Era uma quinta a noite quando um Jackson entusiasmado entrou no quarto de Ramona sem bater e com seu celular na mão disse:
- Eu fui convidado pra uma festa!
- O que? De quem? - perguntou surpresa. Ela estava sentada em sua cama lendo um livro.
- Mike J., do quarto ano.
- Ah, sim. Eu também fui convidada. Não é bem uma festa, é só passar um tempo jogando vídeogame e comendo pizza com a galera.
- Acabou de descrever uma excelente festa.
- Ok, tanto faz. Você vai?
- Tá brincando? Claro que vou! É a minha primeira festa no ensino médio.
- Bem, eu perguntei porque a sua namorada não vai.
- Porque não?
- Ela infelizmente não foi convidada, eu já perguntei.
- Ué, por que não?
- Jackson, só a galera popular foi convidada. Eu faço parte do grupo de dança e você do time de futebol. Sinto muito, mas acho que não dá pra ela ir.
- Será que ela ficaria chateada se eu fosse mesmo assim?
- Pergunte a ela.
- Ok, vou mandar uma mensagem.
- Diga a ela que não vai ter nada demais lá mesmo.
- Ela já respondeu...
- O que disse?
- "Tanto faz, Fuller. Ta me atrapalhando jogar pedras pela janela do meu quarto no carro do cara que está saindo com a minha mãe. Pára de enviar coraçõeszinhos, sabe o que eu penso sobre isso." Acho que isso é um sim! - disse animado.
- Agora só falta a sua mãe deixar.
- Eu nem me lembrei dela...
- Acho que ela não vai deixar. Lembra daquele "D" em ciências? Ela disse que queria ver você se esforçando mais nos seus estudos e menos distrações.
- É simples, é só eu mostrar esse esforço.
- Jackson, quando foi a última vez que abriu seu livro de ciências?
- Sei lá, semana passada?
A garota levantou e foi até sua estante pegando um livro no topo e assoprando uma fina camada de poeira depois entregou-o ao garoto.
- Reconhece?
- Estava fazendo o que aqui?
- Peguei emprestado com você no dia que fiquei doente e não fui a escola. Isso tem uns dois meses já. Como tem estudado? Quer saber? Esquece. Acho que só eu vou curtir a "festa" no sábado. - disse sorrindo e levantando uma sobrancelha.
- Já sei! Vou fazer meu trabalho de casa e mostrar a ela! Tenho certeza de que isso vai convencê-la.
- Só tem um problema.
- Qual?
- Você sabe qual é o trabalho de casa?
- Ér... acho que preciso de um pouquinho de ajuda, tipo, qual é o trabalho de casa, como fazê-lo... essas coisas. Por favor, me ajuda! - pediu implorando segurando os ombros da garota.
- Tá legal... anda, senta aqui. - disse se levantando e indo se sentar a escrivaninha.
O garoto puxou uma cadeira e se sentou ao lado dela.
- Onde tirou essa foto? - ele perguntou olhando para um porta retrato.
- Na cidade onde morei a maior parte da minha vida, lá na Argentina.
- Que lugar bonito.
- Sim, é mesmo.
- Sente saudades de lá?
- Bastante, mas, pra falar a verdade eu prefiro morar aqui.
- Sério? - perguntou surpreso.
- É que eu sempre quis ter uma família grande. Eu sou filha única e meu pai vivia viajando... era bem solitário as vezes.
- Bem, eu queria ser filho único e ter pais tecnicamente separados como os seus. Você tem dois quartos! Eu queria ter um pelo menos.
- Jackson, você não sabe do que está falando. O Max e o Tommy são uns amores.
- Sim, até você pegar por engano o condicionador de um e o boné do outro.
Ela riu.
- Você pretende voltar pra Argentina algum dia?
- A passeio, sim, claro, mas para viver não... eu prefiro viver aqui. - se entreolharam e sorriram.
- Mas enfim, vamos logo pois já está tarde e temos aula amanhã.
- Ok, vou mostrar pra minha mãe amanhã de manhã.
- Se você conseguir entender a matéria, sim.
- Eu disse que ia fazer, não que ia aprender toda a matéria. Qual é, ela não vai conferir todas as respostas.
