Hinata acordou sentindo-se quente e confortável. Não tinha aberto os olhos, e decidiu que não o faria. Estava tão bem, aquecida e aconchegada que começou lentamente voltar a adormecer. Entretanto, percebeu que estava em movimento, e que alguém a carregava. Sua última memória de estar fugindo de um ninja da névoa a atingiu em cheio como um soco.
Ela abriu os olhos em alerta e tentou se afastar com emergência, somente para ter seu pulso segurado e ser puxada de volta com mais firmeza. Quando olhou para o rosto da pessoa que a carregava, não sabia se deveria sentir alívio ou ainda mais desespero.
– S-Sabaku-san. Eu posso andar... Eu...
– Fique quieta – Gaara ordenou, em um tom de que não aceitaria um não como resposta.
Contestada, Hinata desviou o olhar para as mãos em seu colo, e podia imaginar o quão vermelha estava naquele momento. No entanto, começava a sentir-se dolorida novamente, e ser carregada já não parecia mais uma ideia assim tão má.
Percebeu que trajetavam o caminho para sua casa, e em nenhum momento Gaara lhe dirigiu a palavra. Internamente Hinata agradecia por isso, pois já se sentia suficientemente embaraçada com toda aquela situação.
Depois de algum tempo, os dois chegaram em frente à sua casa temporária.
– Eu... tenho que pegar as chaves – falou sutilmente, procurando voltar ao chão.
– Não. Segure-se.
– O que? M-Mas as chaves estão...
Os olhos claros do Sabaku cintilaram e ele a encarou. Hinata engoliu em seco, e apesar de hesitante, envolveu por fim os braços em volta do pescoço de Gaara. O mesmo saltou com agilidade para a varanda da casa, e simplesmente chutou a porta quebrando seu trinco com facilidade, abrindo-a.
Quando no corredor dos quartos, Gaara lhe perguntou qual das duas portas era a do seu. Hinata apontou para a porta da esquerda, e ficou feliz por já estar aberta. Ele a colocou gentilmente na cama, para a surpresa da Hyuuga.
– Muito obrigada – agradeceu ela, ajeitando-se na cama para ficar sentada.
Gaara não respondeu, e andou na direção da janela redonda de seu quarto. Quando quase pulando para fora, Hinata o chamou:
– Es-Espere. – O jinchuuriki parou, a olhou e sentou no parapeito, esperando que continuasse. – O que houve com o ninja da névoa?
Gaara estreitou os olhos, e com banalidade a respondeu:
– Ele não será mais um problema.
Hinata desejou profundamente que ele fosse mais específico ao responder suas perguntas.
– E... Quem ele era? Por que me perseguir?
Gaara pegou algo em seu bolso e o jogou no ar na direção dela. Quando ela agarrou o objeto entre os dedos, percebeu que era a bandana do ninja que a atacou. Mas mais do que isso, notou que era uma bandana riscada. Não tinha visto isso enquanto tentava fugir.
– Um renegado – murmurou.
– Um fugitivo da névoa. Cometia assaltos dentro da Vila dele para vender o que conseguia. Quando o Mizukage mandou capturá-lo, ele fugiu do país e começou a se envolver com o mercado clandestino. Seu trabalho era praticamente o mesmo, mas não eram mais jóias que roubava.
– O byakugan... – Hinata divagou em entendimento, levando as mãos para os olhos como se pudesse protegê-los com aquele único movimento. Só então ela lembrou o que disse o ninja quando prestes a pegá-la: "Você custará muito no mercado clandestino, Hyuuga. Especialmente esses seus olhos brancos".
Gaara acenou em confirmação.
– Só o que não entendo é como ele pôde entrar em Suna com tanta discrição. Não houve nenhum alerta de intruso.
– A caravana... – Gaara a fitou, e Hinata se remexeu desconfortavelmente, mas continuou a falar. – Ele cheirava a peixe, então só pode ter vindo na caravana de peixes. Uma que vêm a cada duas semanas - lembrou-se do que havia lhe dito a senhora Onaki.
– Entendo.
– Eu... Eu devo dizer ao meu pai so-sobre o que aconteceu?
Gaara não precisou pensar muito sobre isso. Afinal, relatar a Hyuuga Hiashi que sua filha quase fora sequestrada debaixo de seu nariz e do Kazekage, não daria uma boa impressão sobre a segurança de Suna.
E é claro, explicar para ele que Hinata nunca esteve em real perigo, simplesmente porque ele estava a perseguindo, parecia uma ideia ainda pior. Seria mais fácil se ajoelhasse em frente ao líder Hyuuga e implorasse para que o matrimônio fosse cancelado, jurando assassinar toda sua família caso respondesse que não. Gaara quase pensou em rir com o pensamento.
– Não – declarou. – Só causará problemas desnecessários. Era um renegado. Não havia nenhum envolvimento do País da Água.
Hinata acenou afirmativamente.
– Certo. Eu... Eu queria saber uma coisa, se... se não se importar – falou incerta. Gaara nada respondeu, apenas continuou olhando para fora da janela longínquo. Mas para Hinata, não ter recebido um rápido e direto "não", era mais do que suficiente para continuar. – Por acaso você já visitou Konoha?
– Por que pergunta? – questionou com desinteresse.
– Eu só... sinto como já tivesse o visto antes... – Quando disse isso, Gaara virou para olhá-la instantaneamente, parecendo ligeiramente atônito. Hinata se perguntou se tinha dito algo errado. – É... É apenas uma im-impressão, claro. E-Eu não lembro de tê-lo visto... Mas seu...
– Meu chakra. Lhe é familiar, não é?
– Sim.
O jinchuuriki não pôde evitar ficar surpreso. Não era o único, no fim das contas. Mas se recompôs, e voltou a mirar para fora.
