Capítulo XVI - Tout ce dont nous avons besoin je sois – Parte 1
Segunda-feira
Algumas horas atrás...
Às vezes, determinados eventos só fazem sentido quando os observamos em retrospecto.
- Escuta... o que a gente tem a ver com isso?
Foi a pergunta que Harry fez no momento em que ele, Rony e Hermione saiam da torre da Grifinória para a próxima aula. Isso, após o comentário do ruivo sobre a reportagem de Rita Skeeter, mais exatamente, após a insinuação de que Harry utilizaria o Mapa do Maroto para procurar Yoh.
Na verdade, tinha sido uma das falas mais plausíveis e coerentes de Harry nos últimos tempos. Hermione olha rapidamente para Rony, como se pedisse socorro, mas o namorado também trava. Aquilo não era exatamente uma revelação que mudaria a vida deles, ou representava um período para Hogwarts. E, para colocar os pingos nos is, Rony já tinha 90% do mistério revelado, apenas não compartilhou algumas informações com os amigos por não achar que convinha tocar em determinados assuntos.
A resposta à pergunta não veio. E, embora Hermione estivesse excitada com aquele novo mistério, e por estar cheia de vontade para descobrir como esse segredo incrível- e bota incrível nisso - se relacionava com Sirius... caiu a ficha de que estavam procurando sarna para se coçar. Não era como se estivesse acontecendo uma grande invasão à Hogwarts, ou se algum item secreto tivesse sido roubado, ou criminoso fugido de qualquer lugar.
Enquanto caminhavam pelos corredores, ela cumprimentou três alunos que estavam encostados no parapeito, quase como se esperassem que o Filch os suspendesse por não se dirigirem à aula: Ana Abbot e Ernie Macmillan, monitores da Lufa-Lufa; e Justino Finch-Fletchley, artilheiro do time, assim como Ana. Ela se perde durante alguns estantes observando o trio, e como eles eram, de uma maneira curiosa, "Doppelgängers" dos seus amigos: o trio lufano tinha cabelos loiros; o dela, embora com variações, tinha tonalidades escuras. Ela e seus amigos eram grifinórios, e aqueles, lufanos. Ela era nascida trouxa, assim como Justino; Harry e Ana, mestiços; Rony e Ernie, nascidos de famílias bruxas – dos Sagrados 28 –. Mas as comparações paravam por ai: tirando a acidez corriqueira de Ernie que às vezes o aproximava de um Draco Malfoy, aqueles três eram o típico trio de estudantes que estava mais preocupado com as notas, do que em salvar o mundo.
Foi então que ela entendeu o comentário de Harry. No ano anterior saíram no encalço de Gina, preocupados com o Malfoy. Mas aquilo parecia ter ocorrido há uma eternidade e, sinceramente, não tinha sido diferente de qualquer briga de estudantes com a qual ela esbarra de tempos em tempos. Gina tinha o hábito de não levar desaforo para casa, como uma verdadeira Weasley, e só por milagre não ficou em detenção por desarmar ou enfeitiçar outros por causa de um desentendimento. Ela ter enfrentado um grupo inteiro de sonserinos para defender o irmão, no ano anterior, não tinha sido nenhuma surpresa. Olhando em retrospecto, tinham uma visão muito inocentes dos acontecimentos. Como se, a cada passo, procurassem algum mistério que tivesse como intuito salvar Hogwarts, os estudantes nascidos trouxas e, de quebra, frustrar mais um dos planos de Voldemort.
Não é que ela não sentisse que aquilo se encaixava nesses requisitos, mas a cara de Harry era outra: a de alguém que parecia estar disperso de suas preocupações, ou melhor, uma expressão que indicava a dúvida sobre a relevância que aquele assunto, de fato, tinha. Hermione se pegou observando como aquilo parecia ser do interesse de muita gente, menos de Harry. O monte de questionamentos que ele tivera há minutos? Dispersos.
Aquela, de fato, não era a expressão do mesmo garoto que, anos atrás, tomou poção polissuco e entrou na torre da Sonserina. Não é que Harry não tivesse razão ou, até, suas razões. Mas ele parecia totalmente desinteressado, como se ele fosse uma pessoa diferente de cinco minutos atrás. Era um estado de apatia, como se nem mesmo a perspectiva de entusiasmo pudesse fazer alguma diferença.
Qualquer respingo de interesse que Hermione tinha, a apatia de Harry prontamente o cortou. Naquele dia, quaisquer tempo livre que tiveram, permaneceram juntos. Conversaram sobre os plantões de Hermione como monitora-chefe, o envolvimento de Rony com o baile, e outras frivolidades.
Como qualquer estudante.
Alguns minutos atrás...
- Você está bem?
Já era noite. Na torre da Grifinória, Harry folheava um livro cuja capa indicava ser de transfiguração. Porém, qualquer um que olhasse em sua direção diria que ele nem estava prestando atenção naquilo, como se fosse uma ação automática.
Como tomada pela emoção, Gina entrou correndo na torre da Grifinória e encontrou Harry, Rony, Hermione e Amanda nas poltronas. Quando ela começou a saltitar e mostrou o anel em seu dedo direito, Rony quase engasgou com a própria saliva, e as meninas fizeram uma cara de que não conseguiam acreditar. Mas o que quebrou todo aquele efeito surpresa que surgiu na sala, foi quando ela caminhou até Harry e o questionou sobre seu estado.
O jovem de óculos teve vontade de saltar da poltrona. Não foi apenas a surpresa da voz de Gina dirigida a ele - algo que não ocorria há muito tempo -, ou o tom de preocupação. Ou qualquer outra coisa que os presentes pudessem ter pensado.
Foi porque o coração dele, naquele exato momento, começou a fremitar.
- Tudo - ele falava, encarando-a muito rapidamente sem se levantar - um pouco cansado, essa mudança de calendário tem sido terrível – e tentava responder da maneira mais formal possível. Aproveitou o livro para ter uma desculpa para não encará-la diretamente.
- Vê se descansa. E depois me avisa quando vai ser o próximo treino, a gente está sem praticar direito.
Nem ele acreditava. É verdade que o tom de voz de Gina nem de longe se aproximava da forma como conversavam no passado: havia menos formalidade numa conversa com Anne, do que com Gina. Mas aquela conversa estava ocorrendo. E isso o fazia ter vontade de vomitar. Tinha alguma coisa acontecendo naquele exato momento. Algo que não ocorreu quando, dias atrás, ocorreu a confusão perto do lago.
- Eu aviso. E... parece que as coisas ficaram bem mais sérias - ele olha de soslaio para a aliança no dedo anelar direito dela - então... parabéns?
- Algo assim, obrigada - ela acariciava a aliança no dedo.
- Bom... desculpe por ter agido como um idiota esse tempo todo, eu não tinha o direito. Devia ter te respeitado. Eu só... não sei o que deu em mim.
Harry falava enquanto abaixava a cabeça, evitando encará-la. Era como se cada palavra sua trouxesse à tona a própria vergonha que não queria vislumbrar. Ainda assim, sentia algo acontecendo, como se seu coração fosse um tambor, cuja batida aumentava a cada segundo.
- Não é porque eu estou chateada, que não me preocupo com você - havia uma seriedade na voz da ruiva, mas não desprovida de emoção -. Acontece que você é da família, o que significa que é importante pra mim. E eu não quero ter que explicar para a minha mãe o porquê de não estarmos nos falando quando você for lá em casa. Não vou fingir que essas coisas não aconteceram, Harry. Mas não quero passar a vida tendo rancores de você.
Ele sente um estalo que rompe a cadência, desacelerando seu coração. Simples assim? Aquilo o pegou de surpresa, pois teve que prometer uma retratação à Amanda... e Gina estava o perdoando, depois de tudo? Ele não fazia ideia do que se passava pela cabeça dela, do contrário, saberia das últimas conversas na qual a ruiva decidira que algumas coisas deveriam ser deixadas "para lá". Em suma, uma versão kneenziana da Weasley. Só o Kneen teria aquele sangue frio disfarçado de falta de preocupação para dizer o que ela acabara de dizer.
Harry ergue os olhos e, quando o faz, vê que Gina estava com o corpo dobrado, com as mãos apoiadas nos joelhos e o encarando. Ele pisca, surpreso pela proximidade e, quando se dá conta, vê que a mesma se aproxima ainda mais, o que o deixa aturdido. De repente, o rosto dela para bem próximo ao seu, e ela sussurra muito baixo, em seu ouvido. Mas antes que a voz dela chegasse, seu coração tornou a disparar, e o barulho fazia parecer como se a terra fosse rachar.
- Mas você foi muito cruel com o Yoh, e no momento mais difícil da vida dele. E mesmo quando as coisas continuaram piorando, você insistiu. E... eu tomei coragem e contei para ele o que você fez. Não posso pedir para ele que deixe isso para lá. Eu sei que isso foi antes das férias, e hoje nós temos coisas mais urgentes para resolver, mas... ele não vai esquecer. Se está tão disposto assim a remediar os problemas que causou, é bom que tenha isso em mente.
Ela fica ereta novamente, e continua encarando-o. Mas, dessa vez, era diferente. Não parecia aquele olhar de desaprovação que se prolongou nos últimos meses. Ou de tristeza, quando ele, por questões que agora lhe são mais claras, agiu de maneira egoísta, enquanto se questionava o porquê de estar tomando tais atitudes. Não. Por um breve instante, percebeu que Gina o olhava da mesma forma que fazia antes das coisas ficarem confusas. O gesto seguinte da ruiva o deixou totalmente sem reação.
- Eu te perdoo - e estende a mão para o Harry, o qual aceita o cumprimento, embora o tenha feito de forma automática, quase mecânica. Um monte de "como", "porque" e "quando" enchiam sua cabeça, pois não faziam o menor sentido. E nem para os demais presentes ali na sala. Amanda tinha uma vontade enorme de puxar a ruiva para um canto - a qual largou a mão de Harry e se distanciava - para questioná-la sobre que acontecera, mas não teve tempo: ainda saltitando, a Ruiva sinalizou para Rony e saiu correndo da sala, dando língua para ele. O ruivo perdeu alguns segundos tentando decidir o que era prioridade, antes de se levantar e correr dali, seguido por Hermione e Amanda.
Harry? Bom, era óbvio que aquela pequena reunião que estava para acontecer não carecia de sua presença, e a mesma não era desejada. Mas o que o fez não se levantar dali foi outra coisa, o levando a se sentir o ser mais miserável da face da terra.
Ainda naquela noite, depois do jantar...
- Eu sabia que iria enxergar a sua artimanha, mas não imaginei que seria tão cedo! Ficou doido?
Depois de fazer uma refeição rápida, acompanhou Gina até a torre da Grifinória e foi procurar Snape em sua sala. Bem depois, enquanto caminhava para a torre da Corvinal, quem ele encontra novamente?
Draco.
A fada da conveniência estava do seu lado, naquele momento. E, quando ela surge, deve-se aproveitar aquela situação de todas as formas possíveis.
- Arrogante, presunçoso, estúpido, demente, ignorante, desrespeitoso, fuinha, mané, vigarista, sangue de cabra, cabeça de bagre, criador de Weasleys, filho de uma...
- Opa! Xingar a mãe não vale!
- Vigarista, ordinário, mequetrefe, gentalha, imbecil, pedante, vulgar, ignóbil!
- Isso é um sim?
- Talvez eu tenha sido muito leniente com você - Draco retomava o fôlego em meio a uma sessão de xingamentos e insultos - mas o que faz você pensar que pode me fazer um pedido desses?
- Você disse que queria escutar mais sobre minhas "artimanhas musicais", Draco. É essa a ideia.
Andando ao lado de Draco, Pansy e Emma escutavam a calorosa discussão. Na verdade, há algum tempo observavam a forma como o "trouxa do Draco", um apelido usado entre alguns estudantes da Sonserina para se referir a Yoh, se dirigia ao Malfoy.
Em outros tempos, teriam expulsado Yoh, mas Draco continuava dando atenção a ele. Porque, não imaginavam. Era uma cena estranha para os que observavam: três sonserinos e um corvinal, lado a lado, andando pelos corredores.
- Para alguém que se acha o tal por conhecer UM POUQUINHO de história, deveria ter mais respeito com a família dos outros, Kneen!
- Tipo você xingando os Weasleys?
- Não mude de assunto! Não há situação no mundo na qual eu te autorize a fazer uma coisa dessas!
O tema era tenso. Enquanto conversavam e abordavam a proposta do show musical, com diferentes talentos se apresentando - ou tendo a oportunidade - Yoh propôs o que seria o ponto principal do evento: um recital. Antes, tinha sugerido um dueto, mas Draco recusou veementemente. A verdade era que, se por um lado não se sentia à vontade para passar vergonha em público, sabia o nível de suas habilidades.
O problema era que Yoh se propôs, nesse recital, a tocar uma sequência de 12 músicas, no violino. Naquele momento algo acendeu na cabeça de Draco e, olhando para o Corvinal, questionou o porquê de 12, ao invés de 11 ou 13. Especificamente 12. Como já havia escutado dois solos de Yoh, sabia que o mesmo tocava música mais no estilo clássico e, ao somar um mais um, sabia exatamente o que Yoh iria tocar.
- Kneen, se meu pai sonhasse que você respirou para falar essas palavras, esfolava você vivo e o prendia na entrada da cidade para servir de exemplo!
- Deixa de ser dramático! São só 12 músicas!
- Não são 12 músicas quaisquer! E para de fingir que não sabe do que está falando! Me respeite, seu trouxa metido a sabichão! Está se achando todo só por que sobreviveu a uma, mas acha que consegue tocar essas 12 músicas? Sua mãe, ou sei lá quem te ensinou a tocar isso, não te disse que dentre as músicas Malfoy, essas são as mais sagradas? A gente é tão preocupado com qualquer um tocando-as, que você pode sofrer um feitiço e cair duro, sabia?
- E quantas pessoas você conhece que sabem tocar música Malfoy por ai, com maestria?
- Você escutou o que eu te falei, seu energúmeno?
- Sim, bláblá, "Malfoy não lançam magias, mas, sim, maldições", conheço esse ditado.
- Se meu pai não te matar, essas músicas fazem o serviço!
- Está preocupado comigo? Estou lisonjeado! Está mais preocupado de eu passar mal, ou fazer você passar vergonha em público?
- Engraçadinho! Não posso autorizar qualquer um a tocá-las! Aliás, precisa da minha autorização porquê? Quer tocar uma ou outra? Boa sorte! Mas toca outra coisa, pode até tocar outra sequência de músicas da minha família, MENOS essas!
- Não é a mesma coisa, e você sabe! Tem que ser essas 12, elas contam uma história especial em sequência e...
- Eu sei que é uma sequência especial! Por isso que você não pode tocá-la, ainda mais em público!
- Não precisa levar tão a sério, quer dizer, pode levar sim, mas não dessa maneira! São músicas que todo mundo já ouviu falar, mas poucos tiveram a chance de escutar. Já imaginou? Quantas pessoas impressionadas? Os professores, o diretor, alguns alunos... e, em um lugar de honra, assistindo todo o espetáculo que você organizou, seus pais. Qualquer pessoa pode aprender a tocar essas músicas. Mas ter a competência para organizar ume espetáculo desses? Ah, isso eu quero ver!
- Você vai ter sorte se sobreviver à segunda música, Kneen! Se me lembro bem, você despencou depois da primeira que tocou! Não quero ver você tentar com as demais. Está se fazendo de surdo, por acaso? Não quero ser responsável por algo de ruim acontecendo a você!
- Draco - ele para de andar e coloca a mão no ombro dele. As demais, por reflexo, param e arregalam os olhos - você não me deu um presente de natal.
- Eu te mando um vale-presente, se é esse o problema - Draco o olhava de rabo-de-olho, mas ainda de costas. Surpreendeu às garotas o fato dele não mandar o Kneen tirar a mão dali.
- Não, eu quero um outro presente.
- Quer o que?
- O presente que eu quero que você me dê, vai ser me deixar te dar o maior presente que você já ganhou em toda a sua vida. Aquilo que você sempre quis.
- Saiam - Draco olhava para as duas sonserinas, as quais seguem caminhando, irritadas por não escutar o resto da conversa - que papo é esse, Kneen?
"Gotcha".
- Ah, você sabe – e deixava um sorriso amarelo escapar.
- Você não pode me dar o que eu quero.
- Claro que posso! Mas você tem que me deixar fazer isso.
- Ah, é? Então, me dá. Cadê?
- Sabe que não é simples assim. A gente já teve essa conversa antes. Eu sei exatamente o que você quer, e talvez ele venha de uma forma totalmente inesperada, mas... e ai?
- Para de enrolação, tá me deixando irritado! Fala de forma clara!
- Fala de forma clara – ele dava outro sorriso debochado.
- Afff! – Fala de forma clara... Yoh.
Ele abaixa os olhos ao ver que Draco se virou para ele, com um semblante de dúvida e curiosidade. Draco obviamente sabia que havia algo diferente com Yoh, mas tinha dificuldades para compreender o que era. Pensou ter visto alguma coisa quando, em sua mente, o rosto do Corvinal se sobrepôs ao de Jane, com uma mistura dos cabelos de ambos. Parecia familiar. Não conseguia lembra onde vira aquela combinação, mas...
- Lembra daquela conversa sobre seu pai ter orgulho de você? Posso fazer isso acontecer.
- Posso me virar – ele bate no peito – venci o Potter, não viu?
- Mas uma ajudinha nunca é demais, não acha? Falando nisso, o que ele achou da sua vitória?
- Ele me deu os parabéns, disse que estava muito feliz - como numa espécie de ato-falho, Draco falava em tom alegre, aumentando o tom da voz e sorrindo, até que se dá conta de sua postura e se policia, voltando à sua seriedade - digo, ele disse que eu fui bem. Que eu deveria fazer isso, correr sempre atrás da vitória.
- Os jogadores sempre querem a bola.
- Os jogadores sempre querem a bola - E se deu conta do que acabara de falar- por que você quer fazer isso, Kneen?
- Por que a Arte Malfoy é a mais bonita de todas. Principalmente a do período renascentista. E eu tenho certeza de que faríamos um belo espetáculo, não acha?
- Ai, ai... Kneen... Yoh... essas 12 músicas que você quer tocar, elas são nosso tesouro mais sagrado! Eu não posso te dar uma autorização formal disso. É mais fácil você simplesmente tocar uma aqui, outra ali, LONGE DE UM PALCO, de preferência na torre da Sonserina! Mas em um recital, eu não tenho essa autoridade. Na hora em que você começar a tocar, o meu pai manda cancelar o show, dizendo que é uma afronta!
- E se fizéssemos um pacto de desafio?
- Um pacto?
- É, isso! Você estipula um desafio. Se eu cumpri-lo, estará obrigado a me autorizar a fazer esse recital.
- Está me propondo um Voto Perpétuo?
- Ohohoho, alguém aqui falou nisso? Espera um pouco, eu disse pacto de desafio, não entendeu?
