NA: Olá, pessoal! Não tenho muito o que dizer, apenas que espero que vocês gostem do capítulo e que me digam em suas revisões. Ela são incríveis e me deixam muito motivada!
Mais uma vez, quero agradecer a Débora por sua revisão gramatical! Nos últimos dias, pude me concentrar no novo capítulo, que já está bem adiantado, enquanto ela revisava. O melhor é que o texto não terá mais o meus erros bobos!
Até mais!
Tania

Capítulo 84

Ao subir para o seu quarto depois da reunião daquela noite, Harry observou seu padrinho sair com Remus, e suas expressões sombrias o fizeram lembrar de que eles estavam indo a uma importante missão.

Suspirando, Harry se perguntou se Rabicho entendia completamente a destruição que suas ações tinham causado nas vidas de todos. O rato traidor podia não ser diretamente responsável pela morte de Caradoc Dearborn, mas ainda era possível que tivesse tido alguma participação. Harry acreditava que Moody o interrogaria em busca dos detalhes de suas traições, pois, afinal, o velho auror tinha sido um membro da Ordem da Fênix e quereria respostas.

Ao entrar no quarto, Harry encontrou Edwiges lhe esperando, e ela tinha uma carta em sua perna.

— Ei, você foi buscar uma carta de alguém para mim? Hermione? — Perguntou Harry carinhosamente e, depois de lhe retirar a carta, colocou água fresca e petiscos em seu poleiro de tronco de árvore. Edwiges piou em agradecimento e Harry lhe acariciou as penas distraidamente ao olhar para a carta. Imediatamente, ele abriu um amplo e alegre sorriso ao reconhecer a letra. — Guinevere. — Sussurrou, sentindo uma quentura gostosa se instalar em seu ventre.

Ele se sentou na poltrona perto da janela e abriu a carta rapidamente.

Olá, Harry,

Espero que esteja tendo boas férias e que tudo tenha corrido bem em seu almoço especial. Por aqui, comemos muito, como sempre. Minha mãe faz a comida mais deliciosa e sempre tenta me ensinar, mas prefiro as suas aulas de culinária, não sei bem por quê. Não tinha percebido (até ver a Edwiges nas árvores) que estou com saudades de você, e espero que essa semana passe o mais rapidamente possível.

É estranho, eu estava tão ansiosa por ver meus pais, me conectar com eles, ouvir suas vozes, sentir os seus cheiros..., mas esses últimos dias foram difíceis. Os problemas que o Percy causou me fizeram repensar minha semidecisão de contar a eles sobre o diário, e admito que isso me causou um certo alívio. Infelizmente, esse segredo não me permitiu me conectar com eles como eu pensei que aconteceria.

Durante as férias de Natal, eu estava com tanto medo e insegura, mas não senti que estava mentindo para eles. Agora é diferente, pois sei que estou mentindo, e isso é como uma parede entre mim e eles.

Então, papai chegou hoje em casa em estado catatônico.

Você já deve ter sido informado sobre a captura de Pettigrew, mas o que você não sabe é que ele esteve escondido como o rato de estimação dos meus irmãos por mais de 11 anos. Durante todo esse tempo, o traidor responsável pela morte dos seus pais esteve escondido em nossa casa, e isso abalou meu pai de uma maneira que jamais vi. A mãe é mais prática, e, como estamos todos bem, ela quer esquecer tudo e seguir em frente.

Papai está sofrendo, Harry, eu posso ver isso, e me parte o coração vê-lo assim. Quero ajudá-lo, mas ainda sinto aquela parede me mantendo longe, apenas sei que devo derrubá-la e parar com as mentiras. Meu pai foi cruelmente enganado por 11 anos, inclusive por si mesmo em sua desatenção, e não merece que eu minta para ele também.

No entanto, não tenho coragem de contar agora, pois sei que o que me aconteceu será outro duro golpe para ele. Estou me sentindo confusa e perdida, gostaria de voltar para Hogwarts já, ir às aulas, jogar quadribol e não pensar sobre isso até o verão. Também gostaria de vê-lo e conversar com você pessoalmente. De repente, esses dias extras de férias parecem não ser tão bons.

Edwiges apareceu aqui bem quando eu pensava que gostaria de te ver, acho que ela estava passeando, ou sabia que eu precisava desabafar um pouco. De qualquer forma, agradeça sua gentileza, Edwiges é tão especial quanto o seu dono.

Não posso imaginar o que a captura de Pettigrew lhe causou e ao seu padrinho. Espero que esteja bem e aliviado, mas, se precisar conversar, estou aqui para você. Para sempre.

Carinhosamente,

Guinevere

Harry sorriu suavemente com suas palavras finais. Estranhamente, o sentimento que tinha pela captura de Rabicho era de alívio, talvez por saber que ele pagaria por sua traição, mas também porque ele não estaria mais perto de Guinevere ou teria a chance de feri-la e à sua família. Acabou, pensou, Rabicho estava completamente acabado, e sua covardia não atingiria mais ninguém que lhe importasse.

Sentando-se à escrivaninha, Harry começou sua resposta.

Olá, Guinevere,

Eu recompensarei a Edwiges grandemente por sua esperteza, e, acredite, ela é muito mais especial do que eu jamais poderia ser.

Eu não apenas soube de tudo sobre a captura do Rabicho, como participei em primeira mão, pois estava em Hogwarts e o encontrei com o mapa. Acredito que, sem tantas pessoas na escola, o seu nome se destacou para mim mais facilmente, afinal, não deveria haver ninguém no segundo andar da Torre Gryffindor.

Flitwick me ajudou a capturá-lo e ficou com os créditos, pois não preciso de mais atenção e nem quero. E, como você adivinhou, me sinto muito aliviado com a prisão dele, pois agora sei que a justiça será feita e, tão importante quanto isso, você, sua família e qualquer outra pessoa estão seguros da sua covardia.

Sobre os seus pais, fiquei chocado com tudo o que aconteceu e compreendo o que seu pai está sentindo. Vocês são responsabilidade dele, e deve ser terrível perceber que fracassou na sua missão mais importante, que é mantê-los seguros. Rabicho não os ter ferido foi apenas conveniência, Guinevere, pois ele precisava de um local seguro para se esconder.

Mas isso é um peso que o seu pai tem que carregar, e não há muito o que você possa fazer, além de oferecer seu apoio e amor. Dito isso, se você se sente pronta para contar a eles o que aconteceu, conte, pois você também é importante e precisa do amor e apoio dos seus pais. No entanto, sinto que sua hesitação mostra que você precisa de mais tempo, e acho que deve aceitar isso.

Mentir para eles é complicado, acho que me sentiria do mesmo jeito se meus pais estivessem vivos. Sobre essa parede, ela existe, eu entendo, mas não precisa ser muito grossa. Converse com seus pais sobre outras partes de você e torne essa parede mais fina até poder derrubá-la. E dê uma chance às aulas de culinária da sua mãe; se ela é tão boa cozinheira, deve ter muito o que ensinar, e você não deve perder esse presente por nada.

Algo em sua carta me deixou contente. Você escreveu: "sei que o que me aconteceu será...". Antes, você escreveria: "sei que o que eu fiz será...". É bom perceber que você não se sente mais tão culpada como antes. Acredito que o amor dos seus pais a ajudará a sentir completamente que você não fez nada errado.

Também estou com saudades, mas estive tão ocupado que sinto que os dias estão passando muito rápido. E, ao contrário de você, fico muito feliz que não estaremos voltando para a escola na sexta-feira, como programado. O fim de semana extra que os quebradores de maldições precisam para examinar a escola nos dará dois dias inteiros de diversão e folga, algo que não terei muito até lá, sinceramente. Passaremos o fim de semana na Mansão Potter (ou Stone Waterfall, é o seu nome correto), e a Sra. Serafina escreverá aos seus pais convidando-a e aos gêmeos, em meu nome, claro. Espero que vocês possam vir, pois há muito o que fazer e teremos muita diversão. Não direi detalhes, quero que seja uma surpresa.

Falando em quebradores de maldição, eu conheci o seu irmão e ele é muito legal! Na verdade, tive a oportunidade de almoçar com ele e...

Harry escreveu sobre o almoço, Xandra, o Sr. Li, Ian e Mac, sua relação e os preconceitos que enfrentam.

Sinto que sempre enfrentaremos isso, Guinevere. Não importa o tempo que passe ou quais as diferenças que as pessoas discriminem, sempre haverá discriminações. É muito triste, se você pensar bem, que alguém se levante da mesa, deixe a sua refeição e perca a chance de conhecer, ser amigo, de duas pessoas tão incríveis, apenas porque não conseguem aceitar que somos todos diferentes.

O almoço especial foi muito especial, e não direi mais nada. Em nosso próximo encontro no Covil, contarei todos os detalhes.

Espero que tenha uma boa semana, e não hesite em me escrever quantas cartas precisar, é bom ouvir de você, mesmo que sejam apenas palavras no pergaminho. Nós nos veremos no sábado...

Esperançosamente,

Harry

Harry dobrou a carta e a colocou de lado ao ver que Edwiges dormia com a cabeça sob a asa. Pela manhã, ele a enviaria, decidiu, e, depois de colocar o pijama, também foi dormir.

As notícias da primeira página do Profeta na manhã de terça-feira tinham uma grande foto de Peter Pettigrew e todos os detalhes sobre a sua vida, traição, fuga e captura. Uma edição especial sobre a prisão fora lançada na noite anterior, mas os detalhes suculentos e macabros que envolviam a vida do animagus rato traidor foram apresentados apenas nas páginas da edição matutina.

Vance fez uma retrospectiva detalhada sobre a sua infância, sua família, seus anos como aluno de Hogwarts e a amizade com James, Sirius e Remus, além do período em que lutou na guerra como membro da Ordem da Fênix. Talvez, por seu interesse pessoal e conhecimento direto de Pettigrew, Vance tenha conseguido passar para os leitores as nuances de sua personalidade, seus interesses e fraquezas, além do amor e amizade com que foi cercado a vida toda – amizade que Pettigrew traiu por covardia quando viu sua vida ameaçada por Voldemort. Vance conseguiu informações do interrogatório que deixava claro que Pettigrew teve que escolher entre a sua vida e a vida de seus amigos e companheiros. Ele escolheu o caminho dos covardes e para sempre seria conhecido como O Traidor.

E, mais do que uma reportagem, seu texto se tornou um testemunho cheio de emoções e palavras nunca ditas antes sobre aqueles momentos angustiantes da guerra. Isso permitiu aos leitores vivenciar a terrível história de traição como se fossem parte dela, e, ao mesmo tempo, os fizeram recordar suas próprias experiências naqueles anos sombrios.

Enquanto o mundo se chocava, enraivecia e se emocionava com a história do garoto tímido e amado que traiu tão cruelmente ao seu grande amigo, Peter passava momentos angustiantes em sua cela, lamentando não ter fugido quando teve a chance, sentindo o terror que a perspectiva de Azkaban lhe causava e relembrando o terrível confronto com Harry e Sirius.

No fim da manhã, seu advogado de defesa o visitou e comunicou que o julgamento estava marcado para o dia 30 de abril. Peter não sabia, mas a data foi escolhida para um dia antes do lançamento da campanha de reeleição de Cornelius Fudge, que pretendia ganhar muitos votos em cima dessa "vitória". O Partido Conservador estava mais seguro do que nunca da vitória, e o fato de Finley não receber o esperado apoio de Sirius Black apenas lhes deixou mais confiantes.

No entanto, os Progressistas sabiam que essa era a primeira grande e verdadeira chance de assumirem o poder em décadas, então não desistiriam facilmente. Finley cedeu entrevistas ao Profeta e às emissoras de rádio bruxa criticando a administração de Fudge, que não tinha capturado Peter Pettigrew, escondido em Hogwarts, em mais de um ano de investigação. Coube a um professor descobrir e capturar o comensal da morte assassino e impedir que os alunos acabassem feridos.

Durante aquele dia, para todos que acompanharam as trocas de farpas e críticas não tão veladas, o sentimento era de choque por saberem que Pettigrew estava tão perto das crianças, e também de dúvida, pois não sabiam em quem deviam confiar. Era como se as campanhas das eleições já tivessem começado e ninguém soubesse qual dos candidatos era a melhor escolha. Vance voltou a criticar o sistema eleitoral que impedia que os bruxos do mundo mágico votassem diretamente em seu candidato, o que levou a mais reflexões e discussões.

Enquanto o burburinho se mantinha intenso entre o povo mágico, naquela terça-feira, Harry teve muitas reuniões na GER. A inauguração das Feiras aconteceria em um mês e o lançamento da campanha seria na quinta-feira, assim, ele se encontrou com Theo Foster, Diretor da Divisão de Marketing da GER, além de Francisco Andrade e Faith Summer, para o acerto de alguns detalhes finais antes das entrevistas.

Francisco e Faith lhe explicaram como as fazendas estavam produzindo incrivelmente, a colheita de primavera se iniciaria em breve e todas as Feiras ao ar livre estavam praticamente construídas, Harry pode ver tudo por fotos, pois não tinha tempo para visitá-las até o dia da inauguração. As projeções de Faith se mostravam muito otimistas, principalmente com a participação de Harry e Sirius na campanha de divulgação das Feiras.

Harry também descobriu que Francisco e Faith tiveram poucos problemas com os funcionários e precisaram apenas de algumas realocações ou substituições, como o gerente da Fazenda Godric, Sr. Graham, que precisou aceitar deixar o cargo de gerente e se tornar supervisor. Isso não surpreendeu o Harry, que acrescentou que o homem dificilmente era bom em lidar com as pessoas, assim, se estivesse tratando mal os funcionários que supervisionava, deveria ser aposentado de uma vez. Falc insistiu em não chegarem a esse ponto sem darem mais tempo ao Sr. Graham, e Harry concordou em esperar a inauguração das Feiras antes de uma nova avaliação, ainda que soubesse que de nada adiantaria.

Sua reunião com Theo e seu assistente foi mais longa, pois eles repassaram várias vezes o que Harry e Sirius deveriam dizer ou não dizer nas entrevistas. O tom escolhido para a campanha das Feiras era familiar e natural. Harry deveria falar sobre sua família, seu legado e o sonho de voltar a fornecer ao mundo mágico um alimento saudável de alta qualidade, sonho interrompido com a morte trágica e prematura dos seus pais. Esperava-se muitas perguntas sobre os custos dos alimentos naturais versus os alimentos modificados magicamente, além da praticidade das Feiras versus os armazéns e empórios em cidades pequenas.

Harry deixou essa reunião satisfeito com o projeto. Os cartazes e folhetos eram bonitos, reciclados, bem informativos e estariam expostos em locais de destaque. No caso dos folhetos, eles seriam enviados para as casas dos bruxos junto aos jornais d'O Profeta Diário e as revistas semanais do mundo bruxo. As entrevistas seriam o pontapé inicial, mas seria o trabalho de divulgação que atingiria a maior parte do público. O dia da inauguração era um sábado, e Harry já solicitara ao seu chefe, o professor Flitwick, autorização para se ausentar de Hogwarts. Ele pretendia visitar cada uma das Feiras e estaria presente na abertura da Feira de Godric's Hollow, pois era, afinal, a cidade da família Potter e onde ele construiu o Jardim da Lily.

Harry tinha que admitir que a reunião pela qual estava mais ansioso era a que teria depois do almoço. Apesar da ausência do Sr. Edgar, Falc e Sirius pretendiam lhe relatar como estava indo a compra do time de quadribol Kestrels de Kenmare, e o primeiro funcionário desse novo projeto seria contratado.

Trevor Pickford teve uma manhã ansiosamente estressante. Ele acordou tão cedo como no 1º de setembro da sua primeira viagem para Hogwarts, e se sentia tão enjoado como naquele dia.

Trevor cresceu com um pai nascido trouxa que falou a verdade sobre as discriminações que enfrentaria e como dificilmente conseguiria um bom emprego ao se formar. Assim, Trevor encarou Hogwarts como o lugar para aprender o máximo de magias possíveis antes de voltar para mundo trouxa – por isso ele foi selecionado para a Ravenclaw, ainda que suas ambições o deixaram perto da Slytherin, mas a sua sede por conhecimento falou mais alto do que qualquer ganho ou conquista pessoal.

Ao longo dos anos, Trevor teve que admitir que sua paixão por quadribol e esportes em geral colocou um grande ponto de interrogação em seus planos. Estudar no mundo trouxa era o mais inteligente a se fazer, e o fato de seu pai trabalhar por tantas horas na oficina, todos os dias, por anos e anos, era o que lhe permitiria entrar na universidade e cursar Medicina, mas o desejo de trabalhar com quadribol era imenso e apenas aumentou depois de suas conversas com Harry. Os planos de James Potter para a Liga de Quadribol eram brilhantes, e Trevor se sentiu encher de energia e entusiasmo com o pensamento de trabalhar em algo tão incrível e revolucionário. No entanto, esse era um projeto para um Harry adulto, assim, Trevor teve que encarar a realidade da vida e se concentrar no que podia alcançar.

A oportunidade de trabalhar para a GER e ganhar uma bolsa de estudos era como um presente inesperado e maravilhoso. Trevor poderia fazer Medicina, trabalharia no mundo mágico e poderia retribuir ao seu pai todo o seu apoio e amor. Deixaria seus sonhos de trabalhar com esportes para o futuro; talvez, depois da guerra, o Harry poderia se concentrar no projeto do pai e Trevor o ajudaria.

Ao entrar na GER, no início daquela tarde, Trevor repassou tudo isso em sua mente mais uma vez, e, resignado, decidiu ser o melhor funcionário possível e conseguir a bolsa de estudos para cursar Medicina.

A entrevista com a Diretora da Divisão de Recursos Humanos Interno e Externo da GER, foi incrivelmente simples e positiva. Rebecca Gillian era simpática, interessada e compreensiva. Ela claramente gostava muito do seu trabalho, e não mostrou contrariedade quando Trevor confessou os seus sonhos de trabalhar com medicina esportiva no futuro.

— Mas isso não me impedirá de trabalhar duro em qualquer cargo que me ofereça, Srta. Gillian. — Ele disse fervorosamente. — Prometo fazer o meu melhor e me dedicar completamente à empresa, e também não deixarei que a universidade atrapalhe.

— Uma universidade tão importante nunca poderia atrapalhar, Trevor, e lembre-se de que o objetivo da GER é ajudar os seus funcionários a alcançarem os seus sonhos. — Rebecca respondeu. — Bem, agora eu precisarei que você assine um documento de sigilo mágico, pois prosseguiremos para a próxima etapa.

— Próxima etapa? — Trevor arregalou os olhos ao perceber que passara na entrevista.

— Sim. Algumas opções de cargos serão oferecidas a você, o que significa que você será informado sobre alguns dos nossos projetos confidenciais, e precisamos nos assegurar de que as informações não vazem. — Trevor acenou, quase saltando de empolgação com a clara informação de que seria contratado. — Além disso, como o nosso Diretor Executivo, o Sr. Edgar, está ausente em uma viagem de negócios, o nosso chefe fez questão de encontrá-lo pessoalmente, e não preciso dizer que a identidade dele deve ser mantida em completo segredo, certo?

— Espera... — Trevor se levantou espantado, quando a Srta. Gillian também se levantou da sua cadeira para conduzi-lo até a sala de reuniões. — A senhorita está dizendo que eu conhecerei o dono da GER?

— Exatamente. — Ela disse com um sorriso divertido. — E precisará manter sua identidade em segredo, como estipulado no contrato de sigilo que você acabou de assinar. Entendido?

— Sim! Claro! Com certeza! — Ele disse ansiosamente e sentiu um aperto no peito, pois lembrou-se de que prometera ao Harry que lhe contaria quem era o dono da GER.

Eles deixaram o escritório e foram para a sala de reuniões, onde Falc estava inclinado sobre dezenas de documentos e David Coleman, sócio da Sports Company, conversava baixinho com Diane Worthington, Diretora da Divisão Imobiliária.

— Ah, Rebecca, terminou a entrevista inicial? — Falc perguntou, levantando o olhar.

— Sim, Falc, tudo correu muito bem, como esperávamos, e agora é com vocês. — Rebecca sorriu suavemente. — Voltarei para o trabalho. Se precisarem de mim, é só chamar.

— Ok. Obrigado. — Falc respondeu, se levantando para cumprimentar Trevor.

— Obrigado, Srta. Gillian. — Trevor disse ansioso.

— Seremos colegas em breve, Trevor, assim pode me chamar de Rebecca. — Ela disse antes de acenar e sair.

— Trevor, eu sou Falcon Boot, advogado da GER. É um prazer conhecê-lo pessoalmente. — Falc estendeu a mão formalmente.

— O prazer é meu, senhor, e obrigado pela oportunidade. — Trevor disse, tentando controlar os nervos.

— Venha. Deixe-me lhe apresentar a dois colaboradores da nossa empresa e que estão fortemente envolvidos em um dos nossos importantes projetos. — Falc disse. — Este é David Coleman, o gerente da Sports Company, e Diane Worthington, Diretora da Divisão Imobiliária da GER. Pessoal, este é Trevor Pickford, formando de Hogwarts, futuro médico esportivo e, espero, mais alguém com talento para nos ajudar em nosso ambicioso empreendimento.

Os três se cumprimentaram e Trevor olhou em volta, ansioso por saber se o dono da GER chegaria em breve.

— Adorei a Sports Company, Sr. Coleman! Comprei muitos presentes e artigos esportivos lá nos últimos meses. — Trevor disse sorrindo. — Os preços são incríveis comparados à Qualidade Quadribol e às lojas esportivas do mundo trouxa.

— Me chame de David, cara, sou apenas alguns anos mais velho que você e essa história de senhor é bem esquisita. — David disse divertidamente. — A SC é meu bebê, cara, e estou muito feliz lá, mas esse projeto do garoto é especial, sabe como é? Por isso estou aqui, quero ajudar no que puder, mesmo que seja como consultor.

— Garoto? — Trevor perguntou confuso e imaginando que projeto era esse que precisava de um consultor.

— Sim. — Falc informou levemente. — Ele ficou preso depois do almoço em uma conversa com a Chefe Rosa, mas já estará aqui, Trevor.

— Ok. — Trevor disse tentando agir como se nada de mais estivesse acontecendo.

— Acredita que ele ficará feliz com o que conseguimos? — Perguntou Diane ansiosamente.

— Avançamos muito mais rápido do que o esperado, assim, acredito que... — A porta se abriu, interrompendo Falc, e Sirius Black entrou, seguido por um sorridente Harry Potter.

— Oi, Trevor! — Harry disse se aproximando da mesa, e, ignorando o espanto do amigo, cumprimentou David e Diane antes de acrescentar: — Se você está aqui, acredito que a sua entrevista com a Rebecca foi boa, o que é ótimo, pois temos muito o que fazer.

— Eu... Harry? O que...? — Trevor balbuciou confusamente, com os olhos arregalados.

— Eles não lhe disseram que você conheceria o dono da GER? — Harry perguntou malicioso e Trevor acenou, boquiaberto. — Bem, aqui estou, prazer em conhecê-lo, Sr. Pickford. — Ele falou com voz mais formal e estendeu a mão para cumprimentá-lo.

— Mas... o que... — Trevor estendeu a mão automaticamente e Harry a balançou antes de se sentar à mesa. — Não entendo...

— Simples, Trevor. — Harry disse mais seriamente. — Depois que infiltramos os alunos excluídos nas aulas extras, eu pensei que deveríamos usar a mesma estratégia no resto do mundo mágico. Por isso o Beco foi reconstruído e novas lojas criadas, além dos milhares de empregos gerados direta e indiretamente. A GER, Grupo Empresarial Revel, que significa "rebelde", é a responsável por todo esse trabalho brilhante. Ela é uma empresa da família Potter e foi idealizada por mim, portanto, o dono da GER, que todo mundo está curioso e especulando sem parar, sou eu.

Trevor o ouviu ainda de boca aberta de espanto, e ignorou as expressões divertidas ao redor enquanto absorvia a verdade.

— Quer dizer... — Ele fechou a boca, mas ainda se sentia desorientado. — Que você é o dono de todas essas lojas, do hotel, e fez essa reforma incrível no Beco?

— Sim, mas eu não sou o dono absoluto de todos os novos negócios. — Harry disse, e explicou sobre a sociedade com cada um dos bruxos que administrava as lojas. — Essa lei foi descoberta por Sirius e o Sr. Falc, assim conseguimos usar uma das suas leis discriminatórias para realizar os nossos planos. E agora colocaremos o projeto do meu pai em movimento também.

— O quê? — Trevor arregalou os olhos e quase se levantou da cadeira. — É por isso que estou aqui? Você quer que eu trabalhe nas ideias do seu pai para a Liga? — Harry acenou com um sorriso. — Por que não me disse? Eu estava chateado por não poder trabalhar nessa área e te ajudar.

— Primeiro, porque você ainda não tinha assinado o acordo de confidencialidade, e segundo, porque assim é mais divertido. — Harry disse com um grande sorriso e Sirius gargalhou.

— Meu afilhado adora um mistério, Trevor, mas não se preocupe, você se acostuma. — Sirius disse com uma piscadela. — Bem, o que temos até agora?

— Iniciamos a primeira etapa. — Falc disse olhando na direção da Diane.

— Como a corretora da GER, eu estive especulando os acionistas dos times de quadribol da Liga Inglesa e Irlandesa. — Diane atendeu à deixa. — A ideia inicial era agitar o mercado e o mundo esportivo, espalhando o boato que a GER está interessada em ser dona de parte de um time profissional de quadribol. Nosso foco, claro, são as ações dos Kestrels de Kenmare, mas, ao mostrar interesse em outros times, mostramos que não temos um time preferido, e isso nos dá vantagem.

— Acredita que conseguirá algumas ações em breve? — Harry perguntou ansioso e Diane sorriu orgulhosa.

— Eu já consegui, chefe. — Ela disse, divertida, e Harry arregalou os olhos. — Uma boa corretora vende ou compra qualquer coisa e eu me considero muito mais do que apenas boa, assim, meu primeiro movimento foi me aproximar dos acionistas menores e que pouco ou nenhum interesse têm em um time de quadribol. — Ela pegou uma pasta e entregou ao Harry. — Haviam dois acionistas com 3% do time cada um, eles receberam as ações como heranças matrimoniais e sempre as viram como uma renda a mais. Acredite, os dois ficaram muito felizes com a chance de receber o dinheiro total das ações, e não os 3% dos lucros anuais, que era um trocado em comparação a isso.

— Isso quer dizer que temos 36% do time! — Harry exclamou animado. — Tem mais acionistas?

— Menos do que esperávamos, Harry. — Falc informou. — Bob Willians tem 15% e Goodie MacCorcoran tem 49%, o que quer dizer...

— ...Que, se Willians nos vender as suas ações, seremos os acionistas majoritários! — Harry disse empolgado.

— Espera... — Trevor havia fechado a boca, mas ainda encarava Harry com olhos arregalados de assombro. — Você pretende comprar um time de quadribol?

— Sim. — Harry acenou ansioso. — Você se lembra das ideias do meu pai para a Liga de Quadribol? — Trevor acenou. — Bem, estamos colocando-as em prática, começando com a compra do antigo time da família O'Hallahan, que foram os fundadores dos KK, e é a família da minha avó, Euphemia.

— Uau! — Trevor se inclinou empolgado. — Então, você é o herdeiro dos O'Hallahans! Incrível! Mas como conseguirão que Willians e MacCorcoran vendam suas ações?

— Bem, temos uma estratégia. — Diane disse sorrindo, e Harry pensou que ela parecia mais feliz do que quando a conheceu. — Essas são ideias do Harry, aliás, e comprar as ações daqueles mais vulneráveis ou pouco interessados no time foi o primeiro movimento. Agora, deixamos vazar a informação de que o dono da GER, depois de uma disputa acirrada entre vários times, decidiu comprar ações dos KK, pois eles oferecem uma grande oportunidade de crescimento, e porque ele achou que seria divertido se envolver com o mundo dos negócios do quadribol.

