Já falei tudo no capítulo anterior, mas colocarei uma mensagem no fim desse. Uma informação breve.
Ah, não se esqueçam que o capítulo está sem a revisão gramatical da Débora!
CAPÍTULO REVISADO!
Capítulo 86
Sentado no banco ao lado da janela no compartimento do Expresso de Hogwarts, Harry observava como lentamente a paisagem urbana se tornava mais e mais campestre. As casas se tornavam mais escassas, aumentando os campos, florestas, plantações e vales.
O trem deixou a plataforma às 11 horas, como sempre, mas faria a viagem em menos tempo do que o habitual, então eles esperavam chegar a Hogwarts às 15 horas e terem tempo para desempacotar suas coisas antes do jantar. Harry, particularmente, tinha muito o que fazer no dia de hoje, antes de as aulas começarem amanhã, pois sabia que os professores estariam mais exigentes do que nunca com a proximidade dos exames, isso sem falar em seus treinamentos, aulas extras e o treinamento de quadribol, que se intensificaria com o jogo final ao virar da esquina.
Enquanto os seus amigos jogavam ou liam, Harry manteve-se observando a paisagem e se lembrando da conversa com sua tia Petúnia na noite anterior. Eles se despediram antes de ela e Duda partirem para Evans House, pois sua tia não os acompanhariam para a estação naquela manhã.
— Tanto Duda quanto eu temos aulas bem cedo, Harry, infelizmente a nossa semana começa amanhã. — Ela disse, depois de abraçá-lo. — Muito obrigada pelo fim de semana incrível e pelo Melyn, era exatamente o que o Duda precisava para se animar, e acho que eu também.
— De nada. — Harry disse timidamente. — Fico feliz que vocês tenham se divertido em Stone Waterfall.
— Harry... — Ela se sentou no sofá e bateu suavemente no espaço ao seu lado, onde ele se sentou, curioso. — Eu não pude deixar de perceber o quanto você ama Stone Waterfall e como se sente iluminado, orgulhoso e feliz por estar na casa da família Potter.
— Stone Waterfall é o meu lar, tia, pois eu sou um Potter. — Harry disse lentamente. — A senhora encontrou lembranças, carinho, amor e não sei o que mais de positivo ao voltar a Evans House e fazê-la o seu lar. Quando estou em Stone Waterfall, encontro amor, raízes e tantas outras coisas que não sou capaz de nomear e que me fazem sentir inteiro, forte... — Ele a olhou. — Eu. Harry James Potter.
— Você está planejando se mudar para lá quando alcançar a maioridade? — Ela perguntou o encarando diretamente, e Harry não pode mentir.
— Antes. — Ele sussurrou sincero, e, ao ver sua expressão chocada, contou seus planos. — Bem, é isso, e espero que possa entender.
— Entendo. — Ela apertou as mãos, emocionada. — Apenas... lamento te perder antes do que eu supunha.
— A senhora não me perderá. — Harry disse, e a abraçou com força. — Sempre seremos família, e será bem-vinda para vir morar comigo, principalmente quando a guerra recomeçar, pois aqui não será seguro sem a proteção da mamãe.
— Acredita que poderíamos colocar a proteção de Lily em Stone Waterfall? — Ela perguntou quando ele se afastou.
— Não sei, sinceramente. — Harry suspirou. — Preciso começar a aprender sobre alas, mas, enquanto isso, podemos pedir para que a Sra. Serafina descubra para nós; só, por favor, não conte dos meus planos. Apenas diga... que pensou nisso em caso de uma emergência durante a guerra.
— Por que não quer que eles saibam? — Ela questionou confusa.
— Eles às vezes não percebem que precisam me soltar. — Harry disse. — Sinto que eles precisam tentar compensar o passado, o que perdi e sofri, mas, a cada dia, eu não preciso mais de compensações. — Ele sorriu timidamente. — Eu sou amado e feliz... — Seus olhos brilharam de emoção. — Até o seu amor eu tenho, então preciso seguir em frente, e não quero lutar contra eles.
— Ok. — Petúnia acenou entendendo.
— Bem, queria te pedir outra coisa, e que mantivesse apenas entre nós dois também, a não ser que precise da ajuda de algum deles. — Harry disse, e contou sobre suas descobertas sobre o possível antepassado Evans, Priscilla Potter.
— O quê? — Ela perguntou abismada. — Você acredita que...
— Sim. Isso é o que diz a minha intuição, e eu confio nela, tia. — Harry disse convicto. — Além disso, os olhos, o sobrenome, Liverpool, nada isso é coincidência, não existem esses tipos de acaso. Claro, são muitos séculos e é possível que eu esteja errado, mas, seja onde for, a família Evans teve contato com um bruxo e precisamos descobrir.
— Você acredita que isso ajudará com a aceitação do termo Descendentes? E que diminuirá a discriminação? — Petúnia questionou, confusa pelo seu objetivo.
— Acredito que não existe outra pessoa que poderia atingir mais o mundo mágico do que Lily Evans Potter, por isso precisamos provar com certeza que ela não era uma invasora como esses puristas idiotas pensam, tia. — Harry disse determinado. — Mamãe apenas herdou o dom mágico de um bruxo, e esse presente lhe proporcionou voltar para casa. Tenho certeza de que encontraremos a verdade, mas preciso de ajuda com a pesquisa, não importa o custo ou o tempo que leve, vamos construir a árvore genealógica da família Evans e comprovar para os puristas que os Descendentes são um fenômeno mágico. Um presente milagroso.
Sua tia concordou com o projeto e se dispôs a iniciar as pesquisas e contratar pessoas especializadas em genealogia. Na verdade, Harry teve a nítida impressão que sua tia se mostrou empolgada em realizar algo tão importante, fazer parte da vida de sua irmã e da busca pela tolerância no mundo mágico. Talvez, de alguma forma, sua tia sentisse ser essa uma missão para ajudá-la a se redimir por seus erros do passado.
Pensar sobre isso fez Harry refletir sobre o passado de outras famílias, e sobre como estava em suas mãos contar ou não a verdade. Bem, começaria pelo mais fácil.
— Eu preciso fazer uma visita. — Ele disse, se levantando, e ignorou os olhares cheios de perguntas quando caminhou para a porta. — Volto já. Continuem avisando sobre a reunião desta noite para os membros do Covil que aparecerem.
Deixando o compartimento, ele caminhou pelos corredores até encontrar quem procurava. Batendo levemente, ele abriu a porta e sorriu para as meninas.
— Olá, posso me juntar a vocês por um momento?
— Um Ravenclaw entrando em um ninho de cobras. Um pouco imprudente, Potter, parece mais uma atitude Gryffindor. — Daphne disse ironicamente.
— Culpado. — Harry respondeu, com um sorriso de desculpas. — Prometo não me demorar, e acredito que aqui chamaremos menos a atenção do que na escola. Preciso falar com vocês duas.
— Mas não nos encontraremos em uma reunião no Covil hoje à noite? — Tracy disse e Lidya acenou, também preocupada com a sua presença.
— Sim, mas queria lhes falar em privado. — Harry disse, e acenou a varinha silenciando a cabine. — Tracy, você poderia me dizer como estão as coisas com seus pais?
— Bem... — Tracy suspirou. — Antes, devo lhe agradecer e ao Terry pelo apoio naquele dia, além de me desculpar por não ter sido sincera sobre a minha relação difícil com o meu pai. Não foi justo jogar tudo em cima de você daquela maneira e obrigá-lo a me defender, Harry.
— Não me importo por você não ter contado, sei como pode ser difícil se abrir e confiar. Também não me importo por te defender, mas espero que entenda que não tenho o poder de mudar as decisões do seu pai sobre você, Tracy. — Harry disse lentamente. — Apenas você e ele podem chegar a um acordo.
— Eu sei... na verdade, tinha esperança de que o tio Falc conseguiria influenciá-lo, e apenas me decepcionei. — Tracy disse, com amargura. — Meu pai está irredutível em sua decisão de que devo me manter distante de qualquer questão sobre a guerra e, quando Voldemort retornar, ele pretende me tirar do país junto com minha mãe e irmão.
— Ok. E o que você pretende fazer? — Harry perguntou, mostrando que pretendia apoiá-la em qualquer decisão.
— Seguirei o conselho do Terry. Ajudarei como parte da equipe Covil, escondendo minhas ações da minha família e da minha casa em Hogwarts. — Tracy disse firmemente. — Se a guerra recomeçar depois que eu fizer 17 anos, poderei escolher o que fazer por mim mesma, e se não... — Ela olhou para Daphne, que acenou em concordância. — Daphne e eu decidimos que, quando fizermos 15 anos, iniciaremos o processo de emancipação das nossas famílias. Eu porque não me sinto amparada legalmente por meu pai, que toma todas as suas decisões com a única intenção de favorecer o seu herdeiro, e Daphne porque não se sente segura com sua família, que não aceita seus pensamentos não-puristas.
— Nós sabemos que são motivos fúteis para a atual sociedade purista, mas temos esperanças de que, até lá, nossas influências no Ministério e na Suprema Corte nos permitam conseguir nossa independência legal. — Daphne finalizou.
— Interessante. — Ele disse, com um sorriso malicioso. — Eu tenho os mesmos planos. Principalmente, preciso me livrar do traço que me impede de fazer magias e tirar um certo velhote barbudo, bunda magra e intrometido das minhas costas. Vocês terão o meu apoio e o do Covil para o que precisarem, além da nossa discrição. — Ele suspirou preocupado. — Infelizmente, ou não, eu descobri algumas coisas importantes sobre a sua família, Daphne, que acredito que você desconheça. E isso também a influência, Tracy, afinal sua mãe era uma Greengrass.
— Eu tento não me lembrar disso, Harry, pois, com exceção de Astoria, Daphne e as nossas mães, os Greengrass não são uma família da qual alguém possa se orgulhar de pertencer. — Tracy disse friamente.
— Que informações? — Daphne foi direta ao ponto, como sempre.
— Muito complicado e longo para falar agora. — Harry disse seriamente. — O que quero saber é se podemos ter um momento, antes ou depois da reunião no Covil, ou se vocês me autorizam a falar abertamente em frente a todos os outros membros.
As duas meninas se mantiveram em silêncio e trocaram um olhar pensativo.
— Parece importante. — Tracy considerou.
— E muito sério. — Daphne acrescentou. — Acho que prefiro saber antes e, dependendo do que for, você conta depois ao resto da equipe.
— Perfeito. — Harry se levantou para sair. — Espero vocês três às 18 horas no Covil, temos muito o que falar antes das 19 horas, quando os outros chegarão.
Elas apenas acenaram em concordância e Harry se afastou pelo corredor, silenciosamente. Parando mais à frente, observou seu outro alvo, mas percebeu que abordá-lo ali não era o movimento correto e seguiu para o seu próprio compartimento.
Seu grupo, composto por Terry, Neville, Hermione, Ginny e Luna, não fez perguntas, mas Harry lhes explicou onde esteve e por quê.
— Isso é a coisa certa a fazer. — Hermione disse pensativa. — E sobre o Rabicho?
— Isso é complicado também, mas não posso deixar de falar sobre isso para a equipe, mesmo que Ginny e seus irmãos não mereçam. — Harry disse, com um olhar de desculpas na direção da ruiva.
— Por mim está tudo bem. — Ginny disse convicta. — E você está certo que algo assim não pode ser escondido da equipe, mas acho que não será fácil para o Ron.
— Conversarei com ele individualmente. — Harry decidiu. — Não quero que se sinta humilhado na frente dos outros.
Todos acenaram em concordância, e Luna suspirou.
— Parece que nossas vitórias são permeadas de derrotas. — Ela disse, estranhamente séria.
— O quadro de um dos meus avôs me disse que, em uma guerra, não existem vencedores, pois os dois lados perdem, precisamos apenas lutar para ser os que perderão menos. — Harry disse suavemente.
Durante o restante da viagem, eles conversaram, jogaram ou leram tranquilamente e com poucas interrupções, pois os primeiros visitantes cuidaram de passar o horário da reunião adiante.
Quando chegaram à estação Hogsmeade, as carruagens com os testrálios esperavam os alunos, e todos se sentiram felizes ao verem o castelo. Apesar de as férias terem sido incríveis, era bom voltar para Hogwarts, Harry pensou, compartilhando um sorriso com seus amigos.
Em seu quarto, Harry tomou banho, desempacotou suas coisas e depois desceu para conversar com o Prof. Flitwick. Na noite anterior, foi possível apenas dizer brevemente ao professor que precisava se encontrar com ele assim que chegasse a Hogwarts. A porta foi aberta assim que ele bateu, e Flitwick o olhou com seu sorriso de boas-vindas animado de sempre.
— Oi, professor! — Ele entrou rapidamente. — Tenho muito o que lhe contar!
— Oh... não me diga. — Flitwick disse, meio apavorado. — Você tem mais projetos?
— Claro! — Harry disse animadamente. — Antes de mais nada, preciso lhe falar sobre o que encontrei na câmara secreta quando a explorei depois da destruição do diário. — Ele se sentou em uma das poltronas e continuou falando, sem encarar Flitwick diretamente. — Tinha esperanças de encontrar alguma horcrux escondida, e queria ter certeza antes de receber os nossos visitantes. Por falar nisso, encontraram algo perturbando o cargo de professor de Defesa?
— Sim. — Flitwick disse seriamente. — Dumbledore pretende informar aos alunos que nenhuma maldição foi encontrada e que em breve teremos um novo professor de Defesa, pois ele não quer que se espalhe a verdade, e nem mesmo os funcionários do Ministério entenderam completamente o que encontraram, o que é bom, pois, mesmo com os contratos de sigilo, os riscos de informações perigosas se espalharem são grandes. Sinceramente, não confio naquele Runcorn, nem um pouco.
— Um purista e simpatizante de Voldemort, isso se não foi um comensal da morte. — Harry expôs a sua análise sobre o homem desagradável.
— Ele é jovem e de família não tão rica ou importante, então pode ter sido um comensal das fileiras mais baixas, ou não conseguiu a marca antes do fim da guerra. — Flitwick analisou. — Felizmente, Dumbledore acompanhou o trabalho dele de perto e conseguiu a posse do objeto que foi encontrado na Sala Precisa.
— Sala Precisa? Objeto? — Harry se mostrou ansiosamente interessado.
— A Sala Precisa é conhecida também como Sala Vai-e-Vem, pois ela aparece e desaparece de acordo com a necessidade de quem passa pelo corredor do sétimo andar. Uma porta se abre ao lado daquela tapeçaria do troll aprendendo a dançar, mas apenas se alguém precisar da sala e andar três vezes de um lado para o outro em frente à parede. — Flitwick sorriu ao ver sua expressão de espanto. — É uma sala especial, e não há como saber se foi construída por um dos fundadores ou pela própria magia de Hogwarts.
— E o que tem nessa sala? — Harry perguntou curioso.
— Isso é o mais interessante: a sala que se abre atende à necessidade do bruxo ou bruxa que solicitá-la. — Agora Flitwick parecia desconcertado. — Ela dá o que você precisa, por isso o nome, Sala Precisa.
— Uau! — Harry arregalou os olhos ao pensar nas possibilidades de uma sala como essa. — E Voldemort usou a sala para amaldiçoar o cargo de professor de Defesa?
— Pior, ele usou uma sala onde milhares de alunos ao longo dos séculos esconderam ou se livraram de objetos indesejados para esconder uma tiara que pertenceu à Rowena Ravenclaw. — Flitwick parecia inconformado e animado ao mesmo tempo. — Diz a lenda que Rowena criou uma tiara capaz de aumentar a sabedoria de quem a usasse, mas ela desapareceu completamente depois de sua morte. Incrivelmente, e de maneira desconhecida por nós, Voldemort encontrou essa tiara e fez dela uma horcrux, além de embutir nela uma maldição fortíssima que impedia que os professores de Defesa ficassem no cargo por mais de um ano.
— Merlin! — Harry esbugalhou os olhos. — Vocês encontraram uma horcrux! Aqui, em Hogwarts!
— Runcorn a encontrou, depois de verificar que a fonte da maldição estava em uma sala oculta no sétimo andar. Dumbledore tinha um conhecimento vago sobre uma porta que se abriu ali para ele anos atrás quando precisou ir ao banheiro urgentemente, então, ao consultar os elfos, descobriu como abrir a Sala Precisa. O diretor pediu à sala que abrisse onde estava a maldição, e uma sala com milhares e milhares de objetos diversos se abriu. — Flitwick tinha os olhos brilhando. — Depois disso, não foi difícil para Runcorn e Xandra seguirem a magia negra e encontrarem a tiara, ao que Dumbledore a reconheceu pelo que era originalmente e desconfiou o que poderia ser ou ter sido transformada por Voldemort.
— Então ele assumiu e cuidou de manter os quebradores longe da tiara. — Harry imaginou. — Runcorn não se mostrou desconfiado?
— Não exatamente. Ele ficou satisfeito por terminar o trabalho positivamente e poder partir, mas não gostou de não poder levar o objeto para o Ministério e estudá-lo ou desfazer a maldição. — Flitwick deu de ombros. — Runcorn disse que pesquisar maldições é como eles aprendem e ensinam novos quebradores, mas Dumbledore insistiu que gostaria de fazer sua própria investigação primeiro, antes de entregar o objeto ao seu Departamento. Felizmente, Runcorn não se sentiu à vontade para insistir em uma disputa com Albus Dumbledore.
— Felizmente... — Harry disse, tentando absorver esses novos fatos. — Isso quer dizer que estávamos certos em nossa crença de que o diário não era a sua única horcrux, e agora temos a chance de destruir mais uma... Quer dizer, suponho que Dumbledore pretende destruir a tiara?
— Essa é a questão. — Flitwick parecia desconfortável. — Dumbledore sabe que você destruiu o diário com a sua adaga e que ela poderia destruir a horcrux na tiara, mas ainda não quer envolvê-lo nessa questão, assim, ele me chamou e explicou as suas descobertas, como tinha me prometido, e me pediu para solicitar emprestado a sua adaga, sem lhe dizer o porquê, é claro.
— É claro. — Harry disse amargo. — Acha que a adaga funcionará sem que eu a empunhe? E, por que não usar fogo maldito?
— Porque isso destruiria completamente a tiara, sobraria muito pouco para entregar ao Runcorn e, se isso acontecesse, poderia levantar as desconfianças do homem, algo que não queremos. — Flitwick suspirou. — E não, não sei se a adaga funcionará sem você, mas é a nossa melhor aposta, principalmente porque não queremos que Dumbledore descubra o nosso jogo duplo.
Harry acenou concordando e sentiu o peso da adaga em sua perna.
— Ok. Quando o senhor disse que pediria a mim? — Harry questionou.
— Não hoje, acredito que podemos deixar passar um par de dias. — O professor suspirou outra vez. — Seu pensamento de que Voldemort deixou uma horcrux em Hogwarts foi uma boa intuição, Harry. Agora me conte porque não me chamou para acompanhá-lo em sua exploração, sabendo dos perigos que poderia encontrar ao se deparar com uma horcrux de Voldemort? E, exatamente o que encontrou na câmara secreta?
— Não o chamei porque apenas fui explorar a câmara, professor. Se encontrasse algo que me levasse a pensar que tinha encontrado uma horcrux, eu o chamaria na mesma hora. — Harry mentiu, se sentindo mal por fazer isso. — E o que eu encontrei... — Ele contou exatamente tudo o que tinha encontrado e também sobre as conversas com Slytherin, na câmara e em Stone Waterfall, além do desejo de fundarem um museu e usarem o quadro de Slytherin como um espião durante a guerra.
Flitwick o encarou com olhos arregalados por alguns instantes, antes de franzir o cenho.
— Então, pelo que posso entender, você espera que eu minta que encontrei todos esses tesouros e assim os autentifique como objetos encontrados na câmara secreta de Salazar Slytherin. — Ele disse, e Harry acenou. — O que não entendo é por que não me chamou antes de tirar os objetos e o quadro de Hogwarts.
— Não queria correr o risco de Dumbledore ou o Ministério se apropriarem do que era meu por direito. — Harry disse teimosamente, se mantendo na linha fina entre a mentira e a verdade.
— Você sabe que eu o apoiaria, Harry, não chamaria o diretor ou o Ministério. Agora terei que mentir sobre estar lá no momento da descoberta, quando já dissemos para várias testemunhas que você explorou sozinho a câmara e não encontrou nada. — Flitwick parecia chateado e desconfiado.
— Podemos dizer que mentimos porque não queríamos que houvesse uma disputa pelas descobertas até sabermos o que queríamos fazer com elas, mas, agora que decidimos pelo museu, era o momento certo de revelar a verdade. — Harry sugeriu em tom razoável.
— Uma boa meia verdade, algo em que você é incrivelmente eficiente, e por isso tenho a estranha sensação de que você está mentindo para mim, pelo menos em parte. — Flitwick o encarou atentamente. — Acredito que já passamos da fase das desconfianças e mentiras, Harry.
Harry manteve o rosto absolutamente neutro, nem mesmo desviou o olhar, piscou ou engoliu em seco. Na verdade, ele nem se mexeu incomodado ou envergonhado, ele apenas mostrou a verdade em sua expressão.
— O senhor confia em mim, professor?
— Sim. — Flitwick não desviou o olhar.
— Eu também confio no senhor, com a minha vida. — Harry disse. "Mas não com a dela", acrescentou mentalmente. — Acredite, se eu pudesse lhe dizer, eu diria, Meistr.
Flitwick avaliou a sua sinceridade e pedido de confiança absoluto, sem deixar de ver em sua expressão que a decisão era definitiva e que insistir não o faria mudar de ideia.
— Muito bem, Prentis, aceitarei a sua palavra. — Ele respondeu seriamente. — Caso algo mude ou precise da minha ajuda, sabe que não o julgarei.
— Não me esquecerei, prometo. E obrigado por seu apoio. — Harry disse, e rapidamente mudou de assunto. — O que acha do meu plano? Está disposto a atestar a autentificarão do quadro e objetos da câmara secreta?
— Absolutamente, e acredito que o seu plano é bem tortuoso e arriscado, mas que, se der certo, poderá nos proporcionar uma grande vantagem na guerra. — Flitwick disse, levemente empolgado. — E precisaremos de qualquer vantagem que pudermos obter.
— Tem mais algumas coisas que descobri e ainda não tive a oportunidade de contar para ninguém, mas quero que trabalhemos discretamente, até dos outros membros das Equipes por enquanto. — Harry disse. — Por hora, quero trazer apenas Sirius para esses novos movimentos.
— Conte-me. — Flitwick se mostrou interessado e ouviu abismado as informações sobre a possível ascendência de Lily Evans, e como a comprovação disso poderia abalar as crenças puristas do mundo mágico. No entanto, foi a notícia da possibilidade de "curar" a licantropia que o levou ao sétimo céu da alegria, incredulidade e animação.
— Por que não quer contar para o Remus? — Ele perguntou, confuso apenas com esse fato.
— Quero que ele e toda a matilha se concentrem na inauguração de Flidais, na reconstrução da vila e na adaptação a essa nova vida. — Harry disse lentamente. —Além disso, o senhor e Sirius irão até o seu amigo artesão conseguir o objeto mágico que proporcionará aos lobisomens escolherem suas Valkyries, seus Anciões e os futuros alfas. Enquanto isso, nós três podemos estudar as anotações do vovô Liam com atenção; talvez possamos pedir a ajuda de mais alguém com conhecimento nessa área, como Mason, que escreveu o livro sobre a animagia verdadeira depois de viajar pelo mundo todo.
— Ok, estou entendendo. Você quer lhes mostrar mais do que uma possibilidade fantástica, pretende ter provas irrefutáveis. — Flitwick considerou.
— Confio absolutamente em meu avô, mas ele é um quadro, professor, que viveu há mais de 500 anos. Acredito que precisamos proporcionar mais do que suas próprias experiências. O que o senhor acha? — Harry estava tenso.
