Eu queria começar pedindo desculpas por ter parecido que abandonei essa história. Os últimos dois meses foram bem difíceis para mim, perdi um familiar e outro está bastante doente. Meu trabalho também está cada vez com mais demanda e o estresse levou o melhor de mim. Não consegui parar para escrever, mesmo essa história estando mais adiantada em roteiro do que Howl.
Obrigada demais a todos por sempre comentarem, me mandarem mensagens e dividirem comigo o quanto gostam dessa história. Desejo muito amor a todos vocês. Separem os lencinhos.
.
Fome
.
Viver em Grimmauld Place era um inferno. Sirius estava mais frustrado do que nunca, fazia mais de um mês que não saía da casa, e não havia qualquer perspectiva de saída sob o olhar atento de Remus. Sirius havia perdido o embarque de Harry para mais um ano em Hogwarts e havia perdido qualquer comunicação com o afilhado, já que o amigo e companheiro de casa havia deixado bem claro que Sirius não poderia, sob hipótese alguma, denunciar o seu paradeiro. E isso significava três coisas: não sair de casa, não enviar ou receber cartas e permanecer completamente sozinho naquela casa suja e escura.
Sirius percebeu, no entanto, após longas semanas, que a solidão não o incomodava tanto, afinal, estava acostumado a viver solitário. O maroto ansiava por uma conversa, por um contato físico, mas, se fosse honesto consigo mesmo, já havia se acostumado à privação de qualquer um dos dois. O que mais o incomodava eram as companhias indesejadas dentro daquela casa. Remus não era uma companhia muito ativa. Em geral, o lobisomem passava mais tempo na rua do que em casa e, na única semana que permaneceu inteiramente na Mui Antiga e Nobre Casa Black, ficou trancafiado dentro do próprio quarto se recuperando da lua-cheia. Monstro era insuportável, ficava choramingando e xingando baixo pelos corredores. Havia Bicuço, que não era de todo ruim, mas fazia muita sujeira e não possibilitava a Sirius uma conversa em duas vias. E havia ele: o quadro de sua maldita mãe grudado no alto da escada, gritando palavras que Sirius não ousava repetir.
Ele havia tentado, sem sucesso, arrancar o quadro da parede. Pensou que fosse enlouquecer com os gritos, até que, num ato de desespero, jogou um lençol por cima do quadro e percebeu, com alívio, que ele ficara silente. Ordenou a Monstro que jamais deveria tirar o lençol da frente do quadro, mas, se bem conhecia o elfo, ele daria um jeito de burlar a proibição. No entanto, o silêncio só serviu para deixá-lo mais afundado aos próprios pensamentos.
Sirius vagava pelos corredores da mansão como se fizesse parte da mobília. Sentia-se tão velho, triste e imundo quanto aquela casa. Recuperar sua varinha havia sido o ponto alto de seu retorno a Grimmauld Place. O objeto havia facilitado bastante sua vida e ele inclusive havia se arriscado a cozinhar. Passou, por consequência, a comer quantidades obscenas de comida e se obrigou a fazer alguns exercícios físicos. Seu corpo ainda estava enfraquecido e parecia que todo o treinamento que havia recebido quando entrou para a Academia de Aurores havia acontecido em outra vida. No entanto, após algumas semanas passou a ver o resultado e se lembrou de Remus comentando algo sobre "memória muscular". Certo dia, quando tirou a roupa para entrar no chuveiro, olhou-se no espelho e gostou do que viu. Já não estava mais tão magro, seus cabelos haviam recuperado quase toda a maciez que haviam perdido em Azkaban e ele concluiu, com felicidade, que estava mais parecido com o Sirius Black que um dia foi, pelo menos fisicamente.
Sua cabeça e coração, no entanto, continuavam quebrados. Fazer alguns exercícios e ganhar algum peso e massa muscular era o que estava mantendo Sirius são e lhe tirando da rotina cansativa de tentar tornar os cômodos minimamente habitáveis e limpar cocô de hipogrifo. Remus ainda parecia abatido quando avisou a Sirius que teria que viajar a pedido de Dumbledore.
