O Cálice de Fogo - Parte I
— Eu não acredito! — exclamou Ron, em tom de espanto, quando os alunos de Hogwarts se enfileiraram pelos degraus atrás da delegação de Durmstrang.
- Nada para chamar a atenção como um jogador de Quadribol - comentou Lene.
- Seria meu sonho de consumo ir para a escola com um jogador profissional.
— Krum, Harry! Viktor Krum!
— Pelo amor de Deus, Ron, ele é apenas um jogador de Quadribol — disse Hermione.
- Você tocou numa ferida agora - falou Ginny.
— Apenas um jogador de Quadribol? — exclamou Ron, olhando para a amiga como se não pudesse acreditar no que ouvia. — Mione, ele é um dos melhores apanhadores do mundo! Eu não fazia ideia de que ele ainda estava na escola!
- Isso me surpreendeu - falou Ginny - Achei que Ron sabia a agenda toda de Krum. E todos os detalhes da vida dele.
- Claro que não! As revistas não dão informação o suficiente - falou Ron.
Os Marotos, Harry, Lily e Alice riram.
Quando eles atravessaram o saguão com os demais alunos de Hogwarts, a caminho do Salão Principal, Harry viu Lee Jordan pulando nas pontas dos pés para conseguir ver melhor a nuca de Krum.
- Lee é um fã de Quadribol também - comentou George.
- Percebemos... pelo fato dele narrar os jogos - disse Dorcas.
Várias garotas do sexto ano apalpavam freneticamente os bolsos enquanto andavam:
— Ah, não acredito, não trouxe uma única pena comigo... Você acha que ele assinaria o meu chapéu com batom?
- Ei, mas os meninos não estavam muito melhores - falou Ginny.
— Francamente! — exclamou Hermione com ar de superioridade, ao passarem pelas garotas, agora disputando o batom.
Ginny fez uma careta. Entendia que a amiga não gostasse do esporte, mas não precisava se sentir superior só porque não estava empolgada em conhecer Krum. Algumas das garotas realmente acompanhavam os campeonatos e o trabalho de Krum.
— Vou pedir um autógrafo a ele se puder — disse Ron — você tem uma pena, Harry?
- Viu, eu disse - Ginny resmungou.
— Não, deixei todas lá em cima na mochila — respondeu Harry.
- Relaxem. Vocês vão ter o ano todo para falaram com Krum.
Os garotos se dirigiram à mesa da Grifinória e se sentaram.
Ron tomou o cuidado de se sentar de frente para a porta, porque Krum e seus colegas de Durmstrang ainda estavam parados ali, aparentemente sem saber onde se sentar.
- Bem, se ninguém os avisou e eles não foram convidados... - falou Lene, com pena.
Os alunos de Beauxbatons tinham escolhido lugares à mesa da Corvinal.
- Bem, ela certamente é a casa mais neutra - falou Neville. Ainda que tenham sido horríveis com Luna.
Corriam os olhos pelo Salão Principal com uma expressão triste no rosto. Três deles ainda seguravam as echarpes e xales que cobriam a cabeça.
— Não está fazendo tanto frio assim — comentou Hermione que os observava, irritada. — Por que não trouxeram as capas?
- Porque talvez eles estejam acostumados a isso? - sugeriu Regulus. Honestamente, para uma pessoa tão inteligente, ela era pouco emotiva. Ele achava que faltava compaixão em Hermione. Talvez fosse irônico ele pensar isso, mas era o que sentia.
— Aqui! Venham se sentar aqui! — sibilou Ron. — Aqui! Mione chega para lá, abre um espaço...
- Fico feliz que esteja tentando ser cooperativo - falou Lily.
- Mas é meio absurdo que eu seja trocada - disse Hermione.
— Quê?
— Tarde demais — disse Ron com amargura.
Viktor Krum e os colegas de Durmstrang tinham se acomodado à mesa da Sonserina.
Regulus deu um sorriso. O jogador famoso de Quadribol sentara na mesa dele.