— Acho que está certo em ser prudente, mas, sinceramente, qualquer possibilidade de que eles possam parar de sofrer dessa maneira cruel com as transformações seria uma grande esperança, algo que não devemos adiar mais do que o necessário. — Flitwick disse seriamente. — Quando me encontrar com Sirius, em nossa viagem do próximo fim de semana, contarei sobre o que precisamos fazer, e acho que farei uma pequena visita ao meu ex-aluno, mais conhecido pelo pseudônimo de Aaron Mason.
— Obrigado, senhor. — Harry sorriu, feliz com o seu apoio. — Agora, sobre os rituais... — Harry explicou sobre os rituais que precisava fazer e Flitwick leu a lista, acenando positivamente para o seu pedido e oferecendo sua ajuda, além de discrição em suas deslocações futuras.
— Me preocupo apenas sobre como terá tempo para fazer todas essas coisas... hum... — Ele olhou para a lista pensativo. — Acho que entendo o que devemos fazer, Harry. Farei uma cópia desta lista e chamarei dois colegas de confiança, Bathsheda e Fiona, elas prepararão cada ritual corretamente, nas datas certas, e você apenas terá que comparecer e seguir as orientações. — Flitwick o encarou sincero. — Sabemos que podemos confiar nelas e que seria impossível para você organizar tudo isso sozinho, a não ser que pretenda informar os Boots e Sirius do que quer fazer.
— Eu não me importo de informá-los, mas também sei que estarão muito ocupados para me ajudarem com isso. — Harry disse. — Não tive tempo de lhes falar ontem ou hoje, mas acredito que eles não teriam por que se opor. Certo?
— Não, acredito que não. — Flitwick analisou os rituais com mais atenção. — São rituais leves, brancos, de limpeza, purificação, fortalecimento e, bem, alguns poderiam considerar que você é um pouco jovem, mas acredito que todos nós já passamos dessa fase. Você é diferente e não deve ser categorizado nas mesmas proposições que outros adolescentes de 12 anos.
— Bom, e eu confio em Bathsheda e Fiona, então por mim tudo bem. — Harry disse suavemente.
— Muito bem, deixe isso comigo que organizarei tudo. — Flitwick fez uma cópia dos rituais. — Quando pretende se encontrar com o Firenze?
— Acredito que sábado, depois da aula do Jonas. — Harry disse e olhou pela janela na direção da Floresta Proibida. — Firenze já está à minha espera.
— Ok. Algo mais? — O professor questionou.
— Sim. O senhor me manterá informado sobre a destruição da tiara-horcrux? — Harry perguntou.
— Claro. Espero que, em mais alguns dias, tenhamos finalizado isso, com a ajuda da sua adaga. — Flitwick disse positivamente. — Ainda precisaremos marcar uma reunião com a equipe Pegasus e discutir esses desdobramentos, pois Dumbledore sugeriu algumas teorias que podem nos ajudar a encontrar outras horcrux, caso elas existam.
— Vamos olhar as nossas agendas? Assim marcamos os nossos treinos e a reunião pelo espelho-chamada. — Os dois olharam as agendas, incrivelmente apertadas pela próxima semana, mas encontraram horários para dois treinos, uma reunião, aulas e treinamentos extras, além dos treinos de quadribol, no caso de Harry.
Harry deixou o escritório de Flitwick logo depois e foi para o seu quarto, onde pegou o mapa decidido a fazer o próximo movimento. Um bem imprudente, mas...
No mapa, ele encontrou o seu alvo sozinho em seu quarto, e não havia sinal de que Wilkes estava por perto. Satisfeito, Harry desceu um andar da escada e entrou no quarto de Quirke sem bater. Para sua surpresa, encontrou a porta destrancada.
— Não tranca a porta, Otto? — Ele perguntou, depois de fechar a porta e encarar o menino sentado em uma cadeira folheando um livro de Feitiços.
— Potter!? — Otto Quirke se levantou surpreso e deixou cair o livro. — O que pensa que está fazendo invadindo o meu quarto?
— Penso que quero conversar com você em privado e com discrição. — Harry disse, e olhou para o quarto parcamente mobiliado. — Meu quarto já tem uma mesa, uma cadeira e uma banheira, e além disso fiz uma estante para os meus livros nas aulas de Carpintaria.
— O que quer? — Otto perguntou tenso, e parecia temeroso.
— Não estou aqui por algo ruim..., bem, depende do ponto de vista. — Harry suspirou. — Eu me encontrei com o seu pai há alguns dias e ele me perguntou de você.
Otto o encarou inexpressivamente por alguns segundos e depois franziu o cenho, parecendo furioso e indignado ao mesmo tempo.
— Isso é uma piada? — Ele perguntou e deu um passo à frente. — Se veio até aqui para zombar de mim ou para se vingar porque Wilkes é um idiota, pode parar por aí! Não deixarei que use a memória do meu pai!
— Ah! Então você acha que ele está morto? — Harry coçou o queixo. — Isso não deveria me surpreender, mas... Quanto a Wilkes, ele é muito mais do que um idiota, e você deveria ter escolhido melhor com quem fazer amizade, Otto, pois nós dois sabemos que aquele cara é um filho da puta bem maldoso. — Otto o encarou sem dizer nada, e Harry apenas sorriu suavemente. — Eu entendo, você vem de uma família antiga e purista, não ficaria bem ser visto sendo amigo de mestiços ou descendentes, certo?
— Descendentes? — O garoto magro e de sobrancelhas grossas se mostrou confuso.
— Ah! Esse é o termo antigo e mais correto para definir nascidos trouxas, sabe, já que eles são descendentes de bruxos que se casaram com trouxas ao longo dos séculos. — Harry se aproximou, se mostrando amigável. — Descobri recentemente, de uma fonte confiável, que, no tempo dos fundadores de Hogwarts, cada novo descendente era comemorado, pois eles eram vistos como bênçãos, presentes da Deusa, pois trariam mais magias e talentos para florescer no nosso mundo.
— Onde ouviu isso? — Otto franziu o cenho confuso.
— Essa é uma história para outro momento, e em breve você poderá ler nos jornais. Dito isso, vamos nos concentrar no que me trouxe aqui antes que aquele imbecil apareça. — Harry disse, dando mais um passo não intimidante à frente.
— Olha, Potter, eu não sei de onde você tirou essa história de que encontrou o meu pai, mas lhe garanto que isso é um engano. — Otto disse com firmeza e se afastou, rompendo o movimento de aproximação. — Meu pai morreu quando eu era muito jovem, mal tenho algumas lembranças dele.
— Há sete anos? — Harry especulou, e observou o menino acenar ao encará-lo curioso. — Bem, eu conversei com ele e lhe garanto que Donaldo Quirke está bem vivo. Ele me contou sobre ter um filho chamado Otto e uma filha chamada Orla e que não os vê há sete anos. Pensei que talvez você tivesse interesse em saber onde ele está e por que foi obrigado a desaparecer das suas vidas.
— Mas... — Otto parecia meio pálido e confuso, depois chacoalhou a cabeça, irritado. — Isso é uma brincadeira ou algum jogo cruel seu, Potter. Vá embora!
— Ok. — Harry acenou. — Eu vou, mas lhe dou a minha palavra de honra de que não estou mentindo, Otto, e jamais viria aqui fazer jogos sobre algo tão importante. Eu perdi os meus pais também, e a cada dia sinto uma falta imensa deles em minha vida. Se decidir saber a verdade e como se comunicar com o seu pai, me procure, mas sugiro que mantenha esse assunto apenas entre nós, pois tipos como o Wilkes e a sua família colocariam a vida do seu pai em perigo. — Harry se virou para a porta e discretamente olhou o mapa. Percebendo o caminho livre, saiu silenciosamente, assim como tinha entrado.
Subindo para o seu quarto, ele olhou para o relógio e escreveu uma carta para Firenze, marcando oficialmente um tempo para se encontrarem no sábado à tarde. Assim que Flidais começasse a funcionar, Firenze se mudaria para Stronghold, e o tempo dele aqui, na Floresta Proibida, terminaria, por isso Harry sabia que precisava utilizar cada momento para aprender o máximo possível com seu amigo. Depois de enviar a carta por Edwiges, Harry foi se encontrar com Terry e eles desceram para encontrar Neville e Hermione. Iriam lanchar na cozinha e pedir que Mimy servisse alguns sanduíches no Covil, pois era possível que a reunião fosse até bem tarde, e o jantar seria bem cedo.
Harry se despediu dos amigos depois de alguns sanduíches e subiu mais cedo para o Covil, mas antes se desviou e subiu ao sétimo andar. Parando em frente à parede ao lado da tapeçaria do troll aprendendo balé, Harry caminhou três vezes pedindo a sala das coisas escondidas. Uma porta dupla de madeira avermelhada surgiu, ele entrou rapidamente antes que alguém aparecesse e perdeu o fôlego... Era como uma maldita catedral!
Chocado, Harry caminhou entre os milhares, talvez centenas de milhares de objetos de todos os tipos, tempos, objetivos e conservação. Um sorriso se formou em seu rosto ao pensar que ali poderia haver muitos objetos que poderiam expor no museu, além de muitos outros que poderiam ser reciclados, renovados ou doados! Pegando o espelho, Harry chamou pelo padrinho.
— Ei, já está com saudades? — Sirius perguntou sorridente, mas seus olhos estavam estranhamente sombrios.
— Não, ou melhor, sim, mas estou ligando por outro motivo. — Harry se apressou em contar sobre a sala, a horcrux e os objetos. — Acha que precisarei de autorização do diretor para classificar esses objetos?
— Sim, e eles deverão ser expostos no museu como objetos pertencentes a Hogwarts. Sobre os produtos doados, serão doações de Hogwarts, e sobre qualquer coisa reciclada... — Sirius ficou pensativo. — Acredito que isso podemos deixar entre nós, afinal será a sua empresa que reciclará e reutilizará qualquer material. Você pode depois fazer uma doação para a escola com o valor equivalente à quantidade de matéria-prima que conseguir reciclar.
— Ok, são boas ideias. — Harry disse, olhando em volta. — Uma horcrux a menos, Sirius! Ele ainda não sabe, mas Voldemort está em uma onda de azar sem fim.
— Vamos manter a pontuação e vencer esse jogo, Harry. — Sirius disse convicto. — Converse com o Flitwick para que ele apresente a ideia ao diretor, pois você não deveria saber sobre essa sala. E quem quer contratar para fazer a separação?
— Contrate alguns elfos domésticos temporariamente, por pagamento, claro. — Harry disse pensativo. — Uma catedral, é o que parece isso aqui, Sirius, e acho que um museu com essa arquitetura, tão alta, majestosa e mágica é exatamente o que precisamos.
— Ok, direi ao Edgar para separar uns quatro prédios da Travessa do Tranco para reformar e construir algo assim. — Sirius sorriu, mas seus olhos ainda pareciam sem brilho. — Nos falamos mais tarde, avisarei os outros sobre uma possível reunião no domingo à noite, depois que Flitwick e eu voltarmos do continente.
— Combinado. — Distraidamente, Harry guardou o espelho e olhou para o mapa. Ele saiu para o corredor vazio e caminhou pensando no que precisava. Ao entrar na nova porta que surgiu, encontrou uma versão da arena de treinamento da torre Ravenclaw, porém cinco vezes maior.
Harry caminhou pelo chão amortecido magicamente e observou as estátuas que estavam em seus nichos, segurando espadas, machados e varinhas. Em um dos lados, uma parede inteira tinha livros sobre duelos e defesa em uma prateleira de madeir; no canto oposto, haviam espadas, machados, arcos, bestas e bastões.
— Hogwarts nos dará o que precisamos para nos preparar. — Ele sussurrou sorrindo. — Obrigado.
Olhando para o relógio, Harry verificou mais uma vez o corredor e deixou a sala, caminhando para o Covil. Estava vazio, mas limpo, e Harry sabia que Mimy mantinha o lugar impecável para eles. Cinco minutos depois, Daphne, Tracy e Lidya surgiram, e pareceram surpresas por encontrá-lo sozinho.
— E os outros? — Tracy perguntou sentindo falta do Terry.
— Chegarão juntos mais tarde. Acho que precisamos conversar privadamente sobre esse assunto. — Harry disse suavemente. — Neville, Hermione, Terry, Penny, Lisa e Dean sabem, pois estavam na reunião, ou, no caso da Hermione e Neville, souberam por mim e pelo Terry, mas o resto da Equipe saberá por decisões suas. Principalmente você, Daphne.
— Está me preocupando. — Daphne estava de pé no meio da sala e parecia estranhamente jovem, não tão fria e inatingível. — Confesso que não entendo o que pode ter para me contar sobre a minha família que eu já não saiba.
— Bem, posso estar errado e talvez você já saiba, mas... — Harry apontou para o sofá. — Vamos todos nos sentar. — As três meninas se sentaram juntas e Harry se sentou em uma poltrona. — Você teve um tio? Ludovico, irmão mais novo do seu pai?
— Sim... — Daphne parecia completamente perdida, como se não compreendesse por que Harry falava sobre seu tio. Assim como Otto. — Eu não me lembro dele. Astoria nem tinha nascido quando ele foi morto ao fim da guerra, quando os comensais da morte ficaram descontrolados procurando por Voldemort e tentando continuar a luta sem ele. Meu pai disse algo sobre ele estar no lugar errado, na hora errada, pois, como um bruxo puro, não teria sido atacado diretamente. Exatamente como aconteceu com os garotos Bulstrode no Natal, quando Parkinson e os Carrows perderam a cabeça.
— Entendo. — Harry hesitou, tentando manter a expressão mais gentil possível. — Seu tio está vivo, Daphne, eu me encontrei com ele essa semana mesmo.
Sua expressão se manteve vazia por alguns segundos e Tracy agarrou a sua mão compulsivamente, como se tentasse ajudar e obter apoio ao mesmo tempo.
— Onde você o encontrou? — Tracy se adiantou ansiosa e Daphne a olhou confusa, como se não fosse essa a pergunta que ela queria fazer.
— Pergunte. — Harry disse, a incentivando.
— Você tem certeza que era ele? Que o tio Ludovico está vivo? — Daphne perguntou tensamente.
— Sim, ele atende pelo apelido de Lud, mas tem usado um nome falso nos últimos dez anos, pois está fugindo da sua família. — Harry disse suavemente. — Eu o conheci na reunião com os líderes e alfas das matilhas e grupos, que aconteceu no último domingo. Lud é o líder de um grupo familiar de lobisomens, e ontem ele assinou os Tratados, então agora é um dos novos habitantes de Stronghold.
Mais uma vez, Daphne manteve um silêncio ausente, quase incrédulo, mesmo que normalmente não demonstrasse emoções. Tracy, apesar de agitada e ansiosa para saber mais, se manteve em silêncio.
— Como...? — Daphne se calou e respirou fundo. — Pergunta boba a minha. Obviamente, tio Lud foi mordido, transformado em um lobisomem e expulso da família, além de declarado morto oficialmente. — Sua expressão era amarga.
— Tem mais, Daphne, e fica ainda pior. — Harry disse, e recebeu em cheio o impacto do seu olhar azul claro gelado.
— Pior? — Ela perguntou, e parecia meio sem fôlego.
— Sim, e acho que não preciso, mas direi mesmo assim, que confrontar a sua família sobre isso colocaria a vida de Lud e da família dele em grande perigo. — Harry a alertou.
— Eu jamais... Eu compreendo... eu... — Ela voltou a respirar fundo e endireitar os ombros, como se tentasse se fortalecer e se preparar para o que viria. — Fale, por favor.
— A história começa com Caspiana Dearborn, uma amiga da minha mãe, do seu ano em Hogwarts, e seu irmão mais velho, Caradoc, que era membro da Ordem da Fênix. — Harry disse pausadamente. — Seu tio e Caspiana eram apaixonados e pretendiam se casar, mas, um dia, ela desapareceu completamente. Caradoc e Lud passaram a procurá-la incansavelmente, ainda que separados, pois não eram próximos por causa das atitudes puristas dos Greengrass. Até que Caradoc chegou muito perto e também se evaporou completamente. Então, Sirius e Maria MacDougal, noiva de Caradoc, passaram a procurá-los, mas, até o fim da guerra e a prisão do meu padrinho, eles nunca os encontraram. — Harry percebeu que as três meninas ouviam com atenção e que contar toda a situação que levou ao ponto final era importante para que Daphne compreendesse tudo. — Nessa época, o seu avô decidiu parar de financiar Voldemort, pois considerou suas atitudes descontroladas e cruéis demais, principalmente quando ele não podia ou queria controlar os seus comensais da morte, que mataram muitas famílias bruxas puras, como os McKinnon e os Bones, por exemplo. — Daphne apenas acenou, pois sabia sobre essa parte. — Seu tio Lud foi sequestrado um dia, enquanto ainda procurava por Caspiana e Caradoc. Ele foi colocado com Greyback na lua cheia e transformado em um lobisomem, então foi devolvido ao seu avô como um recado do que aconteceria com o resto da família se ele não voltasse a contribuir com os custos de guerra.
— Hum... — Daphne acenou pensativa. — Meu avô sempre se exibiu na intimidade da nossa família sobre como ele enfrentou o Lord das Trevas e se recusou a continuar com o financiamento. Apenas mais uma mentira, claro.
— Sim. Seu avô recuou e continuou a enviar galeões. Enquanto isso, seu tio foi retirado do convívio com a família e isolado em um chalé no campo, pois precisou de muito tempo para se recuperar dos ferimentos infringidos por Greyback. — Harry continuou.
— E porque temiam a besta escura que ele tinha se tornado. — Daphne disse, com ironia sombria.
— Sim, mas Caspiana voltou a aparecer. Com o fim da guerra, seu avô decidiu que o melhor era declarar que Lud morrera em um ataque aleatório de comensais da morte descontrolados, em vez de admitir que seu filho era um lobisomem ou que a família teve qualquer envolvimento com Voldemort, mesmo que fosse apenas apoio financeiro. — Harry explicou. — Caspiana tinha sido sequestrada por Gustav Selwyn e Rabastan Lestrange, pois Gustav era obcecado por ela e foi rejeitado inúmeras vezes. Os dois a mantiveram em cativeiro e a estupraram por quase dois anos, mas... — Harry fez uma pausa ao ver as três meninas empalidecerem e engoliu o nó que se formou em sua garganta, pois lhe ocorreu que, sendo meninas, elas compreendiam mais completamente a terrível tragédia que se abatera sobre Caspiana. Ele lamentou ter que dizer algo tão terrivelmente cruel para garotas tão jovens. — Mas quando eles a levaram, Caspiana estava grávida do seu tio Lud. — Daphne não conseguiu esconder o choque e levou a mão ao rosto subitamente. — Pelo que Lud nos contou, Selwyn e Rabastan usaram o menino para manter Caspiana dócil, e, quando Caradoc chegou perto, eles o mataram na frente dela, para tentar quebrá-la e fazê-la desistir de um dia escapar. Então, com o fim da guerra, Rabastan foi para Azkaban, e Caspiana usou um momento de distração de Selwyn, quando o seu filho estava presente na casa onde ela estava presa, e atacou seu sequestrador, matando-o e depois fugindo com o bebê. — Harry suspirou ao ver o espanto das meninas pela coragem da mulher desconhecida. — Caspiana sabia que a família Selwyn poderia persegui-la, então ela decidiu pedir ajuda aos Greengrass, mesmo depois que soube que Lud estava morto.
— Mas ele não estava. — Daphne disse, arregalando os olhos. — O menino, ele é puro, nascido antes da transformação do meu tio! Ele é o herdeiro da família Greengrass! — Ela se levantou e caminhou pensativamente, como se estivesse procurando entender. — Claro! Com meu tio dado como morto, meu avô não poderia trazê-lo à vida inesperadamente ou contar sobre a licantropia... obviamente, tentar esconder significaria ser obrigado a conviver com um lobisomem, e minha família abominaria isso. Então, meu avô deve ter tentado pegar o bebê, seu herdeiro, mas meu tio se recusou a abrir mão da criança e fugiu.
— Daphne... — Harry a fez parar de andar de um lado para o outro. — Seu raciocínio está correto, mas está faltando um personagem, pois seu tio não fugiu sozinho com Caspiana e o filho.
— Não entendo. — Ela o olhou perdida e voltou a se sentar.
— Antes de você nascer, seus pais tiveram outra filha... — Harry disse, e um som engasgado deixou Tracy, enquanto Daphne empalidecia cadavericamente. — Uma menina sem magia, que seria enviada para o Orfanato dos Abortos, mas Lud disse que sua mãe, Valerie, estava com dificuldade em deixar a menina ir. Ele também contou que, por um ano, os três viveram isolados no chalé no campo, satisfeitos em estarem juntos, e concordaram em não se declararem vivos em troca de sua família os manterem abrigados, alimentados e tal. Mas então, Astoria nasceu, outra menina, e sua mãe foi proibida de voltar a conceber, ou ela morreria. Isso fez de Talles o herdeiro do seu avô, e Lud concordou que, quando crescesse, o menino poderia assumir a função sem que ele e Caspiana se revelassem ao mundo, mas seu avô não concordou.
— Claro que não... — Daphne sussurrou com expressão chocada e olhar distante, como se visualizasse o conflito. — Meu avô quereria manter o controle do menino, criá-lo à sua sombra e semelhança, ensiná-lo a ser um Greengrass de verdade. Então...
— Seu avô insistiu na troca das crianças: sua irmã se tornaria filha de Lud e Caspiana, sem desaparecer completamente do convívio com a família, e Talles seria o filho de seu pai e sua mãe. Pela idade, ele seria pouco mais novo que você, e o herdeiro oficial. — Harry disse, e viu Daphne apertar as mãos em raiva fria. — Mas seu tio e Caspiana não conseguiram aceitar perder o filho e fugiram, com Talles e com...
— Ela. Minha irmã. — Ela disse em um sussurro incrédulo, amargo e feliz, tudo ao mesmo tempo. — Qual o nome...?
— Viviane. — Harry disse suavemente, e Daphne pareceu sentir fisicamente o impacto do nome. — Lud sabia que eles a enviariam para o Orfanato, assim decidiu levá-la e criá-la como sua filha. Por isso eles desapareceram e usaram nomes falsos por tanto tempo, porque temiam que seu avô e seu pai os caçassem ou chamassem os aurores e os prendessem por sequestro.
Daphne riu amarga e fria.
— E admitir as mentiras? Revelar ao mundo o lobisomem e a aborto que contaminam a nobre linhagem Greengrass? — Ela disse, e parecia tentar conter os sentimentos e as emoções, mas mesmo ela não poderia segurar muito mais. — Eu os odeio! — Daphne se levantou e caminhou pela sala, a magia escapando ocasionalmente do seu corpo, como ondas de ódio. — Odeio todos eles! Mentiras! Hipocrisia! Crueldades! E tiraram a minha irmã de mim! — Ela olhou para Tracy e parecia não conseguir conter a dor. — Tracy... eu tenho outra irmã... Tracy...
— Eu sei, eu sei. — Tracy a abraçou. — E ela deve ser tão incrível e linda como você, Daph! Viviane! Olha que nome incrível! E, Daphne! Seu tio e um primo, uma família inteira para você conhecer!
— Espero que não culpe o Lud e a Caspiana por levarem a sua irmã, Daphne. — Harry se levantou também. — Acredito que eles tentaram fazer o melhor diante das circunstâncias.
— Claro que não os culpo! — Daphne enxugou as lágrimas do rosto furiosamente. — Eu apenas agradeço que ele a tenha levado, lhe dado uma família e amor, em vez de permitir que Viviane crescesse sozinha e abandonada naquele orfanato... não posso deixar de pensar que eles fizeram a coisa certa, pois a troca entre os filhos teria sido terrível para todos também; era o caminho mais cruel possível.