Isso era outra coisa que o irritava profundamente. Remus o mantinha de fora dos planos de Dumbledore, e o próprio diretor não havia mostrado a cortesia de visitá-lo, seja para checar como ele estava ou seja para dar notícias de Harry. Sirius estava sendo deliberadamente mantido no escuro por todos, como se fosse uma criança. O Black concluiu, sentindo um gosto amargo na boca, que os anos em que ele foi mantido prisioneiro não só haviam destruído sua vida como também tornaram sua presença completamente irrelevante. O que Sirius lia nas entrelinhas do afastamento de Remus e Dumbledore era: você não é querido, você não é necessário, você é apenas uma preocupação.
- Enquanto eu estiver fora, por favor, continue dentro de casa – Remus suplicou ao pé da escada, enquanto vestia o casaco pronto para sair – quero ter meu amigo aqui quando eu voltar, e não preso novamente.
- Farei o meu melhor – Sirius respondeu, enquanto puxava seu próprio corpo para cima, segurando com as mãos uma barra anexada à porta de seu quarto.
- Sirius... – Remus suplicou, enquanto o amigo continuava subindo e descendo agarrado à barra. E aí estava outra coisa que irritava Sirius. Remus o chamava pelo nome, demonstrando que a relação próxima que um dia os dois tiveram estava perdida para sempre.
- Já disse que farei o meu melhor para ficar nessa espelunca – o moreno respondeu, irritado, soltando a barra e apanhando uma toalha em cima da cômoda para secar o suor da testa e do peito nu – Estarei aqui quando você voltar, prometo.
Remus assentiu com a cabeça e colocou as mãos no bolso. Observou atentamente o amigo por alguns segundos e depois apanhou sua mala no chão. Desceu as escadas e Sirius ouviu quando a porta de entrada bateu.
Sirius nunca fora muito organizado, mas, tentando manter o que prometera a Remus, descobriu-se completamente obcecado por limpar a casa. Era uma tarefa que mantinha suas mãos e mente ocupadas. Divertiu-se tentando destruir alguns exemplares na biblioteca da mansão, pulando e rindo a cada livro que revelava sua maldição sempre que era jogado ao fogo. Faxinou seu quarto com vontade e inclusive transfigurou as cores das paredes a fim de deixar o ambiente um pouco mais claro.
No entanto, não sabia dizer se era culpa de Monstro ou se simplesmente a casa não tinha jeito, o lugar estava sempre com cara de sujo. Sirius resmungou que a casa era tão maldita que o próprio sol havia se negado a iluminar o local. Decidiu, derrotado, por fechar todos os quartos inutilizados e simplesmente esquecer que eles existiam, e assim conseguiu se focar em manter habitável somente os cômodos que realmente frequentava: a cozinha, a sala de convivência – onde costumava beber com Remus – e seu quarto.
Outra coisa que, vez que outra, divertia Sirius, era ver Monstro choramingando que Bicuço, agora Asafugaz, estava no quarto de sua senhora. Não poderia negar: havia feito de propósito. Saber que o hipogrifo cagava no quarto de sua mãe lhe trazia conforto e uma pequena sensação de vingança. Não conseguia refrear o riso cada vez que passava pelo elfo e o via incrédulo com as condições do quarto da Sra. Black.
No entanto, não conseguiu manter sua promessa por muito tempo. Quando o calendário marcou duas semanas da partida de Remus, Sirius percebeu que era sexta-feira e se sentou junto à janela de seu quarto. O sol batia timidamente no peitoril de ébano da janela e Sirius colocou o rosto contra a luz e fechou os olhos, permitindo-se sentir o calor dos raios de sol aquecendo seu rosto. Deixou suas lembranças viajarem até aquela sexta-feira que jantou com Harry e Petunia. Conseguiu visualizar o aconchegante apartamento da mulher e sentir o cheiro da lasanha recém tirada do forno. Visualizou o sorriso tímido dela e inclusive conseguiu ouvir as gargalhadas de Harry durante a janta. Queria voltar no tempo e reviver aquela noite. Queria ver Petunia novamente. A necessidade de vê-la era insuportável. Sirius tomou um banho para tentar refrescar a cabeça, mas totalmente em vão.
Sacou o recorte de jornal que havia voltando a carregar dentro do bolso e passou a caminhar ansiosamente de um lado para o outro na frente da porta de entrada, sacudindo os cabelos molhados com a mão livre. "Arrisco ir ou fico aqui? Se eu for como animago, se eu for por dentro dos parques, ninguém vai perceber. Eu já fiz isso outra vez, posso fazer de novo, não posso?", Sirius conversava sozinho mentalmente.