- E que raios de feitiço é esse?
- Não é um feitiço. É uma coisa baseada na palavra. Você propõe um desafio, e fica implícito que a pessoa irá aceitar os termos.
- Eu sei o que é um pacto, entendi quando você disse que não era um feitiço! E que desafio seria o suficiente para que meu pai não se sinta tão ofendido de um bruxo de pai trouxa tocar nossas músicas mais sagradas?
- Sei lá, pensa em alguma coisa, que tal eu ser capaz de tocar essas 12 músicas por 7 dias e 7 noites, de maneira seguida? Ou algo assim e...
- Ohohoho, espertinho! De onde você tirou isso de 7 dias e 7 noites?
- Foi a primeira coisa que me veio à mente, é um número mágico, sabia?
- Por acaso está querendo me enrolar, Kneen? - ele cruzava os braços, cerrando os olhos. Estavam há poucos metros da Torre da Sonserina, de modo que vários alunos passavam por ali, observando a cena.
- Se eu disser que não, acreditaria?
- Sim, eu acho.
- Hein?
- O que foi?
- Desculpe, geralmente o pessoal fica irado quando eu digo isso. Eu vou fazer assim, vou dizer duas coisa: uma dela é mentira; outra, verdade. O que dar de presente para alguém que, basicamente, pode comprar tudo o que quiser? Então, eu posso te garantir que vou te dar o maior presente que você já ganhou na sua vida. E é um ato desinteressado, digamos, em nome dessa nossa "relação".
Ele ficou encucado com aquilo. Afirmar que uma das coisas é mentira, também inclui dizer que tudo pode ser ou mentira ou, de maneira oculta, verdade. O fato é que não conseguia se decidir, pois era uma pegadinha que o Kneen gostava de fazer, colocar sombra em suas palavras. Até onde lhe constava, as duas afirmações poderiam ser verdadeiras ou falsas. Foi assim que ele resolveu arriscar.
- Ok. Vou aceitar sua proposta. Se você conseguir tocar no seu violino essas 12 músicas por 7 dias e 7 noites seguidas, eu, Draco Malfoy, vou autorizá-lo formalmente a executar, em nome dos Malfoy, um recital. Satisfeito?
- Quase! A gente precisa de mais uma coisinha!
Terça-feira
Ele abre os olhos, aturdido. Percebe que estava encostado no sofá da torre da Corvinal, esparramado e com a roupa do dia anterior. O problema era que não se lembrava de como fora parar ali. Sua última memória era de deixar Gina em frente ao Salão da torre da Grifinória e, em seguida, sair à caça do Snape. O professor não havia aparecido para jantar, naquele dia. E, depois dar uma série de explicações para seus amigos, optaram por sair mais cedo para... para...
Ele para e pensa. Lembrava da conversa que tivera com Snape, foi muito elucidativa. Porém, o motivo de tê-lo feito, naquele momento, lhe escapava. Era verdade que queria falar com o mestre de poções, mas não conseguia lembrar de um motivo plausível para fazê-lo naquele momento. E, a cereja do bolo: não se lembrava como fora parar ali. Como ele e Gina foram bem cedo para o Salão Principal, o tempo entre se despedirem e ele terminar de conversar com Snape não foi longo, ou seja, ainda era MUITO cedo quando terminou o encontro. O que fez nesse meio tempo?
Então, ele percebe que havia um pergaminho diante da mesa, e começa a dar mais atenção ao documento. Passados alguns instantes, ele lê tudo e suspira. Andou bem ocupado na noite anterior, com certeza.
Ele vê um outro pedaço de papel na mesa, o qual parecia ter um recado. Ao lê-lo ele se levanta e, girando a varinha, desamarrota a roupa, pega o pergaminho e sai dali, antes que se atrase.
Caminhando muito rapidamente, Yoh encontra um furioso Draco batendo os pés e com cara de poucos amigos em frente à sala dos professores. O Loiro parecia querer fuzilá-lo, e parecia estar ali, aguardando, há um bom tempo. Pensou em se desculpar, mas não teve tempo: assim que o viu, Draco puxou o pergaminho que segurava.
Yoh ainda estava um pouco desnorteado, mas, a julgar pela letra, fora o próprio quem escrevera aquele texto. E ali estava escrito tudo o que pensou em propor a Draco, palavra por palavra. Mas não se lembrava de tê-lo encontrado depois da conversa no salão principal, o qual deve ter ocorrido depois de ter ido falar com Snape. E o bilhete indicava para ele estar ali, naquele horário.
Claro, não é como se ele não soubesse o que realmente acabou acontecendo. Apenas a sensação que era estranha.
Draco, embora espumando pela espera, estava surpreso com a velocidade com a qual aquilo ficou pronto, e a quantidade de detalhes. O Kneen realmente pensou em cada ponto, observava. Palco, show, luzes, organização... sentia como se fosse ele, Draco, quem tivesse escrito, e fora feito dessa maneira com esse propósito. Antes de pensar em como iria assinar aquilo, vê que Yoh já estava com uma caneta de pena na mão. Pegou-a e, no final do pergaminho, o assina. Pronto, ele finalmente deu aquele passo. Teve dificuldades para dormir, pois a conversa da noite anterior, em retrospecto, fora muito estranha. Tinha uma crescente sensação de que aquela curiosidade que alimentava há meses pelo Kneen acabaria o colocando em maus lençóis.
Um minuto depois, Snape passa pelo corredor. Ainda estava muito cedo, e vários professores tinham o hábito de passar na sala dos professores antes de se dirigirem ao salão principal, às vezes, para buscar algo que preferiam não deixar em suas próprias salas. Se já não tivesse visto o Kneen em ação, poderia jurar que era coincidência, como se ele não tivesse marcado ali, naquele momento, de propósito. Tinha pensado em entregar ao Snape ao longo do dia, mas até ele ficou surpreso.
Para ser justo, de longe Snape reconheceu ambos. Naquele momento, Draco e Yoh estavam em lados apostos, cada um em um canto da parede do corredor, de forma que, para entrar na sala dos professores, teria que passar por eles, como se atravessasse uma espécie de arco.
Ambos o cumprimentam e, rapidamente, Draco estica para ele o pergaminho, pedindo que leia. Curioso mais pela presença da dupla naquele lugar do que pelo documento, ele toma o texto e o avalia com cuidado. Havia sofisticação nas palavras. Sutileza. E uma óbvia armadilha, embora não soubesse dizer qual era. A escrita de Draco era impecável, pensava, pois abordava minúcias que alguém deveria ter. De fato, o Malfoy era um bom aluno de poções, mas aquele grau de atenção para questões administrativas era maior do que esperava dele.
E ainda tinha o Kneen. A conversa que tivera com o Corvinal, na noite anterior, revelara-lhe mais do caráter daquele, do que nesse tempo todo que o observara. Sabia que ele não era um aluno comum, a julgar pela mãe que tinha. E, até mesmo, pelo seu histórico. Havia dúvidas que eram implícitas, por exemplo, o fato do pai do rapaz conseguir enxergar Hogwarts e, inclusive, ter entrado na escola, mesmo sendo um indivíduo desprovido de magia. Mas os apontamentos, as considerações e observações que Yoh fizera, dignos de um Corvinal, abriram seus olhos para questões que lhe passaram enevoadas.
Não tivesse o rapaz o visitado na noite anterior, isso lhe passaria despercebido. Mas era explícito que havia uma conexão, e aquele pergaminho escrito pelo jovem Malfoy era um sinal. Se dispusesse do devido tempo, desvendaria. Porém, tinha outros compromissos, e já aprendera há muito que, às vezes, a melhor maneira de se desvendar um mistério era deixá-lo livre para prosseguir.
- Esperem aqui - ele fecha o pergaminho e entra na sala dos professores, deixando-os do lado de fora.
A sala era mais ampla do que o esperado, fruto de um feitiço de expansão espacial. Havia mesas pequenas que se expandiam à medida que novas pessoas queriam se unir às conversas; poltronas, quadros falantes e um ou objeto saltitante. E havia uma mesa principal, normalmente grande, na qual algumas reuniões eram feitas. Snape se senta à mesa e, a primeira coisa que faz, é passar o pergaminho para as mãos de Flitwick, o qual deu um sorriso de puro êxtase, como fazia quando ficava feliz. Assim, teve certeza de que o professor, se não cúmplice, era conivente com aquilo. Em seguida, pediu que passasse para Minerva, a qual arregalou os olhos, surpresa. Depois, pegou novamente o pergaminho, levantou-se e caminhou pela sala, passando pelas mãos de alguns professores, não todos, como se escolhesse a ordem da leitura. Até que ele vê Jane adentrando na sala. Como ela fora para outro canto, ele propositalmente a ignora e leva o pergaminho para Dumbledore, o qual estava sentado à mesa principal.
Muita coisa ocupava a sua mente naquele momento. O cronograma escolar, as missões da Ordem da Fênix, as mudanças no Ministério da Magia. Talvez, por estar sempre recebendo notícias desconcertantes, que ele abriu o pergaminho e reagiu com surpresa, algo que não o faria em outro momento.
- Fílio, Severo... parece que seus protegidos andam bem ocupados.
- Oh ho-ho, professor Dumbledore - Flitwick manda sua voz com aquele tom brincalhão e sempre feliz - eu sou obrigado a admitir que é uma excelente iniciativa do jovem Malfoy! Isso pode dar ao evento uma importância ainda maior, e incentivar mais a participação dos estudantes!
- Parece-me um uso produtivo da energia dos mais jovens, professor Dumbledore. Bem mais útil do que perder tempo em caçadas heroicas para provar algum suposto valor. - e havia uma certa indireta de Snape para Dumbledore – Talvez, se outras casas pudessem cooperar entre si, dessa maneira, pudéssemos diminuir a animosidade que os Grifinórios criam ao expor uma pretensa superioridade que não possuem.
- Você leu este documento, Minerva?
- Bom... ele é bem inusitado, mas... eu não teria problemas em dar o meu aval, Alvo. E, ao que tudo indica, Severo e Fílio também não. Confesso que é intrigante ver um Malfoy e um suposto Black se unindo nos dias de hoje em prol de um objetivo em comum, mas... – ela olha rapidamente para Jane, a qual estava à parte da conversa – não vejo problemas, acho.
- Parece-me que você teve uma breve mudança da sua opinião a respeito do senhor Kneen, Severo. - Dumbledore lhe mandava um olhar, como se desconfiasse de alguma coisa.
- O Kneen é um indivíduo que, ao meu ver, soube reconhecer seus erros. Nesse tempo em que o observei, pude constatar como ele é capaz de reconhecer que ilusões de grandeza são para aqueles que não possuem talento para atingi-las.
Hooch, que estava à mesa, e McGonagall, olham de lado. O que deu no Snape? E não estava, até ontem, sendo duro com estudantes de outros anos da Corvinal, como uma birra pessoal que começou quando, no período anterior, o jovem Kneen interrompeu sua aula enquanto perseguia um pomo? De onde veio toda aquela boa-vontade?
- Do que estão falando? - Jane, em pé, se aproxima da mesa, parando ao lado de Hooch – E porque tem dois alunos parados do lado de fora da sala de professores?
- Ora, Jane, providencial o seu interesse. Estou em dúvida com relação a uma questão, e gostaria da sua sincera opinião sobre isso.
- Não vejo o porquê do problema, professor - Snape reclamava - é apenas um evento.
- Você está interessado nisso? - Jane abria o pergaminho, sem virar para Snape - então, com certeza é suspeito.
Ela leu aquilo com muita atenção. Os detalhes, as minúcias... foi até o fim, e leu as considerações, o pedido final feito por Draco. Não era o que estava sendo pedido, mas POR QUEM e PARA QUEM. Era uma óbvia armadilha, tinha cheiro de cilada e armação... mas ela não conseguia enxergar o que era. Não era preciso ser um especialista para saber que aquilo que Draco propunha teria um efeito muito positivo para os estudantes. E para seu status pessoal, obviamente. Mas a participação de seu filho ali era suspeita. Deveras. Sabia que Yoh estava aprontando alguma coisa, tinha o cheiro de uma artimanha sua em cada linha escrita. Era como um grau de complexidade escondido em meio à simplicidade de um pergaminho.
Assim, na condição de uma pessoa especialista em decifrar documentos antigos e descobrir segredos em meio a enigmas, ela tomou a atitude que lhe seria a mais plausível.
- Posso concordar com o pedido principal, mas nego o segundo. Façam o que quiserem, mas o senhor Kneen receberá as devidas punições se estiver ausente da minha próxima aula sem uma justificativa que seja diferente de um atestado médico.
- Seu profissionalismo é admirável, Jane - retrucava Snape.
- E eu continuo dizendo que você serve leite quente com biscoitos para seus alunos, Severo. Por que esse súbito interesse no senhor Kneen? Se quiser, posso fazer um requerimento ao diretor Dumbledore para que ele seja transferido para a Sonserina, assim você poderá lhe dar todo o amor que deseja, se preferir.
- Acho que devemos deixar os jovens seguirem o seu caminho, Jane. - Sprout se metia na discussão – Não sou uma musicista, mas tenho certeza de que colheríamos muitos frutos dessa interação.
- Também não vejo objeções. – uma voz que, até então, estrava em silêncio, se envolvia na discussão.
Em outra época, Jane ficaria corada de orgulho. Ela olhava para trás e, sentada em uma das poltronas, um pouco distante da mesa principal, estava Bathsheda Babbling. Não era a favorita dos estudantes, já que o Estudo das Runas Antigas, além de ser complexa, era eletiva. Além disso, seu filho tinha a pretensão de conseguir boas notas para fazer a classe avançada dela em Estudos Antigos. Era uma matéria extracurricular, mas, ainda assim, era necessário que, a partir de certo período, os estudantes tivessem um direcionamento para optar fazê-la. Sua disciplina de Runas, na verdade, era o terror de muitos alunos e, fosse Transfiguração uma disciplina também eletiva, muitos a deixariam de lado, pela forma como aborda a ciência da magia.
- É verdade que o senhor Kneen teve uma queda no seu desempenho esse ano na minha matéria, mas creio que, com tudo o que lhe ocorreu, não vejo problemas em autorizar essa breve dispensa. - Jane olha para a direção da porta da sala dos professores e, terminando de fechar um armário e segurando vários pergaminhos, outra professora também optava por entrar na discussão.
Septima Vector. Raríssimos estudantes tentavam um NOM nessa professora, ou melhor, nessa matéria. Foi um dos NOM´s e NIEM´s de Jane, em sua época de estudante. Yoh era aluno dela desde o terceiro ano. E a disciplina seguinte ministrada por ela, "Estudos Avançados de Aritmância", era a que ela queria que Yoh cursasse no sexto ano. Qualquer estudante que tivesse a mínima pretensão de entender as nuances da magia, por mais medíocre que fosse, cursaria aquela disciplina.
Não demorou para Jane perceber que aquilo tinha, também, o dedo de Severo. Ele claramente passou aquele documento pelas mãos dos professores do seu filho.
- Acho que isso pode ser uma excelente terapia para o senhor Kneen, já que ele anda passando por muito estresse esse ano. Ele demonstrou uma evolução musical surpreendente ao longo do último ano, pena que ele não está na orquestra do professor Flitwick.
Jane esticou o pescoço para identificar aquela voz. Na verdade, os demais professores, interessados naquele discussão, começaram a se aproximar da mesa principal. A voz era de uma professora e, embora não tivessem muito contato, sabia quem era: Irvine, a professora de música da escola, ou melhor, de uma disciplina extracurricular chamada "Música Mágica".
Em casa, havia uma discussão muito intensa entre as matérias eletivas que Yoh iria cursar, de modo que algumas eram mais imposição da mãe - a qual fazia questão de ter participação ativa no processo formativo do filho, embora já tenha feito concessões - do que gosto pessoal, embora o mesmo fosse esforçado. Aritmância, para a teoria da magia; e Runas Antigas, para o campo da pesquisa e da interpretação de documentos antigos, eram essenciais. Sentia-se orgulhosa pela forma como as duas professoras falavam. Achava deveras complicado a forma como os alunos puxavam matérias aconselhando-se apenas com os professores, de maneira que os pais praticamente se excluíam da responsabilidade de um acompanhamento mais firme do trajeto escolar dos estudantes.
E tinha aquela tal de "Música Mágica", a qual, na sua opinião, era um desperdício do tempo produtivo do seu filho. Poderia estar estudando mais para o NOM´s, pensava. O que iria aprender naquela matéria, que ela já não o tivesse ensinado? Mais importante: de onde aquela professora tirou a ideia de que o julgamento dela sobre o fato de Yoh tocar era relevante para se avaliar o futuro do seu filho? Pensou que era só uma desculpa para ocupar seu tempo livre e evitar esbarrar com Jane, mas pelo visto aquela professora estava ocupando mais tempo do seu filho do que deveria.
- Talvez - Lupin parecia olhar para algum lugar distante - as intenções dos nossos estudantes não sejam tão ocultas assim. Parece-me que o senhor Kneen tem algum grau de proximidade com o senhor Malfoy. Influência, talvez.
Sentado em uma das poltronas, e distante dos demais, Lupin resistia à vontade de se levantar para participar ativamente da discussão. Já ficou surpreso quando Severo se dignificou à levar para ele o pergaminho, já havia atingido a sua quota de surpresas por um dia.
Não é que ela não acreditasse que Yoh não fosse capaz de recuperar esse tempo. Mas, algo lhe escapava. E aquele último comentário de Lupin confirmou suas dúvidas. Era óbvio que havia uma manipulação por trás daquilo... mas quem era o mestre? Draco e Yoh... quem era o dono do tabuleiro, e quem, de fato, movia as peças?
- Meus filhos adoram xadrez bruxo, Jane – em sua cadeira, Hooch se vira e olha para cima, fitando-a. Percebera a saia justa na qual Jane se encontrava – e, às vezes, temos que deixar o adversário fazer a próxima jogada para entendermos a extensão do movimento.
Jane entendeu a intenção de Rolanda. Ela não poderia recuar como mãe zelosa, mas precisava de uma justificativa como professora. Além disso, a amizade entre Yoh e James era o suficiente para Rolanda de antemão ficar um pouco desconfiada.
- Então, que tal o senhor Malfoy se explicar? - foram as palavras dela. Não encontrando discordância, ela prossegue, gira a varinha e a porta se abre - Draco, venha até aqui - ela aumenta um pouco a voz e, do lado de fora, Draco é pego de surpresa e entra - só você.
Ele entrou, parando à frente dos professores. E foi ai que Draco se deparou com uma sala na qual havia um conjunto de docentes, aglomerados. Alguns, sentados à mesa. Outros, em pé. E, alguns, nas outras mesas e poltronas. Mas, todos, definitivamente, o encarando.
- Diretor. Professora Black. Professor Snape. Professores.
- Draco - Snape tomava a dianteira - parece que a professora Black tem alguns questionamentos com relação às suas intenções altruístas.
