J~L
Step one, you say: "we need to talk"
Primeiro passo: você diz, "nós temos que conversar"
He walks, you say: "Sit down, it's just a talk"
Ele se recusa, você diz: "sente-se, é só uma conversa"
He smiles politely back at you
Ele sorri educadamente pra você
You stare politely right on through
Você, educadamente, o encara
Some sort of window to your right
Algum tipo de janela à sua direita
As he goes left and you stay right
Enquanto ela vai à esquerda, você permanece à direita
Between the lines of fear and blame
Entre a linha de medo e culpa
And you begin to wonder why you came
E você começa a se perguntar por que veio
Aventura, ação, emoção, adrenalina. Aquelas eram apenas algumas palavras encontradas no dicionário que poderiam ser ligadas a Sirius Black.
Lealdade, fraternidade e amizade eram mais algumas.
Raiva, rancor, vingança eram outras mais.
Um garotinho que criou suas próprias ideologias, sua própria maneira de ver as coisas em um lar tão escuro, apagado e frio, não era difícil de notar, deixar de lado. Para os mais próximos, para aqueles que realmente conheciam Sirius, tinham o melhor dele. O pior era muito raro aparecer.
Considerando a família da qual vinha, das coisas que ouvia, via e sentia, foi um milagre não ter mais adjetivos ruins do que bons. Mas ali estava ele, tendo as melhores pessoas ao seu lado, lutando contra algo que deveria estar correndo em suas veias, mas que o errou por alguns centímetros.
Ele amassou o pergaminho com a mão direita, enquanto a esquerda se ocupava com o copo de firewhisky. Tomou um longo gole enquanto amassava ainda mais o papel, querendo não sentir nada ao ler aquela frase de novo, tentando mostrar que aquilo não era nada, não deveria ser nada.
"Regulus Black está desaparecido".
A última vez que viu o irmão foi um dia antes da cerimônia de fim de ano de Hogwarts. O irmão iria partir para Londres com os outros alunos abaixo do sétimo ano - parentes de alunos prestes a se formar ficavam para celebrar, mas era de comum acordo que Sirius não o queria lá e Regulus não queria ficar -, e Sirius, que estava casualmente na porta que dava nos jardins, o viu. Sonserinos o rodeavam e riam juntos, quase parecendo pessoas normais...se Sirius não soubesse quem eles eram.
" - Quem vocês torturaram agora para estarem tão felizes?
O irmão mais novo foi o único que parou de rir.
- Por que você não vai até lá atrás para conferir? - Um garoto que Sirius não se importou em olhar, respondeu. Ele tinha seus olhos no irmão.
- Eu irei. E se eu encontrar algo, já sei quem eu devo ir atrás.
- Não temos medo de você, traidor de sangue! - O mesmo garoto respondeu e cuspiu no chão ao lado de Sirius.
Aquilo não o balançava. Ser um traidor de sangue era um orgulho.
Virou o rosto para o garoto pela primeira vez.
- Porque não vai perguntar para Snape? Eu garanto que eu o fiz conhecer a palavra "medo" não há muito tempo com uma visita à casa dos gritos!
Os sonserinos se olharam, curiosos. O maroto tinha certeza de que Severus Ranhoso Snape receberia uma montanha de perguntas sobre isso e, obviamente, não abriria a boca.
Ele mesmo havia prometido não falar mais sobre o assunto. O fato de ter causado aquela merda com Snape indo até a casa dos gritos, James tendo que correr e resgatá-lo...Remus ficando furioso. Foi um buraco negro no grupo. James ficou tão decepcionado, que lembrar do rosto do amigo lhe doía a alma. Remus, decepcionado em tantos graus, mal o olhava. Peter foi o único que permaneceu ao seu lado por muitos dias, antes de todos terem uma conversa e Sirius ter seu julgamento entre eles.
Aquilo era passado agora. Algo que ficaria marcado a ferro, mas passado.
- O que você quer?
Regulus perguntou parando em sua frente e cruzou os braços enquanto os sonserinos continuavam seu caminho para os jardins.
- Por que eu estaria querendo algo? - Sirius respondeu desviando o olhar.
- Você nunca está à toa no castelo, Sirius. Se está parado em um lugar aleatório como agora, é por querer algo. E eu tenho certeza que você e os seus amigos sabem como encontrar as pessoas nesse castelo.
- Ah, sabemos? E como você saberia disso?
- Eu sei mais coisas que você pode imaginar.
Não duvidava disso. Desde pequeno, Regulus era um curioso sem escrúpulos. Era quase impossível manter um segredo dele na casa dos Black, ou mesmo em Hogwarts. Foi confrontado pelo irmão mais novo muitas vezes e até sendo chantageado sobre coisas que descobria.
- Precisamos conversar. - Disse Sirius e se afastou da porta, entrando no Salão Principal vazio. Era verão e o lugar permanecia fresco, um paraíso para qualquer um se refugiando do calor dos jardins naqueles últimos dias no castelo. James e Lily estavam no lago; Remus e Peter tentavam criar um plano para recuperarem o mapa que Peter fez o favor de deixar cair e ser recuperado por Filch.
Regulus tinha um olhar desconfiado enquanto o seguia. Apesar dos pesares, Sirius ainda era o irmão mais velho, alguém que Regulus, de certa forma, admirou quando menores. Sabia que aquilo ainda estava dentro dele, mas perdido pelas palavras sujas e pesadas dos Black.
E estava claro que o irmão não estava nem um pouco interessado ou à vontade com aquela conversa, parecendo querer fugir.
- Não se preocupe, é apenas uma conversa. - Tentou acalmá-lo.
- Não temos nada para conversar, Sirius.
Estavam parados como em um duelo: de frente um para o outro, as mãos ao lado do corpo. Sirius tinha acesso a varinha no seu bolso direito, assim como via um pedaço da do seu irmão no bolso esquerdo. Duas vezes viu os olhos cinzas de Regulus, assim como os seus, olharem para a porta, planejando uma fuga.
- Um ano e você está fora daqui, Regulus. Um ano e você pode se considerar livre dos Black.
- Não começa...
- E eu quero te oferecer uma rendição disso. - Sirius se aproximou e apontou para o antebraço do irmão, sempre coberto por uma blusa de manga comprida, mesmo durante o verão. Assim como alguns outros alunos mais velhos. - A gente arranca isso da sua pele, eu tenho a herança do tio Alphard. Metade será sua. Apenas...venha.
Regulus já balançava a cabeça, um sorriso carregado de escárnio.
- As coisas não funcionam assim.
- Funcionam se você quiser! - Sua voz estava quase desesperada. - Eu posso te acolher, te ajudar. Eles nem precisariam saber, caso não queira.
- Não, Sirius. - O irmão mais novo foi mais duro agora. - Pare! Chega.
Se não soubesse que havia uma mínima chance de trazer o irmão para o lado correto, Sirius não faria aquele desfavor para si. Regulus tinha um lado bom, mas que precisava ser ativado...a alma dele não era de um Black podre e aquilo irritava Sirius mais do que o normal.
- Você não é como eles, não de todo. Sua mãe trabalhou pesado em você, mas eu sei que há uma abertura para escapar. - Tentou novamente.
- Nossa mãe, você quer dizer.
- Walburga Black não é a minha mãe há muito tempo.
- Assim como eu não sou o seu irmão, eu imagino!
Aquilo era mais doloroso do que qualquer um poderia imaginar. Nessas horas, Sirius não sabia se deixava transparecer sua chateação pelas palavras dele ou se continuava com a sua pose indiferente.
O que o impedia de escolher a primeira opção, era o fato do seu irmão não querer ver ou se deixar ser aquele cara que ele podia ser, o cara que não ia pelas ideias absurdas dos Black. Regulus mergulhou fundo demais nas ideias erradas que corriam em sua casa.
- Não sei porque diabos eu vim. - Sirius murmurou e começou a sair do Salão Principal."
O seu irmão foi um ignorante desde o começo, deixando-se levar por conversas mansas sobre um assunto pesado. Qualquer um com a cabeça mais fraca cairia naquelas palavras, na glória que ofereciam, na mudança que era visada. E Regulus se deixou levar. Também para não ver a mãe sofrer mais, não gritar com ele como fazia com o irmão mais velho e nem ver o desgosto em seus olhos, o mesmo que ela tinha quando olhava para Sirius.
Regulus pensava que sua mãe, seus pais, queriam um mundo melhor para os bruxos e que Sirius não entendia aquilo, que o irmão mais velho estava errado, que deveria ouvir melhor o que era oferecido.
No fundo, Sirius imaginava que o seu irmão acordaria em algum momento. Eles eram mais parecidos do que Regulus poderia imaginar. Seus olhos estavam enevoados com raiva, mas a incerteza era visível, mesmo que tão apagada. Ver o irmão mais novo, tão perdido, sempre doeu em seu peito, com um sentimento de falha lhe esmagando.
Deveria ter tentado mais, deveria ter insistido em tirá-lo das garras dos Black. Mas no final, Regulus fez sua escolha...
...e agora ele estava desaparecido. Aparentemente, há meses já.
Jogou a carta no fogo da chaminé ao lado. Ele não podia fazer muito sobre isso agora. Se fosse em uma missão à procura do irmão, talvez o encontraria tentando recrutar algum grupo mágico em algum canto do mundo e Sirius estaria deixando a Ordem defasada. Por nada. Por um Comensal. Seu irmão, mas um Comensal.
- Estúpido. Maldito estúpido.
A vontade de visitar a Grimmauld Place agora era enorme. Olhar bem fundo nos olhos da sua odiada mãe e perguntar se toda aquela conversa de puro sangue tinha valido a pena. Se perder os dois filhos valia a pena, se o seu preconceito valia mais do que suas vidas.
Mas não iria. Claro que não. A última coisa que queria, era reencontrar aquela mulher. Não quando as coisas estavam indo tão bem - de certa forma -, quando sua vida parecia mais nos trilhos agora do que antes. Mesmo arriscando tudo o que tinha diariamente em duelos, em missões...
Olhou para o relógio e deu um pulo da poltrona.
...E mesmo estando quase atrasado para o casamento.
~SB~
Sirius Black também poderia ser descrito como alguém que não tem muita consideração. Às vezes sendo reduzido às suas brincadeiras, ironia e olhar blasé, mas poucas pessoas sabiam o quanto ele se importava. E se importava muito. Sendo ele mesmo perseguido pelos fantasmas do passado que não se importavam com ele, o maroto nunca deixou de se importar com os outros. Pelo menos com os mais próximos.
Isso lhe ensinou algo: ser feliz pelas pessoas. Ele poderia estar na miséria, mas se visse um dos seus felizes, ele se permitiria estar feliz também.
E era exatamente essa felicidade absurda que sentia ao chegar na Peverell's Creek para o casamento de James e Lily. A cerimônia ocorreria na parte de trás da casa e sabendo o quanto aquele dia era importante, foi primeiro até lá para conferir se tudo estava indo bem.
As luzes flutuavam pela grama bem cortada, fitas de seda formavam um teto de catedral por cima do pequeno altar e das poucas cadeiras dos convidados. A cerimônia não seria grande por escolha dos noivos e seria externa por ambos estarem cansados de tantas missões da Ordem que lhe davam a sensação de estarem sufocando : os feitiços, as fumaças, alguns dias presos na pequena enfermaria montada na sede. Então agora eles queriam espaço, ar livre, vento. E Sirius não os culpava.
Estavam na Ordem da Fênix há um ano. Tudo o que vinham fazendo, tudo o que enfrentaram até ali... era muito mais do que poderiam pensar. Apesar de ter bruxos e bruxas competentes, absurdamente bons no que faziam e com experiências impecáveis, eles ainda eram um grupo sem suporte do governo, tendo que se virar sozinho. E podia ser muito cansativo e muito mais perigoso do que se pensa.
Não que Sirius se arrependesse de ter se juntado a eles. Nunca se arrependeria.
- Diabos, aí está você! - Ao entrar na casa, Remus foi o primeiro a saltar na sua jugular. - Está atrasado!
- Sermões para depois. Onde está o noivo?
- Esperando você lá em cima. - Peter respondeu saindo da cozinha.
A casa estava em polvorosa com tantas decorações, comida e móveis voando para todos os lados. Via uma pessoa ou outra entre a bagunça, mas não reconheceu ninguém. Euphemia devia estar com Lily e as garotas e Fleamont comandando toda a parte de segurança.
- Ele está nervoso? - Perguntou enquanto subiam as escadas.
- Nem um pouco. - Remus respondeu. - Muito sereno, na verdade.
Aquilo fez Sirius sorrir.
Quando abriu a porta do quarto do amigo, aquele mesmo quarto em que o viu crescer nas férias e nos tantos Natais que passaram ali; no mesmo cômodo que conversavam tanto sobre tudo e mais um pouco; onde James o convidou uma vez para morar com eles; onde James sonhava - acordado, muitas vezes- com aquela mesma ruiva que estaria no altar em alguns minutos...ali estava ele: James Fleamont Potter, o cara mais apaixonado que Sirius já conheceu em sua vida...sentado em uma poltrona, lendo uma revista de Quadribol. Seus olhos subiram até eles.
- Finalmente.
Ele portava suas vestes de noivo e foi naquele momento que Sirius reparou no quanto o amigo havia amadurecido, crescido. Diabos, eles mal tinham 19 anos e James, vestido daquele jeito, pronto para se casar, parecia mais velho do que todos e não era no mau sentido. Sirius sentiu que enquanto ele estava estagnado no mesmo corpo do adolescente que saiu de Hogwarts, James simplesmente virou um homem.
- Olha só que elegante esse homem em suas vestes matrimoniais. - Sirius comentou. James abriu os braços, se exibindo. - Sai da frente, Prongs, estou falando daquele cara no espelho.
James se virou para trás e viu que Sirius se olhava no espelho e arrumava o paletó. O noivo revirou os olhos.
- Você está atrasado. - James o acusou.
- Bem, sim. É um costume nos casamentos, não?
- Para as noivas, sim. Não para o padrinho. - Remus o corrigiu. - De qualquer maneira, Lily está quase pronta. Então não se atrasem mais.
Todo aquele alarde sobre o seu atraso era pela gravata do noivo. Havia esse costume do padrinho dar o nó e colocar algo no bolso interno para dar sorte. Algo que os representava e o que poderia ser o motivo daquela pessoa ser o padrinho.
Sirius se postou na frente do amigo e o encarou. Realmente, James não estava nervoso. Seus olhos estavam brilhantes e confiantes, exatamente como ficava nos vestiários de Hogwarts antes dos jogos, principalmente os decisivos. Aquela adrenalina atingia o amigo diferente, lhe dando uma energia tão positiva e até mesmo irritante.
Pegou os dois lados de sua gravata e começou o nó. Assistia seus dedos fazerem as voltas devagar e pensando que nunca imaginaria estar na frente de um noivo que lhe confiou a tarefa de ser seu padrinho. Não até conhecer James, não até ter fugido e ter sido acolhido.
Aquele pensamento lhe dava nós na própria garganta.
- Você está se casando com Lily Evans. - Começou a dizer. Subiu o olhar para James.
- Eu estou me casando com Lily Evans. - James respondeu. Sua voz era carregada de felicidade.
- Acho que falo por todos nós aqui...- Sirius deu uma rápida olhada para Remus e Peter ao lado. -...que estamos orgulhosos de você. Depois de tanta babaquice da sua parte, você virou esse cara perfeito para amar aquela mulher e ser amado por ela também.
- Almas gêmeas. - James comentou.
- Isso faz parte também, mas não digo sobre vocês serem almas gêmeas. Digo sobre você não ter virado um cara idiota a ponto de jogar isso fora, de não ter feito Lily se apaixonar por alguém que não merecia o amor dela. Porque ela merece alguém bom, de bom caráter...e ela só poderia encontrar isso com você. Depois de você crescer, de perceber o peso das ações. Você aprendeu isso e me ensinou. Depois daquele sexto ano, daquele episódio com o Ranhoso...você quem me mostrou o que era amadurecer. Você e esses caras aqui.
Sirius apontou com a cabeça para o lado enquanto dava o último nó.
Ele não iria chorar, apesar de querer poder. Infelizmente, sua família o ensinou erroneamente desde cedo de que não deveria chorar, que era para os fracos. E mesmo sabendo que isso era uma besteira enorme, sua cabeça estava mergulhada demais naquilo por muitos anos para que deixasse de lado e permitisse qualquer lágrima cair agora.
- Obrigado, Padfoot.
Assentiu, enquanto tirava uma pequena caixa de dentro do bolso.
- Eu sei o motivo de você ter me escolhido para padrinho. E é o mesmo que eu escolheria você como padrinho também: você é o meu irmão. O único que eu posso dizer que me amou como eu sou. - "E que não está desaparecido", pensou. - Você também queria que todos nós fossemos padrinhos, porque nós somos todos irmãos, todos nós. Então estaremos todos naquele altar hoje...
Abriu a caixa de madeira. Dentro dela, havia quatro espécies de chaveiros de cores diferentes. Cada um deles, formados por pelos do lobisomem, do rato, cachorro e cervo.
- Acho que nada poderia nos representar melhor do que isso. - Finalizou ele enquanto abria o paletó de James e colocava os quatro chaveiros no bolso interno do amigo.
Sirius achava difícil pensar neles como quatro indivíduos, às vezes. Sentia que estavam tão conectados, parte um do outro, que os via como uma unidade. Quatro elementos formando um só, algo mais poderoso do que qualquer outra coisa no mundo.
Ele sentia-se poderoso com eles. Ao seu lado, era como se todo o problema do mundo fosse pequeno e ínfimo. Saber que seu irmão mais novo estava desaparecido era doloroso, apesar dos pesares, mas se soubesse que um deles estivesse desaparecido... aquilo seria a dor da morte. Não haveria evento importante o suficiente que o pararia de revirar o mundo para achar um dos marotos.
Eles eram sua família, os pilares de tudo que o sustentava.
- Está pronto? - Ouviu Remus perguntar e estava prestes a responder, quando percebeu que a pergunta era direcionada a James.
- Mais do que pronto. - O amigo respondeu.
Estar naquele altar hoje era quase como uma miragem. Poucas pessoas veriam alguém lutar tanto por algo, desejar, almejar e conseguir no final. De uma forma digna. E aquele havia sido James Potter.
James, após ter a cabeça no lugar e saber que flertar com uma garota não era encher o saco dela, agiu como deveria ter agido. Ele soube ser e virar, soube ficar e sair, soube estar e fazer. James Potter soube tudo a partir do momento que entendeu de verdade que Lily Evans era não só uma garota bonita que ele admirava, mas uma mulher que queria ao seu lado.
Então ao ver Lily entrar naqueles jardins tão bonita e angelical, sorrindo para James como se não houvesse mais ninguém ali, Sirius sabia que tudo estava no lugar certo. O mundo estava encaixado e era muito especial fazer parte dele.
James e Lily enchiam o ambiente. Quando eles chegavam em qualquer lugar, uma nuvem de felicidade parecia inundar o lugar. Não pelas risadas de James ou pelas palavras e toques doces de Lily; não pelo cuidado que James tinha com cada um deles ou por Lily largar tudo o que fazia para te ajudar. Não. Era algo diferente, como se o sentimento deles fluísse pelo lugar e te atingisse como uma fumaça inebriante.
Ele os conheceu quando eram apenas um cara e uma garota. Ambos eram ótimos sozinhos, com suas qualidades e defeitos, mas ótimos. Porém juntos...eles eram além disso.