- Merda. Foda-se – exclamou, por fim, abrindo a porta e saindo da mansão, batendo forte a porta atrás de si.
Tomou a forma do cachorro negro e saiu troteando por dentro dos arbustos e dos parques da cidade. O sol estava se pondo e o início da noite era seu aliado. Naquele horário, numa sexta-feira, as pessoas estavam saindo de seus trabalhos, ansiosos por chegar em casa, então as ruas eram cheias e as pessoas distraídas. Era o cenário perfeito para que um enorme cão preto caminhasse por entre as árvores completamente ignorado.
Não demorou muito para chegar na frente do prédio de Petunia, e ficou atrás de uma árvore esperando que o movimento na rua cessasse um pouco para que ele pudesse voltar a sua forma humana, afinal, não poderia entrar como um cachorro no prédio. Observou um casal saindo do edifício, depois uma criança de aproximadamente 12 anos entrando e, por fim, uma cascata loira caindo sobre os ombros de uma mulher que descia de um taxi. Sirius sentiu o coração subir à boca.
A mulher entrou no prédio e Sirius se inclinou para sair do lugar, mas não o fez. Somente naquele momento parou para pensar que talvez Petunia não quisesse vê-lo. Que, talvez, ela só o tivesse recebido meses antes porque Harry estava junto. Merda, merda, ele pensava. Voltar ao Largo Grimmauld agora que as ruas começavam a esvaziar era arriscado demais, ainda mais agora que o Ministério voltou a lhe colocar nas capas de jornais após o ataque na Copa Mundial. Será que Petunia sabia do ataque? Será que alguém havia se dado ao trabalho de informá-la sobre o risco que o afilhado correu na festividade? Respirou fundo, tomou sua forma humana, ajeitou a jaqueta no corpo e correu até a entrada do prédio. Com um feitiço simples, abriu a fechadura e adentrou o hall.
Subiu dois lances de escada e parou em frente ao apartamento, respirando fundo mais uma vez. Suas mãos tremiam e Sirius cerrou os punhos com força, repreendendo-se mentalmente por ser tão covarde. Expirando o ar que nem havia percebido ter trancado, tocou a campainha, e não demorou muito para ouvir o tec tec dos saltos de Petunia indo até a porta. Quando a mulher abriu a porta, Sirius sequer conseguiu abrir a boca para falar antes que ela lhe puxasse para dentro, fechando a porta com força.
- O que você está fazendo aqui? – ela perguntou, furiosa.
- Eu precisava ver você – ele confessou, tentando se manter calmo, mas já arrependido de ter cruzado a cidade somente para deixá-la puta da vida. Sua escolha de palavras não passou despercebida por Petunia, que sentiu sua garganta seca quando ela disse que "precisava" ver ela, e não que "queria" ver ela.
- Você não pode ficar aparecendo aqui, Sirius! – ela ralhou com ele, e ele percebeu que ainda estava com as costas contra a porta, e que ela estava muito perto dele, de braços cruzados. Percebeu também, no entanto, que ela não estava brava. Ela estava preocupada, e ele quase sorriu por isso.
- Eu sei – ele respondeu – Eu só... Faz meses que não tenho notícias suas ou de Harry.
Petunia suspirou e largou os braços ao lado do corpo, dando um passo para trás. Percebeu que ela não havia tirado a roupa do trabalho, ainda estava com a camisa branca muito fina, a calça azul clara, os sapatos pretos de salto e os cabelos presos num coque frouxo. A calça azul parecia realçar o azul dos olhos dela de alguma forma.
- Eu não sei como contatar você – ela explicou, e havia sido sincera. Petunia não queria manter contato com Sirius, não estava pronta.
O maroto havia voltado à sua vida de forma tão abrupta quant havia sido arrancado dela, então ela não estava segura em manter qualquer contato além do necessário com ele. No entanto, ele era padrinho de Harry, e tinha tanto direito quanto ela de participar da vida do garoto. E, somente por esse motivo (Petunia tentava se convencer) ela esperou que Harry ou Remus entrassem em contato com ela para que ela conseguisse enviar uma coruja a Sirius, mas isso nunca ocorreu. Fazia meses que a única notícia que Petunia teve foi que Harry chegou a Hogwarts em segurança.