- Em absoluto. Sou apenas uma pessoa preocupada com a perda da identidade crescente da nossa escola. As aulas da professora Black são bem elucidativas sobre os rumos que nossa sociedade tem tomado, então achei muito adequado um show de música bruxa que resgata a cultura que se manteve presente nos últimos séculos e nos tornou o que nós somos – ele olha de rabo de olho para a Burbage, a qual ocupava uma das poltronas –, algo que os nascidos-trouxas, obviamente, não sabem.
Jane fungou pesadamente. Aquilo cheirava a Yoh. Soava como algo que ele diria, palavra por palavra. Podia sentir aquela manipulação semântica em cada fala de Draco, aquele jeito presunçoso de "você está errada e eu posso provar". Quando Draco olhou para Caridade Burbage, professora de "Estudos Trouxas", todos os demais professores seguiram o olhar do sonserino. A docente em si percebeu uma súbita atenção massiva, mas ficou sem fala ou um bom argumento. A troca intencional de "sangue-ruim" por "Nascido-trouxa" era uma explícita manipulação do termo.
Ainda não tinha conseguido enxergar através da jogada.
Algo a incomodava. Em outro momento, seria a primeira a dizer que era uma excelente ideia. Mas o timming daquilo era tão suspeito, que a deixava com uma pulga atrás da orelha. Então...
- Draco, embora eu fique admirada com o seu altruísmo, chama-me a atenção o fato de que você quer promover um show de talentos durante o evento que anunciamos ontem, e encerrá-lo com um recital, se eu li direito. Não vou me ater ao fato de que você disse que precisa que dispensemos seu musicista para treinar, mas... por quê?
- Como assim, professora? Não é incomum dispensarem os alunos do time de quadribol para treinar? Nesse caso, ele...
"Por que o senhor Kneen? E não há alunos o suficiente na sonserina capazes de realizar essa façanha? Esqueça o que eu disse, o senhor Kneen sequer faz parte da orquestra de Hogwarts, o que te dá a confiança de que esse empreendimento dará certo?"
Eram as palavras que estavam ecoando na sua cabeça, e a julgar pela forma como Draco deu um passo para traz, o olhar dela denunciava seus pensamentos.
- Para que precisa de um musicista para tocar algo no qual você jé e naturalmente versado?
- Professora, com o devido respeito, mas a senhora deve saber muito bem das competências do seu filho.
- Isso ainda não explica as suas motivações. Draco, está ciente que, a julgar pelas músicas escolhidas, o senhor Kneen tem a pretensão de realizar uma apresentação de música Malfoy do ciclo renascentista, correto?
Aquele era um termo muito raro de ser ouvido, de maneira que, com exceção de alguns, como Flitwick e a professora de música, muitos ali não entenderam a referência. Era esse o motivo da queixa de Draco, quando Yoh dissera a quantidade, e quais as músicas. Ninguém diria com tanta precisão aqueles nomes, se não tivesse a pretensão de executá-las, ou desconhecesse ao que se referiam. Ninguém. E, para constar, eram poucos os que se encaixavam nessa definição de "ninguém".
- S-s-sim, claro - ele tomou um leve susto com a velocidade como chegou aquele assunto.
- E qual seria a reação do seu pai diante de um bruxo de pai trouxa fazendo esse recital?
- B-b-bem, eu, eu... ele ficaria bem impressionado por uma pessoa que não é um Malfoy conseguir tocar a música, professora.
Era isso que dava se meter com essa gente. A ladainha do Kneen era mais bonita quando ele pronunciava, mas, na prática, era problema garantido. E era ele quem estava ali, diante de todos os professores, tendo que dar satisfação. Por que foi entrar nessa furada?
- Você está ciente que, como o atual lorde Malfoy, se o seu pai estalar os dedos, na hora essa música perde seu efeito e os instrumentos emudecem, não sabe?
Isso ele não sabia. A verdade era que não tinha um conhecimento pleno sobre toda a história da música de sua família. E o pior, é que se sentia cada vez mais acuado. Não tinha conhecimento desse domínio mágico que o pai tinha sobre aquelas músicas.
Ele olhou para Snape, a procura de algum socorro, algum auxílio que pudesse tirá-lo daquela situação. Qualquer um.
- Professora Black, como o senhor Malfoy já afirmou, ele encontrou um musicista com uma habilidade musical satisfatória. Talvez você deva dirigir suas perguntas para o próprio, então.
- Não é uma ideia ruim, Severo - ela ergue os olhos, olhando para frente e, movendo novamente a varinha, abre a porta da sala dos professores -. Senhor Kneen, entre, por favor.
- Professora Jane Black Kneen, professores, bom dia.
- Para com essa gracinha - Draco sussurrava no ouvido dele - olha só a confusão na qual você me meteu!
- E então, senhor Kneen. O que tem a dizer com relação à essa escolha musical?
- Eu tomo como um desafio pessoal.
- E por que, com estudantes de sobra na Sonserina, o senhor Malfoy escolheu justamente você?
Aquilo era uma provocação em frente aos professores. E Draco sentia-se cada vez mais acuado. Afinal, como explicar que isso, à princípio, fora ideia do próprio Kneen? Não poderia falar isso assim, na frente de todos, seria...
- Eu vejo isso como uma transação comercial - Draco quase deu um pulo de surpresa - meses atrás, durante o incidente no salão principal, meu violino caiu no chão e se espatifou. O Draco consertou para mim, e eu fiquei devendo uma para ele.
Ela sentiu vontade de pular no pescoço de Yoh. Aquele violino tinha um valor imensurável, e não sabia deve incidente.
- Você não pode tocar essas músicas em público, ainda mais com um violino daqueles. Treinar em casa, fazer uma breve demonstração... mas é desrespeitoso com a família Malfoy você fazer um uso tão leviano da história dessa família! Você quer tocar 12 músicas, então me confirme o que o Draco já confessou: pretende encadeá-las, não é?
- Sim.
- E você fala assim, de maneira tão descomprometida? Eu não te ensinei que... aham... você não sabe que a sequência musical muda todo o sentido das músicas? Essas músicas são sagradas!
- Contanto que o lorde malfoy atual não reclame, então não vejo problema.
- Senhor Kneen, não seja desrespeitoso. Lembre-se de que está diante de professores. Não acho, ou melhor, tenho certeza de que não consegue um recital à altura daquelas músicas. Você não tem habilidade o suficiente. Talvez, após alguns anos de treino...
- São todas músicas que eu já conheço. Só preciso dar a direção certa para elas.
- Você mal tocou uma música no salão principal e já se acha...
- Três.
- Como?
- Três. Toquei uma vez "Heart of the Earth", na torre da Sonserina. - ele vira seu rosto, direcionando seu olhar para o professor Flitwick - e "Enter The Armand", para o professor Flitwick. E não foi um ensaio. Utilizei ressonância mágica, com o Amati.
- Ohhhhh - a professora de Música Mágica quase salta da cadeira - Fílio, é verdade? Quando foi isso?
- Bem - o professor de feitiços estava um pouco enrubescido, visto que outros o encaravam - Domingo.
- E não me convidou? Vou lembrar disso quando pedir para eu dispensar meus alunos para a orquestra de Hogwarts.
- Professor Fílio, essa ideia de um recital, tem alguma influência sua? - Jane o encarava.
- Talvez eu tenha dado algumas ideias ao senhor Kneen, Jane. Afinal, não é todo dia que temos um aluno que tem competência para tanto.
- Mesmo colocando a vida de alguém em risco? Muitos não sabem, mas música Malfoy é amaldiçoada por natureza.
- Estou ciente, Jane. Mas creio que...
- É só uma lenda - os dois interrompem a discussão e olham para Yoh - que os Malfoy espalharam para evitar que copiassem suas músicas.
- Kneen - Draco o interrompia - isso é um fato, não é lenda.
- E quem te contou isso?
- Meu pai, obviamente.
- Meu score é melhor, pelo visto.
- Isso não é uma piada - ele fazia um tom mais sério - os Malfoy são especialistas em maldições.
- Todo mundo com um mínimo de conhecimento de história bruxa sabe disso. Mas eu acho que a professora Black, que é uma defensora das famílias bruxas, está preocupada que eu seja desrespeitoso com a sua família - ele fala e maneira bem calma, olhando rapidamente de Draco para Jane e, depois, para Draco, quando fala "sua" -. Acontece que fizemos um pacto de desafio.
- Não era para você falar isso em voz alta, sua anta! - ele dava um tapa na testa, não acreditando como a situação ficava cada vez pior.
- Tem alternativa?
- Por Merlin... professores, eu sei que, muito provavelmente, meu pai teria resistências com relação a isso, por isso estipulei um desafio ao Kneen: se ele for capaz de tocar essas doze músicas por sete dias consecutivos, ele teria a minha autorização para tocar publicamente às mesmas em um recital.
- Meu jovem, estão dizendo que fizeram um Pacto Perpétuo? - Dumbledore ficou levemente surpreso com as palavras dele.
- Não chegamos a tanto.
- Foi um acordo de cavalheiros - Yoh o interrompia –, apenas apertamos as mãos. Afinal, um Malfoy não volta atrás com a sua palavra, não é mesmo?
- Senhor Kneen, estou muito curiosa com a sua escolha numérica - Septima passava à frente de Jane nas perguntas - sete dias, doze músicas... é uma escolha muito curiosa. Não sou especialista em música, deixo para minha colega, a professora Irvine. Mas, diga-me, como pretende permanecer tanto tempo tocando?
- Eu pretendo sincronizar minha magia com o ritmo do Amati. Enquanto eu for capaz de fazê-lo, esse violino irá eliminar os efeitos da fadiga no meu corpo, enquanto absorve minha magia.
- Sim, é possível - a professora de música mágica tomava a vez - no passado, alguns músicos em períodos de guerra faziam o mesmo, tocando incessantemente para motivar tropas. Claro, se você cometer um único erro, interromper esse ressoar por um instante, receberá um refluxo equivalente aos dias em que esteve tocando a música. Não sentirá nem cansaço e nem fome enquanto mantiver sua essência mágica em perfeita sincronia com a música que tocará.
- Eu só preciso passar pelo primeiro dia, tocando essas doze músicas, para refinar as melodias e atingir a sincronia correta. Se eu não conseguir passar pelo primeiro, saberão que minhas palavras são vãs. Do contrário...
- É uma busca por poder, senhor Kneen? - Septima retoma - Pois é o que me parece.
Yoh fica levemente aturdido. De alguma forma, a professora de Aritmância começava a delimitar algo que Jane sequer tinha arranhado.
- O "7" é o número da perfeição, professora...
- Eu sei o que significa. Entender o significado oculto dos números é a minha profissão. E eu gostaria de saber aonde você pretende chegar com isso.
- É apenas um recital, professora. Não um plano de dominação mundial - ele dá uma breve risada contida, mas a única coisa que os professores fizeram fora olhar um para o outro.
- Não me entenda mal, senhor Kneen. Não é uma acusação, mas um constatação. Gostaria mesmo de vê-lo tentar. Mas, a meu ver, há discordância na mesa, por acharem que você poderá causar algum tipo de mal-estar com estudantes de outras famílias, e seus respectivos responsáveis. Afinal, porque você precisa, REALMENTE, de 7 dias?
Na verdade, o que ela realmente queria perguntar era o porquê do jovem Kneen precisar que todos os professores o liberassem de seus afazeres estudantis, quando o professor da Corvinal tinha plena autoridade para fazê-lo. Mas ao seu ver seria uma pergunta desperdiçada. Não varia à pena gastar um xeque-mate para obter uma informação que lhe parecia leviana. Esperava.
- Simples, eu preciso masterizar o Amati.
A princípios os professores não entenderam aquilo que soava como um neologismo, uma gíria juvenil. Masterizar? Foi então que a professora de Estudos sobre os Trouxas fez jus ao seu salário.
- Quer dizer, tornar-se mestre do Amati, senhor Kneen?
- Isso!
- Mas... por quê? – Aquilo deixara Septima incrivelmente curiosa – Como disse, não sou uma especialista musical, embora já tenha feito estudos relacionando as relações numéricas presentes nas músicas. Mas o que tem de tão especial nesse violino para...
- Nunca escutei tamanha arrogância - Jane franzia os olhos enquanto interrompia Septima - já sei de antemão que você não vai conseguir, pois só pode existir um mestre do Amati por geração, e eu tenho certeza que não toca melhor do que eu e...
- Isso não é verdade.
- Você ficou anos sem tocar, acha que consegue...
- Não foi isso o que eu disse, professora Black Kneen. Eu quis dizer que não é verdadeira essa sua presunção de se autoafirmar mestre do Amati.
- Senhor Kneen - Dumbledore intervia - embora a professora Black seja sua mãe, devo lembrá-lo de que ela ainda é uma professora, e deve ser tratada com o devido respeit...
- É, você tem razão - Jane falava antes de qualquer um - eu não sou. Mas no que você acha que seria melhor do que eu?
- Jane - Severo voltava à discussão- acho que alguns aqui não entenderam aquilo ao que você se refere.
Foi ai que Yoh percebeu que os havia pego.
- Professores - Yoh tomava a palavra - esse violino foi deixado com a minha mãe, pois o professor dela, o antigo mestre do Amati, viu que ela tinha potencial para tocá-lo e sucedê-lo. Mas por uma série de eventos, ela não fez.
- Quando eu vi o Kneen tocando esse violino, fiquei surpreso pois o reconheci. Encaminhei para os Amati para consertá-lo, e renovei o pacto geracional do instrumento – falava Draco.
- E por que que o deixou com o senhor Kneen, se você já sabia que era um item de família? - Era a grande dúvida de Jane, aquela peça que faltava para fechar o enigma.
Os Amati eram uma família de duendes especializados na construção de instrumentos musicais. Séculos atrás, construíram aquele violino, o qual ficou conhecido como "O Amati", para os Malfoy. Porém, os duendes tem uma percepção diferente dos humanos com relação ao que constroem: eles não sentem que estão vendendo algo, mas emprestando-o por um longo tempo, em geral, pelo prazo da vida de quem o comprou. Eis o motivo da birra de muitos, por diversas famílias bruxas ostentarem espadas, joias e outras bijuterias feitas pelos duendes, sendo esses mesmos bruxos tratados como ladrões.
Aquele violino, porém, era diferente. Em sua concepção, houve um pacto entre os Malfoy e a família Amati, no qual, a cada geração, uma taxa simbólica deveria ser quitada para manter a posse do instrumento com a família de bruxos, uma espécie de renovação de um aluguel. Era um conhecimento muito antigo que alguns estudiosos da magia e profissionais da música detinham. Além disso, as propriedades mágicas daquele instrumento estavam associadas a uma série de ritos dos Malfoy, de maneira que um novo mestre deveria se levantar a cada geração mas, se não fosse capaz de fazê-lo, os plenos poderes dele não se manifestariam.
- Curiosidade. Eu poderia retomá-lo a qualquer momento. Mas quis saber o que o Kneen era capaz de fazer com ele.
- Isso não faz sentido, Draco. Você não poderia tomar essa decisão, é menor de idade.
- Mas foi o que eu fiz, professora.
- As forças mágicas são testemunhas, professora Black Kneen.
Jane não gostou nem um pouco do comentário do seu filho. Odiava aquele ditado que muitos irresponsáveis diziam por ai, deixando na conta das "forças mágicas" os eventos mais sobrenaturais do que o sobrenatural. E o Ministério da Magia servia para quê?
- Ainda me sinto muito incomodada por achar que vocês dois podem estar arrumando uma dor de cabeça para a escola com os responsáveis pelos alunos. O que o seu pai disse sobre isso?
Pronto. Demorou, mas finalmente chegou àquele ponto, a eterna comparação com seu pai. Ninguém era mais cobrado ali na escola do que Draco quando o assunto era aquele. Ele tinha vontade de amaldiçoar o Kneen até o infinito, mas também sabia que aquele assunto em particular nunca se esgotava. Ele sentiu-se intimamente desafiado em toda a sua extensão, como se não tivesse alternativa a não ser dar uma resposta à altura.
- Draco - Yoh colocava a mão em seu ombro, um movimento incomum para muitos dos professores ali presentes - eu posso...
- Deixa que eu resolvo isso - ele torna a encarar Jane. – eu escutei uma vez um ditado trouxa, dizendo que é possível ensinar um gorila a ler e a escrever. Eu fico me perguntando, se meu pai visse um nascido-trouxa, ou um bruxo mestiço, sendo capaz de tocar as músicas mais importantes de toda a sociedade bruxa - e falava com um tom de orgulho na voz - não acho que ele ficaria ofendido. Acho que ele saberia admitir que alguma coisa de bom esses desprovidos de linhagem tem.
Apesar da grosseria das palavras - e todos olharam do sonserino para o corvinal - todos os professores sabiam, por experiência, que era o melhor elogio que Yoh receberia publicamente de Draco, e que provavelmente deveria aceitar.
Alguns ali, por sinal, lembravam que nunca ficou muito bem explicado de onde surgiu aquela firebolt que Yoh utilizou na final do campeonato no final do ano anterior. Havia um rumor que Draco a tinha emprestado. Outros, juravam que o mesmo tinha dado um presente para o Kneen.
- Acho que essa discussão não é se é um bom plano esse evento, mas se acham que eu tenho competência para fazê-lo sem ofender ninguém - Yoh dá um passo à frente -. Pois bem, eu preciso de sete dias para praticar incessantemente essas dozes músicas e, no processo, ser reconhecido pelo Amati como seu mestre. Para fazer um recital, eu preciso extrair o máximo do potencial mágico desse violino, é para isso que servira o treino. Caso eu não consiga, pretendo devolvê-lo imediatamente ao Draco - ele olha para o jovem ao seu lado - Mas eu não pretendo falhar. Embora a senhora tenha dúvidas óbvias e coerentes – ele aponta o dedo para Jane –, em sete dias eu dominarei o instrumento e provarei que o meu talento, após refinamento, não apenas será maior do que o seu, como ele se equiparará ao do mestre anterior, Abraxas Septimus Malfoy. E isso será uma prova da minha capacidade: professora Vector, a senhora está curiosa com o "7", não é? Pois, ao término desses sete dias, eu poderei desvelar os mistérios que vem após o 12.
- Do que está falando, senhor Kneen? A música Malfoy do período renascentista é formada por exatas 12 grandes músicas. Não está planejando em interliga-lo com aquelas obscenidades neoclássicas, não é? - Jane simplesmente ignorou o comentário sobre o mestre anterior do violino, pois era tão absurdo que sua mente se recusou a processá-lo como algo mais do que um delírio juvenil.
- Claro que tem. Quando eu terminar de ensaiar - ele faz uma breve pausa enquanto ergue o dedo, de maneira proposital, deixando os professores parados, o encarando - serei capaz de tocar a 13ª pétala.
Aquilo foi uma enxurrada de informações que deixou muitos ali surpresos.