Olhando para o seu amigo no altar agora, ouvindo as palavras do cerimonialista, o sorriso de James era maior do que tudo que tinha visto. Se pensava que o amigo, seu irmão de verdade, estava feliz quando finalmente conseguiu virar namorado de Lily, ele não podia descrever agora enquanto o assistia dar um beijo cheio de amor na esposa logo após serem declarados oficialmente casados.
Flores começaram a descer entre os noivos e os convidados daquela cerimônia íntima. Os poucos convidados eram maioria da Ordem, mas boa parte da Ordem já virara família também.
Quem, em sua mais clara consciência, diria que Sirius Black seria um grande amigo de Fabian Prewett? Eles nunca foram inimigos e mesmo o primeiro ter sido namorado de Marlene e Sirius ter tido uma queda enorme por ela - queda essa que ainda existia, mas que ele sabia que nunca iria para frente -, existiu uma tensão entre eles em Hogwarts. Hoje, ela não existia mais.
Fabian e Gideon eram dois assets muito importantes e fortes da Ordem. Aceitaram o convite sem pestanejar e pegaram alguns vários seguidores de Voldemort neste meio tempo.
Dorcas Meadowes dividiu o dormitório com as garotas, mas nunca esteve muito presente na vida delas. Até agora. Ninguém soube muito bem como ocorreu, mas ela apareceu na Ordem um dia e ficou.
Benjy Fenwick era outra pessoa indispensável. Era tão habilidoso em duelos, que até mesmo James ficava chocado. Benjy era um cara bem visado pelos Comensais, já que ele havia criado muita bagunça.
Frank e Alice nem titubearam com o convite. O melhor era que ambos entraram na academia de Aurores também, o que era uma adição gigantesca.
Os marotos eram bem respeitados. Ele mesmo era constantemente mandado para o Leste, ficando dias sem comunicação. Remus ficava muito tempo sem se comunicar também, sem dizer por onde andava, o que fazia ou quem encontrava. Peter, com sua forma animaga, sempre pegava missões onde se esconder era mais importante do que lutar. Apesar de ninguém saber de suas condições de animagos - Lily sendo a única -, essas tarefas eram sempre bem distribuídas.
Lily, além de estar na linha de frente muitas vezes, ajudava bastante nos bastidores. Suas poções eram a salvação de todos. Se você precisasse de algo específico no meio da madrugada após uma missão complicada, ela teria algo para você. E ela apareceria na sede da Ordem para lhe dar, apesar de Sirius não ter ideia de como ela conseguia saber que alguém estava ali precisando de algo.
James estava em todos os lugares: na linha de frente, nos bastidores, liderando uma missão, ficando como escudo nas costas de quem precisava. Mas principalmente, saía em missões com Lily. Os dois desenvolveram planos de ataques com o feitiço Illusio de Lily, conseguindo informações ao iludir Comensais e fazê-los acreditar que estavam em reunião com outros, fazendo-os falar tudo o que precisavam saber. Lily sempre usava a capa de invisibilidade nessas vezes e James ficava ao seu lado, protegendo-a enquanto a ruiva enfeitaçava os outros. Era interessante ver como os dois trabalhavam juntos.
Tirando sua mente dos membros da Ordem, Sirius prestou atenção em Fleamont e Euphemia, em como eram os pais mais felizes e orgulhosos de todo o mundo. Provavelmente não duvidavam que seu filho casasse um dia, tendo em conta o coração enorme de James e tão pronto para receber alguém, mas talvez nunca pensassem que ele encontrasse alguém que o iluminasse mais do que o normal. Durante a festa, viu Euphemia abraçar Lily inúmeras vezes, acariciar os cabelos ruivos e sempre levando-a para perto do filho, nunca deixando-os afastados por muito tempo.
Infelizmente - ou felizmente, dependendo do ponto de vista -, a irmã de Lily não aceitou vir ao seu casamento. Quando recebeu a notícia, o rosto de Lily pareceu desmanchar, literalmente perdendo o sorriso. Aquilo quebrou o seu coração, sabendo o que era ter um irmão/irmã, alguém que deveria te amar, te recusando daquela maneira.
Aquilo o fez pensar novamente em Regulus e sua desaparição. Algo dentro de si lhe dizia que algo muito grave havia acontecido. O mais novo não estaria em uma longa missão para Voldemort, a ponto de deixar até Comensais curiosos sobre sua longa ausência. Não. Algo aconteceu. Provavelmente fez alguma merda e alguém teve que lidar com ele. Não seria surpresa e nem choque ouvir que alguns seguidores de Voldemort foram abatidos por X ou Y razões. Acontecia de forma recorrente, até. O tal Lorde das Trevas não aceitava pouco, assim como seus mais fiéis seguidores.
Ou poderia substituir "seus mais fiéis seguidores" por "boa parte da família Black". Mesmo alguns já não levando o sobrenome mais.
- Não deveríamos estar bebendo até cair?
Remus chamou sua atenção. Sirius estava em um canto da festa há alguns minutos, bebendo vagarosamente do seu copo.
- Estou começando. - Disse ao levantar o copo. - E você?
- Bem, já passei do segundo copo. - Remus se apoiou na parede ao seu lado. - Mas você está com uma cara péssima.
Não duvidaria dele. Era a sua cara "Black", aquela que usava quando pensava ou falava da família.
- Regulus está desaparecido! - Tomou um grande gole do whisky logo depois.
- Como você sabe?
- Soube por uma fonte.
Remus assentiu e observou a festa por um momento, pensando.
- Você pensa em ir atrás dele? - Perguntou.
- Considerei, mas honestamente? Não acho que o encontraria. Não há informações da nossa parte sobre ele ter sido preso, então deve ter sido apagado por alguém de dentro.
- Ah! Bom, isso você não pode ter certeza.
- Sim, eu tenho. De alguma maneira bizarra, eu tenho. Não sei como, nem onde. Mas estou tendo a certeza de que "desaparecido" não é a palavra certa para usar.
Peter se aproximou, rindo como um louco. Vendo as expressões dos amigos, ele parou um pouco de rir.
- O que aconteceu?
Sirius deu um último gole no copo e ajeitou suas vestes de padrinho. Lily queria tirar fotos e ele precisava estar impecável para dar as melhores para ela.
- Regulus morreu. - Informou. - Mas isso não importa. Hoje é o casamento do nosso Prongs. Vamos comemorar!
Pegando os dois amigos pelos ombros, Sirius os arrastou até onde via o casal feliz. James fez sinal para que se aproximassem mais rápido.
Hoje era o dia deles e apenas eles importavam agora.
Let him know that you know best
Deixe-o saber que você sabe mais
Cause after all, you do know best
Porque você realmente sabe mais
Try to slip past his defense
Tente passar pela sua defesa
Without granting innocence
Sem conceder inocência
A vida começou a ficar dura.
Muito pior do que ele podia imaginar, muito mais violenta e sem misericórdia do que todos os seus pesadelos. E ele costumava ter pesadelos tão horríveis, que o fazia molhar a cama até na adolescência, mesmo nunca contando nada para ninguém.
Mas agora a vida parecia querer brincar com ele, mostrar que era muito mais forte do que suas imaginações, que suas alucinações...
Porque eles perderam Fleamont e Euphemia.
Em um espaço de três dias, duas pessoas entre as mais importantes da sua vida se foram. Tudo tão rápido, tão seco, tão...tão pacífico, de uma maneira cruel, onde não havia gritaria, não havia confusão, explosão, feitiços voando. Existia apenas uma cama, sempre. Um Fleamont acamado, uma Euphemia acamada. Cobertores tentando acalmar o frio que sentiam, as inúmeras poções que engoliam, os incontáveis curandeiros do mundo todo que foram trazidos por um James desesperado.
Um James calmo, mas desesperado.
E mesmo com todas as suas forças, tudo o que eles fizeram, nada foi suficiente.
Fleamont partiu primeiro, causando uma rachadura enorme no coração de cada um. Euphemia o seguiu três dias depois, terminando de quebrar a todos.
Era quase engraçado como a morte ocorre, porque mesmo sabendo que ela está vindo, você nunca estará preparado para ela. A dor nunca será menor, muito menos a raiva. Tudo continuava a ser poderoso demais.
Sirius assistiu James desmoronar. E desmoronou com ele. Não do mesmo jeito, não com as mesmas lágrimas - porque os Black não choram -, mas naqueles dias, Sirius Black deu boas-vindas as lágrimas que vinham devagar, pouco a pouco, diferente das lágrimas de James, das de Lily. Seus olhos cinzas pareciam sofrer com aquele ato que não presenciava por tantos anos, por mais de uma década.
Estava sentado na pequena cozinha da sede da Ordem. Tinha voltado de uma missão complexa que durou a noite toda e que não teve ninguém para acompanhá-lo. Não importava estar sozinho ou não, estava apenas cansado e com algumas feridas. Encarava com preguiça a sua xícara de chá fumegante enquanto pensava no chá delicioso que Euphemia costumava preparar. Ela era a rainha das bebidas "conforto" e ele sentia falta dela como um louco.
Um "creck" anunciou que alguém aparatou na sala ao lado. Se estivesse mais vivo, poderia ir até lá conferir, mas seu traseiro parecia colado naquele banco de madeira. Suas mãos aconchegaram mais na xícara, tentando roubar o calor, pronto para adormecer ali mesmo.
- Padfoot!
Fechou os olhos por alguns longos segundos antes de responder sem emoção:
- Moony.
O amigo se aproximou, sentando-se em sua frente. Remus tinha o rosto cheio de marcas, muito mais do que o habitual. A última lua cheia havia sido há uma semana e aquelas cicatrizes não pareciam como as de antigamente, onde ele mesmo se machucava.
Há alguns meses que os marotos não passavam a lua cheia juntos. Remus sumia de vez em quando, dizendo ter missões, e que não podia falar sobre elas. No começo, Sirius não se importou, mas começou a estranhar depois de um tempo. O maroto ficava esquivo quando perguntavam sobre o que andava fazendo, sendo muito vago em suas respostas.
- Você parece abatido. Missão complicada? - Remus trouxe o bule de chá até a mesa e serviu-se. Conferiu se Sirius ainda tinha chá em sua própria xícara antes de deixar o bule de lado.
A raiva começou a subir como água borbulhante. Sirius sentia seu corpo começar a tremer.
- Você não tem ideia do que aconteceu, não é? - As palavras saíram ríspidas, assustando Remus.
- Eu acho que não. O que houve?
Sirius riu, largando a xícara, quase derrubando o chá.
- Está sendo muito confortável viver desse jeito, não, Remus? Você some, fica dias, até mais de um mês desaparecido, e depois volta como se nada tivesse acontecido.
- O que aconteceu, Sirius? - Remus perguntou com urgência.
- Por que você não dá uma passada na casa dos Potter para saber?
O maroto se levantou, irritado. De repente, sentia toda a energia voltando como se tivessem injetado-o algo. Estava pronto para lutar, brigar, discutir.
Ouviu Remus se levantando também.
- James e Lily estão bem?
Riu de novo.
- Esses Potters estão bem. Digo, não diria bem, mas vivos. Diferente dos outros dois!
Não olhava para Remus, não queria ver o seu melhor amigo entender o recado, pois estava cansado do recado. De viver uma e outra vez a informação de que Fleamont e Euphemia se foram.
- Não! - Foi quase um sopro de indignação de Remus. Ele caiu no banco novamente e levou as mãos aos cabelos. - Fleamont e Euphemia?! Não.
Era doloroso dar aquela novidade, como se fosse a primeira vez que ouvia. Um novo Crucius que recebia.
- Se você estivesse aqui, saberia. E estaria aqui para ajudar Prongs. O cara que nada mais fez na nossa vida do que nos dar todo o suporte que precisamos, aquele que te ajuda a se manter até hoje. - O tom de voz foi aumentando. - E onde você esteve quando ele quebrou, Remus?
- Sirius, eu sou grato e serei grato a minha vida inteira e não só a ele, você sabe. Eu estaria aqui caso eu soubesse, mas eu não recebi nenhum aviso: uma carta, um patrono. Eu largaria tudo para estar aqui para vocês!
Sirius ficou encarregado de informar os outros sobre o ocorrido. Peter não estava longe, então ele soube no mesmo dia. Mas Remus? Estava perdido no mundo, fazendo algo que nenhum deles parecia importante o bastante para saber.
Seria fácil avisá-lo: uma coruja, um patrono ou o que fosse. Mas a raiva em saber que ele não estava ali quando ocorreu, que não dava notícias e nem procurava por elas lhe impediu de correr atrás do amigo para informar.
- Estaria mesmo?!
A expressão de Remus mudou tão bruscamente, que Sirius teve a impressão de que o homem viraria um lobisomem ali mesmo.
- Você ousa mesmo dizer isso, Sirius?! - Remus se levantou.
- Por onde você anda, Remus? O que você tem feito? - O amigo desdenhou de suas perguntas. - Sabe que há um espião na Ordem?
- Eu soube que há algumas informações sendo vazadas. Qual a ligação com a morte de...?
Sirius não o deixou terminar a frase.
- Então você sabe que sabemos do espião, certo? - Insistiu. - Que estamos atrás dele, que ele não vai escapar e é bom saber que as mentiras e omissões virão à tona...certo?
- Sim, eu sei. - Eles se encararam por alguns segundos, até Remus abrir a boca, incrédulo. - Você acha que sou eu!
- Eu acho que seus sumiços são muito estranhos. Informações vazam depois das suas visitas.
- As minhas visitas sempre resultam em muitas reuniões da Ordem, sim. Com várias outras pessoas!
- E depois que você vai embora, as informações vão também...e aparecem pelo mundo, aqui e ali.
Respirando fundo, Remus se aproximou, encarando Sirius com aqueles olhos loucos de lobisomem.
- Eu não vou discutir com você agora, pois eu te conheço. Você está machucado, sofrendo. Fleamont e Euphemia eram seus pais também, te acolheram praticamente sem distinção com James. Você teve o amor que sempre quis e precisou. E agora está machucado, o que é compreensível. Mas não misture as coisas. Não jogue sua raiva em uma pessoa inocente, essa pessoa sendo eu ou outra. - A boca de Remus tremia de raiva. - Agora se me der licença, eu vou até a Potter Cottage.
Sem uma despedida, Remus aparatou.
Agora era Sirius quem tremia de raiva. Se Remus fosse mesmo o traidor, ele era o cara mais desgraçado do mundo, uma vergonha, um arrependimento sem tamanho. Se não fosse, seria um alívio.
O problema é que nada indicava que não fosse e Sirius já não sabia mais o que fazer.
Sim, a vida poderia ficar bem difícil...mas ela também poderia ficar alegre de repente.
- O que disse? - O maroto perguntou para ter certeza, apesar de já sorrir como um idiota.
- Lily está grávida!
Santo Merlin e suas varinhas!
Caiu contra o armário da cozinha da Potter Cottage. James estava mais iluminado do que nunca depois de alguns meses afundado em luto. Lily brilhava. Era como o próprio sol enquanto tinha a mão na barriga quase indetectável.
A alegria que o contagiou era incrível. A vida tinha que seguir depois das terríveis perdas, mas não sentia aquele tipo de felicidade há meses. Uma felicidade pura, que vinha do fundo de sua alma.
James Potter seria pai. PAI! Aos 19 anos.
Ah Merlin, James seria pai do filho de Lily Evans. Ou melhor, de Lily Potter.
Aquelas conversas em Hogwarts sobre como James deveria lidar com Lily, indo devagar, gerenciando a situação calmamente. O amigo a ponto de explodir ao dividir os aposentados dos Monitores-Chefes.
E agora eles seriam pais.
- Tem certeza?
James revirou os olhos e Lily sorriu.
- Absoluta. Queríamos esperar até a consulta no St. Mungus hoje, mas está mais do que confirmado: eu vou ser pai do filho da ex-Monitora-Chefe Evans, aquela ruiva que me ignorou por tantos anos, que disse...- James ria à vontade, fazendo os outros dois rirem pela felicidade dele. - ...que disse um dia que preferia sair com a Lula Gigante do que comigo! Bom, veja quem mostrou ter tentáculos mais interessantes e que você parece gostar bastante, senhorita Monitora-Chefe Evans.
James fez menção de colocar a mão na barriga da esposa, mas recebeu um tapa.
- Lily Potter e sua esposa, primeiramente. - Ela o corrigiu. - Segundo, não comemore muito. Eu posso mudar de ideia em pouco tempo.
- Você me faz o cara mais feliz com essa correção, mas agora que existe essa pequena comprovação de que fazemos sexo, eu queria que as pessoas lembrassem o quão difícil foi te conquistar, quem era você e o quanto fomos longe.
O amigo fazia isso regularmente. Bastava encontrar alguém da época de Hogwarts e que não tinham contato, para o maroto fazer questão de explicar sua vida: saiu de Hogwarts noivo, casaram em menos de um ano. Agora poderia adicionar que teriam um bebê. E Lily não tinha sido enfeitiçada para isso.
- Em defesa de James aqui, as pessoas devem entender que você não está sob um Imperius. - Sirius tentou ajudar o amigo.
- Eu não pareço estar sob o feitiço, nunca pareci. - Ela acariciou a barriga carinhosamente. - Mas deveria estar sob um abbafiato, assim não ouviria as besteiras que ele vem dizendo desde que tivemos a confirmação.
James não ouvia as reclamações da esposa, parecendo feliz demais em sua pele para ficar parado ou até discutir. Quando a campainha tocou, ele correu até a porta, trazendo Remus e Peter arrastados pelas camisetas. Sirius se deslocou até um canto da cozinha e assistiu.
- Estão vendo? - O maroto de cabelos bagunçados perguntava enquanto apontava para Lily.
- Sim. Lily, sua esposa. - Peter respondeu. - Oi, Lily.
- Oi, Wormy. - Ela o cumprimentou de volta. Há muito tempo ela os chamava pelos apelidos e eles adoravam.
- Não, não, olhem de perto. - James os puxou para mais perto. Lily revirou os olhos enquanto Remus e Peter pareciam curiosos e quase preocupados.
- O que eu deveria estar vendo além de Lily? - Remus perguntou quase sem graça.
Batendo com as mãos nas pernas em uma falsa falta de paciência, James continuou:
- Não vêem? Essa prova irrefutável de que Lily Evans me...- Lily limpou a garganta e James revirou os olhos com graça. - ...que Lily Potter me ama?
Remus e Peter se entreolharam. Sirius bufou do seu canto.
Vendo que os amigos ainda não entendiam, James voltou a falar:
- O sinal de que ela me ama, todas as noites. Muitas vezes durante o dia, outras de manhã, algumas vezes na madrugada...
- James!
Sirius soltou uma gargalhada alta e bateu as mãos. Adorava quando Lily ficava mais vermelha do que seus cabelos.
- No quarto, outras na sala...nesta mesma cozinha, talvez? - Ele entrou na brincadeira e James apontou para ele e piscou, confirmando.
- Sirius! Não dê corda para ele. - Ela pediu, mas ria.
- Você está grávida?! - Remus perguntou com os olhos arregalados. Peter, percebendo apenas agora do que tudo se tratava, deixou a boca cair.
Sem esperar mais, James veio até Lily e segurou sua barriga. Aquele homem parecia mais feliz do que qualquer outra pessoa que Sirius já viu feliz em sua vida.
- E tudo feito sem Imperius! - James achou importante salientar.
Remus abraçou Lily e depois James. Aquilo pareceu ligar uma máquina de abraços em James, pois o maroto saiu abraçando a todos, incluindo Lily.
- E pensávamos que não haveria um quinto membro no grupo dos marotos. - Disse Sirius satisfeito com aquele ambiente alegre com todos eles, vendo-os todos sorrindo e fazendo piadas.
- Haverá mais. - James estava maníaco. - Não é? - Se virou para a esposa.