— Isso agitará ainda mais as coisas! — Trevor disse de olhos arregalados. — Goodie MacCorcoran é conhecido por ser implacável, mas Bob Willians é um perdulário! Está sempre endividado e, na verdade, ele tinha mais ações e as vendeu para Goodie para pagar as dívidas. Aposto que, se aparecerem com uma proposta melhor do que a do Goodie, vocês conseguem os 15%!

— Nós já o abordamos e ele não se mostrou interessado em vender, mas, se ele estiver endividado, podemos aumentar um pouco a oferta e pressionar mais. — Sirius disse com um sorriso malicioso.

— Hum... Bob é conhecido por gostar de se mostrar para os fãs, jornalistas e patrocinadores no seu camarote oficial, assim, se vocês oferecerem que o camarote continuará sendo dele, sem custos, aposto que seus olhos brilhariam de interesse. — Trevor disse pensativo e Diane fez algumas anotações. — Eu só não entendi como as ações serão do Harry se ninguém pode saber que ele é o dono da GER? — Trevor perguntou, e sorriu quando todos na mesa sorriram maliciosamente, obviamente confiantes em seu plano.

— Depois que conseguirmos as ações do Willians, a GER anunciará que o seu dono enjoou do quadribol e se desinteressou pela ideia de investir nessa área. — Diane acrescentou. — Podemos até usar esse momento para lançar críticas à maneira como a Liga é conduzida, talvez uma entrevista secreta com o dono da GER, que apontará as falhas e o motivo para a sua desistência.

— Então, eu comprarei as ações da GER e presentearei o meu afilhado, Harry Potter, cujos antepassados foram os fundadores dos KK. — Sirius encerrou, sorrindo orgulhoso.

— Isso é brilhante! — Trevor disse e olhou para o amigo. — Quando você disse que queria mudar o mundo mágico, não estava brincando, meu amigo!

— A GER é algo incrível, Trevor, que eu idealizei em homenagem aos meus pais e a todos que morreram na guerra, mas que não foram devidamente honrados. — Harry disse, e todas as expressões ficaram solenes. — Ajudar aos discriminados, todos os seres mágicos que são segregados de maneira tão cruel e injusta é a nossa maior batalha nessa guerra. No entanto, meus pais tinham projetos e sonhos pessoais que nunca tiveram a oportunidade de realizar. — Trevor acenou emocionado, ao lembrar do caderno de anotações de James Potter e como lamentou que alguém tão brilhante se foi tão cedo. Harry perdeu o seu pai, mas o mundo perdeu um dos mais talentosos bruxos que já existiu. — Amanhã, eu iniciarei os primeiros passos do projeto pessoal da minha mãe, e espero conquistar uma vitória importante, mas o meu pai queria exatamente isso que estamos fazendo. A compra dos KK, a reformulação revolucionária e justa da Liga Inglesa e Irlandesa de Quadribol e o desenvolvimento dos esportes em nossa sociedade. Quero que faça parte desse projeto, Trevor, desde o começo, pois você é alguém em quem eu confio e com talento para nos ajudar.

Trevor apenas acenou bobamente, pois a emoção não lhe permitia falar. Por fim, pigarreou e tentou se controlar, pois não queria parecer um idiota, e respondeu:

— Nada me deixaria mais feliz. — Trevor disse. — Eu não sei o que exatamente você quer que eu faça, mas, seja o que for, estou dentro.

— Trevor, pensamos que você deveria ganhar experiência enquanto inicia a Universidade de Medicina. — Falc disse e apontou para o Sirius. — Sirius pretende abrir uma academia, onde haverá exercícios físicos, mágicos, lutas marciais, danças e diversas outras atividades sendo oferecidas para os clientes.

— Harry disse que você está treinando física e magicamente, então pensei que poderia começar a trabalhar na academia como assistente dos professores que contrataremos. — Sirius explicou e Trevor voltou a ficar boquiaberto e acenar. — Obviamente, poderemos encaixar os seus horários para que não atrapalhe a faculdade e, no futuro, com mais experiência, você assumirá algumas aulas como professor titular.

— No entanto, esse período é para você aprender a profissão de educador físico, médico esportivo, fisioterapeuta ou qualquer área em que pretenda trabalhar depois da faculdade. — Harry disse. — Quando finalmente tivermos o controle dos KK e reformularmos o centro de treinamento deles, gostaria muito que você viesse nos ajudar com esse projeto. Acredito que, se formos campeões da Liga e mostrarmos que as mudanças que fizemos e a profissionalização do time, da comissão técnica e médica nos ajudou a alcançar isso, inspiraremos outros times. A intenção final é que nos unamos como uma Liga independente do Ministério e controlemos o campeonato, como o meu pai projetou.

— Acredito que, quando isso acontecer, os KK serão fortes e poderosos o suficiente para convencer os outros times a se unirem e exigirem do Ministério as mudanças que a Liga precisa. — David disse. — Eu trabalhei no Departamento de Quadribol, cara, o lugar é um lixo e eles tratam a Liga como o seu parque de diversões particular, sabe como é? — Trevor acenou. — Esse projeto é um pastel de abóbora, sabe como é? E, se não fosse a loja, eu estaria trabalhando nele noite e dia, mas eu amo o meu bebê, cara, e coloquei toda a minha grana lá. Mesmo assim, eu ajudarei como consultor, e desde já digo que podem contar comigo, pessoal.

— Eu quero ser médico esportivo, mas farei qualquer outra função que você precisar. — Trevor disse fervorosamente. — Prometo estudar e aprender muito, me dedicarei 100% e agradeço a confiança e apoio, Harry. E, bem, saiba que você não está realizando apenas os sonhos do seu pai, irmão. — Ele se levantou e estendeu a mão para o Harry em um cumprimento formal e emocionado.

— De nada, irmão. — Harry disse sorrindo. — Bem, vamos começar, os próximos passos serão os mais importantes e qualquer ideia é bem-vinda...

A reunião foi extremamente proveitosa e, rapidamente, todos perceberam porque Harry queria contratar o Trevor. O garoto era jovem, mas entendia todos os aspectos do mundo esportivo, desde treinamentos, táticas de jogo, trabalho em equipe, empresários, olheiros, peneiras, centros de treinamento físico, ligas infantis e juvenis, premiações, patrocínios, propagandas e gerenciamento esportivo. Para cada questão, Trevor tinha informações e mais informações, exemplos do mundo trouxa, erros cometidos na Liga de Quadribol e maneiras de adaptar as boas ideias do futebol trouxa e tornar o campeonato de quadribol mais competitivo, interessante e lucrativo.

As anotações de James eram muito inteligentes e abrangentes, mas estavam defasadas e não tinham o aspecto trouxa, assim, eles as mantiveram como o norte, mas planejaram novos caminhos e estratégias para os meses seguintes.

Ao fim da reunião, todos se mostraram empolgados e satisfeitos, pois tinham a sensação de que estavam no caminho certo e tinham uma boa equipe.

— Então, todo esse tempo, com todo mundo especulando sobre quem é o dono da GER, as meninas discutindo se é um homem ou uma mulher, e você é o misterioso grande empresário! — Trevor disse divertido e ainda levemente chocado. — Cara! As meninas do Covil vão pirar quando souberem a verdade!

Harry riu meio envergonhado, meio divertido.

— Bem, elas não saberão tão cedo, meu amigo. — Harry disse sorrindo.

— Por que o mistério, Harry? — Trevor perguntou levemente confuso. — Quer dizer, o que você tem feito é incrível! Os empregos para os nascidos trouxas com salários justos, sociedades com pessoas discriminadas pelo Ministério, todas essas novas lojas com produtos que os bruxos estão descobrindo e adorando... Acho que, se soubessem que você é o responsável, tudo o que receberia seriam elogios.

— A verdade é que quero um pouco de paz, Trevor. — Harry disse pensativo. — Você sabe que precisamos nos preparar para a guerra, eu preciso treinar e me concentrar em ser um grande duelista. Ao mesmo tempo, eu quero tentar ter alguns momentos normais em minha vida, ser apenas um adolescente e me divertir. — Ele deu de ombros. — Quando participo de algumas reuniões, são apenas algumas horas aqui ou ali, mas, se todos soubessem que eu sou o dono da GER, provavelmente seria abordado o tempo todo. Perguntas, comentários positivos e negativos, sem falar das reuniões em que o Edgar comparece e aí seria exigida a minha presença pelos clientes ou possíveis associados.

— Porque muitos iriam querer negociar com Harry Potter. — Trevor disse, e acenou ao imaginar o seu amigo, que já tinha tantas responsabilidades, sendo obrigado a ser um empresário em tempo integral. — Bom que você tem uma equipe para cuidar de tudo, mas aposto de ainda faz muitas coisas.

— Na verdade, eu apenas participo de reuniões para ser informado do que está acontecendo, assim tomo algumas decisões e acrescento novas ideias, o resto é feito por eles. — Harry disse, e olhou com orgulho para a equipe que trabalhava zunindo como moscas de um lado para o outro. — Eu tenho sorte, recebi o apoio do Sirius, dos Boot, e formamos uma equipe incrível, assim posso me concentrar nos estudos e treinamento.

— E nas garotas. — Trevor provocou brincalhão, e Harry corou arregalando os olhos.

— O... quê? Como assim? — Ele gaguejou surpreso.

— Ora, Harry, você fará 13 anos em breve, meu amigo, e eu percebi que esteve olhando com muita atenção para uma certa ruiva. — Trevor disse e lhe deu um empurrão amigável.

Harry corou ainda mais, se perguntando se era tão óbvio e como explicar que olhava muito para Ginny porque se preocupava com ela depois de tudo o que passou, afinal, Trevor não sabia nada sobre o diário.

— Bem, somos amigos e muito jovens... — Ele deu de ombros, tentando aparentar indiferença, mas sem muito sucesso. — Não sei bem como me sinto ou como deveria me sentir... hum... apenas gosto de estar perto dela e conversar...

— Esse é o começo, meu amigo. — Trevor disse. — Diga-me, você já sentiu uma quentura no corpo quando ela está por perto? Ou um frio na barriga quando toca a mão dela? — Harry arregalou os olhos, surpreso com a descrição precisa, e acenou silenciosamente. — Exato, isso mostra que o seu corpo gosta dela também, e isso é bom. Vocês são jovens agora, mas, em um par de anos, se continuar a se sentir assim e ela também gostar de você... — Trevor sorriu com certa malícia.

Harry corou ainda mais e sentiu aquela quentura estranha percorrer o seu corpo enquanto pensava no que poderiam fazer em um par de anos. Se ela aceitasse serem mais que amigos, Harry poderia beijá-la, pensou, e seu olhar se tornou levemente sonhador quando pensou em encostar sua boca na dela. Um pigarro o trouxe de volta à realidade, e Harry conseguiu ficar ainda mais vermelho.

— Você está perdido, meu amigo, totalmente. — Trevor disse divertido. Harry apenas suspirou aceitando essa verdade e nem um pouco chateado com isso.

— Bem, e você com a Penny? — Ele decidiu virar o jogo. — Já a convidou para sair?

Trevor fez uma careta e colocou as mãos no bolso.

— Nós fomos como amigos na festa do Slughorn, e pensei que, se desse tudo certo, eu a convidaria para sairmos na próxima visita a Hogsmeade, sabe, como algo mais.

— Mas Percy apareceu. — Harry disse franzindo o cenho.

— Sim. Poxa, Harry, eu perdi a cabeça com as coisas que ele disse para a Penny e dei um soco naquela cara arrogante. — Trevor contou. — Eu peguei detenção, meu pai me deu uma bronca daquelas e aposto que a Penny não quer me ver nem pintado de ouro.

— Bem, se vale como consolo, o Percy também está todo enrascado. E sobre a Penny, acho que não deveria supor que ela está zangada com você. — Harry disse, e apontou para a garota que caminhava pela porta da sala de reuniões em direção a eles. — Na verdade, acho que é o contrário.

— Trevor! — Penny exclamou sorridente. — Você conseguiu o emprego! Eu sabia que conseguiria!

— Penny! Oi! — Trevor sorriu meio bobamente. — Eu consegui! Obrigado por sua ajuda, Penny, eu não conseguiria sem você, sinceramente.

— Bobagem! — Penny corou levemente. — Você conseguiu a vaga por seus próprios talentos e sabe disso. — Isso fez Trevor corar dessa vez e Harry sorriu divertido.

— Ei, Penny. — Ele disse suavemente. — Eu estava prestes a chamar o Trevor para irmos fazer um lanche, você quer vir conosco?

— Oh, sim! Acho que posso tirar uma meia horinha de folga. — Disse Penny sorrindo. — Hoje estive ajudando a Rebecca com as seleções dos funcionários da Fábrica de Cosméticos, mas estamos bem adiantados.

— Que bom. — Harry sorriu e deu uma piscadela ao Trevor enquanto eles deixavam a sala de reuniões. — Estou louco por um sanduíche de frango, cenoura e queijo branco da Adélia.

— Sim! E o suco de romã com amora! Uma delícia! — Ela segurou o braço de Trevor sem perceber o que fazia. — Trevor, você precisa experimentar os sucos naturais da Coffee & Life! São perfeitos e... — Penny continuou falando animadamente, e Trevor sorriu mais fortemente ao caminhar ao seu lado.

Harry passou o resto da tarde e à noite com Ayana e Adam, decidido a dedicar tempo e carinho aos dois. Sua irmã estava mais madura depois de tudo o que aconteceu nos últimos meses. Ela parecia menos exigente e mimada, ainda que não tivesse perdido a sua curiosidade infinita em aprender tudo e se desafiar. Enquanto conversavam, Ayana estava sempre falando sobre como não via a hora de ir para Hogwarts, jogar quadribol, aprender a duelar e correr pela Floresta Proibida.

— Ai, queria tanto ter nascido em agosto, não em setembro. — Ela disse lamentando. — Assim, eu estaria indo para Hogwarts no ano que vem.

— Acho que é perfeito assim. — Harry disse suavemente, enquanto eles voavam baixo no jardim da mansão. — Adam precisa de você agora e ele ficaria muito solitário se não tivesse a sua companhia.

Isso a fez parar e olhar para o chão, onde Adam pintava e jogava xadrez com Terry.

— Eu não quero deixá-lo. — Ela confessou. — E se outro homem mau o sequestrar?

— Seus pais irão cuidar de vocês dois. — Harry disse suavemente. — Você tem tido pesadelos?

Ayana fez uma careta e deu de ombros, ela não gostava de falar disso.

— Às vezes.

— Eu também tenho pesadelos às vezes. — Harry confessou.

— Tem? — Ayana arregalou os olhos surpresa ao encará-lo. Harry parecia sempre tão forte.

— Sim. E, muitas vezes, eu tenho medo. — Harry acrescentou.

— E como você faz para dormir? E para deixar de sentir medo? — Ayana perguntou ansiosa.

— Para dormir, eu medito, exercito a oclumência e a conexão com a magia natural. Sobre o medo, ele nunca passa, Ayana, eu apenas me concentro em sentimentos bons. — Harry disse lentamente.

— Quais?

— Amor. — Ele sussurrou. — Você não consegue sentir o amor dos seus pais? Seus irmãos? Seus avós?

— Eu... sim. — Ayana disse e sua expressão ficou triste. — Mas não sinto mais o amor da vovó Honora.

— Bem, tenho certeza que ela está sempre com você. — Harry disse. — Apenas se permita sentir e se conectar, Ayana, não resista ou tenha medo.

A garota acenou pensativa e prometeu tentar mais.

Com o Adam, Harry jogou xadrez e conversou por horas, interpretando, por seus gestos e caretas, as palavras que não conseguia dizer com a sua voz. Adam se mostrava cansado e frustrado por não conseguir falar ou entender por que sua voz desaparecera. Ele não estava mais indo à escola trouxa, que teve tanta ansiedade para começar, e não brincava mais com seus amiguinhos. Agora, ele ficava preso em casa ou no jardim da Mansão, e sentia muita falta do bosque do Chalé, onde não esteve desde o sequestro.

Adam lhe contou que detestava as aulas de Libras e as sessões de terapia, pois não queria aprender a linguagem de sinais, queria falar com a sua voz. A terapia era ainda mais irritante, pois todos ficavam lhe fazendo dezenas de perguntas, querendo saber o que ele pensava e sentia, mas não era da conta de ninguém.

— Bem, todos estão tentando te ajudar, e, se você recusar essa ajuda, será mais difícil ficar melhor. — Harry disse, entendendo a sua frustração. Adam gesticulou sem parar e mostrou frustração, raiva e mágoa. — Ok. Eu realmente não entendo o que você passou, mas é por isso que você deve tentar se abrir, assim podemos entender e te ajudar. — O garoto de rosto de anjo gesticulou, suspirando. — Bem, se você não sabe por que não consegue falar, deve tentar descobrir, Adam. Era você que estava naquele lugar com o Greyback... — Adam estremeceu. — Foi você que foi sequestrado e sentiu todo aquele medo e terror, então preste atenção e tente compreender.

Adam acenou pensativo e lhe deu um abraço, depois agradeceu pelo Harry não lhe fazer perguntas.

— Você já sabe as perguntas, irmão, agora, se concentre e encontre as respostas. — Harry sussurrou contra o seu cabelo, e Adam acenou contra o seu peito.

Na quarta-feira, Harry se sentia ansiosamente nervoso, se é que esse termo existia. Ele acordou cedo, correu mais do que o normal e ainda mais rápido, mas seu corpo parecia estar ligado a uma rede de energia elétrica poderosa, pois ele não conseguia ficar mais do que um minuto parado. Ffrind correu com o Harry e, assim que voltaram, ele bebeu todo o pote de água e deitou exausto, lançando ao seu dono um olhar contrariado.

Harry ainda preparou um café da manhã gigantesco, mesmo que o apetite lhe fugisse, como sempre acontecia quando estava tão ansioso. Sirius veio buscá-lo às oito horas e Harry o esperava na porta, pois era impossível esperar tranquilamente sentado.

— Você está atrasado. — Harry o repreendeu.

— Apenas três minutos... — Sirius parou quando Harry segurou seu braço com firmeza. — Espera, me deixe ao menos cumprimentar a sua tia e o Duda...

— Depois, Sirius. Agora temos que ir, quero estar lá bem cedo. — Harry disse, e esperou que o padrinho aparatasse.

— Ok. — Sirius franziu o cenho para a sua óbvia ansiedade e os aparatou para o beco onde ficava a entrada dos visitantes do Ministério da Magia. — Ei, você sabe que existe uma chance de perdermos, certo?

— Sim, sim. O Sr. Falc me explicou que não é certeza que venceremos o processo em primeira... Como se diz? — Harry entrou na cabine estreita.

— Primeiro Tribunal ou primeira instância. — Sirius respondeu enquanto digitava o número de acesso dos visitantes. — Você não terá problemas em entregar a sua varinha hoje, certo? — Ele perguntou, quando se colocaram na fila de revistas dos visitantes.

— Não. — Harry suspirou com uma careta. — Isso é um absurdo, mas compreendo a questão de segurança.

Sirius apenas acenou e, então, era a vez deles.

— Sr. Potter! — O Sr. Eric, que tinha a expressão entediada de sempre, se endireitou e arregalou os olhos de animação ao reconhecê-lo. — Um prazer revê-lo, Sr. Potter!

Suas palavras foram um pouco altas e chamaram a atenção de algumas pessoas na fila ou que já estavam do outro lado da entrada. Harry apertou a mão do Sr. Eric, tentando ignorar os olhares e sussurros.

— Prazer em encontrá-lo outra vez, Sr. Eric, mas me chame de Harry, por favor. — Ele disse suavemente.

— Ora, me chame de Eric. — Disse o homem sorridente. — Meu garoto, Eddie, ele é um Hufflepuff do primeiro ano e me disse que o senhor é o melhor jogador de quadribol de Hogwarts!

Harry sorriu e lembrou-se do garoto magricela, de nariz fino e sobrancelhas grossas; infelizmente, o menino era a cara do pai.

— Eu me lembro dele, Eric. — Harry disse. — Quando jogamos contra os Slytherins, Eddie e seus amigos torceram muito por nós.

— Oh! Você se lembra dele!? — Eric parecia muito animado e orgulhoso, até endireitou os ombros para parecer mais alto. — Harry Potter lembrou do meu garoto! Eddie não acreditará quando eu contar.

Harry tentou não fazer uma careta para a sua atitude, apenas sorriu gentilmente e lhe entregou sua varinha.

— Não causarei problemas hoje, Eric, mas cuide bem da minha companheira.

— Sim, sim, não se preocupe, ela não sairá da minha vista! Eu prometo! — Ele disse, e, depois de verificá-los, recolher suas varinhas e guardá-las, liberou o caminho com formalidade, como se estivesse recebendo alguém importantíssimo. — Até mais! Bons negócios no Ministério, Sr. Potter!

— Ele me chama de Sr. Potter em tom alto assim para se exibir, não é? — Harry perguntou ao Sirius quando se aproximaram dos elevadores.

— Sim. — Sirius respondeu, segurando com dificuldade a vontade de gargalhar. — Eric deve ter o trabalho mais tedioso do mundo, e se encontrar com Harry Potter foi o ponto alto dos seus longos dias naquele lugar. Além disso, ele ainda pode se exibir para os colegas, amigos e familiares depois. — Eles entraram no elevador com alguns outros bruxos que pareciam apressados ou distraidamente sonolentos. — O fato de você se lembrar do filho dele será repetido incontáveis vezes até o menino alcançar outro grande feito. Talvez, quando lhe der um neto.

— Você está se divertindo muito, querido padrinho. — Harry disse meio chateado.

Sirius não se aguentou e soltou uma gargalhada rouca que fez o homem sonolento ao lado deles pular de susto.

— Desculpa, mas acho que é impossível não me divertir quando alguém estende o tapete vermelho para o Sr. Potter. — Sirius disse, com os olhos cinzas brilhando maliciosamente.

— Merlin, não diga algo assim em voz alta ou alguém pode ter a ideia de fazer isso na próxima vez. — Harry sussurrou apressadamente, o que fez Sirius rir ainda mais.

Eles chegaram à área dos Tribunais, mesmo local onde aconteceu a decisão da guarda do Harry no ano anterior. O Sr. Falc já os esperava, e, pouco depois de se cumprimentarem, a Sra. Clark também chegou, se mostrando tão elegante e bonita como sempre.

— Galanteador. — Ela respondeu sorridente quando Harry a elogiou. — Ansioso?

— Muito! — Harry suspirou e moveu os ombros tensos. — Espero que dê tudo certo, Sra. Clark, assim poderemos começar a impressão dos livros imediatamente.

— Esse é um pensamento otimista. — Ela disse levemente hesitante. — Você está tão otimista, Falc?

— Sinceramente, acredito que poderemos ter mais sucesso no segundo ou terceiro Tribunal, Sra. Clark, Harry. — Falc disse seriamente. — Essa é uma questão polêmica, e são poucos os juízes que terão coragem de se envolver em algo que promete gerar discussão. Se tivermos sorte, o juiz nos permitirá abrir um precedente, pois estamos dividindo nosso pedido em duas partes.

— Como assim? — Harry perguntou confuso.

— Bem, solicitamos que os livros não sejam taxados além das taxas e impostos normais, e nossa argumentação é de que as leis de liberdade de expressão e de publicação, que permeiam o nosso mundo democrático, vieram antes das leis tributárias abusivas. — Falc explicou e Harry acenou, pois entendera essa parte. — Também solicitamos que essa medida se torne permanente e abranja todas as publicações do mundo mágico. Isso é algo um pouco mais ambicioso, mas não poderíamos ser egoístas e individualistas em lutar apenas pelo nosso projeto.

— Isso é brilhante! — Harry acenou entusiasmado.

— Realmente é um movimento incrível, Falc, e muito generoso da sua parte. — Sra. Clark apertou seu braço com carinho.

— Sim, mas também muito ambicioso, Sra. Clark, e essa é a nossa estratégia. — Falc disse. — Pedimos mais e conseguimos menos, mas isso nos abre uma porta, por assim dizer, e, a partir disso, poderemos avançar e conquistar essa justa causa.

Suas palavras eram esperançosamente otimistas, mas se mostraram infrutíferas, pois o juiz Gorgon Melíflua não se mostrou nem disposto a ouvir o seu justo e inteligente argumento.

— O senhor me toma por tolo, advogado? — Ele questionou, ao se sentar e jogar a pasta do processo sobre a sua mesa. — Eu não tive que ler todo esse pedido absurdo para compreender a sua jogada maliciosa.

Harry, sentado em uma cadeira encostada à parede, com Sirius ao seu lado, observou como o Sr. Falc e a Sra. Clark se endireitaram, preparados para a luta. Eles se sentavam em cadeiras paralelas à mesa do juiz e, na frente deles, um dos promotores do Tribunal de Justiça sorriu com arrogância e leve tédio, pois sabia que a causa era ganha, sem que ele precisasse abrir a boca.

— Excelência, nossa intenção não é de todo maliciosa, e sim a de corrigir uma injustiça. — Falc argumentou respeitosamente. — Se me permitir, Excelência, eu lhe exporei os fatos de maneira bem clara, e o senhor poderá compreender que nosso pedido está bem fundamentado em leis ant...

— Isso pouco me importa, advogado. — Melíflua o interrompeu bruscamente. O homem era alto como um caniço, com um bigode grisalho que o deixava com uma expressão ainda mais severa, e Harry detestou o homem assim que ele abriu a boca. — Seus argumentos pouco interessam diante do fato de que você e seus clientes estão tentando desacatar decisões da Suprema Corte. O senhor pode até ter a ilusão de que está embasado em algum conto de fadas de luta por justiça e igualdade, mas a realidade é bem diferente. — Ele fez uma pausa para tomar fôlego e Falc tentou argumentar:

— Vossa Excelência...

— Eu ainda não terminei. — O juiz disse com frieza, e Falc se calou respeitosamente. — A realidade, advogado, é que a vida não é justa ou igual, e nem deveria ser, pois alguns merecem mais do que outros. Além disso, o senhor e seus clientes estão tentando pisotear uma lei criada para sustentar este Ministério e proteger as nossas tradições de pensamentos vulgares e corruptíveis. Se qualquer um puder escrever e publicar o que quiser, onde irá parar o nosso mundo? — Dessa vez, Falc não tentou falar, pois era claro que o juiz já dera a sua resposta. — Algo a acrescentar, promotor?

— Não, senhor. O meu argumento não poderia ser melhor. — O homem sorriu bajulador e o juiz se levantou.

— Bem, então, não percamos mais tempo com tolices. O pedido está negado. — Ele se levantou para deixar a sala e Harry se levantou em um ímpeto. Sirius tentou segurá-lo, mas o afilhado foi mais rápido.

— Excelência, eu sou Harry Potter, senhor. — Harry estendeu a mão mostrando um sorriso frio, os olhos brilhando como fogo verde.

— Senhor Potter. — O homem ficou desconcertado por um segundo, antes de recuperar a compostura e lhe apertar a mão formalmente.

— Diga-me, Excelência, o senhor não leu o nosso pedido, então imagino que também não se deu ao trabalho de ler o livro da minha mãe. — Harry ergueu a sobrancelha e viu o homem se mostrar levemente desconfortável. — Um livro que ela fez com toda a sua dedicação e brilhantismo, com a intenção de auxiliar os jovens alunos a se apaixonarem pelas aulas de Poções, assim como ela se apaixonou um dia.

— Sr. Potter, minha decisão é definitiva...

