Luna potter 124: Obrigada pelo comentário :)


Capítulo 15 - Beauxbatons e Durmstrang


Logo cedo na manhã seguinte, Harry acordou com um plano inteiramente formado na cabeça,

- Não sabia que você conseguia agir sem ser no improviso - disse George surpreso.

como se o seu cérebro adormecido tivesse trabalhado naquilo a noite toda.

- Talvez estivesse, quem sabe? - falou Frank, dando de ombros.

Ele se levantou e se vestiu à luz fraca do amanhecer, saiu do dormitório sem acordar Ron e desceu para o salão comunal, àquela hora deserto.

- Na corvinal, sempre tem alguém acordado. Os alunos tem hábitos esquisitos de sono - falou Frank. Ele mesmo já acordara no meio da noite várias vezes para trabalhar numa descoberta que surgira de repente.

- Nós somos preguiçosos demais para isso, obrigada - disse Ginny.

Ali apanhou um pedaço de pergaminho na mesa em cima da qual ainda se achava o dever de Adivinhação e escreveu a seguinte carta:

Caro Sirius,

Acho que imaginei a dor na minha cicatriz, eu estava quase dormindo quando lhe escrevi a última carta. Você não precisa voltar, vai tudo bem aqui. Não se preocupe comigo, sinto a cabeça completamente normal.

Harry.

- E essa carta não convenceu ninguém - resmungou Sirius.

Depois, Harry passou pelo buraco do retrato, subiu as escadas do castelo silencioso (só foi detido brevemente por Pirraça, que tentou virar um enorme vaso em cima dele no meio do corredor do quarto andar)

- Sempre agradável - resmungou Lily.

e finalmente chegou ao corujal, que ficava no alto da Torre Oeste.

O corujal era uma sala circular revestida de pedra; um tanto fria e varrida por correntes de vento, porque nenhuma das janelas tinha vidro. O chão era coberto de palha, titica de coruja e esqueletos de ratos e arganazes que as corujas regurgitavam. Centenas e mais centenas de corujas de todas as espécies imagináveis estavam aninhadas ali em poleiros que subiam até o alto da torre, quase todas adormecidas, embora aqui e ali um redondo olho cor de âmbar olhasse feio para o garoto.

- Você sabe como fazer um lugar parecer um filme de terror - comentou Alice. Não era assim que ela via o corujal de jeito nenhum.

Harry localizou Edwiges aninhada entre uma coruja-das-torres e uma coruja castanho-amarelada, e correu para ela, escorregando um pouco no chão coberto de excremento.

- Muito charmoso - riu Ginny. O seu namorado podia enfrentar Voldemort, mas um chão escorregadio podia derrotá-lo.

Levou um certo tempo para convencê-la a acordar e olhar para ele porque sua coruja não parava de mudar de lugar no poleiro, virando-lhe o rabo.

- Parece que alguém está irritada ainda - comentou Lily divertida. Nunca soubera que corujas podiam ser tão sentimentais.

Evidentemente continuava furiosa com a falta de gratidão que ele demonstrara na noite anterior. Por fim, foi a insinuação de Harry que ela poderia estar demasiado cansada e que talvez ele pedisse Pigwidgeon emprestado a Ron que a fez esticar a perna e permitir ao dono amarrar nela a carta.

- Não acredito que você manipulou uma coruja a fazer o que você quer - disse Regulus incrédulo e depois abriu um largo sorriso, claramente orgulhoso.

— Ache ele, está bem? — pediu Harry, alisando o dorso de Edwiges enquanto a levava no braço até uma das aberturas na parede. — Antes que os dementadores façam isso.

- Não se preocupe, fugi dos dementadores uma vez, consigo fazer de novo - falou Sirius, arrogante.

Ela lhe deu uma mordidela no dedo, talvez com mais força do que normalmente teria feito, mas, mesmo assim, piou baixinho de uma maneira que o deixou tranquilo.

Harry sentiu uma pontada de tristeza. Sentia falta de Edwiges e parecia injusto que ela tivesse por causa de Voldemort quando nem humana era.

Em seguida abriu as asas e levantou voo para o céu do amanhecer. Harry observou-a desaparecer de vista com a conhecida sensação de mal-estar no estômago. Antes tivera tanta certeza de que a resposta de Sirius aliviaria suas preocupações em vez de aumentá-las.

Mas nada na vida dele é simples assim, pensou Regulus com tristeza. Nesse momento, desejou que sempre tivesse sido mais próximo de Sirius e James. Quem sabe assim não poderia ter ajudado Harry?

Sirius sentiu-se culpado. Parecia que ele sempre complicava as coisas mais para Harry. Mas sua função não justamente ajudá-lo?

— Isso foi uma mentira, Harry — falou Hermione com severidade ao café da manhã, quando o garoto contou a ela e a Ron o que fizera. — Você não imaginou que sua cicatriz estava doendo e sabe muito bem disso.

Regulus revirou os olhos. Claro que Harry sabia disso. Qual a necessidade de apontar o óbvio?

— E daí? — retrucou Harry. — Ele não vai voltar para Azkaban por minha causa.

- Você não é responsável por mim, Harry - falou Sirius.

— Esquece — disse Ron com aspereza a Hermione, quando ela abriu a boca para continuar a discussão e, uma vez na vida, a garota atendeu ao amigo e se calou.

- Nunca achei que isso fosse acontecer - falou Ginny chocada. O dia em que Hermione e Harry iriam discutir, mas Ron intervira? Devia ser um milagre.

Harry fez o que pôde para não se preocupar com Sirius nas semanas seguintes.

Hermione fez uma careta. Era isso que seu amigo chamava de tentar?

É verdade que não conseguia deixar de olhar para os lados, ansiosamente, toda manhã quando as corujas chegavam trazendo o correio e tarde da noite antes de dormir, tinha horríveis visões em que Sirius era encurralado pelos dementadores em alguma rua escura de Londres. Mas entre um momento e outro, ele tentava não pensar no padrinho.

- Isso, tente se preocupar com coisas normais - encorajou James. Harry tentando salvar Sirius não ajudaria nenhum dos dois.

Desejou que ainda tivesse o Quadribol para distraí-lo, nada dava tão certo para uma cabeça preocupada quanto um treino exaustivo. Por outro lado, as aulas estavam se tornando cada vez mais difíceis e exigindo que se esforçasse mais do que nunca, principalmente a de Defesa contra as Artes das Trevas.