- Vamos nos concentrar neste bebê primeiro, depois pensaremos sobre o resto.
- O resto, sim. - Sirius concordou. - O ideal é ter mais dois, para termos um time de Quadribol completo.
- Ótima ideia! - James quase gritou e cumprimentou Sirius com um high five.
Lily saiu da cozinha com a mão nas têmporas, fingindo incredulidade, mas Sirius viu o quanto ela sorria.
Seus amigos estavam felizes, ele estava feliz. Não havia mais nada que poderia pedir na vida agora, além da chegada deste novo membro do grupo que seria tão bem-vindo depois de tanta tristeza.
Mal podia esperar.
"Cottage".
Era a única coisa escrita no pergaminho enviada pela coruja de James.
Sabia que o espelho poderia ser usado, já que ambos sabiam que não estavam em missão hoje. Lily ia alguns dias da semana para a sede da Ordem para atualizar as poções, mas com a gravidez avançando e o medo de James de que Comensais descobrissem o endereço e invadisse o lugar, faziam com que a ruiva fosse até lá apenas quando tinham certeza de que o lugar estava seguro.
E hoje era um dia desses. Marlene, Alice, Frank e Peter estariam na Ordem para uma reunião importante. Ele estava fora, pois já sabia do conteúdo. James e Lily também deveriam estar lá e o fato de que o amigo o chamava para ir até a Potter Cottage era estranho.
Andava desconfiado de tudo, era verdade. Às vezes até demais, mas não poderia não ouvir suas inseguranças em tempos de guerra, especialmente quando sabiam que havia dados sendo vazados para o outro lado e que, muito a contragosto, aquela desconfiança caía em Remus.
Como ele poderia ter mudado assim? Aquilo não fazia sentido. Mas ele era o único que tinha segredos, que desaparecia sem avisar, que aparecia de repente e querendo saber o que ocorria, tentando se manter a par. De repente, quando ele era informado das coisas, os planos eram descobertos pelos Comensais.
Saber que um maroto, que Remus John Lupin, era um espião...aquilo lhe quebrava.
Pegou seu casaco e o vestiu, aparatando em Godric 's Hollow logo depois. A pequena cidadezinha estava vazia como sempre. Era fim de tarde, o sol já quase não iluminava as ruas e os barulhos vinham de um bar ou outro, um restaurante aqui e ali. Era fim do outono, as pessoas deviam estar aproveitando o tempo levemente mais morno, ter crianças brincando pela rua, algumas famílias fazendo suas caminhadas.
Era tudo vazio, tudo o mais silencioso possível, mais triste possível.
A Potter Cottage já estava à vista. Honestamente, era a única casa que parecia ter um pouco de vida. As luzes te acolhiam, a grande árvore florida lhe dava vontade de sentar ali embaixo e ler um livro, os muitos livros trouxas que Lily tinha. Ela deveria estar ali, ela estava ali muito mais vezes do que podia contar, mas o jardim estava vazio dessa vez.
Passou pelo pequeno portão e se dirigiu até a porta apenas para ser paralisado no meio do caminho. Um feitiço de corpo preso? Sua varinha estava descansando em seu bolso, o que foi muito amador de sua parte em tê-la fora de mãos enquanto estava na rua.
A porta da frente se abriu devagar, apenas uma pequena fresta, e Sirius viu que um olho espiou antes da porta se abrir completamente.
- Diga! - James apontava a varinha para ele. Os olhos do amigo estavam frios. Olhos do grifinório duelista, do maroto que encontrava um inimigo. Olhos de James Potter pronto para atacar.
- Quarto ano. Você recebeu detenção por ter atacado o Ranhoso. Lily quase te matou por isso, vocês brigaram e você nunca disse a ninguém que, na verdade, quem atacou fui eu. Eu tinha que treinar para o jogo contra a Lufa-Lufa depois de ter ficado dias fora por conta de uma perna quebrada e você preferiu levar a culpa e a detenção do que me deixar sem treinar.
James demorou alguns segundos antes de abaixar a varinha. Ele olhou para os lados antes de desfazer o feitiço em Sirius.
- Entre.
- O que está acontecendo? - Sirius perguntou enquanto pegava a própria varinha e olhava para todos os lados.
Segurando Sirius pelos ombros e o conduzindo para dentro - assim como um pai faria com um filho -, James não suspirou, não gemeu de frustração. Apenas fechou a porta e disse:
- Bem-vindo ao meu pesadelo, Padfoot!
Aquilo o assustou.
- Lily?! Lily está bem? O que está acontecendo? O bebê...?
Tinha a sensação de que alguém o enforcava. A televisão que estava sempre ligada, estava completamente fora de serviço. O rádio, que substituía a televisão muitas vezes, também estava quieto.
Os únicos barulhos que ocorriam vinham da cozinha, alguns tilintares. E foi para lá que James se dirigiu, tendo Sirius colado à ele.
Lily estava em pé, perto da geladeira. Devia estar com cinco meses agora? Ele era péssimo para isso, mesmo a ruiva ter explicado muitas vezes. Eles falavam sobre semanas e isso só o confundia mais. Não era mais fácil falarem de meses? "Estou de cinco meses"...ao invés de "Estou entrando na 25° semana". De qualquer maneira, Lily era a grávida mais bonita desse mundo e Sirius sempre a admirava de longe, vendo-a andando para cima e para baixo enquanto carregava um pequeno Prongs ali dentro. Ela tinha um brilho magnífico, sempre sorrindo e feliz.
Mas agora, Lily estava séria. Seus olhos não tinham brilho nenhum. Olhou de novo para James. Seu amigo estava completamente sem vida, com o rosto pálido. Seus cabelos, por mais incrível que parecesse, estavam para baixo. Nunca viu os cabelos de James daquela maneira, a não ser quando estavam molhados.
Sirius começava a sentir seu corpo todo tremer, até mesmo seus ossos.
E antes que pudesse finalmente dizer algo, um barulho em suas costas o assustou.
- Olá, Sirius.
Era Dumbledore. Em Godric's Hollow!
As palavras se perderam novamente. Albus Dumbledore ali, James e Lily naquela situação...o que estava ocorrendo?
- Prongs?! Lily?!
Tinha que confessar que ele soava quase como uma criança pedindo direções para seus pais, sentindo-se perdido, sem saber o que fazer, o que sentir. O que ele tinha que temer? O que ele tinha que sentir?
- Gostaria de sentar, Sirius? - Dumbledore perguntou.
Por que ele era quem estava dando ordens dentro daquela casa? Os olhos cinzas se viraram para os donos da Potter Cottage. Lily não parecia ter condição de responder, parecendo não estar ali com eles. James, com sua boca virada para baixo, levantou o olhar para Sirius e piscou demoradamente.
- Ele o quer! - James apenas disse.
- Quem? Quem quer quem? - Sua voz saiu rouca.
- Voldemort. - A voz de James era tão monótona. Sirius tinha a impressão de que o amigo tinha sentido tantas coisas antes, que todos os seus sentimentos haviam se esgotado e que só sobrava uma casca dele ali em sua frente.
- O que tem esse filho da puta?
Percebeu pelo canto do olho que Dumbledore se incomodou, mas não poderia se importar mais em filtrar seus palavrões naquele momento.
- Voldemort quer o nosso bebê!
Foi a voz fraca de Lily que anunciou. A mão dela foi até a barriga, obrigando Sirius a baixar os olhos para acompanhar o movimento.
- Voldemort quer...? O quê?!
O que infernos era aquilo? Voldemort queria um bebê? Para o quê?
- Um garoto nascido nos últimos dias de Julho terá o poder de derrotar o Lorde das Trevas. Terá um poder que o Lorde desconhece. - Sirius olhava para Dumbledore como se o seu ex-diretor tivesse perdido as faculdades mentais e começasse a falar as asneiras mais aleatórias que existissem. Aquele velho estava louco? Provavelmente vendo os olhos perdidos e confusos de Sirius, Dumbledore continuou. - Há uma profecia. - Dumbledore passou por Sirius e se postou entre ele e os Potter. - Uma profecia que diz que um bebê nascido de pais que o enfrentaram três vezes, o derrotaria.
Sirius olhou de um para o outro. Dumbledore soava ridículo, mais louco do que soava algumas vezes e isso era bastante.
- Uma profecia?! - Sua voz demonstrava o quanto ele achava aquilo uma piada. - Isso é ridículo!
- Sirius! - Dumbledore pediu.
- Profecias são ridículas, todo esse papo doido não existe. Profecia, hunf! Prongs, você acredita nisso?
- Sirius, por favor. - Dumbledore pediu de novo.
- Um bebê que pode derrotar Voldemort? - Ele soltou uma risada pelo nariz. - Estamos tentando matar esse desgraçado por anos e um bebê vai conseguir? Como? Chorando até Voldemort derreter de ódio? Além do mais, o bebê ainda está ali! - Sirius cortou Dumbledore e apontou para a barriga de Lily. - Ele pode nascer amanhã. Lily está com tantas-não-sei-quantas semanas, o que pode significar 15 meses já, até onde eu sei. - Ele fez uma pausa rápida, olhando para todos os presentes, esperando uma reação, mas nada ocorreu. Ele parecia o único a achar que uma profecia era uma baboseira. Isso lhe abriu a oportunidade de começar a temer de verdade aquela conversa. - Por que o nosso bebê e não um outro?...
A frase ficou um pouco no ar, o pensamento sem ser terminado. Viu o rosto dos outros três ocupantes do lugar. Era óbvio tudo o que ele dizia e era óbvio que eles devem ter passado pelas mesmas perguntas, respostas e tudo mais.
- O bebê está planejado para Julho. - James respondeu.
- Não para o final de Julho. E pode acontecer em Agosto. - Sirius prontamente mandou de volta.
- Nós enfrentamos Voldemort três vezes até agora...
- E pode acontecer uma quarta, não? Você tem missões programadas e...
Dumbledore colocou uma mão nos ombros de Sirius, querendo contê-lo. Sirius desviou. Encarou Lily e James, as únicas pessoas importantes naquela cozinha. Tinha o bebê também, mas considerava-o parte dos outros dois ainda.
Então ele viu o pior: os dois acreditavam naquela baboseira. Sirius não sabia quem previu aquilo, como Dumbledore sabia ou o raio que o parta, mas seus amigos deviam ter todas as informações e eles acreditavam.
E estavam afundando.
- Albus, pode nos dar um momento? - Pediu Sirius.
Raramente usava o primeiro nome de Dumbledore. Para ser sincero, talvez tenha sido a primeira vez. Bom, novamente, não era o momento de filtrar nada. Estava sendo bombardeado, sem nem aviso prévio, e se alguém reclamasse de seus palavrões ou maneiras, ele iria explodir.
A não ser que Lily o repreendesse. Ela o fez várias vezes e de uma maneira impossível de não escutá-la. Era como uma mãe para todos eles, cuidando e se preocupando a todo instante.
Ela seria uma mãe esplêndida e mal podia esperar para ver.
- Eu estarei na sede. - Dumbledore, enfim, respondeu. - Esperarei por vocês.
O velho homem saiu da cozinha cabisbaixo, em sinal de respeito aos donos. Ouviram quando a porta da frente fechou e os passos de Dumbledore afastando-se da casa.
O que pensar? James e Lily estavam em sua frente, um ao lado do outro, na mais miserável situação que Sirius já viu alguém na vida.
- Escutem...- Ele estalou o pescoço, se preparando para uma conversa que parecia difícil. - Profecias são balelas. Lily, desculpe em falar diretamente com James agora...- A ruiva apenas balançou a cabeça em concordância. - Prongs, você sabe disso. Profecias são mitos. Quantas histórias nos são contadas quando crianças e alguma ou outra foi sobre uma profecia? São histórias para nos fazer dormir, nos assustar, nos divertir.
James apenas olhava para ele, perdido. Aquele olhar começou a dar medo em Sirius, no sentido de ver o amigo sem reação. James Potter nunca ficava sem reação, sem uma resposta, sem uma cutucada, sem uma ironia. Quando perderam Fleamont e Euphemia, James caiu, mas conseguiu ter esperanças, seu olhar estava triste e desmotivado, mas não tão profundamente morto.
- Vamos, vamos...- Sirius continuou a falar, olhando para os lados, tentando encontrar algo. - Vamos apenas...considerar que quem fez essa profecia...aliás, quem fez essa profecia?
- Não a conheço. - James respondeu monótono.
- Dane-se, não importa. - Sirius balançou a mão. - O pequeno Prongs Potter vai ser poderoso, muito poderoso, mas não por conta de uma balela dita. Mas por ser filho de vocês dois, o casal mais forte que já vi na vida. - Nada do que Sirius dizia fazia efeito. Ele nunca foi a melhor pessoa para animar alguém daquele jeito, para trazer a positividade em um lugar tão negativo. Normalmente ele faria piadas, tentaria mostrar o lado bom da coisa enquanto as pessoas ou riam ou reviravam os olhos para ele. Mas ali...estava travando uma batalha contra algo que nunca viveu.
Aliás, qual era a dessa coisa de ser adulto? Como as coisas funcionavam daquele jeito? Por que aquilo não estava seguindo a ordem natural das coisas no sentido de ter algum indício do problema antes do problema chegar?
Como não havia sussurros sobre uma profecia que contava sobre uma criança nascida em Julho e que derrotaria Voldemort ? Era daquele jeito que as coisas deveriam funcionar: te dando um indício do que estava ocorrendo e apenas depois você era pego de surpresa, mas não naquele nível de surpresa, de que a criança poderia ser a dos seus amigos.
Mas não. Ele estava na tranquilidade - se é que poderia dizer que estava tranquilo - da sua casa, recebeu uma coruja de James, foi para a sua casa e BAM! Profecia; nosso filho; Voldemort o quer.
Que porra!
Mas que porra estava acontecendo? Por que?
Por que?
Não! Não James e Lily, não a criança, não o bebê. Não!
- Profecias sendo ridículas ou não, nós acreditando ou não, não importa. - A voz de Lily invadiu a cozinha como um sopro, tão delicada, tão fraca. - O que importa é que Voldemort acredita. E ele vai vir atrás do nosso bebê.
Foi um soco no estômago. Como James não reagiu, Sirius imaginou que aquela conversa já havia acontecido. Lily era uma garota pé no chão. Mesmo sobre almas gêmeas ela era um pouco distante, não acostumada com tudo o que o mundo bruxo tinha como fábulas, mitos ou crenças. Ela gostava do fato de ser considerada a alma gêmea de James e adorava fazer brincadeiras sobre isso...e provavelmente pouco acreditava em profecias.
Mas ela estava certa: não importava se eles acreditavam, mas Voldemort acreditava. E acreditando que alguém estava à espreita, destinado a acabar com ele, não duvidaria de que aquele pedaço de merda fosse até o fim para acabar com aquela ameaça.
Virou-se para os amigos. Colocou uma mão no ombro de cada um, ambos levantando o olhar para ele.
- Nada vai acontecer com o nosso Pequeno Prongs. Nada. - Apertou os ombros deles para reiterar o que dizia. - Voldemort teria que me matar primeiro e eu nunca facilitaria essa tarefa para ele. - Respirou fundo. - Nós vamos mantê-lo seguro. Eu farei tudo o que eu puder e até o que não puder para que ele fique em segurança.
Lily voou em seus braços, apertando-o com tanta força, que tinha a impressão que sua barriga fosse explodir. Sentia a magia que exalava dela, uma magia que o tomava por inteiro, fazendo-o sentir que não existia amor tão sincero quanto aquele. Sentiu os braços de James abraçando a ambos e foi enlaçado pela magia do amigo também.
- Eu nunca vou cansar de dizer isso. - James começou. - Mas eu confio em você tudo que é mais sagrado na minha vida. A segurança de Lily e do nosso filho incluso.
- E eu nunca te decepcionaria, Prongs.
O abraço se desfez, Lily e James se entreolharam e pareciam concordar com algo.
- Nós vamos nos esconder, sair de cena completamente, desaparecer. - James anunciou. - Não sei por quanto tempo, mas até essa ameaça não existir mais.
Aquilo fez sua cabeça maquinar loucamente.
- Fidelius? - Sirius perguntou.
- É a única maneira. - James respondeu.
Eles conversavam como se seus pensamentos estivessem conectados. Isso sempre aconteceu e era uma ligação que Sirius não apreciaria perder.
- Dumbledore se ofereceu para ser o Fiel Do Segredo. - Disse Lily.
- Mas...- James olhou para Sirius. - Eu não pensaria em mais ninguém para essa tarefa do que você!
O que dizer? Aquilo lhe trazia diversos sentimentos. Saber que alguém naquele mundo contava com ele com as coisas mais valiosas de sua vida era como um tapa em sua insegurança. Os Black o deixaram no chão, sentindo-se um pano usado que ninguém nunca perderia tempo. Mas ali estavam duas pessoas muito importantes em sua vida, dizendo que precisavam dele e que nenhuma outra pessoa serviria.
Por outro lado, era louco. Por nunca ter tido um papel tão importante antes, ele estaria à altura? Poderia ser o que James e Lily precisavam?
- Eu farei tudo o que precisarem.
Não importava o que ele sentia. Eles precisavam dele e, sentindo-se a altura ou não, ele faria qualquer coisa para mantê-los a salvo.
Tudo.
E era por esta simples razão que eles se encontravam, meia hora depois, na sede da Ordem. A reunião que deveria ocorrer foi dispensada e adiada para o dia seguinte, deixando os Potter, Dumbledore e ele. Seu corpo ficava em constante estado de arrepio, a adrenalina parecia substituir seu sangue, sendo a única coisa que sentia correr pelo seu corpo.
Os três faziam algum tipo de preparo dentro de uma sala vazia no segundo andar e Sirius esperava no corredor. O feitiço Fidelius era um dos mais antigos que existia e tão complexo, que Sirius não fazia ideia de como funcionava. Nunca ficou curioso o bastante para estudar sobre, então só podia imaginar e chutar o que ocorria.
Vinte minutos depois, a porta se abriu e ele entendeu que era um convite para entrar na sala.
Para sua surpresa, não havia nada de anormal. James e Lily estavam de pé, um ao lado do outro. Dumbledore estava no centro da sala.
- Você está pronto, filho?
- Sempre.
Assentindo, Dumbledore pediu para que ele se aproximasse.
- Estará carregando um segredo que não apenas diz onde localizará seus amigos, mas a vida de um inocente. Saiba que pessoas poderão vir atrás de você por isso, assim que souberem que os Potter não estão acessíveis. Você entende isso?
- Entendo.
- Eles podem usar todos e quaisquer tipos de feitiços para te fazer falar, apesar do feitiço Fidelius não ser quebrado assim. Mas seu sofrimento será real.
Se aquele era o jeito de Albus Dumbledore tentar fazê-lo mudar de ideia, teria que dizer que o velho não sabia como lidar com Sirius Black.
Olhou para os dois amigos, que o encaravam com certo receio. Sabia que os dois sentiam o peso do que lhe pediam e que se pudessem, não o fariam. Via nos olhos de Lily o quanto ela queria parar aquilo, pedir para que Sirius não se colocasse em tamanho perigo. Via que James tinha uma expressão de orgulho, mas de receio. Sabia e sentia tudo aquilo deles, pois ele mesmo sentiria o mesmo.
Mas eles tinham algo precioso para esconder e não poderiam pedir para qualquer um ser o Fiel Do Segredo. Naqueles tempos de tantas incertezas e medo, dificilmente eles confiariam em outra pessoa. Sirius não pensaria duas vezes em escolher James, se precisasse. Ou talvez não quando ele tivesse um bebê a caminho. Não poderia pedir que o seu melhor amigo se colocasse naquela situação, quando ele lutava pela Ordem e tinha sua esposa e bebê para voltar depois.