- E é assim que se preocupa com o seu futuro?
- Eu vou ter tempo pra isso depois, agora essa festa é importante pra mim também.
- Ok, Ok. Vamos lá.
No dia seguinte indo para a escola...
- Eu não acredito que sua mãe deixou!
- Você ajudou, sua presença me deu credibilidade.
- E de nada por ficar acordada até as 2 horas da manhã te ajudando.
- Ta ok, eu pago o Uber pra festa.
- É o mínimo que poderia fazer. - a garota disse levantado uma sobrancelha.
A festa estava marcada para 8 horas da noite de sábado. Jackson e Ramona chegaram exatamente no horário marcado e perceberam que pouquíssimas pessoas já estavam no local.
Nervoso, o garoto tentou logo se enturmar, enquanto Ramona foi pegar um pedaço de pizza. Quando chegou na mesa um garoto aparentemente mais velho se aproximou e colocou o braço em volta do pescoço dela dizendo:
- Ei, ei, iai boneca? Como eu nunca reparei em você no colégio antes?
- Eu sou do primeiro ano. - disse se esquivando do rapaz.
- Caloura? Entendi... por que não vamos ali e você me conta mais sobre você? Ou então... só me ouve falar sobre mim. Sinceramente... prefiro a segunda opção, mas te deixo escolher. - disse sorrindo e piscando um olho.
- Não, obrigada. - disse nervosa se afastando com pressa.
- Ah, pára! Vamos lá, vamos!
- Não, eu já disse que não! - disse em um tom mais alto chamando a atenção de Jackson que logo se aproximou para ver o que estava acontecendo.
- Algum problema? - perguntou, ficando ao lado da garota e olhando para o rapaz.
- Fala ai pé de ouro! A gata tá contigo?
Ele percebeu o olhar da garota pedindo socorro e então respondeu:
- É, tá sim. Vem Ramona. - disse puxando-a pela mão.
- Obrigada. - ela sussurrou.
- Ele fez algo com você? - perguntou preocupado.
- Relaxa, ele só foi inconveniente. Acho que isso deva ser o tipo de coisa que aconteça em "festas" como essa.
- Acho que é melhor ficar perto de mim. Anda, vamos jogar videogame.
- Ok.
Estavam jogando "Mortal Kombat" quando os veteranos chegaram com garrafas de cerveja distribuindo para os convidados. Os jogadores do time de futebol também chegaram e quando viram Jackson, o quarterback jogou uma lata de cerveja para o garoto e disse:
- Ei pé de ouro, toma uma!
- Vai pé de ouro!
- "Vira, vira!" - todos gritavam em uníssono.
- Jackson, não! Você só tem 15 anos! - gritou Ramona puxando o braço do garoto.
Mas ele preferiu ouvir os colegas e tomando a primeira lata, se juntou a eles pra pegar outra. Ramona ficou muito preocupada mas não sabia o que fazer, só observou os rapazes. Quando Jackson terminou sua terceira lata um deles perguntou:
- Ei pessoal, vamos pichar a casa do treinador? Eu descobri onde ele mora e depois podemos nadar no lago do parque.
- Ééé, vamos lá pessoal! - todos concordaram, exceto Ramona que parecia ser a única pessoa sóbria no momento.
- Ei, pé de ouro, posso ir com você? - perguntou uma garota do quarto ano se aproximando de Jackson e passando o braço em volta do pescoço dele.
- Mas é claro, por que não? - respondeu sorrindo.
Então Ramona viu que era hora de intervir. Se aproximou do amigo que já estava alterado e puxou o braço dele.
- Jackson! Temos que ir embora!
- Quem é você querida? - perguntou a garota.
- Alguém que se importa com ele.
- Olha só, eu cheguei primeiro, procure outro jogador.
Ramona então teve uma ideia e rapidamente agiu, ligando escondida pra polícia e fazendo a denúncia. E então gritou:
- Pessoal, a polícia está vindo, alguém denunciou!
E então todos desesperados começaram a fugir. Foi o tempo que a garota teve para pegar o amigo pelo braço e com toda força que conseguiu reunir, arrastou-o para fora da casa e andaram até um ponto de ônibus a uns 50 metros de distância. Sentaram em um banco.