Harry viu que Malfoy, Crabbe e Goyle pareciam muito cheios de si com isso.
- Quando nada - falou Sirius, revirando os olhos.
Enquanto o garoto observava, Malfoy se curvou para falar com Krum.
— É, vai fundo, puxa o saco dele, Malfoy — disse Ron com desdém. — Mas, aposto como o Krum está percebendo o jogo dele... Aposto como tem gente adulando ele o tempo todo...
- Como você... - resmungou Neville.
Onde é que você acha que eles vão dormir? Poderíamos oferecer um lugar no nosso dormitório, Harry... Eu não me importaria de ceder a minha cama, e poderia dormir em uma cama de armar.
- Exatamente meu ponto - falou Neville.
Hermione deu uma risadinha desdenhosa.
— Eles parecem bem mais felizes que o pessoal da Beauxbatons — disse Harry.
- Bom saber que essa ideia toda de integração de escolas está dando certo para alguém - disse Alice.
Os alunos de Durmstrang estavam despindo os pesados casacos de peles e olhando para o teto escuro e estrelado com expressões de interesse; uns dois seguravam os pratos e taças de ouro e examinavam-nos, aparentemente impressionados.
- Lá eles não tem material de ouro - informou Frank.
Na mesa dos funcionários, Filch, o zelador, acrescentava cadeiras. Estava usando a velha casaca mofada em homenagem à ocasião. Harry ficou surpreso de ver que ele acrescentara duas cadeiras de cada lado de Dumbledore.
— Mas só tem mais duas pessoas — disse Harry. — Por que Filch está colocando mais quatro cadeiras? Quem mais vem?
- Perceptivo você - falou Frank.
— É? — respondeu Ron vagamente. Ainda olhava com avidez para Krum.
- Eu estava vendo meu ídolo de perto pela primeira vez - Ron se defendeu.
Depois que todos os estudantes tinham entrado no salão e sentado às mesas das Casas, vieram os professores, que se dirigiram à mesa principal e se sentaram. Os últimos da fila foram o Professor Dumbledore, o Professor Karkaroff e Madame Maxime.
- O melhor pro final - falou Snape, com ironia.
Quando a diretora apareceu, os alunos de Beauxbatons se levantaram imediatamente. Alguns alunos de Hogwarts riram. A delegação de Beauxbatons não pareceu se constranger nem um pouco e não tornou a se sentar até que Madame Maxime estivesse acomodada do lado esquerdo de Dumbledore.
- Por que ficariam constrangidos? - falou Regulus - Eles estão demostrando respeito por um superior.
Este, porém, continuou em pé e o Salão Principal ficou silencioso.
- Viu, vocês também estão mostrando respeito, mas de uma forma diferente - disse Regulus.
— Boa-noite, senhoras e senhores, fantasmas e, muito especialmente, hóspedes — disse Dumbledore sorrindo para os alunos estrangeiros. — Tenho o prazer de dar as boas-vindas a todos. Espero e confio que sua estada aqui seja confortável e prazerosa.
Snape revirou os olhos. Hogwarts não era segura nem para os próprios estudantes, cheia de armadilhas e preconceitos.
Uma das garotas de Beauxbatons, ainda segurando o xale na cabeça, deu uma inconfundível risadinha de zombaria.
Regulus normalmente reclamaria do desrespeito da menina, mas como era com Dumbledore não se importava.
— Ninguém está obrigando você a ficar! — murmurou Hermione, com raiva.
Sirius olhou surpreso para Hermione. Não esperava que fosse ser ela de todas as pessoas a ficar tão defensiva de Hogwarts.
— O torneio será oficialmente aberto no fim do banquete — disse Dumbledore. — Agora convido todos a comer, beber e se fazer em casa!
Harry resmungou. Se naquela época soubesse dos problemas que iam vir, teria aproveitado mais o banquete.