- Eles podem tentar o seu melhor e ainda não será o suficiente. - Sirius respondeu e sorriu.
Ele não estava no lugar de James e Lily, mas sabia que eles precisavam estar assegurados daquela escolha. Esconder-se era a melhor solução, mesmo sabendo que aquilo devia estar torturando James por dentro, mas eles não tinham outra opção, certo? E sendo a escolha para mantê-los salvos, Sirius precisava deixá-los tranquilos.
Infernos, eles esperavam um bebê. Um bebê que Voldemort nunca teria, deveria adicionar, e precisavam aproveitar aquela fase apesar dos pesares. Eles eram tão jovens, com tanta coisa ainda para viver. Tantos treinos de Quadribol para serem marcados, tantos bolos de chocolate para serem comidos nos jardins da Potter Cottage, tantos passeios de moto com Lily, tantas saídas noturnas com James em forma de animago - já que Remus parecia ocupado demais em espalhar os segredos da Ordem por aí ao invés de chamá-los para as luas cheias -, os reencontros com Peter que levava uma vida pesada com sua mãe doente.
Todos eles tinham muito para viver ainda, mas em um espaço de uma hora, tudo virava de ponta cabeça.
Não podia dizer que sabia o que aconteceu naquela sala. Fechou os olhos quando Dumbledore dizia o encantamento, pois sua visão ficou turva e sensível a qualquer luz. Podia sentir a magia do feitiço em seu corpo, como se misturasse com a própria magia. Era algo surreal e inédito. O Fidelius era poderoso, se enlaça à sua alma, com o ser humano. Era uma sensação quase engraçada, como se Sirius não pertencesse somente a ele mais, mas àquele feitiço, àquela promessa que fazia. Como se existisse algo a mais além dele dentro de si.
O endereço da Potter Cottage aparecia uma e outra vez em sua cabeça, em seus olhos fechados, parecia brincar também em sua língua. Não ouvia nada do que ocorria na sala, se Dumbledore ainda dizia algo ou se James e Lily participavam de alguma maneira. Apenas sentia o Fidelius fazer seu trabalho em receber a informação e tê-la enlaçada a si, misturando suas magias.
Aquelas sensações acabaram de repente. Abriu os olhos e tudo estava de volta ao normal. Dumbledore parecia feliz com o próprio feito e assentiu para ele, antes de sair de sua frente e dar a visão de James e Lily com as mãos entrelaçadas, assistindo-o.
- Isso foi algo interessante. - Ele disse.
- Agora, Sirius, você é o Fiel do Segredo dos Potter. - Dumbledore começou. - Você pode repassar a localização para quem James e Lily gostariam que tivessem a informação, mas a pessoa não conseguirá repassar para frente. Você é o único com esse poder. Se você morrer, qualquer um com a informação, se tornará Fiel do Segredo, então eu sugiro cautela de todos vocês nesse quesito. Não podemos ter membros da Ordem caçados e mortos por Comensais que pensam poder arrancar a informação deles.
- Nós teremos cautela. - James respondeu. - Obrigado, Dumbledore.
Sirius assistia James cumprimentar Dumbledore, então não viu quando foi atacado por um par de braços, esmagando-o. Era o segundo abraço de Lily que ganhava em pouco tempo e isso não era uma reclamação.
- Obrigada, Padfoot. - Ela disse baixinho. A ruiva, não muito alta, encaixava logo embaixo de seu queixo, então ele apoiou-o ali e a abraçou de volta como podia, considerando as 120 semanas de gravidez. - Eu não quero que nada aconteça com você...mas James! Ele é louco por você e por mais que confiamos em qualquer um dos marotos, assim como Marlene, não existia ninguém mais em sua mente. Era você, sempre seria você.
Todos naquela sala sabiam do perigo que James e Lily corriam, e que agora Sirius também corria. Guardar um segredo de Voldemort, um que ele almejava tanto saber, não deveria ser um passeio no parque. Mas se morresse tentando salvar seus amigos, ele faria...mas não queria que os dois carregassem um peso de culpa que não deveriam.
- E se eu não fosse o escolhido, eu ficaria bem chateado. - Ele riu um pouco. Pôde sentir os ombros dela balançando com uma risada rápida.
E a partir daquele dia, Sirius Black sabia que guardaria seus amigos com tudo o que pudesse e ainda mais.
Também garantiria que eles ainda pudessem rir, se divertir e aproveitar a vida como deveriam.
Estava exausto. Fatigado, sem energia alguma. Seus olhos mal se mantiveram abertos, seu corpo tinha desistido de tentar levantar e aparatar em seu apartamento. Iria dormir naquela cadeira, com o pescoço caído para trás, no meio da sala da sede da Ordem.
Ouvia cochichos aqui e ali, pessoas indo e vindo, mas ninguém parecia ter coragem de chamá-lo, de se aproximar. Que bom, porque não queria falar com ninguém.
Voltara de uma missão arriscada, a qual quase perdeu Marlene. Aquela mulher maluca! Bastou um Comensal baixar a guarda e ela se jogou nele, começando um duelo tão rápido e intenso, que Sirius não conseguia se enfiar e ajudar. Teve que ficar de fora, esperando, vendo Marlene escapar por pouco de feixes verdes uma e outra vez.
Não era sempre que saía em missões com Marlene, ou que saía com ela em geral. Se encontravam esporadicamente na sede da Ordem ou na Potter Cottage. Ela, Remus e Peter eram os únicos que sabiam onde se encontravam os Potter, além dele mesmo. Por ser o Fiel do Segredo, Sirius era o único que podia passar a informação, mas nenhum deles conseguiriam. Mesmo com essa segurança do feitiço Fidelius, eles não arriscaram contar para mais ninguém. Frank não quis que Alice soubesse, já que eles corriam o risco de serem pegos e Alice, assim como Lily, estava na 500° semana de gravidez.
Estava. Tiveram a notícia de que Neville Longbottom nasceu na manhã anterior, o que fazia-o uma criança nascida no final de Julho, com pais que enfrentaram Voldemort três vezes.
Sirius sentia-se horrível com o seu primeiro pensamento após a notícia: era Neville. Neville era e deveria ser a tal criança da profecia e deixar James e Lily livres. Mas alguém poderia julgá-lo por pensar naquilo tão rápido? Não filtrou seus pensamentos, não pensou no fato de que Frank e Alice receberam a visita de Dumbledore na hora seguinte e pediu para que eles se escondessem...e que agora o casal que pulava de alegria pela chegada do primeiro filho, estavam entocados em algum lugar, com medo de que Voldemort viesse atrás do pequeno Neville.
Suspirou fundo e esfregou os olhos. Aquilo tudo era uma porcaria. Frank e Alice não mereciam nem mais e nem menos do que James e Lily. Os quatro eram pessoas extraordinárias, tornando-se pais de crianças inocentes. O problema é que Sirius, de um jeito "Black" de se pensar, apenas aceitaria qualquer coisa que tirasse James e Lily daquela merda.
Já passava das 23h. Não mexeria nem mais um músculo. Ali iria dormir até alguém, voltando de uma missão, o acordasse, e esperava que isso acontecesse depois do almoço do dia seguinte, nem um minuto antes.
Marlene. Sua cabeça voltou para ela. Andava arriscando-se tanto nas missões, indo com sede e raiva para cima de todos. Seus pais, que tinham posições altas e importantes no Ministério, estavam sendo ameaçados. Começou com algumas cartas sutis, mas com o avanço da filha na Ordem, derrubando e prendendo alguns do lado de Voldemort, as ameaças ficavam cada vez menos veladas. A família McKinnon virou um alvo constante de ataques, mas sempre escapando por pouco. Assim como Marlene.
Benjy Fenwick havia desaparecido. Há uma semana não dava notícias e dois Aurores estavam encarregados de achá-lo. Até o momento, nada. Aquela era a primeira grande preocupação da Ordem desde que se juntou a ela. Ninguém havia desaparecido ou morrido até aquele momento e Sirius tinha a impressão de que, infelizmente, Benjy seria o primeiro.
Uma luz forte o obrigou a abrir os olhos e fazer Sirius quase resmungar tanto por ser acordado, quanto por perceber que sua cabeça estava tão agitada, que estava longe de dormir. Se ajeitou na cadeira assim que entendeu que aquela luz era um patrono em forma de cervo.
- Pequeno Prongs!
A voz de James pareceu encher o lugar.
O bebê! Ele havia nascido!
Seu corpo esqueceu do cansaço, da tremedeira e da adrenalina, e simplesmente se projetou para fora da cadeira e correu até a pequena cozinha da Ordem, até o calendário.
31 de Julho de 1980. O último dia de Julho. O último maldito dia de Julho.
Olhou para o relógio e viu que os ponteiros não passavam da meia-noite ainda, mas não estavam longe.
- Quarenta minutos. Quarenta minutos malditos!
Balançou a cabeça. Tinha certeza de que o bebê não havia chegado naquela hora, mas algumas horas atrás. James não pararia tudo para avisá-lo, mas ficaria com Lily e o bebê até tudo estar bem e, assim, enviar o patrono.
Olhou para o relógio novamente. Horas separaram o bebê de fazer parte da profecia. Voldemort iria atrás de alguma outra criança inocente, mas não seria o bebê Potter. Poderia ter chegado mais tarde, então nasceria em Agosto. Voldemort ficaria bem decepcionado e Sirius amaria rir em sua cara.
Mas não adiantava entrar naquela loucura. O Pequeno Prongs veio quando decidiu vir, mesmo não sendo o melhor dia ou mês.
Sem pensar mais, aparatou em Godric's Hollow. Estava quente como um maldito final de Julho poderia estar. Caminhou rápido até a Potter Cottage. As luzes estavam acesas, todas elas, e aquilo lhe deu uma explosão de felicidade. James e Lily, apenas com todas as luzes da casa acesas, lhe passavam uma imagem de felicidade. Não estavam mergulhados na escuridão de uma possível chateação pelo filho chegar nos momentos de Julho, não. Eles estavam, e deveriam estar, felizes.
E assim Sirius ficaria.
A porta abriu antes dele sequer passar pelo portão e um James sorridente o encarou de volta.
- Padfoot! - Ele parecia a ponto de implodir de felicidade. - É um menino. O quinto membro dos marotos.
Aquilo fez Sirius rir enquanto se aproximava e abraçava o amigo.
- Se fosse menina, seria o quinto membro também. - Respondeu.
- Não tenho dúvidas disso. - James replicou. - Venha, venha conhecê-lo.
Foi puxado para dentro com rapidez. De repente, nada do que se passava do lado de fora importava mais. A casa estava cheia de energia e de sentimentos bons. Sua mente parecia proibida de pensar em qualquer outra coisa, além de querer ver o Pequeno Prongs.
Subiram as escadas e já podia ouvir a voz serena de Lily cantando. Quando chegou no batente do quarto, sentiu o estresse de dias, de meses, virarem fumaça. Aquele pequeno pacote nos braços de Lily fizeram seu coração acelerar como nunca. A ruiva segurava uma pequena mão saindo do pacote.
Era por aquilo que ele lutava e queria continuar a lutar. Era pela felicidade de todos eles, para acabar com toda a ameaça do mundo e dar um mundo melhor para eles, para todos eles.
E agora para o Pequeno Prongs.
- Harry! - James sussurrou ao seu lado. - Harry James Potter.
- Como o bisavô e o pai. - Sirius respondeu hipnotizado ainda pela cena de Lily com o Pequeno Prongs. O pequeno Harry.
Ao ouvi-los, Lily levantou os olhos marejados para ele. Ela estava nitidamente cansada, mas sua felicidade a deixava linda, como sempre.
- Chegue mais perto. - Ela o chamou.
Nos braços de Lily, Sirius pôde ter a visão de algo que abalaria todas as suas estruturas. Um bebê adormecido, a boca levemente aberta. Ele tinha uma cabeleira incrível, escura como a de James, apontando para todos os lados como a de James. O nariz era igual a do pai, mas havia algo de Lily por ali, talvez o queixo, talvez a boca...
Era engraçado poder reconhecer os pais em um bebê. Ele nunca tinha conseguido diferenciar bebês, mesmo nunca tendo contato com muitos, mas ali, no colo de Lily, sendo o fruto de um casal que Sirius amava tanto, era fácil distingui-los em um único rosto.
O bebê abriu levemente os olhos, resmungando. E ali James havia perdido. Os verdes que o encararam de volta vieram diretamente de Lily. Uau, ele nem pensou existir um bebê com olhos tão bonitos assim.
- Muito óbvio dizer, mas os olhos dele...- Sirius deixou a frase no ar e se aproximou.
- Os olhos de Lily. - A voz de James em suas costas era cheia de orgulho.
- Mas ele é uma cópia do pai. - Lily comentou abrindo mais o cobertor para Sirius vê-lo melhor.
- Sinto muito por isso. - Ele brincou fazendo Lily sorrir e James bufar em suas costas. - Mas vamos esperar e ver se a natureza não ajuda mais tarde.
Mal havia conhecido o Pequeno Prongs, mas dentro dele algo mudou. Olhar para Harry lhe deu uma calma, serenidade sem tamanho quanto lhe deu determinação. Iria cuidar daquela criança com a sua vida, não importando se Voldemort viesse atrás dele ou não, se apenas tivesse que atravessar uma rua ou precisasse de ajuda com deveres.
Sirius iria protegê-lo, segurar sua mão e ensiná-lo. Sentia que faria tudo por ele.
- Hey Harry. - Ele o chamou baixinho. O bebê apenas continuou com seus olhos pesados de sono, encarando Sirius. - A gente vai se divertir tanto, carinha.
Um alarme suave soou pela casa. Lily pegou a ideia do feitiço que usava na casa dos Evans antigamente e colocou na Potter Cottage, porém, sem os cachorros latindo ferozmente.
- Deve ser Moony. Ele disse que viria. - Disse James.
Engolindo em seco, Sirius arrumou a postura, mas sem tirar os olhos de Harry. Há meses que tinha uma relação complicada com Remus. Depois do pequeno embate na cozinha, alguns dias depois da morte de Fleamont e Euphemia, decidiu engolir o Sirius Justiceiro e resolveu se tornar o Sirius que mantém um olho em tudo. Ninguém conseguia encontrar o espião, algumas informações continuavam a vazar e os membros da Ordem ficavam cada vez mais encucados uns com os outros.
- Padfoot, poderia me fazer um favor?
Imediatamente ele parou de pensar em qualquer coisa e focou em Lily.
- Claro. O que precisa?
- Poderia ficar com Harry um momento? Eu preciso ir...! - Ela apontou para a porta do banheiro do outro lado do corredor.
Lily não esperou por sua resposta e já levantou, ajeitando Harry nos braços para passar para ele. Um turbilhão de medo o atingiu, todas as imagens horríveis dele derrubando Harry no chão lhe atingiram, o receio dele começar a chorar assim que Lily saísse. Mas Harry pousou em seus braços como uma pena e, instintivamente, Sirius se ajeitou e o acolheu, encaixando-o perfeitamente.
- Eu já volto. - Ela disse e saiu do quarto.
Aquilo era impressionante. Harry era tão pequeno, perdendo-se em seus braços, parecendo de mentirinha. Era tão leve também, mas seus braços o carregavam como se fosse algo pesado e delicado, lhe dedicando cada músculo para mantê-lo seguro.
- Só nós dois agora, Pequeno Prongs. Aliás, eu sou o tio Sirius, mas pode me chamar de Padfoot. - Harry continuou em sua paz. - Sei que você é pequeno, tem algumas horas de vida ainda, mas nunca é cedo demais para termos essa conversa. - Sirius andou até a janela e olhou para fora, conferindo se tudo estava ok. - Vamos em todos os jogos de Quadribol que quiser, mas teremos que conversar sério sobre o time que você vai torcer. Você tem três opções de casa para ir em Hogwarts. Dizem que tem uma quarta, mas é lenda...não escute quem diz que existe Sonserina e nunca queira ir para lá.
Harry se mexeu devagar em seus braços e Sirius congelou, receoso em deixá-lo cair.
- Honestamente, com os seus olhos verdes, eu acho que você vai chamar a atenção da galera por lá, igual o seu tio. Eu vou te ensinar como lidar com isso e não deixar tudo isso subir à cabeça. Pode acontecer, sabe.
- Não subiu para a sua?
James e Remus estavam parados na porta, o assistindo.
- Não, eu sempre soube lidar bem com a popularidade. - Respondeu.
- No seu mundo dentro da sua cabeça, só se for. - Remus respondeu e entrou no quarto, se aproximando.
Tentou controlar a decepção, a raiva que sentia. O olhar de Remus para Harry era tão amoroso, carinhoso...era possível ser um espião e amar alguém que o seu suposto chefe quer matar?
- Onde está Lily? - James perguntou.
- Disse que ia ao banheiro. - Sirius respondeu sem tirar os olhos de Harry.
Tendo alguém próximo, alguém que ele desconfiava tanto, fazia os pelos da sua nuca se arrepiarem. Apertou Harry em seus braços e tentou lembrar em qual bolso tinha a varinha. Se Remus fizesse qualquer coisa, estaria mais do que pronto para agir.
- James apenas fez uma cópia de si. - Remus riu ao perceber o quanto Harry parecia com o pai. - Lily vai ficar louca com os dois.
- Ele tem os olhos de Lily. - Sirius disse em um resmungou, já Harry tinha os olhos fechados agora.
- Sério? Merlin, eles souberam como fazer uma criança bonita.
Olhou por cima dos ombros de Remus e percebeu que James já não estava mais na porta, sequer dentro do quarto.
- Onde estão os dois? - Perguntou. Remus olhou para trás.
- Não sei, James estava comigo há dois segundos. Eles devem saber que Harry está em boas mãos.
Merlin, se Remus era um espião, ele era bom em disfarçar. Inferno!
- Harry nunca ficará em mãos erradas. Não se depender de mim.
- Acho que todos nós sabemos. Vimos como você ajudou e apoiou Lily desde o começo, como tomou conta dela e o quanto fez por James nesses últimos meses. - Remus apoiou uma mão no ombro do amigo. - Você é ótimo, Padfoot, sempre foi.
- Serei ainda melhor quando pegar o espião e chutá-lo para fora da Ordem.
Sabia que Remus sentia o peso e o olhar que recebia com aquela frase.
- Todos nós queremos pegá-lo, Padfoot.
- Mas eu quero ainda mais. Não vai sobrar um pedaço sequer desse maldito...
- Oh, que papo mais pesado para um bebê.
Peter estava na porta do quarto agora. James logo atrás.
- Wormtail! - Os dois o cumprimentaram.
Outro que andava bem sumido era Peter. A saúde de sua mãe se deteriorava cada vez mais, fazendo-o muito cansado e caído. Em todas as reuniões da Ordem, o amigo estava cabisbaixo, quase não parecendo querer participar. Era fato que sua mãe faleceria em pouco tempo e aquilo parecia sugar toda a energia do maroto.
- Prongs, Lily trouxe um verdadeiro pedaço seu para o mundo. - Disse Peter ao ver Harry ainda nos braços de Sirius.
- Harry tem os olhos de Lily. - Sirius, novamente, se viu dizendo. Não que fosse incômodo o fato de Harry ser, realmente, a cópia de James, mas sentia que todos deveriam saber que ele tinha os magníficos olhos de Lily. Tinha a impressão de que, mais tarde na vida, Harry teria seus pais bem distinguidos quando chegasse em algum lugar.
- Tem? Que cara de sorte. - Peter comentou. - Parabéns, Prongs.