- Você não pode ficar aparecendo aqui, Sirius – ela continuou – Você está sendo procurado! Você não pode se arriscar dessa forma.
- Você soa como Remus – Sirius bufou, fechando os olhos e jogando o cabelo para trás com os dedos.
- Bem, talvez porque Remus tenha razão – Petunia rebateu, cruzando os braços novamente. Sirius a encarou e desatou a rir.
- Do que você está rindo? – ela perguntou, visivelmente brava. Se antes ela não estava brava, agora com certeza estava. O maroto levou alguns momentos para tomar ar e parar de rir.
- Parece que temos 18 anos de novo – ele respondeu, sorrindo – Você toda mandona, ralhando comigo por fazer algo estúpido.
Petunia relaxou os ombros e não refreou um tímido sorriso que brotou em seu rosto. Sirius tomou a liberdade de dar um passo à frente.
- Então pare de fazer coisas estúpidas – ela respondeu, sustentando o olhar intenso dele. Sirius estava bastante próximo dela, afinal, o hall de entrada do apartamento era bastante pequeno, e os dois permaneciam parados ali. Sirius estudava todas as nuances de cor dos olhos dela, e seu estômago dava piruetas. Não ousava viajar seu olhar para qualquer outro ponto do rosto dela, não queria perder o contato dos olhos dela, e temia, intimamente, que cedesse aos seus instintos mais primitivos se encarasse os lábios dela tão de perto.
- Você sabe melhor do que ninguém que isso é impossível – ele respondeu, e sua voz saiu mais rouca do que pretendia. Petunia, que antes parecia minimamente à vontade na companhia dele, ficou, de súbito, ansiosa. Sirius enxergou uma sombra percorrer o olhar dela e tirar todo o brilho que ele apresentava segundos antes. Os lábios dela desmancharam o sorriso que ela tinha e ela respirou fundo, trancando a respiração, e isso desbloqueou algumas memórias não muito felizes dele. Lembrou-se que a viu do mesmo jeito na primeira vez em que tiveram de conviver após o término. Sirius se afastou alguns passos dela, dando-lhe espaço.
- Eu... Eu estava pensando que poderíamos jantar – ele sugeriu um pouco hesitante, torcendo que a tensão do ambiente se dissipasse no ar e que eles pudessem ficar na companhia um do outro. Não queria ter que ir embora – Eu gostaria muito de uma companhia para jantar e botar conversa fora.
- Jantar parece uma boa ideia – Petunia respondeu, assentindo com a cabeça, e acenou para a porta da cozinha, indicando que ele deveria segui-la até lá.
Sirius confirmou com a cabeça e seguiu a loira até a cozinha. O apartamento era muito aconchegante, ele não cansava de ficar surpreso por isso, apesar de pequeno e um pouco esquisito. Era uma construção antiga, e isso era perceptível pelo prédio e pelos arabescos em gesso no teto do apartamento. A porta de entrada dava para um diminuto hall, e a primeira coisa que se via ao entrar era o pequeno aparador de madeira contra uma estreita parede, que era pintada de um verde escuro e contrastava bem com o espelho de moldura dourada que ficava logo acima.
Eram visíveis, também, duas portas. Uma de cada lado do aparador. A porta da direita levava à cozinha, enquanto a da esquerda levava à sala. Em verdade, só havia os marcos, as portas haviam sido retiradas por não terem muita serventia. O mesmo era visível na segunda porta da cozinha, que a ligava a sala. Portanto, a cozinha era acessível tanto do hall de entrada quanto da sala. A cozinha era pequena, mas suficientemente grande para que coubesse uma mesa de quatro lugares. Sirius pegou-se pensando que aquela mesa era o oposto da mesa da cozinha do Largo Grimmauld. Era pequena, não era nada feia e provavelmente ficava constantemente cheia, já que Harry provavelmente já jantara com os amigos ali. Tentou não pensar em Petunia jantando com algum homem durante o tempo em que Harry estava em Hogwarts, mas suas mãos lhe traíram e ele sentiu suas unhas cravando em sua própria carne enquanto apertava as mãos com força e soltava o ar pelo nariz.