— Não me surpreende que tenha sido ideia do nosso avô. — Tracy disse, e estremeceu. — Ele é um homem horrível, absolutamente horrível.
— Onde eles... — Daphne perguntou para Harry, parecendo estranhamente vulnerável.
— Em Stronghold. — Ele respondeu. — Seguros, começando uma nova vida, e tanto Talles quanto Viviane estudarão na nova escola. Ele é um bruxo, aliás.
— Quero vê-los! — Ela disse em tom de ordem e súplica, ao que Harry acenou.
— Ok. Assim que marcarmos o ritual, você pode me acompanhar para Stronghold e encontrá-los. — Harry disse, e ela pareceu surpresa com sua concordância tão fácil.
— Apenas assim? — Daphne perguntou confusa.
— Eles são sua família, Daphne. Se não pudesse te levar, não te contaria sobre eles. — Harry disse, dando de ombros.
— Quando?
— Em breve. Alguns dias, talvez duas semanas para a preparação do ritual, e pode coincidir com a inauguração das Feiras Potter. — Harry disse pensativamente. — Isso chamaria menos a atenção, e você poderá ir direto para Stronghold enquanto eu compareço aos eventos. Não se preocupe, eu organizarei tudo, você precisa apenas encontrar uma maneira de sua ausência não chamar a atenção na sua casa.
— Podemos fazer isso. — Tracy disse sorrindo e Lidya se aproximou, acenando positivamente.
— Com certeza cobriremos para você, Daph! — Ela disse, e a cercou pelo outro lado. — Estamos aqui por você, não se esqueça.
Daphne pareceu se derreter e se fortalecer no abraço conjunto, e Harry agradeceu que as meninas estivessem ali.
— E sobre contar isso ao resto da Equipe? — Harry perguntou suavemente.
— Não. — Daphne disse duramente. — É um assunto de família. Além disso, os Tratados não foram assinados ainda, e não quero que qualquer descuido coloque a vida deles em risco.
— Ok, eu respeito isso. Mas depois que os Tratados forem assinados, você deveria considerar contar que tem família entre a nova matilha, pois acho que precisamos cada vez mais sermos um único povo, sem segregações. — Harry disse, e Daphne acenou pensativamente. — Esconder algo assim pode não agradar a Equipe.
— Pensarei sobre isso. — Ela prometeu, e depois hesitou. — Obrigada por me contar e por ajudá-los.
— De nada. — Harry disse, e olhou para o relógio. — Ainda temos 20 minutos. Se quiserem ficar a sós e conversarem, voltarei junto com todo mundo.
As meninas acenaram e Harry voltou para o seu quarto, com a intenção de lhes dar privacidade. Olhando para o mapa, acompanhou enquanto os seus amigos e colegas começavam a se deslocar para a reunião por entradas diferentes e imaginou como conseguiriam transferir isso para a Sala Precisa sem chamar atenção. Precisaria de mais explorações e pesquisas, decidiu, e aprenderem o feitiço de desilusão era o mais urgente.
À batida na porta, Harry se levantou e abriu para Terry. Eles desceram as escadas em silêncio. Muitos outros saíam para o jantar, mas os dois se deslocaram para o Covil, discretamente.
— Como foi? — Ele perguntou, e Harry suspirou.
— Duro, mas necessário, e acho que ela ficará bem, pois é forte. — Ele respondeu, e logo depois usou a senha para entrar no Covil.
Harry subiu e encontrou alguns membros da Equipe já presentes, mais precisamente Cedric, Susan, Justin, Megan e Hannah. O pessoal da Hufflepuff foi bem pontual, mas os Ravenclaw chegaram em seguida, depois Neville e Hermione. Por fim, os Gryffindor se assentaram e todos o encararam ansiosos.
— Então!? — Justin não se aguentou. — Como foi!? Os Tratado foram assinados? Os lobisomens já vivem na ilha?
Harry respirou fundo e manteve a expressão séria, apesar das boas notícias.
— As vidas de mais de três mil pessoas estão em nossas mãos e nossas mentes. — Ele disse em tom suave, mas que foi ouvido claramente por todos, que arregalaram os olhos meio surpresos ou talvez impressionados por suas palavras. — A partir de hoje, serei mais rígido do que nunca sobre o que se fala, pensa ou quando se fala e pensa. Os Tratados estão sendo preparados, seu texto escrito e as magias extras para contenção e punição de traidores acrescentadas no pergaminho. Todos vocês terão acesso a tudo isso e analisarão se querem ou devem assinar o Tratado, pois precisam entender as consequências de quebrá-lo. Se alguém tiver dúvida, medo ou não compreender completamente o que e por que estamos fazendo isso, devem ser claros. Conversem com suas famílias, amigos, conosco, e, apenas se tiverem absoluta certeza, assinem o Tratado. Entenderam? — Todos acenaram e pareciam mais rígidos. — Dito isso, vamos a algumas regras, começando com a sua pergunta, Justin. A nova matilha foi criada como planejávamos e agora vive em Stronghold, não mais "na ilha"; a partir de agora, esqueceremos a palavra "ilha", pois, se alguém ouvir o termo, estará mais perto de encontrá-los. Além disso, e acho que não preciso me repetir, mas sei que o farei muitas vezes essa noite, não conversaremos sobre isso em qualquer lugar fora de uma sala segura. — Sua expressão se tornou mais dura do que nunca. — Aqueles que ainda não sabem fazer os feitiços de imperturbabilidade irão aprender, e, se não conseguirem fazê-lo, não abrirão a boca sobre qualquer assunto do Covil fora daqui! — Alguns engoliram em seco e pareciam confusos por esse assunto voltar à tona e por não estarem falando sobre as boas notícias.
— Harry... — Penny tomou coragem para perguntar. — Algo aconteceu? Quer dizer, nós já tínhamos conversado sobre isso e estabelecido que não falaríamos sobre esses assuntos confidenciais fora daqui.
— E sobre o Tratado, se não assinarmos, como poderemos fazer parte da equipe Covil? — Questionou Scheyla. — A não ser que alguém aqui tenha dúvidas sobre querer ajudar a lutar na guerra.
— Exatamente essa é a questão. — Harry disse. — E, sim, Penny, algo aconteceu, mas falaremos das coisas boas primeiro. Antes, preciso frisar a importância da discrição e lembrá-los de que nem todos precisarão lutar batalhas violentas contra comensais da morte e muito menos Voldemort. Talvez, se tivermos sorte, já teremos terminado a escola, mas não podemos nos apegar a essa possibilidade, por isso nos preparamos antes. E se não temos controle de quando a guerra recomeçará, com certeza não teremos controle sobre a guerra em si. Precisaremos de toda a frieza e preparação, mas também de todo o apoio. Lutas são apenas partes de uma guerra, e aqueles que quiserem ajudar terão muito o que fazer, mas, para serem parte da Equipe, receberem informações confidenciais, inclusive localizações e planos, vocês terão que assinar o Tratado. Na verdade, sem isso, dificilmente qualquer um aqui conseguirá confiar em você; mas, volto a dizer, isso não significa que vocês precisam lutar! Aqueles que puderem pensar em como ajudar, pensem, se preparem, estudem, treinem e sejam cuidadosos!
Mais uma vez, todos acenaram, e era claro por algumas expressões que suas palavras trouxeram algum alívio.
— Acredito que aqueles que estiveram na primeira reunião poderão contar como foi melhor do que eu. — Harry disse, e apontou para os amigos. — Terry, Penny, Lisa e Dean, por favor, contem os fatos e os resultados, mas não vamos explorar histórias pessoais ou confidenciais.
Os quatro acenaram, com Dean dando uma olhada para Daphne e mostrando certa culpa no olhar, fato que fez Harry perceber que ele já tinha contado para Ron e Seamus o que ouvira sobre a família Greengrass. Controlando a irritação, Harry se concentrou em ouvir sobre a primeira reunião e o que foi observado pelos presentes. Os quatro mais observaram a reunião, assim tinham muito o que falar agora; Harry esteve envolvido nas conversas e precisou de muita concentração. Além disso, ele queria descentralizar as informações e deixar que todos participassem, como parte da Equipe. E, na verdade, ele também preferia ficar com a parte da bronca.
— Uau... — Todos pareciam chocados e impressionados com a descrição da reunião. — Quer dizer que eles realmente estavam abertos, cheios de perguntas e receios, mas eles foram até lá e...
— Foram muito corajosos. — Susan disse, acrescentando às palavras de Justin.
— E são tantos! — Megan disse animada. — Harry, você parece ter convencido eles totalmente!
— Todos ajudaram. — Harry disse imediatamente. — Os meus adultos, Flitwick, Firenze, Belle Perrin, da GER, todos foram muito precisos e inteligentes ao abordarem os problemas ou dúvidas.
— Sim, mas foi o Harry que controlou a reunião e manteve os mais cínicos ou duvidosos na linha. — Penny acrescentou na mesma hora. — Houve momentos em que tínhamos certeza de que perderíamos tudo, devido a acusações ou perguntas irônicas e mentirosas.
— Isso sem falar nas exigências do Harry, que poderiam ser consideradas pesadas ou controladoras. — Lisa disse seriamente. — Mas ele conseguiu explicar tudo de uma maneira que ficou claro para os lobisomens que são eles que têm o controle, desde que respeitem regras básicas e justas.
— Harry também enfrentou aqueles que tentaram menosprezá-lo ou desacreditá-lo por ter doze anos e os que afirmavam que Harry estava tentando explorá-los. — Dean disse. — E aquela hora que você bateu a mão na mesa e gritou com Travers!? Cara, achei que ele ia saltar no seu pescoço, confesso.
Harry ignorou os olhares de admiração e focou no mais importante.
— Essa primeira reunião foi muito mais positiva do que eu pensei que seria, na verdade; conseguimos desfazer enganos e dúvidas, além de convencer os mais céticos. Isso significou que ontem, na assinatura dos Tratados, conseguimos que praticamente todos os membros de todas as matilhas e grupos assinassem e se mudassem para Stronghold. — Harry disse sorrindo. Suas palavras fizeram todos arregalarem os olhos e comemorarem com palmas e gritos de vitória. — E quero que saibam que todos vocês ajudaram muito para que isso acontecesse, com a participação nas pesquisas, o apoio e até mesmo contar sobre como existe uma Equipe aqui em Hogwarts torcendo e lutando por eles. Tudo isso ajudou, e eles enviaram os seus agradecimentos sinceros.
Houve mais palmas, risos e tapas nas costas. Penny, Terry, Hermione, Neville, Fred, George e Ginny contaram sobre como foi estar lá e ver a assinatura do Tratado, a emoção dos líderes e depois dos milhares de lobisomens chegando a Stronghold pela primeira vez. Penny explicou sobre a magia que crepitava no ar, sobre a assinatura do primeiro Tratado que estabeleceu a Matilha e como a Cerimônia de Promessa tinha sido muito bonita de testemunhar.
— Por que disse que quase todos assinaram, Harry? — Corner perguntou curioso. — Alguns desistiram?
— Algumas centenas de lobisomens não compareceram à primeira reunião, por serem nômades, incrédulos, muito sofridos ou por não terem interesse de uma vida diferente. — Harry explicou. — Tipos como Egan e qualquer um que o serve ou outros que preferem viver solitários. E, infelizmente, daqueles que assinaram o Tratado, 34 não passaram pelo teste de lealdade do Pergaminho, da Pena e da Tinta.
— Eu estava presente. — Penny disse lentamente. — Metade desses são bandidos, gostam da vida fácil do crime e não estavam sendo sinceros sobre mudarem e terem uma vida digna. Outros, são insinceros sobre a lealdade ao Harry, pois querem pertencer à Matilha, mas não confiam no Harry verdadeiramente.
— Esses poderão ter uma nova chance quando perceberem que tudo é verdade e todos estão seguros. — Harry disse suspirando. — Eles tiveram suas mentes apagadas, infelizmente, mas serão acompanhados por seus líderes ou alfas, pois precisaremos ajudá-los e manter o controle sobre as informações que estão escondidas em seus inconscientes.
— Bem, mas os números são bem baixos. — Owen disse, sentado no chão e recostado em uma poltrona. — São 34 de mais de três mil, acho que foi uma vitória incrível.
— Harry teve uma participação nisso e todos nós também, mas, sinceramente, a maioria deles estava desesperada por uma oportunidade. — Penny sussurrou, e seus olhos se entristeceram. — Eles estavam fracos, desamparados, famintos, cansados, sem esperança, e agora têm a chance de um lar, um trabalho, além de sofrerem menos nas transformações na lua cheia graças à Wolfsbane. Tudo isso é como um raio de vida, e todos estavam dispostos a arriscar, pois decidiram ter fé nos seus líderes e alfas, no Harry e seus adultos. Em nós. — Ela suspirou emocionada. — Por isso, apesar de não saber o que aconteceu, eu apoio o que o Harry disse no início da reunião: precisamos ter responsabilidade, pois as vidas deles todos estão sob nossos ombros a partir de agora.
Todos acenaram solenemente, e Harry sorriu em agradecimento pelo apoio da amiga.
— Vamos aos nomes. — Harry olhou para Hermione, que parecia ansiosa por essa parte.
— Os nomes foram escolhidos pelos membros da nova matilha, em votação, respeitando o momento de recomeço que estão vivendo e o desejo de que a matilha cresça, prospere e persevere. — Hermione disse, e também parecia emocionada. — Temos agora uma nova escola mágica, a Escola Flidais de Ensinamentos Mágicos e Trouxas. — Enquanto todos sorriam, Hermione contou sobre a deusa Flidais, o deus Cernunnos e, por fim, o nome escolhido para a matilha.
— São nomes fortes, mágicos e abençoados. — Disse Zane Erwood, com um olhar distante. — Meu avô não sabe os detalhes sobre tudo isso, Harry, pois mantive segredo apesar de confiar nele. No entanto, vovô me disse ontem, depois das assinaturas do Tratado, que o mundo estava se alinhando com o coração do guerreiro.
— Bem, acho que Firenze concordaria. — Harry disse, rindo levemente. — Estou ansioso para conhecer o seu avô, Zane, espero que ele esteja feliz em Hallanon.
— Estamos felizes, Harry, e obrigado pelo lindo lar que nos proporcionou, assim como à Matilha dos Lobos Guardiões. — Zane disse sorrindo.
— E para nós também! — Owen acrescentou sorridente. — Minha irmã nunca esteve melhor, e essa semanas na fazenda foi incrível! Eu até aprendi a cavalgar!
— E você leva jeito! — Scheyla disse, bagunçando o seu cabelo com carinho. — Mamãe chegou no sábado, Harry, e havia tanto o que fazer que, na verdade, teria amado continuar por lá e ajudá-la com os animais.
— Depois falamos mais sobre isso. — Disse Harry, ao ver os olhares cheios de perguntas. — Alguém tem mais alguma pergunta sobre a nova matilha?
— O ritual de ligação ainda acontecerá? — Perguntou Claire, pois era uma das mais curiosas sobre a ideia de uma ligação mágica realizada por um ritual antigo.
— Sim, tudo está sendo preparado e espero que, em duas semanas ou pouco mais, realizemos o ritual. — Harry disse. — Os líderes se sentiram muito mais... aliviados ou confiantes quando eu expliquei que a lealdade gerada pela ligação era recíproca. Seremos família, companheiros, e defenderemos uns aos outros.
— Acredita que isso é necessário depois da assinatura dos Tratados? — Corner perguntou. — Me parece algo tão... definitivo e invasivo, quer dizer, talvez seus futuros descendentes não gostem que a família Potter tenha essa responsabilidade para sempre.
— Não se preocupe com os meus futuros descendentes, Michael, eles são meu assunto. — Harry disse secamente. — Além disso, algo estabelecido assim não deve se perder nunca, e espero que no futuro os lobisomens não precisem da proteção dos Potter.
— É para isso que estamos trabalhando tão duro, para realizar mudanças. — Terry disse acenando.
— Levará anos, mas somos jovens e podemos realizar muito em nossa geração, além de ensinar nossos filhos e netos. — Hermione disse convicta.
— Fico feliz que nosso trabalhado duro deu resultados, e espero que consigamos ajudar em mais coisas em breve. — Disse Justin ansiosamente.
— Acredito que Stronghold sempre precisará da nossa ajuda, não se esqueçam que eles não têm apoio do Ministério e a escola Flidais não tem pagamentos de mensalidades como Hogwarts. — Penny disse suavemente. — A GER pretende promover empregos, bolsas de estudo e os treinamentos necessários para que eles possam construir uma boa vida, mas não podemos ignorar que os próximos meses serão bem duros.
Todos acenaram, ansiosos por ajudarem no que precisassem.
— Temos algumas coisas a discutir. — Harry disse, e olhou para Terry.
— Bem... — Terry olhou para o seu bloco encantado de anotações. — Primeiro, temos novos possíveis membros para a Equipe. Eles serão entrevistados pelo Harry, assinarão contratos de confidencialidade e receberão o apoio de membros já estabelecidos, mas toda a Equipe deve aceitá-los.
— Sim, tem a Leda Pilnner. — Cedric disse. — Eu me aproximei dela nas últimas semanas, tentando ajudá-la com o bullying. Acredito que ela está interessada e precisa fazer parte de algo assim, pois ficar isolada e solitária não lhe ajuda a se adaptar ao nosso mundo.
— Eu gosto da Leda. — Luna disse com olhar sonhador. — Ela tem uma aura brilhante e doce.
— Eu também a conheci e concordo com o Cedric e a Luna. — Ginny disse. — Leda é muito doce, gentil, tem um grande coração e precisa de amigos. Acho que todos podemos aceitar sua ajuda e oferecer o nosso companheirismo.
— Alguém se opõe? — Harry perguntou, e ninguém se manifestou.
— Bem, agora eu proponho os parentes de lobisomens mortos pelos aurores. — Lisa disse, e Dean acrescentou.
— Ele são Eric Reeth, sexto ano, Gryffindor e nascido trouxa. Infelizmente, seu irmão mais velho foi transformado e morto quando Eric era criança. — Dean disse suavemente, mas seguiu o conselho de Harry e não entrou em detalhes pessoais. — Também há Janeth Carson, sétimo ano, Hufflepuff, mestiça; seu pai foi assassinado quando ela tinha seis anos. Depois, temos Dempsey Murray, quarto ano, Ravenclaw, puro sangue; seu tio foi assassinado logo depois de ser libertado do campo de concentração do Ministério. E, por fim, temos Julius Yaxley, terceiro ano, Slytherin, puro sangue, e... sua mãe foi assassinada quando ele era um bebê.
— Os puros são confiáveis? — Megan perguntou ansiosa.
— Os Murray são uma família escocesa tradicional. Não puristas, contra nascidos trouxas ou apoiadores de Voldemort, mas ainda não aceitariam um lobisomem na família. — Daphne disse, parecendo completamente recuperada. — Por isso o tio desse garoto estava indefeso e acabou morto, ele foi expulso da família.
Harry acenou, pois era a explicação mais simples e sem detalhes, mas percebeu como ela segurava a mão para conter um leve tremor, talvez ao pensar que esse poderia ter sido o destino de seu tio.
— O caso do Julius é mais complicado. — Harry disse claramente. — Seu pai e família em geral são puristas e apoiadores de Voldemort, mas sua mãe foi assassinada cruelmente pelo próprio pai do Julius, quando ela foi transformada.
— Oh... — Todos pareceram chocados e empalideceram.
— Infelizmente, algumas famílias extremas como os Yaxley não expulsam seus membros contaminados. — Daphne disse com frieza. — Eu já lhes contei sobre isso, e Sirius Black também falou sobre o assunto em uma reportagem para o Profeta.
— Ainda existe o fato de que Corban Yaxley é um auror e, bêbado, disse muitas vezes a Julius como matou a sua mãe e muitos outros lobisomens. — Harry disse, sabendo que não poderia esconder isso da Equipe, cujos membros pareceram ainda mais chocados com essas novas informações. — Mas Julius não é nada como o pai e definitivamente não tem preconceitos contra lobisomens.
— Eu tenho passado mais tempo com ele, para conhecê-lo e ter certeza de que Julius não está fingindo. — Dean disse lentamente. — Desde o começo, apesar de ser mais velho do que eu por quase um ano, Julius se mostra muito jovem, solitário e distante. Ele não tem ou parece querer ter amigos em sua casa e tem um grande ódio pelo pai.
— É exatamente assim em nossa casa. — Tracy disse. — Ele é frio, distante de todos, não se mistura, não mostra qualquer emoção ou pensamentos puristas. Parece muito sozinho e... perdido. — Ela olhou para as meninas, que acenaram.
— Lembre-se de que o Tratado nos dará maior segurança e confiança uns nos outros. — Harry disse. — Mas acho que devemos usar esse momento para conhecer o Julius e confiar em nossa intuição. A minha me diz que ele é sincero, mas vocês podem usar essa oportunidade para descobrirem por si mesmos.
Todos acenaram concordando, e Eddie acrescentou.
— O pai do Murray é membro da Suprema Corte, do Partido Conservador, e isso pode ser uma boa oportunidade para nós.
— O bom é que eu conheci o pai de Dempsey na festa do Slughorn, e ele parece muito decepcionado com o Partido Conservador por sua política contra os lobisomens. — Harry disse. — Acho que descobrir que o irmão mais velho está morto há mais de quinze anos, e dessa maneira terrível, o abalou. Além disso, Dempsey tem pressionado o pai a mudar os pensamentos tradicionais sobre os lobisomens. Talvez seja cedo, mas o Sr. Murray poderia se tornar um dos novos membros do Partido do Sirius.
— Isso já está certo? — MacMillan perguntou. — O Partido novo, os membros?
— Sirius fundou o partido no Ministério, mas ainda não escolheu um nome oficial. — Harry disse. — Ao mesmo tempo, deixamos que a novidade se espalhe, o que tem feito com que meu padrinho receba muitas cartas de pessoas interessadas ou curiosas. Nada foi feito ainda, pois estivemos concentrados nas férias, Stronghold e a inauguração das Feiras Potter, entre outras coisas. Mas, na próxima quarta-feira, ele terá um primeiro jantar com aqueles que se mostraram mais do que curiosos. Acredito que seu objetivo é estabelecer a política e objetivos do Partido, anunciar o nome e aceitar os membros interessados oficialmente.
— Parece que tudo está acontecendo tão rápido! — Anthony disse, arregalando os olhos. — Outro dia falávamos sobre tudo isso e agora Stronghold já está habitada, o novo partido existe oficialmente, temos possíveis contatos na Suprema Corte e vamos assinar o Tratado!
— Isso é só o começo. — Trevor disse sorrindo. — Sei que o Harry tem muitos outros bons planos para o futuro do mundo mágico, e podemos ajudá-lo a realizar tudo isso.