- Sempre achei que você fosse um natural nessa matéria - comentou Neville surpreso.

- A maioria das aulas, eu acompanhava com facilidade. Mas as do quarto ano, eu precisava estudar bastante - admitiu Harry.

Para surpresa dos alunos, o Professor Moody anunciara que ia lançar a Maldição Imperius sobre cada um deles, a fim de demonstrar o seu poder e verificar se conseguiam resistir aos seus efeitos.

- Ele dá alguma aula sobre algo que não seja ilegal? - resmungou Lily.

— Mas... Se o senhor disse que é ilegal, professor — perguntou Hermione incerta,

- Bom saber que eu não sou a única preocupada - murmurou Evans.

quando Moody afastou as carteiras com um movimento amplo da varinha, deixando uma clareira no meio da sala. — O senhor disse... Que usá-la contra outro ser humano era...

Regulus resmungou mentalmente. Ali estava uma oportunidade única de aprenderem algo importantíssimo sobre defesa pessoal e os grifinórios vinham com regras para evitar. Regras era insignificantes comparado a essa chance.

— Dumbledore quer que vocês aprendam qual é o efeito que ela produz em uma pessoa — disse Moody, o olho mágico girando para a garota e se fixando nela sem piscar, com uma expressão misteriosa. — Se a senhorita preferir aprender pelo método difícil... Quando alguém a lançar contra a senhorita para controlá-la... Para mim está bem. A senhorita está dispensada da aula. Pode se retirar.

- Você é saí de aulas com muita frequência para quem ama aprender - observou Josh.

- Eu não saí! - ela protestou.

- Concordo que deve ser muito melhor aprender num ambiente controlado como lidar, mas com certeza existe alguma lei contra isso.

Ele apontou um dedo nodoso para a porta. Hermione ficou muito vermelha e murmurou alguma coisa no sentido de que a pergunta não significava que ela quisesse sair. Harry e Ron sorriram um para o outro. Eles sabiam que Hermione preferia beber pus de bubotúberas do que perder uma lição daquela importância.

- Não vou negar - disse Hermione simplesmente, quando os outros a encararam com expectativa.

O professor começou a chamar os alunos à frente e a lançar a maldição sobre eles, um de cada vez.

Regulus e Snape trocaram uma conversa silenciosa, desconfiados. Moody planejava lançar maldição em todos os alunos? Isso era estranho, porque para aguentar tanto tempo, o auror teria que estar extremamente acostumado a lançá-la e eles não viam como isso podia acontecer.

Harry observou os colegas fazerem as coisas mais extraordinárias sob a influência da Imperius.

Neville estremeceu, essa aula tinha sido assustadora.

Dean Thomas deu três voltas pela sala aos saltos, cantando o hino nacional.

- Sempre soube que ele era patriota - disse James, dando uma risadinha no final.

Lavender Brown imitou um esquilo. Neville executou uma série de acrobacias surpreendentes,

- Sempre quis que meu filho fosse um atleta olímpico - brincou Frank.

que ele certamente não teria conseguido em condições normais.

- O quê? Você está duvidando das minhas capacidades? - falou Neville.

- Não, jamais - respondeu Harry.

Nenhum deles parecia ser capaz de resistir à maldição, e cada um só voltava ao normal quando Moody a desfazia.

- Normal, não é simples resistir ao Imperius - comentou Frank.

— Potter — rosnou Moody — você é o próximo.

O garoto se adiantou até o meio da sala, no espaço que Moody deixara livre. O professor ergueu a varinha, apontou-a para Harry e disse:

Imperio.

Foi uma sensação maravilhosa.

- Talvez por isso ela seja a mais perigosa das três - comentou Lissy - Como uma droga.

Harry sentiu que flutuava e todos os pensamentos e preocupações em sua mente desapareceram suavemente, deixando apenas uma felicidade vaga e inexplicável. Ele ficou ali extremamente relaxado, vagamente consciente de que todos o observavam.

Neville tentou se lembrar se tinha sentido as mesmas coisas quando estava sob o Imperius, mas não se lembrava de se sentir observado.

Então, ouviu a voz de Olho-Tonto Moody ecoar em uma célula distante do seu cérebro vazio: Salte para cima da carteira... Salte para cima da carteira...

- Melhor do que fazer acrobacias - falou Ginny.

Harry dobrou os joelhos obedientemente, preparando-se para saltar.

Salte para cima da carteira...

Mas por quê? Outra voz despertara no fundo de sua mente.

- Meu filho, sempre rebelde - disse James, abrindo um sorriso predador enquanto percebia o que estão acontecendo.

Que coisa boba para alguém fazer, francamente, disse a voz.

Salte para cima da carteira...

Não, acho que não, obrigado, disse a segunda voz, com mais firmeza... Não, não quero...

Salte! AGORA!

Neville olhou interessado para o amigo. Então era assim que Harry se sentia quando estava lutando contra a maldição?

A próxima coisa que Harry sentiu foi uma imensa dor. Ele saltou e tentou não saltar ao mesmo tempo, o resultado foi se estatelar em cima de uma carteira, derrubando-a, e, pela dor que sentiu nas pernas, fraturar as duas rótulas.

Lily fez uma careta. Claro que seu filho tinha que ser o único que se machucaria.

- É impressionante, Harry! - comemoravam os outros, surpresos.

Harry deu um sorriso modesto.

— Agora está melhor! — rosnou a voz de Moody e, de repente, Harry percebeu que a sensação de vazio e os ecos tinham desaparecido de sua mente.

- Você conseguiu animá-lo - falou James - Agora ele não vai te deixar em paz.

Lembrou-se com exatidão do que estava acontecendo e a dor nos joelhos pareceu dobrar de intensidade.

- A adrenalina está passando - murmurou Dorcas.

— Olhem só isso, vocês todos... Potter resistiu! Lutou contra a maldição e quase a venceu! Vamos experimentar de novo, Potter, e vocês prestem atenção, observem os olhos dele, é onde vocês vão ver, muito bem, Potter, muito bem mesmo! Eles vão ter trabalho para controlar você!

- Qualquer um tem trabalho controlando Harry - comentou Hermione afetuosamente.