— Eu não terminei. — Harry o interrompeu e seu sorriso se tornou mais amplo, sua postura era arrogante, mas elegante, e deixaria o próprio Voldemort com inveja. — Eu entendi seus argumentos retrógados e preconceituosos, apenas queria lhe dizer que a heroína do mundo mágico merece pelo menos que o senhor realize o seu trabalho com o mínimo de competência, Excelência, antes de desprezá-la assim. — Sirius e Falc se aproximaram, claramente com a intenção de contê-lo ou calá-lo, mas Harry se afastou dos seus toques enquanto tentava controlar a raiva. — Lembre-se disso em nosso próximo encontro, e saiba que eu não me esquecerei.

— O senhor ousa me ameaçar!? — Ele disse, vermelho de fúria.

— Claro que não, Excelência. — Falc tentou contemporizar. — Meu jovem pupilo está apenas...

— Eu não o ameacei, Excelência. — Harry disse mais alto que Falc. — Se tivesse, com certeza o senhor saberia, acredite.

— Harry! — Falc segurou seu ombro com força, tentando afastá-lo do juiz e levá-lo para fora da sala.

— É melhor sairmos. — Sirius disse e Falc acenou, mas Harry não tinha terminado.

— Excelência, tenho uma entrevista amanhã, espero que não se importe de me dizer o seu nome inteiro, assim posso dizê-lo com clareza para o repórter do Profeta e também na rádio bruxa. — Harry viu o homem empalidecer e sorriu ainda mais, lhe dando uma piscadela. — Viu? Eu não disse que o senhor saberia?

— Se você pensa que pode vir...

Mas Harry tinha finalmente terminado e não hesitou em lhe virar as costas, ignorando suas palavras de maneira bem desrespeitosa e saindo do Tribunal.

Todos os quatro deixaram o Ministério apressadamente. Harry apenas acenou para um sorridente Eric, que pareceu perceber que algo ruim acontecera, por suas expressões sombrias, e apenas se despediu gentilmente ao lhes entregar suas varinhas.

Eles usaram o flu para o prédio da GER e subiram até os Escritórios Black. A Sra. Clark os seguiu automaticamente, meio divertida e desconcertada com tudo o que acontecera, enquanto Harry tentava controlar toda a fúria que sentia. Aquele homenzinho purista e desprezível! Ele andou de um lado a outro do escritório, mas se interrompeu quando o Sr. Falc se colocou à sua frente.

— O que você estava pensando!? — Ele disse zangado.

— Não ficou óbvio? Eu estava pensando que aquele homem horroroso, malditamente purista, desgraçadamente... — Harry perdeu o fôlego de fúria.

— Não importa o que ele é! Você não desacata desta maneira um juiz em seu Tribunal! Jamais! — Ele disse, mas Harry não percebeu que estava em apuros.

— Desacatar! Eu não fiz nada! Apenas o cumprimentei e lhe dei uma cutucada! Ele teve muita sorte, porque a minha vontade era esganá-lo! — Harry bateu o pé no chão e apertou os punhos. — Como ele ousa tratar o trabalho da minha mãe daquela maneira!? Desprezar, menosprezar, ignorar, como se o que ela fez não fosse importante!

— Chega! — Falc disse em tom mais forte. — Contenha-se, Harry! Você está passando dos limites, além do que já fez.

— Eu não fiz...

— Eu disse chega. — Ele repetiu e sua expressão não admitia negociação. Harry franziu o cenho e o encarou contrariado, além de levemente confuso. — Nós lhe damos muita liberdade, Harry, porque confiamos e reconhecemos o seu brilhantismo, mas não aceitarei que se comporte assim. Não volte a me responder! — Falc disse quando Harry tentou argumentar mais uma vez. — Não importa o quão certo você acredita que está, Harry, a partir do momento em que se comporta como um pirralho, você perde toda a razão. Existem regras, normas de conduta e leis que devem ser seguidas e respeitadas, porque é assim que se vive civilizadamente em uma sociedade. Imagine se todos que acreditam que estão certos ou sendo injustiçados decidissem desrespeitar ou ameaçar as pessoas!

— Mas aquele homem...

— Juiz Melíflua para você! E não me interessa ele ou sua incompetência, pois é você quem está sob a minha responsabilidade. — Falc continuou. — Você sempre deve tratar a todos com o respeito que lhe cabe, mesmo que seja em consideração ao cargo que ocupam! Algumas regras e normas não devem ser desconsideradas, não importa o seu argumento! Respeitar os mais velhos, um profissional ou empregado não deve nunca estar na dependência do seu humor ou julgamento! E, se voltar a me envergonhar dessa maneira, não permitirei mais a sua presença em momentos importantes como o de hoje. Entendeu?

Harry abriu a boca, meio chocado, e olhou para o Sirius, que o encarava levemente decepcionado. A Sra. Clark olhava pela janela, discretamente tentando não mostrar atenção à bronca que ele levava, mas isso não impediu Harry de ficar envergonhado.

— Eu perguntei se entendeu, Harry. — Falc voltou a falar.

— Não, eu não entendi. — Harry cruzou os braços e voltou a bater o pé, ainda mais zangado. — Eu estava defendendo o certo! Não importa o seu cargo, aquele homem não deveria ocupá-lo! O senhor age como se eu tivesse lhe lançado ofensas, xingamentos ou lhe agredido fisicamente! Não irei me sentir culpado por lhe mostrar que ele não passa de um... saco de bosta fedida!

Harry virou e se encaminhou para fora da sala, decidindo ficar longe para esfriar a cabeça.

— Volte aqui, Harry, ainda não terminamos. — Falc ordenou. Harry abriu a porta, olhou para trás e o encarou.

— Não me importa o que pensa, e pare de me dar ordens! Você não é meu pai! — Harry gritou e saiu da sala, batendo a porta violentamente.

Ele entrou no elevador e Sirius conseguiu alcançá-lo a tempo de descerem juntos.

— Fugir não resolverá nada. — Seu padrinho disse em tom neutro.

— Você está do lado dele! — Harry o acusou zangado.

— Posso ter minha própria opinião ou só posso concordar com você, Rei Harry? — Sirius disse sarcasticamente, e Harry fez uma careta de zanga. — Saco de bosta fedida é o melhor que conseguiu pensar? Não sei se estou mais decepcionado com isso ou com o seu comportamento no Tribunal.

— Eu não estou errado. — Harry cruzou os braços teimosamente.

— Ok. Vou lhe dizer apenas uma coisa. — Sirius disse quando as portas se abriram. — Você sabe que o que fez estava errado, e fugir da discussão não é nada inteligente, assim, estou começando a pensar que você foi para a casa errada.

Harry deu uns passos para fora do elevador antes de se virar para o padrinho, um tanto hesitante.

— Eu não sei o que querem de mim. — Ele disse amargo. — Vocês esperam que eu me comporte com mais responsabilidade e seja perfeito, mas como posso agir assim quando a cada passo que dou, nos encontramos com tipos como aquele? Posso ter saído da linha, sim, mas isso não significa que eu mereça ser tratado assim.

— Bem, se você pensa assim, então volte lá em cima e defenda a sua opinião. — Sirius disse. — Respeitosamente, porque, se agir como um pirralho mal-educado, será tratado como um.

Harry hesitou, depois suspirou, voltou a entrar no elevador e subir para o primeiro andar. Ao entrar na sala, encontrou Falc e a Sra. Clark conversando suavemente, mas eles ficaram em silêncio ao vê-lo de volta.

— Lamento ter sido desrespeitoso com o senhor, Sr. Falc, e mais ainda se o envergonhei, mas não lamento ter colocado aquela criatura em seu lugar. — Harry disse com firmeza. — Nós podemos não concordar sobre isso, e tudo bem, mas eu juro que me esforcei para não o desacatar, apenas quis lhe dar um cutucão, por assim dizer.

— Eu compreendo, mas você precisa entender que, dentro do seu Tribunal, um juiz é a maior autoridade, e todos devem respeitá-lo, não importa o homem que ocupa o cargo. — Falc disse severamente. — Você errou em abordá-lo sem ser autorizado e foi desrespeitoso, arrogante e ameaçador. Talvez, para vocês, que não são advogados, isso não seja importante, mas pense nos outros profissionais, Harry. Professores, curandeiros, aurores... reflita como seria se qualquer um pudesse abordá-los em seu local de trabalho e fazer o que você fez? — Harry abaixou a cabeça levemente envergonhado, ainda que uma parte dele não se arrependesse. — Ele poderia inclusive mandar prendê-lo por suas ações, ou, no caso, aos seus guardiões. — Isso fez Harry arregalar os olhos, chocado. — Imaginei que você não saberia disso. Como é menor de idade, o juiz estenderia a punição para o seu guardião, Harry, e ele poderia me dar dias ou meses em Azkaban. Compreende?

— Sim. Eu não sabia, sinto muito. — Dessa vez ele estava sendo totalmente sincero ao mostrar seu arrependimento.

— Eu realmente não sou o seu pai, mas sou um dos seus adultos, que tem a função de educá-lo, e espero que compreenda que não estou lhe dando ordens por autoritarismo. Além disso, eu sou seu advogado, e deixei bem claro que seria difícil conseguirmos qualquer coisa positiva hoje, expliquei que recorreríamos e que chegaremos à Suprema Corte se for necessário. — Falc disse. — Portanto, o seu comportamento foi absurdamente fútil e perigoso, completamente fora dos limites. E, por isso, você ficará de castigo.

— Castigo? — Harry ficou meio pálido e depois endureceu o queixo, pronto para lutar, porque, se Falc acreditava que poderia trancá-lo em seu quarto pelo resto das férias, bem, ele estava muito enganado!

— Sim. Amanhã, em sua entrevista, você não mencionará o juiz Melíflua ou o resultado do nosso pedido. — Falc disse, e Harry ficou surpreso com o castigo estranho. — Não deixarei que se vingue, e manteremos esse assunto bem discreto, como tínhamos combinado anteriormente. Se chegar o momento em que temos que envolver a imprensa, pensaremos nesse movimento com calma e inteligência, não como um impulso de raiva vingativa. Entendeu? — Harry acenou, sabendo que Falc estava certo. — Acredito que você deve desculpas a alguém por tê-la obrigado a presenciar o seu comportamento mal-educado.

Harry engoliu em seco e olhou envergonhado para a Sra. Clark.

— Sinto muito, Sra. Clark. Não é desculpa, mas eu fiquei com muita raiva e, quando isso acontece, o meu cérebro parece sair pela janela, sabe. — Ele disse suavemente e a encarou com seus doces olhos verdes, que a fez se perguntar se alguém conseguia lhe negar alguma coisa.

— Eu percebi. — Ela se aproximou e tocou o seu queixo carinhosamente. — Você tem um temperamento e tanto, Harry, além de ser muito jovem, e isso lhe dá menos autocontrole sobre as suas emoções. Também é compreensível se sentir ofendido com o saco de bosta fedida... quer dizer, com o juiz Melíflua, por suas palavras e indiferença. Você está defendendo alguém que ama e isso é muito doce da sua parte, mas você precisa aprender a ouvir os seus adultos e confiar neles, Harry, pois não tem como saber tudo.

Harry acenou outra vez, controlando a vontade de rir quando ela usou os seus "elogios" ao juiz, depois suspirou ao pensar em suas palavras, pois não sabia se, algum dia, conseguiria confiar completamente em alguém.

— O que faremos agora? — Ele se virou para o Sr. Falc. — Todos os juízes terão a mesma atitude?

— Dificilmente. — Falc respondeu. — Tivemos o azar de o juiz Melíflua julgar o nosso pedido. Um juiz não-purista teria ao menos lido o processo e ouvido nossos argumentos, mas, como eu disse, a possibilidade de conseguirmos vencer na primeira instância era pequena.

— E o que impede o juiz da segunda ou terceira instância negar também? — Harry tentou controlar a frustração.

— Harry, qualquer um desses juízes decide de acordo com as leis e suas interpretações dessas leis. — Falc explicou. — Se conseguirmos convencê-lo com o nosso argumento de que estamos embasados na lei mais antiga, que é a lei da liberdade de expressão e publicação, criadas junto à fundação do Ministério, sua decisão será favorável a nós, porque, como juiz, ele tem total autoridade para isso. — Falc fez uma pausa e Harry acenou. — O Ministério poderá recorrer, claro, mas até que eles possam reverter, se conseguirem reverter, imprimiremos e venderemos os livros. Faremos uma campanha de divulgação enorme, e esse será o momento de envolver a imprensa e o público, assim pressionamos o Ministério a manter a decisão que nos foi favorável.

— Ok. Então, exigiremos que todos os livros fiquem livres das taxas abusivas, pois, ao ganhar o nosso processo, abrimos um... — Harry hesitou, tentando se lembrar da palavra.

— Precedente. Quer dizer que, se a lei abriu uma brecha para um caso, o mesmo argumento poderá ser usado para os outros. O Ministério lutará contra isso, e precisaremos ser cautelosos, Harry, porque estamos certos e sabemos disso, mas não mudaremos as leis injustas desacatando ou ofendendo as autoridades.

— O problema foi falar daquela maneira com o juiz em um Tribunal, Harry, onde ele é a autoridade máxima. — A Sra. Clark disse com um sorriso. — Se tivesse dito tudo aquilo em outro ambiente, nós todos estaríamos lhe dando os parabéns por sua frieza e pensamento rápido. Na verdade, acho que o saco de bosta fedida ainda deve estar se corroendo por ter sido vencido tão habilmente por um adolescente.

Harry não se aguentou e riu, pois era muito engraçado ouvir a elegante Sra. Clark falando "saco de bosta fedida".

— Merlin sabe que eu tento educá-lo, mas isso não ajuda, Sra. Clark. — Disse Falc exasperado.

— Oh, sshhhhhh. — Disse ela, lhe dando um tapinha no braço. — Você se saiu muito bem como educador, disse o que tinha que dizer e o Harry aprendeu a lição, mas... não podemos fingir... que... o que aconteceu... não foi deveras... — A Sra. Clark começou a rir e teve dificuldades em completar a frase. — Engraçado! Rá, rá, rá, rá, rá!

Seu riso contagiou Sirius e Harry, que gargalharam junto com ela. Falc se esforçou para não os acompanhar, sabendo que deveria dar o exemplo; pior, Serafina ficaria furiosa se soubesse que ele riu do que aconteceu.

Harry recebeu mais olhares decepcionados e admoestações de Serafina durante a tarde, e de sua tia antes do jantar daquela noite. Ele deixou claro que aprendeu a lição e aceitou que estava errado, ainda que a história arrancasse gargalhadas do Terry e Duda, que acharam hilário o apelido que o juiz purista ganhou.

Às sete horas da noite, a lareira da sala de estar da Mansão foi acionada e o professor Slughorn saiu habilmente, apesar da sua barriga distintamente grande. Ele se limpou das cinzas com um movimento sutil da varinha e sorriu para os seus anfitriões.

— Áquila, meu amigo, que imenso prazer encontrá-lo nesta noite tão auspiciosa. — Ele disse elegantemente, apertando a mão do Sr. Boot. — Falc e Serafina, meus queridos, muito tempo sem vê-los. Que incrível alegria rever alunos tão queridos! — Seu tom era bajulador, mas sincero. — Ora, Sirius, Remus, mas que imenso prazer encontrá-los! — Ele apertou a mão de Sirius e Remus com alegria. — E Harry, mais uma vez obrigado por me convidar para um jantar em tão deliciosa companhia.

— Eu é que agradeço, professor, por ter aceitado o meu convite. — Harry disse formalmente ao apertar a sua mão.

— Olá, Terry e... quem seria essa jovem encantadoramente sorridente?

— Ayana Boot, professor. Muito prazer. — Ayana disse, apertando a mão de Slughorn educadamente. Ela estava se sentindo muito animada por ter permissão de ficar para o jantar, enquanto Adam foi enviado para a casa do seu tio Martin. Era quase como ser adulta, Ayana pensou, empolgada.

— O prazer é todo meu, Srta. Boot. — Slughorn se inclinou como se Ayana fosse mais velha e ela sorriu ainda mais. — Agora, quem seria essa linda dama? — Slughorn parecia saber como ser elegante, formal, gentil e galanteador, tudo ao mesmo tempo, e Harry teve que admirá-lo quando se apressou à frente.

— Professor, essa é minha tia, irmã de minha mãe, Petúnia...

— ...Evans. — Petúnia se adiantou e disse o nome de solteira, depois corou por seu atrevimento e pelo elogio de Slughorn, que a olhava como se ela realmente fosse linda. — Petúnia Evans, Prof. Slughorn, e é um imenso prazer conhecê-lo. Harry me disse coisas maravilhosas sobre o senhor e como amava a minha irmã.

Slughorn arregalou os olhos, que brilharam de apreciação e interesse.

— Não havia como não a amar, Lily era especial, mas eu não sabia que ela tinha uma irmã tão linda e gentil. Por favor, me chame de Horace, ou me sentirei muito velho. — Slughorn se inclinou e beijou as costas da sua mão discretamente. — Muito prazer em conhecê-la, Petúnia... Posso te chamar de Petúnia?

— Por favor. — Petúnia sorriu timidamente.

— Sente-se, Horace. — Sr. Boot lhe indicou o sofá e Slughorn se sentou ao lado de Petúnia. — O que gostaria de beber? Tenho aqui um vinho élfico de primeira qualidade que sei que é do seu gosto, e também um hidromel envelhecido em barril de carvalho que, se bem me lembro, era o seu favorito.

— Ora, Áquila, você me conhece bem, e me deixa em uma situação difícil! — Slughorn riu divertidamente. — Bem, beberei o vinho para abrir o meu apetite, mas, depois do jantar, aceitarei uma taça de hidromel, pois há muito que não provo uma bebida dessa qualidade.

Sr. Boot serviu bebidas a todos com a ajuda da nora e depois todos se sentaram para aquele momento estranho onde alguém deveria começar um assunto qualquer para que o silêncio não se prolongasse. Harry bebeu o seu suco de laranja e trocou um olhar divertido com Terry, que também bebeu para ocupar a boca.

— Delicioso! Uma ótima safra, mas não esperaria outra coisa de você, meu caro Áquila. — Slughorn disse, depois acrescentou com expressão mais séria: — Não tive a oportunidade de lhe dar os meus pêsames, Áquila, então estendo neste momento as minhas condolências a você e toda a família pela perda de Honora.

— Obrigado, Horace. — Sr. Boot agradeceu sinceramente. — Ainda acho difícil me acostumar com a sua ausência.

— Algumas ausências nunca deixarão de ser sentidas, meu caro, e é assim que deve ser. — Slughorn disse solenemente. — Na verdade, elas se fazem mais presentes por serem tão especiais.

— Verdade, verdade. — Sr. Boot parecia emocionado, e o silêncio se estendeu, pois parecia ainda mais difícil falar de algum assunto banal depois da bonita lembrança da Sra. Honora. — Soube que pretende se aposentar de vez depois deste ano, Horace, e confesso que isso me entristece, pois sei o quanto ama ensinar.

O assunto era propício para o momento e para o objetivo do jantar, e todos relaxaram um pouco enquanto Slughorn falava sobre como estava cansado e velho demais para continuar trabalhando tanto.

— Você não me parece nada velho, Horace. — Petúnia disse com um sorriso gentil. — Na verdade, me parece robusto e forte.

O elogio fez Slughorn endireitar a coluna e tentar projetar o peito enquanto escondia o tamanho da barriga. Harry apertou os lábios, controlando a vontade de rir, e ouviu Terry tossir discretamente, enquanto Sirius se engasgava com o seu vinho; felizmente, Remus lhe deu um tapa forte nas costas e o ajudou.

— Tão gentil, Petúnia. — Ele disse, a olhando com leve adoração. — Mas os meus tempos áureos já se foram, minha cara, sinto cada vez mais o desejo de aproveitar a boa vida.

— O senhor fará falta, professor. — Harry disse sincero. — Aprendemos muito nos últimos meses.

— Bem, não tomarei isso como um elogio, porque até um troll era capaz de ensinar mais do que aquele garoto estranho. — Slughorn disse meio rabugento. — Acredito que aqui posso falar mais livremente, não?

— Com certeza. — Sr. Boot disse, e todos acenaram. — Você está entre amigos, Horace.

— Obrigado, Áquila. — Disse Slughorn, sorrindo em apreciação. — Confesso que gostei dessa volta a Hogwarts, me trouxe tão boas lembranças e a chance de um último momento no palco, por assim dizer. E todos aqueles jovens com vontade de aprender e saber, mas que tiveram tão pouca ou péssima orientação que tinham desistido de Poções. Imagine isso! A arte do potioneer destruída por um azedo garoto morcego!

Harry mais uma vez se controlou para não rir do apelido de Snape, mas Sirius não foi tão elegante e gargalhou roucamente.

— Merlin, professor, costumávamos chamá-lo de gorduroso ou ranhoso quando crianças, mas garoto morcego foi o melhor! — Ele disse divertidamente.

— Eu o conheci quando criança e posso afirmar que todos os apelidos são justos. — Petúnia disse. — Nunca entendi como Lily e Snape puderam ser amigos.

— Ele disfarçava bem a sua personalidade perto dela. — Slughorn disse, chamando a atenção de todos. — Eu os observava pela escola e em minha sala de aula, claro, e podia ver como Severus se continha, suas opiniões, personalidade, nunca completamente sincero ou verdadeiro. Então, em minha casa, com seus amigos Slytherin, ele era mais espontâneo e mostrava mais de si. Não tudo, Snape sempre foi muito contido, mas o suficiente para que ficasse claro que, para Lily, ele mostrava apenas o que acreditava que a agradaria. — Harry franziu o cenho com esse cenário estranho e arrepiante. — Por alguns anos, deu resultado. Lily era jovem, ingênua e com um coração enorme, mas então Snape começou a escorregar aqui e ali, principalmente quando andava com garotos... bem, vocês sabem. — Todos acenaram, entendendo que ele falava dos garotos puristas que se tornariam comensais da morte. — Um dia, mais velha, Lily enxergou a verdade, e então eu a observei tentando salvá-lo, afastá-lo da beira da escuridão, mas Snape era arrogante e teimoso, não aceitava a sua ajuda, mas também não a deixava ir. Por um momento de pânico, eu pensei que ele a puxaria para o lado dele, mas eu deveria saber melhor.

— Minha mãe jamais ficaria do lado dos puristas, professor. — Harry disse convicto, e Horace o encarou nos olhos com sinceridade.

— Nunca. De qualquer forma, fiquei muito aliviado quando a amizade se desfez de vez e sua mãe, pouco depois, começou a olhar com um brilho especial para um certo James. — Ele disse com malícia, e todos riram.

Mais alguns minutos de conversa leve e eles foram para a mesa de jantar. A comida fora preparada pela Serafina, com a ajuda de Ayana e Dobby, e arrancou inúmeros elogios de Slughorn, que comeu fartamente enquanto bebia mais vinho e conversava sobre os mais diversos assuntos.

Slughorn discorreu sobre o talento de Harry em Poções, com detalhes elogiosos, e encerrou com: "Ele é tão talentoso quanto Lily". Esse era o maior elogio que Harry poderia receber, e o fez sorrir amplamente.

O professor também deu atenção a Ayana, que estava muito bonita em um vestido amarelo claro, com seus cabelos cacheados presos em uma presilha de jade. Slughorn parecia ter o dom de entender as pessoas e perceber o seu potencial, se não o seu caráter, e logo percebeu a infinita curiosidade de Ayana, além do desejo por mais. Mais conhecimento, mais aventuras, mais diversão, mais respeito dos mais velhos, mais experiência, mais, apenas mais.

— Bem, minha querida, eu não estarei lá para ser o seu chefe, mas acredito que minha casa receberá uma incrível e talentosa bruxa. — Slughorn lhe disse com uma piscadela, e Ayana sorriu um pouco sem graça, sem querer lhe ofender ao dizer que não pretendia ser uma cobra, e sim uma leoa.

O assunto também variou entre trabalho, quadribol e política, o que tornou Sirius um participante mais ativo da conversa ao falar um pouco sobre os seus planos. Slughorn fez uma ou outra sugestão, alguns comentários argutos que fizeram Harry erguer as sobrancelhas para o padrinho ao sinalizar que sua opinião de que o professor seria um bom ativo para o Partido estava obviamente correta. Quando Sirius sinalizou fazer o movimento de solicitar o seu apoio, mesmo que simbólico, Slughorn estufou o peito se dizendo neutro, pois gostava de flutuar conforme a banda tocava.

Isso fez Sirius conter uma careta e Harry sorrir, pois era óbvio também que o homem sempre penderia para o lado do vencedor, mas ele tinha uma carta na manga.

— O senhor está certo em manter a neutralidade, professor, mas, reconhecendo a nossa ignorância sobre o nosso mundo político e social, aceitaríamos qualquer ajuda ou conselho que pudesse nos dar. — Harry disse sincero. — O senhor é um grande conhecedor da sociedade mágica e um homem inteligente; mais importante, é um homem cauteloso, que sei que poderá nos ensinar muito. Eu, particularmente, tendo crescido no mundo trouxa, me sinto ainda mais despreparado para assumir o manto da família Potter, e desejo fazer isso com honra. Um aliado como o senhor, mesmo que discreto, seria uma grande vantagem, não tenho dúvida.

A bajulação sincera e friamente certeira, que apenas um Slytherin de alma poderia realizar, surtiu o efeito desejado: Slughorn estufou o peito e sorriu como uma aranha gorda e feliz, concordando prontamente em dar o seu apoio, de forma discreta.

Harry sabia que o pedido principal não seria tão facilmente alcançado, mas ainda havia outro assunto importante que poderia lhes ajudar a preparar o terreno. Depois da deliciosa sobremesa (um pudim de pão com conhaque, que fez Slughorn vibrar de entusiasmo), o grupo voltou para a sala de estar. Tia Petúnia acompanhou Slughorn pelo braço e riu de seus galanteios, corando levemente ao se sentir lisonjeada e mais jovem com o flerte suave. A mútua simpatia entre eles era inesperada e arrancou sorrisos gentis e olhares maliciosos de Sirius, que parecia achar engraçado como o professor parecia meio apaixonado por Petúnia.

Harry fez uma careta exasperada, tentando não pensar naquilo e se concentrar no mais importante. Ayana se sentou ao seu lado, ainda distraída pela conversa de mais cedo com o professor, mas olhou para o irmão e perguntou baixinho.

— Quando você irá pedir a ele, Harry?

Harry não teve tempo de responder, pois Slughorn, acostumado a ouvir os cochichos das crianças em aulas, a escutou muito bem.

— Boa pergunta. — Ele disse, encarando Harry com um sorriso sutil. — Sei que me convidou para este delicioso jantar com um objetivo específico, meu garoto, e a cada momento estou mais curioso.

— Bem, na verdade, são dois pedidos. — Harry disse, pois tinha solicitado à Sra. Clark que lhe deixasse falar com os amigos e professores de sua mãe sobre o prefácio dos livros de poções.

— Diga-me, meu rapaz, enquanto bebo deste delicioso hidromel. — Slughorn o incentivou com um sorriso.

— Talvez o senhor saiba que minha mãe fez algumas modificações nas poções ensinadas por todos os sete livros dos sete anos de Hogwarts? — Harry perguntou e o homem acenou.

— Claro que sim, ela me mostrou um pouco do seu trabalho e eu a incentivei a aperfeiçoar e publicar. Além disso, eu esperava que Lily fizesse o seu Mestre em Poções comigo, onde uma nova criação seria exigida. Infelizmente, ela desistiu do Mestre para poder lutar na guerra, e nunca teve tempo de retomar seus planos antes de... — Seus olhos ficaram tristes e o ambiente se tornou solene.

— Bem, eu encontrei todos os detalhes do seu trabalho, as modificações, os textos mais claros, o sumário de ingredientes, e decidi seguir com o seu plano de publicar esse trabalho brilhante. — Harry disse sorrindo, e Slughorn arregalou os olhos.

— Isso é maravilhoso! O mundo merece conhecer o brilhantismo da sua mãe, Harry, e acho que Lily estaria muito feliz em ver esse livro publicado. — Ele disse, com um largo e orgulhoso sorriso.