- 13ª... pétala? – Jane piscou rapidamente. De repente, muito da informação anterior fora veementemente ignorada, e ela se concentrou naquelas duas informações. Primeiro, aquelas músicas também recebiam o alcunha de "pétalas", quando executadas em uma dada ordem. Segundo...
- Oh, senhor Kneen! É uma afirmação ousada – falava Flitwick – eu gostaria de vê-lo realizar essa façanha, no evento.
- 13ª? - falava Vector - Eu gostaria de ver isso, senhor Kneen! Na verdade, estou muito interessada na relação numérica dessa músicas que escolheu. Se você for mesmo capaz de tocar essa tal de 13ª pétala, eu o aceitarei como meu aluno em Estudos Avançados de Aritmância, mesmo que não tenha uma nota boa no seu NOM´s!
Ela sabia. Música era pura matemática, e o treze, diferente do senso comum, não era o número do azar, mas da morte. E associar a morte ao mal agouro era um pensamento muito superficial. Havia uma representação do "1", como número da coragem, e o "3", associado à confiança, ao otimismo e à família, em diversas culturas. Havia muitos outros sentidos, claro, como o número "13" estar associada ao fluxo das energias criativas, algo essencial para a composição musical. E o "13" tinha essa característica, de representar a mudança. Esse mesmo número tinha um primo precoce, o "8", mas quase ninguém ali, com exceção de Vector, se deu conta dessa relação.
- Parece que você está se divertindo muito com isso, Septima - Babbling olhava de maneira curiosa para a amiga. Assim como a mesma, adorava decifrar um mistério, mas por outros termos -, é raro você ter tanta boa vontade com a possibilidade de um resultado. Senhor Kneen, isso também me deixou curiosa. Tenho a impressão de que essa ordem musical carrega uma mensagem secreta. Vou te dar um incentivo, pois fiquei curiosa com seja lá o que quer fazer: se conseguir, a proposta da professora Vector também vale para a minha turma de Estudos Avançados em Runas Antigas. Claro, desde que a professora Black o libere.
Jane não entendia como as coisas chegaram aquele momento. De repente, duas das professoras que ela tinha mais respeito na escola, pareciam se voltar contra ela. Estavam se divertindo com aquilo, de fato. Mas era um desafio explícito. Hooch diria que ela estava em xeque-mate. Com a empolgação, alguns professores olharam para Snape, esperando que ele fizesse algum comentário empolgante – se é que isso era possível – mas ele apenas continuou com os braços voltados para trás.
- Eu nunca ouvi tamanha arrogância na minha vida vinda de um estudante. Tudo bem, senhor Kneen. Vou dar bastante corda para você se enfocar. Está liberado - ela observa o documento e o assina, percebendo que os professores, como em uma espécie de complô, já o haviam feito - vejamos até onde vai chegar com isso.
- Obrigado, professores - respondiam ele e Draco. E os mesmos se viraram, saindo dali.
- Creio que esse assunto está resolvido - Dumbledore retomava - quem sabe que bons frutos teremos disso?
- Não entendo seu receio, Jane - era Minerva - achei que ficaria feliz pelo Jovem Kneen...
- Ele não vai conseguir.
- Ora, professora Jane, não acha que ele consegue? - Flitwick falava com toda a sua energia e graça.
- Não, professor. Sei que foi o senhor que contou para ele essa história. - e, obviamente, Natanael. Precisava fazer uma visita a Hogsmeade muito em breve - Senti isso na mesma hora. Não há talento nesse mundo que se equipare à habilidade musical do professor Abraxas. Além do mais - ela bebia um pouco de suco - não existe a 13ª pétala. Vocês, professores de música mágica, escutam essas lendas e as desenterram de tempos em tempos. Mas a 13ª pétala é uma lenda que surgiu a mais de meio milênio. Nunca ninguém a escutou.
- Tem certeza? - a professora de música se manifestava mais uma vez - Só por que não está em um documento escrito, não significa que não exista. Não é verdade que há muitas cantorias que circulam entre os vilarejos bruxos, transmitidos de geração em geração, sem sequer termos notícia da autoria, mas que as pessoas aprendem de ouvir?
Ela não respondeu. Definitivamente achava aquela disciplina de música um desperdício de tempo.
Não tinha tempo a perder. Correu rapidamente até o salão principal e só teve o tempo de tomar uma xícara de café, a primeira em séculos. Como bons inglês, preferia chá, a bebida de todos os momentos. Mas precisava de um pouco de cafeína para estar desperto, pois o dia, ou melhor, a semana, seria puxado. Nem se sentou à mesa, apenas entrou, pegou a bebida na mesa da Corvinal e deu meia volta, à tempo de ver aquela coruja enorme adentrar pela janela.
Aquela ave chegou mais cedo do que as demais: justiça seja feita, todos recebiam cartas, encomendas e edições do Profeta Diário logo cedo. Mas as corujas eram meio que sincronizadas para fazer as entregas à partir de determinado horário, para garantir que uma encomenda não ficasse sem destinatário, de preferência, quando a maioria dos alunos já deveria estar de pé. Ou para não invadir uma sala de aula durante o horário escolar. Havia um histórico em Hogwarts de entregas malsucedidas em horários muito específicos, e as empresas aprenderam a adaptar seus horários à cada situação.
Mas aquela chegou bem mais cedo. Era maior do que a de Crabbe - deveria enviar uma coruja para ele, mas suspeitava que tinha feito na noite anterior, embora não se lembrasse – e carregava uma caixa que tinha mais ou menos as dimensões de uma caixa de sapatos. Acostumado a enxergar coisas à distância, ele viu o símbolo do Olivaras no objeto. A ave desce de maneira elegante à sua frente, deixando a caixa e, também, largando uma carta. Em seguida, alça voo e vai embora. Ainda naquela espírito, ele pega as entregas e sai andando dali. Dá um breve sorriso. Enquanto andava, abriu a carta e leu a mensagem. Havia uma escolha bem dura de palavras, e a julgar pela forma como algumas linhas estavam muito tortas, o senhor Olivaras deve ter ficado muito irritado com a insistência, principalmente, a julgar pela velocidade da entrega, pela participação do professor Flitwick. Talvez não seja uma boa ideia visitar o Beco Diagonal pelos próximos anos.
Ele saca sua varinha e, com um feitiço, reconstrói a carta, como se não tivesse sido aberta. Em seguida, faz surgir um lindo papel de presente em torno da caixa, com um laço vermelho cheio de pontinhos, como se fosse um morango e, colocando-a embaixo do braço, segue seu trajeto. Precisava passar em dois lugares, primeiro.
Algum tempo depois, na mesa da Grifinória, Gina fazia um movimento na qual girava brevemente a varinha. Acordara mais cedo e estivera praticando, antes de ir para o salão. E o repetia enquanto caminhava até aquele lugar, de modo que, enquanto comia um pedaço de pão, com a outra mão refazia o gesto. Não passou despercebido à Amanda, mas tinha outras coisas para se preocupar no lugar das manias da amiga.
As corujas haviam chegado. E, em meio àquela enxurrada de pássaros que traziam o de sempre – cartas, presentes e a edição matinal do Profeta Diário –, Amanda viu uma sombra escura se forma bem acima de suas cabeças. Não precisou olhar para cima para saber quem era, pois só conhecia uma criatura que formava uma sombra tão densa quando passava.
- Cráaaaaa! – Aquela ave folgada pousou em seu ombro, e na hora Amanda sentiu um peso acima do normal, fazendo-a abaixar o corpo, como que por reflexo.
- Ei! Quem disse que podia me usar de poleiro?
Karasu era uma ave realmente imponente, e seus olhos causavam uma sensação intimidadora em quem lhe encarasse. E a caixa que ele carregava bateu de leve no rosto de Amanda, irritando-a. Ela se move bruscamente para afastar o bicho, e a caixa escorrega e para em frente à Rony. A ave dá salto e cai encima do objeto, esticando o bicho e fazendo um barulho ameaçador para desestimular qualquer pretensão de Rony de olhar o que era aquilo, e avisá-lo sobre um possível desmembramento.
- Eu nem ia tocar nisso, seu bicho estúpido! – ele responde, assustado.
- Calma, por que tanta agitação? – Gina, ao lado de Amanda, passa a mão nas asas de Karasu, o qual abaixa a cabeça e fecha os olhos – viu só? Bom garoto!
- Cráááá´! – ele grita, mas em um tom bem leve, e passa o bico pelo lado direito da mão de Gina, como se a acariciasse. Ele faz um breve voo e para no ombro da ruiva, enquanto ela pega a caixa. Foi ai que Amanda prestou atenção aquilo: era um embrulho cinza com um laço vermelho pontilhado. Além disso, o laço não apenas mantinha o embrulho fechado, como também segurava uma carta que estava do lado de fora.
A mesa estava organizada da seguinte maneira: de costas para o corredor principal, Amanda. Ao lado dela, Rony. De frente para Amanda, Gina. Ao lado Gina, Hermione. Por sinal, não passou despercebido à Hermione como Gina parou de acariciar o corvo após fitar a carta. Ela, por sua vez, não tirava os olhos daquela caixa nem por um segundo. Rony, recuperado do seu susto inicial, não tirava a explicação meio-boca de Yoh da cabeça, sobre a tal "aliança de namoro". Estava doido para extrair da irmã o máximo de informação que pudesse. Harry, por sua vez, ainda estava no quarto. Na verdade, nos últimos dias ele tinha chegado tarde, ou comido algo e depois aparecido para as aulas. Pelo menos, estava comparecendo.
Aquela manhã tinha um ar de estranheza que Rony não sabia explicar. E o mais incrível era como a novidade do dia anterior havia se esvaído tão rápido quanto veio. Qualquer resquício de confusão tinha se diluído com uma velocidade incrível. Claro, o ruivo ainda estava doido de curiosidade para ver o momento em que Sirius apareceria por ali. Onde estaria? O mesmo vivia transitando pela escola em forma de cão, e sumira depois do incidente com Yoh, há meses. Mas o Black era um ser curioso por natureza, com certeza estaria circulando por ai e, a julgar pelas notícias, não estranharia esbarrar com ele pelos corredores.
O curioso era que nem aquilo, ao ver do Weasley, fora capaz reter a atenção de Harry por muito tempo. Dito e feito, aquela ansiedade que se espalhara no decorrer do dia anterior, ao término, parecia ter se esvaído. A única coisa que parecia segurar a atenção do amigo de maneira recorrente nos últimos dias, era um girassol que estava no curto dele, e o mesmo ocasionalmente carregava para o salão da torre da Grifinória.
Enquanto se esvaia em divagações, Amanda e Hermione questionavam Gina acerca do embrulho que ela não queria abrir. Em algum momento Amanda puxou a caixa e jogou para Hermione, a qual demorou para entender a brincadeira, dando tempo de Gina pegar o objeto novamente e colocar sobre a mesa. Mas foi o suficiente para que a sabe-tudo do grupo conseguisse ler algo que estava escrito, à mão, na caixa.
- "Tout avons je sois"? – Hermione fez um esforço para ler o texto que estava semicoberto por uma carta menor do que a caixa, e o laço. Gina fechou os olhos enquanto dava um sorriso, enquanto lentamente desfazia o laço e retirava o envelope, revelando o texto por completo que estava no topo da caixa.
"Tout ce dont nous avons besoin que je sois"
Foi assim mesmo que Hermione leu em voz alta o que estava escrito, enquanto Gina limitou-se a dar um sorriso bem discreto.
- Mas hein? – Os demais não entenderam a pronúncia, embora, para Rony, soasse como francês.
- Quê isso? Inventaram agora linguagem secreta de casal, é? - Amanda olhava de forma debochada - Qual o segredinho? Conta!
- Nada! - ela ria - bobeira dele, como sempre. - Ela apoia o cotovelo sobre a mesa, e a cabeça sobre a mão, enquanto olha para a mão direita e observa mais uma vez aquela aliança que estava no anelar. – Só um agraço que ele faz de vez em quando, falei que ele tem que me mimar direito, ou posso deixar de gostar dele – e o sorriso virava uma expressão marota.
- Mimar? Aquele doido olha pra você como se a sua merda não fedesse, Gina!
"Tudo o que precisamos que eu seja", pensava Hermione. Forte. Ousada e orgulhosa, até. Mas o que ele quis dizer com aquilo? O olhar de apaixonada de Gina a desmotivou de qualquer comentário. A ruiva estava exalando alegria, mas tinha outra coisa de diferente nela, embora não soubesse explicar, mas... ela estava diferente. Fora difícil explicar a Rony que aquilo no dedo dela era um anel de namoro, não uma aliança de noivado. Mas Yoh também não ajudava muito, e nem podia usar como desculpa aquilo ser um mal-entendido, já que ele era filho de um trouxa e de uma bruxa. E Gina parecia não fazer questão de explicar a diferença, ou de entender o sentido. Mas era bom ver que as coisas pareciam estar se encaixando por ali.
Voltou sua atenção para a caixa. Quando Gina puxou o laço, a princípio não tinham associado direito, pois parecia uma caixa qualquer, em uma embalagem muito bonita. Mas quando desfaz a embalagem, Hermione – e os demais - perceberam que a caixa era mais encolhida na largura, e mais longa no comprimento. Enquanto dava atenção aos comentários de Amanda, Gina terminou de abrir a embalagem, e foi ai que os demais presentes na mesa a viram pegar aquele pedaço de madeira entre os dedos, e girá-la. De cara reconheceram o objeto, mas ele era estranho, diferente de tudo com o qual estavam acostumados, ali.
Perto da base, tinha uma ponta que fazia uma curva, no final. E ia afinando aos poucos. Seu cabo parecia um pouco mais espesso do que o normal e, pela forma como Gina a manipulava entre os dedos, parecia rígida, como se não fosse tão simples quanto a vassoura com a qual voavam. Mas, apesar de tudo, era fina. Hermione aproximou-se e ficou encarando aquilo. Embora relativamente longa, tinha cerca de metade do tamanho de uma régua de 50cm. E aquela madeira lhe era muito familiar.
Uma varinha. E, a julgar pelo formato, incomum. Na verdade, o desenho era diferente das que estava acostumada a ver, já que parecia quase como se alguém tivesse arrancado um galho de árvore e o usado como uma varinha, dando-lhe uma aparência mais robusta, natural, sem alças separadas para apoio. Não ricamente esculpida e detalhada, como as de seus amigos.
Naquele momento, Hermione pensou que fora um simples presente inocente, já que Gina usara, esse tempo todo, a varinha que herdara de seu irmão, Gui, assim como Rony, cuja primeira varinha herdara de Carlinhos. Tivesse dedicado alguns segundos a mais, teria entendido o significado por trás daquilo.
- Mas, anda, o que é isso? - Amanda estava disposta a sair dali com uma resposta, embora, custo o que custar – E essa frase? E o presente? Aliás, tudo isso depois da aliança é muuuuuuuuuuuito suspeito!
- A gente, bem, eu resolvi chamar de "projeto em busca da felicidade", depois que aquele doido me deu essa aliança de noivado - e olhava toda boba para os dedos.
- Namoro - corrigia Hermione.
- Parece um pedido de casamento pra mim, Mione - e nem olhava para ela - deveria pedir uma para o meu irmão, também - Rony quase engasga com o suco que bebia.
- Mas não é, Gina - Hermione nem ajudou Rony, mas direcionou um olhar para ele depois do comentário da Gina - e além do que, vocês são menores de idade.
- Mero detalhe - ela aproveita o caderno de Amanda e começa a apontar, com a varinha nova -, depois a gente resolve isso. Então, mandinha... etapa 1 do projeto, "banda". Etapa 2, "autorização". E, claro, etapa 3, "o padre"! Viu só como é fácil resolver essas coisas?
- É? E o templo?
- Esse é fácil de resolver, qualquer coisa, depois a gente pensa nisso.
- Claro que não! - respondia, decidida a entrar naquela brincadeira - tem que anotar agora - e, com um gesto de sua varinha, Amanda escrevia também no seu caderno "Etapa 4 - Templo". Já que o pai dele é trouxa, com certeza ele vai querer uma igreja trouxa! E essa varinha nova ai é o que, parte do enxoval?
- Essa - ela girava a varinha com uma das mãos, como se testasse sua agilidade - é para correr atrás da Etapa 2.
Rony dedicou 2 segundos ao comentário da irmã, pois tinha coisa mais urgentes para resolver. Gui, Carlinhos, seu pai, sua mãe... até Percy encaminhara uma carta! Não abriu nenhuma delas, mas tinha certeza que todas – as quais recebeu ao longo do dia anterior, e, até, mais cedo – tinham um único e exclusivo assunto: que história era aquela de que o namorado da sua irmã era, supostamente, um Black? E seu maior medo era de que haveria um berrador ali dentro. Pior: sabia que as cartas não iriam parar, provavelmente amanhã receberia outras da sua família.
Era só pedir para Yoh escrever uma carta para seus pais, e problema resolvido. Mas ele se lembrou disso? Claro que não! Quando percebeu que não o encontraria de jeito nenhum no dia anterior, decidiu dar-lhe espaço. E como ele foi recompensado por ser atencioso?
Pensando bem, aquilo lhe deu uma ideia extremamente maliciosa. Na verdade, nas últimas 24 horas, por pura transitividade, era alvo de um número inacreditável de olhares de estudantes que, na falta de Gina e Yoh, os quais tinham tomado um chá de sumiço, era ele visto como o detentor de todos os segredos. Até mesmo sonserinos vieram questioná-lo! Isso sem contar os de sua própria casa. Toda hora alguém passava ali, em frente à mesa da Grifinória, exatamente naquele lugar no qual ele costumava se sentar, como se o Yoh não fosse da Corvinal. Já estava impaciente pela quantidade de vezes que lhe perguntaram por ele no dia anterior.
E tinha ainda aquela aliança. Hermione disse que era um anel, um costume trouxa - como a pulseira que ela ganhara de presente -, mas achava improvável que Yoh tivesse dado aquilo sem considerar que a sociedade bruxa não tinha esse costume. Aliança, anel... aquilo significava única e exclusivamente, naquela situação, apenas UMA COISA. E o pior, seria ele quem teria que contar isso para seus pais. De repente, explicar para sua família a relação do cunhado com os Black parecia ser uma tarefa simples.
Assim, ele pegou um pedaço de papel e começou a escrever:
"Caros pais e queridos irmãos,
Eu fiquei tão surpreso quando vocês. Mas, até onde eu sei, ele é enteado do Sirius Black, não seu filho. E sou eu quem está dizendo "enteado", porque ele negou veementemente qualquer parentesco. Tenho certeza que a Gina saberá explicar isso melhor do que eu.
E a propósito, falando nela, desde ontem, Segunda, a Gina tem andado pela escola com um bonito anel que o Yoh colocou no dedo dela. Disseram que é um costume trouxa, acham que eu devo ficar preocupado?