- Obrigado. - James respondeu com um sorriso eterno.
Por um momento, os quatro marotos apenas olhavam para Harry adormecido em seus braços. O silêncio que caiu começou cheio de tranquilidade, até todos sentirem uma névoa recair sobre eles.
- Vai ficar tudo bem. - Remus foi o primeiro a dizer.
- Nós faremos ficar bem. - Sirius completou. - Com espião ou sem espião.
Peter apenas concordou.
James assentiu e colocou as mãos no bolso, olhando para o filho. A ternura que ele exalava era nítida para todos e fez com que o peito de Sirius apertasse mais.
Caminhou até o amigo e devolveu Harry para o pai. Sabia que James, assim como ele, nunca teve um bebê nos braços. Mas parecia tão certo para o amigo, tão óbvio que seu papel de pai estava escrito em algum lugar, pois James segurava Harry como se tivesse nascido com o filho enrolado ali.
- Tudo bem por aqui?
Lily apareceu na porta com um conjunto todo de chá. Remus se apressou para pegá-lo de seus braços.
- Francamente, Lily. Você trouxe Harry há algumas horas e está fazendo chá para nós? - Remus dizia.
- Vocês são visitas.
- E você é a mãe! - Sirius apontou para a poltrona ao lado do berço de Harry. - Sente-se e não se mova mais.
Assentindo, ela foi até a poltrona e se acomodou. Por não lutar contra, estava claro que Lily estava bem cansada e pronta para não se mexer mais.
E naquele fim de noite, naquela entrada de Agosto de 1980, um fio de esperança de que as coisas poderiam dar certo, cresceu. Se existisse um espião, ele tomaria conta dele. Se Voldemort quisesse pegar Harry, teria que lutar contra muita gente antes. James e Lily ficariam seguros e, se a vida quisesse ser um pouco justa, Remus não era o espião.
E ele dormiu, em sua forma de animago, na frente da Potter Cottage, assim como muitas outras noites, para garantir que aquele fio de esperança continuasse vivo.
A guerra piorou e muito.
Voldemort estava cada vez mais forte e Sirius não conseguia entender o porquê.
O ministério lutava contra, a Ordem lutava contra, mas nada parecia ser o suficiente. Cada dia que passava, o exército do outro lado crescia, novos grupos se juntavam e mais baixas começavam a ter do lado deles.
Fabian e Gideon foram mortos. Pelo o que soube, foi uma batalha e tanto. Os irmãos foram corajosos e fortes, levando alguns Comensais com eles no começo, mas cinco outros se juntaram e tiveram que ralar muito para levar os gêmeos.
Marlene caiu quando a notícia chegou, Lily mal podia crer.
"Fiquei devastada pela notícia sobre os Prewetts. Verdadeiros guerreiros."
Eles trocavam cartas toda a semana. Sirius aprendeu a escrever longas cartas agora, querendo saber tudo sobre Harry e a vida na Potter Cottage e adorava receber as cartas de Lily com os detalhes. Porém, tinham que tomar cuidado. Dumbledore deixou explícito para que todos deixassem os sentimentos e emoções o mais superficiais possíveis, para caso houvesse uma interceptação, Voldemort não começasse uma guerra emocional. Mas eles conseguiam ouvir Dumbledore e deixar claro o quanto estavam devastados. Eles se entendiam nas entrelinhas.
Porém, não era apenas de lágrimas e tristeza que a vida se fez.
Apesar de toda a loucura da Ordem e da guerra, Sirius podia dizer que vivia um dos seus melhores anos. Era diferente daqueles anos felizes em Hogwarts com os marotos, não que um ou outro fosse mais forte. Eram apenas...felicidades diferentes.
Em Hogwarts, ele descobriu uma nova família, integrou-se a ela. Teve amor paterno de verdade pela primeira vez, teve amor fraterno de modos mais puros, amizades que nunca imaginou ter. Mas hoje em dia, sentia que a família se fortificou. Apesar da saudade de Fleamont e Euphemia, James e Lily viraram as imagens de pais de todos. Viu o quanto os dois cresceram e amadureceram após o casamento, após terem a vida constantemente sendo arriscada e quando Harry chegou, tudo mudou. Para melhor.
A profecia ainda os rondava, criando testas franzidas, fim de dias com muitas preocupações, mas era fato que Harry merecia ter a melhor infância de todas, então tudo relacionado a qualquer coisa da profecia, era proibido em sua frente.
E Sirius se empenhava a cada dia para trazer o sorriso banguela de Harry à tona.
Ele era um bebê tão fácil e apaixonante, que ninguém passaria por ele na rua sem querer brincar com aqueles cabelos escuros, espessos e bagunçados, junto com seus olhos verdes brilhantes. O único problema era que Harry não saía, nunca. Aproveitavam o jardim, talvez até um pouco na frente da casa, acenando para vizinhos...mas passeios pelo Beco Diagonal para sorvetes? Não. Ir até a loja para comprar brinquedos? Infelizmente não.
Harry não sabia o que estava perdendo, já que nunca teve tudo aquilo, mas James e Lily? Era óbvio que sofriam. Uma vez, surgiu a ideia de usar disfarces e a capa de invisibilidade, mas era tudo tão incerto, que ninguém quis arriscar.
Não que isso impedisse Sirius de trazer toneladas de sorvete do Sr. Fortescue ou brinquedos. Eles brincavam por horas, mesmo quando Harry mal conseguia manter-se sentado sozinho ainda.
Seu afilhado era um sopro mais do que agradável em todas as feridas da guerra.
Sim, afilhado. Mal pôde acreditar quando foi pedido para tal. Seus olhos arregalaram tanto, que James e Lily riram por um bom tempo. Seu coração não podia ficar mais feliz. Lhe dava a sensação de que o horizonte poderia ter algo bom, que boas coisas estavam vindo, que a tempestade não duraria para sempre.
Foi uma cerimônia simples e rápida com apenas os quatro. Sirius trouxe champagne, Lily preparou um bolo delicioso e James...bem, James ajudou a comer e beber.
Foi no final desse dia, sentados no jardim da Potter Cottage que James se soltou dos sentimentos que guardava por tanto tempo, enquanto bebia sua sétima taça de champagne.
- Eu estou com medo, Padfoot.
- Não te culpo e não estou surpreso.
O sol se punha naquele meados de Julho e criava essa atmosfera quase aterrorizante com a conversa que começaria.
- É um medo que eu nunca senti. Um medo bem diferente até daquele que sentia ao ver meus pais doentes. - James suspirou. - É um medo tão vivo, carnal. Eu olho para Lily e vejo o medo nos olhos dela e só penso que gostaria de oferecer uma vida melhor. Às vezes, eu até penso...até penso que voltar no tempo ajudaria. Não namorar com ela?! Não casarmos?! Naquela noite que fizemos sexo, por que eu não fiz isso ou aquilo?! - O maroto deixou a taça no chão ao seu lado e passou as mãos pelos cabelos. - E então eu olho para Harry e eu não consigo me imaginar sem ele. Assim como eu não consigo me imaginar sem Lily. - Os olhos castanhos esverdeados se viraram Sirius. - Eu sou egoísta? Por estar morrendo de medo por eles, mas se tivesse um vira-tempo, eu ficaria devastado de não tê-los?
- Não acho que isso te faz egoísta. Apenas humano. Um humano que ama os dois com tudo o que tem.- Sirius tomou da própria taça. - E eu sei que se você tivesse um vira-tempo, usaria mesmo estando devastado.
James riu um pouco de leve.
- Eu pedi um para Dumbledore.
Sirius arregalou os olhos. Ter cogitado era uma coisa, mas ter ido atrás?
- E o que ele disse?
-Bem, nós ainda estamos aqui com o problema, não?
- Para ser sincero, se você tivesse mudado algo, eu não saberia, saberia? Talvez você usou e algo mudou, mas você é o único a saber.
Os dois pararam de falar ao ouvir a gargalhada de Harry vindo da casa. Lily o preparava para dormir, lhe dando banho. Era sempre uma aventura tentar dar banho em Harry, pois sua magia ficava louca, espalhando água e sabão para todos os lados e em todos no cômodo.
- Dumbledore não achou uma boa ideia. - James finalmente respondeu.
- Dane-se Dumbledore. Ele não é seu dono ou de ninguém.
- Você me arranjaria um então?
Aquilo o pegou de surpresa. Com certeza faria tudo o que pudesse para ajudá-los, até mesmo surrupiar um vira-tempo para o amigo. Mas pensar que tudo aquilo poderia mudar, que James se afastaria de Lily ou que evitasse ter um filho no dia que o tiveram...aquilo o acertou em cheio. Eles se amavam, estavam mais unidos do que nunca e as coisas não estavam finalizadas.
- Foi o que eu imaginei. - James comentou ao entender o silêncio do amigo. O maroto riu e deu de ombros, parecendo pronto para mudar de assunto. - Falando em Dumbledore. Lembra daquela carta que encontrei nessa casa? Uma carta enviada pelo meu avô à Dumbledore, mas que voltou para a maleta dele e estava em branco?
- Aquela que te fez ficar repetindo "eu sou um intrometido"?
- Exato. - James resmungou. - Eu consegui, finalmente, ler.
- Sério? Como?
- Eu estava com essa maldita carta na mão, pensando. Estou tentando me ocupar com algo além de encher o saco de Lily e Harry, sabe. - O maroto sorriu. - Nesse meio tempo, Harry teve um pequeno acidente, nada demais. A mão dele tinha um pequeno corte. Eu o peguei, a carta ainda na mão, e fui procurar por Lily e suas poções. Neste meio tempo, Harry tocou no pergaminho com a mão machucada e...Tudo estava lá. Cada letra, cada palavra, cada vírgula
- Oh! A carta precisava de um Harry?
- Não, a carta precisava do sangue Potter. Foi apenas coincidência um Harry Potter ter feito. - O maroto deu de ombro. - Você sabia que Dumbledore era amigo de Grindelwald ?
- Quê?!
Não queria admitir, mas ele deu uma pequena engasgada com a informação. Quem não engasgaria?
Merlin, Dumbledore? Amigo de Grindelwald ?
- Meu avô quis deixar o quão chocado ele estava também, e garantiu que Dumbledore recebesse o recado. - James deu de ombros e recuperou sua taça de champagne. - Enfim, havia coisas lá que eu não consegui entender, coisas que envolviam ir atrás de Grindelwald, Suprema Corte Bruxa, todas essas chatices. De qualquer maneira, essa coisa de Dumbledore e Grindelwald parecia ser um segredo que o nosso ex-diretor não queria que as pessoas soubessem. Deve haver informações a mais nessa coisa toda.
- Em qual sentido?
- Não sei. Não é a sua culpa se o seu amigo vira a casaca, certo? Por que ele ficaria tão receoso das pessoas saberem então? O que pode existir mais nessa coisa toda?
Sirius podia tentar responder, mas ainda estava preso no fato de que os dois eram amigos.
Talvez fosse esse o motivo de Dumbledore não querer que os outros soubessem: o choque, a comparação de dois grandes bruxos, mas cada um de um lado da balança. Talvez tivesse receio das pessoas desconfiarem dele?
- Não diga nada para Lily. - Pediu James. - Ela já tem coisas demais na cabeça, apesar de eu achar que Bathilda saiba alguma coisa sobre isso, pois já deu indícios do que pensa sobre Dumbledore. - James deixou um sorriso de lado escapar. - E a minha esposa está engajada em preparar o aniversário de um ano de Harry, isso a deixa feliz.
Ah, o pequeno aniversário que Lily estava planejando e Bathilda Bagshot na mesma frase não soavam tão bem. Aquela mulher, vizinha deles, era um pouco esquisita. Olhava para Sirius de um jeito que ele até estava acostumado: desejo feminino misturado com uma desconfiança para um Black. Ela não era má, mas tinha as conversas mais bizarras e, muitas vezes, não interessantes. Para Lily, porém, era outra coisa. A ruiva adorava ouvir as histórias que a mulher podia contar, fazendo-a descobrir muitas coisas do mundo bruxo.
De certa forma, era uma distração. Sirius gostaria de poder ser e trazer distrações mais interessantes com mais frequência, mas a Ordem o impedia.
- Eu vou tentar estar aqui para o aniversário. - Disse ele. O que menos queria era perder aquilo. Até já tinha comprado a vassoura para o afilhado.
- Eu sei que sim. - James deu um tapa razoavelmente forte em seu ombro. - Mas há prioridades.
- Harry é prioridade. - Corrigiu o amigo.
- De certa forma, sim. Mas contra uma guerra, o aniversário dele pode esperar. Lily e eu sabemos, não se preocupe. Remus provavelmente não conseguirá vir também e...
Sirius bufou. James revirou os olhos.
- Claro que não conseguiria...- Resmungou.
- Pare! - James pediu. - Não de novo essa história de Moony ser o espião.
- Prongs, você não vê as coisas claramente neste momento.
- Na época que você começou, eu também não via nada e tudo estava claro. Remus Lupin não é um espião.
- Mas James...
- Sirius! - James o cortou, sem paciência. - Não.
Fez um bico enorme. Sentiu-se literalmente uma criança levando bronca. Cruzou os braços e apoiou em seus joelhos.
- Você soa mesmo como um pai.
James riu com gosto.
- Que bom, pois eu sou um. Por mais estranho que isso soe às vezes.
O maroto de óculos deu um longo bocejo. Foi um longo dia para todos, com muita emoção. Depois da champagne, eles mereciam descanso.
- Eu acho que deu a minha hora. - Levantou-se cambaleando um pouco. - Fique com o espelho por perto.
- Padfoot, Lily e eu entramos em uma fase que me impede de estar sempre com o espelho, se é que me entende. Mas quando eu puder, eu manterei por perto.
Rindo, Sirius se levantou e puxou James pela mão.
- Não quero mais informações, eu entendi o recado. Quem sou eu para empatar qualquer coisa do casal. - Aquela informação, apesar de ser um pouco demais, lhe trouxe felicidade.- Fico feliz em saber que vocês acharam um jeito de continuar a vida, mesmo estando fechados aqui.
- Fomos obrigados. Não é fácil ficar trancado em casa sem muito para fazer, vivendo 24h com alguém. Sei que Lily fica bem cansada de mim as vezes e eu achei melhor arrumar jeitos para que saíssemos dessa loucura. Outro dia, eu criei uma espécie de mercado na nossa sala, com várias prateleiras cheias de enlatados e comida. Fingimos que podíamos estar lá fora fazendo uma simples compra para a casa. Até uma cesta eu transfigurei. Lily ficou com um sorriso de orelha a orelha. Agora, todos os dias tentamos fazer essas cenas cotidianas, o que acaba trazendo alguma normalidade na nossa vida.
James abriu a porta de trás da casa e deixou Sirius entrar primeiro. Ao passarem pela cozinha, encontraram Lily e Harry na sala brincando.
- Mais bolo, Padfoot? - Ela perguntou levantando-se.
- Talvez um ou dois pedaços para levar para casa?!
Sorrindo, Lily assentiu e foi para a cozinha. Harry continuou a brincadeira no chão, alheio aos dois homens o assistindo.
Seu afilhado. Que loucura continuava sendo pensar nisso. Virou-se para James, que tinha os olhos trancados no filho, o orgulho e felicidade que ele sentia sendo pai. E ele tinha apenas 21 anos. Quem diria?
- Aqui está. - Lily entregou uma grande embalagem para ele.
- Tem mais do que um ou dois pedaços aqui, Lilykins. - Sirius conferiu o peso da embalagem.
- Bem, sim. Dessa maneira, você irá se lembrar desse dia durante a semana.
O olhar de Lily apenas o fez ter mais ódio de Voldemort e o que ele fazia com eles, com aquela família. Com a sua família.
- Pa!
A voz de Harry chamou a atenção dos três. Ele tinha os braços levantados, pedindo para participar. James foi até o filho.
- Sempre louco para participar de algo acontecendo. - James dizia ao se aproximar do filho. - Ou louco para ter mais bolo.
Quando o pai se aproximou, Harry desviou os braços e os levantou novamente.
- Pa...- James se virou para trás, onde a esposa e Sirius também estavam confusos. - Pa...oot. Paoot!
O bolo quase caiu de suas mãos, mas Sirius conseguiu pegá-lo no momento certo.
- Oh! - Lily colocou a mão na boca, surpresa. James começou a sorrir.
- Padfoot, eu acho que ele quer você.
- Paoot! - Harry repetiu com os braços ainda no ar.
A embalagem sumiu de suas mãos - Lily a pegou de volta - e Sirius foi até o afilhado. Harry parecia satisfeito agora enquanto Sirius abaixava-se e o pegava.
Os Black não choram, repetia em sua mente. Não choram. Mesmo que seus olhos lutavam contra as lágrimas de emoção, sabia que algo estava errado, porque os Black não choram. Principalmente quando o seu afilhado lhe chamava por seu apelido, tão especial, pela primeira vez e após um dia tão gratificante quanto aquele.
- Pequeno Prongs. - Sirius disse com uma voz um pouco embargada. Ele limpou a garganta e tentou disfarçar. Olhou rapidamente para os amigos, que estavam abraçados os assistindo, e depois se virou para Harry. - Você disse meu nome.
- Paoot. - Harry repetiu dando pequenos pulos no colo do padrinho.
A cada "Paoot" dito, era mais uma luta contra as lágrimas.
E aquela cena antes de ir embora da casa dos Potter fazia tudo valer a pena. Cada missão, cada feitiço lançado, cada preocupação pela segurança deles e de todos, cada noite mal dormida ou nem dormida. Tudo, tudo valia a pena, porque ele tinha todos eles.
Porque Sirius, com as lágrimas de emoção que sempre lutava, sentia que era mais um Potter do que um Black e aquilo era a melhor sensação do mundo.
E tudo estava perfeitamente bem, na medida do possível, até aquela noite em que estava na sede da Ordem alguns dias depois.
Seus pés estavam acabados de tanto correr, seu corpo tinha marcas de feitiços que ele desconhecia. Remus estava na cozinha preparando chá, Peter estava deitado no sofá improvisado e Dorcas no andar de cima. Estavam de plantão, esperando por notícias, pois souberam que algo parecia estar para acontecer e Dumbledore deveria avisá-los.
- Onde está o resto? - Peter perguntou da sua confortável posição.
- Ocupados. - Remus respondeu trazendo a chaleira e xícaras para todos. Inconscientemente, Sirius sempre esperava que qualquer coisa oferecida por Remus fosse consumida pelo próprio primeiro. E, muito provavelmente, conscientemente, Remus sempre o fazia.
- Não deveríamos estar ocupados aqui na Ordem? - Peter voltou a perguntar.
- As pessoas têm outras missões, além de família e vida. - Respondeu Sirius. - Você também fica bastante tempo com a sua mãe, cuidando dela. Quantas reuniões ou embates você perdeu por ter que cuidar da sua família? Ninguém aqui ficou te julgando.
Peter estava cada vez mais reclamão e atitudes estranhas. Aquele garoto tímido e quietinho de antigamente começava a dar espaço para um cara que dizia algumas coisas sem filtro. Não que isso incomodasse Sirius já que ver Peter tomar as rédeas da própria vida era um milagre, mas não quando ele vinha cheio de atitudes erradas para cima das pessoas que ele se importava.
Dane-se, não importava. Na semana que vem seria o aniversário de Harry e ele mal podia esperar para visitar os Potter e trazer a primeira vassoura do afilhado. Tinha certeza que James ficaria louco de alegria ao ver o filho voando e Lily talvez teria algumas síncopes caso Harry voasse como o pai.
