Desculpem a demora. Como sempre, a vida está complicada.

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Talles: Obrigadaa! Sim, planejo terminar. Pode demorar, mas ela será finalizada.

Jade: Hello! Obrigada. Fico feliz em ver que estou conseguindo corresponder as expectativas e espero que continue gostando. Beijos.

Hela: Oláaaa. Continuando.


Capítulo 14 - As Maldições Imperdoáveis


Os dois dias seguintes transcorreram sem grandes incidentes,

- Não acredito que isso finalmente aconteceu - falou Lily, satisfeita.

a não ser que se levasse em conta o sexto caldeirão derretido por Neville na aula de Poções.

- Eu não sou bom em Poções - o menino falou envergonhado.

Regulus o encarou incrédulo. Isso era um eufemismo.

O Professor Snape, que, durante as férias, parecia ter alcançado novos níveis em sua gana de se vingar do garoto,

- Aposto que você passou as suas férias tristes planejando em como torturar todo mundo - falou Sirius com desprezo.

- Deixe meu filho em paz, Snape - disse Frank com um tom perigoso na voz dele. Não aguentava mais ver Severus maltratando o filho dele.

Snape só assentiu, entendendo as preocupações de Frank. Merlin, por que ele era tão horrível com todo mundo? Certo, ele entendia com Harry, mas ele não tinha nada contra os pais de Neville, na verdade até gostava deles.

deu-lhe uma detenção, da qual Neville voltou com um colapso nervoso, pois teve que destripar uma barrica de iguanas.

- Nem é perigoso - falou Josh, dando de ombros. Se tinha uma coisa que ele entendia era detenções. Essa não foi tão ruim.

— Você sabe por que Snape está nesse mau humor tão grande, não sabe? — perguntou Ron a Harry,

- Tenho a sensação que estamos prestes a descobrir também.

enquanto observavam Hermione ensinar a Neville um Feitiço de Limpeza para remover as tripas de iguanas presas sob suas unhas.

- Obrigada, querida - falou Alice docemente.

- Nada - respondeu Hermione sorrindo.

— Hum-hum — disse Harry. — Moody.

Era do conhecimento de todos que Snape queria realmente o lugar de professor de Artes das Trevas,

- Queria saber quem espalhou esse rumor - falou Snape. Era humilhante.

e acabara de perdê-lo pelo quarto ano seguido.

- Acho que meu humor não tem nada a ver com isso - observou Snape. Ele já esperaria algo assim então saberia lidar com isso, não é como se fosse alguma grande surpresa.

- Você está certo - disse Harry, simplesmente. Por Merlin, ele tinha sido tão ingênuo naquela época.

Snape detestara todos os professores anteriores dessa matéria e demonstrara isso – mas parecia ter extrema cautela para esconder sua animosidade contra Olho-Tonto Moody.

Lily olhou para o amigo, pensativa. Por que será que ele fazia isso?

De fato, sempre que Harry via os dois professores juntos – na hora das refeições ou quando passavam pelos corredores – tinha a nítida impressão de que Snape evitava os olhos de Moody, fosse o mágico, fosse o normal.

- Você tem medo de que ele descubra algo - afirmou Lily.

Snape deu de ombros.

— Acho que Snape tem medo dele, sabe — disse Harry, pensativo.

Harry sorriu para a mãe.

— Imagine se Moody transformasse Snape em iguana — disse Ron, seus olhos se toldando — e fizesse ele ficar saltando pela masmorra...

- Acho algo meio impossível de acontecer - falou Josh, entre risadas.

Os alunos da quarta série da Grifinória estavam tão ansiosos para ter a primeira aula com Moody que, na quinta-feira, chegaram logo depois do almoço e fizeram fila à porta da sala, antes mesmo da sineta tocar.

- Nossa, a fama é realmente boa - comentou Lene, impressionada. Nunca tinham feito isso para nenhum professor deles.

A única pessoa ausente foi Hermione,

- Não quero deixar de registrar a ironia disso - comentou Ginny.

- Eu honestamente esperava mais de você - concordou Fred.

Hermione revirou os olhos. Não iria sentir-se culpada por culpa deles, ora, a aula nem tinha começado!

que chegou no último instante para a aula.

- Só assim tem graça - falou Sirius sorrindo, fazendo Lily revirar os olhos.

— Estava na...

—... biblioteca — Harry terminou a frase da amiga.

- Que fofinhos, terminando a frase um do outro - falou Dorcas.

— Anda logo senão não vamos arranjar lugares decentes.

- Acho que nem tem mais - comentou Remus.

Eles correram para pegar três cadeiras bem diante da escrivaninha do professor,

- Não sei como ainda tinha esses lugares - falou Snape - O ano de vocês deve ser muito desinteressado.

apanharam seus exemplares de As Forças das Trevas: Um guia para sua proteção, e esperaram anormalmente quietos.

- Não sei por que, não ia fazer demorar mais para chegar se vocês falarem - falou Lene prática.

Não tardaram a ouvir os passos sincopados de Moody que vinha pelo corredor e que, ao entrar na sala, parecia mais estranho e amedrontador que nunca.

- Isso é possível?

Seu pé de madeira em garra aparecia ligeiramente por baixo das vestes.

Talvez essa seja sua intenção, pensou Regulus.

— Podem guardar isso — rosnou ele, apoiando-se na escrivaninha para se sentar — esses livros. Não vão precisar deles.

Igual a Umbridge, pensou Neville.

Os alunos tornaram a guardar os livros nas mochilas, Ron tinha um ar excitado.

- Claro, a aula prometia ser ótima - falou Ron.

Moody apanhou a folha de chamada, sacudiu sua longa juba de cabelos grisalhos para afastá-los do rosto contorcido e marcado, e começou a chamar os nomes, seu olho normal percorrendo a lista e o olho mágico girando, fixando-se em cada aluno quando ele respondia.

- Bom jeito de decorar quem é quem.

— Certo, então — concluiu ele, quando a última pessoa confirmara presença.

— Tenho uma carta do Professor Lupin sobre esta turma.

- Ownn, Remus, que fofinho! - falou James, sarcástico.

- Escrevendo sobre a gente - falou Harry.