Largou sua jaqueta no encosto de uma das cadeiras enquanto Petunia, alheia à súbita irritação do maroto, tirou os sapatos e os deixou em um canto fora do caminho. A loira abriu a geladeira e ficou encarando o seu conteúdo por alguns segundos, percebendo que não havia tantas opções de janta. A semana de trabalho fora tão intensa que ela sequer havia passado no supermercado. Em verdade, ela mal havia comido na última semana.
- Temos tomate, cebola, queijo – ela listou, um pouco envergonhada pela falta de suprimentos. Fechou a geladeira e se agachou-se para alcançar o armário embaixo da pia –Farinha, fermento e... O que acha de pizza?
- Pizza é perfeito – Sirius respondeu, sorrindo enquanto arregaçava as mangas.
A dinâmica que se seguiu entre os dois foi bastante natural. ao contrário do que os dois estavam esperando. Petunia pegou os ingredientes que listara na geladeira e no armário, enquanto Sirius tomou a iniciativa de buscar uma tábua e uma vasilha grande de vidro nos armários altos. Imaginou que Petunia deveria viver o ano inteiro puxando a cadeira para alcançar os armários altos, e isso lhe arrancou um sorriso. Sirius pediu instruções para Petunia e ia fazendo sua parte conforme ela mandava.
Ele cortou as cebolas, tirou as sementes de metade dos tomates que havia separado, e observou com atenção Petunia amassando a massa de pizza com as mãos dentro da vasilha. Mesmo no tempo em que namoraram, Petunia nunca deixou que Sirius usasse a varinha para cozinhar, alegando que a gastronomia era uma arte que deixava de ser mágica quando se usava... bem, mágica. Sirius havia achado o argumento uma bobagem na época, mas, agora que estava adulto, conseguia enxergar o que ela havia dito. Era reconfortante fazer algo em conjunto com ela, mesmo que fosse uma simples pizza.
Com um aceno de varinha, Sirius ligou o rádio e procurou por uma estação que tocasse uma música mais calma e, depois de navegar por 5 estações, a 6ª tocou uma música que lhe agradava. Petunia lavou as mãos na pia e explicou ao homem que a massa deveria descansar por uma hora antes que pudesse ser aberta na forma e assada, e passou a ensiná-lo como fazer um molho com os tomates sem semente.
Sirius sentia-se em casa mexendo a panela enquanto sentia o calor que emanava do corpo de Petunia, que estava muito próxima de si conferindo a panela e apontando para os temperos que ele deveria colocar no molho. Petunia ralou o queijo em cima de um prato e, quando o molho estava pronto, Sirius buscou duas taças na cristaleira e, com a varinha, encheu uma garrafa de vinho que já estava pela metade na geladeira.
- Vinho? – ele perguntou, estendendo uma das taças já cheia para Petunia, que aceitou. Os dois se sentaram à mesa, e Sirius sentiu uma ânsia de saber sobre a vida dela nos anos em que ficaram separados. Queria que ela lhe contasse coisas felizes, mas, ao mesmo tempo, uma parte egoísta de si esperava que ela não tivesse sido tão feliz sem ele. Na cabeça dele, isso significava que ela teria sido mais feliz ao lado dele, assim como ele sabia que teria sido mais feliz ao lado dela – O que você tem feito? Temos muitos anos para botar em dia.
- Nada muito interessante, para ser honesta – Petunia respondeu com a voz tranquila, mas se ajeitou de forma ansiosa na cadeira.
- Aposto que é mais interessante do que doze anos numa cela – ele respondeu sorrindo, tentando fazer piada, mas Petunia somente o encarou com olhos azuis muito tristes, e ele murchou.
- Por que você não foi o Fiel do Segredo? – ela perguntou, como se vomitasse as palavras – Desde o ano passado que eu só consigo pensar nisso, mas não consigo desvendar o motivo.
Sirius pousou a taça na mesa, mas seguiu segurando o pescoço de vidro do copo com força, e baixou o rosto, suspirando. Não gostava de falar sobre esse assunto, mas era justo que Petunia quisesse saber. Afinal, ela havia perdido a irmã por um erro dele. Era culpa dele que todos estivessem na situação que estavam.
- Porque achei que seria óbvio demais – ele confessou – Porque eu desconfiei de Remus. No fim, deixei meu preconceito levar o melhor de mim. Desconfiei de Moony e falhei em proteger James, Lily e Harry. Era meu único trabalho, e eu falhei.
