CAPÍTULO IV
Quando Pansy acordou, escutou vozes à sua volta. Abriu os olhos e viu o rosto de um homem desconhecido bem próximo dela, uma mão se estendendo para tocar seus cabelos castanhos. Ela sentou-se abrupta mente, com os olhos arregalados.
— Não precisa se assustar. Ele é um amigo. — Garantiu Harry.
— Como vou adivinhar? Não há nada escrito na testa dele! — Pansy estava furiosa.
O estranho se dirigiu a Harry.
— Vocês poderia passar por nativo, com as roupas apropriadas, mas essa mulher precisa de um pouco mais de empenho para conseguir. A cor desses cabelos a denunciariam, apesar de ser possível disfarçar — con tinuou o homem — Mas o gênio dela é diferente, as mulheres aqui são do tipo mais submisso.
— Bem, pois saiba que minha mãe tem sangue Irlandês, mas eu não sou desse tipo submissa! — Pansy levantou-se de um salto, atirando o cobertor para longe com irritação.
— Concorda com o que eu disse? — O homem encolheu os ombros, desanimado. — Se ela ficar calada, ainda podemos tentar enganá-los, e para os cabelos podemos usar tintura.
— Tingir meus cabelos? Nunca! — As mãos de Pansy se levantaram num gesto de defesa de seus cabelos castanhos.
— Não, não será preciso — disse Harry. — Viajaremos à noite. A escuridão vai nos ajudar.
Pansy olhou para ele, surpresa. Tinha certeza de que iria obrigá-la a tingir os cabelos, só para provocá-la. Não esperava que Harry a apoiasse.
Foi então que mais uma voz de homem se ouviu no porão.
— Vocês precisarão de roupas e capas para viajar, e não podem perder mais tempo, se quiserem sair vivos. — Ele lançou um olhar estranho na direção de Pansy e fez um sinal para Harry e outro homem. — Quero falar com vocês em particular.
Esses homens são mesmo ignorantes desprezíveis, pensou Pansy, furiosa. Estavam tratando-a como se ela nem existisse! E o pior de tudo é que pareciam estar falando dela, pois o homem que havia chegado por último fazia vários sinais na sua direção. Estava a ponto de exigir que contassem a ela sobre o que estavam falando quando viu o olhar de Harry sobre ela.
Em resposta a um gesto mais violento de um dos homens ele se virou para ela com um olhar duro como pedra. O que eles tinham falado para causar isso? Depois, com o mesmo gesto abrupto, Harry se virou para os homens e começou a discutir com eles, balançando a cabeça, acabando com qualquer argumento.
Ela viu quando um deles enco lheu os ombros e os dois sumiram na escuridão, tomando a direção do túnel que levava aos jardins.
— O que aconteceu? — Perguntou ela com curiosidade.
Pansy tentou controlar-se mas a tensão apareceu na sua voz e nas suas atitudes, quando se dirigiu a Harry. Estava preparada para se defender de algo que não sabia o que era; daquele olhar cheio de uma raiva fria, que endurecera os olhos e modificara a expressão de Harry desde o momento em que tinha se virado para ela e ficara parado durante alguns minutos, que pareceram intermináveis, exa minando seu rosto cuidadosamente.
Harry ainda tinha essa expressão fria e sombria quando falou:
— O que fez com as joias que roubou? — Sua voz era ríspida. — As pedras que você tirou das joias que escondeu na gaveta de seu quarto no hotel?
— Joias que roubei? — Pansy olhou para Harry, espantada. — Eu não roubei — negou ardentemente — eu...
— Não minta — ordenou ele rispidamente. — Esses homens que acabaram de sair daqui são pessoas de minha inteira confiança. O que chegou por último me informou que os comensais invadiram o hotel e encontraram joias sem as pedras preciosas, escondidas numa gaveta, que tinha roupas de mulher. Você era a única mulher naquele hotel.
Então era esse o motivo pelo qual o homem a olhara com aquele ar esquisito!
— É sobre isso que estavam discutindo?
— Eu estava fazendo de tudo para impedir que ele a entregasse às autoridades imediatamente, o que, neste momento, significaria entregá-la nas mãos dos rebeldes.
— Não podem fazer isto! — Pansy olhou para Harry, apavorada. — Você acabou de me dizer que eles são de sua inteira confiança, são seus contatos! Certamente não devem simpatizar com os rebeldes!
— As joias que foram encontradas eram peças antigas, tradicio nais — lembrou Harry, secamente. — Aqueles homens não têm ne nhuma simpatia pelo movimento, mas também não vão aceitar que um estrangeiro roube tesouros nacionais.