Ele se sentou, e Harry viu Karkaroff se curvar na mesma hora para frente e iniciar uma conversa com o diretor.
Regulus levantou as sobrancelhas, surpreso. Se tinha alguém que achava que não ia querer conversar com Dumbledore, era Karkaroff.
As travessas diante deles se encheram de comida como de costume. Os elfos domésticos na cozinha pareciam ter se excedido, havia uma variedade de pratos à mesa que Harry jamais vira, inclusive alguns decididamente estrangeiros.
- Bem, eles não podem reclamar da comida - falou Alice admirada. Era realmente um gesto gentil de Hogwarts.
— Que é isso? — disse Ron, apontando uma grande travessa com uma espécie de ensopado de frutos do mar ao lado de um grande pudim de carne e rins.
— Boujilabaisse — disse Hermione.
Marlene, Sirius, Josh e Lissy riram.
— Para você também! — respondeu Ron.
— É francesa — explicou a garota. — Comi nas férias, no penúltimo verão, é muito gostosa.
— Acredito — retrucou Ron, servindo-se de chouriço de sangue.
De alguma forma o Salão Principal parecia muito mais cheio do que de costume, ainda que só houvesse umas vinte pessoas a mais ali, talvez porque os uniformes de cores diferentes se destacassem tão claramente contra o preto das vestes de Hogwarts.
Pelo menos eles não usam uma cor de funeral, resmungou Lissy mentalmente.
Agora que tinham despido as peles, os alunos de Durmstrang deixavam ver que usavam vestes de um intenso vermelho-sangue.
- Já imaginava que fosse verde - brincou James, fazendo Sirius rir e Regulus revirar os olhos.
Vinte minutos depois do início do banquete, Hagrid entrou discretamente pela porta atrás da mesa dos funcionários. Deslizou para sua cadeira na ponta da mesa e acenou para Harry, Ron e Hermione com a mão coberta de ataduras.
- Ele tem que aprender a hora de parar - falou Lily, preocupada.
— Os explosivins estão passando bem, Hagrid? — perguntou Harry.
— Otimamente — respondeu ele animado.
— É, aposto que estão — disse Ron em voz baixa. — Parece que finalmente encontraram a comida que gostam, não? Os dedos de Hagrid.
- Ron! - disse Ginny horrorizada.
- Ué, é verdade - o irmão se defendeu.
Naquele instante, ouviram uma voz:
— Com licença, vocês von querrer a boujilabaisse?
Era a garota de Beauxbatons que rira durante a fala de Dumbledore.
- Bem, está ai sua chance de interagir - disse James.
Finalmente retirara o xale. Uma longa cascata de cabelos louro-prateados caía quase até sua cintura. Tinha grandes olhos azul profundos e dentes muito brancos e iguais. Ron ficou púrpura. Olhou para a garota, abriu a boca para responder, mas não saiu nada a não ser um fraco gargarejo.
- Ou seja, ela era linda - falou Ginny.
- Mais que isso - disse Ron.
— Pode levar — respondeu Harry, empurrando a terrina para a garota.
— Vocês já se serrvirram?
— Já — disse Ron sem fôlego. — Estava excelente.
A garota apanhou a terrina e levou-a cuidadosamente até a mesa da Corvinal. Ron continuou com os olhos grudados nela como se nunca tivesse visto uma garota na vida.
- É, porque não nem somos amigos há anos e ele também nem tem uma irmã - falou Hermione.
Harry começou a rir. O som das risadas pareceu sacudir Ron daquele transe.
— É uma Veela! — exclamou com a voz rouca para Harry.
- Isso explicaria muita coisa - disse Neville.
— Claro que não! — retrucou Hermione mordazmente. — Não vejo mais ninguém olhando para ela de boca aberta como um idiota!
- Ciúmes, Mione?
- Calado, Fred.
Mas não era bem verdade.
- Se é assim, por que será que Harry não foi tão afetado? - falou Frank. Alice o lançou um olhar assassino.