— Bem, vamos nos concentrar no que podemos fazer agora. — Harry ignorou os olhares curiosos e a expressão divertida de Trevor. — Preciso que se concentrem mais do que nunca no treinamento da oclumência, acredito que todos já leram os livros? — Todos acenaram afirmativamente. — Ótimo, isso quer dizer que não existem mais desculpas: todos os dias, todas as noites, treinamento para protegerem suas mentes, assim como o Mason nos ensinou. Se alguém estiver com dificuldades e precisar de orientação, Hermione e eu ficaremos responsáveis por essa parte, nos procurem e ajudaremos. — Houve mais acenos, e Terry marcou em seu bloco essa atribuição. — Assim que o Tratado estiver pronto, gostaria que fosse assinado, pois assim podemos começar a trabalhar com leituras antes dos treinamentos práticos em setembro. Além disso, Sirius pretende abrir uma academia de exercícios mágicos e trouxas no Beco..., mais precisamente na Travessa do Tranco, e disponibilizará um pacote especial para os membros da equipe Covil. Assim, gostaria que todos tentassem comparecer ao menos duas vezes por semana na academia e continuassem os seus treinamentos físicos durante o verão. Se alguém não puder ir até o Beco, mas tiver interesse, deve comunicar a Penny, que planejará um esquema para ajudar os alunos sem flu ou carona. — Mais acenos e anotações. — Se você não puder comparecer à academia, insisto que continue a treinar particularmente; se fingirem ou mentirem sobre isso, sofrerão quando chegarem fora de forma em setembro. Não poderei esperar e nem terei tempo para treinamentos exclusivos, então, quem não acompanhar a maioria, ficará para trás e terá que correr para alcançar. — Harry estava sendo firme e direto. — Por isso estamos nos preparando com antecedência, por isso continuo a orientar e insistir, pois não terei tempo para ficar mimando ninguém. Eu os treinarei, mas preciso cuidar do meu próprio treinamento, estudos e vida pessoal, então vocês precisam se unir e serem proativos. Pesquisem, estudem, e aqueles que puderem contratar um professor particular, contratem, pois, se esperarem as batalhas começarem para perceberem a gravidade da guerra, poderá ser tarde demais.
— Eu posso pedir à titia que contrate um tutor em Defesa, já que praticamente não tivemos aulas esse ano. — Susan disse, e olhou para os amigos. — Não seria difícil convencê-la a permitir que Justin, Megan e Hannah viessem para algumas aulas durante a semana.
— Isso é ótimo. — Harry disse aprovador.
— Posso fazer isso também. — Corner disse, e olhou para Lisa e Anthony, que acenaram.
— Eu também. — MacMillan disse, olhando para Dean, Seamus e Ron, que acenaram animados.
— Essa academia terá aulas de luta, Harry? Para aprendermos a nos defender fisicamente como você nos mostrou outro dia? — Claire perguntou ansiosa.
— Sim. Lutas marciais, exercícios trouxas e mágicos. Também haverá dança e, quando forem mais velhos, poderão ter aulas de duelo. — Harry disse, e todos ficaram interessados. — Não será liberado para os mais jovens, ou será o mesmo que ter um professor exclusivo, mas, para os mais velhos que obtiverem a autorização dos pais, acredito que vocês poderão ter essa oportunidade. E, por um bom preço, Sirius cuidará disso.
— Bom! — Scheyla, Owen, Zane e Claire pareciam felizes.
— Hermione tem um tópico a discutir agora. — Harry disse, e liberou o espaço para a amiga.
— Ainda é segredo, aliás, como tudo o que falamos aqui, mas, em duas semanas, provavelmente, o Prof. Flitwick e o diretor liberarão a informação de que artefatos mágicos de Salazar Slytherin e seu próprio quadro mágico foram encontrados em sua câmara secreta. — Hermione se calou quando exclamações, engasgos e expressões chocadas acompanharam as suas palavras.
— Mas...
— O quê?
— Salazar?
— O quadro dele!? De verdade!?
— Sim. — Harry respondeu, e interrompeu o fluxo de perguntas. — Depois da morte da basilisco, Flitwick e eu voltamos à câmara, queríamos justamente procurar qualquer coisa que poderia ter pertencido a Salazar ou Voldemort, antes que o Ministério enviasse os quebradores de maldições e se iniciassem as reformas.
— Isso lhe dá o direito sobre os artefatos! — Ron disse chocado. — Quer dizer, você encontrou a câmara e os artefatos, portanto, é aquele que tem direitos mágicos e legais sobre eles!
— Mas... é o quadro do Salazar Slytherin! — Corner protestou chocado. — Deveria pertencer à escola, certo?
— Ou ao Ministério, não são eles que têm jurisdição sobre artefatos antigos? — Susan perguntou.
— Não. — Ron respondeu, mostrando que tinha o hábito de ouvir os irmãos mais velhos. — Pelas leis internacionais da Confederação Internacional de Magia, a propriedade legal e mágica é daquele que descobre os artefatos. Você pode doar para a escola ou permitir que o Ministério assuma os custos de qualquer exploração adicional e todas as burocracias de autenticações que custam uma fortuna, mas, se você tem condições financeiras, pode ficar com tudo, autentificar e fazer o que quiser.
— Isso é exatamente o que pretendo fazer. — Harry disse. — Todos os artefatos e o quadro estão em local seguro, meu advogado iniciará o processo de autenticação e, depois, planejamos a construção de um museu para a exposição do que encontramos.
— Um museu? — Mandy parecia que pularia do sofá. — Sim!
— Isso é incrível! Eu amo museus! — Acrescentou Scheyla sorridente. — E teremos acesso ao quadro!
— Imagine quantas coisas ele não poderia nos responder! — Penny parecia que tinha o sol no rosto.
— Já tivemos a oportunidade de conversar com ele nesse último fim de semana. — Hermione retomou a palavra e resumiu os fatos mais importantes, acrescentando brevemente a história do antepassado de Neville. — Como podem ver, as ideias de Slytherin eram radicais para a época e injustas em muitos aspectos, mas ainda não se baseavam em qualquer desejo de expulsar os descendentes do nosso mundo, muito menos com violência.
Hermione fez uma pausa e encarou os colegas que, em sua maioria, a olhavam com bocas abertas de assombro (os bruxos e mestiços) ou sorrisos incrédulos (os descendentes). Era como se todas as verdades absolutas se desfizessem em um único momento e eles precisassem se ajustar aos fatos, mas era impossível, pois então tudo o que eles sabiam era mentira. Todos os séculos de discriminações, perseguições, mortes e guerras, como consequência de bases tão tolas e efêmeras que se deturparam na mente daqueles que não compreenderam a verdade.
— O que queremos é que todos saibam o que virá, mas esperem até a declaração de Slytherin para começar a usar o termo "descendentes". — Hermione continuou depois de alguns segundos. — Também, o Harry teve uma ideia de... — Ela explicou sobre a palavra "trouxa", seu significado e como fariam um concurso para promover um termo adequado para se referir aos humanos sem magia.
— Uau...
— Quer dizer que...
— Os descendentes não eram rejeitados ou...
— Atacados e...
— Slytherin era amigável e um bom professor...
— Um concurso é brilhante...
— Podemos concorrer...?
Todos estavam falando ao mesmo tempo e indo em todas as direções.
— Ei! — Harry os interrompeu, mas sorria. — Sim, vocês entenderam bem, e estamos nos adiantando para lhes contar, pois queremos que todos nós passemos a utilizar o termo "descendentes". Acreditamos que, quanto mais usarmos e defendermos a verdade, mais venceremos os preconceitos. E, obviamente, todos podem participar do concurso, que, aliás, não será promovido por mim. — Harry explicou. — Sirius teve a ideia de convidar a GER para participar, pois ele conhece o dono e acredita que, se uma empresa tão grande e com tantos funcionários descendentes se envolver e começar a utilizar o termo, ele se fortalecerá ainda mais. Isso sem falar que eles têm uma voz forte para lançar o concurso, entregar os prêmios e atingir a maior parte do público.
— E enfrentá-los. — Daphne disse seriamente. — Mesmo se o quadro for autenticado, os puristas ficarão furiosos e tentarão contestar as palavras de Slytherin, seu nome, o nome do seu padrinho, e ter o apoio da GER com certeza ajudará.
— Sirius nos manterá informados. Se tudo correr bem, inauguraremos o museu no verão. — Harry disse sorrindo. — Aliás, o museu não terá apenas os meus achados na câmara secreta, Sirius e eu já decidimos expor outros objetos das nossas famílias. E eu tenho uma surpresa... — Harry explicou sobre a Sala Precisa e o objeto amaldiçoado encontrado pelos quebradores de maldição do Ministério, sem mencionar a palavra horcrux, claro. — O diretor pretende esconder as informações sobre a maldição, pois acredito que ele não quer que se espalhe e chegue a Voldemort, assim, isso é outra coisa sobre a qual vocês precisam saber a verdade, mas que não pode ser mencionado para ninguém. — Todos acenaram entendendo. — O fato é que eu estive na sala e o lugar parece uma catedral, cheia de objetos antigos, raros, velhos, úteis ou inúteis. Minha ideia é... — Ele contou sobre contratarem os elfos temporariamente e separarem cada objeto para exposição ou reciclagem.
— Contratar os elfos é uma grande ideia! — Hermione disse animada. — Podemos dizer que é um trabalho temporário onde eles são obrigados a receber ou legalmente não poderemos utilizar os objetos, e aposto que isso lhes dará um gostinho de como é ser tratado corretamente.
— Você acredita que o diretor autorizará a remoção de tudo? — Hannah perguntou.
— Não vejo por que não. — Harry deu de ombros. — Os objetos expostos ainda pertencerão a Hogwarts, os reciclados se converterão em dinheiro para a escola e ele não terá trabalho algum em tudo isso.
— E o cargo de Defesa está sem maldição! — Penny disse sorridente. — Isso é muito animador!
— Infelizmente, ainda não foi encontrado um professor. — Terry suspirou. — Mas, sem a maldição, acredito que poderemos ter um bom professor em breve, e que durará mais de um ano.
— Ainda assim, o melhor de tudo isso é que a Sala Precisa se abre para nós. — Harry disse e, pegando seu mapa, o abriu na mesa central, afinal, ele prometera ser aberto com suas Equipes, apenas esconderia informações perigosas, como as horcrux e a profecia. — Este é o Mapa do Maroto, inventado e construído por meu pai, Sirius e Remus Lupin. Como podem ver...
— É um mapa da escola! — Exclamou Corner chocado. — Isso é permitido? Você ter um mapa que mostra todos na escola?
— Cale a boca, Corner. — Mandy lhe deu um cascudo. — Isso é uma ferramenta! Podemos utilizá-la em nossos planos!
— Exato, e lhe garanto que não tenho o hábito de ficar espiando a vida de toda a escola, Corner. — Harry disse com uma careta. — Meu pai e seus amigos eram brincalhões, adoravam passear pela escola ou pela Floresta Proibida depois do horário permitido, então usavam o mapa para não serem pegos. Agora, nós o utilizaremos como um recurso de guerra, pois isso nos permitirá, a curto prazo, treinar sem que descubram o que ou por que estamos nos reunindo. O diretor não é o nosso maior problema, ele não é tolo e sabe o que está vindo, mas temos espiões em todas as casas, e, acreditem, quando chegar o momento, eles se mostrarão e contarão cada um dos nossos passos.
— Não vamos lhes dar essa chance. — Disse Fred, e tirou um protótipo do bolso. — Harry nos pediu para trabalhar nisso, e Ginny teve a ideia de usarmos um relógio, pois é algo que todos usam, portátil e inofensivo. O que George e eu estamos tentando é levar as informações do mapa para o relógio e, assim, todos poderemos ter esse recurso facilmente acessível.
— Estamos evoluindo e esperamos que, até setembro, tenhamos como disponibilizar essa belezinha. — George disse, sorrindo dos olhares impressionados. — Qualquer um que tiver uma ideia ou quiser ajudar será bem-vindo, pois isso é algo que não pretendemos patentear e vender, obviamente.
— Legal. — Muitos acenaram e sussurraram animadamente.
— Quando setembro chegar, nós nos encontraremos na Sala Precisa, que nos dará os recursos necessários para o nosso treinamento, mas faremos isso discretamente e sem que ninguém perceba que a equipe Covil existe. — Harry disse sorrindo e todos sorriram de volta, pois era muito emocionante fazer parte de algo secreto.
— Harry escolheu o nome da equipe de adultos, assim, agora somos a equipe Covil dos alunos e a equipe Pegasus dos adultos. — Terry informou e fez anotações. — Lembrando que aqueles que se formarem podem se transferir de uma Equipe para a outra, mas todos somos uma só equipe, a Equipe do Harry.
— Porque Equipe? — Eddie Carmichael perguntou. — Se vamos lutar em uma guerra, treinar para batalhas, não seria melhor se nós nos chamássemos de exército ou esquadrão...
— Armada Harry! — Disse Seamus sorridente.
— Porque não somos um esquadrão. — Harry disse, voltando a ficar sério. — Uma guerra não se faz só de batalhas, eu já disse. Claro que todos serão treinados para saberem se defender tanto quanto atacar, mas haverá aqueles que ficarão na retaguarda. Cura, logística, esconderijo, pesquisa, equipamento e inúmeras outras coisas que nos farão uma equipe, e não soldados em um campo de batalha.
Os rostos se tornaram sérios e Trevor pigarreou.
— Eu já aceitei ser parte da equipe Pegasus ao deixar Hogwarts. Serei treinando por eles e, no futuro, ajudarei a treinar outros que se juntarão a nós, assim como vocês que forem deixando Hogwarts. — Ele explicou. — Quando terminarem aqui, vocês também terão papeis a desempenhar lá fora, mas agora cada um deve aproveitar para aprender o máximo possível, treinar e se divertir. Se tivermos sorte, a guerra demorará anos para começar para valer e teremos tempo para ter um Ministro melhor, uma Suprema Corte mais justa, um Departamento Auror mais competente.
— Precisaremos de sorte. — Corner disse, sabendo que conseguir todas essas coisas não seria nada fácil.
— Estamos fazendo a nossa própria sorte. — Mandy disse. — Poderíamos nos sentar em nossas bundas e esperar, mas não, nós estamos lutando silenciosamente, pois somos uma equipe de rebeldes e podemos fazer muito se formos inteligentes.
— Harry, você poderia nos contar o que aconteceu que o levou a nos alertar outra vez sobre sermos discretos? — Claire perguntou, e Harry suspirou ao ver os três irmãos Weasley ficarem tensos.
— Sim. Bem, como disse mais cedo, não falarei sobre questões pessoais e familiares, isso cabe a cada um e todos os outros respeitaremos os limites. — Harry disse, assumindo sua posição à frente da sala. — Também não exporei ninguém por nada apenas para humilhar ou por sentido de poder, e, se eu precisar dar uma bronca em alguém por algum erro, farei isso individualmente. Dito isso, algumas coisas têm que ser esclarecidas, pois elas precisam ser de conhecimento das Equipes ou estarei falhando em lhes informar e ensinar. Certo?
Houve muitos acenos e expressões confusas ou curiosas, e Harry voltou a suspirar.
— Nas última segunda-feira, estive aqui com o Sirius e a equipe de construção para mostrar a entrada da câmara secreta. — Ele começou e voltou a apontar para o mapa, que continuava aberto sobre a mesa central. — Eles estão fazendo um lindo projeto, e ano que vem teremos uma área de convívio entre as casas e uma arena de duelo de verdade, além da pista de patinação. — Isso trouxe muitos sorrisos; eles já sabiam, mas era bom ouvir a confirmação. No entanto, ninguém relaxou, porque Harry se manteve sério e o assunto em questão não eram as reformas na câmara. — Em dado momento, Sirius e eu nos separamos do pessoal, tivemos uma reunião com Dumbledore e, quando fomos procurá-los para saber se ainda precisavam de mim ou poderíamos partir, encontrei um nome bem distinto no mapa. Esse nome se destacou para mim, pois Peter Pettigrew foi amigo e o fiel do segredo do esconderijo dos meus pais e... — Exclamações e expressões de choque. — O responsável direto por seus assassinatos.
— Você o encontrou? — Sussurrou Penny, e Harry acenou.
— Não quis me envolver para não atrair mais atenção ou ter que explicar o mapa, assim, como Flitwick me ajudou a capturá-lo, decidimos que ele poderia ficar com o crédito. — Harry disse sem maiores justificativas, mas quem o conhecia ou estava aprendendo a conhecer, sabia que ele não iria querer ficar com as glórias da captura de Pettigrew. — Encontrar Peter aqui, em Hogwarts, escondido bem debaixo do nosso nariz, foi surpreendente, e acho que todos entendem que, para mim e meu padrinho, vê-lo preso trouxe uma grande satisfação. O problema foi onde o encontrei e o que eu descobri que ele sabia sobre nós.
— O quê? — Houve exclamações de espanto, surpresa, dúvida e, no caso do Ron, uma palidez doentia ao perceber do que o Harry estava falando exatamente.
— Sobre nós?
— Como ele saberia sobre nós?
— Ele esteve nos espiando?
— Que nojo!
— Tinha um rato aqui, nos espiando?
— Ele não conseguiu entrar, pois colocamos alertas, feitiços de imperturbabilidade e verificamos a sala continuamente. — Harry interrompeu o fluxo de perguntas. — Weasley? Vocês querem falar algo antes que eu conte o que aconteceu?
Isso fez todos os rostos se virarem na direção dos quatro Weasley presentes, e Ron era o mais apavorado ou culpado.
— Pode contar, Harry, não vemos como tentar justificar qualquer coisa mude algo. — Fred disse, sendo o porta-voz dos irmãos.
— Bem. Pettigrew estava no quarto do Ron, pois foi onde ele esteve escondido nos últimos dez anos, se mantendo disfarçado como o animal de estimação da família Weasley. — Dessa vez ninguém falou nada, pois não havia palavras. Harry percebeu que até Daphne teve dificuldade em manter a expressão neutra. — Pettigrew é muito esperto e sabia que precisava ficar escondido dos dois lados da guerra. Por um lado, ele estava morto, um herói, e meu padrinho tomando a culpa por seus crimes. Por outro, todos os comensais da morte sabiam que Voldemort foi à casa da minha família com a ajuda de Pettigrew, assim, as consequências do que aconteceu poderiam ser culpa dele.
— Uma armadilha. — Disse Trevor entendendo.
— Nós sabemos o que aconteceu. — Harry disse. — Eu lhes contei a verdade sobre o sacrifício da minha mãe e a proteção criada, expliquei como os comensais poderiam usar essa informação contra nós e que por isso eu menti na entrevista. — Todos acenaram, pois, assim como antes, eles entendiam por que Harry fez isso. — Mas Peter sabia que não teria apoio entre os comensais, assim, ele mostrou seus instintos de sobrevivência razoavelmente apurados e se escondeu em uma família bruxa pura, com contatos no Ministério, que poderia lhe passar informações precisas sobre os acontecimentos. — Harry olhou em volta com uma pergunta no olhar.
— O julgamento de Black, se ele tivesse existido. — Daphne respondeu na mesma hora. — Pettigrew teria sabido em primeira mão se a verdade tivesse saído e ele se tornasse perseguido pelos aurores.
— Mas isso não aconteceu, assim ele pode continuar tranquilamente escondido, esperando... — Harry deixou a questão no ar.
— Por Voldemort! — Megan exclamou.
— Claro! Voldemort sabe a verdade e o receberia de volta quando recuperasse o seu corpo. — Disse Justin, de olhos arregalados.
— E, para cair nas boas graças de Voldemort, depois de anos escondido, sem procurá-lo ou ajudá-lo de qualquer maneira, o que Pettigrew poderia oferecer ao seu mestre? — Harry insistiu que eles pensassem por si mesmo.
— Você! — Disse Scheyla, com um olhar assustado.
— Ou informações sobre você! — Acrescentou Claire.
— Ou continuar o seu trabalho como espião. — Ginny apontou, e acrescentou diante dos olhares. — Se ele mantivesse o seu lugar como nosso rato, poderia ter passado anos ouvindo conversas sobre o Harry ou do próprio Harry. Voldemort valorizaria isso e, em último caso, poderia usar Pettigrew para chegar até o Harry e sequestrá-lo, por exemplo.
— Isso sem falar nos professores e Dumbledore. — Disse Penny chocada. — Pettigrew seria um espião valioso e poderia nos destruir, como fez com a Ordem da Fênix.
— São todas boas e razoáveis ideias. — Harry disse em suave aprovação. — Mas como eu poderia saber os seus planos? Ou se ele sabia algo sobre os nossos planos?
— Você o interrogou? — MacMillan perguntou meio empolgado, meio chocado.
— Acha que ele responderia as minhas perguntas? — Harry perguntou ironicamente.
— Não, e seria pior deixar ele saber que sabemos que ele sabe de algo. — Disse Justin, e alguns o encararam confusos. — O quê?
— Você está correto. — Harry disse divertido. — Eu não tinha tempo para interrogá-lo, não podia entregá-lo ao Dumbledore ou aos aurores sem saber o que ele sabia. Não podia pedir ao Flitwick que apagasse a mente dele, pois não saberia o que apagar e o feitiço de obliviação deixa rastros.
— Se você apagasse tudo sobre Harry Potter, sem especificar o que sobre você ele não deveria saber, isso causaria um rombo em sua mente. — Penny esclareceu. — O diretor e os aurores perceberiam isso e investigariam, poderiam descobrir o uso ilegal do feitiço de obliviação e...
— Tudo se tornaria uma bagunça. — Trevor terminou a sua frase suavemente.
— Sim. — Harry concordou. — Tive apenas alguns minutos para encontrar uma solução, e não podia confiar que Peter não sabia nada sobre a equipe, os lobisomens, Stronghold...
— Merlin... — Alguém sussurrou, e Harry viu que Ron estava suando frio, enquanto, aos poucos, Dean e Seamus começavam a compreender a situação.
— Então, eu decidi tentar descobrir por mim mesmo e usei legilimência nele. — Harry disse bruscamente, e viu mais expressões de espanto. — Foi um palpite, eu conheço a teoria e sentia que a minha conexão com a magia me ajudaria, assim, decidi tentar e deu certo.
— Você realmente usou legilimência e leu a mente dele? — Justin perguntou impressionado, na verdade todos pareciam impressionados.
— Não sou nenhum especialista, e não pretendo sair por aí usando legilimência em todo mundo. — Harry se defendeu, tentando minimizar a situação. — Como disse, foi um palpite meio que desesperado, acho que a intenção em momentos de profunda necessidade é algo poderoso.
— E, Justin, ler a mente não é o termo correto para o que o Harry fez. — Disse Hermione, em seu tom de correção. — Legilimência...
— Isso não importa. — Daphne disse bruscamente. — O que quero saber é o que você descobriu quando usou legilimência em Pettigrew! — Ela encarou Harry duramente e ele devolveu o olhar sem piscar.
— Muito mais do que eu pensei que descobriria. — Harry falou, e encarou Ron, Seamus e Dean, detendo-se por alguns segundos em cada um.
Os três se encolheram e ficaram ainda mais pálidos. Dean parecia horrorizado ao perceber que os lobisomens poderiam ter sido prejudicados por seu descuido. Seamus parecia envergonhado, e Ron, que se enfiaria em um buraco para não sair nunca mais.
— Eu... — Dean começou, e olhou para Lisa com expressão de desculpas. — Eu falei sobre os lobisomens, mas... eu... Estávamos sozinhos! Sempre tive certeza de que estávamos só nós três! Ou o Seamus e eu, ou o Ron e eu!
Todos os olhavam horrorizados, chocados ou furiosos.
— Seus imbecis! — Daphne se levantou possessa, e Tracy teve que segurá-la para que não avançasse sobre os meninos. — Acreditam que isso é um jogo!? Uma brincadeira para se vangloriar pela escola!? Um grande esquema secreto que torna suas vidinhas importantes!?
— Daphne... — Harry se levantou tentando acalmá-la, mas sabia que, com tudo o que ela descobrira sobre a sua família, Daphne estaria no limite.
— Não! Eu quero saber se eles falaram sobre nós também! — Daphne disse bruscamente. — Sobre as cobras traiçoeiras que não deveriam fazer parte da Equipe!
Harry olhou para Ron em vez de responder, e o menino ficou meio vermelho no rosto pálido e suado. Não era uma mistura agradável.
— Sim..., mas nós não sabíamos... — Ron gaguejou, tentando se defender.
— Sabe o que aconteceria comigo se Pettigrew passasse essa informação adiante? — Daphne disse em fúria fria. — Vocês estão se preparando para enfrentar inimigos lá fora, enquanto eu terei que enfrentar a minha família! Meu pai me estrangularia com as próprias mãos se soubesse o que estou fazendo!
— Não sabíamos! — Ron voltou a tentar se defender. — E não temos culpa se a sua família é maluca!