A porta da Ordem abriu com violência, tirando-o daquele pensamento feliz. Todos pularam e pegaram suas varinhas, apontando para a porta. Os passos continuavam apressados pelo corredor e assim que Frank finalmente apareceu, ele levou as mãos ao ar quando viu três marotos apontando para si.
- Diga! - Pediu Remus.
Frank ainda tentava recuperar o fôlego.
- Contrabando de firewhisky na casa dos gritos. - O homem disse em um fôlego só.
Certo, nenhum outro cara sabia do estoque que eles mantinham, apesar de Frank nunca ter ido até lá. Isso fez com que os três abaixassem as varinhas. Logo em seguida, Dorcas desceu as escadas e os encontrou na sala.
- O que houve? - Ela perguntou ao ver a expressão de Frank.
Ele abria e fechava a boca, tentando respirar. Que diabos, ele não aparatava? Veio correndo da casa dos Longbottom até ali?
- Desembucha, Frank! - Remus quase gritou.
Frank assentiu e arrumou a postura. Ele olhou para todos eles, os olhos caídos em tristeza. O estômago de Sirius começou a revirar.
- Ele pegou todos. - Frank soltou. - Eu, eu sinto muito. Alice, ela...eles pegaram todos da família.
- Nomes, Frank. Queremos nomes. - Sirius pediu.
Os olhos sempre gentis e doces de Frank caíram ainda mais.
- Eu sinto muito. A família McKinnon...Marlene...!
Remus levou as mãos à cabeça, Peter sentou no sofá e Dorcas caiu contra o batente da porta.
E Sirius ficou parado, encarando Frank. Paralisado, hipnotizado.
- Você quer dizer que mataram a família McKinnon? - Dorcas perguntou. Estava claro o que Frank queria dizer, mas seria bom ter a confirmação.
- Sim. Todos eles.
Marlene.
Não.
Sirius se viu saindo da sala, indo em direção à saída.
- Sirius, onde vai?
Era Remus seguindo-o até a saída, mas aquilo o fez acelerar ainda mais e explodir para fora da casa. Começou a acelerar, indo em direção à floresta, até que os passos apressados viraram uma corrida. Quando percebeu, já estava em sua forma animaga e as árvores passavam cada vez mais rápido ao seu lado.
Era aquele sentimento bizarro: seu sangue era mais quente; o olfato era tão mais elevado, sentindo cada pedaço da floresta ao seu redor, cada árvore e cada outro animal; o vento era diferente em suas orelhas, como soava. Mas sua mente estava quase em desacordo com o corpo.
Não era o animago que queria ser: um cachorro que apenas pensava em correr atrás do rabo, pegar as pulgas, dormir e comer. Infelizmente não era assim. Então corria, mais e mais, querendo que tudo o que passava em sua cabeça, fosse embora com o vento. Mas não ia, não estava adiantando, é claro.
Os Black não choravam, um animago também não.
Mas Sirius já não se sentia um Black mais, e mesmo estando em sua forma animaga, não sentia que estava 100% um cachorro. Sua cabeça, seus pensamentos, estavam vencendo.
E ele não era um Black mais.
Voltou a sua forma humana. Os Black não choravam. Ele não era um mais.
Todos aqueles pensamentos o fizeram cair de joelhos na floresta, um enorme golfo de ar primeiro e depois as lágrimas tímidas. De raiva, de tristeza.
Marlene, a guerreira, maluca e maravilhosa Marlene. Aquela mulher merecia ter passado essa guerra, formado uma família - com quem fosse e do jeito que quisesse -, entrado no Ministério, talvez até mesmo virar Ministra um dia.
Sirius tinha um imenso orgulho dela. Diferente dele, Marlene nunca foi levada apenas como uma McKinnon, uma família inteira formada por pessoas do Ministério e tão importante no mundo bruxo. Não, ela era Marlene primeiro e era assim que ficou conhecida. Fez seu próprio caminho desde Hogwarts, sempre tão petulante, maliciosa, irônica.
E agora estava morta.
Seu peito apertou, seu estômago revirou.
Tateou pelo bolso e achou seu espelho. Encarou o próprio reflexo com a pouca iluminação que tinha. Respirou fundo inúmeras vezes, engoliu em seco mais outras.
- Prongs! - Chamou.
Não demorou muito para obter uma resposta. Ele precisava tanto passar a informação para eles, ao mesmo tempo que esperava que James não tivesse atendido. Lhe daria mais tempo para pensar em como faria aquilo. Mais tempo para digerir a informação.
Novamente se viu naquela horrível vida de adulto que nada vem com uma nota inicial, te preparando para a grande notícia. E odiava ser aquele que traz a grande notícia.
- Padfoot. - A voz de James estava levemente animada. Não se falavam de verdade desde o batizado de Harry. - Onde está? Mal te vejo.
- Onde está Lily?
- Lá em cima, colocando Harry para dormir.
James percebeu que havia algo errado, pois já se encaminhava para fora da casa. Agora os dois marotos mal se viam e Sirius sentia que estavam lado a lado.
- James, isso...- Agora não julgava Frank mais, pois mal sentia o ar entrar e sair, e mal diria ser pela corrida. Era pela dor, pelo desespero. -... Isso vai ser duro. Está horrível.
- O que aconteceu? - Agora o amigo estava longe do tom animado do começo. Sua voz estava baixa e profunda.
Aquilo estava mais difícil de dizer do que imaginava. As palavras que pareciam prontas para saírem de sua boca, queimavam em sua língua, em sua cabeça, em sua garganta.
- Marlene. - Foi tão baixo, que mal se ouviu. Mas James pareceu ter escutado alto e claro, assim como pareceu ter entendido.
- Não! - Aquela única palavra saiu como uma respiração. - Não, Sirius, não.
- Toda a família McKinnon.
Viu que James olhou para cima, provavelmente para uma das janelas da casa. Tirou os óculos e cobriu os olhos com o antebraço.
- Como soube disso?
- Frank veio nos avisar. - Sentia o falso sentimento de calma, porque sabia e via que James começava a se desesperar. Não só ele tinha que lidar com a perda de uma pessoa especial, mas havia Lily.
- Temos certeza dessa informação?
- Eu duvido que Frank viria com informação falsa sobre isso. Ele estava acabado.
- Porra!
A voz de James criou um eco que deve ter subido até o primeiro andar da casa. E sem trocarem nem mais uma palavra, os dois desligaram.
Pensou em ir até a Potter Cottage, mas sentiu que seria um intruso ali. Além do mais, havia seu próprio luto para tomar conta. Mas ao invés...
Aparatou.
Esteve apenas uma vez na residência McKinnon, poucos meses atrás. Marlene morava com sua família em uma bonita casa no campo. Ela tinha mudado para um apartamento não muito longe do Beco Diagonal, mas após suas lutas pela Ordem e sua família indo contra todos os manchados no Ministério, acharam mais seguro ficarem juntos.
Quando saía em missões, ela era um alvo muito desejado pelos Comensais. Se pudesse apostar, Sirius diria que havia um preço pela morte dela e de sua família. Um preço por suas cabeças. E agora que tinha a grande residência em sua frente, quase ao chão - indicando que houve muita luta -, tinha certeza de tudo aquilo.
A marca negra ainda estava alta no céu, enojando-o.
Fechou os olhos e caiu contra uma árvore.
Tinha a prova do que aconteceu na sua frente, mas ainda não estava acreditando, apesar da dor ser bem real, a marca negra ser bem real.
Outra lágrima caiu.
Estava apodrecendo por dentro, mas estava feliz por não ser mais um Black. Os Black não choravam e Sirius precisava chorar agora. E ali no escuro, com a marca negra parecendo brincar com a sua cara, deixou algumas lágrimas virem.
Marlene havia partido. Mais uma amiga, mais uma pessoa que merecia mais, mais um da Ordem levado por aqueles imundos.
Queria entrar na residência, ter a certeza do que aconteceu, mas sentia que era verdade. Sentia que um pedaço seu, um pedaço do grupo que eram, tinha a luz apagada, fazendo as outras luzes, as outras pessoas, perderem um pouco da sua luminosidade também.
Sentia-se com a energia fraca, bem fraca. Suas pernas também estavam assim.
Viu quando um esquadrão de Aurores aparataram logo em frente da residência. Reconheceu Moody de longe entre eles. Ele deve ter recebido a notícia pela Ordem e levou a informação direto para os Aurores. Poderia se oferecer para ajudar, mas sabia que Moody o chutaria dali, pois Sirius não estava ali para investigar, e sim para ter nomes e ir atrás de quem fez.
Queria vingança, pura e simples. Nada mais do que aquilo. E ele teria. Talvez não naquela noite, talvez nem nos próximos dias, mas aquela hora chegaria.
Sua vontade não parou de crescer nas próximas horas e depois. Uma semana havia se passado. Uma maldita semana que não ouvia a voz tempestuosa, a risada alta de Marlene em sua volta.
O aniversário de Harry havia passado e ele estava fora em missão. Nunca xingou tanto Voldemort como fazia naquela vez, quando ia atrás de dois idiotas seguidores daquele bosta pela Bulgária ao invés de estar em Godric's Hollow. Malditos fossem! Deveria ter estado com o seu afilhado, ajudando-o a soprar as velas do seu primeiro bolo do seu primeiro aniversário. Entregar a vassoura em pessoa, ajudá-lo a montar, ficar ao seu lado enquanto voava pelo jardim.
Deveria estar ao lado de Lily, que estava acabada, destroçada. Ao lado de James que tentava ser forte para ela.
Deveria estar ao lado de Marlene, que com certeza estaria no aniversário de Harry, estimulando a magia dele, ajudando-o a pregar peças nos pais ou em Sirius. Ela trazia tanta alegria para o garoto, sendo a tia que Petúnia deveria ser, dando todo o amor e carinho que merecia e mais. Ela sempre dizia que não queria ter filhos, que não desejava ter alguém que dependia tanto dela, sendo uma responsabilidade enorme que não combinava com ela. Mas não cansava de dizer o quanto amava Harry e que faria de tudo por ele.
Uma coruja bonita entrou pela sua janela da sala e soltou um pergaminho em seu colo. Seu coração disparou.
A coruja de Lily.
Não teve notícias deles desde sua conversa com James sobre os McKinnon e não ousava aparecer ou enviar qualquer coisa. Sabia que eles se recolheram para lidar com aquilo, que por mais que se sentisse parte da família, eles precisavam daquele tempo apenas para eles.
Abriu o pergaminho e respirou fundo antes de começar a ler.
"Caro Padfoot,
Obrigado, obrigado, pelo presente de aniversário do Harry ! Era de longe o seu favorito. Com um ano de idade e já voando em uma vassoura de brinquedo, parecia tão satisfeito consigo mesmo que estou anexando uma foto para você ver. Você sabe que só sobe cerca de meio metro do chão, mas ele quase matou o gato e quebrou um vaso horrível que Petúnia me mandou no Natal (sem reclamações). Claro que James achou engraçado, diz que ele vai ser um grande jogador de Quadribol, mas tivemos que guardar todos os enfeites da casa e dar um jeito de ficar sempre de olho nele quando brinca.
Tivemos um chá de aniversário muito tranquilo, só nós e a velha Bathilda que sempre nos tratou com carinho e vive mimando o Harry. Ficamos com pena que você não tenha podido vir, mas a Ordem vem em primeiro lugar e Harry não tem idade para saber que é seu aniversário de qualquer maneira!
James está se sentindo um pouco frustrado trancado em casa, ele procura não demonstrar, mas eu percebo - além disso, Dumbledore ficou com a capa de invisibilidade dele, então não há possibilidade de pequenos passeios. Se você pudesse visitá-lo, ele ficaria muito animado. Wormy esteve aqui no fim de semana passado, achei que ele parecia deprimido, mas provavelmente eram as notícias sobre os McKinnons. Chorei a noite toda quando soube.
Bathilda passa por aqui quase todo o dia, ela é uma velha fascinante com as histórias mais incríveis sobre Dumbledore, não tenho muita certeza se ele gostaria disso caso soubesse! Não sei o quanto devo acreditar, na verdade, porque parece incrível que Dumbledore poderia ter sido amigo de Grindewald . Pessoalmente, acho que ela está começando a caducar!
Com amor,
Lily."
Se você não conhecesse Lily Potter, diria que era apenas uma carta, nada demais. Mas cada palavra, cada sentença, Sirius via o quanto ela estava sofrendo.
Ela seguiu, como sempre fazia, as regras para se enviar cartas: sem muitos sentimentos, quase fria, se parasse para analisar. Mas Sirius a conhecia agora e sabia que ter começado a carta como se nada de muito grave tivesse acontecido, era só o jeito dela de desviar do que estava sentindo.
Não que Lily não estivesse feliz pelo seu filho e sua primeira vassoura, ou que não sentiu que Peter estava realmente esquisito e triste, ou até mesmo sua opinião sobre Bathilda e até Dumbledore - ela havia descoberto e duvidava que James disse que já sabia, fingindo surpresa também. Mas era uma carta sanduíche, ele diria: pão (assuntos aleatórios e até felizes), recheio (um comentário bem rápido sobre os McKinnons) e o outro pão (outro assunto aleatório). Estava cobrindo o que ela realmente queria dizer, o que estava louca para falar e demonstrar. Mas ela não podia por carta. E sentiu o quanto precisava ir vê-los, mais do que nunca.
Pegou a foto. Harry estava em todos os lados, voando tão rápido quanto a vassoura podia ir. James estava logo atrás, tão feliz em ver seu filho demonstrar tamanha destreza tão jovem. Lily estava sentada no sofá, o gato deles - maldito gato que ficava colado nele, parecendo rir do fato de Sirius não poder se transformar em cachorro a qualquer momento e correr atrás dele - estava deitado ao seu lado.
Era a foto de uma família feliz, de um fim de aniversário de um ano do primeiro filho. Parecia que naquele momento, tudo tinha desaparecido: Voldemort atrás de Harry, a morte de amigos e colegas, a guerra que só avançava...nada daquilo existia, apenas eles.
E era deles que Sirius precisava agora, portanto aparatou em Godric's Hollow e passou uma noite em meio às lágrimas e lembranças; abraços de Harry, Lily e James. E uma promessa de que tentariam mais arduamente estarem juntos. Sempre.
Lay down a list of what is wrong
Faça uma lista do que está errado
The things you've told him all along
Os conselhos que você sempre deu a ele
And pray to God he hears you
E reze para Deus que ele te escute
And pray to God he hears you
E reze para Deus que ele te escute
Foi jogado contra a parede e caiu no chão. Sua boca sangrava, sua cabeça devia ter centenas de estilhaços de vidro, seu rosto estava quase dormente de tantos feitiços que recebeu. Mas ainda sim, Sirius sorriu ao levantar- se. Sorriu por saber que aquilo não daria em nada.
- Você é uma vergonha, uma párea para a família, uma mancha no nosso sangue.
Bellatrix jogou outro feitiço, mas ela estava tão cansada quanto ele, então o errou por pouco.
- Eu adoro quando você fala essas coisas sujas comigo, prima.
Ela rugiu de raiva e se aproximou mancando, acabada, machucada. Era um duelo duro, entre dois bruxos que sabiam o que faziam, que eram bons no que faziam.
- Você sabe, não sabe? - Bellatrix perguntou a dois metros de distância agora. Seus cabelos escuros estavam uma bagunça, assim como os dele, tinha certeza.
- Provavelmente. - Sirius respondeu. - Se você acha que eu sei, então eu devo saber. Eu sempre fui mais inteligente.
Um outro feitiço e ele foi jogado contra a parede novamente, fazendo-o gargalhar.
- Você sabe onde eles estão.
Aquilo fez seu peito apertar, mas tentou não deixar transparecer.
- Se eu soubesse onde muita coisa está...- Não terminou a frase e arrumou suas vestes. Sabia que Bellatrix Lestrange, anteriormente Black, não iria tentar matá-lo. Não agora, não hoje.
Sentiu algo prender seu corpo contra a parede. Aquilo era quase como um alívio, na verdade, sem precisar aguentar o próprio peso nas pernas cansadas e machucadas.
- Nós sabemos o que foi feito. - Disse ela. A prima não estava sendo irônica ou sarcástica, mas séria. - Fidelius, hum? Quem deu a ideia? Apostamos que foi o velho.
Claro que aquela informação iria vazar. Cedo ou tarde, Voldemort - independente de haver um espião na Ordem e que parecia gostar de espalhar coisas importantes - iria descobrir. Afinal, ele estava atrás de Harry e ele não iria descansar até encontrá-lo.
- Será?! - Ele brincou. Seu corpo gritava por descanso. Quase considerava uma soneca ali mesmo.
- E temos certeza quem é o Fiel do Segredo.
Os olhos se trancaram em uma disputa muda.
Qualquer um saberia que Sirius era considerado família pelos Potter desde sua fuga. Ser acolhido pelos pais de James, virar praticamente seu irmão...isso era mais do que conhecido pelos Black. Sua mãe adorava soltar injúrias sobre isso, tentando difamar a família Potter; sua prima, muitas vezes, cuspia em sua direção ao vê-lo; seu pai sofria de desgosto; Regulus sentia-se traído...
Na cabeça de todos, não havia outra pessoa que guardasse um segredo dos Potter além dele.
- E me espanta eles terem feito tal coisa, pois você é um Black. - Ela continuou. - Um Black imundo, mas ainda um Black. Você traiu os seus de sangue, porque não trairia aqueles que não são?
Ela sabia quais botões apertar para tirá-lo do sério, para querer matá-la com suas mãos. Mas o feitiço apenas o apertou mais contra a parede, provavelmente após Bellatrix ver o perigo que estava correndo agora com a raiva do primo pronta para explodir.
- Você não poderia estar mais errada. - Ele comentou.
- Ah, estou errada, então? Você não é o Fiel do Segredo de James Potter? - Ela gargalhou daquele jeito horrendo dela que o irritava desde criança.
Ele sorriu - com raiva -, mas sorriu.
- Ah não, prima. Quanto a isso, você está bem certa, eu sou o Fiel do Segredo. - Ele confirmou. Bellatrix parou de gargalhar. - Está errada sobre eu ser um Black. Eu não sou um há anos, eu nunca fui um. E se eu decidisse ser, seria para acabar com todos vocês.
O feitiço o soltou da parede, levando-o novamente ao chão. Seu corpo todo tremia de adrenalina, raiva, medo e cansaço. Mas levantou e ficou cara a cara com ela.
- Você acabou de decretar sua morte, seu traidor de sangue imundo. O Lorde virá atrás de você e conseguirá o que quer.
- Não sei se você sabe, mas o Fidelius não funciona assim. Ele não pode arrancar o segredo por tortura, feitiço ou qualquer outro método. Ele o terá apenas seu eu falar de boa vontade e isso, prima, não acontecerá.
Ela sorriu de lado.
- E você pensa que está lidando com um amador. Todo feitiço tem um contrafeitiço. O Lorde das Trevas sabe e conhece muito mais coisa do que você sequer imagina.
Sirius engoliu com dificuldade.
- Eu duvido que ele seja poderoso o bastante para isso.
Bellatrix agarrou suas vestes e quase colocou o rosto contra o seu.
- Não ouse duvidar dele. Não falta muito para eu te matar, Sirius Black.
- Eu não duvido que falta pouco para me matar, mas você não irá ou não hoje. - Sirius desviou o rosto e aproximou de seu ouvido. - Porque você não pode. Se você me matar, o segredo morre comigo. - Sentiu o quanto aquelas palavras atingiram-na. - E o que o seu Lorde faria, então? Com certeza não seria te parabenizar.
- Se você morrer, os outros que sabem o segredo viram o Fiel do Segredo. - Ela disse com a voz um pouco incerta.