— Eu não roubei! — gritou Pansy, furiosa.
Ela sabia, melhor do que Harry, o que aquelas joias representavam. Agora tinha que tentar convencê-lo de que era seu direito estar com elas para que Harry pudesse persuadir aqueles estranhos e continuar protegendo-a. Ficou paralisada só em pensar no que poderia acontecer. Não podia contar a Harry onde escondera as pedras preciosas, pois temia que ele a forçasse a entre gá-las para garantir sua segurança. Ela tinha prometido ao Sr. MacGolden e nada a impediria de cumprir sua palavra. As pedras teriam que ir com ela, fosse para onde fosse, até alcançarem a segurança do cofre de seu cliente, na Inglaterra pelo bem dela e de seu pai.
— E então? — Harry sacudiu-a pelos ombros, interpretando mal seu silêncio. — Foi por este motivo que veio a Dublin? Conte-me a verdade — Exigiu. — Eu também tenho o direito de saber com quem me casei, e quero saber se você é uma...
— Ladra? — Pansy levantou a cabeça, num gesto de orgulho. — Pode ficar sossegado — acrescentou friamente. — E antes de agir como juiz, júri e carrasco, queira fazer a gentileza de ouvir o meu lado da história.
— Vá em frente! Conte sua versão. — Seu rosto continuava duro e ele ainda a segurava pelos ombros.
— Você deve saber quem é meu pai — começou Pansy, mais calma mente, resistindo a um impulso de passar o dedo pelo cós das calças. — Eu viajo como modelo e quando há clientes do meu pai nos países onde vou, eu acabo pegando algumas joias para levar para ele. Vim a Dublin para buscar algumas joias de um cliente, que vão ser remodeladas. — Ela mencionou o nome de Sr. MacGolden e viu pela sua expressão que Harry o conhecia. — Costumo fazer isto com frequência. Sou eu que, na maioria das vezes, faço os contatos com os clientes de meu pai também, visto que muitas vezes poso com as joias, mas esta é a primeira vez que sou acusada de roubar joias que vim buscar. — Pansy terminou, cheia de amargura na voz.
— Por acaso tem o hábito de extrair pedras das montagens? — perguntou Harry, cheio de sarcasmo, fazendo-a corar.
— Geralmente espero até chegar em casa junto de papai, mas não é sempre que me vejo entre um bando de rebeldes e a ameaça de ser revistada por pessoas em quem não posso confiar.
Pansy falou no mesmo tom de voz que Harry havia usado e ficou satisfeita em sentir os dedos dele se afrouxando em seus ombros.
— As pedras em si são a parte mais valiosa daquelas joias e, como eu era responsável por elas, não tive outra escolha senão escondê-las. Se quiser confirmar minha história, é só falar com o Sr. MacGolden.
Harry ficou olhando fixamente para ela durante longos minutos, com uns olhos cor-de-ametista que pareciam perfurá-la. Pansy sustentou esse olhar com a mesma expressão altiva.
— Vai ter que deixar as pedras onde estão, arriscando que sejam encontradas — disse Harry, finalmente. — Não pode voltar para bus cá-las agora, os rebeldes devem estar esperando por você no hotel, imaginando que vai voltar para pegá-las.
Ele não tinha desconfiado! Pansy exultou! Estava pensando que ela tinha escondido as pedras no hotel! Uma onda de alívio passou pelo seu corpo. Pansy baixou os olhos com medo que Harry percebesse a alegria que havia neles.
— Bem, isto explica o caso das joias, mas não justifica o desa parecimento dos filmes.
— Filmes? — Pansy perguntou confusa. Até havia se esquecido deles. — Eles estão comigo. — Com essa declaração Pansy tinha dito que os filmes estavam com ela, deixando implícito que tinha deixado as pedras no hotel. — São apenas fotos que tirei na viagem, pode ficar com eles, estão na minha bolsa. — Ela fez um movimento para pegá-la, mas Harry impediu.
— Não é preciso pegá-los agora, talvez precise deles para con vencer as autoridades, no caso de sermos apanhados.
— Por que se preocupariam com filmes, se nem mesmo foram fotos batidas aqui em Dublin? — Pansy estava verdadeiramente intrigada e Harry suavizou a expressão em seu rosto.