— Cale a boca! — Fred lhe deu um cascudo na cabeça. — Você e seus amigos fizeram besteira, o mínimo que você deve à Equipe é ouvir calado.
— E a família da Daphne ou de qualquer um não está em julgamento aqui, Ronald. — Ginny disse furiosa. — Não tente jogar a culpa dos seus erros nas costas dos outros.
A defesa dos outros Weasleys pareceu acalmar os ânimos um pouco, e Harry assumiu novamente a situação.
— Realmente, não havia como nenhum de vocês três saberem que o animal de estimação do Ron era um animagus, comensal da morte e espião. — Harry disse, em tom razoável. — Mas a ordem foi não falar sobre nada do que fazemos fora daqui! Ou não sem as devidas precauções mágicas! — A sala esfriou bruscamente com o seu tom, que conseguiu ser ainda mais frio do que o de Daphne. — Isso vale para todos! Não voltarei a me repetir! Vocês precisam pensar! Estarem atentos! — Harry olhou para todos na sala. — Haverá armadilhas. Olhares. Falsos amigos. Espiões. E, haverá o imponderável! — Ele apontou para o mapa. — Pettigrew como animal de estimação da família Weasley por dez anos é algo imponderável, e no futuro isso pode se repetir! Pessoas que nunca imaginaríamos que se juntarão ao outro lado! Magias capazes de ouvir nossas palavras ou desfazer nossas proteções. Pessoas capazes de ver em nossas mentes. — Harry frisou essa última parte. — Voldemort não precisará nem olhar em seus olhos, e aposto que outros dos seus comensais têm a mesma habilidade. Por isso, volto a repetir! Vocês precisam aprender e treinar oclumência! Precisam pensar! E parem de encarar o que estamos fazendo como uma aventura! Uma missão secreta extracurricular! Se não levarem a sério, se não seguirem as regras, aceitarem as ordens, vocês matarão pessoas. — Harry parou e deixou que todos absorvessem a verdade. — Seja um de nós ou alguém que estaremos protegendo, eles morrerão por descuidos, desatenções, empolgação ou falta de seriedade.
— O que aconteceu com as coisas que Pettigrew sabia sobre nós? — Daphne perguntou com voz abafada, parecia se controlar para não sair da sala e não voltar nunca mais.
— O que ele sabia sobre nós? — Tracy perguntou, olhando com nojo para os três garotos.
— Ele sabia sobre a equipe Covil, vocês três e a opinião do Ron sobre a presença de vocês aqui. — Harry disse. — Pettigrew também sabia sobre nossos planos no Ministério, na Suprema Corte, Sirius, o novo Partido, sobre ele ser o Ministro um dia e também nossas lutas contra a discriminação. Ele sabia sobre nosso apoio aos lobisomens, a ajuda que oferecemos nas últimas semanas e também sobre Stronghold, que, felizmente, nunca foi mencionada como uma ilha. Pior, ele sabia que nossos objetivos ao fazermos todos esses movimentos é enfraquecer Voldemort, porque sabemos que ele está vivo e a guerra recomeçará.
Suas palavras calaram todos, e até mesmo Daphne se sentou, chocada ao perceber que as consequências poderiam ser muito piores do que apenas o que ela enfrentaria com sua família.
— Meu Deus... — Lisa olhou para Dean. — Vocês discutiram tudo isso... Tudo o que conversamos aqui e que são coisas tão importantes...
Dean abaixou a cabeça sem tentar se defender outra vez, e Ron parecia ter entendido, depois da bronca dos irmãos, que o melhor era ficar calado. Seamus resolveu dar uma última justificativa.
— Olha, nós erramos, eu concordo, mas muitas dessas conversas aconteceram no quarto do Ron ou de um de nós dois. — Seamus apontou para Dean e ele. — Como poderíamos imaginar que o rato... — Ele olhou para o Ron. — Como você não sabia que o rato da sua família tinha algo estranho?
— Ratos não vivem dez anos! — Mandy exclamou chocada, e todos pareceram perceber a questão. — Eu tive hamsters a minha vida toda! Eles vivem dois ou três anos, dependendo da espécie!
— E ratos mágicos não existem! — Corner acrescentou, com expressão fechada. — Alguns podem ter alguma peculiaridade, mas eles não têm magia para prolongar as suas vidas.
— Pettigrew é do tipo ratazana e deveria viver apenas dois anos. — Harry disse, e todos pareciam chocados. — Como já dito, não estamos aqui para julgar qualquer família ou seus erros. Se algum dos Weasley quiser falar sobre isso, a escolha é dele, e todos respeitaremos suas decisões. — Ele falou em tom definitivo, e os que estavam loucos para perguntar ou criticar se calaram, contrariados. — Quanto à sua desculpa, Seamus, eu concordo que vocês não tinham como saber do rato e que algumas conversas aconteceram no quarto de algum dos três, mas eu vi o que vi e sei que muitas conversas aconteceram na sala comunal da Gryffindor. — Harry levantou a sobrancelha esperando que qualquer dos três questionasse a verdade, mas eles apenas abaixaram a cabeça, finalmente admitindo o erro.
— O que acontece agora? — Penny foi direto ao ponto. — Todos os nossos projetos... O Ministério descobrirá sobre Stronghold?
— Não, bem, esperemos que não. — Harry respondeu. — Flitwick obliviou o Pettigrew das informações que eu descobri e que ele poderia contar para os aurores ou Dumbledore. O professor fez isso com sutileza, então acredito que Peter sobreviverá ao interrogatório e ao julgamento. Depois, o rato estará em Azkaban e poderemos respirar aliviados, pois ninguém voltará a examinar a sua mente.
— Mas até o julgamento ainda corremos riscos. — Penny disse, e Harry acenou.
— Lidaremos com isso. — Harry disse bruscamente. — Não podemos nos apavorar, e sim nos preparar para que erros assim não se repitam.
— Por mim, os três poderiam ser expulsos! — Tracy disse furiosa. — Se algo acontecer com a Daphne, arranco as bolas de vocês com minhas unhas!
Os três garotos se encolheram, e os outros meninos também fecharam as pernas involuntariamente ao verem suas unhas enormes.
— O que faremos é aprender. — Harry disse, ignorando a questão da expulsão. — Todos aprenderão com a Hermione, comigo e com o Terry a fazer os feitiços de imperturbabilidade e todos os outros que precisamos para nos proteger. Fred e George ensinarão o feitiço de desilusão e alguns outros que permitirão que sejamos mais cuidadosos. — Ele olhou em volta e viu muitos acenos. — O treinamento de Defesa começará só em setembro, mas iniciaremos ainda essa semana o treinamento de contraespionagem. Depois que o Tratado for assinado, teremos mais segurança, mas a verdade é que, se não levarmos isso a sério, nada os impedirá de nos vencerem. — Harry esperou alguns segundos para ver se haveria perguntas, mas isso não aconteceu, pois todos concordaram que precisavam aprender. — Hermione e Terry cuidarão dos horários, faremos isso discretamente e em pequenos grupos. A reunião acabou por hoje, podem sair... menos vocês três. — Harry apontou para Ron, Dean e Seamus quando a Equipe começou a se levantar. — Ainda não acabei com vocês.
Todos deixaram o Covil rapidamente e muito silenciosos. Harry se manteve de pé e encarou os três, que se levantaram também, mas continuaram com a cabeça baixa.
— Eu já disse tudo o que precisava. — Harry começou. — O que vocês têm a dizer?
— Eu... Nós merecemos ser expulsos, Harry, e, se tomar essa decisão, não contestarei. Sinto muito, cara. — Dean começou, e parecia arrasado. — Apenas quero que saiba que não tive a intenção de colocar os lobisomens em perigo e ajudar você... bem, descobrir a minha história, minhas origens, poder ajudar o povo do meu pai, tudo isso foi muito importante para mim. Nunca me senti tão perto dele e quero continuar a ajudar, a fazer parte da Equipe. Se você me der uma nova chance, prometo que não cometerei mais erros tolos.
Harry não respondeu, apenas o encarou nos olhos, observando a sua sinceridade, depois ele olhou para Seamus.
— Eu... realmente me importo com o que estamos fazendo. — Seamus disse sincero. — Talvez eu precise levar mais a sério, mas isso não é um jogo ou brincadeira para mim. Meu pai é um trouxa e tenho dois irmãos que podem ou não serem bruxos, assim, protegê-los é meu trabalho. Quando a guerra começar, eles estarão em grande perigo, e eu ficaria furioso se algum idiota os colocasse em perigo por causa de uma boca grande. Prometo me dedicar, levar a sério e estudar para valer, cara.
Harry continuou em silêncio o encarando por alguns segundos antes de olhar para Ron, que parecia estranhamente com um elfo doméstico pelo tom esverdeado, avermelhado, pálido e suado da pele do seu rosto. Alguns segundos de silêncio se passaram e, finalmente, Dean lhe deu um cutucão e um olhar afiado.
— Bem... olha, eu não sabia sobre o rato maldito... — Ron ficou mais vermelho ainda, até suas orelhas pareciam com vergonha.
— Já passamos por essa parte. — Harry disse secamente. — Você não tem culpa, mas o resto da Equipe também não, a questão não é o rato, e espero que tenha entendido isso.
— Não! Quer dizer... eu entendi. — Ron disse, engolindo em seco. — Não devíamos ter falado e precisamos manter a boca fechada e... aprender os feitiços. Eu entendi, e realmente tomaremos mais cuidados, pode deixar.
Harry esperou mais alguns segundos, mas Ron apenas olhou em volta, constrangido.
— Ok. Vamos lá. — Harry suspirou. — Dean, nossos pais estão mortos por causa de todos esses preconceitos idiotas e porque pessoas cometeram erros ou traíram amigos. Também teve muita falta de sorte pelo caminho e muitas pessoas que não fizeram nada para ajudar. — Dean acenou concordando. — Estamos mudando isso e construindo algo que ensinaremos para os nossos filhos, mas quero estar vivo para vê-los crescer. Não se trata só do que perdemos, mas do que construiremos a partir de agora; podemos ser jovens, mas acredito que devemos dar importância a isso. Entende?
— Sim... — Dean acenou. — Eu quero isso, cuidar da minha família e encontrar a família do meu pai... — Ele parecia pensativo. — Ter um futuro...
— Bom, então é isso. — Harry disse, depois olhou para o Seamus. — Sua família será alvo, sua mãe será perseguida por se casar com um trouxa e ela precisa ser informada da verdade. O seu trabalho começa em preparar a sua família para o que vier e se dedicar ao que a Equipe lhe exigir, incluindo momentos de amizade, descontração ou seriedade. Mas eu ou a Equipe não mimaremos ninguém, assim, cabe a você se esforçar.
— Ok. — Seamus disse sério. — Eu posso fazer isso.
— Ron, eu não entendo a situação em que se encontra a sua família, mas você deveria usar o que aconteceu como exemplo de como erros tolos e falta de atenção podem custar caro. — Harry disse.
— Como assim? — Ron perguntou confuso.
— Seus pais não perceberam o rato imortal vivendo na sua casa, Ron. — Harry disse, como se fosse óbvio. — Pettigrew está longe de ser inofensivo, ele poderia ter matado qualquer um de vocês para se safar, foi o que ele fez com os meus pais, preferiu vê-los mortos do que morrer. — O garoto ficou meio pálido. — Você precisa olhar em volta, estar atento, estudar, aprender e perceber as coisas, não ficar mergulhado em seu mundo vermelho e dourado. — Harry o viu acenar, mas teve a sensação de que o menino não entendia realmente. — Como disse para o Seamus, ninguém da Equipe irá te mimar e, se você ficar para trás, não poderei voltar ou enviar alguém para te acompanhar. Tome a iniciativa, assuma as responsabilidades que vem com fazer parte da Equipe ou saia, mas não volte a arriscar a vida de ninguém só porque é legal fazer parte do grupo. — Ron acenou, e parecia sincero. — Apenas saibam que todos cometemos erros, e todos voltaremos a cometê-los. — Harry pensou no ataque de Freya à Caverna. — Quando a guerra começar, a pressão que viveremos... o medo será ainda maior também, e, quando isso acontece, os pensamentos fugirão e erraremos. Nós perderemos pessoas... — Ron arregalou os olhos surpreso, Dean e Seamus empalideceram. — Não estou dizendo isso para que desistam, mas para que aceitem que isso acontecerá. E quando acontecer, lidaremos e seguiremos, mas não aceitarei que traidores ou erros estúpidos nos tirem vidas! Fui claro?
— Sim. — Os três responderam e acenaram ansiosamente.
— Ok. Por fim, se eu ouvir qualquer um dos três falando sobre a história da família da Daphne que vive em Stronghold, uma única palavra entre vocês ou para qualquer pessoa, vocês estarão fora. — Dean empalideceu. — Sim, eu percebi que você falou o que não devia, e aposto que não tomou precauções, não é? Sabe o que o avô e o pai da Daphne fariam com Lud se soubessem onde ele está? Eu não me repetirei, esse é o último aviso para os três. Entendido? — Eles acenaram, e Harry olhou para Ron. — Se voltar a ouvir você atacando as meninas porque são Slytherin, nós teremos problemas, porque eu acredito na lealdade delas e o Tratado deixará isso bem claro também. Assim, repense suas ideias e preconceitos tolos, porque não aceitarei que os membros da minha Equipe ajam como os puristas. Fui claro? — Ron ficou vermelho, de vergonha e um pouco de raiva, mas não argumentou. — Podem sair. — Harry os liberou e ficou sozinho na sala de estar do Covil.
Os pratos com sanduíches trazidos por Mimy estavam vazios, e Harry sabia que ela voltaria para limpar tudo mais tarde. A sala estava cada vez menor para o grupo que só crescia, eles precisavam de mais espaço e segurança, assim, a Sala Precisa aparecera na hora certa. Junto com ela, uma horcrux e o fim da maldição do cargo de professor de Defesa. Pettigrew estava preso; em duas semanas, ele seria condenado para sempre, e tudo o que ouviu sobre seus planos não importaria mais.
Então havia Stronghold, os Tratados assinados, os lobisomens seguros e o ritual, que era uma questão de tempo. As fazendas estavam indo bem, as Feiras seriam inauguradas e seriam um sucesso também, tinha certeza. A GER era o símbolo da maior conquista deles, que era infiltrar os descendentes no mundo mágico. Junto com tudo isso, sua família e amigos estavam bem, as equipes começariam a se preparar mais seriamente e Guinevere estava segura.
Seu coração fez um tuntuntum mais acelerado ao pensar exclusivamente nela e como Guinevere parecia cada dia mais forte depois de tudo o que passou. Suspirando, Harry pegou o mapa, fechou a sala e foi para o seu quarto, sentindo que, pelo menos por um tempo, tudo estava bem.
A ilusão se desfez na manhã seguinte, durante o café da manhã.
Enquanto todo o Grande Salão estava abarrotado de alunos conversando animadamente sobre as férias e aulas que se iniciavam naquela manhã, Dumbledore entrou acompanhado por uma bruxa idosa, bonita e muito distinta. O diretor a levava pelo braço em um caminhar lento, sorrindo galantemente e apontando para a decoração do ambiente, enquanto a mulher olhava em volta com um sorriso nostálgico e olhos azuis brilhantes. Harry pensou que ela lhe lembrava alguém, talvez a Sra. Clark, que também mantinha o cabelo bem penteado e assentado, usava joias e roupas elegantes. A diferença é que essa senhora era loira e usava roupas bruxas, além de ostentar um pouco mais de luxo do que a elegante Sra. Clark. Atrás deles, uma elfa doméstica caminhava de olhos arregalados, parecendo se dividir entre admirar a beleza de Hogwarts e ficar atenta à sua senhora.
Quando chegaram à grande mesa dos professores, McGonagall se levantou para cumprimentá-la com um sorriso gentil, e os olhares curiosos dos alunos aumentaram.
— Ontem o diretor divulgou que o boato sobre a maldição no cargo de professor de Defesa era falso. — Sussurrou alguém mais abaixo na mesa.
— Você acha que essa mulher é a nova professora? — Outro questionou.
— Ela é muito velha... — Alguém respondeu em tom de crítica.
— Além disso, o diretor informou que eles ainda não tinham um substituto para Lockhart...
Harry ouviu em silêncio, pois na noite anterior ele não havia comparecido ao jantar. Pelo combinado, alguns membros da equipe tinham jantado cedo, antes da reunião no Covil, mas Harry e seus amigos estiveram ocupados. Harry olhou para o diretor, imaginando como manteriam o segredo do fim da maldição e a destruição da horcrux de Voldemort quando o novo professor continuasse por mais de um ano no cargo. Talvez Dumbledore tivesse algum plano, e...
— Bom dia. — Dumbledore falou com sua voz marcante, e todo o salão se silenciou. — Bom dia, alunos. Sei que todos estão ansiosos para retomarem as aulas depois de uma longa semana de folga. — Sua expressão era levemente divertida, mas seus olhos estavam estranhamente sérios. — Apenas gostaria de alguns minutos do seu tempo, por favor. — Ele gesticulou para que a bruxa idosa de cabelos loiros dourados e brilhantes se adiantasse e se colocasse ao seu lado. A elfa continuou atrás, parecendo muito ansiosa com seus olhos esbugalhados. — Como eu disse ontem, a investigação do Ministério não revelou qualquer maldição ao cargo de professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, mas isso nos faz questionar outra situação misteriosa. — Ele fez uma pausa e os alunos se inclinaram curiosos. — Onde poderia estar o nosso atual professor de Defesa?
Um zunzunzum se iniciou a essa pergunta, pois muitos começaram a falar ao mesmo tempo sobre como Lockhart tinha fugido ou ido embora. Alguns alunos apenas franziram o rosto mostrando confusão ou espanto, pois não sabiam que isso era um mistério. No caso de Harry, ele sentiu o seu coração se acelerar como se um tambor estivesse batendo em seu peito. Seu olhar se arregalou na direção da bruxa idosa e, de repente, ele entendeu por que ela lhe parecera familiar. O cabelo loiro perfeito, o sorriso, ainda que contido, mas com dentes brancos brilhantes, os olhos azuis luminosos e roupas luxuosas. Antes que pudesse compreender completamente a situação, o diretor continuou.
— Quero lhes apresentar Adelina Lockhart... — Ele disse, e Harry sentiu que empalidecia completamente. — A mãe do nosso querido Gilderoy Lockhart. — Ela acenou para os alunos, que timidamente acenaram de volta, ainda confusos. — A Sra. Lockhart esteve em contato comigo nas últimas semanas, além de com o Departamento de Leis do Ministério, pois, infelizmente, o professor Lockhart se encontra desaparecido.
Isso causou expressões de choque e as conversas aumentaram. Dumbledore teve que levantar a mão pedindo silêncio.
— Eu compreendo que muitos de nós, eu inclusive, pensamos que o professor Lockhart tinha deixado a escola por causa dos inúmeros perigos que enfrentamos neste ano ou por algum compromisso urgente. — O diretor ponderou lentamente. — Mas o fato é que Gilderoy nunca se despediu ou comunicou sua decisão para mim ou qualquer professor de Hogwarts. Ele também não deixou cartas ou bilhetes de despedidas e, nos últimos dois meses, não se comunicou com seu agente, amigos, fãs ou com sua mãe.
Harry olhou para o prato à sua frente, sentindo que o mundo estava desmoronando à sua volta. Eles descobririam! Em breve, eles descobririam o que acontecera e tudo estava perdido! Guinevere! Com o coração acelerado e muito perto do pânico, Harry tentou respirar fundo e pensar. Precisava pensar! O que fazer?
— Bom dia. — Uma voz cristalina falou, e Harry sentiu um frio enregelante envolvê-lo. — É um prazer voltar para Hogwarts depois de tantos anos e ver tantos rostos bonitos. Desculpem-me por atrapalhar seu café da manhã, e prometo não tomar muito do tempo de vocês, crianças. — Harry a olhou e percebeu seus olhos azuis sem tanto brilho, na verdade, ela parecia tensa e preocupada. — Meu filho, Gilderoy, herdou de mim o seu modo espalhafatoso e animado de ser. Espero que ele tenha sido um bom professor para vocês. — Todos os alunos acenaram afirmativamente ou disseram que sim, mentindo descaradamente. Harry manteve os olhos fixados na mesa, pois era difícil encarar o seu rosto. — Bem, talvez não o melhor, mas sem dúvida o mais divertido, eu sempre disse ao meu filho para aproveitar bem a vida, pois ela era uma só e curta demais. — Ela se calou e Harry levantou o olhar o suficiente para vê-la sorrir com tristeza. — Apesar de qualquer defeito, Gilderoy era um bom filho e nunca me deixava mais do que uma semana sem uma carta, a menos que ele tivesse coisas empolgantes acontecendo em sua vida. Com o seu trabalho aqui e o mistério da tal câmara secreta de Slytherin, eu recebia uma carta dele me contando as novidades a cada dois dias! — Ela sorriu suavemente e olhou para o diretor ao retirar um maço de cartas do bolso das vestes. — Gilderoy estava com alguns receios, mas ele não planejava deixar Hogwarts; na verdade, meu filho me disse que talvez tivesse descoberto o herdeiro de Slytherin e estava muito empolgado sobre como isso lhe renderia outro livro de sucesso! — Ela entregou as cartas ao diretor. — Pode ficar com elas, Albus, eu deixei cópias com os aurores e Madame Bones, que prometeram me ajudar a procurar por Gilderoy. Apenas gostaria de pedir aos alunos e professores que, se tiverem qualquer informação, ou se lembrarem de algo sobre o que aconteceu na escola há dois meses, ou se viram meu filho, por favor, informem a um professor e eles contatarão um auror. — Ela sorriu suavemente apesar do olhar angustiado, e Harry sentiu vontade de ajudá-la, mesmo sabendo que era impossível. — Obrigada e boas aulas. — Sra. Lockhart disse solenemente e olhou em volta, como se procurasse alguma coisa. Finalmente, seu olhar se deteve na mesa da Ravenclaw e, instintivamente, Harry soube que Lockhart lhe falara sobre ele.
Antes que ela pudesse encontrar o seu olhar, Harry, com mais sangue frio do que pensou ser possível, virou o rosto na direção oposta, pegou um copo de leite, tomou um gole displicentemente e fingiu que tudo o que ouvira não lhe era importante.
— Lockhart! — Terry sussurrou junto com a maioria dos alunos. — Como assim? Ele deve ter fugido.
— Aparentemente não. — Harry disse, tentando parecer indiferente, mas sua mão tremia, seu coração batia como um tambor e suor escorria por suas costas.
— E ele disse que sabia quem era o herdeiro de Slytherin? — Terry pegou uma torrada, pensativo. — Acha que ele poderia ter...
Harry deu de ombros e se forçou a enfiar comida com gosto de farelo amargo na boca.
— Difícil... — Ele engoliu e tentou não olhar em volta. — Lockhart não era muito competente, quer dizer... — Harry tentou aparentar constrangimento.
— Sim, ele era uma piada... — Terry ficou com vergonha. — Merlin, e se algo lhe aconteceu? Acho melhor não falar mais assim.
— Terminei. — Harry disse, pigarreando e bebendo água para destravar a garganta. — Vamos?
— Sim, sim. — Terry pegou um último bocado e o seguiu apressadamente.
Os dois encontraram com Hermione e Neville na mesa da Gryffindor e a menina estava falando sem parar sobre o desaparecimento de Lockhart, evento ao qual ela não estava presente, pois estava petrificada. Harry a ouvia ao fundo enquanto, disfarçadamente, olhava pelo Grande Salão, mas a Sra. Lockhart e o diretor não estavam mais presentes.
— Como assim você não se lembra o dia exato? — Hermione questionou Terry, irritada. — Neville também não consegue se lembrar o dia em que Lockhart sumiu, e isso é um absurdo!