Quando a garota atravessou o salão, muitas cabeças de garotos se viraram, e alguns pareciam ter ficado temporariamente sem fala, exatamente como Ron.
- São os que pensam menos - resmungou Ginny.
— Estou dizendo, não é uma garota normal! — disse Ron, curvando-se para um lado para poder continuar a vê-la sem ninguém na frente. — Não fazem garotas assim em Hogwarts!
— Fazem garotas legais em Hogwarts — respondeu Harry, sem pensar.
Cho Chang, por acaso, estava sentada a poucos lugares da garota de cabelos prateados.
- Explicado.
— Quando vocês dois repuserem os olhos dentro das órbitas — disse Hermione com energia — poderão ver quem acaba de chegar.
- Essa energia vem do ciúme.
- É, deve ser, Weasley - Hermione retrucou.
Ela apontou para a mesa dos funcionários. As duas cadeiras que estavam vazias acabavam de ser ocupadas. Ludo Bagman sentou-se agora do outro lado do Professor Karkaroff enquanto o Sr. Crouch, chefe de Percy, ficou ao lado de Madame Maxime.
Dois inúteis, pensou Harry.
— Que é que eles estão fazendo aqui? — indagou Harry surpreso.
— Eles organizaram o Torneio Tribruxo, não foi? — disse Hermione. — Imagino que quisessem vir assistir à abertura.
- Ver se tudo está funcionando - disse Lissy.
- Feito a Copa? - Alex falou.
Quando o segundo prato chegou, os garotos repararam que havia diversos pudins desconhecidos, também. Ron examinou um tipo esquisito de manjar branco mais atentamente, depois o deslocou com cuidado alguns centímetros para a direita, de modo a deixá-lo bem visível para os convidados à mesa da Corvinal.
- Essa foi uma tentativa ridícula - disse Ginny.
- Você não pode culpar um cara por tentar - falou Ron.
Mas a garota que lembrava uma Veela parecia ter comido o suficiente e não veio até a mesa apanhá-lo.
- Pelo menos assim Ron não fica parecendo um idiota - falou Fred.
Depois que os pratos de ouro foram limpos, Dumbledore se levantou mais uma vez.
- Já tá virando costume isso - observou Sirius.
Neste momento, uma agradável tensão pareceu invadir o salão. Harry sentiu um tremor de excitação só de imaginar o que viria a seguir.
- Mas ninguém tinha imaginação o suficiente para prever o que viria - disse Neville, que não tinha acreditado um segundo na história de que Harry tinha colocado o próprio no cálice. Simplesmente não combinava com ele.
A algumas cadeiras de distância, Fred e George se curvaram para frente, observando Dumbledore com grande concentração.
- Vocês realmente esperavam conseguir? - falou Alice, interessada.
- Bem, sabíamos que as chances eram baixas, mas... não custava nada tentar - falou George.
— Chegou o momento — disse Dumbledore, sorrindo para o mar de rostos erguidos. — O Torneio Tribruxo vai começar. Eu gostaria de dizer algumas palavras de explicação antes de mandar trazer o escrínio...
- O que é isso? - perguntou James.
- Nem ideia - respondeu Sirius.
- É tipo uma escravinha, um negócio de guardar objetos - explicou Remus¹.
— O quê? — murmurou Harry.
Ron deu de ombros.
— Apenas para esclarecer as regras que vigorarão este ano. Mas, primeiramente, gostaria de apresentar àqueles que ainda não os conhecem o Sr. Bartolomeu Crouch, Chefe do Departamento de Cooperação Internacional em Magia — houve vagos e educados aplausos — e o Sr. Ludo Bagman, Chefe do Departamento de Jogos e Esportes Mágicos.
Houve uma rodada mais ruidosa de aplausos para Bagman do que para Crouch, talvez por sua fama de batedor ou simplesmente porque ele parecia muito mais simpático.
- Pode até ser por sua função, que parece mais interessante - falou James.