— Bem, eu enviei o manuscrito à Editora Aprilis, e a Sra. Clark, dona da editora, decidiu que o conteúdo permitia dividir o manuscrito em cinco livros, sendo um apenas com o sumário de ingredientes e os outros quatro abarcando os sete anos de aulas de Poções.

— Interessante. — Slughorn se mostrou curioso.

— O primeiro e segundo ano, em um livro. O terceiro e quarto em outro, o quinto e sexto em outro, e, por último, o sétimo ano no quarto livro, onde também poderíamos colocar uma descrição das profissões onde o NEWT de Poções é exigido.

— Ora, mas isso me parece incrivelmente inteligente, além de abrangente. — Slughorn disse, e franziu o cenho. — Sua mãe deveria ter um vasto material para poder publicar em quatro livros, acho que não tive a oportunidade de ver tudo. Eu adoraria ajudar no que precisar, Harry. Seria uma honra, na verdade.

— A Sra. Clark chamou um mestre de Poções para certificar as alterações... — A expressão de Slughorn mostrou certa decepção. — Alguém que não a conhecia, professor, assim ninguém pode contestar ou alegar favoritismo.

— Claro, claro, faz todo o sentido. — Ele disse apaziguado.

— O nome dele é Edward Connor, e a Sra. Clark disse ser muito competente. — Harry disse, e os olhos do professor se acenderam.

— Edward? Ora, por que não me disse? Eu o treinei! Edward fez o seu Mestre comigo, é claro! Ele é mais do que brilhante, talvez o mais brilhante dos meus alunos depois da sua mãe, e tem um dom natural para pesquisa e ensino. — Slughorn disse entusiasmado. — Eu o recomendei como meu substituto quando me aposentei há onze anos, sempre pensei que lhe passaria a coroa e depois Edward a cederia à Lily, pois era uma sucessão natural em termos de talento e idade. No entanto, Dumbledore insistiu em contratar aquele rapaz... bem, eu fui contra, porque Snape era um potioneer brilhante e mais nada, além de ser muito jovem para o cargo, obviamente. — Slughorn voltou a sorrir com sinceridade. — Se Edward está certificando o trabalho de sua mãe, ele não poderia estar em mãos melhores, meu caro!

— Talvez o senhor ficará feliz em saber que Edward aceitou o nosso convite para substitui-lo no ano que vem, professor. — Serafina disse suavemente. — Acabamos de acertar os últimos detalhes.

— Maravilhoso! — Slughorn exclamou e bateu palmas de entusiasmo. — Eu estava pensando em recomendá-lo, mas a última notícia que tive dele dava conta de que Edward estava trabalhando como assistente do professor de Poções da Escola de Salem.

— Ele continua no cargo, mas a Sra. Clark o contratou para trabalhar nos livros de Lily desde setembro passado. — Serafina explicou. — Foi assim que soubemos sobre ele e, quando o senhor decidiu se aposentar, nós apresentamos uma proposta de trabalho que, felizmente, Edward aceitou.

— Brilhante, absolutamente brilhante! — Slughorn suspirou feliz. — Me sinto mais aliviado em deixar o cargo, pois agora sei que meus alunos estarão em boas... não, não, eles estarão em excelentes mãos!

— O que eu gostaria de pedir, professor... — Harry retomou o assunto e recebeu toda a atenção de Slughorn. — Bem, gostaria de saber se o senhor aceitaria escrever o prefácio do primeiro livro da mamãe. — O homem arregalou os olhos, que se encheram de lágrimas imediatamente, seu rosto assumindo um tom avermelhado.

— Eu!? — Ele disse, e, tirando um lenço, enxugou as lágrimas que escorreram por seu rosto, tentando conter a emoção. — Merlin me acuda! Quanta emoção! Nada me faria mais honrado ou feliz, meu jovem rapaz. Nada mesmo!

— Eu pensei no senhor porque o senhor a amava verdadeiramente e foi o seu primeiro professor, aquele que lhe deu suas primeiras lições de Poções e a ensinou a amar a arte do potioneer. — Harry disse. — A Sra. Serafina e Maria MacDougal escreverão no segundo livro; Remus e Sirius, no terceiro, falarão sobre ela, sua personalidade e amizade. E o professor Flitwick escreverá o prefácio do último livro, os dois também eram amigos e ele fechará os depoimentos, falando sobre os seus talentos e sonhos como adulta. Pensei que o senhor poderia falar sobre a jovem Lily, seu entusiasmo ao chegar a Hogwarts, seu brilhantismo como aluna.

— Ora, ora... — Slughorn chorava abertamente e sem constrangimento. — Nada poderia ser mais fácil, aquela doce e brilhante menina, tão entusiasmada! Uma honra... uma honra emocionante, meu caro rapaz!

Harry sorriu feliz, emocionado e aliviado com a sua reação. Respirando fundo, se preparou para o segundo pedido, que seria bem mais complicado. Olhando para Serafina e Falc, recebeu sinais de incentivo e viu que ele já estava com o contrato de sigilo em mãos.

— Professor. — Harry chamou, e viu Slughorn respirar fundo e aceitar um copo d'água da sua tia, que também ficou emocionada com a sua emoção e lhe dava tapinhas no ombro. — O meu outro pedido é mais complicado, e preciso que o senhor assine um contrato de confidencialidade. Por favor.

— Claro, claro. — Slughorn bebeu toda a água e parecia mais calmo. — Eu me lembro que você me disse isso e já estava preparado, Harry. Ufa! Você deveria ter me preparado para essa emoção toda, meu rapaz... eu já não sou mais tão jovem, meu coração é de um velho emotivo, sabe.

— Não se chame de velho, Horace. — Petúnia o repreendeu gentilmente. — É muito bonito o seu afeto pelos alunos, isso me diz que você é um grande professor. Lily teve sorte em conhecê-lo.

— Ah, minha querida. — Slughorn a olhou com adoração e beijou as costas da sua mão. — Que lindas palavras! Nenhum elogio poderia ser maior do que esse, verdadeiramente.

Harry se controlou para não fazer uma careta para a maneira com o professor olhava a sua tia, e agradeceu que Duda tivesse ido dormir na casa de um amigo da escola. Sirius parecia ter que morder a mão para não rir, Remus e Terry se olhavam divertidos, e até Ayana olhava para os dois com olhos especulativos. Era só o que lhe faltava, Harry pensou, sua tia querer namorar o seu professor! Ugh! Que pensamento mais nojento!

Enquanto Harry pensava se não era melhor desistir de convidar o professor para dar aulas em Stronghold e assim afastá-lo de vez da sua tia, Falc estendeu o contrato ao professor, que o leu e assinou rapidamente, antes de encarar Harry com sua expressão atenta e curiosa.

— Sou todo ouvidos, Harry. — Ele disse gentilmente.

Respirando fundo, Harry decidiu focar no mais importante e falou sobre a sua ideia de ajudar os lobisomens. Lentamente, ele, com a ajuda dos seus adultos, discorreu sobre a ideia, o planejamento e a execução do movimento de levar os lobisomens a terem um lar seguro e uma vida digna. No começo, Slughorn demostrou incredulidade, talvez certa pena, mas, quanto mais ele ouvia, quanto mais ele percebia o engajamento de todos e a postura positiva da maioria dos lobisomens em ouvir a proposta, mais sua expressão se tornava maravilhada.

— Você? Você teve essa ideia? — Ele sussurrou, depois que eles contaram como mais da metade das matilhas já tinham respondido concordando com a proposta.

— Bem, sim, mas eu tive ajuda para o planejamento e execução. Acredite, professor, eu não fiz e nem poderia ter feito nada sozinho. — Ele disse sincero, mas isso não tirou o olhar de admiração assombrosa de seus olhos. Harry tentou ignorar a expressão, já estava começando a se acostumar com essa reação quando contava as suas ideias. — O que precisamos, professor, é que o senhor adie um pouco mais a sua aposentadoria e se torne um dos professores da nova escola que abriremos na ilha.

— O quê? —Slughorn exclamou, e agora o seu choque parecia menos positivo.

— Precisamos de um professor de Poções que seja justo, confiável, competente. — Serafina disse objetivamente. — O senhor é perfeito para nos ajudar, professor.

— Sabemos que o senhor não irá ficar para sempre no cargo, mas pensamos que poderia treinar um novo Mestre, que assumirá como professor da escola da ilha quando estiver treinado. — Remus explicou. — Serão apenas por alguns anos, professor, então o senhor poderá voltar para a sua aposentadoria.

— E, durante esses anos, o senhor nos ajudará a realizar um projeto incrível, professor. — Harry disse, se inclinando para frente. — Fundaremos uma nova escola, ensinaremos bruxos a serem bruxos, daremos àquelas pessoas que foram expulsas do nosso mundo o que sempre tiveram o direito de ter. Todos temos direito à educação, ao conhecimento, a aprender e descobrir os nossos talentos.

— Falou como um verdadeiro Ravenclaw, Harry, mas você se esquece de que o que está me propondo é ilegal, e, como um bom Slytherin que sou, nunca poderia me colocar em uma posição tão precária. — Disse Slughorn, com certa frieza na voz.

Sirius, Falc, mesmo o Sr. Boot, pareciam querer protestar, mas Harry apenas sorriu concordando e isso os calou.

— O senhor está certo. — Ele disse sincero. — Mesmo com todas as precauções, os Tratados, as proteções que envolverão a ilha, ainda corremos o risco de sermos descobertos. Por isso estamos trabalhando para levar o Sirius para o mais dentro possível do Ministério, professor, para que chegue o dia em que não precisaremos manter a ilha e a escola em segredo. Nós não somos tolos, sabemos que precisaremos pressionar por todos os lados e conseguiremos, professor; assim, no dia em que conquistarmos o direito de retirar o manto do segredo, os riscos não existirão mais. — Slughorn pareceu pensativo, mas não convencido. — Enquanto isso, manteremos um perfil baixo e tomaremos todas as medidas para que o senhor não corra qualquer risco de ser associado com a ilha, a escola e os lobisomens. Um nome falso, contratos de confidencialidade e sigilo ou qualquer outra coisa que o senhor puder pensar.

— Harry, isso que me pede é enorme... — Slughorn disse, ainda pensativo e mais hesitante em sua negativa.

— Porque a recompensa é grande, professor. — Harry se levantou e caminhou pela sala. — O senhor terá um bom salário e, talvez não precise, mas isso não fará mal, certo? O senhor terá minha gratidão, amizade e proteção eternas. — Ele apontou para os outros na sala. — E da família Black, Boot, Longbottom e inúmeras outras que posso nomear facilmente, que estão nos ajudando neste projeto. O senhor terá a chance de levar conhecimento a essas pessoas sofridas que, em sua maioria, nunca pegaram em uma varinha ou chegaram perto de um caldeirão. — Harry parou ao ver seus olhos brilharem. — O senhor é um professor nato, e sei que lhes ensinar será talvez o seu maior legado, professor. Um dia, quando nós não estivermos mais aqui, nossos nomes estarão nos livros de história, e sei que o seu estará ao lado da história de como os lobisomens foram protegidos, ajudados e ensinados a serem bruxos, como deveriam ser. O senhor treinará outro Mestre, ajudará a preparar a poção Wolfsbane, lhes ensinará como prepará-la para que eles não sofram mais com as terríveis transformações. — Harry se agachou à sua frente. — Se minha mãe estivesse aqui, ela se jogaria nesse projeto com toda a sua coragem, entusiasmo e bom coração. Infelizmente... mamãe não pode fazer isso, professor, mas nós podemos. Nós, que a amamos, podemos fazer isso por ela e honrá-la, lembrá-la, como no Jardim. Se o senhor quer que Lily viva para sempre, então se jogue nesse sonho louco conosco.

O silêncio se prolongou depois que Harry terminou e voltou a se sentar. Todos esperaram, todos queriam dizer ou encontrar as palavras que o convenceriam, mas todos se calaram, pois sentiam que Harry era o único ali que tinha o poder de influenciar Horace Slughorn a aceitar o cargo.

Slughorn se manteve pensativo, não negativo ou positivo, neutro, e ainda encarava Harry com uma expressão curiosa.

— Pergunte. — Harry disse a ele, ao entender o ponto de interrogação em sua expressão.

— Somos Slytherins, nós dois. — Slughorn disse, e Ayana olhou para o Harry com expressão surpresa, parecendo esperar que ele negasse, o que Harry não fez. — Suas palavras são verdadeiras, corretas, justas e quase perfeitas, mas falta algo, Harry. Eu vejo sua inteligência, seu bom coração e coragem, mas também vejo a sua esperteza e astúcia, assim, eu me pergunto, o que você está ganhando com esse projeto? — Harry não respondeu, pois sabia que a verdade levaria o professor a recusar a proposta, pois seu instinto de sobrevivência era muito forte. — Gostaria de uma resposta verdadeira, ou terei que dizer não, mas, se for sincero, prometo considerar.

Harry suspirou e trocou um olhar exasperado com Serafina, que também entendeu que tinham perdido o jogo e lhe deu um sorriso gentil.

— Voldemort está vivo. — Harry disse e ignorou os gemidos de protesto pela sala, além do gemido de horror de Slughorn.

— Harry! Um pouco mais de tato, lembra? — Falc disse exasperado, e Harry riu divertido.

— Isso não é possível. — Sussurrou Slughorn, tão pálido que parecia que desmaiaria ou vomitaria o jantar a qualquer momento.

— Infelizmente, é possível para ele. — Harry disse amargo. — Eu lutei com ele em meu primeiro ano e, neste ano, foi ele quem atacou e petrificou os alunos. Mais uma vez, nós lutamos, e eu consegui afastá-lo do seu objetivo.

— O... objetivo? — O professor parecia trêmulo.

— Recuperar o seu corpo, pois, no momento, Voldemort é apenas um espectro. — Harry explicou. — Desde que soubemos que ele estava vivo e planejando voltar, estamos nos preparando para esse momento, professor, e tentando enfraquecê-lo.

— A ideia do Harry é que, quando a guerra recomeçar, o mundo mágico esteja diferente, mais forte, capaz de enfrentá-lo e vencê-lo. — Serafina acrescentou. — Isso inclui os lobisomens.

— Como? — Slughorn arregalou os olhos.

— Não pedindo que eles lutem ao nosso lado, caso esteja se perguntando, professor. Apenas tirando eles do tabuleiro, pois, quando Voldemort recuperar o seu corpo e retomar a guerra, ele não os terá disponível para serem os seus peões. — Harry disse duramente. — E, se avançarmos com as leis na Suprema Corte, as mudanças em Hogwarts e outros projetos e ideias que temos, tornaremos a vida de Voldemort e seus comensais da morte muito, mas muito difícil.

Harry sabia que essa notícia faria o professor de Poções fugir o mais rápido possível, pois, se a perspectiva de serem descobertos pelo Ministério o assustava, imagine a ideia de que Voldemort poderia invadir a ilha ou perseguir a todos que ajudaram a esconder os lobisomens.

No entanto, Slughorn não se levantou e nem saiu correndo o mais rápido possível, ao contrário, ele se manteve sentado calmamente, pensando, lembrando. O horror que sentia o mantinha paralisado, e seus pensamentos se voltaram para uma conversa do passado, a mais vergonhosa das conversas, e Slughorn sobrepôs aquele rosto inteligente e manipulador com o rosto inteligente, manipulador e cheio de gentileza, amor e doçura do Harry. Os frios olhos azuis se chocaram em sua mente com os fervorosos olhos verdes, cheios de paixão e alma, não vazios e cruéis.

— Por que... — Ele sussurrou, tentando ver o quadro todo. — Por que está fazendo isso? Por que está tão focado em detê-lo?

— Ele matar os meus pais não é motivo o suficiente? — Harry disse com certa amargura, depois suspirou, achando melhor ser parcialmente sincero. — Eu não sei por que, Dumbledore se recusa a explicar, mas Voldemort estava tentando me matar naquela noite, eu era o seu alvo, não meus pais. — Isso fez Slughorn ofegar de horror. — Quando ele voltar, Voldemort virá atrás de mim outra vez, e outra vez, até que eu esteja morto. Outros morrerão como os meus pais para me proteger, mas dessa vez eu tenho a vantagem do tempo. Enquanto ele está fraco, posso me preparar para enfrentá-lo. Estou aprendendo a duelar com Flitwick e, em setembro, Dumbledore começará a me dar aulas particulares. Os lobisomens estarão seguros da sua influência e o Ministério será mais forte para enfrentá-lo. Não sei se será o suficiente para que eu sobreviva, professor, mas, se eu morrer, eu o levarei comigo, pode estar certo disso. —Harry fez uma pausa e tentou ignorar o seu olhar admirado. — Se o senhor sentir que pode me ajudar, o filho da Lily, a vencê-lo, eu ficarei grato e minha mãe também, tenho certeza, mas prometo que não ficarei chateado se o senhor disser não. Eu compreendo que enfrentar...

— Eu aceito. — Slughorn disse em um só fôlego trêmulo. — Eu aceitarei o cargo de professor de Poções dessa nova escola, que ainda nem tem nome. Farei a poção mata-cão e treinarei um novo Mestre para me substituir. Sim, sim, eu farei tudo isso.

Harry e todos na sala o encaram com expressões surpresas, pois tinham certeza que ele se recusaria. Slughorn se levantou, se afastando dos olhares inquisitivos, tentando esconder a vergonha e os pensamentos de que, talvez, essa fosse a sua chance de se redimir do seu erro. Ele caminhou até o bar e, com mãos trêmulas, se serviu de um whisky de fogo que tomou em um só gole, depois se serviu de mais um pouco. Sim, sim, pensou angustiado, ele faria isso pelo menino, pelo filho da sua querida Lily, talvez não fosse o suficiente para ajudar o pobre garoto a sobreviver ou para se redimir do seu erro terrível, mas ao menos ele estava tentando ajudar, e isso contava para alguma coisa, certo? E ninguém precisava saber o que ele fizera, não, não, não, o melhor era manter em segredo, pois ele morreria de vergonha. Harry o odiaria, claro, e todos ficariam tão desapontados. Sim, pensou decidido, ajudaria os lobisomens, ajudaria Harry a ficar mais forte para vencer... E, então, talvez, ele seria perdoado pelo que fizera.

A noite acabou abruptamente depois disso, pois um instável Slughorn insistiu em ir embora. "Muitas emoções! ", ele disse, "o choque, uma dor de cabeça que começava, e já era tão tarde! Sim, claro que ele não mudaria de ideia, estava tudo certo, ele seria o professor dos bruxos lobisomens". Despedidas, tapas nas costas, apertos de mão menos formais, sorrisos mais do que entusiasmados e, com o sorriso mais falso da sua vida, Slughorn usou a lareira para partir.

Harry, o único verdadeiro Slytherin na sala, olhava para a lareira pensativo, enquanto os outros sorriam, comentavam e comemoravam a vitória. Algo estava errado, pensou ele, algo estava definitivamente errado. Slughorn deveria dizer não, essa era a verdade. Um Slytherin jamais aceitaria um cargo tão perigoso. Treinar lobisomens, mentir para o Ministério e enganar Voldemort!? E tudo ao mesmo tempo!?

— Ele estava escondendo alguma coisa, não estava? — Uma voz soou ao seu lado, e Harry se virou para Ayana, que o encarava com seus olhos espertos e vivos.

— Você também teve essa impressão? — Harry perguntou, tentando esconder a surpresa, pois todos os outros pareciam apenas concentrados no "sim" do professor.

— Sim. — Ela deu de ombros. — Não faz sentido que ele aceite, não combina muito com alguém que preza tanto a si mesmo e sua vida. Além disso, ele disse várias vezes que queria voltar para a aposentadoria para aproveitar a boa vida. Aceitar o cargo seria o oposto, certo? — Harry acenou. — Pois é, foi o que eu pensei, então eu tinha certeza que ele diria não, mas o professor disse sim, e isso me fez perceber que...

— Sim, ele esconde alguma coisa. — Harry acenou concordando, pois essa era exatamente a sua conclusão.

— Você tentará descobrir o que é? — Ela perguntou curiosa.

— Sim. — Harry disse, e olhou para o brilho de desejo nos olhos de Ayana. Desejo de participar, aprender, viver e de saber mais, mais e mais. Ele sorriu ao perceber o que Slughorn viu tão facilmente. — Mas hoje podemos deixar isso de lado e comemorar. O que você acha?

— Ai, tudo bem, mas promete que me contará quando souber? — Ela perguntou, segurando o seu braço, ansiosa por matar a sua curiosidade.

— Prometo. — Harry disse, antes de se juntar aos outros com a irmã, se perguntando se alguém mais percebia que o brilho nos olhos de Ayana era pura ambição.

Na quinta-feira, ao amanhecer, Harry se encontrou com Vance para a entrevista sobre as Feiras de Alimentos Potter. A jornalista parecia estranhamente abatida, ainda que o seu entusiasmo pela reportagem fosse imenso. Sirius e ela se abraçaram fortemente, um momento tristemente melancólico, mas depois Vance se lançou nas dezenas de perguntas que tinha para ele.

Harry ficou impressionado por seu conhecimento, e descobriu que vinha pesquisando o assunto profundamente desde que Sirius lhe ofereceu a entrevista.

— Diga-me, Harry, por que investir em feiras ao ar livre quando o mundo está cada vez mais rápido e compacto? — Vance disse objetiva. — Um empório ou mercado em sua cidade ou vila tem maior praticidade para os bruxos, além dos inúmeros restaurantes que foram abertos no Beco Diagonal recentemente, possibilitando a todos fazerem uma refeição de maneira mais rápida e simples.

— Bem, o meu investimento teve dois aspectos, Vance. — Harry respondeu. — Primeiro, voltar a entrar no mercado de alimentos com preços competitivos, depois de mais de dez anos com as fazendas da minha família paralisadas. Durante esse período, os alimentos modificados magicamente se tornaram o produto alimentício de maior consumo do mundo mágico, mas nós sempre oferecemos o melhor dos alimentos naturais ou orgânicos. As Feiras possibilitam que minhas fazendas vendam, de maneira direta ao consumidor, os produtos frescos, com o mínimo de desperdício, conservação mágica e sem o intermédio de um mercado ou empório. Isso diminui o preço final dos produtos e permite aos bruxos em nosso mundo o acesso a um alimento mais saudável por um preço justo. — Harry sorriu. — E esse é o segundo aspecto, os alimentos orgânicos... — Ele explicou em detalhes os benefícios desses alimentos. — Por isso, não produzir o melhor não era uma escolha para mim, pois foi assim que minha família sempre fez. Nossas feiras oferecerão às famílias bruxas o que há de melhor e mais saudável em alimentos, e são essas pessoas que atenderemos com toda a dedicação. Talvez você possa almoçar fora de vez em quando, mas sabemos que a renda de muitos não lhes permitirá essa praticidade todos os dias. E por que comprar o menos saudável, se o preço é o mesmo?

— Por que o bruxo deveria escolher comprar em suas Feiras, Harry? Mesmo com bons preços, produtos frescos e saudáveis, ele não teria mais comodidade em comprar no mercadinho próximo à sua casa?

— Bem, se ele fosse um trouxa, com certeza. — Harry riu divertido. — Mas somos bruxos, Vance, assim, aparatar para a Feira mais próxima nunca será um problema. Em nossas Feiras, teremos encantamentos especiais que impedirão que a chuva, neve ou frio atrapalhe as compras dos nossos clientes. Ofereceremos, como um brinde de inauguração, uma sacola reutilizável, com feitiço de extensão e leveza, para que carregar e transportar as suas compras não seja um transtorno. Em nossas Feiras, nossos clientes encontrarão tudo o que precisam, desde legumes, frutas, verduras, grãos, carnes, leite, pães, queijos, mel, doces, e, aos sábados e domingos, poderão degustar de algum prato preparado com os produtos da Feira. Quem se interessar, poderá levar a receita do prato do dia, e também terá alguma diversão para as crianças. Todas as terças e quintas-feiras, as crianças menores de 12 anos poderão visitar a fazenda, ver e acariciar os animais, observar e ajudar os trabalhadores a colherem e plantarem os alimentos que elas comerão mais tarde.

— Incrível, parece que não é um simples Feira, Harry. — Vance disse, e Harry sorriu.

— Nós não somos simples, Vance, e não devemos nunca querer o básico; nossas vidas devem estar sempre cercadas de muita diversão e magia. Nós queremos que os nossos clientes se sintam em casa quando vierem às compras, sem estresses, confusões, dúvidas ou preocupações, apenas algumas horas divertidas na sua semana e que fornecerão a melhor alimentação para a sua família. — Harry disse, e recebeu um sinal de positivo de Sirius.

— Sirius, acredito que esse empreendimento foi sua ideia e está sob a sua gestão, pois você é o tutor dos negócios Potter. — Vance perguntou e Sirius gargalhou.

— Ai, ai, Vance, sinto lhe informar que a minha gestão é apenas das coisas práticas do dia-a-dia. As boas ideias, as mais inteligentes, como as Feiras, são todas da mente brilhante do meu afilhado. Harry não é um Ravenclaw por acaso, e ele está sempre pensando em novas maneiras de fazer as coisas melhores. — Sirius olhou para o afilhado com orgulho. — Ele nunca desiste ou se conforma com o que está errado ou é injusto.

— Por que essa dedicação ao certo e ao justo, Harry? — Vance perguntou, e Harry se encolheu um pouco com a pergunta tão pessoal.

— Esse é o meu legado, Vance, pois é assim desde o primeiro Potter. — Ele sorriu mais confiante. — Meu avô escreveu um livro sobre a história da família Potter, e tenho muito orgulho de ser descendente de bruxos tão criativos, generosos e bravos. Além disso, a morte dos meus pais não foi uma tragédia apenas para mim; todo o mundo mágico vivencia isso, mesmo sem poder compreender totalmente. Lily e James Potter eram brilhantes, e teriam criado, doado, projetado e oferecido tanto ao nosso mundo, Vance, assim, eu não faço apenas a minha parte, sabe. Meu maior legado é fazer a parte deles também, pelo menos tentar, pois apenas meus pais poderiam se representar.

— Isso é muito doce, Harry, emocionante mesmo. — Vance sorriu. — Diga-me, depois das Feiras, quais são os seus próximos projetos?

— Bem, agora que sei que as Fazendas Potter estão em funcionamento, posso ter alguns anos para me dedicar aos estudos, além de relaxar e me divertir um pouco. — Harry sorriu com uma pitada de malícia. — Mas, obviamente, se algum novo negócio me inspirar, eu prometo lhe contar.

Vance finalizou a entrevista e correu para o jornal, pois ela seria impressa na edição daquela manhã.

— Aqui. — Ela entregou ao Barnie assim que terminou de escrever sua reportagem sobre o tema, além da análise da entrevista.

— Eu não terei tempo de editar, então estou confiando em você, Van. — Barnie disse, ao correr com os pergaminhos para a sala de máquinas.

— Pode confiar. — Vance o seguiu sentindo um frio de prazer ao ouvir o apelido carinhoso. — Deveríamos ter feito a entrevista ontem, mas não sabíamos que o Harry pretendia falar na rádio hoje à tarde.

— Se deixarmos para publicar na edição de amanhã, tudo isso será notícia velha e ninguém dará a mínima atenção. — Barnie disse, levemente ofegante com a caminhada apressada. — Temos sorte que eles concordaram em conceder a entrevista antes do amanhecer, acredito que isso é inédito.

— Eles não se importaram, pois sempre acordam nesse horário para correr. — Vance explicou.

— O que...? O que eles são? Masoquistas...? Quem... em sã consciência... acordaria de madrugada para correr, pelas... barbas de Merlin? — Barnie bufou sem fôlego.

— Bem, isso os mantêm em forma, algo que parece que você precisa. — Vance apontou para o seu rosto vermelho, suado e respiração pesada.