Parece que vocês receberam um bom embasamento para enfrentar criaturas das trevas, estudaram bichos-papões, barretes vermelhos, hinkypunks, grindylows, kappas e lobisomens, correto?

- Viu, você nos ensinou muita coisa - comentou Harry.

Houve um murmúrio geral de concordância.

- Pelo menos, vocês lembram do que estudam - falou Lily, aliviada.

— Mas estão atrasados, muito atrasados, em maldições

- Pode-se dizer isso - resmungou Frank. A turma de Harry era incrivelmente atrasada comparada com a dele.

— disse Moody. — Então, estou aqui para pôr vocês em dia com o que os bruxos podem fazer uns aos outros.

- Nem sempre é bonito - falou Snape.

Tenho um ano para lhes ensinar a lidar com as forças das...

- Até Moody sabia da maldição - zombou Neville.

— Quê, o senhor não vai ficar? — deixou escapar Ron.

O olho mágico de Moody girou para se fixar em Ron, o garoto ficou extremamente apreensivo, mas, passado um instante, o professor sorriu – a primeira vez que Harry o via fazer isso.

- Isso só deixa tudo mais assustador - falou Ginny.

O efeito foi entortar mais que nunca o seu rosto muito marcado, mas de qualquer forma foi um alívio saber que ele era capaz de um gesto amigável como sorrir. Ron pareceu profundamente aliviado.

- Vi que Moody estava pelo menos tentando.

— Você deve ser filho do Arthur Weasley? — disse Moody. — Seu pai me tirou de uma enrascada há alguns dias... É, vou ficar apenas este ano. Um favor especial a Dumbledore...

- Deve ser - ironizou Harry.

Um ano e depois volto ao sossego da minha aposentadoria.

Ele deu uma risada áspera e então juntou as palmas das mãos nodosas.

— Então... Vamos direto ao assunto. Maldições. Elas têm variados graus de força e forma. Agora, segundo o Ministério da Magia, eu devo ensinar a vocês as contra-maldições e parar por aí. Não devo lhes mostrar que cara têm as maldições ilegais até vocês chegarem ao sexto ano.

Sirius soltou um riso irônico. Pelo menos metade dos Sonserinos já dominavam essa arte a essa altura.

Até lá, o Ministério acha que vocês não têm idade para lidar com elas. Mas o Professor Dumbledore tem uma opinião mais favorável dos seus nervos e acha que vocês podem aprendê-las, e eu digo que quanto mais cedo souberem o que vão precisar enfrentar, melhor.

Regulus analisou o que estava ouvindo, feliz. Finalmente um professor disposto a ensinar sem restrições.

Como vão se defender de uma coisa que nunca viram? Um bruxo que pretenda lançar uma maldição ilegal sobre vocês não vai avisar o que pretende. Não vai lançá-la de forma suave e educada bem na sua cara.

- Isso ia tirar toda a graça da coisa - concordou Sirius.

Vocês precisam estar preparados. Precisam estar alertas e vigilantes.

- Vigilância constante - citou Harry.

A senhorita deve guardar isso, Srta. Brown, enquanto eu estiver falando.

Lavender levou um susto e corou. Estivera mostrando a Parvati o horóscopo que aprontara por baixo da carteira. Aparentemente o olho mágico de Moody podia ver através da madeira, tão bem quanto pela nuca.

- Ter um professor assim vai ser interessante - falou Remus pensativo, imaginando como os alunos teriam que se virar para não prestarem atenção na aula.

— Então... Algum de vocês sabe que maldições são mais severamente punidas pelas leis da magia?

Vários braços se ergueram hesitantes, inclusive os de Ron e Hermione.

- Que casal estudioso - zoou Ginny.

Moody apontou para Ron, embora seu olho mágico continuasse mirando Lavender.

— Hum — disse Ron sem muita certeza — meu pai me falou de uma... Chama Maldição Imperius ou coisa assim?

— Ah, sim — disse Moody satisfeito. — Seu pai conheceria essa. Certa vez, deu ao Ministério muito trabalho, essa Maldição Imperius.

James e Sirius trocaram olhares, imaginando bem que tipo de situação o Imperius daria muito trabalho ao Ministério. Tempos sombrios estavam chegando para eles.

Moody se apoiou pesadamente nos pés desiguais, abriu a gaveta da escrivaninha e tirou um frasco de vidro. Três enormes aranhas pretas corriam dentro dele.

Neville estremeceu e olhos para os pais. Sentia-se estranho lembrando da tortura do pais e ao mesmo tempo vendo eles tão bem.

Harry sentiu Ron se encolher ligeiramente ao seu lado, Ron detestava aranhas.

- Isso só ficou pior depois do segundo ano - Ron estremeceu.

Moody meteu a mão dentro do frasco, apanhou uma aranha e segurou-a na palma da mão, de modo que todos pudessem vê-la. Apontou, então, a varinha para o inseto e murmurou "Imperio!"

- Não acredito que ele fez isso! - falou Alice indignada.

- Ele não tem medo de ser preso? - perguntou Dorcas curiosa. As maldições eram altamente ilegais e ele estava as realizando na frente de todo mundo.

A aranha saltou da mão de Moody para um fio de seda e começou a se balançar para frente e para trás como se estivesse em um trapézio. Esticou as pernas rígidas e deu uma cambalhota, partindo o fio e aterrissando sobre a mesa, onde começou a plantar bananeiras em círculos.

- Foi uma das coisas mais bizarras que eu já vi na minha vida e olha que eu vi bastante coisa - comentou Ron.

Moody agitou a varinha, e a aranha se ergueu em duas patas traseiras e saiu dançando um inconfundível sapateado. Todos riram, todos exceto Moody.

Neville balançou a cabeça. Não conseguia acreditar que ele tinha rido disso. Quão idiota tinha sido?

— Acharam engraçado, é? — rosnou ele. — Vocês gostariam se eu fizesse isso com vocês?

- Não está no topo da minha lista de coisas a fazer, obrigado - brincou Sirius.

As risadas pararam quase instantaneamente.

— Controle total — disse o professor em voz baixa, quando a aranha se enrolou e começou a rodar sem parar. — Eu poderia fazê-la saltar pela janela, se afogar, se enfiar pela garganta de vocês abaixo...