- Agora o que vamos fazer?
- Que tal chamar um Uber? - perguntou rindo e bastante zonzo.
- Não... eu não posso entrar em um carro com um adolescente bêbado sem um adulto responsável estar junto.
- Ah... to ficando com um soninho... disse fechando os olhos e colocando a cabeça no ombro da garota.
- Pensa rápido Ramona... Já sei! Vou mandar uma mensagem para o meu pai. Jackson! Acorda!
- Ual, seu perfume cheira tão bem... - comentou abraçando-a.
- Ok, Ok! - disse se levantado depressa. - Meu pai já está vindo, só tente se comportar.
Fernando demorou mais 20 minutos mas então chegou e buscou os adolescentes. Após chegarem em casa e conseguirem subir sem serem vistos, foram direto para o quarto de Ramona e fecharam a porta.
- Pai, o que vamos fazer?
- Ele precisa beber água, tomar um banho e ir dormir. Você desce e pega a água, tente não ser vista. Eu vou até o quarto dele pegar roupas pra ele se trocar, essa hora o Max já está dormindo e Jackson, depois que beber a água, você vai tomar banho, infelizmente terei de ajudá-lo pra não cair no banheiro e depois você vai direto para o seu quarto, se alguém te ver e fizer alguma pergunta, não responda, não fale absolutamente nada e vá direto pra cama. Vão pensar que está com muito sono. Você me ouviu? Vá direto pra cama! - ordenou Fernando sacudindo o garoto sonolento.
- Ok, Fermundo... - concordou o garoto deitando na cama da garota.
- Ai, caramba! Aqui não, no seu quarto!
No dia seguinte após D.J. descobrir o que havia acontecido e ter conversado com Jackson, o garoto estava na varanda dos fundos, sentado nos degraus quando Ramona chegou e sentou-se ao seu lado.
- Então... como foi? - ela perguntou.
- Duas semanas de castigo.
- Me parece justo.
- É, eu sei. Eu mereço mesmo.
- Você mereceria mais se eu não estivesse lá pra te impedir de fazer o que os outros caras iam fazer.
- O que eles iam fazer?
- Você não se lembra?
- A última lembrança que tenho é de estar abrindo a segunda lata de cerveja e você gritando de um lado e os caras do time do outro.
- Bem, digamos que você poderia amanhecer jogado no parque a beira do lago e com uma garota ao seu lado.
- Me parece um sonho... Aí! - a garota lhe deu uma cotovelada. - Ok, por favor não conta pra Rocki que eu disse isso.
- Jackson, você poderia estar sendo procurado agora mesmo pela polícia por ter vandalizado a casa de uma pessoa e quem sabe não ser parabenizado daqui a nove meses por se tornar papai... - disse séria olhando em seus olhos.
O garoto corou e disse em um tom baixo:
- Você está exagerando.
- Você é quem pensa, você estava fora de si. Ainda bem que não fez nada demais se não teria que contar tudo pra Rocki.
O garoto ficou calado então ela continuou:
- Sabe, hoje em dia muitos jovens inconsequentes acabam sendo pais muito cedo o que acarreta uma série de problemas, como ter que desistir da faculdade que tanto sonhavam e aceitar empregos que não os fazem felizes. Pode ser muito difícil pra todos os envolvidos mas principalmente para a criança.
- Eu não quero uma vida assim. - disse sério e pensativo.
- Então sugiro que faça boas escolhas a partir de agora porque na próxima vez eu posso não estar por perto.
O garoto então sorriu e pegou uma mão dela e disse:
- Espero que esteja sempre por perto então.
Ela também sorriu e apertou a mão do garoto.
- Vamos, ainda temos que terminar o trabalho de inglês que é pra amanhã.
- Ok, eu não tenho mais nada pra fazer mesmo. Sem eletrônicos por duas longas semanas.
- Podemos trocar mensagens de papel se te fizer sentir melhor.
- Pode ser... e você pode se vestir de fruta e eu pegar uma espada ninja e...
- Não!
- Ok... - disse triste se levantando e acompanhando a garota para o interior da casa.
Continua...