— Já disse, Hermione, muito aconteceu desde fevereiro... — Neville franziu o cenho. — Você sabe que não tenho boa memória, muito menos para as aulas daquele falso...
— Não fale assim! — Hermione o repreendeu. — Ele pode estar morto!
— Morto? — Terry disse chocado. — Isso é um pouco demais, não é? Talvez ele só esteja perdido ou algo assim.
— Perdido? — Neville considerou a suposição razoável. — Bem, ele era tão incompetente que é bem possível mesmo.
— Mas como alguém fica perdido por dois meses? — Hermione considerou pensativamente. — E se ele tivesse fugido, como foi especulado, por que não escreveria para a sua mãe idosa?
— Realmente isso não faz sentido. — Terry concordou. — O que você acha, Harry?
Harry estava acompanhando a conversa ao fundo e mantendo um olhar atento ao redor enquanto eles caminhavam para a aula de Transfiguração.
— O quê? — Ele encarou os olhares curiosos dos amigos e tentou pensar no que responder. — Ah... bem, não sei, sinceramente, e agora não temos tempo para outro mistério. McGonagall ficará muito zangada se nos atrasarmos. — Isso pareceu despertar Hermione para o horário e os quatro apressaram o passo mantendo o silêncio até estarem sentados na sala de aula. Mas, assim que se sentaram e com a ausência da professora, Terry voltou à carga.
— Vamos lá, Harry. Você adora um mistéri melhor de nós em solucioná-los. — Ele se inclinou curioso. — O que acha que pode ter acontecido?
— Eu... — Harry não queria nem pensar nisso, muito menos falar, mas ele precisava tentar manter as aparências, e não responder seria estranho, afinal, ele gostava de mistérios. — Bem, ele pode ter mentido para a mãe ou saiu para se encontrar com alguém inesperadamente e essa pessoa o traiu. Hum... se os quebradores do Ministério olharam por toda a escola e não o encontraram, Lockhart não está perdido no castelo, mas existe a Floresta Proibida... — Uma ideia lhe ocorreu. — Não se esqueçam das acromântulas...
— Claro! — Hermione falou em tom mais alto. — Tem um ninho de aranhas gigantes na Floresta Proibida!
— O quê!? — Ron soltou um grito e empalideceu a ponto de parecer um cadáver. — Ara... ra... nhas... gigantes?
— Sim. — Hermione respondeu, e percebeu várias colegas ouvindo com atenção. — Não sei se é isso, apenas estávamos especulando que Lockhart poderia ter ido para a Floresta, e lá é muito perigoso, pois tem um ninho de acromântulas.
Essa nova informação criou uma enxurrada de novas teorias e certezas sobre o que aconteceu com Lockhart, e Harry tentou não se sentir culpado por colocar as aranhas do Hagrid na mira das investigações. A aula de Transfiguração e as outras do dia passaram feito um borrão, e Harry teve que se esforçar para se concentrar ou parecer concentrado. Incrivelmente, fingir para os amigos era muito mais difícil do que ele teria imaginado, e seus longos silêncios chamaram a atenção. Mas foi só a sua falta de apetite no almoço que gerou comentários.
— Você está bem? — Terry perguntou, sempre atento ao irmão, que nas últimas semanas comia uma grande quantidade de comida.
— Hum? Sim, sim, tudo bem. — Harry disse distraidamente e se forçou a comer mais, mesmo que estivesse com o estômago embrulhado.
Observando a mesa dos professores, Harry viu que a Sra. Lockhart conversava com McGonagall em tom suave e sereno.
— Por que acha que ela ainda está aqui? — Terry fez a pergunta na mente do Harry, que deu de ombros, tentando aparentar indiferença.
— Talvez tenha sido convidada para o almoço. — Ele disse.
— Ou talvez pretenda ficar aqui enquanto os aurores procuram por Lockhart. — Disse Corner, se inclinando perto dos dois. — Ouvi que existe uma equipe na Floresta e outra na antiga sala do professor, tentando encontrar qualquer pista sobre seu desaparecimento.
— E Hagrid foi enviado para questionar as acromântulas e saber se eles atacaram o Lockhart. — Disse Lisa, mais abaixo.
Harry sentiu o coração se acelerar enquanto seu estômago se contraiu com o pouco de comida que ele insistira em comer. A mesa mergulhou em mais especulações e Harry se afastou da conversa, deixando que o zumbido em sua cabeça levasse a melhor. O que faria? Precisava pensar! Manter a calma era o mais importante, pois não havia provas, Dobby lhe garantiu que ninguém descobriria o que eles fizeram com os pertences de Lockhart. E seu corpo não estava na Floresta Proibida; na verdade, a decisão de enterrar os ossos bem longe viera exatamente do temor de que algum dia a floresta de Hogwarts fosse procurada. Portanto, não havia provas ou como alguém imaginar a verdade, Harry apenas precisava manter a calma e agir normalmente. O único que poderia se revelar era ele mesmo, e, pelo bem dela, Harry sabia que não poderia cometer esse erro estúpido.
Harry olhou na direção da mesa Gryffindor. Encontrou Guinevere sentada entre Luna e Colin, e, pelo brilho em seu olhar, conversavam sobre algo divertido. Ela gesticulou ao dizer algo e Luna riu alto, sua risada animada e feliz. Harry sorriu ao ver Ginny rir também e abraçar a amiga pelo ombro com carinho. Valia a pena, pensou determinado, para vê-la segura, mais do que valia a pena.
Quando deixavam o Grande Salão para as aulas da tarde, Harry percebeu que a Sra. Lockhart se apressou em interceptar o seu caminho. Flitwick a seguia com suas pernas curtas.
— Você prometeu que o apresentaria para mim, querido Filius. — Ela disse em tom falsamente animado.
Harry sentiu a bile amarga subir até a garganta, mas se manteve firme, sabendo que o melhor era enfrentar isso de uma vez.
— Olá, professor, senhora. — Ele se inclinou educadamente e congelou um sorriso distraído no rosto.
— Ah! Harry, a Sra. Lockhart estava ansiosa por conhecê-lo. — Flitwick disse em tom de desculpas, pois sabia que Harry não gostava desse tipo de atenção.
— Hum... — Harry tentou aparentar leve confusão por seu interesse, mas gentilmente estendeu a mão. — Harry Potter, Sra. Lockhart, é um prazer conhecê-la.
— Ora, que menino tão educado! — Ela parecia sincera em seu sorriso. — Prazer em conhecê-lo, Sr. Potter. Sabe, ouvi tanto sobre você que é como se já o tivesse encontrado.
Harry tentou não deixar o medo que sentia transparecer em seu rosto, ao mesmo tempo que olhava sem graça para Flitwick.
— Harry não gosta muito de sua fama, Adelina, por causa da morte dos seus pais. — Flitwick disse suavemente.
— Oh! Não, meu querido. — Adelina tocou seu rosto com carinho, e Harry se esforçou para não se encolher. — Não estava me referindo à sua fama em nosso mundo por causa das bravas ações dos seus pais. Eu me referia a Gilderoy! — Harry a encarou com surpresa, e tentou com todas as forças não deixar transparecer o seu alarme. Ele lhe escrevera sobre as suas suspeitas de que ele era o herdeiro de Slytherin?
— Hum... não compreendo. — Harry disse, tentando soar confuso e gentil ao mesmo tempo.
— Ora! Mas se meu filho não parava de me falar de você em suas cartas! — Ela exclamou em tom muito alto para o gosto de Harry, que apenas se encolheu levemente ao perceber a atenção que atraíam. — Harry Potter isso! Harry Potter aquilo! Gilderoy tinha certeza que vocês seriam grandes amigos!
— Oh... verdade? — Harry tentou pensar sobre o que dizer, pois todos sabiam que ele mal suportava o professor de Defesa. — Bem, hum...
— Ora, você está constrangido. — Sra. Lockhart riu e voltou a tocar seu rosto, desta vez com dois tapinhas suaves. — Claro que ser amigo de uma celebridade tão famosa e importante como o meu filho seria uma grande honra. Gilderoy me disse que você parecia muito impressionado e interessado em aprender com ele a como administrar a sua própria fama. — Harry a encarou, percebendo que ela realmente acreditava no que dizia. — Ele estava muito animado com a ideia de ser o mentor de Harry Potter!
Ela o olhou esperando uma resposta, e Harry sentiu vontade de fugir por um motivo diferente.
— Eu... eu não sei o que dizer... — Ele respondeu sincero, pois era a verdade. — Agradeço por suas palavras, Sra. Lockhart, mas precisamos ir para a aula...
— Ah, claro, meus queridos. — Ela olhou para Terry, que se mantinha ao seu lado e se apresentou educadamente. Neville e Hermione tinham aulas diferentes e tinham deixado pelo outro lado do Grande Salão, assim, não presenciaram a cena estranha. — Apenas gostaria de lhe conhecer e perguntar se você não saberia algo sobre o meu Gilderoy?
Harry ficou pálido ao ver a dor, tristeza e medo em seu olhar.
— Eu... — Engasgado, Harry arregalou os olhos, tentando encontrar a mentira mais importante da sua vida.
— Sei que provavelmente você não se lembra, mas como Gilderoy falava muito sobre você, me ocorreu que talvez vocês tenham conversado ou ele lhe disse algo... — Ela torceu as mãos mostrando toda a sua angústia. — Não faz sentido que ele tenha partido, pois estava cheio de planos. Em sua última carta, Gilderoy me disse que estava trabalhando em um novo livro, que seria um sucesso estrondoso e o faria Ministro da Magia!
— Hum... — Harry hesitou em mostrar interesse. — Ele não disse como? Quer dizer, na carta, ele não deu detalhes?
— Não. — Ela respondeu sincera, e seus olhos azuis, tão parecidos com os de Lockhart mostraram sua preocupação. — Mas ele vive se metendo em aventuras perigosas, meu menino corajoso. — A Sra. Lockhart sorriu orgulhosa, mas sua expressão continuava triste. — Sinto muito a falta dele... eu não tenho mais família, sabe. Era só Gilderoy e eu. — Harry acenou e olhou para o chão, tentando esconder o horror que sentia. — Por um acaso você se lembra do último dia em que o viu, Harry? Talvez ele tenha mencionado algo, qualquer coisa sobre os seus planos?
— Eu... — Harry tentou se lembrar quando o viu pela última vez antes... antes... De repente, o cheiro de sangue era tão forte quanto foi naquele dia... E os gritos reverberaram em sua mente como se ecoassem pelo Grande Salão em alto-falantes gigantescos. Sentindo-se muito perto de vomitar, Harry deu um passo para trás. — Desculpe, eu...
— Adelina? — A voz de Dumbledore ecoou de longe, e Harry nunca se sentiu tão grato com a sua chegada, pois todos encararam o diretor. — Eu estava lhe procurando, minha querida. Os aurores têm algumas informações na sala do Gilderoy.
— Oh! — Sra. Lockhart exclamou ansiosa. — Onde, Albus? Me leve até lá, por favor.
— Claro, mas você precisa se manter calma ou passará mal outra vez. — Ele disse gentilmente. — Meninos, estavam indo para a aula?
— Sim, senhor. — Terry disse apressadamente e com um sorriso educado. — Prazer em conhecê-la, Sra. Lockhart, e espero que dê tudo certo.
— Ora, obrigada, querido. — Ela sorriu para Terry e depois olhou para Harry, que se mantinha congelado, tentando não desmoronar. — Obrigada por ser tão gentil, você é ainda mais doce do que eu pensei. — Harry engoliu em seco e acenou, sem conseguir formular palavras. — Obrigada por apresentá-lo para mim, Filius. Vamos, Albus. — Ela se afastou tão rapidamente quanto sua idade lhe permitia e sem esperar pelo diretor.
— Tudo bem, Harry? — Dumbledore perguntou, olhando para o menino cujo corpo estava tenso e... angustiado.
— Sim. — Harry engasgou para fora. — Atrasados... Com licença, senhor, professor.
Harry saiu cegamente para longe do Grande Salão, tentando apagar da mente o olhar triste e preocupado da Sra. Lockhart que se sobrepunha ao gorgolejo desesperado de seu filho quando Freya o atacou.
— Ei, Harry, nós vamos para lá. — Terry apontou a direção das estufas no jardim.
— Vai na frente, preciso ir ao banheiro. — Harry não esperou resposta ou tentou ver a sua expressão, apenas se afastou procurando realmente um banheiro.
— Estamos atrasad...
Mas a voz de Terry ficou para trás e Harry continuou andando, só parou quando percebeu que estava no sétimo andar, em frente à tapeçaria do troll bailarino. Caminhando três vezes, ele imaginou o seu quarto e pediu que ninguém pudesse acessar a sala. Entrando, Harry parou ofegante, olhou em volta e percebeu que cada detalhe do seu quarto tinha sido construído, inclusive o banheiro com a banheira. Respirando com dificuldade, ele soltou sua mochila e caminhou pelo espaço agitadamente, puxando os cabelos e tentando esquecer a expressão angustiada da Sra. Lockhart.
O que faria? Merlin, o que faria?
A verdade não poderia aparecer, mas, se não descobrissem o corpo, aquela pobre senhora procuraria pelo filho para sempre! O que deveria fazer? Talvez... trazer o corpo de volta... deixar na floresta para que os aurores encontrassem... isso daria um fim à procura da Sra. Lockhart. No entanto, isso criaria uma investigação de assassinato. E se eles descobrissem, ao examinar os ossos de Lockhart, que ele tinha sido morto pela basilisco? Isso os levaria a interrogar Flitwick e os alunos que o ajudaram a matar Freya? E o corpo aparecendo na Floresta Proibida, e não na câmara? O que eles pensariam disso? Chegariam à conclusão de que o atacante, o herdeiro de Slytherin, era o responsável? Mas por que ele mataria Lockhart e depois levaria os ossos para a floresta? Além disso, com uma morte, as questões sobre quem era o atacante voltariam com tudo, e provar a verdade era praticamente impossível. O aparecimento dos ossos de Lockhart levantaria dezenas de perguntas, muitos sabiam que Harry ajudara o aluno e poderiam falar algo ou especular que Harry sabia quem matara o professor. Mesmo se Harry não dissesse nada ou se recusasse a revelar, poderia confiar que todos se manteriam calados? Flitwick, Hermione, Terry, Neville? Sim, Harry confiava neles, mas e se fossem obrigados pelos aurores a revelar que Guinevere abrira a câmara secreta? E, mais uma vez, eles voltavam à impossibilidade de provar que Voldemort estava vivo ou explicar o diário. Revelar a existência de uma horcrux e que eles sabiam o que o diário era poderia destruir tudo! Voldemort seria informado por seus comensais da morte, que saberiam que seu mestre não estava morto. Seria como uma bola de neve de eventos que poderia levá-los a um fim tenebroso.
No entanto, ele tinha o direito de agir como um deus? Não tão diferente de Dumbledore, que tomou decisões sozinho sem se preocupar com o seu bem-estar, apenas interessado no quadro maior? Como poderia ele deixar aquela pobre senhora sofrer por anos e anos sem saber o que aconteceu com o seu filho? Sem enterrá-lo dignamente? E como poderia não agir assim quando tanto e, mais importante, quando a segurança de Guinevere estava em jogo?
Talvez... talvez houvesse outra solução. E ele não estava vendo porque estava muito apavorado. Harry puxou mais os cabelos tentando clarear a mente com a dor. Para quem ele poderia contar? Alguém em quem confiava incondicionalmente, que o apoiaria e ajudaria sem julgamentos ou recriminações. Que talvez pudesse lhe ajudar a pensar no que fazer... Sirius. Essa era a resposta. Sirius o ajudaria, sem sombra de dúvida. Seu padrinho o apoiaria e pensaria em uma solução que ajudasse a Sra. Lockhart sem colocar Guinevere em risco. Decidido, Harry pegou o espelho para falar com o seu padrinho e... hesitou. Ele confiava em Sirius, mas e se tudo desse errado? E se os aurores pegassem Sirius lhe ajudando? E se o seu padrinho voltasse para Azkaban?
Com o coração apertado, Harry guardou de volta o espelho no bolso. Essa bagunça era dele e era ele que precisava resolver. Respirando fundo, Harry voltou a andar pelo quarto tentando chegar a uma decisão, pois precisava ir à aula ou chamaria atenção indesejada. No fim, a questão era simples: ele fez tudo o que fez para proteger Guinevere, e isso não tinha mudado. Ela anda estava em grande perigo, e tentar voltar atrás em suas ações apenas colocaria outras pessoas em risco. Assim, o melhor era manter o plano inicial, torcer para que os aurores não descobrissem o que ele fizera e... lamentar silenciosamente pela dor da Sra. Lockhart.
Harry parou de andar e gemeu de raiva e tristeza ao se inclinar até apoiar as mãos nos joelhos.
— Ahhhhhh! — Ofegante e com os olhos cheios de lágrimas, ele lutou para respirar. — Maldito! Maldito! Maldito Voldemort!
Soluçando, ele se forçou a respirar fundo, enxugou as lágrimas do rosto com as costas da mão e olhou para o mapa. Encontrando o caminho livre, Harry pegou a mochila e, quando deixou a Sala Precisa, sua capa já o cobria tornando-o invisível para todos. Ele chegou ao jardim, guardou a capa e caminhou para a estufa apressadamente.
Sprout não gostou do atraso, mas também não fez um grande alarde ou tirou pontos da Ravenclaw. Harry não respondeu ao olhar curioso de Terry e rezou para que não parecesse muito pálido.
O resto do dia continuou estranhamente disforme para Harry, que sentiu como se uma bolha de maus sentimentos o acompanhasse por toda a parte. Tristeza, revolta, raiva, medo e muita ansiedade. Ora ele tinha certeza de que tudo seria descoberto e Guinevere estaria em grande risco. Durante esses momentos, Harry pensava em fugir dos aurores e desaparecer completamente levando-a consigo. Então, ele se lembrava do contrato mágico que assinara com Dumbledore e que o impedia de deixar Hogwarts, assim como o país. Sua imaginação então ia para a imagem dele ajudando Guinevere a fugir, mas os dois ficariam separados e sem se verem por anos e anos.
Deprimido com o pensamento da despedida iminente, Harry então se sacudia, exigindo de si mesmo que fosse menos dramático. Nesses momentos, ele tentava ser frio, afinal, o seu plano era perfeito e não havia como ser descoberto. Os ossos estavam a milhares de quilômetros de distância, não havia vestígios físicos ou mágicos na sala de Lockhart e ninguém presenciara a sua morte, a não ser ele. Portanto, os aurores não descobririam nada, nunca.
Mas esse pensamento trazia um alívio misturado com tristeza e culpa ao pensar na pobre Sra. Lockhart. Então, Harry pensava em Guinevere e endurecia o coração, porque ela era mais importante.
Por volta da hora do jantar, seus amigos já tinham percebido que algo estava errado e lhe lançavam olhares curiosos. Hermione se cansou do silêncio mórbido e acabou questionando o que estava errado com ele.
— Nada, apenas cansado e preocupado com os exames. — Harry disse, dando de ombros. — Estivemos tão concentrados em todo o resto que esquecemos que estamos a dois meses do fim do ano.
Terry e Hermione lhe lançaram olhares desconfiados, e Neville decidiu ajudá-lo.
— Bem, obviamente os professores não se esqueceram, pelo número de lições e deveres que eles nos passaram hoje. — Neville apontou. — Se continuarem assim durante a semana, não teremos tempo para mais nada além dos deveres de casa.
— Bem, precisamos de tempo para muitas coisas. — Harry disse, tentando se manter focado. — Começando com o quadribol. — Ele olhou para Trevor. — Os treinos retornam amanhã, então vou aproveitar para dormir cedo hoje.
Era uma boa desculpa para poder ir para o seu quarto.
— Pensei que teríamos uma aula de Defesa extra hoje. — Ginny falou, se sentando ao seu lado na mesa e pegando um pedaço do seu peixe malcomido.
— Ah... — Harry franziu o cenho ao se lembrar que realmente tinha uma aula combinada com eles. — Hum, acho que deixarei para quarta, antes da aula de astronomia...
— Você não vai comer isso? — Ginny perguntou, e Harry acenou lhe empurrando o prato.
— Você está doente, Harry? — Terry perguntou preocupado. — Mal comeu no almoço ou agora, não quer treinar e está pretendendo ir dormir cedo.
— Não, apenas cansado. — Ele disse, começando a se irritar. — Acho que descansar depois da longa semana que tive é uma boa ideia, e não é crime querer dormir mais cedo.
— Sim, mas a sua falta de apetite aparece quando você está preocupado, e...
— Deixa de interrogatório, Terryboy. — Ginny falou com olhar afiado. — Se Harry disse que está bem, é porque ele está bem. Além disso, eu também estou precisando descansar, sabe, o fim de semana foi arrasador.
Ela sorriu e todos acenaram, concordando que o fim de semana em Stone Waterfall tinha sido incrível.
— Bem, estamos com os deveres todos prontos... — Hermione lançou um olhar questionador para Ginny, que acenou. — Então, não vejo por que não podemos descansar hoje, Terry.
— Ok, ok, já percebi que perdi a discussão. — Terry disse divertidamente. — Eu também estou pouco concentrado hoje por causa dessa história do Lockhart. Alguém soube mais alguma coisa?
Harry não conseguiu evitar de ficar tenso, e o corpo recostado ao seu acompanhou o movimento. Ele percebeu um olhar de esguelha de Ginny, mas ignorou e se concentrou em saber o que se sabia ou se especulava sobre as buscas dos aurores.
— Parece que descobriram que Lockhart empacotou as suas coisas. — Disse Mandy, e Morag acenou concordando.
— Mas ele não fez isso sozinho. — Disse Lisa. — Lockhart pediu a ajuda de um elfo doméstico, ou pelo menos é o pouco de magia que existe na sala.
— Então talvez um dos elfos saiba algo? — Exclamou Terry, arregalando os olhos.
— Dificilmente. — Corner disse objetivo. — Elfos são servos, Lockhart deve ter pedido que um deles empacotasse seus malões e depois o dispensou sem dizer ou explicar nada.
— Ok, mas isso quer dizer que ele foi embora de Hogwarts. — Hermione disse, irritada com a maneira de Corner falar dos elfos.
— Provavelmente, Lockhart enviou os malões para algum lugar ou os encolheu, depois deixou Hogwarts fingindo ir a Hogsmeade para uma bebida. — Disse Anthony. — Isso é o que faz mais sentido...
Harry continuou a ouvir as teorias e bebeu um gole d'água, sentindo o estômago se revoltar e se agitar. Suspirando, decidiu que já tinha ouvido e fingido o suficiente, queria ir para o seu quarto, se enfiar em sua cama e dormir até o dia seguinte. Talvez tudo parecesse menos terrível quando acordasse.
— Provavelmente ele estava indo a um encontro secreto e...
Acenando, Harry se levantou e deixou a mesa, enquanto o pessoal ainda especulava teorias sobre o mais novo mistério de Hogwarts. Terry e Neville lhe lançaram olhares preocupados, mas resistiram em voltar a questioná-lo. Hermione estava perto de se levantar e segui-lo, quando viu Ginny deixando a mesa Ravenclaw e se afastando por outra saída com um olhar determinado. Ela não precisou pensar muito para perceber que a menina ruiva pretendia interceptá-lo. Mais tranquila, pois sabia que Harry gostava de conversar com Ginny, Hermione mergulhou na discussão à mesa, defendendo as suas próprias teorias.
Harry já estava no quinto andar quando percebeu passos vindo da direção do Covil. Tenso, ele parou, imaginando o pior, mas Guinevere apareceu caminhando suavemente, como uma bailarina.
— Oi. — Ela disse, e estendeu a mão. — Vamos conversar.
Harry engoliu em seco, muito perto de desmoronar, e ainda tentou ser forte.