— Só uma vida totalmente isenta de culpa poderia fazer de você uma pessoa tão ingênua. — A observação não soou como um cum primento e sim como se ele achasse uma tola. Ele soltou os ombros de Pansy e continuou a falar, tentando parecer paciente: — Tente ver as coisas do ponto de vista dos rebel des que invadiram o seu quarto: Você é uma estrangeira, porque eles não sabem que você é uma famosa modelo, e que tinha saído do hotel deixando joias sem as pedras, e como se só isso não bastasse, encontraram um sofisticado equipamento fotográfico sem um único filme, nem mesmo na câmara. A que conclusão poderiam chegar, senão de que eram tão valiosos como as gemas?
— E daí? — Pansy não estava conseguindo entender o que Harry estava insinuando.
— Dai-me paciência, Merlin! — ele explodiu. — Não percebe? As coisas que você deixou no hotel não só a comprometem como ladra, mas também como espiã.
— Espiã? Que besteira! Espiã do quê, para quem? Se formos apanhados, poderei explicar facilmente...
— Acha que esperarão para ouvir as suas explicações? — inter rompeu Harry bruscamente. — Eles a mataarão antes de fazer qualquer pergunta.
— Devem pensar que fui no avião.
— Já estão sabendo da verdade. Encontraram seu lenço entre os arbustos, próximo da pista do aeroporto.
— Não o deixei lá de propósito, se é isso que está insinuando — Pansy não admitia ser acusa da de mais uma coisa, e ainda mais da qual não tinha a menor culpa.
— Se fosse esse o seu propósito, não poderia haver meio melhor. Os comensais não são tão idiotas e agora têm certeza de que você perdeu o avião e continua em Dublin.
— Isso significa...
— Que ficarão muito felizes em saber onde você está escondida. Vão fazer tudo o que for possível para reaver as pedras e só você sabe onde elas estão.
— O que vamos fazer? — sussurrou Pansy, lembrando dos rostos contorcidos que tinha visto na praça.
— Vamos viajar à noite. Um dos homens vai trazer vestimentas e capas para nós, que servirão como um disfarce bastante razoável.
Pansy não acreditava que os homens fossem voltar, mas a con fiança que Harry depositava neles era justificada. Logo depois que a noite caiu, eles chegaram com dois pacotes e partiram sem dizer nada.
As roupas e capas eram peças de vestuário muito comuns e bastante adequa das para enfrentar as bruscas mudanças de temperatura naquela região, onde as noites eram muito frias e os dias relativamente quentes.
— Será que eles...
— Pode ficar tranquila, jamais nos trairiam. — Ele respondeu à pergunta que Pansy não se atreveu a fazer. — Experimente as roupas — disse, estendendo o pacote menor para ela.
Pansy notou que Harry se virou para dar-lhe privacidade e ela rapidamente retirou a camisa e pôs o vestido por cima, ficando com as calças. Depois ela pôs a capa.
— Estão compridas demais.
— É o ideal, agora só falta cobrir sua cabeça. — Ele levantou a capa e cobriu os cabelos de Pansy. — Assim está melhor.
— Sinto-me ridícula, pareço um dementador.
— Você não parece nem um pouco com um dementador.
Inesperadamente, ele puxou-a para junto de si e Pansy não pode evitar de olhá-lo nos olhos.
— Você é linda demais para ser comparada com um dementador.
Pansy observou Harry suavemente abaixar a cabeça até seus lábios tocarem levemente a face macia dela, explorando a seguir a linha bem-feita do maxilar até encontrar o ponto onde havia uma covinha que aparecia quando ela ria.
Pansy estremeceu, mas ficou imóvel. Fez um esforço para não corresponder, mas foi inútil, seu coração começou a bater forte e o desejo de abraçá-lo se tornou irresistível. Quando tentou levantar os braços percebeu que estavam presos pela capa. Harry ajeitou as dobras do tecido, envolvendo-a mais completamente, e deu uma risada divertida.
Pansy ficou irritada, mas antes que pudesse dizer algo ela sentiu os lábios de Harry procuraram sua boca, impedindo-a de falar. Ela tentou resistir, mas foi em vão. Sua mente gritava que tinha de lutar contra ele, mas seu coração se recusava a obedecer.
— Não posso lutar contra você, não posso — gemeu, quando finalmente ele a soltou.
— Até que você sabe ser submissa as vezes não é? Aposto que deve ter aprendido bem com Malfoy, afinal, era uma seguidora dele em Hogwarts. — aprovou Harry. — Continue assim e nos daremos muito bem.
Pansy se afastou dele como se tivesse levado uma bofetada.
— Seu... seu... — Um soluço estrangulou sua garganta.
Mais uma vez ele a tinha enganado, forçando-a a corresponder ao seu beijo, brincando com os seus sentimentos como um violinista brinca com as cordas do seu instrumento, só para mostrar que a domina. Como ele poderia falar de Draco logo após beijá-la com tanta paixão? Ele era muito bom em fingir, ela pensou.