- Coisas terríveis podem ser feitas com essa maldição - concordou Regulus. Ele já pensara bastante sobre ela, mas nunca a usaria a não ser que fosse estritamente necessário, o risco era muito grande.

Ron teve um tremor involuntário.

— Há alguns anos, havia muitos bruxos e bruxas controlados pela Maldição Imperius — disse Moody, e Harry entendeu que ele estava se referindo ao tempo em que Voldemort fora todo-poderoso.

- O auge do terror - sussurrou Lily.

— Foi uma trabalheira para o Ministério separar quem estava sendo forçado a agir de quem estava agindo por vontade própria.

— A Maldição Imperius pode ser neutralizada, e vou lhes mostrar como, mas é preciso força de caráter real e nem todos a possuem.

Hermione sorriu para Harry, como se dissesse que estava feliz por ele ter os dois.

Por isso é melhor evitar ser amaldiçoado com ela se puderem.

- Ele fala como se alguém fosse escolher sofrer com uma imperdoável - resmungou James.

"VIGILÂNCIA CONSTANTE!" — vociferou ele, e todos os alunos se assustaram.

- Porque não estavam em vigilância constante.

- Excelente piada, Josh.

- Você que não tem senso de humor, Alex.

Moody apanhou a aranha acrobata e atirou-a de volta ao frasco.

— Mais alguém conhece mais alguma? Outra maldição ilegal?

A mão de Hermione voltou a se erguer e, para surpresa de Harry, a de Neville também.

Harry olhou tristemente para o colega. Parecia cruel que Neville participasse dessa aula.

A única aula em que Neville normalmente voluntariava informações era a de Herbologia, que era, sem favor algum, a matéria que ele sabia melhor. O garoto pareceu surpreso com a própria ousadia.

- Não foi algo planejado - admitiu.

— Qual? — perguntou Moody, seu olho mágico dando um giro completo para se fixar em Neville.

- Nem um pouco estranho - falou Lissy.

— Tem uma, a Maldição Cruciatus — disse Neville, numa voz fraca, mas clara.

Moody olhou Neville com muita atenção, desta vez com os dois olhos.

— O seu nome é Longbottom? — perguntou ele, o olho mágico girando para verificar a folha de chamada. Neville confirmou, nervoso, com a cabeça, mas o professor não fez outras perguntas.

Neville ainda se lembrava como tinha sentido medo de que nessa hora o professor fosse revelar o que acontecera com seus pais para a turma inteira.

Tornando a voltar sua atenção à classe, ele meteu a mão no frasco mais uma vez, apanhou outra aranha

- Quantas aranhas ele levou? - perguntou Frank.

- Três - falou Neville, fazendo Frank o olhar assustado.

e colocou-a no tampo da escrivaninha, onde o animal permaneceu imóvel, aparentemente demasiado assustado para se mexer.

- É um animal esperto - falou Regulus - Evitando chamar mais atenção para si.

— A Maldição Cruciatus — começou Moody. — Preciso de uma maior para lhes dar uma ideia — disse ele, apontando a varinha para a aranha. — Engorgio!

A aranha inchou. Estava agora maior do que uma tarântula.

Lily olhou horrorizada para o livro. Já sabia o que professor iria fazer, mas aumentar a aranha de tamanho só para torturar ela?

Abandonando todo o fingimento, Ron empurrou a cadeira para trás, o mais longe que pôde da escrivaninha de Moody.

- Obrigado, mas não gosto de ficar vendo tortura, mesmo que seja uma aranha - murmurou o ruivo.

O professor tornou a erguer a varinha, apontou-a para a aranha e murmurou:

Crucio!

Na mesma hora, as pernas da aranha se dobraram sob o corpo, ela virou de barriga para cima e começou a se contorcer horrivelmente, balançando de um lado para outro. Não emitia som algum, mas Harry teve certeza de que, se tivesse voz, estaria berrando.

Dor é algo que Harry entende, pensou Regulus, com tristeza.

Moody não afastou a varinha e a aranha começou a estremecer e a se debater violentamente...

— Pare! — gritou Hermione com a voz aguda.

- Você foi a única o suficiente para fazê-lo parar - disse Ron, sorrindo. Era por essas razões que a namorada entrara na Grifinória.

Harry olhou para a amiga. Ela estava com os olhos postos não na aranha, mas em Neville,

- Você é uma excelente amiga, Mione - elogiou Neville.

e Harry, ao seguir a direção do seu olhar, viu que as mãos do garoto se agarravam à carteira diante dele, os nós dos dedos brancos, seus olhos arregalados e horrorizados.

Alice lançou um sorriso triste para o filho.

Moody ergueu a varinha. As pernas da aranha se descontraíram, mas ela continuou a se contorcer.

- É uma crueldade especial ele dar essa aula com Neville na sala - falou Ron baixinho para Harry.

Reducio — murmurou Moody, e a aranha encolheu e voltou ao tamanho normal. Ele a repôs no frasco.

— Dor — explicou Moody em voz baixa. — Não se precisa de alicates nem de facas para torturar alguém quando se é capaz de lançar a Maldição Cruciatus...

- Nem criatividade - falou Regulus sombriamente.

Ela também já foi muito popular.

- Em tempos horríveis - falou Sirius secamente.

Certo... mais alguém conhece alguma outra?

Harry olhou para os lados. Pela expressão no rosto dos colegas, ele achou que estavam todos pensando no que aconteceria com a última aranha.

- Ninguém quer dar a ordem da morte - falou Remus.

A mão de Hermione tremia levemente quando, pela terceira vez, ela a ergueu no ar.

- Não! - falou Lissy - Você não disse isso.

- Se eu não falasse, ele faria do mesmo jeito - falou Hermione com convicção.

— Sim! — disse Moody olhando-a.

Avada Kedavra — sussurrou a garota.

Vários colegas a olharam constrangidos, inclusive Ron.

- Por não saber ou por que não disseram? - perguntou Alice.

- Um pouco dos dois, acho - respondeu Hermione.

— Ah — exclamou Moody, outro sorrisinho torcendo sua boca enviesada. — Ah, a última e a pior. Avada Kedavra... A Maldição da Morte.

- Certo, já que explicou não precisa demonstrar - falou Lily.