Ele agradeceu com um aceno jovial. Bartolomeu Crouch não sorriu nem acenou quando seu nome foi anunciado.
- Ele nem tentou - falou Lene.
Ao lembrar-se dele vestido com um terno bem cortado na Copa Mundial de Quadribol, Harry achou que parecia estranho naquelas vestes de bruxo.
- O mundo trouxa combina mais com ele? - falou Snape, divertido.
Seu bigode à escovinha e a risca exata nos cabelos pareciam muito esquisitos ao lado dos longos cabelos e barbas de Dumbledore.
Dumbledore é que tem uma aparência excêntrica, pensou Regulus.
— Nos últimos meses, o Sr. Bagman e o Sr. Crouch trabalharam incansavelmente na organização do Torneio Tribruxo — continuou Dumbledore — e se juntarão a mim, ao Professor Karkaroff e à Madame Maxime na banca que julgará os esforços dos campeões.
À menção da palavra "campeões", a atenção dos estudantes que ouviam pareceu se aguçar.
- Nada como um pouco de competição - falou Lene, animada.
Talvez Dumbledore tivesse notado essa repentina imobilidade, porque ele sorriu e disse:
— O escrínio, então, por favor, Sr. Filch.
Filch, que andara rondando despercebido um extremo do salão, se aproximou então de Dumbledore, trazendo uma arca de madeira, incrustada de pedras preciosas. Tinha uma aparência extremamente antiga. Um murmúrio de interesse se elevou das mesas dos alunos. Dennis Creevey chegou a subir na cadeira para ver direito, mas por ser tão miúdo, sua cabeça mal ultrapassou a dos outros.
- Coitadinho dele - falou Alice.
— As instruções para as tarefas que os campeões deverão enfrentar este ano já foram examinadas pelos Srs. Crouch e Bagman — disse Dumbledore, enquanto Filch depositava a arca cuidadosamente na mesa à frente do diretor — e eles tomaram as providências necessárias para cada desafio. Haverá três tarefas, espaçadas durante o ano letivo, que servirão para testar os campeões de diferentes maneiras... Sua perícia em magia, sua coragem, seus poderes de dedução e, naturalmente, sua capacidade de enfrentar o perigo.
Neville resmungou. As tarefas eram incríveis perigosas, mas em geral um tédio para quem estava vendo. Na primeira, os campões podiam voar para fora da arena. Na segunda, eles entraram num lago e ninguém via o que estava acontecendo. Na última, era um labirinto, e para ver eles não sabiam o que os campões estavam fazendo.
A esta última palavra, o salão mergulhou num silêncio tão absoluto que ninguém parecia estar respirando.
- É, cada um tem sua noção de perigo - falou Hermione.
— Como todos sabem, três campeões competem no torneio — continuou Dumbledore calmamente — um de cada escola. Eles receberão notas por seu desempenho em cada uma das tarefas do torneio e aquele que tiver obtido o maior resultado no final da terceira tarefa ganhará a Taça Tribruxo.
Harry estremeceu, lembrando bem do que ganhar a taça trouxera.
Os campeões serão escolhidos por um juiz imparcial... O Cálice de Fogo.
- Esse é um nome um pouco estranho - disse Lily, com um mal pressentimento.
Dumbledore puxou então sua varinha e deu três pancadas leves na tampa do escrínio. A tampa se abriu lentamente com um rangido. O bruxo enfiou a mão nele e tirou um grande cálice de madeira toscamente talhado. Teria sido considerado totalmente comum se não estivesse cheio até a borda com chamas branco-azuladas, que davam a impressão de dançar.
- Mágica - falou Josh, alegremente.
Dumbledore fechou o escrínio e pousou cuidadosamente o cálice sobre a tampa, onde seria visível a todos no salão.
- Preparando para o grand finale, hum? - falou Frank.
— Quem quiser se candidatar a campeão deve escrever seu nome e escola claramente em um pedaço de pergaminho e depositá-lo no cálice — disse Dumbledore. — Os candidatos terão vinte e quatro horas para apresentar seus nomes.