— Pelo jeito que ele fala — resmungou Harry, ao sair mancando da aula de Defesa contra as Artes das Trevas, uma hora depois (Moody insistira que Harry mostrasse do que era capaz, quatro vezes seguidas, até o garoto conseguir resistir inteiramente à maldição)

- Você foi submetido a maldição quatro vezes? - exclamou Lily ao mesmo tempo que James falava: - Você conseguiu resistir?!

- Eu me cansei um pouco, mas no final, acabei entendendo o que tinha de fazer - comentou Harry.

Frank balançou a cabeça. Harry realmente tinha muito talento.

— a gente poderia pensar que vai ser atacado a qualquer momento.

- É nisso que ele acredita - falou Harry. Ou pelo menos o verdadeiro Moody, pensou.

— É, eu sei — respondeu Ron, que estava saltitando, um passo sim outro não.

- A aula fora incrível - comentou feliz. Claro que no final Moody tinha se tornado um psicopata, mas...

Tivera muito mais dificuldade com a maldição do que Harry, embora Moody lhe garantisse que os efeitos passariam até a hora do almoço.

Fazia sentido, pensou Ginny, Ron sempre escutara demais o que lhe diziam.

— Falando em paranoia... — Ron espiou nervosamente por cima do ombro para verificar se estavam mesmo fora do campo de audição de Moody, e continuou: — Não me admira que tenham ficado contentes em se livrar dele no Ministério. Você ouviu quando ele contou ao Seamus o que fez com a bruxa que gritou "buu" atrás dele, no dia primeiro de abril? E quando é que a gente vai ter como resistir à Maldição Imperius com todo o resto que tem para fazer?

- Na vida, temos que escolher prioridades - disse Alice, simplesmente.

Todos os alunos do quarto ano haviam notado que decididamente houvera um aumento na quantidade de deveres exigida deles neste trimestre.

- Só esperem chegar ao quinto ano - alertou Frank.

- Nem me fala - disse Ginny.

A Professora Minerva explicou o porquê, quando a turma gemeu particularmente alto à vista do dever de Transfiguração que ela passava.

- Não que eles estejam reclamando, de jeito nenhum.

— Vocês agora estão entrando numa fase importantíssima da sua educação em magia! — disse ela, os olhos faiscando perigosamente por trás dos óculos quadrados. — O exame para obter os Níveis Ordinários de Magia estão se aproximando...

- Como é? - falou Lissy confusa. Ela só podia ter ouvido errado.

- Os professores pensam a frente - disse Hermione simplesmente.

— Mas não vamos fazer exames de nivelamento até a quinta série! — exclamou Dean Thomas indignado.

— Talvez não, Thomas, mas, acredite em mim, vocês precisam de toda a preparação que puderem obter!

- Ela está dizendo que eles são ruins? - perguntou Regulus, divertido.

A Srta. Granger foi a única aluna desta turma que conseguiu transformar um porco-espinho em uma almofadinha de alfinetes razoável.

Lily olhou desapontada para o filho.

Eu talvez possa lhe lembrar, Thomas, que a sua almofadinha ainda se encolhe de medo quando alguém se aproxima dela com um alfinete!

- Ora, ela é esperta - disse Lene.

Hermione, que tornara a corar, parecia estar fazendo um esforço para não parecer cheia de si demais.

Ron reviram os olhos.

Harry e Ron acharam muita graça quando a Professora Trelawney lhes disse que tinham tirado a nota máxima no dever da aula anterior de Adivinhação.

- Não é que essa ideia louca de vocês deu certo - comentou Frank.

- Foi bem planejada - pensou Ron.

Ela leu longos trechos das predições que eles fizeram, comentando a impassível aceitação dos horrores que os aguardavam, mas os garotos não acharam tanta graça quando ela pediu que fizessem outra projeção para dali a dois meses: eles tinham quase esgotado as ideias para catástrofes.

- Eu sugiro vocês lerem Desventuras em série de Handler e Snicket - comentou Alex descontraído.

- O quê é isso? - perguntou Harry confuso.

- Livro de ficção. Talvez dê algumas ideias.

Entrementes, o Professor Binns, o fantasma que ensinava História da Magia, mandou-os escrever ensaios semanais sobre a Revolta dos Duendes no século XVIII.

Regulus revirou os olhos. Tantos temas interessantes.

O Professor Snape estava obrigando-os a pesquisar antídotos. A turma levou o dever a sério, porque ele insinuou que talvez envenenasse um deles antes do Natal para ver se o antídoto que encontrassem faria efeito.

- Seus métodos são estranhos - disse Lily. O amigo deu de ombros.

O Professor Flitwick lhes pedira que lessem mais três livros, em preparação para a aula de Feitiços Convocatórios.

- Mas foi o trabalho mais interessante de todos - admitiu Harry.

E até Hagrid aumentara a carga de trabalho de seus alunos. Os explosivins estavam crescendo em um ritmo excepcional, dado que ninguém ainda descobrira o que comiam.

- Parece que eles não precisam de vocês então - Lene franziu o nariz.

Hagrid estava encantado e, como parte da "pesquisa", sugeriu que fossem à sua cabana em noites alternadas para observar os bichos e tomar notas sobre o seu extraordinário comportamento.

- Então vocês estão totalmente sem tempo livre - falou James horrorizado.

— Eu não vou — disse Draco Malfoy com indiferença, quando o professor fez essa proposta com ar de Papai Noel tirando um brinquedo muito vistoso do saco. — Já vejo o bastante dessas nojeiras durante as aulas, obrigado.

- A pior parte é que eu não posso culpar o Malfoy totalmente - resmungou Lene.

O sorriso desapareceu do rosto de Hagrid.

— Você vai fazer o que mando — rosnou ele — ou vou seguir o exemplo do Professor Moody... Ouvi falar que você ficou muito bem de doninha, Malfoy.

- Nunca achei que Hagrid conseguiria se impor tanto - falou James, admirado.

Os alunos da Grifinória deram grandes gargalhadas. Malfoy enrubesceu de raiva, mas pelo visto, a lembrança do castigo de Moody ainda era suficientemente dolorosa para impedi-lo de responder.

- Uma pena que isso não durou para sempre.

Harry, Ron e Hermione voltaram para o castelo no fim da aula, muito animados, ver Hagrid desmoralizar Malfoy era particularmente gostoso porque, no ano anterior, o garoto se esforçara o máximo para fazer com que Hagrid fosse despedido.

- Outra batalha que Malfoy perdeu - falou Ron triunfante.