— O quê!? Você acha que estou gordo!? — Barnie parou sua corridinha e a encarou horrorizado.

— Bem... — Vance fez uma pausa, pois sabia que essa era uma questão importante.

— Eu sou apenas encorpado! Tenho essa figura desde a juventude! E muito disso é músculo, não gordura, fique sabendo! — Ele se defendeu indignado.

— Eu sei muito bem. — Vance respondeu, e seu olhar se tornou quente, sua língua lambeu os lábios de maneira provocativa. — Na verdade, você é perfeito para o meu paladar, BB.

Barnie ficou vermelho por uma razão diferente agora e sentiu o corpo reagir às suas palavras e expressão. Vance sorriu para o homem, que era alguns centímetros mais baixo que ela, um pouco gordinho – ou "encorpado" –, tinha uma cabeleira farta e lisa, além de olhos castanhos inteligentes. Mas o seu grande coração e cavalheirismo era o motivo pelo qual Vance estava se apaixonando por ele, pois jamais foi tratada e cuidada com tanto carinho por um homem. Mesmo Sirius, com quem teve uma relação de mútuos benefícios, sempre pareceu querer algo dela ou que ela lhe cuidasse. Era bom ser cuidada e amada, para variar, pensou Vance ao encarar o namorado com um sorriso carinhoso.

— Mas então...

— Barnie, você não precisa emagrecer para mim, mas deve se preocupar com a sua saúde. — Ela usou um lenço para limpar o suor do seu rosto. — Se apenas uma corridinha te deixa assim, me parece que o seu corpo está lhe mostrando que você deve se cuidar mais, Barnie baby.

— Você acha? — Ele sussurrou, olhando para a sua boca e completamente esquecido do prazo para a impressão do jornal.

— Sim, e eu tenho uma ideia sobre como resolveremos isso, mas vamos deixar para depois e nos concentrar no mais importante. — Vance disse roucamente.

— Mais importante? — Barnie deu um passo à frente e engoliu em seco ao sentir o desejo percorrer o seu corpo.

— Sim, Barnie, a impressão do jornal. — Vance disse, apontando para o pergaminho em sua mão.

— O jornal! A impressão! — Ele pulou de susto e saiu em disparada, desta vez, correndo para valer.

Vance riu e o acompanhou mais lentamente.

— Prometo que o compensarei mais tarde, BB. — Ela disse baixinho.

No The True Magic, Harry almoçou com o dono da emissora de rádio onde daria a entrevista. O cara também era o radialista principal e o entrevistador. Sirius escolheu a emissora com um conteúdo mais crítico ao Ministério e que não aparentavam ou eram claramente puristas.

— Agradeço por nos escolherem, Harry, não somos a maior audiência, mas prometo que faremos um trabalho bem legal com os comerciais do anúncio das Feiras. — Disse Dylan Samuells, um homem de 35 anos, alto, com cabelos compridos e barbicha tão loiros que eram quase brancos.

— Vocês não são puristas e estão sempre criticando o Ministério, na verdade, soube que vocês até criticam a GER. — Harry disse sorridente. — Fiquei curioso, pois é raro encontrar alguém abertamente opositor, a maioria dos bruxos em nosso mundo é alienado ou interesseiro.

— Infelizmente, isso é verdade. — Dylan disse. — Minha crítica à GER é baseada no fato de que tanto capital não deveria estar nas mãos de uma única pessoa. Vocês sabiam que, por pertencer a uma das famílias antigas, a GER paga menos impostos do que um bruxo normal? E, menos ainda do que qualquer nascido trouxa ou mestiço pagaria?

— Verdade? — Harry arregalou os olhos e segurou a vontade de rir. — Bem, nesse caso, concordo com você e apoio que continue a criticar, mas lembre-se de que o dono da GER apenas se beneficia das leis ultrapassadas que vigoram em nosso mundo.

— Eu sei bem. — Dylan tinha um brilho de aço em seus olhos verdes claros. — Se tentássemos enumerar as leis injustas e discriminatórias que a Suprema Corte continua a sustentar, não falaria de outra coisa em minha emissora.

— Ainda é bom que alguém fale disso, Dylan. — Sirius considerou. — Eu admiro sua coragem e perseverança.

— Bem... — Dylan suspirou, parecendo levemente desanimado. — Eu amo o meu trabalho e não faria diferente, mas o Ministério dificulta muito a nossa vida porque não seguimos a sua cartilha.

— Espera, eles censuram as rádios bruxas também? — Harry perguntou indignado depois da audiência do dia anterior.

— Sim. E, eu não fui permitido entrar na disputa da transmissão dos jogos de quadribol do campeonato, que ficou com a SKV e a Monster S. — Dylan disse, e depois mastigou uma mordida do seu bife suculento. — Quando o campeonato começar, no mês que vem, a nossa audiência cairá ainda mais, assim como as propagandas, por isso mais uma vez agradeço pela entrevista e por divulgar as Feiras na minha emissora

— Bem, nós divulgaremos em outras emissoras de rádio, mas a entrevista tinha que ser com alguém que não pense algo positivo do Ministério ou de Voldemort. — Harry o viu estremecer e fazer uma careta.

— Eu não pretendo apoiar qualquer dos candidatos a Ministro, Dylan, na verdade, minha intenção é me tornar um opositor de qualquer um que ganhar e exigir mudanças. — Sirius disse, e Dylan arregalou os olhos, empolgado.

— Isso é incrível! — Ele disse e olhou em volta. — Você me concederia uma entrevista na semana que vem? Podemos discutir isso e o lançamento das candidaturas de Fudge e Finley, seu ponto de vista sobre cada um deles e suas propostas.

— Claro! — Sirius sorriu, pois essa era a sua intenção. — Se puder segurar a notícia, Dylan, poderei lançar oficialmente no seu programa a informação de que fundei um novo Partido. — Dylan parecia que teria uma síncope, seus olhos se esbugalharam e a boca se escancarou. — Pretendo brigar fortemente na arena política nos próximos anos, Dylan, espero que esteja interessado em participar.

Isso fez o radialista ficar completamente sério.

— Eu sou jornalista, não assessor de imprensa, e com certeza não estou à venda, Sr. Black. — Ele disse com frieza.

— Ótimo! — Sirius trocou um sorriso com o afilhado. — É exatamente isso que queremos, Dylan, alguém que faça um trabalho jornalístico bom e honesto, pois não daremos entrevistas para aqueles que não sabem nada sobre a ética da sua profissão.

— Oh! — Dylan arregalou os olhos outra vez e suspirou aliviado. — Bem, fico feliz em saber disso e lhe garanto que não hesitarei em criticá-lo se acreditar que é necessário.

— Combinado. Como está o seu bife? — Sirius perguntou simpaticamente.

— Perfeito!

A entrevista correu muito bem depois desse momento de descontração. A intenção com o almoço e a conversa franca era quebrar o gelo e tornar o radialista mais favorável a eles, mesmo que inconscientemente. Ainda que Sirius e Harry estivessem satisfeitos com sua postura ética e profissional, foi essa maneira de conduzir a sua emissora de rádio, a NSPW, que os levou a escolherem Dylan para essa entrevista. Ainda assim, Dylan era um jornalista crítico e fez muito bem o seu trabalho; Harry se contorceu um pouco para responder algumas questões.

— Diga-me, Harry, você não acha que é errado que uma única pessoa ou família mantenha o monopólio sobre um determinado setor da economia ou indústria? — Ele questionou. — Quer dizer, você tem privilégios por causa do seu sobrenome e isso lhe dá muitas vantagens sobre outros produtores, principalmente os pequenos fazendeiros que não têm linhagem ou status de sangue privilegiados.

— Eu concordo. As leis que permitem que famílias antigas e bruxos de sangue puro tenham mais privilégios são injustas. — Harry acenou. — Acredito que isso deveria mudar.

— Então você admite que sua fortuna foi construída sob o peso da exploração e desigualdade, e que pretende manter essa tradição? — Dylan foi mais duro e Harry percebeu que sua reposta lhe dera a chance para isso.

— Sim e não. — Ele disse controlado. — As leis são injustas, nunca deveria ser assim e gostaria que mudassem, mas minha família nunca se aproveitou dessas leis para oprimir os mais vulneráveis. Pelo contrário, qualquer um sabe que, desde o primeiro Potter, a nossa principal atividade sempre foi ajudar as pessoas, sermos justos, corretos e bons. — Sirius acenou e Harry sentiu-se mais tranquilo. — A fortuna da minha família foi construída com o tempo, com muito trabalho duro e inteligência, mas nunca se aproveitando de ninguém, e não será diferente agora.

— Como assim? — Dylan perguntou curioso.

— As Fazendas e Feiras Potter pagarão um salário justo e igualitário aos seus funcionários, sem classificação por status de sangue, gênero ou cor. — Harry explicou.

— Este é um exemplo que todas as fabricas, lojas e fazendas em nosso mundo deveriam seguir. — Sirius disse. — É assim nas Fábricas Black também, e a Suprema Corte tem a obrigação de mudar as suas leis, pois, neste momento, é completamente legal um empregador pagar a metade do salário de um bruxo puro para um bruxo nascido trouxa.

— Infelizmente, a Suprema Corte está abarrotada de velhos preguiçosos que não querem mudanças ou não tem competência para consegui-las. Tradição, essa é a maldição do mundo mágico, caros ouvintes. — Dylan disse, antes de voltar a se concentrar no Harry. — Ainda que dê um bom exemplo, Harry, sua fortuna lhe permite abrir Feiras de incrível qualidade que atrairão milhares de clientes. Isso o tornará ainda mais rico, mas levará à falência dezenas de pequenos fazendeiros ou armazéns espalhados pelo Reino Unido. Aposto que, em dois ou três meses, você será um dos únicos fornecedores de alimentos naturais do nosso mundo, pois todos comprarão só com você. O que pensa disso?

— Bem... — Desconcertado, Harry enxugou a mão úmida na calça. — Eu não quero que isso aconteça, claro, o bom seria que as pessoas se mantivessem clientes de bons locais que já frequentam...

— Espere. — Dylan disse sarcasticamente. — Você está aqui para divulgar suas Feiras e está dizendo que as pessoas não devem ir comprar nas suas Feiras? Que devem continuar a comprar onde sempre compram?

— Não. — Harry tentou ignorar a sua expressão irônica. — Estou dizendo que, se você tem na sua cidade ou vila produtos de alta qualidade por preços justos e conhece o pequeno produtor ou o dono do mercado, deve sim prestigiá-los. O trabalho deles é de qualidade? Eles precisam do seu apoio? Bem, então, tudo bem. — Harry falou com mais firmeza. — Mas aqueles que praticam preços abusivos, vendem produtos inferiores, tratam mal os seus clientes ou algo do tipo e não oferecem um espaço interessante, bem, não será culpa das minha Feiras se ele for à falência. Será?

— Bem, vendo por esse lado, não. — Dylan respondeu.

— E mesmo aqueles que tenham um lugar bom para consumir, podem visitar as Feiras às vezes. — Harry acrescentou. — Teremos uma grande diversidade de produtos, todos frescos, isso é difícil de encontrar em cidades pequenas. Também teremos muita diversão, assim, você também não precisa ficar preso em um único lugar, mas eu diria que você deve se manter cliente dos negócios da sua cidade se o lugar merecer a sua lealdade.

Quando terminou, Harry percebeu o olhar orgulhoso de Sirius e de aprovação de Dylan, além de alguns dos seus funcionários que estavam na cabine da emissora, e suspirou aliviado. No entanto, a pergunta mais difícil que Harry teve que responder foi sobre os seus pais, pois Dylan o questionou sobre algo impossível de responder de forma simples.

— Você acredita que seus pais se orgulham de você, Harry?

— Bem... Eu não conheci os meus pais, Dylan. Voldemort os matou quando eu era muito jovem... — Dylan e outros funcionários da rádio estremeceram, e alguns gemeram de pavor. Harry teve que se controlar para não rir ao imaginar os milhares de bruxos espalhados pelo Reino Unido tendo a mesma reação simultaneamente. — Então, eu não tenho lembranças deles, mas todos que os conheceram sempre me dizem que eles estariam muito orgulhosos de mim. Tenho a sensação de que eles estão comigo sempre, sabe... Eu posso sentir os seus amores e nunca me sinto sozinho, acho que, independente do que eu faça em minha vida, desde que seja um homem bom, meus pais se orgulharão de mim.

Suas palavras emocionaram a todos que ouviram, e Sirius acenou, apertando o seu ombro com carinho.

— Isso é algo muito bonito, Harry, e acredito que você está absolutamente certo. Tem algo mais que você gostaria de dizer aos nossos ouvintes antes de encerrarmos essa incrível entrevista?

— Sim. — Harry respirou fundo, pois queria aproveitar esse momento para passar uma mensagem importante, e não fazer propaganda. — Voldemort existiu porque vivemos em um mundo que se alimenta e se constrói da opressão, desigualdade e preconceitos. Olhem em volta, observem a si mesmos e ao mundo que nos rodeia. Percebam que os goblins são discriminados, os elfos escravizados, os nascidos trouxas excluídos e tantos outros seres ignorados ou injustiçados. — Houve muitos acenos de Dylan e seus funcionários. — Eu sou órfã porque meus pais foram assassinados por Voldemort, mas isso aconteceu porque a nossa sociedade é como é e permitiu isso. — Harry falou lentamente e enfatizou as palavras. — Nossa sociedade permitiu que Voldemort existisse, ele e seus seguidores puristas. No entanto, eu não sou o único jovem que sofre; as crianças que nasceram sem magia são mortas ou abandonadas em um orfanato, apenas porque são diferentes. E o que fazemos sobre isso? O que o nosso Ministério faz sobre isso?

— Boa pergunta. — Dylan disse. — Vivemos em um mundo indiferente, ouvintes. Até um adolescente de 12 anos sabe disso, mas os nossos governantes fingem que é tudo perfeito. Perfeito para eles, que não passam necessidade ou são discriminados!

— A família Potter sempre ajudou o mundo mágico e aqueles que mais sofrem, mas não podemos fazer tudo sozinhos. — Harry disse. — As Fazendas e Feiras Potter continuarão a pagar os seus funcionários com igualdade, não por status de sangue. Continuaremos a apoiar o Orfanato dos Abortos, os lobisomens, os centauros, os elfos domésticos, e não deixaremos de lutar por leis mais justas e inclusivas. Não estou dizendo isso para nos promover, mas para que todos que estão ouvindo façam a sua parte, reclamem e ajam, assim, talvez, um dia, viveremos em um mundo onde ter ou não magia será tão importante como a cor dos nossos olhos.

— Vocês ouviram Harry Potter! Por um mundo cheio de diversidade! Não importa a cor dos nossos olhos! Paz e amor, pessoal! — Dylan gritou. — E, para nos apoiar nessa linda mensagem, ouviremos a música Imagine, do grande mestre John Lennon!

Enquanto a música tocava, Harry e Sirius se despediram de Dylan e sua equipe.

— Legal vocês tocarem música trouxa. — Harry disse, ouvindo a música tocar baixinho na cabine.

— Nós tocamos música boa, Harry, não importa quem a compôs ou a canta, como você disse, eu não escolho pela cor dos olhos. — Dylan sorriu e apertou sua mão com firmeza. — Melhor entrevista, cara, e sua mensagem foi incrível, são coisas assim que as pessoas têm que ouvir! E, sempre que quiser voltar, pode vir, aposto que você nos deu a nossa maior audiência, além da maior do horário!

Dylan estava certo. Como Harry anunciou em sua entrevista no Profeta que pretendia falar na NSPW às 13 horas, o mundo mágico todo se plantou diante dos seus rádios. A audiência foi histórica, e por todos os lados era possível ver as pessoas conversando e opinando sobre as novas Feiras e como isso seria divertido, além de muito mais interessante do que ir a um empório escuro e chato. Também havia muitos comentários sobre o Harry em si, sua doçura, educação, inteligência, amor e dedicação aos seus país e antepassados. Muitos debateram e refletiram sobre suas palavras finais, olharam em volta e perceberam que o jovem Harry Potter estava certo: de fato, o mundo em que viviam não era um mundo muito justo.

Em um casarão velho em Hackney, um bairro pobre de Londres, uma sala de convívio tinha todos os seus jovens moradores sentados nos sofás, poltronas e no chão, ouvindo o rádio atentamente. Naquela manhã, a governanta deixou que lessem as notícias mágicas, algo que não acontecia com frequência, por isso, todos se amontoaram na sala para ouvir o famoso Harry Potter.

A governanta, Sra. Madeleine, teve uma reação muito positiva ao ler no Profeta Diário sobre a inauguração das tais Feiras Potter.

— Essa é uma ótima fonte de trabalho para vocês, meninas, meninos, pois vender não exige magia e os Potter são conhecidos por não fazerem discriminações com abortos. — Ela disse animadamente. — Além disso, poderemos comprar alimentos saudáveis por um bom preço, principalmente leite e ovos, que custam uma fortuna, seja no mundo mágico ou trouxa.

— Mas os elfos não nos fornecem os alimentos? — Cris Egan disse pensativa.

— Claro que sim, mas nunca é o suficiente. — A senhora idosa, gordinha e de rosto rosado sorriu tristemente. — Vocês são muitos, estão crescendo e crescendo, precisam comer sem restrições, por isso, tenho que comprar extra, e as doações nem sempre são tão generosas, vocês sabem. A GER tem sido um grande apoio, mas, com essas Feiras, poderemos economizar, ter mais diversidade e, quem sabe, alguns sapatos novos para todos.

Os adolescentes e crianças na grande mesa acenaram e resmungaram, uns sobre comer algo diferente e outros sobre a ideia de não precisarem usar os sapatos velhos.

— Eu poderia conseguir um trabalho, Sra. Madeleine. — Disse Carl Pucey.

— Não, não. — A governanta acenou negativamente. — Só porque são órfãos, não quer dizer que precisam trabalhar antes da hora. Quero que se dediquem à escola, isso os ajudará no futuro, talvez consigam uma bolsa para algum curso técnico. Eu trabalho aqui há 35 anos e, na época em que era só uma ajudante, vi muitos garotos e garotas largando a escola para trabalhar, e isso é errado. Essas pobres almas sempre tiveram uma vida mais difícil, Carl, assim, não se preocupem e se concentrem em estudar.

— Nós não somos órfãos. — Bella Rosier disse amargamente. — Somos rejeitados, porque não temos magia.

— Esse é só um jeito de falar, Bella, afinal, vivemos em um orfanato. — Disse Maude Flint, e Bella lhe respondeu com uma careta.

— Bem, aproveitem mais esses dias de férias, crianças. — Sra. Madeleine se levantou e começou a dividir as tarefas entre os garotos e garotas. — Se terminarem a tempo, poderão ouvir a entrevista do jovem Potter, depois do almoço.

Todos se esforçaram para terminar suas tarefas a tempo, mesmo que as férias de Páscoa significassem muita limpeza, organização e trabalho extra. Normalmente, ao fim da semana, os jovens habitantes do Orfanato dos Abortos já estavam ansiosos pela volta às aulas.

Assim, todos ouviram a voz suave e gentil falando sobre a história da família Potter, que os membros das famílias de sangue puro conheciam muito bem. Ouviram sobre a importância dos alimentos orgânicos e a explicação de como os alimentos modificados magicamente poderiam afetar negativamente a saúde e magia dos bruxos. Harry Potter também falou sobre o legado que o acompanhava, seu orgulho pelas ações positivas de seus antepassados no mundo mágico e como ele pretendia seguir seus exemplos, multiplicado por três, para compensar o mundo da ausência de seus pais. Ele contou sobre a sua decisão de reativar as Fazendas Potter, recontratar os antigos funcionários que foram demitidos depois da morte dos seus pais e como manteria os salários igualitários, sem classificação por status de sangue. Isso não era um grande feito, ele afirmou, apenas era o certo, que deveria ser feito por todos, mas que infelizmente os puristas donos de empresas continuavam a discriminar – afinal, fazer isso era legal segundo as leis da Suprema Corte.

A entrevista, que deveria ser apenas uma propaganda sofisticada do seu novo negócio, era muito mais do que isso, obviamente. A cada frase, comentário e respostas, Harry Potter ou seu padrinho, se lhe fosse dirigida uma pergunta direta, criticava a sociedade rica purista, o Ministério e suas leis injustas. Até mesmo o Orfanato foi mencionado, os elfos, os goblins, centauros, e como a indiferença tornava a vida de todos eles mais difícil. Isso fez a Sra. Madeleine arregalar os olhos espantada. Assim que acabou a entrevista e a música trouxa, Imagine, começou a tocar, ela saiu da sala e foi para a cozinha, resmungando sobre ter muito o que fazer, mas todos perceberam que a velha governanta estava fungando emocionada.

— Ele parece tão doce, não é? — Maude Flint suspirou. — Eu estaria no ano dele se tivesse magia...

— Vocês acreditam que ele disse essas coisas para valer? — Albina Runcorn disse pensativa. — Quer dizer, vocês acreditam que ele e o seu padrinho poderiam lutar para sermos aceitos?

— Eles podem até querer isso, mas não são poderosos o suficiente. — Gilbert Melrose deu de ombros. — O Ministério, o Partido Conservador, a Suprema Corte, nunca permitirão que eles nos deem mais do que esmolas.

— Bem, eu me contentaria com um bom emprego. — — Cris Egan respondeu. — Já temos sorte por estarmos vivos, então...

— Vivos? — Bella Rosier disse amargamente. — Acha que vivermos nesse casebre e aprendermos a ser trouxas é motivo para comemorarmos a nossa sorte? Você se contenta com pouco, Egan, todos vocês, parecem felizes em se misturarem com os animais...

— Você pode ser uma Rosier e se achar importante, Bella, mas seu avô te jogou aqui exatamente como nossas famílias fizeram conosco. — Katherine Lestrange se levantou. — Só estou viva porque minha avó me contrabandeou da Mansão Lestrange antes que sua querida madrinha, Bellatrix, me matasse quando descobriram que eu era um aborto. — A garota tinha 16 anos e vivia ali desde os quatro, assim, não hesitou em enfrentar Bella, que tinha apenas onze anos e chegara ao orfanato há um ano. — Esse é o meu lar, e, se você não gosta, por que não volta para a Mansão Rosier e rasteja aos pés do seu avô? Talvez ele tenha pena de você e decida usar apenas o Avada Kedrava, sabe, sem te torturar antes. Isso é mais do que a tia Bellatrix teria me oferecido.

— Está tudo bem, Bella. — Maude se adiantou carinhosamente. — Você se acostumará com o tempo, e, se abrir a sua mente, poderá ver que os trouxas não são tão ruins...

— Cale-se! — Bella se adiantou como se fosse lhe dar um tapa, mas se conteve. — Não quero o seu consolo, sua feiosa! Eu odeio esse lugar! Odeio os trouxas! Odeio vocês todos! Odeio o Potter e sua vida perfeita! — Sem poder segurar as lágrimas, Bella saiu correndo da sala. — Eu quero voltar para a minha casa!

O silêncio na sala era triste e pensativo, a música que lhes pedia para imaginar um mundo igual e melhor era um contraste gritante com a realidade de todos.

— Achei a voz dele tão doce. — Suspirou Joan Avery. — Deu vontade de ir nessa tal Feira só para conhecê-lo.

— Bem, não poderemos, pois não podemos aparatar como a Sra. Madeleine. — Disse Katherine, objetiva e prática. — Vamos voltar para as nossas tarefas, temos muito o que fazer antes do jantar.

Ela deixou a sala e muitos a seguiram, acostumados com a sua liderança, pois ela estava entre os mais velhos da casa.

— Acho que Bella tem razão. — Disse Friedrich Smith, olhando chateado para o rádio que estava silencioso depois que Katherine o desligou. — Nem mesmo Harry Potter pode mudar o fato de sermos aberrações...

Em outra casa simples, mas estranhamente torta, a família Weasley ouvia o início dos acordes de Imagine, enquanto Molly limpava os cantos dos olhos com um lenço.

— Doce menino, ele parece tão educado e responsável, obviamente ama muito os pais e sente a falta deles. — Ela disse emocionada. — Essas Feiras são muito interessantes, espero que os preços sejam realmente bons, isso nos ajudaria a economizar sem precisar ir na vila trouxa. Não gosto muito de ir lá, sempre tenho medo de fazer ou dizer algo errado.

— Seria legal irmos na inauguração. — Ginny disse e fez um bico. — Harry conseguiu permissão, acredita que conseguiríamos também?

— Definitivamente, não! — Molly respondeu energicamente. Ela levantou-se da poltrona da sala e, ao olhar pela janela, visualizou uma coruja se aproximando. — Temos uma carta chegando... Harry é o dono das Feiras e das Fazendas, Ginny, não tem sentindo todos os alunos de Hogwarts comparecerem.

— Bem, não todos os alunos, apenas os seus amigos. — Disse George, apoiando a irmã, que lhe sorriu.

— Oh... É aquela coruja gigantesca e assustadora outra vez. — Molly disse sem dar atenção aos filhos.

— Uma carta dos Boot! — Disseram Fred e George ao mesmo tempo e se levantaram do sofá com grandes sorrisos.

— Ora, o que poderia ser? — Molly questionou suavemente.

King entrou pela janela aberta e pousou na mesa de centro, sempre mantendo a postura majestosa. Fred correu a cumprimentá-lo e pegar a carta, enquanto George lhe servia um pote de água fresca.

— Olá, King, o que você tem hoje? Ah, é para você, mãe. — Fred disse, levemente desapontado.

— Vocês não fizeram nada, não é, meninos? — Molly questionou ao pegar a carta.

— Mãe, nós não deixamos a Toca desde que chegamos da estação, seria difícil termos feito algo. — George disse exasperado. — Talvez seja algo sobre a AP ou coisa assim.

— Bem, eu não sou membro dessa tal Associação, então... Ah, ela está convidando-os para passarem o fim de semana ou pelo menos o domingo na Mansão Stone Waterfall... Ora, essa é a propriedade Potter... — Ela disse pensativamente. — Lembro-me da minha avó e tia Muriel falando sobre os lindos bailes e jantares que eles davam na Mansão, todos se divertiam muito e comentavam sobre a beleza do lugar.

— Harry está nos convidando!? — George se aproximou tentando ler a carta. — Para o fim de semana todo!?

— Uau! Um pouco de diversão nessas férias para nós, Georgie! — Fred exclamou empolgado.

— Ei! Não se esqueçam de mim! — Ginny disse sorrindo, pois sabia que estava incluída no convite. — Harry me convidou também, mãe?

— Bem, sim, mas, Ginny, eu não sabia que vocês eram tão amigos. — Molly olhou para a filha, confusa.

— Nos aproximamos depois das férias de Natal. — Ginny disse dando de ombros, como se não fosse importante. — O que ele diz na carta?

— Quem a escreveu foi a Sra. Boot. — Molly respondeu. — Ela diz que o Harry convidou a família para passar o fim de semana na Mansão, para que eles a conheçam e o ajudem a projetar uma pequena reforma. Além disso, existem muitas atividades divertidas na Mansão, e Harry gostaria que seus melhores amigos também pudessem comparecer. A Sra. Boot solicita a minha autorização e do seu pai, e encerra dizendo que podem levá-los direto para a estação na segunda de manhã, se quisermos.

— Legal! — George disse animado. — Podemos ir, certo?

— Bem, preciso conversar com o seu pai... — Molly disse pensativa.

— Mãe! — Fred protestou. — Nos comportamos a semana toda! Nos deixe ir? Por favor?

— Já disse que conversarei com o seu pai quando ele chegar. — Disse Molly com mais firmeza. — Arthur tem andado muito distraído e cabisbaixo, não quero deixá-lo mais preocupado, então o melhor seria vocês ficarem em casa mesmo.

— Mas, mãe...! — George protestou na mesma hora.