Seu filho,
Rony"
Ainda assim não se sentia muito confiante. Precisava de um "abre-alas" para apaziguar sua mãe. Talvez alguém que a tivesse em conta. Não queria pedir para Hermione, já que isso retornaria de maneira muito mais rápida. Precisava de alguém para resolver aquele problema e, naquele momento, percebeu que conhecia a pessoa perfeita para isso. Só precisava se sentir corajoso o suficiente para falar com ela.
Pronto. Era o melhor lugar. Havia caminhado com o violino, e encontrado o melhor espaço para praticar.
Ele empunha o instrumento na divisão do braço e ajeita o arco. Precisava encontrar a sequência correta. Mas, antes, precisava de um começo.
Estava distante o suficiente dos demais. Por isso, precisava tocar atentamente cada música. Não apenas tocar, mas sincronizá-las. O tempo que passara na enfermaria praticando fora produtivo, mas agora precisava resgatar à memória as demais músicas, sem exceção. E, ainda por cima, deveria concentrar-se na sequência. Não bastava retomá-las: havia uma ordem correta. E era ai que estava o seu maior problema.
Isolado dos demais, escolhera o espaço ideal para praticar, onde não seria incomodado: o jardim Sundial. Em outra situação, ficaria em frente ao lago, pois a disposição do terreno criava uma concha acústica natural, possibilitando um retorno sonoro da melodia; além, é claro, de dispersar o som ambiente de transeuntes. Porém, PRECISAVA ser ali. Era isolado, fora da rota de caminhos da escola - ninguém passaria ali no caminho para outra coisa -, e, mais importante, as características espaciais daquele lugar, a longo prazo, o favoreceriam.
Por ficar do lado de fora da ponte de madeira, as pessoas só passavam por ali quando precisavam ir ao mirante para usar os bancos. O Jardim Sundial, formado por um círculo de pedras, era fundamental para sua atividade. E por ter raros lugares para se sentar, não era muito frequentado por casais. Além disso, independentemente de qualquer coisa, dois fatores contribuíam para a excelente daquele lugar: primeiro, a disposição das pedras; e, segundo, tanto a lenda quanto vasta literatura apontavam que fora ali que a mítica penseira de Hogwarts fora encontrada, naquele exato espaço, o que motivou os fundadores a construírem naquele local a escola.
Aquele era um local de poder, perfeito para seus planos.
O primeiro dia seria o mais difícil, Mas não impossível. Aqueles que duvidavam que ele fosse capaz de realizar aquela proeza, não perceberam que ele estava fazendo o mesmo durante o tempo em que permanecera na hospedaria. Aquele instrumento musical era diferente: extrair o máximo do seu som envolvia habilidade artística e controle da sincronia de música mágica. Era por isso que, durante os primeiros dias, o som extraído era horrível. Porém, quando ele tocou no salão principal, qualquer estudante com um mínimo de afinidade artística o escutou por meio de seus sentidos mágicos, mesmo que não estivessem por perto. Foi por esse motivo que Draco, mesmo estando distante na mesa da Sonserina e, além disso, em meio a uma barulheira enorme movida pela conversa dos estudantes do salão principal, conseguiu escutar sua música.
O mesmo na torre da Sonserina. A acústica do local não favoreceria a música a se espalhar, de forma que o ritmo atraiu os demais alunos. O mesmo não aconteceu na sala do professor Flitwick, já que ele usou um violino comum para fazê-lo. Começa a tocar a que ele considerava a música mais simples: "A glória de Seizer". Mas a simplicidade estava na forma como a beleza musical era extraída de uma melodia tão simples. Era esse o motivo da mesma ser a favorita do mestre de sua mãe, Abraxas Septimus Malfoy.
O timing de Harry foi assustador: alguns segundos após Gina e Amanda saírem correndo do salão principal, o mesmo apareceu e se sentou próximo aos demais. De onde estava, Hermione o olhava enquanto tomavam o café da manhã. E recapitulava. Não os eventos da noite anterior, quando Rony segurou Yoh pelos ombros e o ergueu, exigindo satisfações, já que, para bruxos, essa coisa de "aliança de namoro" não fazia muito sentido. Ou a empolgação dela mesma ao ver aquele sinal de afeto. Nem mesmo quando Gina e Harry pareciam ter levantado uma bandeira branca.
Não. Ela recapitulou a última - e breve - conversa que tivera com Harry, quando voltou para a torre da Grifinória. Foi curioso observar Yoh explicando para Rony que não havia pedido Gina em noivado e, ao mesmo tempo, tentando explicar um costume que era mais comum entre americanos, do que ingleses. Ninguém entendeu direito. Mas devia ter sido por isso que escutou, sorrateiramente, Gina chamá-lo de "Gray". Devia ser um modismo americano que "pegou" com aquele namorado da Amanda.
Quando ela retornou à torre da Grifinória, o amigo a viu chegar e, aproveitando que Rony não demorara muito tempo e fora para o dormitório, desceu e foi encontrá-la. Ele estava visivelmente abalado, e com razão: confessara que sentiu algo quando Gina se aproximou, horas atrás. E enquanto Hermione arregalava os olhos diante daquilo, e pronta para dar o maior sermão do mundo no amigo, o mesmo disse algo que a fez interromper toda a linha de raciocínio.
"Minha"
Como se fosse tomado por uma necessidade de desabafar, ele disse aquela expressão, daquela forma, ou melhor, confessou que, quando Gina sussurrou no seu ouvido, em sua mente escutara sua própria voz emitindo aquela palavra. Isso o assustou tanto, que não sabia como reagir.
"Minha"
Aquela expressão ficou retornando a todo momento, e suspeitava que se manifestaria até mesmo durante seus sonhos. Era como se os sentimentos que alimentou por Gina durante todo o período letivo tivessem ganhado vida própria, e estavam relembrando-o de tudo o que fizera. Hermione deu-lhe uma poção calmante, pois ele parecia visivelmente assustado e com medo daquilo persegui-lo enquanto dormia.
"Minha"
Enquanto comia, ela tentava lembrar de todas as possibilidades levantadas por Rony nos últimos meses: primeiro, paixão. Feitiço, dominação, poção do amor, maldição... nada realmente fazia sentido, ou se comprovou aplicável. Era como se o Harry que conhecia tivesse simplesmente mudado. E não tivesse deixado maiores rastros desse processo. Mas ela conseguiu identificar o último momento de mudança: o jogo contra a Sonserina. Não que ele já não estivesse tomando algumas atitudes obsessivas, mas depois daquilo, Harry era totalmente outra pessoa, e isso se comprovou quando ele seguiu, com a capa de invisibilidade, Gina e Yoh.
O problema é que a maior parte desses acontecimentos chegaram à ela em segunda mão, por parte de Rony. E, de fato, o namorado era o mais preocupado com isso desde o começo: olhando em retrospecto, todas aquelas teorias foram levantadas por Rony.
Teve uma leve surpresa quando soube de Sarah - como aquilo lhe passou despercebido? -. Depois disso, o que parecia uma reviravolta, um fulgor sentimental, revelou-se um alarme falso.
Não pensava nos problemas que arrumaram - ainda mais - com Gina e Yoh por causa de Harry. Mas o amigo parecia genuinamente gostar de Sarah. Como assim, ele poderia dizer que tinha sentimentos por Gina, depois de toda aquela confusão? O que foi aquele desespero de sexta, então? E o choro?
O que houve com seu amigo?
Ela continuava tentando racionalizar aquela situação enquanto olhava para Rony. Era como se o ruivo e Harry tivessem tomado caminhos opostos no mesmo período. Havia um toque de crueldade nisso. Depois que Cedrico faleceu, o ministério da Magia, contra todas as previsões de Dumbledore, não tardou a reconhecer o retorno do mestre das trevas. O resultado era que, embora o diretor de Hogwarts tivesse mantido seu grupo secreto, a Ordem da Fênix, os combates contra os comensais da morte estavam passando por uma série de impasses.
Aliás, isso era impressionante: depois do fim do torneio Tribruxo, Cornélio Fudge recusou-se terminantemente a reconhecer a existência de Voldemort. Mas, pouco depois do início do período letivo, isso mudou como num estalo. Era como se ele tivesse se transformado em outra pessoa. E embora o grupo de Dumbledore tivesse se tornado muito eficaz, Fudge tinha se tornado uma pessoa bem ativa no combate ao lorde das trevas, o que parecia não ser condizente com sua personalidade.
Nota do autor: como eu tinha dito, esta fanfic tem como base o livro 4, "O Cálice de Fogo". E sim, o que Hermione acabou de dizer foi o principal motivo para, na fanfic "O Poder Versus A Astúcia", não termos os acontecimentos "canônicos" que ocorreram no livro 5, "A Ordem da Fênix" e, consequentemente, no tempo atual.
O que quer que tenha acontecido, Fudge foi capaz de reunir os aliados necessários para formar uma terceira força a ser temida. Como, ninguém sabia explicar. Para eles, a consequência disso era que, durante todo o seu quinto ano e parte do sexto, experimentaram algo totalmente novo: estavam sendo apenas estudantes. Visitaram a casa de Sirius durante as férias, as aulas estavam seguindo normalmente, Lupin pegava pesado nas aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas... mas eles eram, essencialmente, estudantes. Nada lembrava os quatro primeiros anos da sua vida escolar, quando sempre tinham algum grande desafio para superar. Suas maiores dificuldades se resumiam a conseguir boas notas, jogar quadribol e namorar.
Hermione gostava muito disso e, dentre vários motivos, um em particular: o quanto isso refletiu no amadurecimento de Rony. Se a Hermione do passado pudesse viajar para o futuro e ver como Rony estava, perguntaria quem era ele. Talvez isso tivesse sido um processo natural, de Rony se preocupar com coisas mais concretas da vida, ao invés de pensar em grandes aventuras. Parando para pensar, os Weasley eram muito responsáveis: Gui e Percy foram monitores-chefes, e tinha escutado de Fred e Jorge que Carlinhos também o tinha sido, mas não sabia se era brincadeira. Mas fora monitor e capitão do time de quadribol da Grifinória, disso tinha certeza. Mesmo brincalhões, os gêmeos montaram uma loja para vender suas invenções. Aquela família tinha um senso natural de responsabilidade e talento para assumir compromissos. E isso era um exemplo em Gina e Rony, pois acabou descobrindo que a cunhada, há meses, estava tendo aulas particulares para os exames dos NOM's com a professora Kneen, ou Black. De fato, um dos filhos de Arthur e Molly trabalhava em um banco; e outro, no ministério da magia.
Apesar de todo esse ambiente promissor, Harry parecia não ligar. Quer dizer, muitas das atitudes dele, ao longo do ano, poderiam ser ditas como tipicamente de alguém em idade escolar. Mas era como se aquela chance de uma vida mais normal tivesse um efeito mais negativo, do que positivo. Mas eles não sabiam o porquê.
Isso também a alertou para outra coisa: porque o relacionamento com Cho não evoluiu, se no ano anterior Harry esteve grudado com ela em todos os momentos possíveis? Agora, era quase como se fossem desconhecidos. Outro dia se esbarraram no corredor e trocaram um cumprimento tão seco... como?
A "sabe-tudo" do grupo continuava tentando raciocinar. Cogitou seguir um caminho diferente de Rony, e começa a conjecturar, levantar hipóteses, analisar possibilidades, eliminar as mais implausíveis e...
Ela entrou no modo automático, e ficou analisando eventos passados quase como se uma sub-rotina estivesse sendo executada em seu cérebro, em segundo plano. Ocasionou que foi menos participava nas aulas daquele dia.
Algumas coisas só faziam sentido quando eram eliminadas de uma linha de pensamento, ela constatava. E, também, quando se concebia o impossível. Não era especialista na mente humana, mas aquele comportamento obsessivo de Harry ia além do que podia conceber por um motivo muito, mas muito simples: Harry não era uma pessoa atirada. Era, muitas vezes, tímido. Pelo menos, até onde se lembrava. Isso ficou provado quando ele demorou até o último momento para convidar Cho para ser seu par, quando estavam no quarto ano. E é verdade que ele estava, na época, apaixonado pela corvinal, mas qual fora, de fato, a pior atitude que tomou porque não conseguiu ter uma dança com Cho?
Ser um péssimo par - incluindo Rony, lembrava - para as gêmeas Patil. E nada mais. Não xingou Cedrico, não arrumou uma briga durante a festa, tampouco tomou outra atitude. E era verdade que ele parecia um pouco irritado no ano anterior, em alguns momentos, com o fato de Yoh ter mais acesso à Cho do que ele. Porém, o Corvinal, melhor dizendo, o time da Corvinal em vários momentos tentou ajudar Harry. Em retrospecto, era isso mesmo. Quando o chamaram para a festa na torre da Corvinal, e Harry declinou. Ou quando amarraram vassouras nas pernas de Cho para que Harry pudesse dançar com a mesma, e ele não a puxou, embora o tenha feito quando a carregou no colo e acabaram tomando um senhor tombo. Ou seja, os corvinais sabiam que ambos - Cho e Harry - se gostavam, e deram uma forcinha para aquilo dar certo.
Isso significa que Yoh Kneen não era parte da equação. Nunca foi. E como bem sabia, no dia em que fora à casa dos Weasleys, Harry e Cho já tinham interrompido contato - um período muitíssimo curto - ou melhor, tiveram algum contato com cartas, mas...
Aquela série de pensamentos estava tomando tanto a sua atenção, que o dia começou a passar de maneira muito mais rápida. Tenta recapitular as últimas informações. Apesar de ter que dividir seu tempo entre estudos, rondas e reuniões com os monitores, conseguiu um momento para ir ao banheiro dos monitores-chefes. Ali, após conseguir emprestada a penseira de Amanda, olhava para as informações mais longínquas. Era algo muito importante. Ficou impressionado com a velocidade com que a encomenda de Harry havia chegado, embora Amanda tivesse ficado irritada por não ter tipo a chance de estrear o objeto.
Memória é algo cruel: às vezes, não sabemos do que lembramos. Foi assim quando, após inserir na penseira as férias na casa dos Weasleys e rever as imagens várias e várias vezes, escutou um comentário de Amanda sobre Harry estar olhando para Gina, e não conseguir disfarçar direito. Hermione sequer lembrava de ter escutado aquilo, mas fora algo dito quando ela estava por perto, praticamente um sussurro. Pensando bem, ela também teve essa impressão, antes de Amanda se juntar a eles durante as férias na Toca. Havia dito para Rony, em Hogwarts, que havia percebido como Harry parecia dar atenção à Gina.
Aquilo a fez dar uma temporalidade mais precisa às informações: foi na semana que Yoh mandou uma carta, na mesma em que Amanda havia chegado, sendo que Harry também estava ali, há alguns dias. Ou seja, exatamente duas semanas depois que retornaram de Hogwarts, após o término das aulas. Então, Harry passou alguns dias na casa dos tios e, na primeira oportunidade, foi à Toca. Não era uma data precisa, mas era o mais próximo que conseguia imaginar de uma cronologia dos eventos. Lembrava que elas saíram ainda naquela semana com algumas garotas da Corvinal, mas com certeza foi naquela semana que Harry chegou. Era plausível imaginar, naquele espaço de tempo, que algo aconteceu entre ele e Cho.
Ainda assim, algo não fazia sentido, não se encaixava. Mesmo após reduzir o escopo de informações, nada tinha lógica. Não conseguia delimitar um momento no qual Harry passou a se interessar por Gina, pelo menos, não à partir de suas próprias memórias. E preferia não perturbar Rony com uma conjectura que poderia não dar em nada. Sabia que, em seu íntimo, o namorado ainda sentia um incômodo desde aquela tragédia. De fato, embora não admitisse, Rony tinha a necessidade obsessiva de descobrir se ele e Harry de fato tiveram algo a ver com aquele incidente.
Ela observa para Rony, na penseira. O rosto dele estava diferente, mais infantil. Imaturo. E exalava insegurança. Mas ela não era tão diferente assim, pois também se sentia insegura com relação ao que sentia. Acabaram juntos, e hoje ela adorava cada momento. Mas, naquela época, não sabia explicar o porquê. E em meio às suas divagações, ela se dá conta de algo que Rony, nas memórias despejadas na penseira, acabara de perguntar a Harry sobre o Cho, e o mesmo disse que iria se corresponder com ela. Iria.
Ela toca a varinha na penseira. Passara um bom tempo revendo memórias, tentando reconectá-las. Mas algumas, por uma série de fatores, se tornam extremamente vívidas. Ela pega outra memória, e confirma o exato momento em que Yoh perguntara a Harry, dizendo que Cho estranhou Harry não ter dado notícias. E qual fora a resposta do amigo?
"É, eu andei um pouco ocupado ultimamente..."
- Como é?
Sim, ele realmente respondera aquilo quando os três passaram perto de Amanda, Chaz, Gina e Yoh, na cachoeira.
Ela soma um mais um e chega até dois. Ou melhor, elimina todos os elementos da equação que não tiveram, a seu ver, nenhum efeito. Não foi Hogwarts. Não tinha sido naquele dia no qual Chaz e Yoh chegaram na toca. Nem Amanda.
Assim, ao eliminar todos os elementos possíveis, o que resta era o mais plausível: Harry e Gina. Duas semanas após o término das aulas, Harry chega à Toca e... apaixona-se perdidamente por Gina (?). Ou já estava, pois o tempo que permanecera na casa dos tios, dessa vez, fora extremamente curto. Não que imaginava que os Dursleys teriam algo contra ele não estar por perto, mas quase como se, talvez inconscientemente, Harry quisesse estar na Toca mais do que nas vezes anteriores. E aquela paixão teria continuado de uma forma que gradativamente foi se tornando mais e mais obsessiva. Algo que fizera com que ele esquecesse por completo dos quase dois anos que estivera atrás de Cho, como num estalo.
Ela funga pesadamente enquanto deixa de olhar para a penseira. De tudo o que observou, a única certeza que tinha era que aquilo não tinha o menor sentido! Nem se considerasse a presença de magia!
- Um duelista jamais larga sua varinha, senhorita Weasley.
Primeira lição de Flitwick. A varinha de um bruxo deve sempre estar à mão, mesmo quando não estiver.
Depois da aula, na parte da tarde, foi à sala do professor de feitiços. Pensou que ficariam a tarde toda praticando movimentos, executando feitiços, mas, para sua surpresa, conversaram. E muito.
Aprendeu sobre os princípios do duelo de varinhas, as questões práticas e teóricas e, principalmente, a filosofia essencial por traz dos grandes duelistas. E, principalmente, o que significava ser um feiticeiro, a filosofia por traz de um bruxo que direcionava sua forma de agir para duelos e magia marcial.
Houve uma negociação, e Yoh estava prontamente cumprindo sua parte. Era o momento dela cobrar o que lhe foi prometido.
- A senhorita conhece um feitiço chamado "Expelliarmus"?
Ela sinalizou com a cabeça, dividida entre os pensamentos no namorado e no professor. Policiou-se, não podia perder tempo ou ter qualquer distração. Sobre o feitiço, lembrava de tê-lo visto na última reunião do clube de Duelos, anos atrás e, à boca miúda, tornou-se particularmente famoso por ser um feitiço que Harry usava com frequência.