— Tudo está bem... — Ele sussurrou com voz engasgada, mas seu corpo se moveu sozinho e Harry se viu apertando a mão dela com força. — Preciso apenas descansar... hum, estou cansado... é isso.
— Ok. Não precisa me contar se não quiser. — Ela disse suavemente e o puxou para o Covil. — Podemos apenas passar um tempo juntos, sem falar.
Harry andou uns passos, sentindo que caminhava para a própria condenação. Tremendo, ele olhou para o seu rosto bonito, os olhos castanhos cheios de chocolate derretido e afeto. Então, Harry percebeu que ela era exatamente com quem queria estar, com quem precisava conversar. Ele se prometera contar para Guinevere o que tinha acontecido, pois sabia que não poderia esconder dela a verdade sobre Lockhart. Talvez... esse fosse o momento, pensou, sentindo um certo alívio por poder contar a alguém, ao mesmo tempo em que seu coração se apertava por saber que Ginny sofreria com a verdade.
— Aqui não. — Ele sussurrou, sabendo que esse assunto não poderia ser discutido em qualquer lugar onde alguém poderia ouvi-los.
Harry caminhou na direção oposta e os cobriu com a capa. Felizmente, não encontraram ninguém e chegaram ao sétimo andar em segundos. Harry caminhou pedindo uma sala igual à do Covil e entrou, sabendo que ninguém poderia encontrá-los ou ouvi-los.
— A Sala Precisa? — Ginny perguntou, olhando em volta, curiosa. Harry apenas acenou. — Que interessante. Ela nos dá o que precisamos?
Harry voltou a acenar e Ginny olhou para a lareira apagada, pedindo à Sala que a acendesse. O fogo rugiu e iluminou o ambiente, esquentando a sala. Ginny, ainda segurando a sua mão, o puxou com ela até o tapete em frente à lareira. Depois, ela foi até o sofá e pegou algumas almofadas, espalhando sobre o tapete, se sentou e, pegando a sua mão outra vez, o fez se sentar ao seu lado.
— Assim você se aquece. — Ela disse, com um sorriso suave. Ao ver a expressão confusa de Harry, ela acrescentou. — Você está gelado e tremendo.
Harry franziu o cenho e prestou atenção em si mesmo, percebendo, um pouco chocado, que realmente estava com frio. Na verdade, ele estava congelando e, imediatamente, os seus dentes começaram a bater e seu corpo se encolheu.
— Ssshhhhh... — Ginny disse e esfregou as suas mãos tentando aquecê-lo. — Está tudo bem...
Mas seu corpo tinha vida própria, e Harry se inclinou, gemendo de tristeza e tremendo incontrolavelmente.
— Ahhhh... — Engasgado, Harry soluçou, e, quando não acreditava que poderia mais suportar o peso do próprio corpo, Ginny o puxou contra ela e o apoiou.
Foi como se eletricidade e fogo se encontrassem, frio e calor, aço e elástico, inflexível e flexível. O corpo de Harry se aqueceu de uma maneira que dez lareiras acesas não poderiam fazer. A magia dos dois cantarolou e o ar se aqueceu e se eletrificou em volta deles, enquanto Harry se engasgou de alívio quando não precisou mais se apoiar sozinho. Era como se o peso e a dor que carregasse fossem divididos pela metade, pois o abraço o acolheu, confortou e fortaleceu, tudo ao mesmo tempo.
— Eu estou aqui. — Ela apertou ele com mais força contra o seu corpo. — Você não está sozinho...
Harry suspirou e fechou os olhos, afundando o rosto na curva do seu pescoço e respirando fundo o cheiro incrível de flores e terra, o cheiro de Guinevere.
Aquilo era tão bom que Harry não teve pressa em se afastar e se deixou abraçar e respirar o cheiro dela, apenas ela, até se sentir meio bêbado de tanto prazer. Ele poderia morrer ali, pensou, de olhos fechados, abraçado em seu calor e mergulhado em seu cheiro perfeito. Os minutos se passaram e Harry se recusou a deixar a perfeição desse momento e encarar a feiura do mundo, porque era impossível haver qualquer coisa importante fora dali, daquele momento.
Por fim, suspirando fundo e se sentindo mais forte do que pensou que estaria quando o momento de falar sobre a morte de Lockhart chegasse, Harry se afastou do abraço, já lamentando a falta do calor que emanava de Guinevere. Ele a olhou e ela o encarou de volta, claramente preocupada, mas sem fazer perguntas, e apenas esperou em silêncio.
— Sinto muito. — Ele sussurrou, e Ginny franziu o cenho, confusa e chateada.
— Não precisa se desculpar se estiver com algum problema, Harry. Somos amigos, não somos?
Harry voltou a suspirar e desejou esquecer tudo e apenas ficar ali, conversando e sentindo o seu calor e amizade.
— Não... — Sua voz falhou e Harry tentou pensar sobre como começar a contar... tudo. — Sinto muito por não ser mais forte e... Eu tentei... juro que eu tentei lidar com isso sozinho... Eu não posso ou quero envolver ninguém, mas hoje... Merlin me ajude. — Harry puxou os cabelos com força, tentando apagar da mente o olhar triste da Sra. Lockhart.
— Harry! — Ginny segurou a sua mão e o impediu de puxar os cabelos, ao mesmo tempo em que passava a mão pelos tufos pretos e bagunçados. — Seja o que for, o seu erro é querer lidar com isso sozinho. Você não está sozinho! Nós, todos os seus amigos, estamos aqui, e Sirius, e os Boots, Remus, Denver...
— Não! Ninguém pode saber! Ninguém! — Harry se levantou e começou a andar agitadamente pela sala que lhe pareceu muito pequena e sufocante.
Ginny também se levantou e o observou com o cenho franzido.
— Ok. E sobre mim? Eu posso saber?
— Sim, sim, você sim. — Harry continuou a andar sem parar e puxou os cabelos mais uma vez. — Eu pretendia te contar de qualquer forma, porque você merece saber e eu não posso te esconder algo assim, não se eu quero... — Harry parou e corou levemente.
— Se você quer o quê? — Ginny perguntou curiosa.
— Não importa. — Harry disse desconcertado. — O que importa é que eu pretendia te contar em breve, eu apenas queria esperar mais um pouco porque você está...
— Eu estou? — Ginny perguntou quando ele parou de falar e voltou a andar agitadamente pela sala.
— Você está se recuperando, e... e parece feliz outra vez. Luna te faz feliz, e você adora treinar na Caverna e aprender Defesa. — Harry suspirou sofrido. — Acho que queria te deixar ficar mais forte e feliz, mas não importa, porque você tem que saber e eu não posso mais esconder o que aconteceu. — Seus olhos brilharam com lágrimas que ele se forçou em não deixar cair. — Não consigo mais, e hoje... hoje... Merlin...
— Harry, o que aconteceu? — Ginny sussurrou, sentindo um arrepio de mau pressentimento percorrer o seu corpo.
— Você não pode contar a ninguém! — Harry exclamou e caminhou até ela, segurando-a pelos braços. — Guinevere! Você precisa me prometer! Nunca! Você não contará para ninguém! Nunca!
— Harry... eu... — Ginny arregalou os olhos ao ver o pânico e desespero em seu rosto. — O que...
— Prometa! Me jure! — Harry a sacudiu levemente e apertou os seus braços com mais força. — Só vou lhe contar se você me prometer que jamais, enquanto vivermos, você dirá a alguém vivo ou morto sobre isso! Nem seu pais, seus irmãos, amigos, Luna... Ninguém! Apenas nós dois saberemos e levaremos isso para os nossos túmulos! Prometa!
Ginny arregalou ainda mais os olhos castanhos e empalideceu ao perceber que algo terrível ocorrera e que tudo mudaria a partir de agora. A dor, tristeza e desespero nos olhos verdes eram tão palpáveis como suas mãos em seus braços, e Ginny sabia que tinha que saber, mesmo que uma parte dela quisesse fugir e não ouvir nada. No entanto, fugir não era uma opção, pois ela tinha que ser forte para ajudar Harry a enfrentar o que fosse, não importa o quão terrível o que aconteceu se mostrasse. E se ele precisava que ela mantivesse segredo de todos, bem, Ginny não se importava. E se Harry precisasse que ela prometesse esconder o que fosse para sempre, ela prometeria. Não importa o que fosse; por ele, Ginny faria.
— Sim... — Ela sussurrou e o viu relaxar sutilmente. — Eu prometo, Harry. Prometo que não contarei para ninguém o que quer que você me conte.
— Nunca. Ninguém. — Harry insistiu fervorosamente.
— Prometo. Nunca e para ninguém. — Ginny acenou e segurou a sua mão — Eu prometo.
Suspirando de alívio, Harry acenou e deu um passo atrás, tentando encontrar uma maneira de lhe contar o que tinha acontecido. Como? Como ele contaria a ela sobre...
— Não sei como contar... — Harry sussurrou perdido. — Não tinha planejado... acho que não estava preparado... Merlin, passei o dia todo tentando pensar em soluções... Pense! Pense! — Ele voltou a andar e puxar os cabelos. — Mas a verdade é que não existe o que fazermos, Guinevere, temos apenas que manter o perfil baixo, porque eles não têm como descobrir. Eu cuidei de tudo e ninguém saberá a verdade! É impossível, mas, se os aurores descobrirem, nós fugiremos... não importa o que Dumbledore e seu maldito contrato diga, nós iremos embora para bem longe...
— O quê? — Ela sussurrou, chocada com suas palavras incoerentes e absurdas.
— Mas ninguém descobrirá! — Harry se apressou em lhe garantir. — Eu estou falando bobagem, porque é impossível que descubram, eu prometo. Apenas fiquei pensando nisso o dia todo e tentando encontrar soluções para todas as situações possíveis, inclusive se os aurores encontrassem algum vestígio, mas eles não encontrarão! Eu cobri todos os rastros! Todos!
Ginny sentiu o coração se acelerar ao pensar nos aurores, em investigações e fugas. Merlin! O que de tão horrível aconteceu... Seus olhos se arregalaram ao pensar no motivo pelo qual os aurores estavam em Hogwarts.
— Harry... — Ela sussurrou em tom de pergunta, sentido o coração bater tão forte que parecia que o seu peito explodiria.
— Guinevere... Eu... não consegui impedir... Eu estava lá, mas... aconteceu tão rápido... — Seus olhos verdes brilhantes verteram lágrimas que Harry limpou impacientemente com as costas da mão. — O professor Lockhart... ele... Ele está morto...
— Não! — Ginny gritou, mas a palavra saiu baixa e abafada da sua garganta que se fechou de pânico, e seu coração pareceu retumbar em sua cabeça como um tambor furioso. — Não!
— Não foi sua culpa! — Harry pegou o seu braço, tentando segurá-la e apoiá-la como ela tinha feito com ele antes. — Riddle! O maldito Riddle! Ele o matou! Lockhart não teve chance! Foi tão rápido! — Harry mostrou em seu olhar o horror e desespero ao se lembrar daquela cena terrível. — Eu disse ao Lockhart para fugir! Eu disse a ele para sair do banheiro! Mas ele não me escutou! Então, Riddle chegou e o encontrou bisbilhotando e procurando a entrada da câmara secreta!
— Não, não, não, não, não... por favor, não... — Ginny sussurrou, se abraçando e tentando se segurar inteira, apesar de sentir como se seu corpo estivesse em pedaços. — Diga que é mentira... Harry, por favor... não, não, por favor... Merlin... não pode ser, por favor...
Harry a abraçou, e Ginny encostou o rosto meio dormente de pavor contra o seu peito.
— Não é sua culpa, Guinevere... por favor, não se odeie... por favor, não me odeie. Eu não pude impedir, sinto muito, sinto muito... — Harry sussurrou e chorou enquanto a apoiava contra ele.
Ginny se manteve dura e com os braços rodeando o próprio tronco, tentando respirar e entender a verdade. Lockhart! Ele não fugira! Não desaparecera! Ele estava morto! Ela o matara!
— Eu o matei... — Ela sussurrou chocada.
— Não! Não! Não! — Harry gritou furioso. — Você não matou ninguém! Não machucou ninguém! Escute-me! Eu estava lá! Era Riddle! O tempo todo foi Riddle! Você não estava lá...
— Eu estava! — Ginny gritou e tentou se desvencilhar do seu aperto. — Eu estava lá! Meu corpo estava lá! Minha alma! Minha magia! Ele usou a minha magia para matar o Lockhart! Minha magia!
— Não! — Harry a segurou com mais força. — Freya matou o Lockhart! Riddle não usou a sua magia, foi a basilisco!
— Mentira! Você está dizendo isso para que eu não me culpe, mas é minha culpa... — Ginny sentiu a dor se tornar tão grande que mal conseguia respirar. — Eu escrevi no diário quando eu sabia que não devia! Fui eu! Eu o roubei de você em vez de pedir a sua ajuda! Eu fui fraca! Muito fraca para detê-lo!
— Você o deteve! Nós lutamos juntos e o vencemos! — Harry disse, ainda a segurando em seu abraço.
— Não antes de ele me tornar uma assassina! — Ginny voltou a tentar se soltar. — Não me toque! Você não deveria me tocar! Você deveria ter nojo de mim! Asco! Eu sou um monstro! Solte-me!
— Nunca. — Harry a apertou ainda mais forte, passando os braços pelo seu tronco. — Como quando o vencemos juntos, eu a segurei e prometi nunca a soltar, e não farei isso agora. Ou nunca.
— Harry...
— Guinevere... — Harry viu o desespero, dor e medo em seus olhos. — Eu estou com você, sempre estarei com você, e não adianta tentar me afastar ou fugir de mim.
— Por quê? — Ela perguntou em um sussurro doloroso. — Por que você se importa?
— Porque você é tudo. — Ele disse, a encarando olho no olho. — Tudo o que existe hoje e tudo o que existirá amanhã, é você.
— Não... — Ela soluçou e deitou a cabeça no peito dele. — Não...
— Sim... — Ele apertou mais forte e a deixou soluçar e chorar toda a dor que sentia. — Sim, mas a única coisa que importa agora é que você entenda que não foi sua culpa.
— Foi... — Ela soluçou angustiada. — Foi...
— Não... — Ele também sentiu o rosto molhado com suas próprias lágrimas. — Não foi sua culpa, Guinevere, ou minha. Riddle o matou, e ele usou a Freya cruelmente para tirá-lo do caminho, como se ele fosse um inseto minúsculo e incômodo. Ele é assim... — Harry caminhou até as almofadas e a levou com ele em seu abraço apertado. Eles se sentaram e Ginny continuou a chorar baixinho de tristeza. — Eu também não sou culpado pela morte dos meus pais, apesar de ser o alvo dele por causa da profecia. Riddle, ou Voldemort, é um assassino frio e cruel, desumano, que não se importa com nada ou qualquer um. Ele não ama ou não sente nada sobre ninguém, seja uma mãe implorando pela vida do seu bebê no berço, seja uma menina inocente ou um professor abelhudo. Ele é o monstro, Guinevere, apenas ele.
Eles ficaram em silêncio por longos minutos, com Harry segurando-a com força até que ela deu o último soluço. Depois, ela se afastou e o encarou com o rosto vermelho, pálido e inchado, mas seus olhos estavam secos e com aquele fogo de determinação que Harry conhecia bem.
— Conte-me. — Ela pediu com a voz rouca.
— Depois que você pegou o diário, eu percebi que era você e a observei pelo mapa. — Harry disse, e seu olhar se tornou distante. — Você foi dormir e Riddle assumiu o controle, pois o nome dele apareceu no seu quarto. Eu sabia que ele iria para a câmara secreta, descobriria que eu estava vivo e que o ataque à Caverna foi um fracasso. Eu tinha certeza que a entrada da câmara era no banheiro do segundo andar, mas eu precisava saber com certeza e o que fazer para acessar a câmara. Todo o plano dependia de entrarmos e matarmos a Freya. — Ginny acenou entendendo. — Eu chamei o Flitwick na mesa dos professores e não percebi que atraí a atenção de Lockhart com minha mentira para poder tirar o professor do Grande Salão. Depois de conversar e explicar as coisas para o Flitwick, eu desci ao banheiro e esperei Riddle retornar da sua visita à basilisco. — Harry passou as mãos pelos cabelos, cansado e angustiado. — Eu me descuidei. Apesar de estar com o mapa, nunca pensei que alguém estava me seguindo, e, assim que comecei a olhar em volta do banheiro, Lockhart apareceu. — Ele então contou em detalhes a discussão absurda que teve com o professor falecido.
— Lockhart pensou que você era o herdeiro? — Ela estava chocada, e, quando Harry continuou explicando sobre a fraude em seus livros e seus planos para obliviá-lo e acusá-lo de ser o atacante, além de se posar de herói, Ginny ficou pálida de fúria. — Como ele ousou!? Pessoas estavam em perigo e ele só se preocupava com a sua fama! Ministro! Imagine isso!
— Eu errei feio em não o estuporar e tirá-lo de lá. — Harry disse, com os olhos tristes. — Demorei para entender do que ele estava falando ou que nada do que eu dissesse poderia alcançar um mínimo razoável de sensatez naquela mente louca dele. Tentei argumentar, ser educado, mas ele estava convencido das suas ideias mirabolantes, pior, deixou claro que me atacaria magicamente se eu não acatasse suas ordens. E, mesmo quando eu meio que fingi concordar, Lockhart se recusou a deixar o banheiro, pois temia que eu o enganaria.
— Merlin... — Ginny estava inconformada. — Ele parecia que estava em uma missão de morte.
— Acho que ele estava em um caminho de escolhas bem perigosas sim. — Harry considerou. — O fato de não ter sido descoberto e ferido, mesmo morto antes, foi pura sorte, penso eu. A verdade é que o que ele fazia era terrivelmente errado, e isso poderia ter tido consequências, como teve dessa vez.
— Então... Riddle apareceu... — Ginny sussurrou temerosa.
— Sim. Eu ouvi as rochas da pia rangerem e sabia que o tempo tinha acabado. — Harry tinha um olhar de profundo horror. — Implorei ao professor que fugisse e me escondi embaixo da capa no fim do corredor dos reservados.
— Graças a Merlin... — Ela segurou a sua mão com força.
— Eu fechei os olhos para o caso da basilisco estar junto; minha magia se expandiu e, então, Riddle apareceu e se deparou com Lockhart. — Harry suspirou e contou como o professor não percebeu que ele não estava mais visível, como ele agiu como se Riddle fosse Ginny e que ela fazia parte do plano de Harry. Contou sobre Lockhart tentando comprá-la para que ela o ajudasse em seu plano e sobre a irritação de Riddle. — Não entendo como Lockhart se manteve vivo sem um pingo de instinto de sobrevivência. Eu juro, Riddle estava furioso por saber que eu ainda estava vivo e completamente irritado com a presença dele ali, na entrada da câmara secreta. Eu pude sentir o perigo, o desejo dele de matar, como se fosse uma entidade própria presente naquele banheiro. Mas Lockhart parecia estar em um encontro casual com alguém inofensivo.
— Merlin... — Ginny sussurrou assombrada.
— Então, Riddle chamou a basilisco com ofidioglossia e eu tentei pensar no que fazer. — Harry puxou os cabelos. — Dezenas de possibilidades me vieram à mente para interferir e deter o que aconteceria, mas em todas elas os planos para salvar você se desfaziam em pó. Eu não podia atacar Riddle naquele momento! Mesmo se ele não me visse sob a capa, mesmo se eu pegasse o diário e tirasse de você, Flitwick temia que destruir o diário não seria o suficiente para te salvar. Além disso, não havia garantias de que eu venceria o Riddle, muito menos sem chamar a atenção de toda a escola, e, foram só alguns segundos, mas mentalmente eu gritei para que Lockhart percebesse o perigo e fugisse, mas tudo o que ele fez foi considerar a voz de Riddle pouco feminina. Então... — Harry voltou a expressar o seu horror. — Você pode imaginar, não precisa saber os detalhes.
— Eu não preciso, mas eu quero saber. — Ginny disse meio sem fôlego. — Por favor.
Harry engoliu a bile que subiu até a sua garganta ao começar a contar sobre a morte terrível de Lockhart em detalhes. Ginny ficou ainda mais pálida e o mesmo horror apareceu em seus olhos castanhos. Harry lamentou ter que tirar a alegria e brilho deles, pois não era justo que alguém tão incrível como Ginny carregasse esse peso.
— Ele ainda ficou zangado? Por seus gritos de dor? Por Lockhart implorar por ajuda? — Ginny estava horrorizada e furiosa. Harry acenou. — Maldito! Monstro maldito!
— Isso o descreve muito bem. — Harry disse cansado. — Eu pensei no que aconteceu mil vezes, tentando pensar no que eu poderia ter feito diferente...
— Não havia nada. — Ginny apertou a sua mão. — Nada. Entre Lockhart e Riddle, o que aconteceu foi inevitável, porque você está certo, Harry, nós dois estávamos presos em uma armadilha. Eu em meu próprio corpo e você impossibilitado de agir.
— Talvez, se eu tivesse atacado o Riddle! — Harry a olhou desesperado. — Ele era mais poderoso do que eu, mas se eu tivesse tentado...
— E então, você poderia ter morrido também. — Ginny disse, e seus olhos se encheram de lágrimas com o pensamento horrível. — Se não conseguisse detê-lo, Riddle teria lhe dado para a Freya também, e então eu morreria no dia seguinte, depois a Leda e sabe-se lá quem mais.
Harry acenou, concordando que era verdade, e, apesar de sua decisão ter sido por puro instinto, não conseguia deixar de se enojar por escolher sacrificar Lockhart para salvar outros.
— Detesto isso. — Ele disse com raiva. — Eu não sou Dumbledore, não sacrifico pessoas para manter os meus planos.
— Harry... não seja tão duro consigo mesmo. — Ginny abraçou as próprias pernas e apoiou o queixo no joelho. — Não se tratava de manter planos, e sim de sobreviver. Eu te conheço, e sei que, se houvesse alguma maneira de salvar Lockhart, você mesmo e eu, nada o impediria.
— Sim, mas não se tratava apenas disso. — Harry disse suavemente. — Eu precisava que você estivesse segura. Uma luta ali atrairia os professores, os aurores viriam e você seria expulsa ou pior. A luta tinha que acontecer na câmara, longe de todos, exatamente como foi. — Ginny acenou tristemente. — Foi por isso que eu não contei a ninguém o que aconteceu.
— Ninguém? — Ela levantou os olhos surpresa. — Nem para o Flitwick? Ou Sirius? Terry?
— Não, ninguém. — Sua expressão se tornou sombria. — Me dói mentir para todos eles, mas um segredo assim só fica secreto se o mínimo de pessoas souber. Eu sabia que teria que lhe contar, mas é isso, apenas nós dois e ninguém mais.
Ginny engoliu em seco, tentando absorver o fato de que não poderia conversar nem mesmo com seu pai sobre esse peso terrível que lhe apertava o coração.
— Por quê, Harry? Eu confio no meu pai, não entendo por que não posso conversar com ele. — Ela sussurrou, voltando a abraçar as pernas contra o peito e parecendo muito jovem.
— Primeiro, porque, ao falar para o seu pai, ele falará para a sua mãe, e não teremos mais controle, Guinevere. — Harry disse gentilmente. — Qualquer um pode ouvi-los, e então... — Ginny acenou entendendo. — Segundo, esse peso e horror que você está sentindo agora, eles sentirão também. Como posso trazer isso para o Terry? Neville? — Ele suspirou. — Sirius já tem seus próprios horrores que ele carregará para sempre, e, se pedir para que não conte para ninguém, isso criará um segredo entre Denver e ele. Sirius gosta muito dela, e um casal não pode ter um segredo tão grande e importante assim entre eles. Mas, se ele contar para Denver, ela terá que deixar de lado toda a sua ética profissional para manter um assassinato escondido. — Ginny voltou a acenar. — Terceiro, se o que eu fiz for descoberto, não os quero envolvidos, assumirei sozinho as consequências.