— Nada de "mas"! Eu conversarei com o seu pai e, se ele se sentir confortável, podemos chegar a um acordo de vocês irem no domingo, mas não o fim de semana todo. — Molly voltou a ler a carta. — Seus melhores amigos... Ginny, você é um dos melhores amigos do Harry também?

— Sim. — Ginny disse, indo desligar o rádio para não encarar a mãe. — Foi por isso que o Harry me chamou para irmos à festa do Prof. Slughorn, porque somos bons amigos, eu lhe disse isso.

— Ora, você nunca o mencionou em suas cartas, e Ron é do ano dele, mas não foi convidado. — Molly franziu o cenho, pensativa.

— O que tem eu? — Ron apareceu na sala, descendo as escadas. — Já terminei os meus deveres de Poções, mãe, posso fazer um lanche agora?

— Acabamos de almoçar, Ronald, ainda não está na hora do chá. — Molly respondeu mal-humorada. — Harry convidou os gêmeos e Ginny para uma visita, diz que gostaria de passar o fim de semana com seus melhores amigos. Eu apenas fiquei confusa por sua irmã ser convidada também, quando você não foi. Não que eu espere que vocês sejam amigos, mas como têm aulas juntos... — Ela olhou para a filha, que evitava o contato visual. — Como vocês dois se tornaram tão próximos a ponto de ele te convidar para uma festa, e agora para ir à sua casa?

— Bem... — Ginny tentou pensar na explicação mais inocente que agradaria à sua mãe e, ao mesmo tempo, que fugisse da verdade.

— Por causa de nós, mãe. — Fred respondeu um pouco rápido demais.

— Sim, mãe. — George, que mentia melhor, assumiu o conto. — Ginny passa muito tempo conosco e nós com o Harry, então eles acabaram se aproximando, pois adoram quadribol e as aulas de Feitiços.

— Harry é o melhor em Feitiços do seu ano e eu sou a melhor do meu. — Ginny disse, sorrindo aliviada. — E também conversamos muito sobre quadribol, ele é o apanhador mais novo de Hogwarts em um século, mãe!

— Hum... ok. — Molly respondeu pensativa, pois tinha a sensação de que seus filhos estavam escondendo informações, mas supôs que era apenas uma impressão, afinal, por que eles mentiriam sobre algo tão inofensivo?

— Espera... — Ron se aproximou mais da mãe e tentou ler a carta. — O Harry convidou vocês três para a casa dele, mas não me incluiu?

— Vocês são amigos? — Molly questionou. — Aqui diz que ele quer passar o fim de semana com seus amigos em sua propriedade familiar.

— Bem, não somos muito próximos, mas eu também faço parte do...

— Grupo de estudos! — Ginny disse. — Nós fizemos um pequeno grupo de estudos para ajudar os petrificados a recuperarem as matérias perdidas, e Ron ajudou algumas vezes. — A mentira fez Ron corar, pois percebeu que quase falou do Covil.

— Ora, Ron, parabéns por ajudar os seus colegas, você deveria ter me contado. — Sua mãe acariciou o seu cabelo com ternura, mas ele se esquivou, constrangido. — Mas isso não o torna amigo do Harry, ainda que não entenda muito bem por que Ginny e ele se tornaram tão próximos e tão rapidamente. Iniciarei a preparação do chá e lhes darei uma resposta à tarde, meninos, depois de conversar com seu pai.

Ela seguiu para a cozinha e Ron se viu enfrentando três pares de olhos zangados. Se encolhendo, ele se decidiu por uma retirada estratégica e disse, apressadamente.

— Eu te ajudo, mãe.

Arthur tirou dois dias de folga depois dos acontecimentos de segunda-feira. Bones lhe enviou uma carta ordenando que ficasse em casa, descansasse e passasse um tempo com seus filhos antes que eles voltassem para a escola. Ela prometeu que não descontaria do seu salário e que ninguém saberia onde o comensal da morte traidor esteve escondido por todos esses anos. Ao ler a mensagem autoritária, mas gentil, Arthur quase chorou de tristeza e gratidão.

Assim, por dois dias, ele passou um tempo com Ron, jogando xadrez e perdendo espetacularmente, além de ouvir sobre seus amigos, aulas e sonhos. Seu menino queria muito jogar quadribol pela Gryffindor e ser alguém importante um dia. Ron não parecia perceber, e Arthur também tinha que admitir que nunca notou antes, o quanto seu filho se sentia apagado e sufocado por seus irmãos brilhantes. Ele tentou incentivar o garoto sonhador e imaturo a valorizar suas qualidades e se esforçar para conquistar seus sonhos, não importava que fosse algo tão simples como ser o capitão de quadribol.

Com os gêmeos, Arthur ouviu em detalhes sobre a empresa da qual eles eram sócios, a MagiTec, e sobre os avanços nas pesquisas, além dos seus projetos pessoais e como pretendiam iniciar a fase de testes em alguns meses. Orgulhoso era pouco para descrever como Arthur se sentiu ao ver seus entusiasmos, olhos brilhando e ideias fervilhando. Uma parte dele queria se juntar a esse mundo de invenções e projetos revolucionários, lembrando-se da sua própria juventude e se perguntando quando deixou de ser um inventor e se tornou... bem, isso que ele era hoje.

Com Ginny, Arthur voou, muito impressionado por seu talento; nem parecia que ela tinha aprendido a voar há apenas alguns meses! Ele também ouviu o seu segredo: sua menina era a nova apanhadora do time de quadribol da Gryffindor! Ele nunca se sentiu tão orgulhoso e feliz ao ver sua alegria e prazer em falar sobre os treinos, os colegas de time, como os gêmeos a aceitaram completamente e como o seu capitão, apesar de meio maluco, confiava em seu talento.

Ele também passou um tempo com o Bill, quando saíram durante sua folga no The Bar para tomar uma bebida no The Bar. Conversaram sobre seu trabalho no Gringotes, as viagens, as garotas, e Arthur quase ficou com inveja do seu filho e da vida cheia de aventuras que ele tinha. Quase, porque uma vida de aventuras nunca foi a vida que Arthur quis para si mesmo; ele sempre quis o que tinha: uma família grande, uma esposa amorosa e um bom trabalho para sustentá-los. A ausência de dinheiro era apenas um detalhe que nunca interferiu na sua felicidade e da sua família, pelo menos até agora.

E aí entrava a sua tentativa de passar um tempo com o Percy, que se mostrou frio e distante. Arthur percebeu que Percy era o mais chocado, além dele mesmo, pela descoberta de Pettigrew, mas, ao tentar saber o que o filho pensava ou sentia sobre isso, apenas ouviu palavras amargas de volta.

— Se tivéssemos dinheiro para livros e animais de estimação, eu nunca teria me apegado a um rato feioso qualquer.

Observando o filho se afastar, percebeu o seu ressentimento por permitir que algo como aquilo tivesse acontecido com ele. Mas era a falta de dinheiro a responsável por Pettigrew viver na sua casa por onze anos? Será que, se tivessem dinheiro para livros, filhotes de cachorros e gatos, o rato seria tratado com indiferença por seus filhos? É possível que, se não tivesse que trabalhar tantas e tantas horas extras, ele teria percebido que o rato de estimação da família vivia muito além do normal, ou teria notado algum comportamento estranho do rato? Arthur sentia que não havia como ter certeza, mas poderia dizer que era isso que Percy acreditava, e lhe preocupou que seu filho estivesse tão ressentido com ele.

Percy era muito responsável e maduro, então se destacou facilmente em seu trabalho no The Bar. Mesmo que fossem simples, Percy realizava suas funções com perfeição e ganhou muitos elogios. O gerente garantiu que o contrataria durante o verão e que, se continuasse a se sair tão bem, poderia servir algumas mesas e ganhar algumas gorjetas. Arthur se sentiu orgulhoso do filho e o felicitou, mas Percy apenas deu de ombros, pouco interessado.

— É apenas um trabalho, não ficarei feliz por ser um bom lavador de pratos. — Disse ele sarcasticamente, e Arthur sentiu o golpe que eram as suas palavras.

— Ainda assim, me sinto orgulhoso por sua dedicação. — Ele disse suavemente.

— Obrigado, apenas não espere que eu continue por aqui depois desse verão. Quero conseguir um estágio no Ministério no ano que vem, assim que me formar, e, então, uma vaga em um dos Departamentos, quem sabe como assistente de um dos Chefes. — Percy disse, mostrando a sua ambição e seu entusiasmo.

— Isso seria maravilhoso! — Arthur sorriu. — Você já sabe em qual Departamento gostaria de começar? Eu poderia conversar com...

— Não! — Percy exclamou em tom mais alto e calou o pai abruptamente. — Isso não é necessário, eu posso conseguir por mim mesmo. Afinal, mesmo que toda essa história de Pettigrew tenha sido abafada, muitos ainda devem saber que o senhor... bem... — Percy pareceu perceber o que estava dizendo e ficou constrangido, mas não voltou atrás. — Não preciso que interfira em meu nome, obrigado.

— Entendo o que está dizendo, mas ainda tenho o respeito de meus amigos, inclusive de Amélia, ou ela não me mostraria tanto apoio. — Arthur se defendeu, magoado. — Mas você está certo, filho, eu não devo interferir em seu nome, isso seria nepotismo, o que é errado. Além disso, você é mais do que capaz de conseguir uma vaga por si mesmo.

Depois disso, a relação com seu filho do meio ficou meio estranha e constrangedora, mas Arthur tinha outras preocupações em sua mente naquela quinta-feira de manhã, como saber se era verdade que ele ainda tinha o respeito de seus colegas de trabalho e amigos. Apesar de saber que Amélia abafou a verdade, Arthur também sabia que o Departamento de Leis e seus subdepartamentos teriam a informação, pois, afinal, eles estavam investigando e processando Peter Pettigrew.

Assim, controlando a ansiedade, Arthur entrou no quartel dos aurores, se preparando para os olhares e expressões de pena. No entanto, o quartel estava relativamente vazio, e ele percebeu que tinha chegado muito cedo. Os poucos aurores olhavam seus papéis e arquivos com expressões cansadas, olhos sonolentos e bocejavam sem constrangimento. O turno da noite não tinha acabado, e Arthur percebeu que aquele pessoal não sabia de nada, pois não lhe deram a mínima atenção quando passou entre as mesas. Antes de chegar ao fim do quartel e seguir para o corredor que o levaria para a sua minúscula sala, a secretária de Amélia, Gertrudes Tooting, o abordou e gesticulou silenciosamente que deveria ir para a sala da chefe.

Suspirando e tentando afastar a vergonha, Arthur a seguiu sem palavras, pois não havia nada a dizer, e logo se viu em frente à sua amiga de longa data.

— Como está? — Ela disse em tom suave quando ficaram sozinhos.

— Eu... — Arthur se viu desconcertado, pois esperava que ela ainda estivesse zangada, fria e desapontada. — Bem, na medida do possível.

— Quero lhe pedir desculpas por ter sido tão dura. — Bones disse. — Eu deixei que os meus sentimentos interferissem, e isso não foi muito profissional ou amigável. Eu deveria ter lhe oferecido o meu apoio e não apenas críticas.

— Não, Amélia, não! Você estava certa! — Arthur disse. —Tudo o que disse era a mais pura verdade, e... Eu não sei o que fazer com tudo isso, sinceramente. — Ele se sentou, cansado, enquanto Bones se acomodou na cadeira ao seu lado, e não na que estava do outro lado da mesa. — Eu me sinto perdido, chefe, perdi o meu chão, e tudo o que pensava que sabia... se foi.

— Você sabe que terá sempre o meu apoio e amizade, além do apoio da sua família, então descubra o que quer fazer, Arthur, e faça. — Bones disse objetivamente. — Enquanto isso, algumas mudanças acontecerão na Seção de Controle do Mau Uso dos Artefatos Trouxas.

— Mudanças? — Arthur ajeitou os óculos ansiosamente. — Que mudanças?

— Para começar, você poderá contratar mais um funcionário e um estagiário. — Bones se levantou e gesticulou para saírem da sala, seguindo pelo corredor até um outro que levaria à sala de Arthur. — Nós reformamos o seu escritório, adicionamos o armário de vassouras que não tinha nenhuma utilidade prática e pegamos um dos escritórios da Administração da Suprema Corte, que, pelas camadas de poeira, não estava sendo utilizado por ninguém há décadas.

Arthur a acompanhou automaticamente e com a boca aberta de choque.

— Funcionário? Estagiário? Reforma? — Ele repetiu incompreensivelmente.

— Sim. — Eles se aproximaram da sua sala e não havia outra porta ao lado, onde antes era o armário de vassouras. — Veja.

Arthur entrou na sala, anteriormente pequena e suja, que continha duas mesas abarrotadas de arquivos – mas que agora estava muito diferente. A parede que separava a sala do armário de vassouras tinha sido removida, assim a sala tinha o dobro do tamanho normal e apenas uma mesa, o que fazia uma grande diferença. Na parede do fundo, outra porta foi aberta, revelando um escritório pelo menos três vezes maior que a sala ampliada, onde a sua mesa estava posicionada da mesma maneira que o escritório de Bones, de onde Arthur saiu momentos antes.

— Mas...

— Uma antessala para os dois funcionários e o estagiário, que, acredito, ficarão relativamente confortáveis, e sua sala independente. — Bones disse e caminhou até lá, com Arthur a seguindo bobamente. — Como pode ver, você tem espaço aqui, inclusive para uma mesa de reuniões, Arthur, e já disse para o pessoal da Manutenção Mágica que devem ficar a postos para o que vocês precisarem e providenciar tudo até segunda-feira. — Bones olhou em volta para a sala, que era quase tão grande como a sua e combinava mais com o que um Chefe de Departamento merecia. — Então?

— Eu... é incrível, Amélia, eu... realmente... Obrigado. — Arthur não se conteve e a abraçou fortemente, sentindo seus tapinhas constrangedores em suas costas.

— Ok, ok, não é nada de mais, e já teria feito essas mudanças antes se você tivesse me dito que trabalhava em uma maldita caixa suja. — Eles se afastaram e Bones o encarou levemente zangada. — Por Merlin, Arthur, o lugar não servia nem para o meu cachorro dormir, quanto mais para vocês trabalharem. — Bones expressou o seu choque ao visitar o local. — Se ainda não tiver espaço suficiente, requisite ao pessoal da Manutenção Mágica que amplie magicamente o espaço. Alguns poucos metros não serão tão complicados, ora. — Disse ela, pois sabia que, com todas as magias da construção no subsolo, era difícil fazerem magias estruturais de ampliação sem afetar outras estruturas. — E qualquer outro equipamento, reforma ou móvel que vocês precisarem, peça também; se alguém lhe negar, não hesite em falar comigo. Eu sou sua chefe, afinal, e é meu trabalho cuidar da minha equipe.

Arthur apenas acenou emocionado e olhou em volta, imaginando o que mais eles precisavam. Ao se aproximar da sua mesa, ele notou um bilhete de Perkins, avisando ter saído para uma ocorrência em Dover.

— Arquivos, sim, precisamos de armários de arquivos para colocar todas as pastas dos casos. — Arthur disse e sorriu mais empolgado. — E janelas! Claro! Janelas para iluminar o ambiente, é horrível não ter janelas, é como estar em uma caixa! — Bones acenou e sorriu para a sua alegria. — Mais um funcionário e um estagiário! Isso é incrível! Quem eles serão?

— Não sei, você deve entrevistar e contratar quem achar melhor para as funções. — Bones deu de ombros.

— Mesas, precisamos de mesas e cadeiras novas para todos nós, essas aqui que o Perkins e eu usamos estão em péssimo estado. — Arthur continuou. — Uma mesa de reuniões, nada muito grande, seremos apenas quatro, afinal... Quatro! Amélia! Seremos quatro! — Ele riu, e Bones o acompanhou. Como sempre, a surpreendia como seu amigo era forte e resiliente, além de nunca precisar de muito para ser feliz.

Quando Arthur voltou para a casa no fim daquele dia, seu sorriso e empolgação eram visíveis. Seus filhos o esperavam para beijos e abraços, decididos a fazê-lo se sentir melhor depois de um dia difícil no Ministério, mas logo perceberam que não era necessário.

— Maravilhoso! Tive um dia maravilhoso! — Ele disse, e, sentando-se à mesa, contou a eles sobre sua nova sala, nova mesa, nova cadeira, nova janela, nova mesa de reuniões e, em breve, novos contratados. — Já marquei entrevistas para amanhã pela manhã e estou muito empolgado! Perkins está nas nuvens que agora teremos ajuda e um arquivo de verdade para arquivar os nossos casos!

— Isso é maravilhoso, Arthur. — Disse Molly emocionada. — Você merecia isso há muito tempo, querido.

— Com certeza, papai. — Fred disse, e os outros acenaram. Mesmo Percy teve de reconhecer que seu pai era merecedor dessas mudanças.

— Seu salário aumentou também? — Ele perguntou, imaginando que isso poderia significar que seu pai não precisaria ter um segundo emprego.

— Salário? — Arthur ajeitou os óculos e arregalou os olhos. — Ora, eu nem pensei em pedir um aumento de salário, mas acredito que Amélia teria mencionado se isso fosse uma possibilidade.

Percy apenas acenou, enquanto, internamente, refletia que era típico do seu pai esquecer o mais importante ou não considerar as coisas práticas da vida. Pedindo licença para se arrumar para o trabalho no The Bar, Percy imaginou quantas outras oportunidades como essas o seu pai deixou passar, mantendo a vida da família tão pobre e difícil por todos aqueles anos. Ele não faria o mesmo, pensou orgulhosamente, não perderia as oportunidades e não seria um tolo sonhador que ficava tão alegre com um maldito arquivo.

Fred, George e Ginny mencionaram ao pai o convite do Harry. Molly não gostou, pois pretendia falar com o marido em particular, mas Arthur acenou sorridente.

— Deixe-os se divertirem, Molly. — Ele disse. — Os três têm excelentes notas, estão se comportando muito bem e merecem um pouco de diversão amigável antes de voltarem para a escola e se concentrarem nos exames. — Ele deu uma piscadela aos filhos, sabendo que, até o jogo final do campeonato, eles não se preocuparão com exames; os três riram. Enquanto isso, Ron fez uma careta ao pensar nos irmãos se divertido e na proximidade dos exames. — Ron, já que você tem o fim de semana livre, o que me diz de vir comigo ao meu trabalho? Você pode conhecer meu novo escritório e me ajudar a arrumar os arquivos.

Ron arregalou os olhos ao pensar em todo o trabalho que teria, mas George lhe deu um cutucão e a voz saiu com a resposta certa.

— Claro, pai! — Ele disse, sorrindo meio sem graça. — Hum, será que eu poderia ir com o senhor e o Percy no seu trabalho no The Bar também? — Ir ao Beco Diagonal, olhar a nova loja de material esportivo e comer um hambúrguer gigantesco parecia bem mais interessante do que arquivar pastas, pensou Ron.

— Essa é uma ideia brilhante! — Arthur disse animado, e se sentiu mais feliz do que em muitos dias.

Amélia estava certa, considerou. Desde que tivesse sua família ao seu lado, o resto ele descobriria no seu devido tempo. E, ignorando o olhar tristemente pensativo de sua filha ou a ausência do ressentido Percy, Arthur voltou a mergulhar na ilusão do seu mundo perfeito.

Olhando pela janela do táxi, Harry observou a chuva que caía forte e incessantemente em Londres naquela manhã e suspirou. Tia Petúnia o proibiu de ir correr no parque por causa de toda aquela água, que mais parecia uma cachoeira vindo diretamente do céu.

— Você poderia adoecer, Harry, é melhor que faça seus exercícios sem correr.

Essas foram suas palavras, e Harry a atendeu, mas ainda se sentia inquieto e cheio de energia. Ele tinha que confessar que não se lembrava da última vez que não correra pela manhã, o stress dos últimos dias se acumulava em seus ombros e correr sempre ajudava com isso. O pensamento de dois dias inteiros com muita diversão despreocupada, sem problemas, empresas, traidores, Voldemort, guerras e tudo o mais não lhe deixava a mente. Hoje, ele tinha mais um dia diferente antes dessa folga merecida por todos, pois ele sabia que não era o único que teve dias, semanas e meses difíceis.

Os Boot perderam a Sra. Honora, Adam foi sequestrado, Duda e sua tia enfrentaram o divórcio e a prisão de Vernon, Ginny foi quase morta por Riddle, Hermione foi petrificada, e Terry, Neville, os gêmeos e ele mesmo passaram momentos complicados em todas essas situações. Talvez fosse a inesperada prisão de Rabicho, mas Harry se sentia incrivelmente esperançoso de que as coisas ficariam mais pacíficas nas próximas semanas, ou, quem sabe, meses. Bem, não doía nada sonhar, não é?

— Tem certeza de que quer ir comigo? — A voz de Sirius o despertou de seus pensamentos estranhamente otimistas. — O lugar era horrível quando eu era criança, não imagino que algo tenha melhorado depois de todos esses anos em que a casa esteve vazia.

— Eu já lhe disse que quero ir com você. — Harry respondeu, desviando o olhar da chuva que caía constantemente para encarar o padrinho. — Você me acompanhou quando eu conheci Stone Waterfall e teria estado ao meu lado se eu sentisse a necessidade de conhecer o Chalé Iolanthe antes da sua destruição. Acho melhor você admitir que o seu constante questionamento sobre eu querer ir com você tem mais a ver com sua própria hesitação do que comigo. Além disso, já estamos no táxi a caminho, Sirius, não tem como desistir agora.

Sirius suspirou mal-humorado.

— Você está certo... apenas odeio aquele lugar. — Ele disse suavemente, ao olhar para o dia caótico e como o táxi prosseguia lentamente no trânsito congestionado. — Deveríamos ir por aparatação, não é tão longe, mas...

— Você não sabe como está o local ou as alas que selam a casa. Está tudo bem, andar de táxi não é ruim, e isso lhe dá tempo para se preparar. — Harry disse. — Talvez possa me dizer o que ou por que odeia a casa.

— É difícil explicar, apenas me ocorre que odeio tudo, mas quando você a vir, entenderá, acredite. — Sirius respondeu.

— Bem, então me conte o que planeja na reforma. — Harry sugeriu para passar o tempo. — Isso é um bom pensamento, certo? Destruir a casa e reerguer outra no lugar, literalmente.

Sirius riu com o pensamento muito bom, depois acenou negativamente.

— A estrutura da casa é bem sólida e boa, as alas antigas quase impenetráveis, então destruir tudo seria tolice. — Ele admitiu. — Mas, internamente, tudo poderia desaparecer, com certeza.

— E quais as suas ideias? — Harry mostrou curiosidade.

— Bem, a cozinha fica no porão e eu sempre detestei isso, então acho que a traria para cima, no térreo. — Sirius explicou. — O porão poderia ser transformado em uma grande despensa e câmara fria, como a que tem em Stone Waterfall. Os armários dos elfos ficam no porão também e seriam incorporados a essa nova configuração. — Harry acenou entendendo. — Tem espaço o suficiente para um pequeno laboratório de Poções, mas acho que um escritório para a administração das contas da casa seria o melhor, pois uma governanta ou cozinheira precisa de um local para fazer esse trabalho. O térreo tem uma biblioteca enorme, uma grande sala de visitas, uma enorme sala de jantar formal, uma pequena sala com a tapeçaria da família e o hall de entrada.

— Você poderia incorporar a sala de jantar e a sala com a tapeçaria, talvez a sala de visitas também, e fazer uma grande cozinha, com uma área informal para as refeições. — Harry disse pensativo.

— Sim, eu gosto. — Sirius disse. — Abrimos mais o hall, que é muito estreito, e ele pode sair direto nas escadas para o primeiro andar e nas portas dessa nova cozinha e da biblioteca. A biblioteca é enorme e pode ser dividida, acho que acrescentaria um pequeno escritório para reuniões de negócios, assim como o que você fará em Stone Waterfall.

— Sim, porque isso impede que você leve estranhos para mais dentro da casa. — Harry disse. — O visitante tem acesso apenas ao hall de entrada e ao escritório, não precisa acessar a parte familiar da Mansão.

— Bem, então, no primeiro andar tem um escritório, era onde o meu pai passava a maior parte do seu tempo. — Sirius disse, com uma nota de amargura na voz. — Mas como estava casado com a minha mãe, eu não posso culpá-lo, não é? Nesse andar também tem uma sala de estar para a família, a sala de música e um solário com saída para o jardim dos fundos. O espaço externo é pequeno, afinal estamos no meio de Londres, mas, com um toque de magia, minha avó construiu uma pequena estufa, um orquidário, pois orquídeas eram suas flores favoritas, e uma pequena área de jardim com gramado, canteiro de flores e um pátio de pedra com cadeiras para receber suas amigas. — Seu olhar se tornou distante, lembrando-se da infância. — Quando ela morreu, minha mãe, que não tinha amigas ou gostava de receber pessoas, desfez o pátio e o orquidário, plantou rosas por toda a parte, pois eram as suas flores favoritas, e fez o jardim parecer um cemitério, por causa do cheiro de flores mortas e da escuridão causada pela cerca viva que foi acrescentada na cerca. Minha mãe detestava ter trouxas como vizinhos e dizia que as cercas vivas mantinham a privacidade dos olhares curiosos dos animais.

Harry franziu o cenho ao ouvir sobre essa mulher que parecia detestável, mas não disse nada, afinal, ela era a mãe do seu padrinho.

— Hum... como se acessava o jardim pelo solário, se ele está no primeiro andar? — Ele perguntou, levemente confuso.

— Ah! Existe uma escada que desce do solário para o jardim, claro. — Sirius explicou. — Tem uma porta de acesso do térreo também, na sala de visitas, mas, como raramente recebíamos visitas, nunca a usávamos. Para a família, o mais comum era usar as escadas do solário.

— Ok. Imagino que o segundo andar tenha os quartos? — Harry especulou.

— No segundo, terceiro e quarto andares é onde estão os quartos. — Sirius disse, sorrindo ao espanto do afilhado. — O quê? É uma mansão! De uma família riquíssima, antiga e esnobe, assim, tínhamos que ter a maior das mansões! Claro que, se algum Black além de mim tivesse visitado Stone Waterfall, descobriria a verdadeira grandiosidade. — Harry apenas acenou, não poderia dizer muito sem parecer que estava se gabando, mas concordava totalmente que sua propriedade familiar era especial. — E, por ser uma propriedade urbana, a mansão cresceu em altura quando foi necessário. Lá também tem um sótão bem espaçoso, onde era o quarto da minha mãe. Poderiamos fazer um corujal bem quente e bonito para as corujas da família.

— Quantos quartos são no total? — Harry perguntou curioso.

— São 18 quartos, seis em cada andar, mais o sotão. — Sirius disse. — Alguns são mais pequenos, os de hóspedes, mas os quartos da família são maiores e têm banheiros conjugados. O meu quarto e o de Regulus ficavam no quarto andar. — Sua expressão ficou sombria e triste.

— Você nunca soube o que aconteceu com o seu irmão? — Harry disse bem baixinho e Sirius deu de ombros, tentando aparentar indiferença.

— Na época em que ele desapareceu, o boato entre as fileiras de comensais da morte era que Regulus tinha deserdado. — Sirius disse sombrio. — Assim como eu, meu irmão foi incentivado pela minha família a se tornar um comensal da morte. Mas ao contrário de mim, Regulus admirava Voldemort e seus feitos, vivia colando na parede do seu quarto reportagens do Profeta que falavam sobre seus ataques, assassinatos de trouxas ou nascidos trouxas. Aos 16 anos, já tinha tomado a marca e parecia deslumbrado pelo discurso de limpar o nosso mundo dos imundos sangues ruins. — Harry sentiu o seu estômago embrulhar ao ouvir isso. — Para mim, sua deserção não fazia sentido, principalmente se considerarmos que ele desapareceu sem dizer nada à nossa mãe, com quem era muito apegado. Soube que ela ficou inconsolável, chamando e clamando por sua volta sem parar durante meses.