Quando chegaram ao saguão de entrada, viram-se impedidos de prosseguir pela aglomeração de alunos que havia ali, em torno de um grande aviso afixado ao pé da escadaria de mármore.

Harry fez uma careta. Isso tudo o lembrava demais dos decretos de Umbridge.

Ron, o mais alto dos três, ficou nas pontas dos pés para ver por cima das cabeças à sua frente e ler o aviso em voz alta para os outros dois.

TORNEIO TRIBRUXO

As delegações de Beauxbatons e Durmstrang chegarão às seis horas, sexta-feira, 30 de outubro.

- Isso sim que é novidade - falou Remus animado.

As aulas terminarão uma hora antes...

— Genial! — exclamou Harry. — É Poções a última aula de sexta-feira! Snape não terá tempo de envenenar todos nós!

- Não se preocupe, Harry, tenho certeza que ele vai achar outro horário para envenenar vocês - disse Regulus. Conhecia bem demais o colega.

Os alunos deverão guardar as mochilas e livros em seus dormitórios e se reunir na entrada do castelo para receber os nossos hóspedes antes da Festa de Boas-Vindas.

- Ou seja, tentem pelo menos parecer um pouco normais - disse Neville.

— É daqui a uma semana! — exclamou Ernest MacMillan da Lufa-Lufa, saindo da aglomeração, os olhos brilhando. — Será que o Cedric sabe? Acho que vou avisar a ele...

Harry fez uma careta. Era triste ouvir uma menção tão comum a alguém que morrera.

— Cedric? — repetiu Ron sem entender, enquanto Ernest saía apressado.

— Diggory — disse Harry. — Ele deve estar inscrito no torneio.

- Muito bom em adivinhação, Harry - falou Ginny.

— Aquele idiota, campeão de Hogwarts? — disse Ron, quando abriam caminho pelo ajuntamento de alunos para chegar à escadaria.

Ron ficou envergonhado. Sabia perfeitamente que Cedric estava longe de ser idiota, mas tivera inveja dele.

— Ele não é idiota, você simplesmente não gosta dele porque ele derrotou a Grifinória no Quadribol — disse Hermione. — Ouvi falar que é realmente um bom aluno, e é monitor!

Ela falou isso como se encerrasse a questão.

- Bem... são pontos positivos, mas nada diz sobre o caráter - falou Dorcas.

— Você só gosta dele porque ele é bonito — respondeu Ron com desdém.

— Perdão, eu não gosto de pessoas só porque são bonitas! — retrucou Hermione indignada.

Ginny riu alto. Ron e Hermione claramente já gostavam um dos outros.

Ron fingiu que pigarreava alto, um som que estranhamente lembrava "Lockhart!". A afixação do aviso no saguão de entrada teve um efeito sensível nos moradores do castelo.

- Harry, seu sarcasmo... - Lene balançou a cabeça, divertida.

Durante a semana seguinte, parecia haver um assunto nas conversas, onde quer que Harry fosse: o Torneio Tribruxo.

- É algo para quebrar a monotonia do castelo - falou Alice.

- Claramente você não vai para Hogwarts com Harry - falou Neville.

Os boatos voavam de um aluno para outro como um germe excepcionalmente contagioso: quem ia tentar ser o campeão de Hogwarts, que é que o torneio exigia, e em que os alunos de Beauxbatons e Durmstrang se diferenciavam deles.

Harry notou, também, que o castelo estava sofrendo uma faxina mais do que rigorosa. Vários retratos encardidos tinham sido escovados para descontentamento dos retratados, que se sentavam encolhidos nas molduras, resmungando sombriamente e fazendo caretas ao apalpar os rostos vermelhos.

- Que coisa estranha para se notar - disse Ron.

As armaduras de repente brilhavam e mexiam sem ranger e Argus Filch, o zelador, estava agindo com tanta agressividade com os alunos que se esquecessem de limpar os sapatos que aterrorizou duas garotas do primeiro ano levando-as à histeria. Outros funcionários também pareciam estranhamente tensos.

- Mas acho que no caso de Flich ele só estava aproveitando a oportunidade.

— Longbottom, tenha a bondade de não revelar que você não consegue sequer lançar um simples Feitiço de Troca diante de alguém de Durmstrang! — vociferou a Professora Minerva ao fim de uma aula particularmente difícil, em que Neville acidentalmente transplantara as próprias orelhas para um cacto.

- Ouch - falou Alice. Não imaginava que a professora fosse dizer algo tão cruel.

Quando eles desceram para o café na manhã do dia 30 de outubro, descobriram que o Salão Principal fora ornamentado durante a noite. Grandes bandeiras de seda pendiam das paredes, cada uma representando uma casa de Hogwarts. A vermelha com um leão dourado da Grifinória, a azul com uma águia de bronze da Corvinal, a amarela com um texugo negro da Lufa-Lufa e a verde com uma serpente de prata da Sonserina. Por trás da mesa dos professores, a maior bandeira de todas tinha o brasão de Hogwarts: leão, águia, texugo e serpente unidos em torno de uma grande letra "H".

- Como se todos fossem uma escola unida - falou Regulus com desprezo.

Harry, Ron e Hermione viram Fred e George à mesa da Grifinória. Mais uma vez, e muito anormalmente, os dois estavam sentados à parte dos demais e conversavam em voz baixa.

- Você está dizendo que somos esquisitos? - os gêmeos falaram juntos.

- Nesse momento sim.

- Eu me recuso ser chamado de esquisito por Harry Potter - disse Fred.

Ron se encaminhou para os dois.

— É chato, sim — dizia George sombriamente a Fred. — Mas se ele não quer falar conosco pessoalmente, temos que lhe mandar uma carta. Ou enfiá-la na mão dele, ele não pode ficar nos evitando para sempre.

- Tudo faz mais sentido agora - falou Harry para os gêmeos.

— Quem é que está evitando vocês? — perguntou Ron, sentando-se ao lado deles.

— Gostaria que fosse você — disse Fred, mostrando-se irritado com a interrupção.

- Não, adoro quando meu irmão se mete nos meus assuntos - ironizou.

— Que é que é chato? — perguntou Ron a George.

— Ter um babaca metido feito você como irmão — disse George.

- Também não fiquei muito feliz - disse George.

- Percebemos.

— Vocês já tiveram alguma ideia para o Torneio Tribruxo? — perguntou Harry. — Continuaram pensando como vão tentar se inscrever?

