fogo.

Na mesa, haviam mais copos e duas garrafas, uma delas pela metade.

— Vocês demoraram tanto que começamos a comemoração sozinhas. — Vance disse, ao entornar a bebida nos outros copos e estender a Sirius e Remus. — Acabei de entregar a minha matéria de primeira página sobre a prisão de Pettigrew, e nunca me senti tão satisfeita em minha vida. Acho que só seria melhor se eu fosse o auror que o capturou, mas não reclamarei.

— Vamos fazer um brinde. — Maria disse, sem perceber as expressões sombrias dos dois convidados. — Que o traidor maldito sofra no inferno!

— Que ele não tenha um segundo de paz e morra agonizando! — Vance ergueu o seu copo e riu meio bêbada.

As duas olharam para Sirius e Remus, esperando que eles brindassem com elas, mas os dois se mantiveram paralisados no lugar, sem saberem o que fazer a seguir.

— Ei! O que foi? Parece até que não estão felizes que o rato foi preso. — Vance perguntou confusa. — Não me diga que ele fugiu ou algo assim?

— Não, não é isso. Peter ainda está bem preso. — Remus disse hesitante. — Maria, Sirius te enviou uma mensagem explicando que precisávamos conversar com você sobre algo importante. Teríamos vindo mais cedo, mas a captura do Peter tornou o dia caótico e nos atrasou.

— Sim, mas pensei que o assunto fosse de trabalho ou algo assim, podemos deixar para depois, afinal, nada é mais importante do que a prisão daquele desgraçado. — Maria disse sorrindo.

— Não... — Sirius se aproximou, percebendo que tinha que ser ele a assumir a situação e contar à sua amiga o que descobrira, afinal, foram os dois que procuraram por Caradoc por meses e meses incansavelmente. — Maria, sente-se aqui, por favor. — Ele segurou-a pelos braços e os dois se sentaram no sofá, se olhando de frente. — O que preciso te contar é mais importante do que Peter e muito mais difícil.

O clima na sala mudou completamente. Os sorrisos das meninas desapareceram, Vance pareceu tão sombria como antes e Maria angustiada.

— O que? Algo aconteceu? — Ela apertou as mãos de Sirius, sem nem perceber que as estava segurando. — Minha família...

— Não. — Sirius respondeu com firmeza, enquanto Remus e Vance se sentavam em outras poltronas da pequena sala. — Ontem, eu descobri o que aconteceu com Caradoc e... — As palavras pareciam fugir e Sirius sentiu uma grande tristeza ao ver o rosto de Maria empalidecer e se desmanchar em dor.

— Ele morreu. — Ela sussurrou em tom de afirmação, pois sempre soube que essa era a verdade, apenas, uma parte do seu coração ainda tinha esperança.

— Sim. — Sirius disse. — Ele morreu em 81, como temíamos, e talvez possamos recuperar o seu corpo, mas...

— Como? — Maria perguntou com a voz mais forte. — Depois de tanto tempo, como você conseguiu essa informação? O que lhe dá tanta certeza?

— Encontramos Caspiana. — Sirius disse e a viu arregalar os olhos. — Ainda não pessoalmente, mas encontramos alguém, seu marido, que nos contou o que lhe aconteceu e ao Caradoc.

— Caspiana? — Maria olhou para Remus, que acenou com a expressão mais triste. — Onde ela está? O que aconteceu com eles?

— Caspiana foi sequestrada por Gustav Selwyn e Rabastan Lestrange. — Remus explicou. — Gustav era obcecado por ela e, ao ser rejeitado, decidiu pegá-la e mantê-la em cativeiro. Ele e Rabastan a estupraram por quase dois anos, a mantiveram prisioneira e, quando Caradoc chegou perto de encontrá-la...

— Eles o capturaram e o mataram na frente dela. — Sirius disse baixinho. — A intenção era quebrá-la, convencê-la de que não havia esperança de fuga ou alguém para vir salvá-la. Caspiana fugiu depois que Rabastan foi preso e Gustav baixou a guarda, ela o matou e desapareceu, pois temia que a família Selwyn viesse atrás dela em busca de vingança.

— Por isso ela não me procurou? Para pedir ajuda e me contar que estava viva? — Maria disse, levemente magoada. — Eu era a sua melhor amiga. Lily e Marlene eram inseparáveis, mas Caspiana e eu tínhamos nossa própria dupla unida.

— Tem mais para contar, mas deixarei que ela explique tudo pessoalmente. — Sirius disse. — Acredito que em breve poderemos marcar um encontro e você pode lhe perguntar exatamente como tudo aconteceu, mas Caspiana saiu de um cativeiro de quase dois anos para um mundo destruído, Maria. Seu irmão e muitos amigos estavam mortos ou presos, ela temia que o pai e o irmão de Gustav tentassem matá-la em vingança e, com disse, haviam outros fatores importantes que a obrigaram a continuar desaparecida.

— Mas... Outros fatores? — Maria se levantou parecendo zangada. — Que outros fatores eram tão importantes que a impediram de vir me contar que estava viva? E que Cara... Caradoc... se fora? — Ela parecia sem fôlego, tentado controlar a dor que sentia e continuar a falar. — Eu passei todos esses anos sem saber e... pensando... imaginando... Merlin, esperando! Eu tive esperanças! Eu... — Maria olhou para Vance e Remus, depois voltou a encarar o Sirius. — Eu esperei e esperei por todo esse tempo que ele voltasse... — Ela levou a mão ao rosto, parecendo chocada. — Oh, Merlin! Eu ainda tinha esperança! Era tolice, racionalmente eu sabia, mas... — Soluços dolorosos a fizeram se inclinar e Sirius a segurou antes que caísse no chão. — Sirius! Ele se foi! Meu Caradoc se foi! Ahhhh!

Seu grito e choro de dor foram como punhaladas para seus três amigos, e Sirius a apertou com força tentando lhe passar todo o seu afeto e lamento, pois isso era a única coisa que poderia fazer nesse momento tão triste.

Notas Finais:

Então, primeiro, eu queria lhes dizer que estava muito ansiosa pela captura do Rabicho! Espero que tenham gostado e encontrado coerente! Essa trama se liga direto com o livro 3, que começará assim que se iniciar as férias de verão do pessoal. Estou ansiosa por isso e apesar de ter mais algumas tramas que aconteceram no próximos 2 meses, acredito que não demorará muito.
Segundo, eu posso ter dramatizado um pouco a reação do Arthur, mas isso acontece porque eu sempre achei absurdo o fato dos Weasleys não perceberem que tinham um rato imortal vivendo em sua casa! Eu pesquisei que dos animais mágicos mencionados, ratos mágicos não aparece, assim, eles não existem no mundo da JK. Como dois adultos podem ser tão distraídos e negligentes! Madame Bones meio que me personificou em sua bronca e disse tudo o que eu queria dizer. Por fim, sempre me incomodou que a JK não fez nada com isso, quer dizer, algo tão grave não poderia passar em branco e eu decidi que queria mostrar uma reação mais realista diante dos graves fatos. E, bem, eu tb adoro dramatizar, claro.
É isso por hj, espero que tenham gostado do capítulo, revisem e me contem, por favor. Isso é um grande incentivo nos dias em que estou muito cansada.
Até mais, Tania