- E há qualquer um outro que sabe o segredo? Você quer arriscar?
Empurrou Bellatrix para longe, mantendo o seu sorriso superior ao ver o quanto ela estava perdida.
Sem perder mais tempo, ele aparatou.
Primeiramente, pensou que não sabia onde iria aparatar, mas assim que se viu no interior da Inglaterra, rodeado de mato e grilos, entendeu o que o seu inconsciente planejou. Uma parte de si pareceu ter entrado em "modo sobrevivência" e planejou algo em poucos segundos, tão rápido, que o seu consciente não havia captado até perceber onde aparatou.
Fez uma caminhada rápida. A pequena e modesta casa já estava à vista e seu coração estava cada vez mais certo do que fazia e sua mente trabalhava nos argumentos, no plano e no resultado.
Bateu três vezes na porta. Nem dez segundos se passaram até Peter aparecer, o olhar desconfiado, quase medroso.
- Padfoot?!
- Wormtail. - O amigo deixava a porta quase completamente fechada, impedindo que Sirius visse qualquer coisa ali dentro. - Como está sua mãe?
- Nada boa. - Peter saiu e fechou a porta em suas costas. - O que está fazendo aqui? Você está todo estropiado.
- Um pequeno reencontro em família, não importa. - Ele jogou a mão no ar. - Preciso de você.
- Com o quê? Eu tenho uma missão amanhã.
- Não é para a Ordem.
Peter o encarou.
- Sobre o que seria?
- Os Potter.
O maroto menor arregalou os olhos.
- Claro. Qualquer coisa.
Seu coração parecia duelar com a sua mente. Fechou os olhos, esfregou as mãos no rosto. Tinha que pensar, repensar. As palavras de Bellatrix vinham uma e outra vez, parecendo um bicho-papão dos mais assustadores.
- Você sempre quis fazer algo por nós. - Sirius começou encarando Peter. - Lembra de todas as vezes em que conversamos, que eu disse que você era importante, que deveria apenas parar de pensar que deveria fazer algo importante para sentir-se como um maroto?
- Sim. - Peter respondeu incerto sobre onde iriam. - Você sempre me entendeu um pouco mais nesse assunto.
- Porque eu me senti deslocado dos Blacks, sempre. Apesar de eu nunca querer me encaixar neles, você pensava que precisava se encaixar conosco e eu queria que você entendesse que era um de nós, independente do que fazia.
- Padfoot, por que está dizendo essas coisas?
Respirou fundo. Tinha que se acalmar, tirar Bellatrix da sua mente e tentar pensar direito.
- Se não está ocupado, precisamos partir agora. - Sirius deu uma rápida olhada na janela, tentando ter certeza que poderia tirar Peter de sua casa. - Chegou a hora de você sentir que está fazendo algo por nós, por eles. Algo maior do que qualquer coisa.
- Claro. Claro, claro. Do que eles precisam?
Sirius respirou fundo.
- De um Fiel do Segredo.
~SB~
James abriu a porta tão desconfiado quanto Peter havia feito. Ele observou seus dois amigos, Sirius e Peter, antes de abrir um pouco mais a porta.
- Diga. - Pediu.
- Wormtail mal ajudou com o mapa. Ele fez alguns desenhos aqui e ali e um dos corredores de Hogwarts mais parecia uma árvore do que o quarto andar. Deixamos de lado e ele apenas vigiava a porta da biblioteca.
Assentindo, James deu espaço para que os dois amigos entrassem.
Lily logo surgiu pelas escadas, curiosa sobre uma visita inesperada, mas assim que os viu, correu para abraçá-los.
- Eu estou tão feliz que estejam aqui. - Ela dizia após soltá-los. - Já jantaram? Temos muita comida, Harry mal comeu...
- Não sei quanto a Peter, mas eu estou bem. - Sirius respondeu. Peter recusou o jantar, surpreendendo a todos.
- Bem, você não está bem. - Ela disse. - Está todo arrebentado.
Começou a acreditar que estava pior do que imaginava.
- Eu vou ficar bem. - Ele sorriu, tentando tranquilizá-la. - Eu preciso falar com vocês.
O casal se entreolhou. Não os julgaria pelo receio que sentiam, já que há muito não tinham uma boa notícia.
Harry começou a chorar no andar de cima e James foi buscá-lo. Os pequenos olhos verdes pareciam felizes ao ver as visitas, mas estava claramente cansado e querendo dormir.
- O que aconteceu? - Lily logo perguntou quando o marido juntou-se a eles novamente.
- Wormtail, poderia esperar por nós na sala? Eu quero falar com eles a sós.
- Claro.
- Pode levar Harry com você? Ele vai dormir em dois minutos. - James pediu e entregou Harry para Peter.
O maroto olhou para todos, assustado.
- Não se preocupe, ele não vai chorar. - Lily garantiu.
Caminhando um pouco perdido, Peter foi para a sala, enquanto os três foram até a cozinha.
- Pare de enrolar. - James pediu. - O que está acontecendo?
- Ele sabe. - Sirius anunciou. - Voldemort finalmente sabe que vocês estão sob o feitiço Fidelius. Eles sabem que eu sou o Fiel do Segredo.
Lily fechou os olhos e James, como sempre, bagunçou os cabelos.
- Nós sabíamos que ele descobriria. - Lily começou. - Ele não é obtuso. Quando não nos visse ou ouvisse mais sobre nós em missões, ele saberia. Considerando que ele está atrás de Harry, claro que saberia que nos esconderíamos.
A aparente calma do lugar foi cortada por James jogando os pratos de cima da mesa no chão. O barulho assustou Sirius e Lily, que o assistiram andar pela cozinha de um lado para o outro.
- Prongs, nós sabíamos que isso iria acontecer. - Sirius reforçou.
- Saber e ver ocorrer são coisas diferentes. - Ele resmungou. - Você está visado agora.
- Também sabíamos disso e eu não me importo.
- EU ME IMPORTO! - James gritou
Harry começou a chorar na sala. Lily estava a ponto de sair da cozinha, quando Peter gritou de volta.
- Está tudo bem. Eu cuido disso.
Ela deu uma rápida olhada para sala e recebeu um aceno de Peter, deixando-a mais tranquila. A ruiva voltou e se aproximou do marido.
- James, por favor. - Ela pediu. - Isso é frustrante, eu sei. Não queríamos colocar ninguém em perigo desde o começo e eu sei que ter Sirius envolvido nisso te machuca a cada segundo, nos machuca.
- E não deveria. - Disse Sirius. - Eu sou o Fiel do Segredo com o maior orgulho, eu não mudaria isso por nada...- Ele fez uma pausa. Uma pausa suficiente para atrair os olhares do casal. - Mas eu não posso mais ser.
Uma rápida compreensão passou pelos olhos de Lily e James, obrigando-o a continuar:
- Não, não entendam errado. Escutem! - Levantou as mãos e se aproximou deles. - Voldemort sabe que eu sou o Fiel do Segredo e ele sabe como o feitiço funciona. Podem me torturar até eu ficar louco, mas o feitiço impede que eu cuspa o segredo de qualquer jeito. Porém...talvez ele saiba um outro jeito do segredo vir à tona.
- Que jeito? - Eles perguntaram juntos.
- Eu não saberia dizer. Bellatrix disse que...
- Bellatrix? - James perguntou assustado.
- Foi apenas um reencontro familiar por acidente, não importa. Ela quem disse sobre o Fidelius e que Voldemort estava ciente de tudo e ela disse algo...ela disse "todo feitiço tem um contrafeitiço". E se for verdade?
Lily se virou em direção a janela e James abaixou a cabeça. Nenhum deles era expert no feitiço Fidelius, nunca precisaram ser. Sirius nunca imaginaria ter que usá-lo na sua vida, menos ainda ter que estudar sobre. E estudar sobre não era o ideal agora, pois eles não tinham tempo de ler todos os livros para tentar descobrir se havia um contrafeitiço ou não.
- Dumbledore saberia. Eles nos avisaria. - Lily finalmente quebrou o silêncio.
- Dumbledore não é perfeito. - James respondeu e olhou para Sirius. Ambos pareciam pensar sobre a amizade do diretor com Grindelwald. Aquilo não o fazia ser mal, mas o fazia ser uma pessoa com um passado obscuro, desconhecido. Um passado que poderia ter de tudo. - E ele talvez não conheça um possível contrafeitiço por pensar não haver um, nunca ter procurado. Afinal, a vida dele não depende disso...mas a de Voldemort sim.
Ouviram a gargalhada de Harry ecoando pela sala. Era um som maravilhoso, mas quase uma tortura enquanto falavam sobre aquilo.
- Peter! - Sirius soltou o nome do amigo. James e Lily se voltaram para ele. - Nunca desconfiariam dele. Ele vive nas sombras, não tão ativo.
- Que? Você quer Wormtail como Fiel do Segredo?
- Seria perfeito, Prongs. Pense. Voldemort continuaria pensando que eu sou o Fiel do Segredo, eles virão atrás de mim e usarão tudo o que puderem para arrancar a localização, mas não conseguirão. Nunca, mesmo se usarem um contrafeitiço.
- Sirius...- Lily resmungou com dor em sua voz.
- É a melhor solução. - Estava quase animado com a mudança agora, sentindo que tudo se encaixava. - Talvez pensariam em Remus, mas como Remus é...
- Não comece, Sirius! - James o repreendeu rapidamente.
- Tanto faz. - Sirius revirou os olhos. - Wormtail nunca passaria pela cabeça deles. Muitos Comensais nos conhecem de Hogwarts, sabem que Peter fazia parte do grupo, mas não era nós. - Sirius apontou para James e depois para si.
- Eles vão te pegar, Sirius. - Lily choramingava. - E se há um contrafeitiço, não será uma xícara de chá de canela que terá que tomar.
Sirius segurou os ombros de Lily e tentou passar uma tranquilidade que ele mesmo não sentia de verdade, mas que precisava existir naquele momento.
- Se me pegarem agora, o meu maior medo não é morrer, não é ser torturado. É acabar por dizer onde vocês estão sob um maldito contrafeitiço que eu não possa lutar contra. Com isso, eu não poderia viver, Lily. - Os lábios dela tremeram. - Eu não quero mudar para Peter por medo pela minha vida, mas pela vida de vocês. Pela vida de Harry.
As lágrimas que ela segurava começaram a cair. James se aproximou e abraçou Lily pelos ombros, encarando Sirius.
Conhecia James tão bem que conseguia decifrar toda aquela loucura de pensamentos que viajavam em torno da cabeça do amigo. Era uma luta horrível, ele via. Algo que James não parecia ter controle e que o torturava, dia e noite.
- Isso não é uma escolha entre a vida da sua esposa e do seu filho sobre a minha, Prongs. - Decidiu dizer, querendo tirar aquele peso dos ombros dele. - É sobre agirmos antes deles, é sobre fazermos nossos planos darem certo...garantir que Harry fique bem.
Os olhos de James estavam quase fechados, como se sofresse uma dor física terrível. O maroto engoliu duas vezes, deu um beijo nos cabelos de Lily.
- Chame Peter.
Tinha sido como uma última respiração para James.
Peter veio rapidamente após Lily pegar Harry e levá-lo para dormir. James se perdeu em um pequeno escritório no térreo da casa enquanto Sirius encarava o outro maroto restante.
- Peter. - Chamou o amigo ao ver os olhos do maroto quase rodando. - Peter!
Peter virou o olhar para ele.
- Isso é louco. - Ele disse baixinho.
- Sim, é louco. Você terá nas mãos a informação mais importante das nossas vidas, mais do que o mapa, mais do que sermos animagos. - Peter assentiu sem nem mesmo perceber. - Eu vou cuidar de você, entendeu? Vou me certificar que as missões da Ordem não mudem, que você continue junto à sua mãe. Lembre-se: você é um maroto. Não esqueça disso. Por Merlin, não se esqueça disso. Você é tão bom quanto eu para estar nessa posição.
Aquilo daria certo, teria que dar. Peter sabia a importância daquilo e saberia lidar com aquilo. Ninguém viria atrás dele, ninguém desconfiaria. Sem querer ser maldoso, mas ele era considerado o membro menos importante entre eles, sem destaque, sem glória, sempre nas sombras. Até imaginava que algumas pessoas sequer lembravam de sua existência.
Isso não tirava o quanto era querido pelos marotos, claro. Não tinha ligação com os sentimentos. Mas Peter era o que era aos olhos dos outros.
Quando James voltou com um livro antigo e que claramente pertenceu ao seu avô, Lily também apareceu. Na última vez, Dumbledore foi o responsável pelo feitiço, mas agora teriam que se virar sozinhos, além de terem que repassar a informação de um para o outro.
Deixaram nas mãos de Lily após um rápido estudo em conjunto. Não demorou, assim como havia sido na primeira vez. Foi estranho, porém. Antes, quando sentiu o segredo se envolver em sua alma, agora ocorria o contrário: sentia que algo se descolava, algo adesivo que era arrancado devagar de dentro de si, diluindo. Viu quando o feitiço começou a trocar, quando Peter começou a ser o responsável pela informação, pela localização de James e Lily. Seus olhos arregalaram levemente com a sensação - a qual Sirius conhecia.
Tudo finalizado, eles ficaram em silêncio.
Peter era o novo Fiel do Segredo de James e Lily e isso bastaria para mantê-los bem.
Teria que bastar.
Where did I go wrong?
Onde eu errei?
I lost a friend
Eu perdi um amigo
Somewhere along in the bitterness
Em algum lugar no meio dessa amargura
And I would have stayed up with you all night
Eu teria ficado com você a noite toda
Had I known how to save a life
Se eu soubesse como salvar uma vida
Tudo estava calmo. Tão calmo, que era assustador, quase horripilante.
Há dias a Ordem não tinha que correr atrás de Comensais. Há dias o sinal de perigo não soava, não havia mortes em dezenas no Profeta Diário. Chegou a especular-se que Voldemort havia morrido.
Sirius não caía naquela ladainha. Ele não estava morto, não estava doente e muito menos tinha decidido ir para a América e virar ator.
Voldemort estava aprontando e aquilo lhe dava arrepios.
Da sua janela, via o pouco movimento da rua. Os trouxas passeando, crianças correndo com fantasias para cima e para baixo. Aquilo o fez lembrar do último Halloween que passou em Hogwarts e todas as fantasias dos alunos, as brincadeiras com os doces, os beijos roubados...
Lembrou de Marlene. Estavam flertando pesado naquela época e Sirius, apesar de não ser apaixonado pela garota, adoraria ter uma chance com ela. Foram dias bons, onde pensava que se preocupava bastante com o mundo aqui fora, mas que mal imaginava o quanto pioraria.
Para sua surpresa, no escuro da rua, viu uma sombra que conhecia bem. O seu jeito de andar, como seus braços balançavam, até como evitava pisar em linhas. Aguardou, um pouco escondido pela cortina, para ver o que ele faria. A sombra pareceu pensar, talvez até querer partir, mas decidiu atravessar a rua em direção ao prédio.
Sirius se afastou da janela e foi até a porta, varinha em punho. Ouviu os passos pela escada desde o primeiro andar. Um passo cansado, lento, como se cada degrau doesse.
A pessoa parou em frente a sua porta. Sirius continuou esperando. Duas batidas firmes soaram depois.
Atendia ou fingia não estar em casa? Lançava um feitiço antes de anunciar ou pegava-o de surpresa?
- Eu sei que você está aí, Padfoot. - Disse Remus. - Se não quiser abrir, basta falar, assim nenhum de nós perde tempo.
Revirando os olhos, Sirius abriu a porta. Remus estava nitidamente precisando de uma boa noite de sono e ele não parecia querer esconder aquilo de ninguém.
- O que está fazendo aqui?
- Posso entrar? - Não deveria, mas lhe deu espaço. - Tentarei não me demorar. - Comentou Remus parando no meio da sala.
- Pois então comece.
A varinha estava dentro da sua manga, pronta para uma defesa. Apesar dos pesares, não atacaria Remus. Tinha uma enorme desconfiança, mas não tinha provas - ainda -, ou suporte dos outros, menos ainda de James. Então atacar um membro da Ordem estava bem fora de cogitação.
- Eu sinto que as coisas vão mal. - Remus começou. - Há muitas conversas nos bastidores, muitas especulações.
- Do que fala?
- Voldemort. - Remus engoliu em seco. - Ele parece estar a ponto de fazer algo, mas ninguém sabe.
- E como você teria tantas informações assim, Moony? - Sua pergunta pingando com ironia.
- Eu estive por aqui e ali nos últimos dias, tentando ouvir algo quando as coisas "acalmaram". Ninguém está caindo nessa de que a guerra está melhorando ou que estamos ganhando. Algo grande está chegando, Sirius.
Estalando a língua, Sirius se recostou no batente da porta da sala. Seu papel nunca foi de atiçar o fogo, mesmo estando absurdamente preocupado.
- Estaremos prontos para isso.
- Acha mesmo?
- Se levarmos em conta a sua positividade, não. Mas eu acredito na Ordem.
- A Ordem está virando farelos! - Remus deixou a calma de lado. - Estamos longe de ganhar qualquer coisa.
- E graças a quem? Ahn? - Sirius respondeu tão nervoso quanto. - Se não tivéssemos um maldito no nosso meio, estaríamos melhor.
- Não é só por termos informações vazadas que estamos perdendo. - Remus argumentou. - Eles estão ficando cada vez mais fortes.
- Nós também!
Os dois respiravam fundo, tentando controlar a raiva. Sirius desviou o olhar primeiro e se afastou.
- Se veio aqui apenas para falar o óbvio, muito obrigado. Na próxima, eu tentarei não ser tão inteligente e esperarei suas ótimas conclusões. - Disse amargamente.
Remus suspirou e partiu para a porta da frente. Antes de sair, ele se virou:
- Você os visitou recentemente?
Ele não precisava especificar de quem falava.
- Sim, sempre que posso.
O amigo sorriu.
- Eu os visitei alguns dias atrás. - Sirius pensou que Remus os visitou antes de trocarem o Fiel do Segredo. Se o amigo tentasse fazer isso agora, provavelmente entenderia que algo estava errado. - Fiquei feliz em vê-los bem. Harry está tão grande...
- Sim, ele está. Vai ser um maroto espetacular. - Sirius se permitiu sorrir ao pensar no afilhado.
Eles fizeram uma pausa. Por um momento, voltaram à época onde tudo era mais leve, onde não existia desconfiança, onde Sirius confiava em Remus cegamente. Seu peito pesou ao olhar para o amigo, sentindo uma tristeza sem tamanho. Uma chateação repentina que o acertou no fundo da alma. Saudades de ter os amigos por perto, de rir com eles, de apenas viver.
- Tentei visitar Wormtail mais cedo, mas não o encontrei.- Remus quebrou o silêncio.
- Ele não estava em casa com a mãe?
- Não. Ouvi a voz dela, porém. Parecia...bem?!
Algum milagre havia ocorrido e a mãe de Peter havia se recuperado? O maroto vivia dizendo que a mãe mal se movia agora, precisando do filho 24h por dia, o que impedia Peter de estar disponível o tempo todo para a Ordem.
Sirius havia dito que cuidaria dele, que o protegeria por ser agora o Fiel do Segredo, mas Peter dizia que não era necessário, já que ele não sairia de casa para nada por conta dela.
- Vou tentar contatá-lo.
Remus assentiu, parecendo pronto para partir, mas novamente parou seu caminho para fora do apartamento e encarou Sirius:
- Eu fico feliz por você estar tomando conta deles, Padfoot. Mesmo com tanta gente amando-os, você é excepcional nisso.