Ele enfiou a mão no frasco e, quase como se soubesse o que a esperava, a terceira aranha correu freneticamente pelo fundo do objeto,

- É o instinto dela - murmurou Dorcas.

tentando fugir aos dedos de Moody, mas ele a apanhou e a colocou sobre a escrivaninha. O inseto começou a correr, desvairado, pela superfície de madeira. Moody ergueu a varinha e Harry sentiu um repentino pressentimento.

- Acho que é mais que um pressentimento, Harry - disse Frank com tristeza.

Avada Kedavra! — berrou Moody.

Houve um relâmpago de ofuscante luz verde e um rumorejo, como se algo vasto e invisível voasse pelo ar,

Harry entristeceu-se, lembrando das outras vezes que vira essa mesma luz.

instantaneamente a aranha virou de dorso, sem uma única marca, mas inconfundivelmente morta. Várias alunas abafaram gritinhos, Ron se atirara para trás, quase caindo da cadeira, quando a aranha escorregou em sua direção.

- Meu irmão, sempre muito orgulhoso - ironizou Ginny.

Moody empurrou a aranha morta para fora da mesa.

— Nada bonito — disse calmamente. — Nada agradável. E não existe contra maldição. Não há como bloqueá-la.

- A única coisa que resta é correr ou esquivar - falou James, sério.

- É por isso que ela é tão horrível, apesar de ser instantânea - concordou Alice.

Somente uma pessoa no mundo já sobreviveu a ela e está sentada bem aqui na minha frente.

- Nada como ser discreto, hum? - murmurou Alice.

Harry sentiu seu rosto corar quando os (dois) olhos de Moody fitaram os dele.

- Foi a única vez que vi ele focando em um lugar só - falou Hermione.

Sentiu que toda a turma também estava olhando para ele.

- Se alguém não soubesse ainda, por um milagre, agora... - Ron deu de ombros.

Harry encarou o quadro-negro limpo como se estivesse fascinado por sua superfície, mas na realidade sem sequer vê-lo...

James não sabia porque, mas não tinha gostado dessa frase.

Então fora assim que seus pais tinham morrido... Exatamente como aquela aranha.

Neville estremeceu, sabendo exatamente como Harry tinha se sentido.

Será que tinham morrido sem desfiguração nem marcas, também? Será que tinham simplesmente visto um relâmpago verde e ouvido o rumorejo da morte que se aproximou célere, antes que a vida fosse varrida de seus corpos?

- Foi uma morte digna - disse Lily com firmeza - Eu não me importo de morrer lutando para salvar aqueles que eu amo.

- Mas... - Harry hesitou, querendo de dizer que deveria importar. Deveria fazer diferença para ela o fato que ele tivera que crescer sem pai, nem mãe. Ele sabia que eram pensamentos egoístas. Se não fosse por James e Lily, não teria nem sobrevivido. E eles somente se sacrificaram por isso. Mas uma parte de si ressentia-se que os pais tinham escolhido lutar numa guerra e nunca pensaram que a criança que estavam concebendo estaria entrando nesse mundo.

- Te amamos, Harry - falou James simplesmente.

Harry imaginara a morte dos pais muitas vezes nesses três anos, desde que descobrira que tinham sido assassinados, desde que descobrira o que acontecera naquela noite: como Rabicho informara o esconderijo de seus pais a Voldemort, que viera procurá-los em casa. Como o bruxo matara primeiro o pai de Harry. Como James Potter tentara atrasá-lo, enquanto gritava para a mulher apanhar Harry e correr... E Voldemort avançara para Lily Potter, dissera-lhe para se afastar para ele poder matar Harry... Como sua mãe suplicara para que a matasse no lugar do filho, recusara-se a deixar de proteger o filho com o corpo... E então Voldemort a assassinara também, antes de virar a varinha contra Harry...

Sirius suava frio. Ele queria saber quantas vezes mais seria obrigado a ouvir como seus melhores amigos morreram, como seu afilhado virou órfão. Não aguenta as imagens terríveis que se criava na sua cabeça e um mundo sem James e Lily era assustador.

Lene viu a reação do namorado e segurou a sua mão, o olhou com carinho quando ele virou a cabeça para ela. Ela sempre estaria lá para ele.

Harry conhecia esses detalhes porque ouvira a voz dos pais quando enfrentara os dementadores no ano anterior, pois esse era o terrível poder dessas criaturas: forçar suas vítimas a reviverem as piores lembranças de suas vidas e se afogarem, impotentes, no próprio desespero...

Remus estremeceu, imaginando o que os dementadores teriam feito a Sirius.

- Mas você é mais forte que elas, Harry - lembrou Regulus, baixinho - Não podem te derrotar.

Harry sorriu para o amigo, grato em ver como ele estava tentando melhorar seu humor, mesmo que isso tudo tivesse ocorrido anos atrás.

Harry teve a impressão de que Moody recomeçara a falar de muito longe.

- Nem mesmo sentia mais os olhares - comentou Harry.

Com um enorme esforço, ele se obrigou a voltar ao presente e fixar a atenção no que o professor dizia.

Avada Kedavra é uma maldição que exige magia poderosa para lançá-la, vocês podem apanhar as varinhas agora, apontá-las para mim, dizer as palavras e duvido que consigam sequer que o meu nariz sangre.

- Só falta se oferecer como teste - resmungou Lene.

Mas isto não importa. Não estou aqui para ensiná-los a lançá-la.

- Acho que Dumbledore ficaria furioso se esse fosse o caso - concordou George.

— Ora, se não há uma contra-maldição, por que estou lhes mostrando essa maldição? Porque vocês precisam conhecê-la.

- Para sair de perto assim que ouvir as palavras - murmurou Regulus.

Vocês têm que reconhecer o pior. Vocês não querem se colocar em uma situação em que precisem enfrentá-la.

- Mas vai acontecer mesmo assim - disse Ginny.

"VIGILÂNCIA PERMANENTE!" — berrou ele e a turma inteira tornou a se sobressaltar. — Agora... Essas três maldições, Avada Kedavra, Imperius e Cruciatus, são conhecidas como as Maldições Imperdoáveis. O uso de qualquer uma delas em um semelhante humano é suficiente para ganhar uma pena de prisão perpétua em Azkaban. É isso que vão ter que enfrentar. É isso que preciso lhes ensinar a combater. Vocês precisam estar preparados. Vocês precisam de armas. Mas, acima de tudo, precisam praticar uma vigilância constante, permanente. Apanhem suas penas... Copiem o que vou ditar...