— Mesmo que sua fuga fosse verdadeira, é difícil acreditar que Regulus não retornaria quando a guerra teve fim, com a destruição do corpo de Voldemort. — Harry considerou.

— Exatamente. Eu acreditei, a princípio, que ele tinha se arrependido e fugido sem dizer nada aos meus pais para mantê-los seguros de um interrogatório de Voldemort. — Sirius suspirou, e eles ouviram o taxista resmungar um palavrão quando um carro os fechou. O aguaceiro continuava e o barulho da chuva batendo violentamente no carro impedia que a suave conversa deles fosse ouvida. — Não me surpreenderia que Regulus tenha percebido tarde demais que o que ele acreditava ser uma aventura heroica para os bruxos puros não passava de uma matança cruel e sem sentido. Ele era tão jovem e tinha um coração justo, mas sua mente havia sido moldada desde criança e nada o fazia ver além das crenças puristas. Incrivelmente, Regulus realmente acreditava que estava do lado certo. Entende?

— Ele acreditava na causa dos puristas e que os nascidos trouxas eram invasores. — Harry acenou compreendendo.

— Sim, mas aposto que matar não lhe pareceu tão heroico e correto. — Sirius deu de ombros. — Então eu pesquisei um pouco aqui ou ali, tentando descobrir o que poderia ter acontecido com ele. Não era fácil, mas, entre os comensais da morte menos importantes, a certeza era de que ele fugira. Eu escrevi para Narcisa, ela já estava grávida de Draco e tinha se afastado de mim, assim demorou meses para que ela conseguisse me enviar um pequeno bilhete. Suas informações eram bem simples, e essa era a crença do círculo interno de Voldemort, ou seja, Lucius e Bellatrix, mas não uma informação do próprio Voldemort, que não falara uma palavra sobre o assunto. — Sirius estava meio pálido agora. — Regulus se arrependeu e tentou sair. Não fugir, mas deixar de ser um comensal, e Voldemort o matou por isso.

Harry acenou e esperou a continuação, mas Sirius não disse mais nada.

— E? — Ele perguntou, curioso pelo fim da história.

— E, nada. Era impossível interrogar Voldemort, não há como saber o que ele fez com o corpo; tudo o que sabemos é que Regulus foi assassinado por seu mestre em 79. — Sirius disse em tom de encerramento.

— Ok. Mas você acabou de dizer que essa era a teoria dos comensais mais próximos a Voldemort, e que ele próprio nunca falou sobre o assunto, portanto, isso não é verdade. — Harry disse convicto, e Sirius o encarou surpreso. — Sirius, essa era a crença deles, não uma informação, pois a fonte da verdade nunca falou nada. Certo?

— Bem, sim, mas o que mais poderia ter acontecido? — Sirius abriu as mãos impaciente. — Já estipulamos que, se meu irmão tivesse fugido, ele teria retornado ao fim da guerra.

— Eu não sei o que aconteceu, mas Voldemort não o matou. — Harry disse com firmeza.

— O que te faz ter tanta certeza? — Sirius sussurrou surpreso.

— Eu conheço Voldemort. — Harry se virou no banco para encarar o padrinho nos olhos. — Ele adora falar de si mesmo, de se gabar, se vangloriar e dizer o quão incrível, poderoso e esperto ele, e só ele, é.

— Ok? — Sirius disse em tom de interrogação.

— Pense, Sirius. Acredita que, se o seu irmão pedisse para sair ou tentasse fugir e Voldemort o matasse, ele ficaria calado sobre isso? — Harry riu incrédulo. — Nem que ele fosse mudo. Merlin, o homem não consegue ficar um minuto sem se gabar, posso até imaginá-lo com uma mulher, falando sobre a sua beleza perfeita e performance sexual incomparável.

— Performance... — Sirius o encarou incrédulo, e depois explodiu em uma gargalhada, misturada com uma careta de nojo. — Muito obrigado por colocar essa imagem horrível na minha mente... — Ele riu mais e Harry o acompanhou. — Ok, continue seu raciocínio.

— Bem, se isso tivesse acontecido, Voldemort teria dito a todos, teria feito um show, exibido o corpo do seu irmão, talvez o torturaria antes de matá-lo na frente dos mais jovens, para ensinar uma lição. — Seus olhos se tornaram duros e sombrios. — "Vejam o que acontece com quem me trai, com quem ousa tentar me desagradar e esquecer quem é o mestre! Mais alguém quer partir? Mais alguém esquecerá pelo que lutamos? Virará as costas para a nossa causa?" — Sua voz se tornou fria e Sirius se arrepiou.

— Merlin, realmente parecia Voldemort, quer dizer, algo que ele diria e faria. — Sua expressão se tornou sombria. — Você está certo, Harry... Merlin me ajude! O que pode ter acontecido com Regulus? Se Voldemort não o matou, tudo pode ser possível, talvez... bem, talvez ele realmente fugiu e vive em alguma praia quente por aí. Meu irmão amava ir para praias de águas quentes, ele detestava nadar em águas frias.

— Acho mais provável que ele tenha sido morto por alguém que escondeu a informação de Voldemort. — Harry disse pensativo. — O silêncio de Voldemort nos diz algo, Sirius. Se ele soubesse com certeza da fuga, Voldemort faria um escarcéu, enviaria bruxos para encontrá-lo e capturá-lo.

— Mas, segundo Narcisa me disse, Voldemort nunca tocou no assunto. — Sirius disse pensativamente. — Quer dizer que ele não sabia o que tinha acontecido com Regulus...

— Claro que ele nunca tocou no assunto. — Harry disse ironicamente. — Voldemort jamais admitiria para ninguém, mesmo o seu círculo interno, que ele não sabia do paradeiro de Regulus. Seria o mesmo que admitir uma fraqueza ou que foi enganado por um garoto de 18 anos, que fugiu dele sem deixar vestígio. Aposto que, quando o boato de que ele o matou se espalhou, Voldemort deixou as coisas assim, pois era mais conveniente. — Sirius acenou concordando. — E já sabemos que os comensais da morte faziam coisas sem que Voldemort soubesse. Caspiana ficou sequestrada por quase dois anos, Caradoc foi assassinado... então é possível que algum deles também tenha matado Regulus escondido do seu mestre. Talvez seu irmão tenha descoberto o que Lestrange e Selwyn faziam, ameaçou contar...

— Não, não, a data não bate. — Sirius disse rapidamente. — Regulus desapareceu em 79, alguns meses depois de terminar Hogwarts, e Caspiana foi sequestrada em 80, alguns dias antes de você nascer, na verdade. Mas o seu raciocínio está correto, Harry. Se Regulus tentou fugir ou comentou com alguém sobre isso, se descobriu alguém fazendo algo que desagradaria a Voldemort e foi assassinado, essa pessoa esconderia a informação a todo custo.

— Mas se essa pessoa pegou Regulus fugindo e o matou, por que temeria contar ao Voldemort? Em teoria, essa ação não deveria tornar esse comensal um herói? — Harry mostrou sua confusão.

— Não exatamente. — Sirius tentou se lembrar daquele período. — Voldemort gostava de controlar tudo, e ficaria zangado por seu servo não ter trazido Regulus vivo, para que ele mesmo o punisse. Talvez seja bobagem, mas muitos temeriam seu temperamento. No entanto, eu acho que o real motivo não foi esse, se é que isso aconteceu. Com a minha expulsão da família e Regulus servindo em suas fileiras, Voldemort teria acesso à herança Black, pois duvido que meus pais ou meu irmão lhe negariam um único nuque.

— Mas a morte de Regulus colocaria um fim a isso. — Harry arregalou os olhos. — Claro! Voldemort ficaria furioso! Se essa pessoa tivesse trazido seu irmão vivo até ele, Voldemort encontraria um jeito de controlá-lo e manter o acesso a uma das maiores fortunas do mundo mágico!

— Sim. — Sirius acenou pensativo. — Isso me parece plausível, mas não há como ter certeza, é claro. Provavelmente, eu nunca saberei o que aconteceu com Regulus.

Ele ficou em silêncio, olhando a chuva que caia sem parar pela janela do táxi. Harry respeitou sua tristeza e se perguntou se apenas a sua presença ajudaria o seu padrinho a enfrentar os seus fantasmas. Talvez a Denver devesse ter vindo também...

— Estamos quase chegando! — O taxista disse em tom de desculpas. — Lamento que tenhamos demorado tanto para chegar, senhor.

— Está tudo bem. — Sirius disse com um sorriso suave. — Não estamos com pressa.

— Graças a Deus. Aqueles engomadinhos da City já teriam ameaçado cassar a minha licença. — Ele disse enquanto virava em uma rua residencial, que parecia muito sombria por causa das inúmeras árvores segurando o pouco da claridade do dia.

— Os engomadinhos da City não valem a goma dos seus colarinhos, senhor. — Harry disse, e o homem gargalhou.

— Sim! Exato! Muito bom! Vou usar essa, se não se importar. — Ele disse divertidamente.

— Fique à vontade. — Harry riu e acenou negativamente ao refletir sobre o absurdo da situação.

— O quê? — Sirius se mostrou curioso por sua expressão.

— Apenas algo que Vernon dizia às vezes. — Harry disse e deu de ombros. — Ele vivia dizendo que os engomadinhos da City...

— Que são...? — Sirius se mostrou perdido.

— Ah! São os empresários e outros profissionais que trabalham nos escritórios situados na Cidade de Londres ou City, como é chamada. A City é o centro financeiro de Londres, tem apenas prédios de escritórios, bancos, a bolsa de valores, e é onde acontecem as maiores negociações. Dinheiro alto, sabe. — Sirius acenou entendendo. — Então, os engomadinhos da City, que usam seus ternos caríssimos, esnobam os empresários do subúrbio e dos distritos industriais como o meu... quer dizer, como Vernon. Claro que essas empresas também fazem grandes negócios, mas com bem menos dinheiro, e isso os faz "pobres" para os empresários da City.

— Ok. Então esses caras que se acham os melhores porque lidam com mais grana, esnobam outros empresários e maltratam taxistas? — Sirius perguntou e Harry acenou. — Isso os torna piores em minha opinião.

— Com certeza. — Harry riu. — O engraçado foi eu me ver repetindo algo que o Vernon costumava dizer, entende? "Os engomadinhos da City não valem a goma de seus colarinhos". — Ele disse, imitando a voz de seu ex-tio.

— Bem, suponho que é impossível esquecer completamente o fato de que viveu dez anos com o homem. — Sirius considerou e Harry acenou. — E como está o Duda?

— Estranho. — Ele respondeu sincero. — Parece querer muito ajudar o pai, mas não sei se ele sabe como, e isso o deixa silencioso, pensativo. Eu nunca o vi assim, na verdade. A surpresa está pronta para domingo? — Harry lembrou-se de repente.

— Tudo certo. — Sirius olhou em volta, reconhecendo a praça que ficava na rua da sua casa. — Eu ou o Falc buscaremos bem cedo no domingo de manhã...

— Pronto! — O taxista simpático disse, com um grande sorriso.

Sirius pagou o valor da corrida, que foi mais do que seria o normal devido ao trânsito lento, e, depois de se despedirem do taxista, que os olhou meio espantado, ele e Harry desceram do carro.

— Por que ele parecia tão surpreso? — Seu padrinho perguntou depois que eles correram e subiram alguns degraus, parando em frente a uma porta verde escura que tinha a pintura descascada.

— Ah, bem, você não reclamou do valor da corrida e ainda deixou o troco. — Harry disse e franziu o cenho. — Sirius, tem uma serpente nessa maçaneta.

— Hum... Vamos lá, acho que o melhor é você ver tudo de uma vez. — Sirius suspirou resignadamente e tocou a mão na porta da frente, que gemeu, rangeu, e, com um estalo, se destrancou.

Usando a maçaneta que tinha a forma de uma serpente enrolada, Sirius abriu a porta, que estranhamente não tinha uma fechadura. Seu padrinho entrou primeiro e Harry o seguiu, passando pela porta e entrando em uma sala muito escura. O lugar mais parecia uma construção abandonada, pensou Harry, tentando se ajustar e enxergar onde estava exatamente, mas a porta se fechou depois que ele passou e a escuridão se tornou completa

— Me dê um segundo. — Sussurrou Sirius e Harry teve a sensação de que não parecia respeitoso falar em voz alta.

Ele ouviu um ruído suave e então as lâmpadas a gás tornaram-se fogo vivo ao longo das paredes. Harry percebeu que estava em um hall de entrada, que, na verdade, era mais como um corredor estreito e comprido. Ele pôde ver um candelabro e uma mesa, ambos tinham forma de serpentes. Franzindo o cenho, Harry percebeu o papel de parede descascado, os quadros tortos e escurecidos por sujeira, além de poeira e teias de aranha por toda a parte. Ao dar uns passos mais para dentro, notou as cabeças de elfos penduradas em placas nas paredes, como troféus de cabeças de animais.

— Que coisa mais bizarra... — Ele sussurrou chocado ao olhar para as cabeças, se esquecendo que essa era a casa do seu padrinho.

— Isso é só a entrada. Tem mais, lhe garanto — Sirius disse, e felizmente não parecia chateado.

Harry não tinha realmente conseguido imaginar, ou, talvez inconscientemente, tivesse acreditado que Sirius exagerava ao falar sobre a mansão de sua família. Mas a verdade é que o lugar era horrível, aterrorizante e, bem, nojento. A sujeira era apenas parte do problema, e era algo esperado em uma casa abandonada há tanto tempo, pelo menos se fosse uma casa trouxa. Em uma casa mágica, a sujeira e decadência dos móveis, paredes, assoalho e luminárias eram completamente absurdas.

— Minha mãe não providenciou as magias para conservar a casa antes de morrer, talvez tenha sido uma morte inesperada. — Explicou Sirius quando Harry comentou isso. — Ou ela achou que o elfo doméstico da família cuidaria de tudo, mas, quando ele morreu, tudo ficou abandonado.

Harry apenas acenou, e logo eles chegaram aos pés das escadas, passando por um porta guarda-chuvas estranho. Mas, antes de poder olhar melhor, sua atenção foi atraída para as serpentes enroladas nos corrimões da escada, assim como mais cabeças de elfos em exibição no alto da parede que seguia até o teto alto por onde a escadaria se encaixava. A escada subia uns cinco degraus, depois bifurcava à direita e à esquerda, e na parede do patamar havia um único quadro limpíssimo e brilhante. A pintura era muito realista, de uma mulher com um vestido preto, cabelos brancos presos em um coque frouxo, sentada em uma cadeira de espaldar alto.

— Por que só aquele quadro está limpo? — Harry perguntou confuso, e seu padrinho, que tinha aberto a porta que levava aos outros cômodos do térreo e ao porão, voltou um passo atrás e olhou na direção que o afilhado olhava.

— Oh! — Sirius engasgou, mas manteve o som ainda mais baixo do que o sussurro anterior. — Não faça barulho, nenhum som, por favor. Vem. — Sirius o segurou pelo ombro e o orientou para depois da porta, onde estava escuro como um breu. — Merlin me ajude, por que ela fez um quadro mágico dos infernos!?

— Sirius, você pode iluminar... — Harry sussurrou e, depois de um barulho abafado, mais fogo acendeu as luminárias de outro corredor estreito que tinha diversas portas.

— Essas portas levam à biblioteca, sala de visita, sala de jantar, sala da tapeçaria, e a porta no fim nos levará à cozinha. — Sirius explicou e, assumindo a frente outra vez, caminhou naquela direção.

Harry o seguiu pelo corredor e depois pela escada estreita e bamba que os levou para uma cozinha que mais parecia uma caverna de tão escura e sombria. Sirius acendeu mais luminárias com fogo, mas isso só lançou sombras assustadoras pelo ambiente e pouco serviu para iluminá-lo realmente. Harry percebeu janelas estreitas e altas, próximas ao teto do porão/cozinha, que deveriam dar para o jardim, mas estavam tão sujas que, mesmo se houvesse um sol forte lá fora, não iluminaria o lugar.

— Por que... — Mas suas palavras foram abafadas por um trovão que ecoou na cozinha cavernosa e, ao mesmo tempo, Harry poderia jurar que ouviu passos apressados ao seu lado.

Olhando em volta, Harry tirou a varinha e a acendeu, tornando a cozinha e seus cantos mais visíveis.

— Por que você ficou meio apavorado ao ver o quadro? — Ele perguntou ao padrinho, que fez o mesmo com a sua varinha, pois também ouvira os passos.

— Aquela é a minha mãe. — Sirius disse. — Acredite, ela ficará tão feliz em me ver como eu fiquei em vê-la, e a última coisa que quero é ter que falar com a bruxa. — Ele parou de falar ao ouvir um resmungo e direcionou a luz para uma porta nos fundos da cozinha. Seus olhos se estreitaram e seu nariz se enrugou como se cheirasse algo asquerosamente malcheiroso.

Harry abriu a boca para falar, mas Sirius sinalizou por silêncio e deu uns passos à frente.

— A cozinha está como me lembro, apenas muito suja, mas acredito que pode se transformar facilmente em uma câmara fria, despensa e escritório. — Enquanto falava, Sirius chegou mais perto da porta, do que deveria ser um armário ou despensa. — Como eu lhe disse, a estrutura é sólida e... — Ele abriu a porta bruscamente e meio que se enfiou dentro do armário, onde parecia lutar com algo que resmungava, gemia e se contorcia. Por fim, Sirius recuou para a cozinha segurando uma criatura desconhecida pelo cangote. — Seu pequeno asqueroso de uma figa! — Harry arregalou os olhos quando Sirius soltou – ou jogou – a coisa feiosa no chão, bem no meio da cozinha. — Não se mexa! — Sirius berrou quando a criatura tentou correr para fora do porão cavernoso, e Harry a viu cambalear como um joãobobo, dividido entre o próprio desejo e a ordem recebida.

Foi então que Harry olhou com mais atenção para o nariz focinhento e percebeu que a criatura era um elfo doméstico. Um sentimento de pena e nojo o envolveu simultaneamente ao observar o elfo muito velho, com a pele macilenta, careca, mas com tufos brancos de cabelo crescendo em sua orelha de morcego. Exceto pelo farrapo imundo amarrado como se fosse uma tanga ao redor de sua cintura, a criatura feiosa estava completamente nua e muito suja. Seus olhos eram um pouco sangrentos e de um cinza aguacento, seu nariz mais parecia uma tromba e ranho esverdeado escorria, como se ele não limpasse o nariz há muito tempo. Até seu cheiro era desagradável, e Harry teve a sensação de que o pobre estava meio insano ou perto disso.

— Olá, Monstro. — Sirius disse friamente, com uma expressão de asco misturado com ódio. — Muito tempo sem ver, hein? E você, pelo que vejo, muito tempo sem trabalhar.

— Filho traidor da mestra volta à casa dos Black... — Sua voz saiu em um murmuro rouco e profundo como o som de um sapo-boi. — O que a mestra diria a Monstro...

— Provavelmente lhe diria para me impedir de entrar, mas a sua mestra está morta e a casa me pertence agora. — Sirius disse mordaz. — O que esteve fazendo nos últimos sete anos? Por que deixou a casa chegar a esse estado?

— Mestra estava feliz antes de morrer, o filho da mestra estava preso em Azkaban e mestra comemorou. — Monstro olhou com zombaria maldosa para Sirius.

— Oh, aposto que sim, minha mãe deve ter feito uma festa... sem convidados, é claro, porque ninguém a suportava. — Sirius zombou de volta. — Com exceção de você, mas isso não conta, não é, Monstro? Porque vocês dois sempre foram iguaizinhos. Eu lhe perguntei por que a casa está assim, o que esteve fazendo aqui? Responda!

— Mestre ordena Monstro, mas Monstro não quer obedecer... o que mestra diria a Monstro se o visse servindo o seu filho traidor e vil... Monstro cuidou do quadro da mestra e da Nobre Casa dos Black por todos esses anos...

— Muito mal, obviamente. — Sirius o olhou atentamente. — Não me surpreende, você sempre foi um imprestável, só sabia bajular a bruxa.

— Mestre não sabe o que diz, Monstro vive para servir a Nobre Casa dos Black, Monstro faz bem o trabalho de Monstro... Mestre ofende a mestra e não merece ser um Black... Mestre é uma vergonha para a mestra... O que Monstro fará agora que o mestre invadiu a casa da mestra? — Monstro parecia se dividir entre se defender e desprezar o Sirius, que o encarava com uma aversão profunda.

— Eu não invadi, fuinha. — Sirius disse e sorriu friamente. — Eu sou o dono dessa casa, e as coisas mudarão por aqui a partir de agora, a começar por você! Trate de limpar o primeiro andar e o porão, ou juro que penduro você em uma daquelas placas na entrada sem arrancar a sua cabeça antes.

— Espere, Sirius... — Harry se adiantou, um pouco chocado com a agressividade do padrinho. — Acredito que Monstro pode estar um pouco velho e doente para todo esse serviço, talvez você deva chamar o Dobby para ajudar. — Monstro estreitou os olhos ao encará-lo. — Olá, eu sou Harry, Harry Potter. — Ele estendeu a mão educadamente. — Lamento que tenha ficado sozinho nesta casa por todos esses anos, Monstro. Por que você não foi viver no Jardim dos Elfos?

— Isso é verdade? Esse é Harry Potter? Monstro pode ver a cicatriz, deve ser verdade, é o garoto que derrotou o Lord das Trevas, Monstro gostaria de saber como ele fez... — Monstro olhou para a sua mão estendida. — O mestiço imundo quer tocar em Monstro, o que sua mestra diria a Monstro se ele fizesse isso...

— Não o chame assim! — Sirius berrou e se inclinou agressivamente para o elfo. — Nunca volte a chamar alguém de mestiço imundo ou sangue ruim, seu merdinha, ou te penduro pelas orelhas nos ganchos do calabouço! Entendeu!?

— Sirius! — Harry tentou não mostrar o choque com o comportamento do padrinho.

— Não o defenda, Harry, esse pequeno inseto não passa de um...

— Elfo doméstico. — Harry o interrompeu com firmeza. — Que passou anos servindo uma família purista e mais sete anos sozinho neste lugar... — Ele olhou em volta e apontou para as panelas. — Aqui ao menos tem comida? Como ele se manteve vivo por todos esses anos?

Sirius fez uma careta e deu de ombros com indiferença.

— Acredita que isso me importa? Achei que esse fuinha estava morto há muito tempo, e é uma pena que não esteja. — Ao ver a expressão do afilhado, acrescentou. — Olha, sei que os elfos são escravizados e isso é injusto, cruel até, mas Monstro não é uma criatura bondosa e gentil feito o Dobby. Ele adorava servir a minha mãe e, para agradá-la, ele tornou a minha vida um inferno sempre que pôde, ok?

— Não, não está ok. — Harry disse irritado. — Você não pode matá-lo ou maltratá-lo, não importa o quão terrível ele foi sob a orientação da sua mãe. Além disso, agora ele é o seu elfo e cabe a você orientá-lo ou...

— Não! Eu não perderei o meu tempo com esse... — Sirius olhou com nojo para Monstro. — Tenho muito o que fazer aqui, e preciso de ajuda, não me tornar uma babá de elfo!

— Bem, por que você não o aposenta e o envia para o Jardim dos Elfos, então? — Harry sugeriu, olhando com pena para Monstro. — Ele me parece muito velho, talvez até doente, Sirius, e não merece ser mais maltratado. Isso sem falar que, depois de passar todos esses anos sozinho nesta casa horrível, Monstro parece meio insano.

— Ele não é insano, Harry! Monstro sempre foi assim, cruel e mau, exatamente como a minha mãe! — Sirius exclamou impaciente.

— Por que continuou aqui sozinho depois que sua mestra morreu, Monstro? — Harry perguntou, ignorando o padrinho.

— O vencedor do Lord das Trevas fala com Monstro, o que a mestra diria se visse isso, Monstro não pode envergonhar a mestra. — Monstro resmungou, mas depois respondeu. — Monstro não pode sair da Nobre Casa dos Black, mestra ordenou que Monstro guardasse a sua casa de invasores, traidores e imundices.

— Bem, isso é muito triste. — Harry disse, franzindo o cenho pela crueldade da mulher. — Olha, Monstro, entendo que você queira honrar a sua antiga mestra e que ela o ensinou que o Lord das Trevas era bom e certo. — Lembrando-se da conversa com Sirius no táxi, acrescentou. — Regulus talvez tenha lhe dito isso também, que expulsar os nascidos trouxas ou impuros era justo, mas isso não é verdade. Voldemort é um assassino cruel, Monstro, ele matou os meus pais e muitos outros, talvez também tenha matado o Regulus. — Os olhos de Monstro se esbugalharam e Harry o viu olhar para o armário, aflito. — Eu sei que deve ter sido difícil ficar aqui sozinho por todo esse tempo, Monstro, e lamento muito, mas você não precisa mais ficar sozinho. O Jardim dos Elfos é um lugar muito bonito e haverá outros elfos aposentados ou jovens demais para trabalhar que lhe farão companhia.

— Monstro serve a Nobre Casa dos Black, Harry Potter quer se livrar do Monstro, mas o que a mestra diria se Monstro abandonasse a casa dela! Mestra ficaria muito desapontada com Monstro, e o que Monstro faria se não pudesse cuidar da casa da mestra... — Sua aflição era de partir o coração e Harry acenou, tocando o seu ombro com gentileza para atrair sua atenção.

— Está tudo bem...

— O mestiço imundo tocou em Monstro, a Mestra ficaria tão zangada... — Então ele pareceu perceber que desobedeceu uma ordem e foi em direção á parede, onde começou a dar narigadas.

— Não! Monstro, pare com isso! — Harry o segurou e o pegou no colo. Ele era leve como uma pluma, e, por sua pele macilenta, Harry teve certeza de que Monstro pouco comeu durante aqueles anos. — Aqui, fique aqui e não se mexa...

— Eu não tenho tempo para isso, Harry. — Sirius disse impaciente. — Vamos seguir com a visita e deixar essa coisa asquerosa em seu armário, depois eu vejo o que faço com ele.

— Não. — Harry disse acenando. — Pode seguir com a visita, eu te encontro depois. Monstro e eu temos que ter uma conversa importante.

Seu padrinho parecia que queria discutir e não estava nada feliz, mas acabou acenando em acordo.

— Não toque em nada, não siga ele para lugar algum e não aceite nada que ele lhe der. Entendeu? — Sirius disse com firmeza e Harry acenou. — Monstro, você trate de ouvir e obedecer às ordens do Harry como se fossem minhas, e, se tentar algo para machucá-lo, colocarei fogo nessa maldita casa com você dentro. Não duvide.

Sirius subiu as escadas bambas que levavam para o primeiro andar.

— Ok. Monstro... — Harry manteve o elfo sentado na mesa suja e puxou uma cadeira para si mesmo. — Eu vou lhe dizer que entendo o que é se sentir sozinho e faminto, de comida e de atenção, além de ter alguém lhe dizendo algo a vida toda, e como é difícil saber ou entender se aquilo é verdade ou não.

— Monstro não deve ouvir o mestiço... a mestra ficaria zangada com Monstro... — Ele sussurrou, se curvando e tornando sua corcunda mais proeminente.

— Tem razão, acho que sua antiga mestra ficaria chateada com você, Monstro, mas ela não está mais aqui para cuidar de você. — Harry disse suavemente. — Sirius irá reformar toda essa casa, reconstruir e redecorar os cômodos, torná-la digna da nobreza dos Black.

— A casa já é digna da minha mestra e da nobreza dos Black, Monstro não pode deixar o filho traidor destruir a casa da minha senhora, ele não pode. — Monstro disse, olhando zangado para a porta por onde Sirius tinha saído.