E assim, Remus saiu do apartamento, deixando-o sozinho.
Ao seu lado, na mesinha de canto e em cima de alguns livros, viu a chave da sua moto. Estar confinado naquele pequeno apartamento estava matando-o.
Pegou a chave de sua moto e saiu. Após um feitiço de desilusão, ele arrancou no ar. Não tinha destino, não tinha algo que queria realmente fazer. Pensou em ir até a Potter Cottage, mas suas visitas estavam sendo frequentes e não queria se intrometer na vida da família. Apesar de tudo, eles mereciam ter uma rotina, seguindo a vida o mais normal possível.
Poderia tentar achar Peter e ver se tudo estava bem, mas se sua mãe melhorou a ponto de deixá-lo livre por algumas horas, ele deve ter querido sair e esclarecer a cabeça. Remus deveria estar voltando para os Comensais para dizer que veio até sua casa para brincar de "estar preocupado" para alguém da Ordem. Alguns meses atrás, iria até a sede para tentar encontrar alguém e conversar, talvez beber algo, mas a maioria estava com a família agora.
Gostaria de estar de volta em Hogwarts, aproveitando o jantar de Halloween e apenas pensar sobre o quanto de sobremesa ainda conseguiria comer. Ou se a pegadinha que prepararam iria dar certo ou se Filch os pegaria antes.
Ficou voando por tanto tempo enquanto pensava em tanta coisa, que mal via para onde ia. Era algo que gostava de fazer nesses últimos tempos: pegar sua moto e ver onde iria parar, deixando apenas uma máquina trouxa modificada ser a responsável por seu deslocamento, sem usar mágica para aparatar ou o que for.
Ali em cima, era tudo tão silencioso quanto estava lá embaixo, mas com um pouco mais de paz. Enquanto passava por algumas nuvens, o frescor parecia acalmar toda a preocupação que tinha, dando a velha sensação de que tudo estava caminhando, tudo daria certo.
Uma luz azul clara chamou sua atenção vindo da sua esquerda.
Era uma fênix. O patrono de Dumbledore.
Aparentemente, a velha sensação de que tudo estava caminhando estava prestes a cair por terra. Diminuiu a velocidade da sua moto e deixou o patrono se aproximar enquanto trazia uma azia com ele.
"Há algo de errado. Temo que deva ir checar o segredo."
Azia não era nada comparado ao que sentiu ao ver o patrono desaparecer com aquela frase.
O que porra...?
Acelerou a moto e virou para o Oeste. Nem sabia se respirava, mas apenas sentia dor ao tentar fazer aquilo. Suas mãos suavam, suas pernas tremiam.
- Idiota! - Xingou-se e aparatou com a moto e tudo. Estava tão sem saber o que fazer, que nem pensou que poderia aparatar para ir mais rápido.
Assim que a moto bateu com violência contra a rua do centro de Godric's Hollow, Sirius já não sabia mais o que pensar. Seus olhos estavam focados em seguir o bom caminho e chegar o mais rápido possível na Potter Cottage.
Dumbledore devia estar louco, ou talvez confuso. Ninguém sabia que haviam mudado o Fiel Do Segredo e se Dumbledore estivesse tentando encontrar a casa ou percebido que não estava ciente do endereço mais - já que Peter havia compartilhado o segredo apenas com Sirius - , seria normal que o velho achasse que algo estava errado. Devia ser isso, com certeza. Apenas isso.
Bom, aquilo não o impediria de estar na cidade tentando achar algum problema. Afinal de contas, Dumbledore sabia que Godric's Hollow era a residência dos Potter, apesar do Fidelius impedir que achassem a família. Poderia ficar rondando o lugar até trombar com James ou Lily na rua, o que não iria ocorrer, mas era um jeito de tentar.
Começou a diminuir a velocidade. Assim que avançava pela rua, sentiu a poeira e pequenos detritos começarem a atingi-lo, quase o cegando. Teve que passar a mão no rosto duas vezes antes de perceber que sua visão havia diminuído drasticamente por conta de uma nuvem de poeira branca. Começou a tossir e seus olhos quase não tiveram tempo de ver a multidão que apareceu em seu campo de visão agora.
A moto deslizou por alguns metros enquanto apertava os freios, impedindo que acertasse todas aquelas pessoas.
O que estava acontecendo? O que tinha acontecido naquela cidade tão sem importância? Show de Halloween? Alguma criança surrupiou a varinha do pai e botou o prédio dos correios abaixo?
Seu cérebro começou a inventar desculpas. Apenas uma coisa importante vivia naquele lugar, mas ele se recusava a pensar que algo havia acontecido, porque não era possível. Tudo estava bem, não tinha motivos para não estar. A coisa importante, a sua família, estava bem, estava segura. Dumbledore estava maluco dizendo que havia algo errado, Remus estava maluco ao dizer que ouvia algo nos bastidores e aqueles moradores da cidade estavam malucos por se aglomerarem no meio da rua!
James, Lily e Harry estavam bem. Estavam ótimos!
Eles estavam sob um maldito Fidelius, porra!
Pulou da moto e começou a correr até a casa que ele sabia que teria no fim daquela rua e para onde todos pareciam olhar. Mas ao invés de ter a visão da bela e imponente Potter Cottage, ele encontrou mais e mais pessoas cercando a casa, muitas discussões, uma barulheira horrível.
Começou a passar por eles, jogando quem fosse para os lados, tentando chegar até a casa. Seu coração estava tão disparado, seu desespero não o ajudava a respirar - ainda mais com toda aquela poeira -, e apenas tentava chegar até a casa.
A casa dos seus melhores amigos, do seu afilhado. Da sua família.
E ali estava ela. Os olhos cinzas congelaram ao ver o lado direito do andar de cima. Ao invés de telhado e janela do quarto de Harry, ele olhava para um buraco enorme, um pouco de fumaça escura saindo dele.
- Harry! - O nome dele parecia uma faca afiada saindo de sua boca.
Empurrou as pessoas novamente, correndo até o portão. Havia algumas pessoas ali, logo abaixo da destruição que virou o quarto do seu afilhado. O mesmo quarto que Sirius o colocou para dormir na última vez em que esteve ali.
" - Eu volto em alguns dias. - Ele disse para um Harry dorminhoco e deitado em seu berço.
- Tente vir para o Halloween, Padfoot. Eu vou fazer algo para as crianças da cidade. - Lily dizia atrás dele.
- Eu vou tentar, mas acho que vocês merecem um pouco de descanso de mim. Eu estou aqui a cada dois dias.
- Não nos importamos. Queremos você sempre aqui conosco."
Deveria ter vindo, aceitado o convite de Lily para passar aquela data com eles. Se ele apenas soubesse...
Não. Não era o fim.
- JAMES! LILY! - Gritou ao passar pelo portão.
As pessoas olharam para ele. Não se envolvia com ninguém da cidade, além da velha Bathilda, então ninguém deveria estar entendendo quem era aquele cara desesperado ali gritando.
- Sirius?! - Aquela era a voz de Hagrid? Hagrid estava ali?
Aquilo foi o bastante para ele entender que algo horrível tinha acontecido. O que Hagrid estava fazendo ali? Como ele estava ali? Sua cabeça não parecia estar apta a realmente raciocinar naquele momento, apenas parecia bem o bastante para reagir.
Ele correu em direção a voz ao mesmo tempo que ouviu um choro. Um choro de bebê.
Vindo da lateral da casa, Sirius teve a visão de Hagrid - o que até assustou alguns trouxas, fazendo-os darem passos temerosos para trás -, com algo pequeno contra o peito.
- Harry! - Sirius sentiu um alívio ao ver o afilhado. - HARRY! - Sua garganta falhava com toda a poeira que tinha em sua garganta.
A cabeleira escura de Harry estava quase branca. Hagrid tomava todo o cuidado, segurando o garoto como se fosse algo valioso. E era, Harry era. E assim que Sirius conseguiu chegar até Hagrid, não fez cerimônia em tirar Harry de seus braços.
Harry chorava copiosamente, mas não parecia muito machucado. Apenas...apenas uma cicatriz em sua testa. Em forma de raio.
- Você está bem. Eu estou aqui. - Sirius o abraçou com força, sentindo o pequeno coração de Harry bater tão louco como o seu. - Está tudo bem. Padfoot está aqui! - De repente, seu peito começou a apertar ainda mais. Ele se virou para as pessoas em sua volta. - Há duas pessoas. HÁ DUAS PESSOAS AÍ DENTRO.
Ele passou pelas pessoas curiosas e começou a ir para a porta da frente, onde lhe daria fácil acesso à casa.
- Sirius! Eles...- Hagrid apareceu em sua frente, impedindo-o de continuar. - Sirius...James e Lily...eles estão...
- Não. - Disse baixinho. Segurou Harry com mais força, acalentando o garoto que ainda chorava. - Não, Hagrid. Não, não estão.
Eles não podiam. Olhou para a casa e só conseguia pensar que o quarto de Harry foi o único cômodo atingido e que ele mesmo estava bem. Se estava bem, então James e Lily estavam bem.
Eles tinham que estar.
Suas pernas falharam. Finalmente falharam após tantos meses sentindo-as tremerem com adrenalina, mas mantendo-as firmes como podia. Sentiu Hagrid o segurar.
- Eles estão bem, precisam de ajuda. - Sirius tentou pegar o caminho para a porta da frente, mas Hagrid não saiu de sua frente. - Saia da frente, Hagrid.
- Não sabemos o que aconteceu, Sirius. Preciso levar Harry. Não é seguro aqui.
- James e Lily estão vivos! Temos que ajudá-los. Não fique aí parado. - Ele disse ignorando o meio gigante e conseguindo passar por ele finalmente.
Harry parecia se acalmar em seus braços, acalmando Sirius ao mesmo tempo.
Tudo estava bem, tudo ficaria bem. Harry estava vivo, James e Lily também.
Mas assim que alcançou a porta da frente, foi impedido novamente por Hagrid. A sua grande mão caiu pesada em seu ombro. Não poderia dizer que era um grande conhecido de Hagrid ou que tinha qualquer laço pessoal forte, mas entendeu o olhar que era dirigido à ele. Cada linha de sua expressão de pesar.
Sua cabeça rodou, seus olhos desfocaram por um instante e sua boca abriu, como se não tivesse músculos o suficiente para mantê-la fechada.
Não. Mil vezes não. Aquilo não estava acontecendo.
Sem nem perceber o que fazia, Sirius entregou Harry para Hagrid e abriu aquela maldita porta.
O corredor da entrada estava uma bagunça. Havia um cheiro horrível que ele não poderia descrever e que deixaria Lily louca. Assim que ele a achasse e a levasse para o St. Mungus - porque apesar de tudo, ele sabia que eles estariam feridos - , a ruiva ficaria louca da vida com o cheiro e bagunça.
Entrou vagarosamente na cozinha. Havia uma caixa de leite em cima da pia, um cheiro de chocolate misturado com o odor desconhecido e poeira. Mas o lugar estava vazio, então continuou.
Não havia ninguém na sala, mas viu duas xícaras em cima da mesa de centro.
Estava pronto para ir em direção às escadas, quando o seu coração parou. Seus olhos arregalados tentando ver na escuridão, tentando reconhecer o que via. Sua respiração cortou, seus pulmões machucavam.
Caminhou como se estivesse sob ovos, não querendo chegar até o ponto em que via uma sombra. A cada passo, mais ele via um corpo aparecer atrás do sofá.
James parecia pacífico. Os óculos ainda estavam em seu rosto como se tivesse adormecido, como fazia no sétimo ano e caía de cansaço pelo castelo. Não havia uma cicatriz sequer, nem um sinal de luta nele. Seus cabelos estavam do mesmo jeito, vestia suas roupas confortáveis, uma camiseta de Quadribol...
" - Quando tudo isso acabar, vamos fazer uma turnê pelo país, Padfoot, e assistir cada jogo de Quadribol que existir, assim como tínhamos planejado em Hogwarts. - Disse James algumas semanas atrás. - Harry vai ficar louco.
- Lily também, se você levar o filho dela para longe por tanto tempo.
- Bem...- James riu um pouco. - Então talvez tenhamos que voltar para casa ao fim de cada jogo e viajar no dia seguinte para o próximo. Mas não tem problema, pois teremos tempo de sobra."
Se abaixou e segurou o rosto de James enquanto se afundava em suas lágrimas.
Ele não tinha lutado. Seu melhor amigo, seu irmão, sua família... não lutou. Ele simplesmente se foi. De alguma forma bizarra, Sirius parecia entender que foi uma escolha, pois James nunca deixaria de lutar, nunca deixaria sua família ou qualquer outra pessoa ficar em perigo, sem reagir. Então ele escolheu aquele destino...
James tinha decidido partir, decidido a própria morte. Ele era corajoso demais para aquilo, grifinório o bastante para aceitar aquele destino. O motivo de não ter lutado, porém, ele não sabia e poderia dizer que nunca saberia. Mas com certeza o amigo viu uma oportunidade de ajudar Lily e Harry.
Merlin, Lily!
Sirius se levantou e olhou pela sala, confirmando ter apenas James ali, então correu pelas escadas. O vento que vinha do quarto de Harry por conta da destruição era como socos consecutivos em seu rosto, em seu estômago. E era para lá que se dirigia, pois tinha certeza que não a encontraria em outro lugar...
Mais uma vez, seu mundo caiu.
Não prestou atenção no estado do quarto de Harry, não se deixou levar pelas boas lembranças que conseguiram juntar naquele mais de um ano juntos ali. Apenas sentia o vento e seu coração se despedaçando por inteiro ao ver Lily caída perto do berço de Harry. Ao seu lado, havia um livro com um pergaminho em pedaços.
E assim como James, ela estava serena. Sem marcas, sem cicatrizes. Lily também havia partido sem lutar, sem um duelo - coisa em que era tão boa -, apenas...se foi.
Eles se foram. Apenas se foram. Como se não tivessem rido até cair alguns dias antes, como se não existisse algo maligno atrás deles. Eles se foram. Se foram como se aquela noite não tivesse sido uma noite qualquer, uma em que Sirius perdeu horas e horas olhando pela janela da sua sala, pensando em como as coisas estavam calmas...
Eles se foram sem ele ter tido a chance de salvá-los, sem ter tido a chance de estar ali e ter lutado contra o que quer que tivesse ocorrido. Ficou a merda da noite toda sem fazer nada, enquanto James e Lily...
Enquanto eles partiam. E ele não tinha ideia, sem poder fazer nada.
Vagarosamente, pegou Lily no colo. James gostaria que eles ficassem juntos. Desceu as escadas com ela parecendo adormecida em seus braços e a deitou ao lado de James. Agora eles pareciam em paz, como se mesmo já tendo partido, eles pertenciam lado a lado.
Os Black não choram, mas foda-se toda aquela porra sobre sangue, porque Sirius Black agora chorava. Não chorava, aliás, mas estava em prantos.
Olhar para eles doía mais do que poderia explicar. Qualquer palavra que pudesse pensar não seria forte o suficiente para descrever, pois sentia-se destruído, morto, sem alma. Sentia ter partido com eles. Em um certo momento, as lágrimas secaram em seu rosto, mas a dor...a dor só crescia.
James e Lily estavam mortos. E levaram Sirius com eles.
Queria tentar entender, tentar juntar as peças daquele quebra-cabeça, mas não conseguia pensar, ainda não conseguia pensar.
James estava na sala, Lily e Harry no andar de cima. Mas apenas um deles sobreviveu. Não fazia sentido. Fizeram tudo o que podiam para esconder Harry, para salvá-lo...e, de certa forma, deu certo. Harry estava vivo, não é? Mas em nenhum outro plano James e Lily tinham partido. Eles também deveriam estar ali, vivos. Nunca, em momento algum e em nenhuma cogitação, eles deveriam estar mortos.
Um resmungo do lado de fora o chacoalhou. Seu corpo pareceu acordar.
Harry!
Seus olhos desviaram dos dois ao seu lado e Sirius se levantou, como se estivesse hipnotizado.
Saiu da casa e se deparou com Hagrid e Bathilda. Harry resmungou novamente ao ver o padrinho.
- Ele estava aqui. - Bathilda começou a falar ao ver Sirius. Sua voz estava trêmula. - Um homem de capa longa, escondendo o rosto. Assim que eu o vi, eu contatei Dumbledore.
Apenas naquele momento, Sirius deixou a realidade de toda a situação o atingir. Não a parte em que perdeu James e Lily, não a parte que Harry estava vivo.
Mas a parte de que Peter Pettigrew era o maldito traidor!
E ele, Sirius Orion Black, havia feito-o Fiel do Segredo. Ele, como um idiota imundo, um imbecil sem precedentes, disse para os amigos que aquele pedaço de merda passaria despercebido.
- Paoot!
Seus olhos cinzas e loucos se viraram para Harry.
Prioridades. Harry era prioridade!
- Me dê Harry, Hagrid. - Ele esticou os braços na direção do meio gigante.
- Eu sinto muito, Sirius, mas as ordens de Dumbledore é de que eu leve Harry.
- Eu sou o padrinho de Harry, eu sou o responsável por ele! - Apontou para o próprio peito, o mesmo peito que tinha um buraco tão grande quanto a casa em suas costas.
- Sinto muito. A segurança de Harry é mais importante agora.
- Eu posso mantê-lo seguro! - Sua voz começava a mostrar a dor que nascera e a dor que crescia em não ter Harry em seus braços. - Me entregue Harry, por favor.
Precisava de Harry e Harry dele. Era uma parte de James e Lily, a única parte que existia agora. Não podia perdê-lo, não poderia deixá-lo ir.
O que faria sem eles? O que faria sem Harry?
Os olhos de Hagrid vacilaram, mas ele era um homem de Dumbledore e Sirius sabia disso. Se Albus Dumbledore dizia para Hagrid levá-lo, não ocorreria de outra maneira.
- Desculpe, Sirius. Isso está fora de discussão.
Maldito fosse Albus Dumbledore!
Maldito fossem todos eles: Voldemort, Comensais, a tal louca que fez a profecia...todos eles!
Porém, havia um em especial. Um maldito que pagaria pelo o que fez. Sirius faria questão de trazer tanto sofrimento para aquele maldito homem quanto ele sentia agora.
- Pegue a minha moto. - Sirius entregou as chaves para Hagrid. Seu tom de voz já sem a fragilidade de antes.
Seu momento de fragilidade havia acabado, o momento em que se deixou ser apenas um cara enfrentando a morte das pessoas que ele amava, precisava ficar de lado agora.
- Contate Dumbledore depois. - Hagrid disse aceitando a chave da moto e estava pronto para partir, quando Sirius o parou.
Acariciou os cabelos do afilhado. Os grandes olhos verdes o encarando de volta, pedindo para que fosse para seus braços.
- Eu vou consertar as coisas, Pequeno Prongs. Por você, para você.
Deu um beijo longo na testa do afilhado. O amor que sentia por ele era tão grande, tão sem explicações, que apenas podia aceitar que Hagrid o levasse em segurança.
Assistiu os dois desaparecerem entre a multidão, com uma promessa de Sirius de que ele o reencontraria. Que ele honraria o pedido de James e Lily para ser seu padrinho e cuidaria dele.
Mas antes, ele mataria Peter Pettigrew.
E o resto seria história.
N/A:
Epílogo chegando dia 02 de Maio!
P.S: esse capítulo foi escrito baseado nos livros e não nos filmes, assim como tentei cobrir os buracos que a J.K deixou sem explicações (o que é bem difícil, aliás, porque tem coisa que não bate, mas enfim). Eu estarei postando e salvando considerações sobre ele no meu Instagram logo menos.