- Harry é ótimo em evitar conflitos - falou Neville admirado. Nunca tinha percebido antes quantas brigas ele evitava.

— Perguntei a McGonagall como é que os campeões são escolhidos, mas ela não quis dizer — respondeu George com amargura. — Só me disse para calar a boca e continuar transformando o meu guaxinim.

- É, parece a tia Minnie - comentou Sirius, bem humorado.

— Fico imaginando quais vão ser as tarefas — disse Ron pensativo. — Sabe, aposto que poderíamos dar conta, Harry e eu já fizemos coisas perigosas antes...

Gostaria de nunca ter tido que descobrir, pensou Harry tristemente.

— Não na frente de uma banca de juízes, isso vocês não fizeram — disse Fred. — McGonagall disse que os campeões recebem pontos pela perfeição com que executam as tarefas.

- O quê é enfrentar Voldemort comparado a juízes? - falou Lene com ironia.

— Quem são os juízes? — perguntou Harry.

— Bem, os diretores das escolas participantes sempre fazem parte da banca — disse Hermione e todos a olharam surpresos — porque os três ficaram feridos durante o torneio de 1792, quando um basilisco que os campeões deviam capturar saiu destruindo tudo.

- Bem, um basilisco já sabemos que Harry enfrenta - brincou Dorcas.

Ela notou que todos a olhavam e disse, com o seu costumeiro ar de impaciência quando via que ninguém mais lera os mesmos livros que ela:

- Ninguém nunca vai ler tantos livros quanto você, Mione - disse Neville.

- É, eu sei - disse num tom triste.

— Está tudo em Hogwarts: Uma História. Embora, é claro, esse livro não seja cem por cento confiável. "Uma história Revista de Hogwarts" seria um título mais preciso. Ou, então, "Uma História Seletiva e Muito Parcial de Hogwarts", que aborda brevemente os aspectos mais desfavoráveis da escola.

- Como todos os livros fazem - resmungou Regulus. Por isso que se lia mais de um para conhecer algo.

— Do que é que você está falando? — perguntou Ron, embora Harry soubesse o que vinha pela frente.

— Elfos domésticos! — disse Hermione em voz alta, comprovando que Harry acertara.

- Você é bom nisso, cara.

- Obrigado, Ron.

— Nem uma vez, em mais de mil páginas, Hogwarts: Uma História menciona que somos todos coniventes na opressão de centenas de escravos!

Harry sacudiu a cabeça e se concentrou nos ovos mexidos. A falta de entusiasmo dele e de Ron não conseguiu refrear a decisão de Hermione de obter justiça para os elfos domésticos. Era verdade que os dois tinham pago os dois sicles pelo distintivo do F.A.L.E., mas só o tinham feito para fazê-la calar-se.

- Obrigada - ela ironizou.

- Bem, ajudamos sua causa, não foi?

- Quase nada!

Os sicles, no entanto, tinham sido gastos em vão, se produziram algum efeito foi o de tornar Hermione ainda mais vociferante.

Ela sorriu triunfante.

A garota andava atormentando os dois desde então, primeiro para usarem o distintivo, depois para persuadirem outros a fazer o mesmo, e ela também passara a caminhar pela sala comunal da Grifinória todas as noites, encostando os colegas na parede e sacudindo a latinha de coleta debaixo do nariz deles.

- Não foi exatamente assim, mas é, eu fui atrás dos meus objetivos - falou Hermione.

— Vocês têm consciência de que os seus lençóis são trocados, as lareiras, acesas, as salas de aula limpas e a comida preparada por um grupo de criaturas mágicas que não recebem salário e são escravizadas? — ela não parava de lembrar a todos com veemência.

Porque é isso que as pessoas gostam de conversar, pensou Snape com ironia.

Alguns colegas, como Neville, tinham pago só para Hermione parar de fazer cara feia para eles.

- NEVILLE! Eu achei que você tinha gostado - disse Hermione, chocada.

- Desculpe?

Alguns pareceram ligeiramente interessados no que a garota tinha a dizer, mas relutavam em assumir um papel mais ativo no movimento.

- Esses você podia tentar convencer - falou James. Mas sendo gentil.

Muitos encaravam a coisa toda como piada.

- É isso que você ganha por tentar fazer algo - disse Hermione.

Ron agora contemplou o teto, que banhava a todos com um sol de outono e Fred fingiu-se extremamente interessado no bacon que havia em seu prato (os gêmeos tinham se recusado a comprar um distintivo do F.A.L.E.). George, no entanto, chegou para mais perto de Hermione.

— Escuta aqui, Mione, você já foi à cozinha?

- Você realmente vai entrar nessa discussão? - disse Ginny impressionada. Sabia que o irmão era corajoso, mas não sabia quanto.

— Não, claro que não — respondeu a garota secamente.

- Você não sabe o que está perdendo - falou James. Adorava ir lá com os amigos.

- Muito chocolate - falou Remus, como se isso fosse suficiente para esclarecer tudo.

— Nem posso imaginar que os alunos devam...

— Bom, nós já fomos — disse George, indicando Fred — várias vezes para afanar comida.

- Nada como um lancinho pós pregar uma peça em alguém - disse Fred.

E encontramos os elfos e eles estão felizes. Acham que têm o melhor emprego do mundo...

— É porque eles não têm instrução e sofrem lavagem cerebral! — começou Hermione acaloradamente, mas suas palavras seguintes foram abafadas pelo ruído de asas que vinha do alto anunciando a chegada das corujas com o correio.

- Graças a Merlin por isso - sussurrou Sirius para James, que riu.

Harry ergueu os olhos e, na mesma hora, avistou Edwiges que voava em sua direção. Hermione parou de falar abruptamente; ela e Ron observaram a coruja, ansiosos, enquanto a ave batia as asas rapidamente para descer e pousar no ombro de Harry, depois fechou-as e estendeu a perna, cansada.

- Nunca soube que minha opinião era tão valorizada - brincou Sirius.

Harry desamarrou a resposta de Sirius e ofereceu a Edwiges suas aparas de bacon, que ela comeu, grata.

- Ela deve estar exausta - falou Alice.

Então, verificando que Fred e George estavam absortos em novas discussões sobre o Torneio Tribruxo, Harry leu a carta de Sirius, aos cochichos, para Ron e Hermione.

- Obrigado por confiar em nós, Harry - falou George secamente.

- Eu não podia contar a ninguém - disse Harry.