- É uma aula totalmente louca - murmurou Regulus - Mas interessante.

- Ele é absurdo! - contradisse Lily - Ele não pode usar as Maldiçoes nem nos animais.

Os alunos passaram o resto da aula tomando notas sobre cada uma das Maldições Imperdoáveis. Ninguém falou até a sineta tocar, mas quando Moody os dispensou e eles saíram da sala, explodiram em um falatório irrefreável.

- Esse é o melhor sinal que a aula foi boa - murmurou Lene.

A maioria dos alunos discutia as maldições em tom de assombro: "Você viu ela se contorcendo?", e "quando ele matou a aranha, assim!".

- Vocês são um grupo macabro - comentou Lissy.

- Acho que todos são - disse Dorcas.

Comentavam a aula, pensou Harry, como se ela tivesse sido um espetáculo fantástico, mas ele não a achara nada divertida, tampouco Hermione.

Lily sorriu feliz ao ver que o filho tinha um pouco de juízo.

— Anda logo — disse ela tensa para Harry e Ron.

— Não é a biblioteca outra vez, é? — perguntou Ron.

- Eu faço outra coisa que não ir a biblioteca - resmungou Hermione.

— Não — respondeu a garota, secamente, apontando para um corredor lateral. — Neville.

Neville estava em pé sozinho, no meio do corredor, de olhos fixos na parede de pedra oposta, com a mesma expressão horrorizada e pasma que fizera quando Moody demonstrara a Maldição Cruciatus.

- Você não estava nada bem - murmurou Alice, preocupada.

- A aula toda me lembrou de vocês - falou Neville, baixo.

Alice o abraçou forte por alguns segundos, sem conseguir pensar em dizer nada.

— Neville? — chamou Hermione de mansinho.

Alice sorriu para ela, sabia que estava tentando ser uma boa amiga.

Neville virou a cabeça.

— Ah, oi — disse ele, a voz mais aguda do que habitualmente. — Aula interessante, não foi? Que será que tem para o jantar, estou... Estou morto de fome, vocês não?

— Neville, você está bem? — perguntou Hermione.

— Ah, claro, estou ótimo — balbuciou o garoto, na voz anormalmente aguda. — Jantar muito interessante... Quero dizer, aula... Que será que tem para se comer?

- Neville... - falou Ginny com um tom de pena. Não queria o amigo tivesse que enfrentar aquele dia sozinho.

Ron lançou a Harry um olhar assustado.

— Neville, que...?

Mas eles ouviram às costas um som seco e metálico estranho e, ao se virarem, viram o Professor Moody vindo em sua direção.

Remus rosnou. O que esse professor iria fazer agora? Já não tinha feito o suficiente?

Os quatro ficaram em silêncio, observando-o apreensivos, mas quando ele falou, foi com um rosnado bem mais baixo e gentil do que tinham ouvido até então.

— Está tudo bem, filho — disse ele a Neville. — Por que não vem até a minha sala? Vamos... Podemos tomar uma xícara de chá...

- Se estava preocupado com ele de verdade, o chamava antes da aula para dizer sobre o que seria e o dava opção de falta - falou Ginny friamente.

- Está tudo bem, Gi - Neville tentou a acalmar.

Neville ficou ainda mais assustado ante a perspectiva de tomar chá com Moody. Ele não se mexeu nem falou.

- Não entendia o que ele queria comigo - disse Neville.

Moody virou o olho mágico para Harry.

— Você está bem, não está, Potter?

— Estou — disse Harry, quase em tom de desafio.

Regulus balançou a cabeça. Harry era muito transparente.

O olho azul de Moody estremeceu de leve na órbita ao examinar Harry. Então falou:

— Vocês têm que saber. Parece cruel, talvez, mas vocês têm que saber.

- Não parece cruel, é cruel - corrigiu Lily.

Não adianta fingir...

- Fingir não, mas é preciso um preparo maior antes de simplesmente jogar essas Maldições - comentou Hermione secamente.

Bom... Venha, Longbottom, tenho uns livros que podem lhe interessar.

Neville olhou suplicante para Harry, Ron e Hermione, mas eles não disseram nada,

- Grande amigos vocês são - ironizou Fred.

- Estávamos todos confusos demais - disse Ron, arrependido.

de modo que o garoto não teve escolha senão se deixar conduzir, uma das mãos nodosas de Moody em seu ombro.

- Estou com medo disso - murmurou Dorcas.

- Não, foi tranquilo - falou Neville.

— Que foi que houve? — perguntou Ron, observando Neville e Moody virarem para outro corredor.

— Não sei — disse Hermione, parecendo pensativa.

- Mais um mistério a ser resolvido - murmurou Ginny.

— Mas foi uma aula e tanto, hein? — disse Ron a Harry, quando se dirigiam ao Salão Principal. — Fred e George tinham razão, não é? Ele realmente conhece o assunto.

- Se quer saber, conhece bem demais - resmungou Regulus. Certo, o homem era um auror, mas só porque ele tinha permissão para matar, deixava isso ok?

Quando ele lançou a Avada Kedavra, o jeito com que aquela aranha simplesmente morreu, apagou na hora...

Ron resmungou baixinho, agora conseguia ver o quão idiota tinha sido.

Mas Ron se calou de súbito ao ver a expressão no rosto de Harry, e não tornou a falar até chegarem ao salão,

- Sábia decisão.

quando comentou que era melhor eles começarem a preparar as predições da Professora Trelawney àquela noite, porque iam demorar horas naquilo.

- Quanto tempo você pode passar inventado mentiras? - resmungou Josh.

Hermione não entrou na conversa de Harry e Ron durante o jantar, mas comeu furiosamente depressa e, em seguida, foi para a biblioteca.

- Normal já.

Harry e Ron voltaram à Torre da Grifinória, e Harry, que não pensara em outra coisa durante todo o jantar, agora levantou o assunto das Maldições Imperdoáveis.