- É pouco tempo para decidir algo tão sério - reclamou Lily.
- Mas eles já souberam antes - lembrou Alice.
Amanhã à noite, Festa do Dia das Bruxas, o cálice devolverá o nome dos três que ele julgou mais dignos de representar suas escolas.
- Não sei porque, mas misturar esse dia com essa escolha... não é uma boa- falou Lene.
O cálice será colocado no saguão de entrada hoje à noite, onde estará perfeitamente acessível a todos que queiram competir.
- E que possam - resmungou George.
— Para garantir que nenhum aluno menor de idade ceda à tentação — continuou Dumbledore, — traçarei uma linha etária em volta do Cálice de Fogo depois que ele for colocado no saguão. Ninguém com menos de dezessete anos conseguirá atravessar a linha.
- Seus planos foram destruídos - falou Alice, em um tom solidário para os gêmeos.
- Teríamos sido excelentes campeões - falou George, mas depois sentiu-se culpado ao falar isso com tudo que Harry tinha passado.
— E, finalmente, gostaria de incutir, nos que querem competir, que ninguém deve se inscrever neste torneio levianamente. Uma vez escolhido pelo Cálice de Fogo, o campeão ficará obrigado a prosseguir até o final do torneio.
- É, uma cláusula excelente - resmungou Harry revoltado.
Hermione era obrigada a concordar. Que tipo de pessoa pensava em colocar uma cláusula de não desistência em algo envolvendo adolescentes? E, pior, algo mortal? Era uma estupidez sem tamanho e seu amigo fora obrigado a passar por tantas coisas terríveis por isso.
Colocar o nome no cálice é um ato contratual mágico. Não pode haver mudança de ideia, uma vez que a pessoa se torne campeã. Portanto, procurem se certificar de que estão preparados de corpo e alma para competir, antes de depositar seu nome no cálice. Agora, acho que já está na hora de irmos nos deitar. Boa-noite a todos.
- Um discurso tão alegre - falou Sirius.
— Uma linha etária! — exclamou Fred Weasley, os olhos brilhando, enquanto atravessavam o salão rumo às portas que se abriam para o saguão de entrada.
— Bom, isso deve ser contornável com uma Poção para Envelhecer, não?
- Não é tão simples - falou Frank - Com certeza a linha é programada para sentir um feitiço ou uma poção dessas.
E depois que o nome estiver no cálice, a gente vai ficar rindo, ele não vai saber dizer se você tem ou não dezessete anos!
- Acho que ele saberá... -falou Alice.
— Mas eu acho que ninguém abaixo de dezessete anos terá a menor chance — disse Hermione — ainda não aprendemos o suficiente...
Lily sorriu. Finalmente alguém sensato.
— Fale por você — disse George rispidamente. — Você vai tentar entrar, não vai, Harry?
- De jeito nenhum - falou Lily.
Harry pensou brevemente na insistência de Dumbledore de que nenhum menor de dezessete anos submetesse o nome, mas então a maravilhosa visão de si mesmo ganhando a Taça Tribruxo invadiu mais uma vez sua mente...
Ron levantou as sobrancelhas. Então estava certo, pelo menos em parte. Harry tinha sim considerado entrar.
Ele pensou no quanto Dumbledore ficaria zangado se algum menor de dezessete anos descobrisse uma maneira de atravessar a linha etária...
Harry balançou a cabeça. Mal tinha ideia de que no próximo ano, seria ignorado o tempo todo por Dumbledore.
— Onde está ele? — perguntou Ron, que não estava ouvindo uma só palavra dessa conversa, e examinava a aglomeração de alunos para ver que fim levara Krum. — Dumbledore não disse onde o pessoal de Durmstrang vai dormir, disse?
- Espero que você não vá seguir Krum quando ele tiver dormindo - falou Sirius e Ron corou.