Não me convenceu, Harry.

- Bem direto, você - disse Alice.

- Não podia deixar meu afilhado achar que tinha me enganado - falou Sirius.

Estou de volta ao país e bem escondido. Quero que me mantenha informado de tudo que estiver acontecendo em Hogwarts. Não use Edwiges, troque de corujas e não se preocupe comigo, cuide-se. Não se esqueça do que lhe disse sobre a cicatriz.

Sirius.

James resmungou. Não sabia quem era mais imprudente Sirius ou Harry.

— Por que é que você precisa trocar de corujas? — perguntou Ron em voz baixa.

- Para ninguém rastrear Edwiges - respondeu Regulus. Será que nenhum grifinório pensava? Fora Harry, claro.

— Edwiges chamará muita atenção — respondeu Hermione na mesma hora. — Ela se destaca.

- Definitivamente.

Uma coruja muito branca que fica voltando para o lugar em que ele está escondido... Quero dizer, ela não é um pássaro nativo, não é mesmo?

Harry enrolou a carta e guardou-a dentro das vestes, se perguntando se estaria se sentindo mais ou menos preocupado do que antes. Supunha que o fato de Sirius ter conseguido voltar sem ser apanhado já era muito.

- Mas isso não vai mudar nada se descobrirem onde ele está - falou Lene.

Tampouco podia negar que a ideia de que seu padrinho estava muito mais próximo era reconfortante, pelo menos não teria que esperar tanto por uma resposta todas as vezes que lhe escrevesse.

Sirius sorriu. Qualquer risco de ser preso valia a pena se deixasse seu afilhado feliz.

— Obrigado, Edwiges — disse, acariciando-a.

Ela piou sonolenta, meteu o bico rapidamente no cálice de suco de laranja do garoto, depois tornou a levantar voo, visivelmente desesperada para tirar um longo sono no corujal.

- Pelo menos acho que ela não está mais irritada com você - falou Dorcas.

Havia uma sensação de agradável expectativa no ar aquele dia. Ninguém prestou muita atenção às aulas, pois estavam bem mais interessados na chegada das comitivas de Beauxbatons e Durmstrang à noite, até Poções foi mais tolerável do que de costume, porque durou meia hora a menos.

Snape fez uma careta para Harry. Quantas vezes teria que ouvir que o menino odiava sua aula?

Quando a sineta tocou mais cedo, Harry, Ron e Hermione subiram depressa para a Torre da Grifinória, largaram as mochilas e os livros, conforme as instruções que tinham recebido, vestiram as capas e desceram correndo para o saguão de entrada.

- Nunca vi vocês tão agitados com algo que não fosse mortal - brincou Ginny.

Os diretores das Casas estavam organizando os alunos em filas.

— Weasley, endireite o chapéu — disse a Professora Minerva secamente a Ron. — Srta. Patil, tire essa coisa ridícula dos cabelos.

Frank fez uma careta. Minerva não era muito carinhosa com os alunos.

Parvati fez cara feia e retirou o enorme enfeite de borboleta da ponta da trança.

- Nada como a liberdade de Hogwarts - falou Lissy.

— Sigam-me, por favor — mandou a professora — alunos da primeira série à frente... Sem empurrar...

Eles desceram os degraus da entrada e se enfileiraram diante do castelo. Fazia um fim de tarde frio e límpido, o crepúsculo vinha chegando devagarinho e uma lua pálida e transparente já brilhava sobre a Floresta Proibida. Harry, postado entre Ron e Hermione na quarta fileira da frente para trás, viu Dennis Creevey decididamente trêmulo de expectativa entre os colegas da primeira série.

- Ele é sempre ansioso assim? - perguntou Remus.

- Quase sempre.

— Quase seis horas — comentou Ron, verificando o relógio e depois espiando o caminho que levava aos portões da escola. — Como é que vocês acham que eles vêm? De trem?

- Acho que pó de flu! É uma ocasião especial, afinal - falou Frank.

- Não, talvez de navio... - comentou Alice.

Alice, Frank, Josh, Remus, James, Lily, Regulus, Snape, Sirius e Marlene acabaram fazendo uma aposta de como eles acharam que eles viriam.

— Duvido — respondeu Hermione.

— Como então? Vassouras? — arriscou Harry, erguendo os olhos para o céu estrelado.

— Acho que não... Não vindo de tão longe...

- E nem todos são bons o suficiente para voarem bem - comentou Josh.

— De chave de portal? — aventurou Ron. — Ou quem sabe aparatando, talvez tenham permissão de fazer isso antes dos dezessete anos no lugar de onde vêm?

- Não rola, Ron - falou Fred.

— Não se pode aparatar nos terrenos de Hogwarts. Quantas vezes tenho que repetir isso a vocês? — falou Hermione com impaciência.

Os garotos examinavam excitados e atentos os jardins cada vez mais escuros, mas nada se movia, tudo estava quieto, silencioso, como sempre. Harry começava a sentir frio. Desejou que os visitantes chegassem logo...

Regulus riu. Todos os alunos ansiosos e Harry só queria ir embora.

Talvez os estudantes estrangeiros estivessem preparando uma entrada teatral... Lembrou-se do que o Sr. Weasley dissera no acampamento antes da Copa Mundial de Quadribol: "Sempre os mesmos, não resistimos à tentação de fazer farol quando nos reunimos...".

- Isso serve para trouxas também - resmungou Hermione.

E então Dumbledore falou em voz alta da última fileira, onde aguardava com os outros professores:

— Aha! A não ser que eu muito me engane, a delegação de Beauxbatons está chegando!

- Ele falou isso só para atrair a atenção, só pode - disse Regulus.

— Onde? — perguntaram muitos alunos ansiosos, olhando em diferentes direções.

— Ali! — gritou um aluno da sexta série, apontando para o céu sobre a Floresta.

Alguma coisa grande, muito maior do que uma vassoura – ou, na verdade, cem vassouras – voava em alta velocidade pelo céu azul-escuro em direção ao castelo, e se tornava cada vez maior.

- Ok. Eu não tenho a menor ideia do que é - falou Lene.

— É um dragão! — gritou esganiçada uma aluna da primeira série, perdendo completamente a cabeça.

- Não acho que os alunos de Beauxbatons sabiam montar um dragão - falou Frank secamente.

— Deixa de ser burra... É uma casa voadora! — disse Dennis Creevey.