— Moody e Dumbledore não ficariam encrencados se o Ministério soubesse que vimos lançar as maldições? — perguntou Harry ao se aproximarem da Mulher Gorda.

- E como o Ministério não vai saber, eu não sei - resmungou Ginny.

— Provavelmente — disse Ron. — Mas Dumbledore sempre fez as coisas do jeito dele, não é, e Moody, eu imagino, já anda encrencado há anos. Atacar primeiro e fazer perguntas depois, veja só a história das latas de lixo. Biruta.

- Será que isso ajudou ao Ministério a interferir em Hogwarts? - peguntou Fred, pensativo.

- Provavelmente.

- Como assim interferir? - perguntou James.

- Vocês vão ver.

A Mulher Gorda girou para frente, revelando a passagem e eles entraram na sala comunal da Grifinória, que estava cheia e barulhenta.

- Os grifinórios são pessoas barulhentas - corrigiu Frank.

— Vamos apanhar o nosso material de Adivinhação, então? — disse Harry.

— Acho que sim — gemeu Ron.

Os dois subiram ao dormitório para apanhar os livros e mapas e encontraram Neville sozinho, sentado na cama, lendo. Parecia bem mais calmo do que ao fim da aula de Moody, embora ainda não estivesse completamente normal.

- Como você percebeu isso? - perguntou Dorcas espantada.

Harry deu de ombros. Não lembrava.

Seus olhos estavam muito vermelhos.

- Está explicado.

— Você está bem, Neville? — perguntou Harry.

— Ah, estou. Estou ótimo, obrigado. Lendo o livro que o Professor Moody me emprestou...

Ele mostrou o livro: Plantas Mediterrâneas e Suas Propriedades Mágicas.

Harry resmungou mentalmente. Porque não percebera que Moody não seria do tipo de ler esses livros?

— Parece que a Professora Sprout disse a ele que sou realmente bom em Herbologia — disse Neville.

- Você é excelente - disse Ginny. Neville sorriu.

Havia um quê de orgulho em sua voz que Harry raramente ouvira antes. — O professor achou que eu gostaria deste.

- Nisso ele acertou - disse Neville.

Repetir para Neville o que a Professora Sprout dissera, pensou Harry, fora uma maneira muito delicada de animar o garoto, porque Neville raramente ouvia alguém dizer que ele era bom em alguma coisa. Era o tipo de coisa que o Professor Lupin teria feito.

Harry fez uma careta, mal acreditando que tinha comparado os dois.

- Remus, Harry. Não Professor Lupin - corrigiu Remus.

Harry e Ron apanharam seus exemplares de Esclarecendo o Futuro

- Não acredito que gastei dinheiro com isso - resmungou Ron.

e voltaram à sala comunal, procuraram uma mesa e começaram a trabalhar nas predições para o mês seguinte. Uma hora mais tarde, tinham feito pouco progresso,

- Uma coisa tão inútil e leva tanto tempo - resmungou James.

embora a mesa estivesse coalhada de pedaços de pergaminho cobertos com somas e símbolos e o cérebro de Harry estivesse enevoado, como se impregnado pela fumaça da lareira da Professora Trelawney.

— Não tenho a menor ideia do significado disso — falou ele examinando a longa lista de cálculos.

- Ninguém entende mesmo - George deu de ombros.

— Sabe de uma coisa — disse Ron, cujos cabelos estavam de pé de tanto o garoto passar os dedos por eles, cheio de frustração. — Acho que voltamos à velha regra da Adivinhação.

— Quê... Inventar?

— É — disse Ron, varrendo da mesa o monte de anotações e mergulhando a pena no tinteiro para começar a escrever.

- É o melhor jeito de fazer as tarefas de Trelawney - disse Ron e Ginny riu.

— Na próxima segunda-feira — disse ele enquanto escrevia — há grande probabilidade de eu apanhar uma tosse, devido à infeliz conjunção de Marte com Júpiter. — Ele ergueu os olhos para Harry. — Você conhece ela, escreve uma porção de desgraças que ela engole tudo.

- Se puder acrescentar uma morte, melhor ainda - falou Neville.

— Certo — disse Harry, amassando seu primeiro rascunho e atirando-o por cima das cabeças de um grupo de alunos do primeiro ano que conversavam.

- Tenha mais respeito - Lily resmungou. Essa atitude fora tão James.

— Muito bem... Na segunda-feira vou correr o perigo de... Hum... Me queimar.

— E vai mesmo — disse Ron sombriamente — vamos ver os explosivins de novo.

- Seu subconsciente já está em alerta para aula de Hagrid - comentou Regulus secamente.

Na, terça-feira, vou... Hum...

— Perder algo valioso — disse Harry, que folheava o Esclarecendo o Futuro à procura de ideias.

— Boa — disse Ron, copiando-a. — Por causa de... Hum... Mercúrio. Por que você não leva uma punhalada pelas costas de alguém que você pensou que fosse amigo?

— Legal... — disse Harry, anotando a sugestão — por que... Vênus está na décima segunda casa.

- É quase fazer um horóscopo isso - resmungou Lissy.

— E na quarta-feira, acho que vou levar a pior em uma briga.

— Aah, eu ia ter uma briga. O.K., vou perder uma aposta.

- Não roubem as ideias um do outro.

— É, você vai apostar que vou ganhar a minha briga...

- Que futuro lindo - ironizou Lily.

Os garotos continuaram a inventar predições (que foram se tornando mais trágicas) por mais uma hora, enquanto a sala comunal se esvaziava à medida que as pessoas iam se deitar.

- Mas vocês são alunos dedicados, mais ou menos...

Bichento foi até os dois, deu um salto leve para uma cadeira vazia e mirou Harry misteriosamente, de um modo semelhante ao de Hermione quando sabia que os garotos não estavam fazendo o dever de casa direito.

- Esse seu gato com certeza é um animago, não é possível - falou Frank.

- Bichento é inteligente, só isso.

Correndo o olhar pela sala, tentando pensar em alguma desgraça que ainda não tivesse usado, Harry viu Fred e George sentados junto à parede oposta, as cabeças encostadas uma na outra, as penas na mão, examinando um pedaço de pergaminho. Era muito estranho ver os dois escondidos em um canto, trabalhando em silêncio, em geral eles gostavam de ficar no meio da confusão e de serem o centro das atenções.