- Você não falhou – Petunia levou suas mãos até a mão de Sirius que segurava a taça, e ele não conseguiu esconder a surpresa com o toque. Hesitantemente, ele soltou o copo e virou a palma da mão para cima, segurando a mão dela com força contra a sua. Era um toque tão singelo, mas ao mesmo tempo era tudo que ele ansiava. Ele vagou os olhos das mãos unidas para os olhos de Petunia, e os encontrou lhe encarando tão intensamente quanto ela costumava lhe olhar anos antes – Não é sua culpa, Sirius. Os únicos culpados são Peter e Voldemort.
Sirius levantou uma sobrancelha ao ouvir o nome do bruxo que havia assassinado seu melhor amigo e trancou a respiração.
- Eu não tenho medo de dizer o nome dele – Petunia continuou firmemente – Eu sequer sei direito o que ele é. Eu... Eu sei que minha opinião ou o que penso não tem relevância alguma, mas... Mas você fez tudo o que podia para protegê-los. Você não deveria se cobrar tanto.
- O que você pensa é só o que importa para mim, Túnia – Sirius confessou.
Ela estava tão perto e o toque dela tão quente que Sirius não queria deixá-la se afastar, se não fizesse naquele exato momento o que tinha vontade desde que a reencontrou, provavelmente não haveria outra oportunidade. Suavemente, Sirius largou as mãos de Petunia e, gentilmente, colocou uma mecha de cabelo que fugia do coque atrás da orelha dela. Aproveitou que havia tocado na orelha dela para descer até a bochecha, e então a mandíbula, e então o queixo. As linhas ainda eram tão familiares a ele. Ele as sabia de cor, Petunia estava gravada em sua mente assim como estava gravada em sua alma. Sirius se inclinou para frente e manteve os olhos cinzas grudados nos olhos dela, e percebeu, com o coração acelerado, que ela não estava se afastando dele. Não queria agir abruptamente e correr o risco de ela se afastar, não pretendia beijá-la, por mais que seu coração doesse e sua alma inteira gritasse que queria, que precisava, beijá-la. Contentou-se em ficar ali, traçando as linhas do rosto dela com a ponta de seus dedos, memorizando a temperatura da pele dela, sentindo o hálito dela contra seu rosto, tragando os olhos dela com os seus.
E então o timer da cozinha tocou, anunciando que a massa da pizza já havia descansado o suficiente, e Petunia se levantou rápido da cadeira. A mulher foi até o balcão da pia e removeu o pano de prato que tapava a vasilha de vidro. Sirius suspirou e tentou acalmar os batimentos cardíacos antes de também se levantar da mesa e se dirigir até a mulher. Sirius parou ao lado dela e retirou cuidadosamente a massa de pizza das mãos dela.
- Deixe que eu faço isso – ele disse, sacando o rolo de abrir massa. Precisava fazer algo com suas mãos e voltar sua atenção para outra coisa. Do contrário, temia o que poderia fazer ou dizer.
No rádio, uma música conhecida começou a tocar e Sirius sentiu um aroma gostoso no ar. O moreno se virou em direção ao cheiro e viu Petunia destacar algumas folhas de uma planta perfumada já em tamanho considerável, plantada em um vaso na janela da cozinha. Ela, percebendo que ele a encarava, deu de ombros e explicou:
- Manjericão. Plantei há alguns meses e acho que é uma boa escolha para a pizza.
Sirius relaxou os ombros ao som da voz suave de Petunia, pois isso indicava que ela seguia à vontade na companhia dele. Com a massa aberta, a loira espalhou o molho feito por Sirius, e ele colocou o queijo ralado por cima.
- Assim? – Sirius pediu confirmação a Petunia, que assentiu positivamente com um tímido sorriso no rosto. O maroto, então, depositou as folhas de manjericão acima das rodelas de tomate que ela havia colocado na pizza.
Não demorou muito para que a janta estivesse pronta e eles resolveram comer na sala, apoiando as taças e a forma de pizza na mesinha de centro. Sirius se sentou no sofá e não conseguiu evitar se sentir um pouco murcho ao ver que Petunia escolhera ocupar a única poltrona da sala, que ficava de frente para o sofá e, na opinião do maroto, muito longe dele.
- Você leva jeito para pizzaiolo – ela comentou depois da primeira mordida – Ficou realmente muito bom.