— Agora, Monstro, você precisa decidir. — Harry disse, e passou a mão pela mesa empoeirada. — Veja, está tudo sujo, escuro e sem vida. Sirius não é assim, e ele quer tornar o lugar bonito como antes. Meu padrinho quer dar festas e jantares aqui, reunir amigos, pessoas importantes, famílias puras, políticos e associados, mas uma casa neste estado envergonharia a nobreza Black.

— O filho que destruiu o coração da minha mestra quer recuperar a casa e a reputação da nobre família? — Monstro pareceu surpreso. — Monstro pode ajudar com isso. Monstro não é inútil, velho ou doente como o mestiço disse.

— Bem, tem certeza? Porque me parece que o melhor é aposentar você e te enviar para o Jardim, e eu tenho um elfo que o Sirius pode utilizar para o que precisar. — Harry disse, se levantando e caminhando pela cozinha. — Se você não estiver disposto a servir bem o seu mestre e ajudar a Família Black...

— Monstro sempre servirá bem a Nobre Casa Black e seu mestre. — Monstro desceu ao chão e se curvou cerimonialmente. — Monstro vive para servir.

— Bem, se você está disposto mesmo a ajudar... mas não adianta ficar de resmungos e bobagens, um bom elfo não faz isso. — Harry o olhou com atenção. — Bem, a não ser que ele esteja maluco, hum... Você está maluco, Monstro?

— Mestiço ofende Monstro. — Monstro olhou zangado.

— Eu não sou um mestiço, Monstro. — Harry deu um passo à frente. — Trate de me respeitar, pois sou um Potter! Sua mestra não lhe ensinou a tratar com respeito às famílias antigas?

Monstro arregalou os olhos e torceu as orelhas.

— Mestra ficaria desapontada com Monstro. — Ele se curvou outra vez. — Monstro lamenta, Lord Potter, Monstro não sabe o que diz.

— Está tudo bem, eu te perdoo, e prefiro que me chame de senhor Harry, Monstro. — Harry disse, alternando entre ser firme e gentil. — Bom, deixe-me lhe contar os planos do Sirius para a casa, talvez você possa ajudar com algumas ideias. Sente-se.

Monstro olhou para a cadeira que Harry apontou e acenou negativamente.

— Monstro é um servo, servos não se sentam com mestres.

— Eu não sou o seu mestre, apenas o afilhado do seu mestre. — Harry deu de ombros. — Acho mais fácil falar com você sentado, mas tudo bem. Talvez, se um dia formos amigos, você poderá se sentar comigo. Dobby é meu amigo e gosto muito dele.

— Elfos não são amigos, elfos são servos. — Monstro repetiu teimosamente, e Harry sorriu.

— Elfos podem ser os dois, Monstro. Bem, seguindo, o seu mestre tem a intenção de... — Harry explicou as ideias do Sirius, as que tinha conhecimento, e Monstro esbugalhou os olhos apavorado.

— Mestre não pode se desfazer das coisas da mestra, o que a mestra diria se Monstro deixasse o seu filho traidor tirar a tapeçaria e jogar suas coisas fora! — Monstro voltou a olhar com ódio para as escadas.

— Não se preocupe, Monstro, tenho certeza que podemos convencer o Sirius a utilizar uma sala diferente para guardar a tapeçaria e os quadros importantes como o da sua ex-mestra, sabe, como uma espécie de galeria. — Harry disse. — E os outros objetos serão divididos entre as primas de Sirius, Andy e Narcisa virão buscar tudo o que o meu padrinho não quiser, assim as coisas da sua mestra ficarão em boas mãos.

— Miss Cissy e Miss Andy? — Ele arregalou os olhos de espanto, depois torceu as orelhas. — Miss Andy foi expulsa, assim como o mestre, e a mestra não gostava deles, não, não, ela não gostava deles nem um pouco.

— Eu entendo, e acho que sua mestra tinha razão para ficar chateada, Monstro, porque é triste quando as famílias se separam. — Harry disse, procurando outro caminho. — Quer dizer, Sirius partiu, Andy também, então Regulus se foi, e Bella... aposto que sua mestra ficou muito solitária.

Monstro voltou a esbugalhar os olhos e lançar outro olhar aflito para o armário.

— Mestra ficou inconsolável, ela chorava e chorava e Monstro não podia ajudá-la, Monstro não podia contar... — Ele se engasgou, e Harry franziu o cenho ao ver o seu medo.

— Contar? O que você não podia contar? — Monstro ficou mudo e olhou outra vez para o armário. — Tem algo escondido em seu armário, Monstro? — Ele se levantou e caminhou naquela direção, mas um sentimento de opressão, terror e aversão o envolveu e Harry parou. Com a sensação de que estava sendo observado, ele respirou fundo, incomodado, pois, apesar de sutil, tão leve como uma impressão, a sensação estava lá. — Monstro? — Ele voltou a se sentar na cadeira e encarou o elfo, que tremia de terror. — Você pode me contar o que escondeu da sua mestra? — Ele acenou negativamente, de maneira frenética e desesperada. — Ok. Você pode contar ao Sirius? — Mais uma negativa, e Harry franziu o cenho se perguntando. — Ok. Eu pensarei em alguma maneira de te ajudar, e, se você conseguir confiar em mim, pode vir me procurar e eu te ajudarei.

Monstro o encarou surpreso e confuso.

— Lord Potter ajudaria Monstro? — Ele disse, dando um passo à frente.

— Sim. Qualquer coisa que precisar. — Harry disse e viu sua expressão de conflito, então ele abriu a boca e se inclinou ainda mais, como se fosse contar um segredo e...

— A casa está em estado muito pior do que eu poderia imaginar. — Sirius disse, aparecendo na cozinha abruptamente. — Você se gaba tanto de sua lealdade, Monstro, mas minha mãe lhe tiraria o couro se visse a sua casa assim.

Monstro se fechou na mesma hora, lançando a Sirius um olhar desconfiado e raivoso. Harry suspirou, desistindo, e se perguntou qual segredo exatamente o elfo mantinha.

— Monstro esteve sozinho, Sirius, sem atenção, comida descente, companhia, ele obviamente entrou em depressão ou o equivalente dos elfos. — Harry disse em tom de aviso. — Elfos amam trabalhar, servir, limpar, assim, para o Monstro deixar a casa chegar a isso, é porque ele não estava saudável.

— Isso quer dizer que não é culpa dele? — Sirius olhou para o afilhado com expressão incrédula.

— Exato. Sua mãe o proibiu de deixar a mansão, isso faz de Monstro um prisioneiro, tanto quanto você e eu fomos. — Harry disse com firmeza. — Eu estava dizendo dos seus planos para a casa e como Andy e Narcisa levarão alguns objetos da família Black. Monstro ficou preocupado porque Andy foi expulsa da família, e eu pretendia explicar que, como o chefe da Família Black, você a restituiu, então está tudo bem.

— Bem. — Sirius deu de ombros desinteressado.

— Eu também disse que você escolherá uma sala para ser uma galeria e guardará a tapeçaria e quadros mais importantes da família, como o da sua mãe. — Harry acrescentou e Sirius arregalou os olhos.

— Não!

— Sim! — Harry e Monstro disseram ao mesmo tempo. — Viu, você é voto vencido. — Harry deu um sorriso e um piscadela ao Monstro, que o olhou com desconfiança, mas não raiva.

— Harry, eu queria pôr fogo naquela coisa. — Sirius meio que choramingou.

— Bobagem. — Harry disse. — Podemos colocá-la para dormir, como fizemos com os quadros de Hallanon. Não há por que antagonizar o Monstro, afinal, ela foi sua mestra a vida toda. Certo?

— Sim. — Sirius disse com uma careta. — Ele era seu elfo pessoal, na verdade. Monstro só cuidava dela, exclusivamente, e de suas roupas, sua comida, seu quarto, nunca fez mais nada. Talvez por isso que a casa parece um chiqueiro, Monstro não deve saber como limpar uma janela maldita.

— Olha, não importa. — Harry disse. — Você terá o Dobby para ajudar e a equipe de limpeza do Sr. Jones; depois, suas primas vêm pegar os móveis e objetos, então a reforma pode começar para valer.

— Sim. — Sirius acenou, animado com a ideia de que, em uma semana, os construtores poderiam estar quebrando tudo.

— Bem, por que não me mostra o resto da casa... — Harry se interrompeu quando o seu padrinho acenou que não.

— Muito arriscado. — Ele disse, e se sentou em uma cadeira. — Tem um monte de pragas e outras criaturas não muito amigáveis infestando esse lugar, não quero arriscar que se machuque.

— Ok. — Harry se sentou outra vez. — Vamos discutir as ideias para a reforma, o Monstro pode nos ajudar, afinal, ele sabe como receber convidados em jantares e festas importantes.

O elogio pareceu surpreender o elfo, que arregalou os olhos, e Harry não precisava ser um Ravenclaw para perceber como ele estava ansioso por alguma atenção. No fim, Monstro foi realmente muito útil, pois afirmou que as ideias inicias do Sirius não dariam certo se a intenção era receber pessoas em jantares ou festas. O andar térreo precisava de uma área de jantar formal e uma sala de estar grande para receber. Abrir tudo e tornar um único ambiente, que incluiria a cozinha e área de refeição informal, não era nada inteligente.

— É por isso que a cozinha fica no porão, assim tem espaço para os convidados acima e eles não esbarram nos servos. — Monstro explicou com sua voz de sapo.

— Bem, ainda não quero a cozinha aqui, mas acho que podemos enviar a biblioteca para a sala de música, que podemos ampliar ao pegar um pedaço da sala de estar e do solário para comportar todos os livros. — Sirius disse pensativo. — Assim, teremos espaço para uma grande cozinha com uma mesa informal, além da área formal com a sala de jantar e de visitas.

— Monstro sabe que a sala de visitas pode ser um salão de dança se tirar os móveis. Monstro já viu isso. — O elfo disse, e Sirius lhe fez uma careta.

Os dois se detestavam, Harry podia ver claramente. Nenhum deles queria falar com o outro, nenhum deles queria olhar ou concordar com o outro, assim, Harry mediou as escolhas, sempre tentando fazer Monstro aceitar as mudanças, mas também não mudando completamente a casa da sua mestra. Quando chegaram à parte do jardim, a disputa se tornou acirrada.

— Pretendo voltar com o orquidário e o pátio de pedra, e tirar todas aquelas rosas malcheirosas. — Sirius disse com firmeza.

— Mestre não pode tirar as rosas da mestra. O que mestra diria para Monstro? Mestra ficaria tão desapontada, e Monstro tem que cuidar do jardim da mestra. — Monstro disse, torcendo as orelhas e olhando com raiva para Sirius, que devolveu o olhar.

— Agora é o meu jardim, não daquela bruxa, portanto...

— Você deixará algumas das rosas. — Harry disse. — Sua mestra fez certo em tornar o jardim ao seu gosto quando a antiga senhora morreu, Monstro, mas agora é a vez do seu novo mestre e ele não gosta muito de rosas. — Ele lançou um olhar de aviso para o padrinho. — Mas, talvez, possamos deixar uns canteiros de rosas no fundo, rente às cercas, depois que tirarmos toda a cerca viva. Você poderia cuidar desses canteiros pessoalmente, assim sua mestra não teria porque ficar desapontada.

— Monstro cuidaria das rosas da mestra? Sozinho? Não outro elfo tocaria nas rosas da mestra? — Monstro disse roucamente.

— Sim, com certeza. — Harry disse. — Seu novo mestre avisará ao Dobby que as rosas são apenas sua responsabilidade. Certo, Sirius?

— Ssgrhunnn — Resmungou Sirius de má vontade, e Monstro lançou a Harry um mínimo olhar de respeito, que desapareceu bem rapido.

A outra discussão ferrenha foi sobre a cor que seria usada nas paredes, almofadas e móveis da casa.

— Eu irei reformar a Mansão e obviamente redecorá-la, o que quer dizer que não pretendo manter essas cores escuras e verdes ou as cobras, muito menos as cabeças dos elfos! — Sirius disse, encarando Monstro raivosamente.

— Monstro deve cuidar da casa da mestra. O que mestra diria se visse a casa dela com cores Gryffindor, traidores, todos eles! Mestra iria querer que a maior das casas de Hogwarts fosse devidamente homenageada com as cobras, e o mestre não pode jogar fora a honra dos elfos que serviram a Nobre Família Black por todos esses séculos. — Monstro falou com firmeza e olhou para Sirius com aversão. — Mestre não honra a sua família, mestre é um traidor vil e mestra ficaria triste em ver o mestre destruindo a sua casa.

— Sua mestra não está mais aqui! — Sirius gritou. — Então não importa o que ela pensaria, e eu sou um traidor com muito orgulho, seu fuinha...

— Parem com isso vocês dois. — Harry disse meio cansado. — Merlin, parecem duas crianças brigando para ver quem é mais insuportável. — Sirius e Monstro o encaram com irritação, mas Harry ignorou. — E, os dois estão errados. Uma mansão deve ter cores, claridade, luz, beleza, assim, nada de cores escuras em verde ou vermelho, essas duas cores serão usadas apenas em pontos estratégicos, talvez um tapete, uma cortina ou almofada. As paredes serão brancas, o piso de madeira, as portas e janelas azuis, e... as cobras e cabeças de elfos saírão. — Quando Monstro abriu a boca para protestar, Harry levantou o dedo. — Na galeria, com os quadros e a tapeçaria, você pode escolher e colocar três cabeças de elfos e qualquer decoração de cobra que represente a casa como ela era antes, quando a sua mestra estava viva. E não quero mais discussão, porque essa é uma casa importante de uma família importante, não a sala comunal da Casa Gryffindor ou Slytherin de Hogwarts.

Isso pôs fim à discussão, e Harry combinou com Sirius de que ele deveria trazer comida para o Monstro e arrumar um quarto confortável para ele ficar durante a reforma.

— Bem, acho que ele pode ficar no quarto da minha mãe, no sótão. Provavelmente será o último lugar que eu reformarei, e apenas para transformar em um corujal. — Sirius disse de má vontade. — Pedirei que Narcisa e Andy esvaziem o closet e levem os móveis, você pode dormir em um colchão conjurado, Monstro.

— Monstro pode fazer isso. Monstro pede licença para levar suas coisas para o quarto da mestra de Monstro. Monstro também deve começar a limpar a galeria onde ficará a mestra, e depois, Monstro tem que cuidar das rosas da mestra.

— Espere a chuva passar, Monstro, ou você pode ficar doente. — Harry disse suavemente e, quando Sirius não disse nada, acrescentou. — Você pode ir, Monstro, e gostaria que você ajudasse o Sirius, Dobby e a equipe de limpeza a partir de segunda-feira, quando eles vierem limpar a mansão, afinal, você conhece a Nobre Casa dos Black melhor do que qualquer um.

Monstro acenou, parecendo gostar dos elogios, mas seus olhos logo se tornaram desconfiados antes de olhar com nojo para Sirius e caminhar até o seu armário, onde pegou algumas bugigangas e um pano imundo antes de sair da cozinha.

Harry e Sirius se mantiveram em silêncio por alguns instantes antes de falarem ao mesmo tempo.

— Você não pode esperar...

— Você precisa...

Silêncio, e Harry acenou para o padrinho falar primeiro.

— Você não pode esperar que eu mantenha aquela coisa vil na casa depois que ela estiver reformada! Vamos receber pessoas importantes em jantares, realizar reuniões de negócios confidenciais ou mesmo reuniões das Equipes Pegasus e Covil. — Sirius disse chateado. — Ele não é confiável ou leal, além de ser uma presença nociva!

— Bem, qual a sua sugestão? — Harry disse, levantando as mãos. — Eu tentei convencê-lo a se aposentar e ir viver no Jardim dos Elfos, mas ele não quer, e acredito que, se você tentar lhe dar roupas, Monstro poderia enlouquecer de vez.

— Eu não me importo! Ele pode bater a cabeça na parede até rachá-la, cortar a própria garganta para colocar a cabeça na parede que eu não dou a mínima! — Sirius esbravejou e depois fez uma careta para a expressão de decepção do afilhado. — O quê? Eu o detesto! Ele me odeia! Você quer que eu tenha pena dele!

— Isso seria o mínimo...

— Você não o conhece como eu, Harry. — Sirius o interrompeu defensivo. — Não se deixe enganar por sua atitude razoável em relação à reforma. Monstro é mau, tem um coração negro igualzinho ao da minha mãe e adorava servi-la, seguir suas ordens e realizar maldades.

— Bem, mas Monstro não é a sua mãe, e ele é um escravo, Sirius, você sabe muito bem que não existe escolha para um elfo. — Harry disse teimosamente. — Além disso, ele esteve preso nesta casa por ordens da sua mãe, agonizando nesta escuridão e sujeira, sem comida ou companhia. O que ele passou não foi muito diferente do que nós dois passamos, e...

— Não diga isso! — Sirius disse com frieza. — Você não sabe nada sobre como é Azkaban e os dementadores! Acredite, o que Monstro passou aqui não é nada em comparação.

— Ok. — Harry engoliu a mágoa. — Então, você sofreu mais do que nós dois, mas isso não quer dizer que nossas prisões foram um pedaço de bolo, sabe.

— Não estava falando de você, Harry. — Sirius disse mais suavemente, e parecia arrependido.

— Talvez, mas ainda é verdade. O que eu passei não foi tão ruim...

— É claro que foi. — Sirius disse e esfregou o rosto, irritado consigo mesmo. — Merlin, eu só falo besteira. Eu... o que eu passei foi em parte consequência das minhas ações, Harry. Mudar o guardião secreto sem ninguém saber, perseguir Peter sem pedir ajuda e de maneira tão descontrolada, são minhas decisões. Além disso, eu sou um adulto, sabia o que me acontecia e por que. Você era só uma criança, não tinha ideia de nada, e como poderia? E, se eu não podia fugir fisicamente, ainda tinha Almofadinhas, que me aliviava a mente e a alma. Você estava sozinho, Harry, e, por isso, o que você passou foi muito pior.

Eles voltaram a ficar em silêncio e Harry suspirou, decidido a não brigar; ele só precisava das palavras certas para que Sirius o atendesse.

— Monstro é um escravo, Sirius. Toda a sua vida, ele esteve preso a essa servidão, obrigado a pensar, sentir e fazer o que a sua mestra ordenasse. Eu não sei quantos anos ele tem, mas...

— Monstro deve estar chegando aos 100 anos ou algo assim. — Sirius informou, e Harry arregalou os olhos.

— Merlin, 100 anos? Eu estive em minha prisão por dez, e nem sempre foi tão ruim. Você esteve na sua por dez, mas com alguns momentos de alívio. Monstro é um escravo há 100 anos e nunca lhe foi ensinada outra coisa além dos pensamentos puristas e cruéis da sua mãe. — Harry passou a mão pelos cabelos. — Assim como eu, ele não sabe de mais nada, e como poderia?

— Eu o detesto. — Sirius disse com voz entrecortada.

— Não. Você detesta a sua mãe, seu pai, a parte má da sua família. — Harry disse. — Monstro e a casa não têm culpa de nada disso.

— O que você espera de mim, Harry? — Sirius apertou os punhos sobre os olhos, tentando controlar o seu temperamento. — Você é a única pessoa no mundo todo a quem eu poderia ouvir sobre isso, que eu poderia atender. Então me diga, o que você quer de mim?

— Você também não é culpado ou responsável por sua família e suas ações, assim como não é o culpado pelo que aconteceu com Monstro nos últimos 100 anos. — Harry disse com firmeza. — No entanto, a partir de agora, você é o responsável pelo que lhe acontecer, Sirius, porque o Monstro é seu. Isso inclui o que ele pensará sobre certo e errado a partir de agora, pois cabe a você lhe ensinar o certo.

Sirius ficou meio pálido com o pensamento.

— Eu não o quero. Eu nem mesmo quero essa maldita casa! — Ele se levantou e jogou a cadeira em que se sentava contra a parede; ela se partiu em diversos pedaços. — Eu irei praticamente destruí-la e reconstruí-la, Harry, e ainda não pretendo viver aqui! Apenas a usarei em determinados momentos! Eu não quero estar neste maldito lugar! Cuidar daquele maldito elfo! — Sirius puxou os cabelos e esfregou o rosto bruscamente. — Eu nem mesmo gostaria de estar nesta maldita pele, maldito sangue, maldito sobrenome!

Harry sentiu os olhos se encherem de lágrimas ao ver a sua dor. Levantando-se, ele foi até o padrinho e o abraçou com força.

— Não me importa o que pensa de si mesmo ou que se odeie, eu ainda amo você, Sirius. — Ele sussurrou contra o seu peito.

— Oh... — Sirius sufocou um soluço e lhe deu um abraço esmagador. — Merlin, eu não mereço você... — Ele chorou contra o seu cabelo e Harry soluçou ao ouvir a sua dor. — Eu nunca mereci você... eu... Eu disse ao seu pai, eu lhe disse que você merecia um padrinho melhor... Eu sou amaldiçoado... e veja o que aconteceu... Tudo minha culpa...

— Não... — Harry recuou e o encarou. — Não é sua culpa! Rabicho! Voldemort! Eles o tiraram de nós e nos prenderam no inferno! Sirius! Olhe em volta! Veja toda essa escuridão! Você não é assim! Meus pais viram, Remus viu, os Boot viram... — Harry tocou seu rosto com carinho. — Eu vejo você, Sirius, e não existe maldição ou trevas, apenas amor e bondade. E você precisa ver isso também! Levar isso ao Monstro e ensiná-lo a ser bom! Eu acredito em você, Sirius... eu acredito... — Ele voltou a ser puxado em um abraço feroz, carregado de gratidão.

Os dois ficaram assim por quase um minuto inteiro, antes de se afastarem e, disfarçadamente, enxugarem as lágrimas do rosto.

— Ok, ok. — Sirius pigarreou, tentando afastar a rouquidão da voz. — Eu tentarei ensiná-lo a... ser bom, ou o que seja.

— Para isso, você precisa parar de maltratar o Monstro. — Harry disse, e seus olhos se estreitaram. — Deve ser civilizado, gentil, se você conseguir e tiver paciência para corrigi-lo, faça-o sem gritarias, ofensas ou agressividade, e ele melhorará. Ok?

— Ok. — Sirius fez uma careta, não parecendo muito sincero.

— Promete? — Harry pressionou desconfiado.

— Prometo, Harry, por você, eu prometo fazer tudo isso. Ok? — Sirius disse com absoluta sinceridade agora, e Harry acenou aliviado. — Bem, vamos embora deste lugar, não tem muito o que eu posso fazer sem a equipe de limpeza do Jones e o Dobby. Começarei na segunda-feira, depois de deixar você na plataforma.

— Ainda bem que eu vim com você, Sirius, ou o pobre Monstro estaria em apuros. — Harry disse, quando iniciaram a subida da escada bamba. — Eu acho que não te ajudei muito, mas, no fim, era a coisa certa eu vir.

— Claro que você me ajudou. Acredite, estar nessa casa sozinho seria ainda pior... Agora vamos fazer silêncio, pois não quero acordar a bruxa. — Sirius abaixou a voz em um sussurro, e Harry, que seguia à frente, apenas acenou.

Eles passaram pela porta em frente ao primeiro degrau da escada e entraram no corredor estreito que era o hall. Harry voltou a olhar com curiosidade para o porta guarda-chuvas estranho, que lembrava...

— Sirius... — Ele se virou para perguntar ao padrinho, mas Sirius estava distraído olhando para o quadro da mãe com aversão e não percebeu que Harry parou de andar.

Sirius bateu em seu ombro com força e o jogou para frente. Harry estendeu o braço para se impedir de cair, tentando se segurar na parede, mas sua mão bateu no porta guarda-chuvas, que caiu com um estrondo.

CRASH!

— Merda! — Sirius ainda sussurrou, como na esperança de que o pior não aconteceria, mas era tarde demais.

— Sinto... — Harry queria pedir desculpas, mas arregalou os olhos quando a mulher de cabelos brancos, agora acordada, olhou diretamente para Sirius, que estava bem na sua frente, e o reconheceu.

— Vocêêêêêêêêêê! — Ela berrou, e Harry teve a sensação de que ficaria surdo.

— Olá, mãe. — Sirius disse, com um sorriso debochado.

— O que você faz em minha casa, traidor? Fora daqui! — Ela berrou, insuportavelmente alto.

— É minha casa agora, bruxa. — Sirius zombou com malícia. — Não há nada que você possa fazer aí de cima ou do buraco em que te enterraram.

— Traidor! Abominação! Vergonha da minha carne! — Ela se levantou, se inclinou para frente e era tão realista que parecia que saltaria do quadro. — Fora! Fora daqui!

Harry arregalou os olhos chocado quando viu sua boca espumar e seus olhos se avermelharem de puro ódio.

— Uau... isso é que é magia, ela parece meio viva. — Suas palavras chamaram a atenção dela para ele, e Harry se esforçou para não se encolher.

— Graças a Merlin, ela está bem morta. — Sirius disse amargamente.

— Quem é você!? O que faz em minha casa!? — Seu berro reverberou no espaço pequeno e Harry subiu alguns degraus da escada.

— Não é necessário gritar, Madame. — Ele disse, e se inclinou educadamente. — Lord Potter, a seu dispor, Madame Black.

— Você trouxe um mestiço imundo para a minha casa!? — Ela olhou para Sirius com ódio. — Fora! Os dois, saiam da minha casa!

— Vamos, Harry, ela está louca como sempre, não adianta tentar ser razoável ou civilizado. — Sirius disse sombrio.

— Eu não sou um mestiço imundo, Madame. — Harry disse irritado. — Sou um Potter, da família Potter, tão antiga, rica e importante quanto os Black.

— Você não passa da cria de uma prostituta trouxa imunda! Seu pai deveria ter matado ela e estrangulado você quando nasceu, seu animal nojento! — Seus gritos de ódio e aversão eram agressivos.

— Cale a boca, sua bruxa louca! — Sirius tirou sua varinha e se colocou ao lado do Harry. — Se não calar, coloco fogo nesse maldito quadro e depois queimo essa casa horrorosa!

— Imundice! Abominação! Aberração! Escória!

— Você não pode silenciá-la? — Harry disse, tapando os ouvidos. — Ou colocá-la para dormir, como o meu tio em Hallanon?

Sirius acenou com a varinha, mas nada do que ele fazia dava certo. Os outros quadros também tinham acordado e resmungavam sobre o barulho, a presença de Sirius e Harry ou expressavam curiosidade com perguntas. O som era ensurdecedor. Harry recuou para o hall, seu padrinho o seguiu e, em poucos passos, eles saíram pela porta, para o silêncio – que imediatamente foi quebrado por um trovão que ressoou no céu. Harry olhou para a água que caía e suspirou.

— Alguém ainda está brincando de fazer do céu uma cachoeira... Sirius?

— Sim? — Sirius respirou o ar limpo, puro e úmido, se sentindo mais leve só de sair daquela casa horrível.

— Acho que você está certo, sabe, a sua mãe é uma bruxa louca.

Sirius olhou para os olhos verdes cheios de malícia e soltou uma gargalhada. Descendo os degraus da frente, ele caminhou para a chuva, sentindo os pingos grossos, fortes e frios no rosto quando olhou para cima, e riu ainda mais ao fechar os olhos.

— Ela é a mais louca das bruxas! — Sirius berrou no meio da rua.

Harry riu e o seguiu, pulando nas poças de água, e, em segundos, estava completamente encharcado.

— Ela é a mais bruxa das loucas! — Ele gritou. Se encarando, eles disseram ao mesmo tempo, antes de gargalharem descontroladamente: — Ela é uma bruxa louca!

E, assim, gritando, cantando e pulando nas poças d'água, os dois continuaram caminhando pela chuva fria e incessante. E, mesmo depois de uma semana difícil e cheia de desafios, Sirius e Harry nunca se sentiram mais felizes como naquele momento, afinal, o importante é que eles estavam juntos.