- Estávamos tentando sermos legais e dar a chance de outras pessoas brilharem - falou Fred com um brilho predatório no olhar.

Havia um certo sigilo no jeito como estudavam um único pergaminho, e Harry se lembrou dos dois sentados juntos, escrevendo alguma coisa, lá na Toca. Ele pensara na época que era outro formulário para as "Gemialidades" Weasley, mas desta vez parecia diferente, se não, eles com certeza teriam deixado Lee Jordan participar da travessura.

- Lee é um amigo incrível - disse George, apenas, gostando do mistério.

Harry ficou imaginando se teria alguma coisa a ver com a inscrição no Torneio Tribruxo.

- Temos um plano para isso - falou simplesmente Fred.

- Que falhou grandiosamente - cochichou Ron para Ginny, rindo juntos.

Enquanto Harry observava, George sacudiu a cabeça para Fred, rabiscou alguma coisa com a pena e disse, num tom muito baixo que, mesmo assim, ecoou pela sala quase deserta:

— Não... Assim parece que nós o estamos acusando. Temos que ter cuidado...

- Cuidado? Vocês? - brincou Neville.

Então George deu uma olhada na sala e viu que Harry o observava. Harry sorriu e voltou depressa às suas predições, não queria que George pensasse que ele estava bisbilhotando.

- Mas você estava - disse George com um sorriso Maroto.

Logo depois, os gêmeos enrolaram o pergaminho, deram boa-noite e foram se deitar.

- É algo secreto o suficiente para vocês sumirem - disse Lene, curiosa.

Fred e George tinham saído havia uns dez minutos quando o buraco do retrato se abriu e Hermione entrou na sala comunal, trazendo um rolo de pergaminho em uma das mãos e uma caixa, cujo conteúdo fazia barulho, na outra.

Bichento arqueou as costas, ronronando.

- Todos estão estranhos.

— Olá — disse ela — acabei!

— Eu também! — disse Ron em tom triunfante, largando a pena.

Hermione se sentou, deixou as coisas que carregava em uma poltrona vazia e puxou as predições de Ron para ver.

- Adoro como tenho privacidade - disse Ron.

— Não vai ter um mês nada bom, hein? — disse ela ironicamente, quando Bichento veio se enroscar em seu colo.

— Bom, pelo menos estou prevenido — bocejou Ron.

- Esse é o meu irmão, sempre vendo o lado positivo das coisas - ironizou Ginny.

— Você parece que vai se afogar duas vezes — disse a garota.

— Ah, vou, é? — disse Ron baixando os olhos para suas predições. — É melhor eu trocar uma delas por um acidente com um hipogrifo desembestado.

- Tem um número máximo que vezes que você pode se afogar, afinal - falou Ron falsamente sério.

— Você não acha que está um pouco óbvio que você inventou isso tudo? — perguntou Hermione.

— Como é que você se atreve! — exclamou Ron, fingindo-se ofendido. — Estivemos trabalhando como elfos domésticos aqui!

- Não foi a melhor coisa a se dizer - falou Neville, já imaginando como Hermione ficaria feliz.

Hermione ergueu as sobrancelhas.

— É só uma expressão — acrescentou ele depressa.

- Vinda de um contexto histórico de opressão - Hermione completou.

Harry pousou a pena, tendo acabado de predizer a própria morte por decapitação.

- Vocês são tão positivos - ironizou Lissy.

- Bem, pelo menos Trelawney fica feliz - falou Harry.

- Nada a deixa mais feliz que a morte de Harry - acrescentou Ron.

— Que é que tem nessa caixa? — perguntou ele, apontando-a.

— Engraçado você perguntar — respondeu a garota com um olhar feio para Ron.

Tirou então a tampa e mostrou o conteúdo aos garotos. Dentro havia uns cinquenta distintivos, de cores diferentes, mas todos com os mesmos dizeres: F.A.L.E.

Ron e Harry trocaram olhares de dor.

— Fale? — estranhou Harry, apanhando um distintivo e examinando-o. — Que significa isso?

— Não é fale — protestou Hermione impaciente. — É F-A-L-E. Quer dizer, Fundo de Apoio à Libertação dos Elfos.

- Que coisa interessante - Lily falou.

— Nunca ouvi falar nisso — disse Ron.

— Ora, é claro que não ouviu — disse Hermione energicamente. — Acabei de fundar o movimento.

Lily olhou surpresa para a menina. Era tão bom ver alguém realmente tentando mudar algo que acreditava ser errado.

— Ah, é? — disse Ron com um ar levemente surpreso. — E quantos membros já tem?

— Bom, se vocês dois se alistarem... Três.

Fred, George, James e Sirius riram.

- Grande movimento! - falou o Black.

- Não ligue, Hermione. As coisas sempre começam de algum lugar - disse Remus.

— E você acha que queremos andar por aí usando distintivos que dizem "fale", é? — falou Ron.

— F-A-L-E! — corrigiu-o Hermione irritada. — Eu ia pôr "Fim ao Abuso Ultrajante dos Nossos Irmãos Mágicos" e "Campanha para Mudar sua Condição", mas não dava certo.

- Definitivamente não - falou Regulus em um tom de escárnio.

Então F.A.L.E. é o título do nosso manifesto.

- Vocês viram que ela já assumiu que faríamos parte - disse Ron para os irmãos.

Ela brandiu um rolo de pergaminho para os garotos.

— Andei pesquisando minuciosamente na biblioteca. A escravatura dos elfos já existe há séculos. Custo a acreditar que ninguém tenha feito nada contra ela até agora.

— Hermione, abra bem os ouvidos — disse Ron em voz alta. — Eles. Gostam. Disso. Gostam de ser escravizados!

- Não foi o melhor jeito de explicar - resmungou Ginny.

— A curto prazo, os nossos objetivos — disse Hermione, falando ainda mais alto do que o amigo e agindo como se não tivesse ouvido uma única palavra

- Dois cabeças duras - disse Harry.

- E você é outro - resmungou Ron.