- Dizem que foi Merlin que o criou...
- É o que dizem... é uma lenda muito bonitinha que contam por ai. A verdade é que ninguém sabe quem o criou, assim como vários feitiços cuja origem se perdem na história. Mas quando ele se tornou mundialmente conhecido, ah... ouviu falar de Smudgling?
- Acho que sim, nas figurinhas mágicas. Uma bruxa poderosa?
- Se tinha muito poder, ninguém de fato soube... mas foi a primeira "Duelista Suprema"! Ho-ho-ho, isso, com certeza! Sabe como ela obteve esse título? - Gina ficou ainda mais curiosa. Não conhecia os detalhes dessa história - Confrontando um feitiço feito para jogar uma montanha sobre nossas cabeças!
- Uau! E como ela encarou isso? Ela transmutou a montanha? Fez a montanha levitar? Mandou um raio em quem lançou o feitiço? - ela pisca, rapidamente - espera, foi com o "Expelliarmus"? Mas como ela lançou um "Expelliarmus" contra uma montanha?
- Não é óbvio, senhorita Weasley?
E essa foi a segunda lição que Gina aprendeu naquele dia: não importa a complexidade de uma magia, feitiço, encantamento, azaração ou maldição, é inútil se não puder ser completado.
- Mas isso sempre funciona?
- Oh, vejo que a senhorita está atenta. Claro que, com o tempo, feiticeiros desenvolveram métodos de evitar serem desarmados. E voltamos então para nossa primeira lição: jamais largue sua varinha. Mesmo quando ela não estiver na sua mão.
Flitwick tinha um jeito estranho de falar. Às vezes, ninguém sabia se ele estava falando algo sério em meio às metáforas mágicas que costumava usar. Mas para além daquilo, ele era conhecido como um campeão duelista. Escutava essas conversas no corredor desde que começou a estudar em Hogwarts, o que gerava uma ou duas piadas sobre como um adversário precisaria mudar seu estilo para atingir ao professor. Piada ou não, seu pai já havia comentado em mais de uma ocasião como o diretor da Corvinal ocasionalmente ministrava cursos aos aurores do Ministério da Magia.
- Claro que isso pode ser um problema para essa sua "nova" varinha, o que nos leva ao segundo ponto...
Gina tinha um sorriso vermelho no rosto. Chegou a sala do professor e colocou a caixa que recebera de Karasu sobre a mesa, junto da caixa. Flitwick observou atentamente aquele cabo irregular. Irregular para um padrão Olivaras. Desde que entrara na sala, estava segurando sua velha varinha, e aquele seria um modelo novo que passaria a usar, especial. Mas, não veio sem críticas.
- Esta varinha, senhorita Weasley, é problemática. Eu nem vou perguntar como vocês sabiam da existência dela, pois pouca pessoas a conheciam, ou que ela fora sequer produzida. Muita gente que passa pela loja do senhor Olivaras a vê e pensa que é uma varinha de mostruário, ou um esboço. O senhor Olivaras negou-se a vendê-la para qualquer um, e só o fez para vocês após eu encaminhar uma carta de recomendação. O que eu quero dizer é que esta varinha NÃO É ADEQUADA para você, e mesmo após eu ter dito isso no Domingo, vocês voltaram no dia seguinte e insistiram! – Ele ergue a carta, aberta – o senhor Olivaras estava levemente irritado, disse que só a vendeu por que eu fiz o pedido. Mas deixou claro que, nesse caso, aceitará devoluções.
- Mas o senhor disse que iria me ensinar a usá-la, que havia uma maneira!
- Eu disse que havia, não que era possível! Não percebeu como eu ri naquele momento? Achei que você estava brincando! Pensei que vocês queriam para usar como relíquia ou dar de presente para a professora Kneen!
- Mas...
- Veja, essa varinha que você tem, pertenceu ao seu irmão Guilherme Weasley, não é mesmo?
Gina engoliu a seco. Contava nos dedos o número de pessoas em Hogwarts que tinham essa informação. Ela lustrava constantemente sua varinha, a polia, deixava-a como nova... mas era uma varinha de segunda-mão. Assim como Rony herdara a varinha de Carlinhos, ela herdara a de Gui. Rony, porém, por causa do prêmio que eles ganharam na loteria, teve uma varinha nova, feita de madeira de salgueiro e núcleo de cauda de unicórnio. Ela, não. Embora sua mãe sempre procurasse dar roupas novas para a única menina da família, sua varinha seguiu a tradição. Muitos pensavam que sua varinha de teixo era nova, mas não era verdade.
- Sim - ela abaixa levemente os olhos mas, em seguida, torna a encarar o professor.
- Pois bem, uma varinha familiar, isso não é incomum. Para ensiná-la na arte do duelo, esta é adequada. Sei que já andou se evolvendo em algumas discussões pelos corredores nos últimos anos, estou ciente da sua capacidade para executar feitiços e dos seus reflexos, bem como a desenvoltura dos Weasleys para escapar de suspensões. Mas você tem a lealdade da sua varinha, o que não é o caso desta nova. Na carta que enviei ao senhor Olivaras, aleguei que eu tinha uma aluna capaz de dobrar a vontade desta varinha, mas isso é mentira, senhorita Weasley. E quanto mais eu falo, percebo como me precipitei e deixei meu desejo musical direcionar meu juízo. Sendo assim, o que acha de continuarmos com a varinha que você já possui, e darmos prosseguimento às nossas aulas?
Ela se lembra muito prontamente das palavras de Yoh. Precisavam daquela varinha, especificamente. Uma das mais poderosas de sua geração. A varinha daqueles que eram incrivelmente determinados. Quando ofereceram uma negociação ao professor de feitiços, sabia que tinham a vantagem: em troca do recital, Flitwick daria aulas de duelo para Gina, além de interceder diante de Olivaras. Havia algum lapso em sua memória, de maneira que não lembrava o porquê aquele objeto era tão importante, mas era o item que precisavam.
- Eu... eu prefiro continuar com ela, professor. Desculpe.
Flitwick conhecia o potencial de Gina. Como uma verdadeira Grifinória, não levava desaforo para casa, e já escutara relatos de estudantes que foram desarmados pela mesma. Ela possuía bons reflexos, o que se via durante as partidas de Quadribol, e isso espelhava na forma como sacava sua varinha. Não tinha muito conhecimento da capacidade dela em Defesa Contra as artes das Trevas, mas, como sua aluna, atestava sua competência com feitiços. Alguns bem peculiares, como quando ela executou de maneira muito eficaz uma Maldição Redutora, durante a aula de Feitiços. Na verdade, a habilidade dela na execução de feitiços passou por um salto muito significativo naquele ano. A velocidade com a qual os evocava era maior, e ela estava executando outros, mais complexos, com mais desenvoltura que os de sua turma.
- Com certeza uma Weasley, e uma grifinória! O problema é que não podemos avançar enquanto você não dominar a vontade dessa varinha, senhorita Weasley.
- O senhor disse que havia uma maneira.
- E há, mas não quer dizer que irá funcionar.
- Qual é o jeito?
- Escute, por que está com tanta pressa de utilizar esta varinha? Podemos treinar com a sua atual e talvez, quem sabe...
- Mas tem um jeito, professor?
Ele balança a cabeça. Aqueles dois estavam determinados. Quando os encontrou, no Domingo, detectou nos olhos deles a expressão de quem estava atrás de uma boa briga, mas não interpretou aquilo como literal. E agora estava diante de uma situação na qual sua palavra havia sido penhorada, e não poderia fazer nada para fugir da mesma.
- Choupo-branco.
- Como?
- Essa sua varinha, o tipo de madeira dela é feita de choupo-branco e corda de coração de dragão. Podem atingir muito poder, porém, são muito temperamentais, podendo causar acidentes. Quando foi que vocês dois se encontraram com o Garrick? No natal? Ele com certeza deve ter comentado isso com vocês dois. Foi por isso que ninguém pegou essa varinha até agora. Esse tipo de madeira é utilizada em varinhas muito específicas, e estão muitos conectadas a bruxos que possuem uma forte obsessão ao longo da vida.
- Obsessão? Isso não é ruim?
- Obsessão, comprometimento, determinação... e você sabe dizer qual é a diferença? Já se pegou seguindo um objetivo de tal maneira, que todos os seus esforços devem ser direcionados em prol daquilo? A sua amiga, a senhorita Granger, ela é determinada ou obcecada? É uma bruxa nascida trouxa, e passa a ideia de sempre estar sendo provada, pois, na sociedade em que vivemos, sempre vão questionar a capacidade de alguém que não é de origem bruxa. Você sabe disso. Por mais que algum bruxo esnobe critique você, tem certas coisas que não lhe serão questionadas por ser uma Weasley.
- Mas uma obsessão não pode levar às pessoas a um caminho negativo?
- O caminho pode ser negativo, guiado pelas nossas escolhas. Imagine uma pessoa que tem como meta ser um grande jogador de quadribol, e isso é seu objetivo de vida. Suas amizades, treinos, aquilo que tem como foco, tudo é direcionado para esse ponto. Tente visualizar as escolhas que um esportista profissional faz quando está determinado a seguir um sonho, as reuniões familiares que deixará de frequentar para treinar, as festas nas quais não irá por causa de um campeonato... talvez seja essa "obsessão" que o faça ser tão focado em algo, que o levará a ser uma pessoa centrada naquilo.
- É isso que essa varinha obedece? - Gina olha para o objeto, um pouco surpresa.
- Essa varinha inclina-se para aqueles cujo coração está centrado em um objetivo ao longo da vida, senhorita Weasley. E é isso. Encontre um objetivo, decida se ele é aquele que você quer seguir e depositar seus sentimentos, e direcione-os para a varinha. Se for capaz de converter esse sentimento em força, então com certeza a varinha irá respondê-la e reconhecer se o que você sente é verdadeiro. Só quando for capaz de fazer isso, eu irei treiná-la com esta varinha. Do contrário, nas nossas aulas manteremos a sua atual.
- Mas um sentimento não pode ser um tipo de obsessão?
- Você está se referindo ao Feitiço do Patrono, mas esse não é o caso. Esse feitiço utiliza um sentimento forte, poderoso. Mas assim como somos guiados pelas marés, um sentimento pode deixar de ser forte o suficiente, e a pessoa precisa procurar outro para executar o feitiço. Não, senhorita Weasley, centrar seu coração em um objetivo é muito mais do que isso.
- ...
- Não vá me dizer que seu coração está centrado no senhor Kneen, por favor! Essa varinha quer mais do que isso. Ela quer a sua determinação. Por mais que você seja habilidosa, você só irá conseguir dobrar essa varinha à sua vontade quando entender o caminho que quer traçar.
Seu corpo estava dolorido desde os exercícios com Flitwick. Passara a tarde inteira treinando, e sentia uma leve dormência.
Naquele dia, não saiu para jantar. Dedicou duas horas para colocar seus estudos em ordem e, em seguida, tornou a treinar. Girava a varinha nova constantemente, repetindo um mesmo exercício: colocava-a presa a alça da saia, e a sacava em um rápido movimento, fazendo um arco. Guardava na alça, sacava e formava um arco. Repetidas vezes. Durante o saque, mantinha o corpo firme, de maneira que o movimento do braço não desbalanceada seu equilíbrio. E de novo. E de novo.
A varinha tinha um cabo irregular, pois não era com a qual estava acostumada. Isso porque, por natureza, os estudantes de Hogwarts eram olivarianos. Não havia nenhum bruxo nas Inglaterra que tenha passado por Hogwarts e não tido uma daquelas varinhas. O modelo criou o hábito, desenvolveu o estilo e deu origem a toda uma maneira de usar varinhas.
Mas não aquela. Algumas vezes o objeto caiu de sua mão, e lembrava dos duros comentários de FLitwick, na parte da tarde. De sua péssima escolha para o objeto, mas optou por mantê-lo mesmo assim. Era uma varinha diferente. Era especial.
Era sua.
Muitas pessoas não comentavam aquilo. Gentileza, talvez. Mas sua varinha era velha. Especial, afetiva, mas velha. Herdara de seu irmão, Gui. A quem queria enganar? Com certeza todos perceberam isso. É verdade que, por ser a única menina da família, não precisou herdar as roupas dos outros irmãos. Embora chegou a usar muitas roupas de segunda mão, ainda assim tinha aquele sentimento de que tudo seu era "novo".
Aquela varinha era diferente. E, de fato, embora muitos pudessem achar que era capricho de menina, ela realmente ficou feliz com os presentes. Não pelo preço, mas pelo significado. A primeira vez que os dois tinham saído e comprado roupas, tinha sido um momento no qual se sentiu uma adolescente completa, aproveitando a juventude. O vestido também: em outros tempos, usaria um recosturado de sua mãe, ou emprestado de Amanda ou Hermione. Mas, quando ganhou aquele vestido, começou a ter ideias. A sonhar. A se sentir merecedora daquilo. Para ela, sua mudança de guarda-roupa era mais do que um valor estético, mas sentimental.
E então, a varinha. Foi quando ela descobriu como o namorado conseguia comprar livros raros para estudar. Alguns dos seus de herbologia, ela não encontrava nem na estante particular que ficava no salão da torre da Lufa-Lufa. E aquela varinha fora particularmente cara, de diferentes formas: financeiramente, mas também precisaram fazer alguns favores. E acabaram devendo outros, para consegui-la.
Mas, finalmente a conseguiu. Era a varinha que iria se adaptar a sua vontade. Ou melhor, fundir-se. Mas a forma como o professor Flitwick associava "obsessão" à "paixão" a incomodava. Como poderiam ser sentimentos gêmeos? Além do que, aquele tipo de sentimento em nada combinava com a sua família, certo?
- Está querendo se defender alguém?
- Ah, não, estou é querendo levar briga, isso sim! - ela disse de maneira automática, enquanto Simas Finnigan, sentado em uma cadeira na torre da Grifinória, observa seus movimentos.
- É? Com essa calmaria toda? Chega a ser tedioso aqui!
- E três anos atrás o Sirius Black não tentou entrar na nossa torre?
- Ele foi inocentado, não foi? Além do que, agora vocês não vão ser família? – E sorria debochadamente.
- Bom, precaução nunca é demais.
Ela continuava com o movimento. Precisava melhorar o saque, conciliar a puxada, o giro do braço, o peso da varinha e o arco que se criava pelo seu movimento.
- Pelo menos, tenta com um alvo de verdade - ele se ergue, e fica há alguns passos diante dela - vem, vamos praticar!
- Obrigada, mas eu...
- Ah, vamos... olha, aqui na torre ninguém interrompe a gente, você pode até me pagar por umas aulas, que tal?
- É mesmo? – Gina coloca a mão na cintura – e como seria esse pagamento?
- Pode me chamar para tomar uma cerveja amanteigada, quem sabe.
- Sabe que eu tenho namorado, não é?
- É só não contar pra ele, ué. Que tal um beijo por todas as vezes que eu te desarmar?
Ela cruza os braços, não sabendo se estava surpresa pelo excesso de cara de pau do colega de casa, ou por isso não ser nenhuma surpresa, vindo dele.
- Quer saber? Gostei da sua ideia!
Eles ficam de costas um para o outro e dão três passos. Gina faz um giro de corpo e, com as pernas semiabertas, domina seu centro de gravidade e pisa no chão. Durante o giro, puxa a varinha e faz um arco com o movimento, disparando contra Simas e, quando ela termina o movimento, os pés dela já tinham terminado o giro e tocado no chão, mantendo seu centro de apoio.
Para Simas, tudo foi diferente. Ele estava terminando de fazer o movimento quando, olhando muito rapidamente por cima do ombro, sentiu sua varinha ser empurrada de sua mão, desarmando-o. Mas não parou por ali. Como ele sacou com a mão direita para fazer o movimento de girada, sentiu seu saque ser interrompido e, de repente, era como se a mesma força que tirou a varinha de sua mão tivesse feito seu braço seguir outro direção, e sentia-se girando ao contrário, o que se provou ser mais do que uma sensação. Quando se deu conta, estava no chão, em uma situação vergonhosa. Não tinha prestado atenção direito ao feitiço que Gina usara, mas sabia que era um simples desarmar. Um desarme com um coice infernal.
Ela escuta os passos dela, e percebe que a mesma caminha em sua direção, até que lhe estica a mão. Ou é o que ele pensa, já que ela lhe deixa no vácuo e se abaixa, tocando em seu nariz com a ponta do indicador.
- Você me deve uma - e retorna para o centro do salão, onde continua a coloca a sua varinha no encaixe da saia, saca-a formando um arco de movimento, e mantém o corpo ereto para não permitir que o balanço tire seu centro de equilíbrio. E de novo. E de novo.
Já tinha anoitecido, e ele continuava a tocar. Sabia que tinha poucas horas antes do seu corpo começar a exigir uma pausa, mas sentia que estava no limite de atingir sua primeira meta, a sincronia musical. Se não fosse capaz de executar essa etapa, desfaleceria sem ter chance de continuar a sinfonia. No primeiro bocejo que desse, receberia um contragolpe com o cansaço acumulado. Estava no limite, e precisava, depois disso, encaixar a sequência musical. Isso porque, até ali, não estava tocando a sequência planejada. Optou por iniciar revisando todas as músicas, da mais fácil à mais difícil. Só então, após se sentir suficientemente confiante, as tocaria em uma sequência específica, secreta, e alcançaria – esse era o plano – o efeito esperado.
Para ele, era humanamente impossível começar a tocar as músicas na ordem específica, simplesmente porque a ordem e a hierarquia da dificuldade não se contemplavam. "Hearth of the Earth", por exemplo, era mais fácil de tocar do que "A Glória de Seizer". Mas aquela, na ordem planejada, era a quinta melodia, e esta, a terceira. As 12 músicas não progrediam da mais fácil à mais difícil, e o exemplo mais claro era a música que tocara para o professor Flitwick, "Enter the Armand", a mais difícil de todas, e a primeira da ordem. E foi com essa música que ele e Gina convenceram Flitwick. Precisavam de ajuda com uma varinha particularmente complicada, mas não iriam consegui-la sem o apoio do professor; e não conseguiriam dominar todo o seu potencial sem um professor adequado.
Mas introduzir uma sequência com essa música, e alternar as demais em grau de dificuldade - intercalações, notas musicais, declinações e efeitos sonoros – era extremamente complicado. Era por isso que se dedicou a tocar lentamente cada uma delas, pelo grau de dificuldade que ele tinha para tocar cada uma, até que alçassem à perfeição. Precisou, inclusive, diminuir o ritmo em alguns momentos, aumentando gradativamente à medida em que acertava suas imperfeições.
O momento em que encerasse esse primeiro ciclo sem erros, seria o momento em que conseguiria dar início à sincronia mágica.
Ela continuou treinando o movimento de saque, sem parar. E mesmo quando começou a sentir câimbras no corpo todo, ainda assim continuou.