— Nunca mais me toque, entendeu? Não sou sua Weasleyzinha obediente e que aceita tudo o que você determina! Nunca mais... nunca mais... — Num frenesi de raiva, Pansy afastou as dobras da capa e levantou a mão para bater nele.
Harry desviou o golpe com facilidade, prendendo fortemente o pulso dela. Nesse instante, ouviram uma voz na entrada do túnel.
— Está na hora. — Harry soltou a mão de Pansy, completamen te indiferente à sua raiva e à possibilidade de ela tentar atingi-lo novamente. — Cubra bem esses cabelos — ordenou rispidamente enquanto punha o braço em volta dos ombros dela e dirigi-a para a passa gem que dava para o jardim.
— Não precisa me empurrar!
— Então fique bem atrás de nós. E calada.
Os três homens atravessaram o jardim com passos largos e Pansy foi tropeçando atrás deles, esforçando-se para acompanhá-los. Logo estavam se esgueirando pelos becos escuros e abafados da cidade.
Os quatro continuaram seguindo por uma rua mais larga e, quando chegaram numa esquina, Pansy viu, cheia de pavor, que estavam na mesma praça onde ela vira os comensais, quando estava tentando chegar ao Ministério. Harry falou alguma coisa para os homens em língua diferente, fez um sinal com a mão e eles se afastaram, misturando-se na multidão.
— O que aconteceu? — perguntou Pansy.
— O trabalho deles está terminado. Daqui em diante, vamos por nossa conta.
Pansy olhou para a praça cheia de grupinhos de homens que riam, discutiam e gritavam frases que pareciam terrivelmente ameaçadoras. Muitos deles usavam capuz. A noite estava muito fria.
— Não há nenhuma mulher entre eles. Não pense que vou passar no meio deles. Você não pode me obrigar!
— Não há outro jeito. A estrada que leva até a fronteira fica do outro lado.
Pansy estava paralisada de medo. Harry pegou-a pelos ombros e obrigou-a a caminhar. Um grupo de rebeldes passou por eles e os homens gritaram alguma coisa quando a viram e começaram a dar gargalhadas maliciosas. Ele rosnou algumas palavras na mesma língua e puxou Pansy para perto de si com um gesto cheio de brutalidade. Com um braço, Harry segurou a sua cintura e com o outro puxou as dobras da capa para cobrir melhor a sua cabeça. Ela se sentiu sufocada, presa numa armadilha e, dominada pelo pavor esqueceu de todo o perigo que corria e começou a lutar para se libertar.
— Largue-me, seu... — Não chegou a terminar. Harry a silenciou com um beijo arrebatador, machucando os lábios de Pansy contra seus dentes.
Incapaz de falar, pois o rosto de Harry pressionava o dela como uma máscara, e seus lábios doíam, Pansy começou a atacá-lo com socos e pontapés, tomada de uma fúria cega contra aquela selva geria. Arranhou o rosto de Harry e ele atirou a cabeça para trás, soltando um palavrão. Várias vozes se levantaram por entre os grupos de rebeldes e alguns deles se aproximaram para apreciar a briga entre os dois, rindo e gritando conselhos para Harry. Pansy não podia entender uma única palavra, mas conseguia compreender a situação.
Apavorada, percebeu o que estava fazendo, e cambaleou, quase num desmaio. Ela estava expondo-os, atraindo a atenção de quem não devia, pondo-se em risco. Sentiu o braço de Harry voltar a sua cintura e pegá-la pelos joelhos, levantando-a no colo, segurando-a com força junto ao seu corpo, escondendo seu rosto nas dobras de sua própria capa. Pansy agarrou-se a ele, petrificada. Uma confusão de gestos e gritos se formou em torno deles e ela sentiu mãos grosseiras tentando alcançá-la. Harry rosnava respostas na língua nativa e seus gritos faziam seu peito vibrar contra o ouvido dela. Ele girou o corpo com força e os pés de Pansy, que estavam em posição horizontal, bateram em alguma coisa macia que logo se afastou. Harry a estava usando como arma!
Pansy arriscou uma olhada por entre as dobras da capa e viu um círculo de homens se formando em volta deles. Harry apro veitou a oportunidade e passou por uma brecha, carregando-a nos braços com facilidade, como se ela fosse uma presa que tinha aca bado de conquistar. Depois, os gritos foram diminuindo atrás deles e as luzes foram desaparecendo até dar lugar a uma escuridão abençoada. Harry continuou correndo, sem dizer uma única palavra; um pouco depois começou a diminuir o passo.