O palpite de Dennis estava mais próximo... Quando a sombra gigantesca e escura sobrevoou as copas das árvores da Floresta Proibida, e as luzes que brilhavam nas janelas do castelo a iluminaram, eles viram uma enorme carruagem azul-clara do tamanho de um casarão, que voava para eles, puxada por doze cavalos alados, todos baios, cada um parecendo um elefante de tão grande.

- Que coisa estranha.

As três primeiras fileiras de alunos recuaram quando a carruagem foi baixando para pousar a uma velocidade fantástica – então, com um baque estrondoso que fez Neville saltar para trás e pisar no pé de um aluno da quinta série da Sonserina

- Contanto que não seja você que se machuque, filho.

- FRANK!

– os cascos dos cavalos, maiores que pratos, bateram no chão. Um segundo mais tarde, a carruagem também pousou, balançando sobre as imensas rodas, enquanto os cavalos dourados agitavam as cabeçorras e reviravam os grandes olhos cor de fogo.

- Agradável.

Harry só teve tempo de ver que a porta da carruagem tinha um brasão (duas varinhas cruzadas, e de cada uma saíam três estrelas) antes que ela se abrisse. Um garoto de roupas azuis-claras saltou da carruagem, curvado para a frente, mexeu por um momento em alguma coisa que havia no chão da carruagem e abriu uma escadinha de ouro.

- Ele deve ser uma das estrelas de lá - falou Sirius.

Em seguida, recuou respeitosamente. Então Harry viu um sapato preto e lustroso sair de dentro da carruagem – um sapato do tamanho de um trenó de criança – acompanhado, quase imediatamente, pela maior mulher que ele já vira na vida.

- Ela é tipo muito, muito alta - disse Harry.

- O impressionante é como ela é graciosa - completou Ginny.

O tamanho da carruagem e dos cavalos ficou imediatamente explicado. Algumas pessoas exclamaram.

Harry revirou os olhos. Povo indiscreto.

Harry só vira, até então, uma pessoa tão grande quanto essa mulher: Hagrid; ele duvidou que houvesse dois centímetros de diferença na altura dos dois.

Lily arregalou os olhos, impressionada.

Mas, por alguma razão – talvez simplesmente porque estava habituado a Hagrid – esta mulher (agora ao pé da escada, que olhava para as pessoas que a esperavam de olhos arregalados) parecia ainda mais anormalmente grande.

- Provavelmente porque está acostumado mesmo - disse James.

Ao entrar no círculo de luz projetado pelo saguão de entrada, ela revelou um rosto bonito de pele morena, grandes olhos negros que pareciam líquidos e um nariz um tanto bicudo. Seus cabelos estavam puxados para trás e presos em um coque na nuca. Vestia-se da cabeça aos pés de cetim negro, e brilhavam numerosas opalas em seu pescoço e nos dedos grossos.

- Ela parece bem rígida - comentou Lissy.

Dumbledore começou a aplaudir; os estudantes, acompanhando a deixa, prorromperam em palmas, muitos deles nas pontas dos pés, para poder ver melhor a mulher.

- Vocês são horríveis - comentou Lene.

O rosto dela se descontraiu em um gracioso sorriso e ela se dirigiu a Dumbledore, estendendo a mão faiscante de anéis. O diretor, embora alto, mal precisou se curvar para beijar-lhe a mão.

- Deve ter sido uma cena engraçada - falou James. De alguma forma, parecia absurdo um gesto tão... romântico vindo de Dumbledore.

— Minha cara Madame Maxime — disse. — Bem-vinda a Hogwarts.

— Dumbly-dorr — disse Madame Maxime, com uma voz grave. — Esperro encontrrá-lo de boa saúde.

— Excelente, obrigado — respondeu Dumbledore.

— Meus alunos — disse Madame Maxime, acenando descuidadamente uma de suas enormes mãos para trás.

- Um amor - disse Alice insegura. Não sabia se tinha amado a mulher ou odiado.

Harry, cuja atenção estivera focalizada inteiramente em Madame Maxime, reparou, então, que uns doze garotos e garotas – todos, pelo físico, no fim da adolescência – haviam descido da carruagem e agora estavam parados atrás de Madame Maxime. Eles tremiam de frio, o que não surpreendia, pois suas vestes eram feitas de finíssima seda e nenhum deles usava capa.

- Beauxbatons deve ficar em um lugar quente - falou Snape.

- Mas Durmstrang fica num lugar frio - falou Regulus.

Alguns tinham enrolado echarpes e xales na cabeça. Pelo que Harry pôde ver de seus rostos (estavam à enorme sombra de sua diretora), eles olhavam para o castelo, com uma expressão apreensiva.

- Não deve ser fácil entrar num lugar para passar o ano sem saber se vão odiar - comentou Lissy.

- Nunca vi desse ponto - admitiu Harry.

— Karrkarroff já chegou? — perguntou Madame Maxime.

— Deve chegar a qualquer momento — disse Dumbledore. — Gostaria de esperar aqui para recebê-lo ou prefere entrar para se aquecer um pouco?

— Me aquecerr, acho. Mas os cavalos...

- Seus alunos agradecem - comentou Remus.

— O nosso professor de Trato das Criaturas Mágicas ficará encantado de cuidar deles — disse Dumbledore — assim que terminar de resolver um probleminha que ocorreu com alguns de seus outros... Protegidos.

Explosivins — murmurou Ron para Harry, rindo.

- Boa escolha de palavras, Dumbledore - riu James.

— Meus corrcéis ecsigem... Hum... Um trratadorr forrte — disse Madame Maxime, com uma expressão de dúvida quanto à capacidade de um professor de Trato das Criaturas Mágicas em Hogwarts para dar conta da tarefa.

- Nossa, bom ver que ela confia na capacidade de uma das melhores escolas do mundo - disse Lily, com ironia.

- Talvez ela só seja muito apegada com os animais dela - defendeu Alice.

— Eles son muito forrtes...

— Posso lhe assegurar que Hagrid poderá cuidar da tarefa — disse o diretor, sorrindo.

— Ótimo — disse Madame Maxime, fazendo uma ligeira reverência — por favorrr inforrrme a esse Agrid que os cavalos só bebem uísque de um malte.

- E aí está a primeira vez que ela falou o nome dele - sussurrou Ron para Harry.

— Farei isso — respondeu Dumbledore, retribuindo a reverência.