— Não sozinho. — Ginny disse suavemente.
— Não deixarei que seja presa, Guinevere. — Harry disse determinado. — Talvez seja impossível continuarmos em Hogwarts, mas podemos estudar com tutores ou em Flidais, mas não permitirei que seja condenada por algo que não fez. — Ele pegou a sua mão e apertou com carinho. — De qualquer forma, eu não acredito que isso acontecerá, pois eu tornei impossível que eles descubram a morte de Lockhart.
— O que você fez? — Ginny perguntou, de olhos arregalados.
— Eu... — Harry engoliu em seco, ainda horrorizado com o que fizera. — Eu tive apenas alguns minutos para pensar em como não permitir que a morte de Lockhart fosse descoberta. Moody foi claro para Dumbledore ao dizer que, se alguém morresse em um ataque, seria impossível impedir que o aluno fosse enviado para Azkaban. Fudge estava em polvorosa para acusar qualquer pessoa, apenas para se livrar das críticas. Hagrid estava sendo seguido por toda a parte pelos aurores, que acreditavam que ele era o responsável pelos ataques, e justamente quando os aurores são retirados de Hogwarts, alguém morre.
— Eles iriam enviar Hagrid para Azkaban! — Ginny disse chocada. — E se descobrissem que era eu, não importaria o diário, os aurores também me prenderiam.
— Sim. Dumbledore me confidenciou que as palavras do Moody foram na verdade um alerta para que, se o pior acontecesse, que não os chamassem. — Harry disse. — O diretor me garantiu que nunca pretendeu entregar o aluno para os aurores e muito menos expulsá-lo, apenas manteve as aparências e entendeu que teriam que esconder as informações dos próximos ataques, além da identidade do aluno que sofria. — Ele encarou seus olhos castanhos e mostrou sua vergonha. — Então, eu fiz o que tinha que fazer para esconder tudo, a começar por fazer parecer que Lockhart tinha fugido.
— As coisas do seu escritório sumiram! — Ginny se lembrou de repente.
— Sim, eu chamei o Dobby para me ajudar e o fiz jurar que nunca contaria a ninguém o que faríamos, nem para mim ele deveria voltar a mencionar isso. Nós fomos até o escritório do Lockhart e empacotamos tudo, depois desaparecemos para o lugar onde vão as coisas que evanescemos.
— Merlin... — Ginny ficou tão pálida que parecia um fantasma.
— Foi a única maneira! Fazer parecer que ele tinha fugido por medo do herdeiro e do basilisco. — Harry disse angustiado. — Se ele desaparecesse deixando as coisas para trás, todos ficariam desconfiados e rapidamente chegariam à conclusão de que ele foi atacado pela basilisco. Uma busca começaria, e...
— Eu entendi. — Ela disse, apertando a sua mão, que Harry ainda segurava. — Você fez tudo isso para me manter segura, para me proteger, não foi?
Harry arregalou os olhos e corou levemente, desviando o olhar para o fogo na lareira.
— Você era inocente, Guinevere, e precisava de mim. Acho... Acredito que tomaria a mesma atitude, não importa quem eu descobrisse que estava escrevendo no diário. — Harry disse sincero. — Mas saber que era você tornou tudo maior e mais urgente, pois eu deveria ter percebido que algo estava errado. Eu deveria ter insistido em me aproximar, tirado um tempo para ser seu amigo, e não apenas acreditar que os seus irmãos cuidariam de você e que eu precisava me concentrar na busca pelo aluno que sofria. Eu fui um idiota, e você pagaria o preço.
— Não era sua responsabilidade cuidar de mim ou seu dever ser meu amigo. — Ginny disse suavemente. — Ainda assim, eu agradeço pelo que fez para me proteger e... lamento que você tenha que carregar para sempre o horror do que aconteceu. Isso... — Seus olhos se encheram de lágrimas ao pensar no quanto ele já tinha sofrido. — É tão injusto que você tenha visto aquilo e ser obrigado a... mentir para a sua família e amigos para sempre.
— Tem mais... — Harry sussurrou, e contou sobre descer até a câmara secreta, retirar os ossos de Lockhart e enterrá-los bem longe de Hogwarts. — Eu sabia que a câmara seria reformada e precisava tirar os ossos de lá, mas a Floresta Proibida era muito arriscada para enterrá-lo. Fiquei com medo de ser visto ou o corpo encontrado, e agora que os aurores estão procurando, fico aliviado em ter pensado nisso, porque...
— A mãe dele! — Ginny ofegou, com uma expressão aterrorizada. — Ela o está procurando, e...
— Nunca o encontrará. — Harry falou com determinação, ao mesmo tempo em que lágrimas escaparam dos seus olhos. — Eu conversei com ela, Flitwick nos apresentou, e a Sra. Lockhart disse... — Ele contou sobre a conversa deles e seu medo de que ela soubesse das teorias absurdas do filho sobre Harry. — Eu passei o dia pensando se teria como trazer os ossos de volta para que eles os encontrassem e ela tivesse um pouco de paz ao saber do seu paradeiro, e para lhe dar um enterro digno. — Harry acenou, limpando as lágrimas do rosto, e manteve um olhar determinado. — Não existe uma maneira! Não tem como colocar o Sirius ou o Dobby nesse tipo de perigo... além disso, eles saberão que ele foi morto pela basilisco e pelo atacante e começarão uma investigação.
— Hagrid... — Ginny engoliu em seco, e Harry acenou.
— Não apenas ele estará em risco. — Ele disse. — Nós demos detalhes para o pessoal do Covil, por exemplo, e alguns deles poderiam achar que uma morte é algo muito grande para manter em segredo. Eles sabem que eu sei quem é o aluno que Riddle machucou e poderiam não se conter em falar algo para um professor.
— É um segredo muito pesado... — Ginny acenou, de olhos arregalados. — Um deles pode não conseguir manter para si mesmo, e então... Eles viriam atrás de mim... Harry... — Ela parecia apavorada e, ao mesmo tempo, arrasada, ao perceber que preferiria não ajudar aquela pobre senhora em sua angústia do que correr o risco de ser enviada para Azkaban.
— Está tudo bem... — Harry disse, puxando-a para outro abraço, e Ginny soluçou contra o seu pescoço. — Eles não saberão e não machucarão você, eu prometo. E... a Sra. Lockhart é forte e... acho que ela sabe que o filho está morto... lá no fundo, ela já sabe a verdade... — Harry sentiu o coração se apertar ao pensar em seus olhos azuis tristes, e sua voz se embargou. — E nós precisaremos ser fortes e lidar com isso, porque não somos os culpados, Guinevere, nós não somos maus e apenas... sabe, vamos seguir um dia de cada vez... Nós podemos enfrentar isso, eu sei que podemos...
— Não é justo... — Ela chorou baixinho. — Com ela ou conosco... não é justo...
— Ela ficará bem. — Harry disse, tentando acreditar. — E nós... temos um ao outro, não estamos sozinhos...
— Eu quero visitar o seu túmulo um dia, e... fazer algo por ela... qualquer coisa para ajudá-la... — Ginny sussurrou tristemente.
— Ok, qualquer coisa que você quiser. — Ele disse baixinho.
— Algum dia, vamos vingá-los... — Ginny se afastou e o encarou com chamas em seus olhos. — Vamos fazer Riddle pagar por isso! Por tudo isso!
— Sim. — Harry disse, e o brilho dos seus olhos era um fogo frio e furioso. — Nós o destruiremos até não restar nada dele em nosso mundo. Voldemort não tem ideia do que o espera quando decidir sair do buraco onde se escondeu.
Os dois ficaram mais um tempo conversando e se consolando mutuamente. Apesar de racionalmente saberem que não eram culpados, o sentimento que os engolfava era muito diferente. Harry explicou mais de uma vez que gostaria de ter podido fazer alguma coisa, mas seus instintos gritaram para que ele não agisse, pois não havia como vencer e salvar Lockhart, Guinevere e ele mesmo, muito menos sem chamar a atenção de toda a escola. Ginny, por outro lado, lamentava ter roubado o diário de volta e não ter pedido a sua ajuda ao invés de tentar fazer tudo sozinha. Para cada palavra de culpa, o outro tinha uma palavra de consolo e carinho, pois no fundo os dois sabiam que a situação terrível em que estiveram tornou impossível agirem racional e friamente.
— Às vezes é assim... — Harry disse suavemente. — Tentamos fazer o melhor, mas não podemos controlar tudo...
Eles foram dormir bem tarde, com Harry acompanhando Ginny, sob a capa, até a porta do seu quarto antes de ir para a Torre Ravenclaw.
No dia seguinte, Harry tentou agir o mais normalmente possível, apesar de a Sra. Lockhart ainda estar presente ao café da manhã. Ginny tinha olheiras que sinalizavam uma noite de pesadelos e pouco sono; ela se sentou à mesa Ravenclaw e deitou a cabeça no ombro de Luna, ganhando um carinho e um momento para descansar os olhos vermelhos por tantas lágrimas. Ninguém entre os amigos lhe perguntou o que tinha acontecido, pois obviamente eles sabiam que Ginny ainda tinha pesadelos sobre a câmara, mas Hermione lhe lançou alguns olhares preocupados.
— Harry, você foi dormir cedo, mas parece ainda mais abatido do que ontem. — Terry observou. — Acho que está pegando a gripe, meu irmão, e aposto que foi porque resolveu dançar na chuva com o Sirius.
Harry sorriu com a lembrança feliz e deu de ombros, deixando que Terry pensasse o que quisesse. Ele também tinha tido alguns pesadelos, mas não estava cansado; na verdade, desde a luta com a Freya, Harry pouco precisava dormir para se sentir reestabelecido. Mas, como não comera quase nada no dia anterior, hoje estava com fome, porque o seu novo corpo saudável não conseguia ficar sem comida por muito tempo. A verdade é que conversar com Guinevere o fez se sentir melhor, como se dividir o peso dessa terrível tragédia o aliviasse e confortasse ao mesmo tempo. Além disso, tanto ele como Guinevere tinham decidido que precisavam seguir em frente; eles não podiam se deixar abater, e o melhor que faziam pelos Lockharts era estudarem, treinarem e viverem, pois, um dia, eles os vingariam.
Harry viu a Sra. Lockhart se levantar e se despedir dos professores, ganhando um longo abraço da Prof.ª McGonagall. Depois ela caminhou para a saída do Grande Salão com Dumbledore e sua expressão se mantinha firme, mas era possível ver a angústia em seus olhos azuis. Em um impulso, Harry decidiu o que fazer e se levantou.
— Guinevere, vem comigo. — Harry disse em tom urgente.
Ela se levantou e o seguiu sem perguntas, e seus amigos os observaram confusos.
Eles os alcançaram no corredor do escritório de Dumbledore e Harry a chamou, interrompendo seu trajeto.
— Desculpe, diretor Dumbledore, Sra. Lockhart. — Harry disse educadamente. — Apenas gostaria de me despedir. A senhora está partindo, Sra. Lockhart?
— Sim, Harry. — Ela sorriu tristemente. — Não existe quaisquer vestígios de que o meu Gilderoy está em Hogwarts. Na verdade, tudo leva a crer que ele deixou a escola antes de desaparecer. — Seu olhar foi para o diretor. — Tanto Albus como Amélia me garantiram que as buscas continuarão fora da escola, e eu já fiz uma lista de amigos, conhecidos e fãs mais fanáticos. Ainda tenho esperança... — Sua voz morreu, e Harry leu em seus olhos que ela sabia a verdade: mesmo antes de vir para Hogwarts, Adelina Lockhart já pressentira que seu único filho não estava mais entre os vivos.
— Compreendo e desejo sorte. — Ele disse sincero, pois apesar de ser uma busca impossível, Harry ainda lhe desejava o melhor. — Queria lhe apresentar a minha amiga, Ginny Weasley. Quando lhe falei sobre a senhora, Ginny me pediu para conhecê-la. Ginny, esta é a mãe do professor Lockhart, a Sra. Lockhart.
— Prazer em conhecê-la, senhora. — Ginny disse e, tentando controlar o tremor nas mãos e na voz, se adiantou e se inclinou como uma verdadeira dama. — Queria apenas lhe dizer que eu gostava muito das aulas do seu filho. — Era uma mentira, mas haviam tantas mentiras entre eles que uma a mais não faria diferença. Ginny continuou, se esforçando para não usar o tempo passado ao se referir a Lockhart. — Eu particularmente acho que o Prof. Lockhart é muito engraçado, sempre me divertia e ria muito em suas aulas.
— Oh... — Sra. Lockhart se emocionou e seus olhos se encheram de lágrimas. — Que lindo da sua parte vir me dizer isso! E você o descreveu muito bem! Gilderoy é engraçadíssimo! Ele me faz rir até meu estômago doer sempre que me visita e me conta suas histórias e aventuras. Uma pena que seus alunos não o terão mais como professor, Albus, eles estão perdendo muito.
— Sim, mas infelizmente não podemos esperar indefinidamente, Adelina, você entende...
— Oh, ssshhhh... — Ela bateu em sua bochecha barbuda com carinho. — Claro que entendo, meu querido. E você tem sido tão gentil e maravilhoso comigo e minhas aflições que apenas tenho que lhe agradecer. — Então ela sorriu para Harry e Ginny. — E a essas doces e educadas crianças, por serem tão gentis.
— Não fizemos nada, senhora. — Harry disse suavemente. — Apenas lhe desejamos o melhor.
— Sra. Lockhart, acho que a senhora poderia ter conhecido a minha avó, Cedrella Black Weasley? — Ginny arriscou, pois tinha quase certeza que sua avó mencionara uma amiga chamada Adelina, que todos chamavam de Lina.
Sra. Lockhart arregalou os olhos.
— Você é a neta de Ella! — Ela exclamou e pareceu se emocionar. — Não acredito! Em um dia tão sombrio e depois de tanto tempo sem encontrar a minha querida amiga, eu encontro a sua neta! — Ela pegou as duas mãos de Ginny e a examinou com um olhar atento. — Sim, eu vejo esse olhar altivo e direto, e sua figura pequena e elegante, completamente Cedrella Black. Eu estava na Suíça quando soube da sua morte e, como me recuperava de um problema de saúde, não pude me deslocar para a Inglaterra e lamentei muito não comparecer aos serviços fúnebres. — Ela usou um lenço para limpar elegantemente os cantos dos olhos, que tinham se umedecido. — Eu não a via há pelo menos uns oito anos antes de sua morte... Não sei por que perdemos contato, acho que porque não frequentávamos mais os mesmos círculos sociais e eu viajei muito pelo mundo todo depois que enviuvei, mas trocávamos cartas duas ou três vezes por ano e eu nunca deixei de amá-la. Minha querida Ella... — Ela voltou a enxugar as lágrimas. — Não estávamos no mesmo ano, Ella era mais velha que eu por dois anos, mas éramos Ravenclaw e parte do Coral de Hogwarts. Lembro-me que isso não foi bem aceito pelos Black, que a queriam na Slytherin e longe de tolices como a música. E quando ela se casou com Septimus, oh... Foi um escândalo! E, no entanto, Ella nunca deixou que nada a atingisse, sempre altiva, direta, sincera e forte, como o mais antigo dos carvalhos.
Ginny instintivamente endireitou os ombros, orgulhosa pelos elogios a avó, decidida a ser igual e honrar a sua memória.
— Obrigada por suas palavras, Sra. Lockhart. — Ela disse suavemente. — Eu me lembrei de vovó contando sobre uma amiga, Adelina Fortmmer, com quem ela cantava no coral da escola. Ela disse que nunca ouviu uma voz tão linda quanto a de Lina e que ela faria ainda mais sucesso do que Celestina Warbeck se tivesse seguido carreira.
— Ora, minha querida Ella... — Sra. Lockhart voltou a enxugar os cantos dos olhos. — Ela também tinha um lindo mezzo-soprano e adorava cantar, mas eu queria me casar e ter filhos, infelizmente os deuses só me deram o Gilderoy. — Seus olhos voltaram a ficar angustiados e tristes, e Harry sentiu o coração se apertar. Ao seu lado, Ginny parecia se controlar para não chorar.
— Queria... queria saber se posso escrever para a senhora, Sra. Lockhart? — Ginny sussurrou timidamente. — Hum... apenas para saber como está indo e para que não se sinta muito sozinha.
— Você faria isso? — Lágrimas em abundância escorreram dos seus olhos e ela desistiu de enxugá-las. — Ora, mas que linda menina, Ella deveria ter muito orgulho de você, minha querida!
— Eu também tinha dela, senhora, e sei que, onde estiver, vovó iria querer que eu lhe dissesse que a senhora não está sozinha. — Ginny hesitou, mas não se conteve e lhe deu um abraço forte e rápido. — Se me aceitar, serei sua família, senhora.
A Sra. Lockhart parecia espantada e emocionada, tanto que ficou sem palavras.
— Isso é muito gentil da sua parte, Srta. Weasley. — Dumbledore disse, com os olhos azuis brilhando de orgulho, mas Ginny apenas acenou ignorando-o e se concentrando totalmente na Sra. Lockhart.
— Eu... não sei o que dizer... apenas... — Ela suspirou e deu um tapinha carinhoso no rosto de Ginny, depois acariciou a sua bochecha. — Eu sempre quis uma filha ou uma neta, mas me contentarei com uma sobrinha, assim, você pode me chamar de tia Lina a partir de hoje, e, por favor, me escreva sempre que puder para contar sobre você, sua família, amigos... — Sra. Lockhart lhe deu uma piscadela. — Namorados.
Ginny corou e Harry instintivamente deu um passo mais para perto dela, o que atraiu a atenção dos dois adultos, apesar de Ginny e Harry mal perceberem.
— Eu escreverei, prometo. — Ginny disse e, se aproximando, se levantou nas pontas dos pés e lhe deu um beijo suave na bochecha. — Prazer em conhecê-la, tia Lina, e, por favor, cuide-se bem.
— Eu cuidarei... ou melhor, Letty cuidará de mim. — Sra. Lockhart apontou para a elfa idosa que esperava a alguns passos de distância, silenciosamente. — Ela me vigia como um falcão. Até mais, meus queridos, e muito obrigada por serem tão bons com uma velha boba.
Harry beijou a sua mão em despedida e se afastou com Ginny, que mantinha um passo meio ausente. Quando eles deixaram o corredor, ela parou e olhou para o vazio por alguns segundos antes de começar a chorar com soluços dolorosos. Harry não hesitou em silenciá-la e cobri-los com a capa, antes de levá-la para uma sala de aula vazia, onde a abraçou com força sem dizer uma única palavra. Eles já disseram tudo o que havia para falar, e agora tudo o que ela precisava era saber que ele estaria sempre ali para apoiá-la. Quando Ginny se acalmou, Harry olhou para o relógio, percebendo que tinham poucos minutos para irem para as suas aulas.
— Você tem condições de ir à aula ou quer subir para o seu quarto? Tenho certeza de que, se passar pela enfermaria, a Madame Pomfrey a liberará pelo dia. — Harry disse suavemente ao afastar seu cabelo para trás da orelha e enxugar as lágrimas do seu rosto pálido e sardento com seu lenço.
— Não. Eu manterei o que combinamos, não chamarei a atenção, não agora. Além disso, passar o dia sozinha não ajudará ninguém, muito menos a... tia Lina. — Ela sussurrou com voz rouca. — Ficarei bem... apenas...
— Eu sei... — Ele sussurrou e pegou o mapa. — Deixarei você em Transfiguração antes de ir para Poções. Vamos, temos apenas alguns minutos.
O dia se arrastou para os dois, enquanto se esforçavam para fingir para os amigos, agir o mais normalmente possível e dar atenção às aulas. Os professores mostravam particular insensibilidade ao enchê-los de deveres de casa, mas Ginny achou bom, pois assim ela podia se manter ocupada e não pensar. Harry teve o treino de quadribol para distraí-lo e, como sempre, voar o fez se sentir melhor de muitas maneiras. Trevor tinha muitas ideias para vencer o time Gryffindor, e Harry acabou mergulhado em uma discussão sobre táticas esportivas depois que o treino acabou.
De um jeito estranho, a semana prosseguiu, com uma nova e dolorosa cicatriz, com um novo e pesado fardo sobre os seus ombros. No entanto, eles não estavam sozinhos, e esse peso os aproximou ainda mais. Não que eles passassem mais tempo juntos do que o normal, afinal a ordem era não chamar a atenção e eles já tinham feito um pouco disso. Felizmente, os amigos pareceram entender que eles precisavam de espaço e respeitaram esse momento. Mas a nova aproximação e sintonia entre eles não tinha nada a ver com tempo juntos, e sim com uma conexão que apenas os dois sentiam e entendiam.
Mesmo para um observador atento, a mudança foi sutil, e Harry e Ginny também não se deram conta de como eles se entendiam com um olhar ou sobre como seus corpos se aproximavam se estivessem por perto. Instintivamente, eles se posicionavam lado a lado, se sentavam juntos, compartilhavam a comida no prato, se aproximavam alguns centímetros a mais até a pele dos braços se tocar, e suas magias cantarolavam quando o fogo e a eletricidade se tornavam uma coisa só. Apenas com muita atenção, alguns perceberiam como eles se encaixavam, como um dueto em movimentos perfeitamente sincronizados, pois quando um se movia para lá, o outro se movia junto, seguindo o movimento e se encaixando. Harry às vezes afastava o cabelo do seu rosto ou Ginny apoiava a mão no seu braço, ou então, se estivessem sozinhos, eles seguravam as mãos e Ginny algumas vezes bagunçava o seu cabelo já bagunçado. Quando Harry disse timidamente que o seu cabelo era incontrolável, Ginny disse simplesmente:
— Ele é perfeito.
O elogio fez Harry abrir um enorme sorriso, se sentir quente por dentro e maior, como um gigante de tão grande.
Eles demoraram cinco dias para voltarem a rir. Foi no sábado, na aula do Prof. Jonas. Ele compartilhou com os alunos que, durante as férias de Páscoa, ele e a professora Bathsheda tinham se casado e esperavam uma bebê menina para setembro. Ele estava tão feliz que Harry e Ginny ficaram felizes também; um pouco da dor se foi e a cicatriz se curou um tantinho. A vida prosseguia, com morte e renascimento, não havia como deter um ou outro, e os dois sentiram que podiam sorrir sem culpa, pois eles precisavam disso e, mais importante, porque Harry e Guinevere tinham um ao outro.
Notas FinaisRapidamente sobre o Harry e a Guinevere, já me perguntaram antes e sei que essa parte final levantará mais suposições, assim, esclarecendo. Eles não viverão uma ligação de alma ou soul bond, como classicamente vimos em centenas de milhares de fanfics. O que acontece é que eles são almas gêmeas, são muito amigos, se gostam muito, tem uma ligação pessoal por tudo o que viveram juntos muito forte e suas magias se reconhecem e se aceitam mutuamente. Na verdade, as magias dos dois se gostam muito tb, kkk, elas até suspirão felizes quando estão próximas ou cantarolam, kkk.
E, o Harry sabe, (por causa do Portal Adler) que eles são almas gêmeas, apesar de se sentir muito jovem para admitir ou pensar nisso. No entanto, neste cap. o Harry meio que reconhece, implicitamente, para Guinevere e ele mesmo o que ela significa para ele, o que eles são um para o outro. No entanto, como disse o Harry, isso não importa agora, o que importa é eles superarem tudo isso e seguirem em frente, afinal, eles são jovens demais e não estão prontos para serem mais do que amigos.
Dito isso, para aqueles que querem saber quando eles começarão a namorar, será no inicio do quarto ano.
Até mais e, por favor, revisem e me contem o que acharam desse capítulo emocionalmente dramático!
Tania