Converter um sentimento em força, ela pensava. Pois bem, não tinha todas as respostas, mas sabia o que deveria fazer para dobrar a vontade da varinha enquanto treinava. Era uma varinha marcial: deveria lutar, e vencer! Dar o seu melhor, usar tudo o que praticou nos últimos anos, seja durante as aulas, seja em brigas de corredor e disputas entre colegas e desafetos. Só assim Flitwick a levaria a sério, após ela provar sua habilidade e determinação.
E, por mais que se sentisse mal por não sair correndo dali para onde Yoh estava, ela se deteve. Naquela noite, ela só parou de treinar quando a sala começou a ficar movimentada. Foi para seu quarto e, em sua cama, ficou girando a varinha, praticando o equilíbrio. Não largar a varinha.
Mas outra coisa a incomodava: a sensação de que havia se esquecido de alguma coisa. Quase como se sua memória tivesse disso apagada. Mas esse pensamento durou pouco, pois enquanto praticava o exercício, o sono veio.
Mesmo dormindo, manteve a varinha presa em sua mão.
Quarta-feira
Nem sempre as coisas são tão simples. De fato ele não era um mestre da música, mas um aprendiz. Estava há anos de prática de sua mãe, e de habilidade, também. A única coisa que tinha, de fato, era determinação.
Fora isso que não o fizera desistir. Mesmo quando seus dedos pareciam ter perdido o tato, ele continuou a tocar, repetindo as músicas na sequência que pré-estabeleceu. Quando a fome veio, deu o seu melhor para ignorá-la, pois não podia se dar ao luxo de interromper a sequência, ou teria que começá-la do início. Ao cair da madrugada, viu-se obrigado a desenvolver um novo tipo de autocontrole para suportar o frio. Havia colocado uma roupa leve para que não suasse durante o dia. Mas, a verdade, era que a noite em Hogwarts, mesmo quando não ventava, era cruel.
E veio o cansaço, mas não sozinho. Começava a sentir fadiga e, pela falta de alimentos, além do esforço para se manter de pé, dores de cabeça. Porém, sabia que não podia parar.
E não parou.
Ele não se deu conta quando aconteceu, mas começava a sentir um calor tocando em seu corpo. Escutara um crepitar, e sabia instintivamente que alguém acendera uma fogueira ali por perto, fazendo a madrugada tornar-se mais agradável, ou menos sofrida. Não abriu os olhos, e igualmente não escutou nenhuma voz. Intimamente agradeceu a quem estava fazendo aquilo, mas permaneceu de olhos fechados, ignorando o sentido da visão para aumentar a concentração na audição e no tato, essenciais para aquele movimento.
Ela pensou em ajudá-lo um pouco mais, mas sabia que algum movimento poderia atrapalhá-lo. Cogitou utilizar nele alguma magia de suporte físico, mas teve medo de ser invasiva a ponto de desconcentrá-lo, de maneira que criou uma fogueira para aquecê-lo. Naquela primeira noite, Jane não dormiu, permaneceu ali acompanhando a progressão do filho. Em respeito ao esforço, ignorou o quão estranha parecia aquela situação, apenas se concentrou no que estava diante dela: ele continuava tocando.
Procurou-o tão logo tinha escurecido. Não o havia visto pelos corredores, e até perguntou para Carlos e os demais onde ele estava, mas ninguém sabia. Ou fingiam não saber. Esperou encontrá-lo em algum lugar, mas fora difícil. Só bem depois do jantar é que fora encontrá-lo no Jardim Sundial, e precisou da ajuda de Luna, a qual apontou a direção na qual ele havia seguido. Mas como a lufana não podia sair do prédio àquela hora, Jane precisou de um tempo até encontrar aquele local.
E ali estava ele, em um estado de semitranse, ainda tocando. Conhecia perfeitamente o princípio, pois tentou ensiná-lo para Yoh diversas vezes quando ele era mais jovem, sem sucesso. Isso porque era uma técnica avançada, e mesmo violinista competentes demoravam anos de treino para atingir aquele estado. E mesmo que ele já o tivesse feito antes, era uma sequência deveras complexa.
Mas ele continuou. Passou a noite observando as reações do seu corpo, como ele tremia, mas persistia. E, apesar das vezes em que ela achou que ele iria desfalecer, o mesmo continuou tocando.
A noção de tempo se perdia, de modo que, enquanto os primeiro raios do sol rompiam, teve que admitir que não sabia dizer quando ele atingiu, de fato, a sincronia. Mas o estava acompanhando tocar três sequências completas das 12 pétalas, ou melhor, 12 melodias Malfoy do período renascentista. É fato que, em alguns momentos, ele reduzia o ritmo para tocar alguns trechos mais difíceis, mas intimamente ela era tomada de tal grau de orgulho, que lhe faltariam palavras. Não tivesse outros compromissos, ficaria ali o dia inteiro. E o seguinte. E o posterior. Mas ainda havia um bom tempo entre o amanhecer, com os primeiros raios do sol, o café da manhã, e sua primeira aula. Ainda teria tempo para deleitar aquele momento.
- Estranho como é difícil encontrar alguém que é a principal notícia da atualidade. - aquela voz vinha detrás dela, e a mesma sorria intimamente.
- Eu estou aqui, não estou? Como eu ia saber que você não estaria na escola justo no dia em que eu iria me revelar... Penélope?
Jane não se vira, e Sirius se senta ao seu lado, em uma das pedras do Jardim.
- E custava mandar uma carta dizendo "oi, estou viva"?
- Você estava em Azkaban, lembra. Não daria muito certo aparecer por lá, ou acha que todo mundo é enganado por uma coloração diferente de cabelo?
- Um patrono, talvez? Algum enigma, alguma parábola, alguma referência histórica, uma carta cifrada, você sempre foi boa nisso.
- Prometo lembrar disso da próxima vez.
Sirius fecha os olhos, pois, por mais estranha que fosse a situação, o último sentimento seria raiva. Surpresa, estupefação, inconstância... mas nunca raiva.
Quando recebeu aquele anel, melhor dizendo, aliança, enviada por Remus, ficou aturdido. Pensou que fosse uma brincadeira de mal gosto. Pra piorar, a coruja chegara poucas horas antes daquela fatídica edição do profeta diário: teve apenas o tempo de se questionar se o amigo finalmente desenvolvera algum tipo de humor negro para, enfim, ser bombardeado com todas aquelas revelações. E não teve sequer tempo para processar o que ocorria, pois como estava em Grimmauld Place enquanto passava a manhã divagando sobre a aliança que Lupin enviara sem maiores explicações, no momento seguinte bateram na sua porta um par de cabeleiras ruivas exigindo explicações.
- Arthur e Molly vieram me procurar, sabia?
- Weasleys em Grimmauld Place? E o que é isso, justiça poética?
- Está brincando, certo?
- Lembro que os dois tinham graus de parentesco em relação à você. Podia ter usado essa desculpa para se desvencilhar.
Foi um mar de perguntas e questionamentos sem fim, e a cada 3 perguntas, 5 eram sobre o rapaz que estava namorando a filha deles. E o pior é que ainda estava descansando, pois precisou fazer uma investigação para Dumbledore naquele final de semana, e teve um breve confronto com os comensais. Nada muito grave, mas precisava recuperar suas energias. Por um breve instante ele decidiu que não gostava do filho de Jane. O que era para ser um dia tomado de uma estranha surpresa, se tornara um momento de total inquisição.
E lá estava ela, diante dele, vendo-o tocar o violino. Devia haver uma óbvia ironia do destino - era carma que chamavam? – pois era o mesmo rapaz contra o qual dera conselhos questionáveis para seu afilhado.
Mas nada daquilo importava, naquele momento. Seu interesse era única e exclusivamente em Jane. Sentira uma vontade enorme de arrastá-la dali, para conversarem mais calmamente. Mas, ao vê-la de longe, a forma como ela estava impassível diante do filho, fora tomado por um sentimento diferente. Ele sabia, acima de qualquer coisa, que teriam que mover o mundo antes de fazê-la sair dali. E que, quaisquer que fossem as atitudes do filho, ela nunca o abandonaria.
Durante aquele silêncio ele continuava observando-a e, principalmente, a forma como olhava para o filho. Não sabia mensurar o grau de preocupação dela, mas poderia afirmar, com certeza, que era um tipo de afeto que o próprio nunca sentira de sua própria mãe, cujo quadro ainda o amaldiçoava em sua casa.
- Como é que eu vou saber que você é real, que não foi alguém que tomou poção polissuco e...
- Infelizmente, não tem uma maneira fácil de explicar, Sirius. Sinto muito.
- Você sente muito? - ele se ergue, coçando o cabelo como se estivesse prestes a gritar - sente... muito? Você não acha que eu mereço, pelo menos, uma explicação decente? Por algum motivo estranho eu e Remus lembramos que eu tinha uma namorada durante o tempo em que estudamos em Hogwarts, e não conseguia processar como isso parecia uma memória confusa. Eu lembrei que essa memória me manteve esperançoso durante os anos em que estive em Azkaban, mas eu tenho certeza de que, lá, eu não lembrava de você. Lembro de ter um sentimento confuso que me dava forças, e quando este ano letivo começou em Hogwarts, ele começou a se corporificar... em você! E de repente eu lembro que fui casado! CASADO! Sabe o que é você ser tomado por um sentimento que você não tem ideia de onde veio, mas sabe que está ali? Eu tinha um sentimento de felicidade verdadeira, somado com a noção de que eu era inocente, e isso me fez resistir. Eu não sei você, mas de repente muita coisa ficou confusa e...
- Fale um pouco mais baixo.
- Espera um pouco, não entendeu o que eu falei? Eu disse que...
- Ele pode nos ouvir.
Por alguns instante ele havia pensado que o filho de Jane estava em algum grau de concentração que o dispersava do ambiente ao redor, motivo que o fazia se sentir tão à vontade naquela conversa.
- Como? - ele perguntava. Enquanto conversavam, o som do violino preenchia os ouvido de maneira muito suave, tornando-se um verdadeiro som ambiente - mas ele...
- Ele pode nos ouvir. Não é por estar em um estado de concentração plena, que ele ignora por completo o que ocorre ao redor. - ele abaixa a cabeça, a ergue e, em seguida, o encara – e tudo o que eu fiz, as decisões que eu tomei, a forma como essas coisas foram feitas... eu faria novamente – ela olhava para frente – porque, sabe... eu não tenho esse tipo de arrependimento. Olhando em retrospecto, as coisas que deixei para traz, as escolhas que fiz, quem eu magoei, bem... da maneira que eu enxergo, percebo que seria levada a fazer as mesmas coisas.
- Mesmo que tudo terminasse da mesma maneira? A Jane que eu conhecia não faria essa escolha!
- Não fale de mim na terceira pessoa, por favor. Não sou mais a pessoa que você conheceu... mas continuo sendo alguém que faz escolhas. E eu escolho o hoje, mesmo que isso signifique abrir mão do passado.
Ele teve vontade de dizer algo, como se fosse afirmar a incoerência da fala dela. Mas tornou a observar a forma como Jane encarava o filho. Sentia o olhar dela tocar no garoto. De fato, sua mãe nunca o olhara daquela maneira. E sentia, ou melhor, sabia, que se o tempo voltasse, nada mudaria.
- O que você quer de mim, Jane?
- Nada, Sirius. Nada. Mandei a aliança por Remo por que achei que você merecia uma satisfação. Mas, dentre tantas perguntas, não acha que está se esquecendo de fazer a que realmente importa?
Ele para um segundo, tentando decifrar aquela linguagem enigmática dela, a qual o levou à loucura por um período muito distante de sua vida.
- Jane...
- Eu pensei em mil maneira de resolver isso, mas acho que começamos com o pé esquerdo. Então, o que acha de pular a parte em que se sente superior a mim e descarrega toda a frustração com essa bagunça toda de memórias bloqueadas, e vai direto para a pergunta que realmente importa: está ou não feliz em me ver?
- Espera um pouco, acha que a minha indignação... certo, tem razão. Sim, é bom te ver, Jane.
- É bom te ver também, Sirius - e se levantava, começando a caminhar - é bom te ver.
- Você tem autorização para estar aqui?
- Só se me pegarem.
- É sério, Sirius!
- Sim, claro que tenho. Tinha uma autorização me esperando em Hogsmeade desde ontem, se quer saber.
Isso era parcialmente verdade. A autorização existia, mas não em Hogsmeade. Alguns aliados interceptaram conversar, indicando que havia em curso uma tentativa de invasão ao Ministério. Houve uma reunião no dia anterior, Terça-feira, para que discutissem sobre esse problema. E em meio a uma dúzia de cabeleiras ruivas que não paravam de encarar a Sirius, Dumbledore entregou-lhe o documento em questão.
Eles passam pela entrada principal da escola. Era Quarta-feira, e a imensa maioria dos estudantes ainda dormia. Era comum os estudantes terem um tempo para acordar, arrumar suas coisas, ir para o salão principal tomar o café da manhã e, finalmente, adentrar na sala de aula. Alguns, porém, transitavam naquele espaço. Foi o caso de alguns alunos da Grifinória, principalmente para aqueles que tinham na fresquidão da memória o fato de que Sirius causara um incidente destruindo o quadro da Mulher Gorda, fazendo-a fugir. Ou, até, alguns estudantes nascidos-trouxas mais novos, alguns do primeiro e segundo ano que ainda não assimilaram a notícia que fora dada meses atrás sobre Sirius, e que ainda escutavam, pelos corredores, que o Black era um caçador de nascidos-trouxas. Aquele fora um dia particularmente singular para os madrugadores.
Jane caminhava a passos lentos, com Sirius ao seu lado. Estava com as mãos para trás, mas sua presença era imponente. Se antes, quando morena, captava os olhares dos estudantes, agora, loira, parecia um ser divinizado pelos corredores da escola. Isso, e o fato de estar com seu usual "pretinho básico", caminhando ao lado de Sirius, que ainda usava roupas em tons escuros.
- Aqueles dois pensam que aquele garoto é meu filho, sabia?
- É bonito demais para ser seu - ela ria, de leve -. Puxou ao pai.
- Ou ao avô.
Ela o olha de rabo de olho. Entrariam naquele assunto em algum momento.
- Ok, ainda estamos no pé esquerdo. Eu tinha um plano. Mas aconteceu um imprevisto.
- É mesmo? E que imprevisto teria pego a honorável Jane Black de surpresa?
- Virei mãe.
Eles adentram no salão principal, o qual estava vazio. O sol mal tinha nascido, e muitos estudantes ainda estavam no sétimo sono.
- Pensei que íamos até o seu escritório – ele ergue a sobrancelha – para termos mais privacidade.
- Aqui está bom, Sirius. Afinal, já estou em uma situação complicada desde que me assumi publicamente como "bígama" - ela dava outro sorriso.
- Hmm? Espera, não foi isso o que eu quis dizer e...
- Sério? O bom e velho Sirius Black não tem segundas intenções? Ah, mas eu duvido!
- Por Merlin, Jane! O que você pensa que eu sou, um adolescente com desejos à flor da pele?
- Não sou eu quem fico perseguindo colegiais pela escola na forma de cachorro!
- Ora, aquilo... foi tudo um mal entendido, ok!
- Mudando de assunto, não acha que as atitudes de Remus beiram ao masoquismo?
- É, conversei um pouco com ele e... espera, do que está falando?
- Ah, você sabe bem de quem eu estou falando - Sirius piscou e, no momento seguinte, Jane estava do outro lado de uma das mesas do salão principal, com as mãos apoiadas e encarando-o. Aqueles olhos acinzentados eram inebriantes e desafiadores, uma característica que ela sempre teve. Não eram muitos que a encaravam e escapavam com a dignidade intacta. -, a gente levanta algumas informações aqui, ali... as pessoas se esqueceram de mim, mas eu não delas.
- Andou pesquisando as Figy?
- Não sou uma xereta, mas recentemente a garota e o meu filho se tornaram próximos. E quando você está procurando por algo, acaba achando alguma coisa.
- E o que Remus disse para... - ainda de pé, prestes a se sentar, ele olha ao redor - espera... aqui? Vai se sentar aqui? Isso é sério?
- Para um Black, você parece muito incomodado em se sentar na mesa da Sonserina.
- Fui da Grifinória, lembra?
- Não seja teimoso, senta logo! - ele obedece mas pelo susto do que por convicção - Isso aqui me traz memórias - ela move o dedo, apontando para Sirius e, em seguida, continua movendo um pouco para a direita - bem ali, dois lugares à frente. Era onde Regulus costumava se sentar. Falava pra ele que o queria perto de onde eu pudesse vê-lo, para que não arrumasse confusão, já que o irmão virou persona non grata.
- Isso não a impediu de dar uns "sumiços" comigo durante um bom tempo. - ele fica quieto por alguns momentos - e... eu lembro de Remo ter ido à Azkaban ter me avisado da sua morte... esse ano eu lembrei que ele tinha falado sobre isso, mas antes, era como um véu inebriasse essas informações.
- É uma longa história – ela toca na mão dele –, foi feito um feitiço Fidélius para apagar a minha existência. Eu usei todo o conhecimento que obtive do seu avô para tomar o controle do feitiço, mas não foi perfeito. Alguns lapsos, inconvenientes...
- Sabe que isso sequer faz sentido, não é? Mas pra você citar o nojento do meu avô, então até a coisa mais bizarra pode ter uma explicação. O que eu quero que você me explique é porque eu, de alguma forma, lembrava de você? Às vezes, de maneira confusa, sentindo algo, não associando nomes, datas; e outras, tendo um sentimento que eu não sabia explicar.
- Foi a aliança.
Ele olhava para seu dedo. Durante anos se perguntou sobre aquele anel no anelar esquerdo, e sempre achou que era algum tipo de brincadeira. Por ser Sirius Black, todos pensavam que era alguma brincadeira de mal gosto, mesmo quando estava preso. E o mais estranho era lembrar que, às vezes, aquela aliança desaparecia do seu dedo, como se o objeto tivesse ficado invisível. Mas, de tempos em tempos, reaparecia. Mesmo quando se transformava em cachorro, ela desaparecia mas retornava quando ele voltava à forma humana. Isso foi o suficiente para saber que era uma herança de família, mas não lembrava como a obtivera. Mas tinha sensações.
- Foi algo que o crápula do meu avô fez, não foi?
- Eu me espanto como, até hoje, você tem tanto ódio de Arcturus. Eu entendo que as crenças dele se confrontavam com as suas, mas família é família, não é mesmo?
- Eu deveria me lembrar disso quando meus pais me expulsaram e eu tive que morar com Tiago?
- Deveria se lembrar disso quando te aceitaram de volta.
- Por sua causa. E você não imagina como é assustador lembrar que isso aconteceu. Antes, era como se eu nunca mais tivesse visto meus pais depois que fui morar com Tiago. Agora, descubro que tivemos uma bizarrice que parecia um tipo de reconciliação! E isso só até eu me irritar e largar mão de tudo, depois que você... desapareceu.