— Venham — disse Madame Maxime imperiosamente aos seus alunos e o pessoal de Hogwarts se afastou para deixá-los subir os degraus de pedra.

- Boa hospitalidade - falou Sirius.

— De que tamanho você acha que os cavalos de Durmstrang vão ser? — perguntou Seamus Finnigan, esticando-se por trás de Lavender e Parvati para falar com Harry e Ron.

- Não acho que eles vão de cavalos - comentou Frank.

— Bom, se eles forem maiores do que esses, nem Hagrid vai ser capaz de cuidar deles — comentou Harry. — Isto é, se ele já não foi atacado pelos explosivins. Qual será o problema com eles?

— Talvez tenham fugido — arriscou Ron esperançoso.

- Duvido que sejam tão sortudos assim - falou Ginny.

- Seu ano não teve que cuidar deles também, não? - perguntou Harry curioso, fazendo Lily lembrar que ela era um ano mais nova.

- Não, obrigada a Merlin.

— Ah, não diz uma coisa dessas — falou Hermione, com um arrepio. — Imaginem aqueles bichos soltos pela propriedade...

- Estrago total.

Eles continuaram parados, agora tremendo um pouco de frio, à espera da delegação de Durmstrang. A maioria das pessoas contemplava o céu, esperançosa. Durante alguns minutos, o silêncio só foi interrompido pelos cavalões de Madame Maxime que resfolegavam e pateavam. Mas então...

— Vocês estão ouvindo alguma coisa? — perguntou Ron de repente.

Harry prestou atenção, um barulho alto e estranho chegava até eles através da escuridão, um ronco abafado mesclado a um ruído de sucção, como se um imenso aspirador de pó estivesse se deslocando pelo leito de um rio...

— O lago! — berrou Lee Jordan apontando. — Olhem para o lago!

- O que está acontecendo com o lago? - perguntou Sirius ansioso.

De sua posição, no alto dos gramados, de onde descortinavam a propriedade, eles tinham uma visão desimpedida da superfície escura e lisa da água – exceto que ela repentinamente deixara de ser lisa.

- Como assim? - Dorcas não estava entendendo era mais nada.

Ocorria alguma perturbação no fundo do lago, grandes bolhas se formavam no centro, e suas ondas agora quebravam nas margens de terra – e então, bem no meio do lago, apareceu um rodamoinho, como se alguém tivesse retirado uma tampa gigantesca do seu leito... Algo que parecia um pau comprido e preto começou a emergir lentamente do rodamoinho... E então Harry avistou o velame...

— É um mastro! — disse ele a Ron e Hermione.

Lenta e imponentemente o navio saiu das águas, refulgindo ao luar.

- Bem, não podemos dizer que eles não tem estilo - disse Frank.

Tinha uma estranha aparência esquelética, como se tivesse ressuscitado de um naufrágio,

- Talvez tenha - falou Hermione pensativa.

e as luzes fracas e enevoadas que brilhavam nas escotilhas lembravam olhos fantasmagóricos. Finalmente, com uma grande movimentação de água, o navio emergiu inteiramente, balançando nas águas turbulentas, e começou a deslizar para a margem.

Alguns momentos depois, ouviram a âncora ser atirada na água rasa e o baque surdo de um pranchão ao ser baixado sobre a margem.

Havia gente desembarcando, os garotos viram silhuetas passarem pelas luzes das escotilhas. Os recém-chegados pareciam ter físicos semelhantes aos de Crabbe e Goyle...

Sirius fez uma careta. Conhecia a reputação de Durmstrang e não estava exatamente feliz de ter os alunos ali.

Mas então, quando subiram as encostas dos jardins e chegaram mais próximos à luz que saía do saguão de entrada, Harry viu que aquela aparência maciça se devia às capas de peles de fios longos e despenteados que estavam usando. Mas o homem que os conduzia ao castelo usava peles de um outro tipo; sedosas e prateadas como os seus cabelos.

- Só para ficar estilo - falou Neville.

— Dumbledore! — cumprimentou ele cordialmente, ainda subindo a encosta. — Como vai, meu caro, como vai?

— Otimamente, obrigado, Professor Karkaroff.

O homem tinha uma voz ao mesmo tempo engraçada e untuosa; quando ele entrou no círculo de luz das portas do castelo, os garotos viram que era alto e magro como Dumbledore, mas seus cabelos brancos eram curtos, e a barbicha (que terminava em um cachinho) não escondia inteiramente o seu queixo fraco.

Por um segundo, James imaginou se Dumbledore o cumprimentaria do mesmo jeito que a outra diretora. Não pode evitar rir imaginando Dumbledore fazendo isso. Sirius perguntou o que foi e ele o contou. Ele começou a rir também.

Quando alcançou Dumbledore, apertou-lhe a mão com as suas duas.

James parecia desapontado.

— Minha velha e querida Hogwarts! — exclamou, erguendo os olhos para o castelo e sorrindo, seus dentes eram um tanto amarelados, e Harry reparou que seu sorriso não abrangia os olhos, que permaneciam frios e astutos. — Como é bom estar aqui, como é bom... Viktor, venha, venha para o calor... Você não se importa, Dumbledore? Viktor está com um ligeiro resfriado...

- Aluno preferido? - falou Lene com ironia.

Karkaroff fez sinal para um de seus estudantes avançar. Quando o rapaz passou, Harry viu de relance um nariz grande e curvo e sobrancelhas escuras e espessas.

Não precisava do soco que Ron lhe deu no braço, nem do cochicho na orelha para reconhecer aquele perfil.

- Quem é? - perguntou Lily curiosa.

- Bem, é óbvio. Harry só conhece um Viktor - falou James.

- Viktor Krum está em Hogwarts? - falou Sirius animado. Claro, não conhecia o menino, mas era Quadribol. A chance de conversar com um jogador profissional...

- SIM - falou George animado.

- Vamos treinar um pouco - anunciou Harry para Regulus - Ou você achou que já esqueci? - deu um sorriso travesso para o melhor amigo.

Regulus balançou a cabeça. Harry era obcecado demais para esquecer alguma coisa. Mas estava feliz por poder treinar de novo com ele. Sentia que realmente estava ficando melhor em conjurar o Patrono, embora ainda não conseguisse ver qual era sua forma.


Notas: Anos se passam e ainda não consigo saber qual é a forma do Patrono de Regulus. Nada parecer combinar.