Mas sua pergunta foi respondida quase instantaneamente; os garotos estavam passando pela mesa da Sonserina naquele momento e Karkaroff se apressava em chegar aos seus alunos.
- Eu sinceramente acho que os estudantes estrangeiros deveriam ficar na lufa-lufa e corvinal. São as casas com menos rivalidades - falou Alice.
- Seria mais fácil de conhecer eles assim - concordou Ron.
— Voltemos ao navio, então — foi ele dizendo. — Viktor, como é que você está se sentindo? Comeu o suficiente? Devo mandar buscar um pouco de quentão na cozinha?
Que irritante, pensou Lene.
Harry viu Krum sacudir negativamente a cabeça e tornar a vestir as peles.
— Professor, eu gostaria de beber um pouco de vinho — disse outro garoto de Durmstrang esperançoso.
— Eu não ofereci a você, Poliakoff — retorquiu Karkaroff, seu caloroso ar paternal desaparecendo instantaneamente. — Vejo que derramou comida nas vestes outra vez, moleque porcalhão...
Lene olhou para o livro com desprezo. Odiava gente assim, que só favorecia quem achava que seria importante na vida. Sair xingando o estudante assim...
Karkaroff lhe deu as costas e conduziu os alunos para fora, chegando à porta no mesmo momento que Harry, Ron e Hermione.
- Eu me afastava o mais rápido possível - comentou Lene.
Harry parou para deixá-lo passar primeiro.
- Boa decisão, Harry - disse Lene.
— Obrigado — disse Karkaroff, olhando distraído para o garoto.
E então o bruxo estacou.
- Mais um momento: Será que é Harry Potter? - falou George.
Tornou a virar a cabeça para Harry e encarou-o como se não pudesse acreditar no que via.
- Não sei por que essa surpresa toda, não é como se ele não soubesse que eu estava em Hogwarts - resmungou Harry.
Atrás do diretor, os alunos de Durmstrang pararam também.
- Agora deu.
Os olhos de Karkaroff percorreram lentamente o rosto de Harry e se detiveram na cicatriz. Os alunos de Durmstrang miraram Harry cheios de curiosidade, também. Pelo canto do olho, o garoto viu que alguns faziam cara de terem finalmente entendido.
- Esses são devagar - resmungou Regulus.
O garoto que sujara as vestes de comida cutucou uma colega ao seu lado e apontou abertamente para a testa de Harry.
Lene rosnou, toda a simpatia que tivera pelo garoto sumiu.
— É, é o Harry Potter, sim — disse alguém com um rosnado às costas deles.
O Professor Karkaroff virou-se completamente. Olho-Tonto Moody se achava parado ali, apoiado pesadamente na bengala, o olho mágico encarando sem piscar o diretor de Durmstrang.
Harry pensou na ironia de ter sido o Comensal que o defendeu da atenção indesejada. Mas devia ter sido só para ganahr a sua confiança;
A cor se esvaiu do rosto de Karkaroff enquanto Harry observava a cena. Uma expressão terrível, em que se misturavam a fúria e o medo, perpassou o rosto do homem.
— Você! — exclamou ele, encarando Moody como se duvidasse de que realmente o via.
- Os encontros constrangedores continuam - resmungou James.
— Eu — disse Moody sério. — E a não ser que tenha alguma coisa a dizer a Potter, Karkaroff, você talvez queira continuar andando. Está bloqueando a porta.
Era verdade, metade dos estudantes no salão aguardava atrás deles, espiando por cima dos ombros uns dos outros para ver o que o que estava causando o engarrafamento. Sem dizer mais uma palavra, o Professor Karkaroff arrebanhou seus alunos e saiu. Moody observou-o desaparecer de vista, seu olho mágico fixando as costas do bruxo, uma expressão de intenso desagrado em seu rosto mutilado.
- O que será que foi isso? - perguntou James, curioso.
- Não sei - falou Alice.
Continua...
¹ - Achei uma definição mais ou menos assim, na internet, porque eu mesma não faço ideia.