– É impressão sua. Deve ter visto alguém com o chakra parecido com o meu. – E então pulou janela afora, mais uma vez saindo sem sequer se despedir.
Mentalmente, Hinata teve de discordar. Não achava que existisse algum chakra parecido com o dele.
Já no fim da tarde, com o céu colorindo-se de tons de laranja e vermelho e com a chegada de ventos gélidos da comum noite fria, Gaara observava uma certa Hyuuga. Ela ajeitava uma quente túnica em seu pequeno corpo para se proteger, e depois acariciava a crina do seu pônei negro. O Sabaku viu quando seus irmãos se aproximaram dela para se despedirem. Temari a abraçou com carinho, e Kankuro lhe deu uma muda de um cacto miúdo em um pote de plástico seco, como uma lembrança de Suna. Hinata agradeceu, e se despediu dos dois com igual delicadeza.
Ela está feliz, notou Gaara. Deve sentir falta de casa.
No entanto, ele não compartilhava de sua felicidade. Tinha de admitir: não queria vê-la partir. Por um momento, teve a ideia de ir até ela, pegá-la entre os braços e levá-la para longe consigo. Mas continuou parado a observando.
Não pôde deixar de notar também, que ela ainda sentia dor. Disfarçava muito bem, mas Gaara percebeu o modo como ela subia em seu pônei, como se carregasse algo pesado nas costas.
O Sabaku sentiu a ira subir por sua garganta. Se pudesse, mataria mais cem vezes o desgraçado que a machucou. Para sua infelicidade, sabia que era impossível, e só pôde o matá-lo uma única vez. Porém, ele fez com que valesse a pena. Garantiu que a morte do bastardo fosse lenta e dolorosa.
Não demorou muito para que Hyuuga Hiashi chegasse na saída da Vila junto dela, e os dois começassem a se afastar.
– Não deixe que a lua parta. Ela me pertence… Não permita que a lua vá.
Gaara escutou as palavras de Shukaku em confusão. Como podia a besta gritar para que a lua voltasse, quando claramente a noite estava mais do que próxima? Então a realização caiu em si.
Entendo..., pensou olhando para o horizonte, com a imagem de Hinata se tornando cada vez menor e distante. Então é esta a lua de que tanto fala, não é?
– Ao invés de ficar observando-a como uma estátua, deveria ter sido mais educado e ido logo se despedir dela também – falou uma voz com sarcasmo atrás de si. Gaara não precisou se virar para reconhecer quem era.
– Temari.
– Até mesmo Kankuro foi educado e se despediu. E desta vez eu nem tive que obrigá-lo, acredita?
Gaara pôs-se em pé e olhou para a irmã mais velha.
– Não há motivos para me despedir. Ela voltará. – Com isso, Gaara começou a andar, passando por Temari, e depois descendo as escadas do prédio em que estavam.
Sozinha, Temari se perguntou se Gaara tinha finalmente enlouquecido por completo. Afinal, Hyuuga Hiashi não dissera nada para o Kazekage sobre visitá-los novamente, uma vez que era uma pessoa deveras ocupada. Por fim, decidira apenas desconsiderar, e voltou para o campo de treinamento em que praticava fūton com seu grande leque.
No segundo dia de viagem na volta para Konoha, em uma longa estradinha cercada por árvores verdejantes que balançavam suas folhas contra o vento já não mais seco, Hinata criou coragem para questionar a seu pai uma pergunta que já fizera uma vez antes. Mas não para ele, e que para ela tinha sido respondida com muita incerteza.
– Pai… Eu encontrei o filho caçula do Kazekage-sama, Sabaku no Gaara, e…
– Encontrou-se com ele? – interrompeu o outro. – Em que situação?
– En-Enquanto passeava pela Vila - mentiu. – Eu queria te fazer uma… uma pergunta sobre ele, s-se me permitir.
Hiashi olhou para sua filha. Ela esconde algo, pensou ele. Não era muito difícil descobrir quando Hinata mentia, afinal, era péssima nisso. Sua gagueira repentina e o rubor em seu rosto sempre a entregavam. Todavia, não a pressionaria para descobrir o que ela ocultava. No fim, ele também não estava sendo totalmente aberto com ela, e também duvidava que pudesse ser algo grave ou prejudicial, porque era de Hinata que estava falando.
– Claro – concedeu-a.
A menina teve de se segurar para não suspirar. Ele acreditou. Não se orgulhava de omitir nada de seu pai, mas nesse caso nada podia fazer.
– Por acaso eu já… já o vi quando menor? Talvez eu apenas não lembre de seu rosto, m-mas sinto como se já o tivesse visto antes… – disse olhando para baixo. Quando a resposta demorou a chegar, Hinata olhou para o lado para olhar para o rosto de seu pai. Mas quando fez isso, percebeu que ele tinha parado no meio do caminho e ela agora se encontrava à frente dele.
Então… a profecia estava certa, refletiu Hiashi olhando para sua filha.
– Pai? – chamou Hinata após sua extensa quietude.
– É impossível. Gaara ainda é proibido de sair de Suna, mesmo para missões, e é a primeira vez que você viaja também. É impressão sua – disse o líder Hyuuga voltando a dar trote em seu cavalo de pelo acastanhado.
Suas últimas palavras ecoaram com as de Gaara para Hinata. Enfim, ela decidiu apenas acreditar no que dizia seu pai. Não via mais motivos para duvidar.
– Gaara não pode sair de Suna? – Aquela parte havia lhe chamado a atenção. – Por quê?
Porque ele ainda é um risco, era o que Hiashi queria dizer, mas as palavras que saíram de sua boca foram outras.
– Não sei. Ele apenas não pode.
– Oh... Entendo. – Estranhamente, Hinata sentiu que seu pai também lhe omitia algo.