— são obter para os elfos um salário mínimo justo e condições de trabalho decentes. A longo prazo, os nossos objetivos incluem mudar a lei que proíbe o uso da varinha e tentar admitir um elfo no Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas, porque eles são vergonhosamente sub-representados.

- Sempre falava sobre mudar as leis com meus amigos quando tinha 14 anos - brincou Lene.

- Mas comparado ao que eles já enfrentaram, isso não é nada - lembrou Dorcas.

— E como é que vamos fazer tudo isso? — perguntou Harry.

- Não pergunta - falou Neville.

— Vamos começar recrutando novos membros — disse Hermione feliz. — Achei que dois sicles para entrar, o que paga o distintivo, e o produto da venda pode financiar a distribuição de folhetos.

- Duvido que alguém vá comprar isso - disse James honesto e se encolheu do chute que Lily o deu.

Você é o tesoureiro, Ron, tenho lá em cima uma latinha para você fazer a coleta, e você, Harry, o secretário, por isso você talvez queira anotar tudo que estou dizendo agora, para registrar a nossa primeira reunião.

- Você realmente tinha certeza que eles aceitariam - falou Alice.

- Aprendi a contar com eles - falou Hermione simplesmente.

Houve uma pausa em que Hermione sorriu radiante para os dois, e Harry se dilacerou entre a exasperação com a amiga e a vontade de rir da cara de Ron.

- Aquele situação em que você não sabe qual amigo apoiar - falou Alice.

O silêncio foi quebrado, não por Ron, que de qualquer maneira parecia estar temporariamente mudo de espanto,

- Muito para digerir - resmungou.

mas por umas batidinhas leves na janela.

Harry correu os olhos pela sala agora vazia e viu, iluminada pelo luar, uma coruja branquíssima encarapitada no peitoril da janela.

— Edwiges! — gritou ele,

- Essa coruja é muito esperta mesmo - disse Alice - Sabe até a hora de aparecer.

precipitando-se pela sala para abrir a janela do lado oposto.

Edwiges entrou, voou pela sala e pousou na mesa em cima das predições de Harry.

— Até que enfim! — exclamou Harry, correndo atrás da coruja.

— Ela trouxe uma resposta!

- Já tinha até me esquecido da carta - falou Lily.

— exclamou Ron, excitado, apontando para um pedaço sujo de pergaminho preso à perna de Edwiges.

Harry desamarrou-o depressa e se sentou para ler, depois do que Edwiges voou para o joelho do garoto, piando baixinho.

— Que é que ele diz? — perguntou Hermione ofegante.

A carta era muito curta e parecia ter sido escrita com muita pressa.

- Sirius provavelmente estava com medo de ser observado - falou Remus em um tom de fatos. Não achava que o amigo iria apreciar pena.

Harry leu-a em voz alta.

Harry,
Estou viajando para o norte imediatamente. A notícia sobre a sua cicatriz é o último de uma série de acontecimentos estranhos que têm chegado aos meus ouvidos.

James sorriu. Lá estava mais uma prova que nada iria impedir Sirius de tentar cuidar de Harry.

Se ela tornar a doer, procure imediatamente Dumbledore, dizem que ele tirou Olho-Tonto da aposentadoria, o que significa que tem identificado os sinais, mesmo que os outros não os vejam.

- Ou não queiram ver - corrigiu Harry.

Logo entrarei em contato com você. Dê minhas lembranças a Ron e Hermione.

Fique de olhos abertos, Harry.

Sirius.

Harry olhou para Ron e Hermione, que retribuíram o seu olhar.

— Ele está viajando para o norte? — sussurrou Hermione. — Está voltando?

— Dumbledore tem identificado que sinais? — perguntou Ron, parecendo perplexo.

— Harry, que é que está acontecendo?

- Parece que sua carta causou mais confusão que tudo - falou Regulus. Sirius só o encarou.

Pois Harry acabara de dar um soco na própria testa, sacudindo Edwiges para fora do colo.

— Eu não devia ter contado a ele! — disse Harry furioso.

- Claro que devia! Eu sou seu padrinho e quero estar informado - falou Sirius, indignado. Não aceitaria Harry acreditar que pudesse esconder as coisas dele.

- Sirius está certo, Harry. Ele é o seu padrinho e você deve contar com ele - disse Lily, séria.

Harry somente os olhou. Não tinha como contar com o seu Sirius, porque ele estava morto.

— Do que é que você está falando? — perguntou Ron, surpreso.

— Fiz ele pensar que precisa voltar! — disse Harry, agora batendo o punho na mesa de modo que a coruja foi parar no espaldar da cadeira de Ron, piando indignada. — Precisa voltar porque acha que estou correndo perigo!

- Você está sempre correndo perigo - falou Regulus.

- Eu sei, eu sei.

E não há nada errado comigo! E não tenho nada para você — falou ele com rispidez para Edwiges, que batia o bico, esperançosa — vai ter que ir para o corujal se quiser comida.

- HARRY! Você não pode falar assim!

- Desculpa, mãe.

- Deixa ela chegar no próximo livro - sussurrou Ron para Hermione.

Edwiges lançou ao dono um olhar extremamente ofendido saiu voando pela janela aberta, raspando a asa na cabeça dele ao sair.

- Eu sempre disse que ela era inteligente - disse Alice.

— Harry — começou Hermione, numa voz tranquilizadora.

— Vou me deitar — disse Harry impaciente. — Vejo vocês de manhã.

Em cima, no dormitório, ele vestiu o pijama e enfiou-se na cama de colunas, mas não se sentiu nem um pouco cansado.

- Só pense em fazer algo estúpido agora - falou Lene.

Se Sirius voltasse e fosse apanhado seria culpa dele, Harry. Por que não ficara calado? Uma dorzinha à toa e ele fora tagarelar... Se tivesse tido o juízo de guardar a dor só para si...

- Não faria bem para ninguém - falou Remus.

Ele ouviu Ron entrar no dormitório pouco depois, mas não falou com o amigo.

Durante um longo tempo, Harry ficou contemplando o dossel escuro de sua cama. O dormitório estava completamente silencioso e, se ele estivesse menos preocupado, teria reparado que a ausência dos costumeiros roncos de Neville significava que ele não era o único que estava acordado.

- Obrigado, Harry, por divulgar que eu ronco.

- Foi mal.