- Tive uma boa professora – ele respondeu, piscando um olho para ela. Ela sorriu, e isso era mais uma vitória para ele.
Sirius comeu com vontade, percebendo que não havia ainda se alimentado naquele dia inteiro. Os dois conversaram amenidades e vez que outra riram alto. Petunia agradeceu intimamente que Sirius não tivesse abordado qualquer assunto que remetesse ao antigo relacionamento dos dois ou ao término. Sirius sentiu o coração aquecer e decidiu que queria que todas as suas noites fossem como aquela. Com a afobação, o maroto acabou sujando sua camisa branca em três lugares diferentes. Petunia se prontificou a buscar um pano úmido na cozinha e Sirius tentou limpar as manchas, sem sucesso.
- Se você quiser posso lavar sua camisa na máquina – Petunia ofereceu. Sua voz era firme, mas Sirius sabia, pelos batimentos cardíacos que ecoavam do peito dela, que ela estava ansiosa – Harry cresceu muito no último verão, tenho certeza de que algo deve lhe servir.
Sirius assentiu positivamente e tirou a camisa, entendendo-a para Petunia, que desviava o olhar de seu tronco nu, o que arrancou um sorriso do maroto. Pela primeira vez em anos, Sirius estava plenamente satisfeito com seu corpo, e a reação de Petunia confirmou que ele não estava tão capenga.
Ele a seguiu até a pequena lavanderia e observou ela colocar a camisa manchada dentro de um aparelho grande e branco, com abertura frontal. Não lembrava de já ter visto algum equipamento minimamente parecido na casa dos Evans. Ao fechar a portinhola redonda, ela apertou dois botões e o aparelho passou a fazer um barulho esquisito. Durante todo o ritual de colocar a roupa e ligar a máquina, Petunia percebeu que Sirius estava ali a observando, e fazia força para fingir que não se importava e mantinha os olhos na atividade que exercia, mesmo que enxergasse o maroto de rabo de olho.
Sirius voltou à sala e preencheu as taças com mais vinho, estendendo uma para ela quando ela adentrou o recinto.
- Vou buscar uma camisa para você – ela anunciou, desviando o olhar de Sirius. Petunia sentia as bochechas quentes.
- Não precisa – ele respondeu, ele sabia que não deveria arriscar e ver até onde ele podia puxar a corda antes de ela arrebentar, mas não conseguia evitar – Estou confortável assim, o apartamento está quente.
Petunia se sentou no sofá, que era o assento mais próximo, e Sirius aproveitou a oportunidade para se colocar ao lado dela. Ele não queria invadir o espaço dela, mas não conseguia evitar se sentir puxado a ela. Ela se ajeitou em seu canto do sofá de forma a ficar de frente e um pouco mais distante do maroto, e ele repetiu o gesto. Sirius ouvia seu próprio coração bater descompassado, e o som se tornava uma bagunça misturado aos batimentos acelerados de Petunia.
Ele não tinha dúvidas de que ainda a amava com todo o seu ser, e costumava pensar que a conhecia melhor do que ninguém. No entanto, Petunia havia claramente mudado e ele já não conseguia mais interpretar os sinais. Conseguia perceber que ela ainda tinha, mesmo que minimamente, alguma atração por ele, isso era perceptível pela forma com que ela tentava manter os olhos em qualquer outro ponto do apartamento que não fosse o peito nu dele. No Ele também sabia que ela ainda estava magoada com ele, que ela estava cansada e que a tristeza havia sido uma recorrente companhia para ela nos anos que se passaram. Ele, por vezes, teve a impressão de que ela estava aproveitando a companhia dele tanto quanto ele estava aproveitando a dela. No entanto, existia essa distância, não só física, entre os dois. E isso o atormentava.
- Eu... Eu deveria ir dormir. Está tarde – Petunia quebrou o silêncio e se levantou do sofá. Sirius automaticamente se levantou também – Você pode ficar à vontade e dormir no quarto de Harry.
Sirius assentiu positivamente com a cabeça, mas não encontrou voz dentro de si para vocalizar qualquer coisa que fosse. Petunia caminhou apressadamente até a cozinha e largou sua taça na pia. Assim que cruzou a sala novamente e alcançou o corredor que conduzia aos quartos, ouviu Sirius a chamar.