Jane sacode brevemente a cabeça e abre um sorriso sarcástico enquanto analisa os comentários de Sirius.
- É, pelo visto nem Azkaban foi capaz de curar esse seu lado.
Não foram apenas as memórias sobre Jane que retornaram, mas muitos dos acontecimentos da época. O desaparecimento dela apagou uma informação crucial da vida de Sirius, e lembrar-se serviu apenas para que ele sentisse mais nojo de sua família.
Durante meses ele teve aquela sensação estranha desde o primeiro momento em que a viu. Aquilo foi alimentando um sentimento que ele não sabia explicar, com informações confusas e difusas. Agora sabia que era algum efeito mágico da aliança que usava, de maneira que foi instintivamente recuperando memórias à medida em que se aproximou delas. Mas algumas eram mais cruéis do que ele podia perceber, e o Fidélius as apagava. Mas não apagou memórias sentimentais, marcadas na parte mais escondida do seu corpo. Sentia calafrios, tremedeiras e outras coisas que não sabia explicar a causa ou o nome.
Às vezes precisamos de tempo para digerir certos acontecimentos. Certas atitudes do passado passam a ter um novo verniz, de acordo com o tempo que as visitamos. Enquanto Molly e Arthur o bombardeavam com perguntas - além de uma série de cartas que recebera naquele dia - ele recuperava e processava aquelas memórias. Como Jane virou uma Black? Como, aliás, ela se tornou discípula de seu avô? Não fazia sequer sentido. Mas ele lembrou: forçou-se a fazer as pazes com sua família, durante um curto período de tempo. A família de Jane nunca permitiria a união dela com um encrenqueiro em desgraça. Mas e com o herdeiro direto da Mui Antiga e Nobre Casa dos Black?
O feitiço aparentemente fazia efeito até com itens mágicos: o quadro de sua mãe, em sua casa, passou a xingá-lo com mais frequência, dizendo que ele abriu mão da única coisa boa que teve na vida. Quando ele retornou explicando seus termos, e o motivo deles, seus pais não pensaram muito: aceitaram-no de volta. Afinal, mais influente do que o nome de Jane, era a de sua família.
- Tem razão, você, de fato, é você. Só a Jane que eu conheço diria algo tão cruel. Eu tinha deixado de ser eu mesmo por sua causa.
- A vida é mais do que aventuras, Sirius.
- Pra mim, estava bom do jeito que estava. E meu tio concordou com isso.
- Alphard tinha um senso de propósito, e você só descobriu isso depois que ele faleceu. Mas ele deveria ter deixado no testamento a condição de que você deveria ter se entendido com seus familiares. Fiz isso por você.
- Quando arrogância - ele batia com o dedo na mesa, de maneira ritmada. - Só você para conseguir mudar meu sentimento de aflição para de irritação em segundos.
- E não foi por isso que nos casamos?
Eles continuaram conversando, mas foram obrigados a interromper a conversa conforme o salão começou a ficar movimentado. Jane cogitou levar Sirius até a mesa da Corvinal para apresentá-lo a alguns estudantes mais próximos, mas mudou de ideia quando, ao se levantar, percebeu que o time da Corvinal em peso tinha um olhar agressivo em direção a Sirius. Outra hora, talvez. Além do mais, alguns alunos da Sonserina não paravam de olhar para Sirius, o qual estava na mesa da casa deles.
Ela caminhou ao lado dele até a saída do salão principal. Ali, deparou-se com um jovem de pele clara e cabeleira branca, o qual arregalou os olhos acinzentados diante do sujeito moreno de olhos cinzas. Draco sentiu um arrepio que seguiu por toda a sua espinha e, naquele momento, retomou seus questionamentos sobre a relação entre Yoh e Sirius. Mais importante, o sujeito parou diante dele e o olhava de maneira quase que debochada. E intimidadora. E acabara de esticar o braço e colocar a mão direita sobre seu ombro esquerdo.
Ao lado de Draco, Goyle e Emma estavam igualmente petrificados. Não era todo dia que tinham a chance de se deparar com uma celebridade como Sirius, e estavam indecisos sobre qual história acreditar: a de que o sujeito era o mais fiel seguidor do Lorde das Trevas, ou que era um poderoso aliado de Dumbledore que odiava sonserinos. As duas possibilidades eram igualmente assustadoras e intimidantes.
- Dá pra ver que você é um Malfoy, e algumas coisinhas aqui e ali que entregam sua linhagem Black.
- Sirius – o tom de Jane era de desaprovação –, não tem nada melhor para fazer do que pegar no pé de um adolescente? E ainda por cima, um dos meus alunos?!
- Eu sei que ele é seu – e tinha um sorriso muito debochado – mas é mais forte do que eu. Ok, já parei – ele olha novamente para Draco – fala para a Cissy que eu mandei um abraço – e tirava o braço do ombro de Draco, caminhando direto pelos corredores.
Só aquilo já foi o suficiente para deixar Draco mais irritadiço do que o costume. Que mania era essa que essas pessoas tinham ficar tocando nas outras! Precisou olhar feio para alguns estudantes na mesa da Sonserina, pois o encaravam como se fosse um dementador. Muitos ali ainda estavam surpresos, pois parecia que estava ocorrendo uma invasão de Black´s em Hogwarts.
- Três Black´s logo de manhã? Isso é um evento incomum. Deve ser um sinal.
Draco se virou para responder mais rápido do que a sua audição tinha processado a voz.
Dafne Greengrass.
Breve explicação sobre o cotidiano dos sonserinos: eles não eram todos amigos. Pensando bem, em nenhuma das quatro casas isso era uma realidade, alunos pegavam no pé um dos outros. Mas os sonserinos levavam isso a um outro patamar, a ponto de formarem grupos entre si, por interesses, motivações e, principalmente, influência. Dafne Greengrass era a epítome desse último tipo de relação. A sextanista tinha um círculo de influência dentro e fora da Sonserina, e mantinha um grupo de "seguidoras" que atingia até membros de outras casas.
Além de ser uma das garotas mais bonitas da escola, é claro. E, pra deixar bem claro, eram poucos os garotos a quem ela se dirigia, e Draco podia contar nos dedos o número de vezes em que ela lhe deu essa oportunidade, e olha que eram do mesmo ano! Esnobismo ou não (pensando bem, sim!), ela foi no último baile sozinha porque não estava interessada em nenhum garoto e recusou todos os convites para ser o par, mas se deu ao luxo de, ao longo da festa, sinalizar para garotos lhe tirarem para dançar, estando acompanhados ou não. E nenhum recusou.
- É mesmo – ele presta atenção à garota que estava bem ao lado de Dafne, a qual tinha uma voz tão suave que o deixou surpreso por imaginar que um ser humano pudesse emitir tal som. – Malfoy, você é um Black também, não é?
Astória Greengrass. Draco nunca tinha prestado muita atenção nela, mas já tinha ouvido falar daquela garota pelos corredores. E, diga-se de passagem, nunca imaginou que uma quartanista fosse tão divina. Nem Fleu Delacour, a qual esteve ali durante o torneio tribruxo, era tão bonita. Estava tão surpreso que esqueceu de responder.
- Então, o quê? Tem um Black na Sonserina, e agora, na Corvinal? – Dafne dá uma leve cutucada no ombro de Emma – O que acha, Emma?
- Quem deve saber é a Parkinson – Emma jogava aquela batata quente para a colega, a qual estava em frente, mas alguns bancos ao lado – ela que vive andando com o time da Corvinal.
- É mesmo, bem lembrado – Dafne redirecionava o olhar para uma desatenta Pansy que, em meio à conversa, preparava-se para enviar uma carta para Crabbe – e então, Parkinson, conta pra gente o que você sabe.
- Hmmm? – ela percebe que era o alvo da pergunta – Mas hein? O que?
- O Black – Dafne enfatizava a pergunta. Draco percebeu uma rusga surgir na testa da moça.
- Black? Que Black? Sirius Black?
- O Kneen – Emma se antecipava antes que Dafne ficasse ainda mais irritada.
- Hã, bem... ele é... educado e... há... sabe tocar violino e...
- Como se a gente não soubesse disso. Mas conta pra gente sobre os papos que você tem com ele quando se senta com aquela sua amiga "nascida-trouxa".
- Eu não fico de "conversa" com ele – ela se ergue, sai dali mas, no meio do caminho dá meia - volta – e só para o seu conhecimento, o nome dela é Julieta Smith – e vai embora.
Emma ficou abismada com a ousadia de Parkinson. E ali, naquele momento, soube de antemão que Parkinson estava arrumando sarna para se coçar.
- Você quer que eu...
- Não vale a pena perder tempo com um peixe pequeno – ela vira para o lado – e você, Draco? Se disporia a responder uma jovem donzela?
- Fiquei sabendo que vocês são muito próximos – Astória estava determinada a participar ativamente daquela conversa. Draco não teve a coragem de respondê-la da mesma forma que fizera com o Potter, dois dias atrás.
- Acho que todo mundo aqui escutou isso – Dafne dava um sorriso gracioso que faria a mais simpática aluna de Hogwartws sentir inveja – quem diria que esse tempo todo seu trouxa de estimação, na verdade, era um parente seu? Vocês são o que? Primos? Já que vocês dois parecem ter essa proximidade toda, não quer compartilhar essa amizade com a gente?
Ele gelou. Sentiu que estava prestes a cair numa armadilha da qual iria se jogar de boa vontade, e sem querer escapar.
Tivesse Hermione não perdido tempo para desembaraçar seus cabelos – cláusula pétrea para sair do dormitório -, teria esbarrado em Sirius. Mas estava tão imersa em seus pensamentos, que mal escutava os comentários no Salão Principal sobre visitante ilustre que passara ali, logo cedo.
Passou o dia anterior inteiro com aquilo na cabeça. Reviu todas as imagens possíveis na penseira. Nada. A resposta ainda era a mesma. Até se deu ao trabalho de averiguar o que lembrava do comportamento de Harry, ao longo daquele período letivo. Olhou um pouco antes também, mas sem nenhuma conclusão.
Seria possível? Era mesmo uma maldição? Mas Rony tentara tudo, levantou todas as hipóteses e...
Ela torce a cabeça, em negativa. Rony não tentara tudo. Havia algo que não havia sido feito. Precisava de uma informação fundamental que poderia ser a justificativa para aquilo tudo.
- Aonde você vai? - Rony observa como Hermione se levanta bruscamente.
- Tenho que falar com uma pessoa, volto já.
Rony não demorou para perceber que ela se encaminhava em direção à mesa da Corvinal. O porquê, ninguém imaginava. Afinal, Não tinham visto Yoh ali e...
Ela entrou bruscamente em meio ao banco da mesa da Corvina l, parando em frente à...
- Oi, Ariel.
- Mione! Oi! Como você está?
- "Mione"? Vocês duas se conhecem?
Ariel ergue os olhos a ponto de ver Rony parado ali, em pé, atrás de Hermione. A mesma estava surpresa, pois parecia que o namorado havia aparatado bem atrás dela.
- Claro - Hermione respondia enquanto virava o rosto - a gente entrou no mesmo ano, lembra? Ela é uma pessoa famosa, é do time de Quadribol e o pai dela é...
- Ohohohoh, não me enrola, vocês são amigas? Desde quando?
- Algum problema com as minhas amizades, Rony? - e percebia aonde aquilo iria dar. Mas não estava ali para ter uma discussão com Rony. Tivesse ele não a seguido como um cachorrinho sem dono, não teriam aquele tipo de conversa, naquele momento.
- Essa daí? Com certeza! Não contei que fui à casa do pai dela? Descobri que essa doida namora o meu irmão!
- Ah, você descobriu?
- Bizarro, não é? Acho que todo mundo sabia e... espera, você também?
- Bem, sim.
- Rony, meu querido! Onde estão seus modos? Isso lá é jeito de falar com a sua cunhadinha aqui?
- "Querido"? - ele é pego de surpresa, pois aquele era um comportamento totalmente diferente do de outro dia – espera, o que houve com – James, sentado ao lado de Hermione, estica o braço e o coloca sobre o ombro de Rony.
- Ela está de bom-humor. Eu não questionaria.
- Certo – Rony sentia uma segunda cabeça nascendo no rosto de James, e preferiu não questionar.
- Puxa, Rony! Quando é que a gente vai fazer um encontro duplo? A gente podia marcar com o seu irmão e almoçar em Hogsmeade no Sábado, o que acha? - Rony estava aturdido, pois aquela personalidade não combinava em nada com a da moça que o esculachou direto há dias.
- Ariel, você contou para ele sobre a dona Molly?
- Só falei sobre mim, se quer saber.
- "Sobre mim"? - Rony olhava de Hermione para Ariel - Espera, quer dizer que vocês ficam marcando encontros com a minha mãe? Aliás, você – ele aponta para Ariel – deu a entender que não conhecia a Hermione TÃO BEM ASSIM!
- Foi? Devo ter esquecido de dizer isso - Ariel olhava as unhas, se segurando para não rir com a indignação de Rony.
- Espera um pouco... é por isso que volta e meia você some aos Sábados, Hermione? Pensei que estava na área de livros restritos da biblioteca!
- Não é pra tanto, Rony! É coisa de garotas, ora! Sua mãe gosta de conversar com a gente!
- "A gente?" Quer dizer que tem um "Clube das Noras" rolando há meses? Quem mais faz parte?
- Até que esse nome é legal, "Ronald" - Ariel dava sinais de estar entrando no seu modo debochado - e ainda não definimos por completo o estatuto, mas quando o fizermos, pode ter certeza de que você não terá acesso. Além de nós duas, por hora tem a Gina, que não aceitou ficar de fora já que não dava para encaixar o Yoh nessa. A gente quer "recrutar" Penélope e Angelina, já que as coisas andam bem sérias. E tem a noiva do Gui...
Rony para um instante para pensar na última frase de Ariel. Um esquadrão de namoradas para vigiar os rapazes Weasleys? Isso é tão... tão... Molly Weasley!
- Ariel, isso era segredo! Não era para você ter falado!
- Mas eu não falei! Você é quem veio desesperada e o trouxe a tiracolo! E a que devo a honra da sua visita, cunhadinha? Não é todo dia que você se senta aqui na mesa da Corvinal. Com ciúmes por eu ter passado um tempo de qualidade com o Rony?
- Hahaha, muito engraçada, senhorita Sume. Onde está o Yoh? Não o vi ontem, ainda evitando as pessoas por causa daquela história da mãe dele?
- Vai saber. Por ai, em algum canto. Mas eu acho que você veio foi atrás da minha simpatia. Anda, desembucha.
- Eu preciso da sua ajuda.
- Para...?
- Um amigo está com problemas, e só você pode me ajudar.
- Esse amigo é alguém que eu quero que se ferre? Porque se for, vai fazer frio no inferno no dia em que eu levantar um dedo para ajudá-lo.
- Te vejo na aula – James se levanta. Percebeu que Hermione conseguiu a façanha de deixar Ariel mal-humorada em um dia tranquilo.
- Seu bundão - e olhava para Rony - o que foi? Não faz essa cara, ouviu!
- Você pode ajudar o Harry? - Rony rapidamente liga os pontos, mas fica levemente surpreso com aquela revelação - Hermione, o que você está querendo dizer?
Hermione o encara, e percebe que havia um olhar de confirmação na namorada. Ele então se senta ao lado dela, e ambos encaram Ariel. Não entendia metade do que estava acontecendo, mas se Hermione estava ali, então, com certeza, ela tinha um ponto a ser provado. Passou meses desenvolvendo teorias, pensando em sugestões, e na maioria ficou claro que a namorada o ajudara apenas para ele não se sentir mal com aquilo. Mas, pela primeira vez, ela tomou a iniciativa. Seja lá o que for, estava claro de que precisavam de Ariel.
Como fazer aquilo? Ela não tinha motivos para ajudá-los. Correção, para ajudar o Harry. E por mais que alegassem um milhão de justificativas, precisariam de um motivo muito, mas muito forte para a convencê-la do contrário. Isso porque ela já deixara bem claro o que pensava de tudo aquilo. Rony, que o diga.
- Dona Molly o trata como um filho – Hermione interrompia a linha de pensamento de Rony antes que o mesmo pudesse falar algo.
- Ah, mas não vem com essa, Mione! Não vai usar essa cartada comigo, ouviu!
- E como é que você vai explicar para a minha mãe – Rony aproveita a deixa – que você podia fazer algo para ajudar o Harry, mas preferiu se omitir?
- Quer saber mesmo, Rony? Posso falar um monte de coisas, sabia? O que você acha de eu contar sobre as coisas que seu amigo espalhou por aí, com a sua leniência?
- Bom, é uma boa aposta. Mas no final, o Harry é órfão, e você sabe como a dona Molly tem um coração "mole". Ama um "projeto". E eu sou o filho dela, em algum momento ela vai me perdoar. Mas talvez a nora perfeita dela finalmente revele um traço de imperfeição que a magoe.
- Eu me dou bem com a dona Molly, Rony. Não vai me convencer! E se vai apelar, não se esquece que o meu pai é o prefeito de Hogsmeade, e você ainda tem pouco mais de um ano para se formar!
Rony tentou, do fundo do coração, fingir que não entendeu a ameaça de Ariel. E fora um esforço hercúleo se manter impassível diante da possibilidade de ter um legilimente poderoso como seu inimigo pessoal. Hermione estava em dúvida se trazer Rony - pensando bem, ele é quem a seguiu, de surpresa – tinha sido uma boa ideia.
- Talvez. Mas minha mãe foi da Grifinória, lembra? Você acha que estará sendo leal à ela, se ficar de braços cruzados?
Poucas vezes Ariel teve tanta vontade de mandar alguém comer peixe cru. Só não o fez porque Rony sabia ser irritantemente convincente. E porque Hermione estava ali, com a qual tinha uma relação amigável. Ainda.
- Vocês estão pedindo favores da pior maneira possível, sabia?
- Por favor! - Hermione não aguentava aquele impasse - a gente não sabe mais o que fazer! Eu só preciso te pedir uma coisa! Apenas uma coisa! Depois disso, a gente não vai te perturbar mais, nunca mais!
- Aff! Muito bem, qual é o problema? Explique isso com detalhes, ok!
- É simples: preciso que fale com uma pessoa.
Nisso, Rony olhou para Hermione, surpreso. Era essa a ajuda que Ariel poderia dar? E tudo parecia tão...
- A gente já não passou por isso antes? – ele questionava, tendo uma sensação de Déjà-vú.
Continua...
Olá, pessoal! Desculpem pela demora!
O capítulo ficou muito maior do que eu esperava, pro isso precisei dividi-lo. Essa é a primeira parte. A boa notícia é que a segunda parte e, talvez, até a terceira (!) saia mais rapidamente, pois estou fazendo a releitura do texto e revisando algumas partes.
Deixem seus comentários e digam o que estão achando da história!
Lexas