- Túnia?
- Sim? – ela respondeu, virando-se de frente para ele. Sirius caminhou até ela e respirou fundo. Ele parecia nervoso e suas sobrancelhas estavam franzidas, era como se ele lutasse com as palavras dentro de sua própria cabeça.
- Eu... – ele gaguejava – Eu sinto muito.
- Sirius... – Petunia tentou cortá-lo, mas ele foi mais rápido e segurou as mãos dela, tomando-as com força entre as dele.
- Eu sei que eu só causei sofrimento – ele continuou, e engoliu em seco um nó que se formava em sua garganta. Sirius encarava as mãos dela, não tinha coragem de olhá-la nos olhos e constatar de uma vez por todas que ela nunca iria perdoá-lo, que eles nunca voltariam a ficar juntos, que ela havia seguido em frente e não precisava dele, não queria ele – Eu sei... Eu só... Você foge de mim. Você foge de mim e isso é pior do que doze anos dentro de uma cela.
- Sirius...
- Você e Harry são tudo que eu tenho – ele confessou, e Petunia não conseguiu mais segurar as lágrimas. Sirius finalmente soltou as mãos dela e instintivamente segurou o rosto dela entre suas mãos, limpando as lágrimas dela com a ponta dos polegares. A mulher levou as próprias mãos às dele e as segurou no lugar. Sirius se inclinou para frente e encostou sua testa na dela.
Sirius sentia as próprias lágrimas traçando uma linha morna de seus olhos até seu queixo, e inspirava o ar que Petunia expirava, dividindo o mesmo oxigênio com ela. A mulher segurava suas mãos como se não quisesse que ele saísse dali, e ele simplesmente não pensou quando começou a traçar um caminho pelo rosto dela com a ponta de seu nariz. Primeiro tocou a ponta no nariz dela, depois deslizou até a bochecha, fazendo com que seus lábios roçassem nos lábios entreabertos dela, que expiravam o ar com força.
Petunia apertou as mãos de Sirius uma última vez antes de empurrá-lo suavemente para frente, libertando-se dele. Ela sussurrou um "boa noite, Sirius" e caminhou apressadamente até o próprio quarto, fechando a porta com força.
Sirius permaneceu ali parado no corredor do apartamento, ainda com o coração completamente acelerado. Respirava com dificuldade e levou as mãos até o rosto, varrendo as lágrimas para longe e penteando os cabelos para trás com os dedos. Ele estava tão perto... Tão perto dela. Abriu os olhos e levantou a cabeça, encarando o teto e puxando o ar com força para dentro. Mais ciente do ambiente à sua volta, percebeu não ter ouvido os passos de Petunia dentro do quarto. Não ouvia barulho algum, e isso nunca era bom. Lembrava quando ele mesmo silenciava o dossel de sua cama para conseguir chorar em paz em Hogwarts, ou quando Remus silenciava o próprio quarto em Grimmauld Place para que Sirius não o escutasse durante as transformações da lua-cheia.
Sabia que era um pensamento ridículo, Petunia era trouxa e não tinha como silenciar o quarto, mas isso não impediu que ele caminhasse até a porta do quarto dela e encostasse a testa contra o pedaço de madeira. Fechou os olhos e apoiou as mãos contra o marco da porta. Acalme-se, Almofadinhas. Ela está bem. Você está bem. Ela está segura. Não soube dizer quanto tempo ficou ali parado contra a porta do quarto dela, mas, assim que conseguiu acalmar a respiração e abriu os olhos, foi pego de surpresa por Petunia, que abriu a porta bruscamente e se encontrava exatamente no mesmo estado que ele.
A loira o encarou e ele sustentou o olhar dela. Ela tinha os olhos vermelhos das lágrimas, o peito dela subia e descia com a respiração pesada dela. O rosto dela denotava um sentimento que Sirius era bastante familiarizado. Petunia o encarava como se temesse que ele evaporasse bem diante de seus olhos, e ele sabia disso porque era exatamente assim que se sentia em relação a ela. Se alguém perguntasse, Sirius não saberia dizer quanto tempo os dois ficaram somente se olhando, e muito menos quem deles dois foi o primeiro a dar um passo a frente. A única coisa que Sirius sabia era que a boca de Petunia estava colada na dele e que ele finalmente a tinha nos braços.
