CAPÍTULO VI
Estava sozinha quando acordou. Olhou cuidadosamente à sua volta, mas não havia mais aranhas. A fumaça tinha, desaparecido e os insetos tinham voltado aos seus esconderijo. Atirou os cobertores para o lado e começou a se espreguiçar. Pansy procurou suas roupas para vestir-se e optou por vestir a calça que continha as pedras e sua camisa, estava quente para usar vestidos.
Harry não estava na caverna, mas não devia estar longe. Tudo parecia diferente, mas a euforia passada ainda permanecia, enchendo-a de confiança. Levantou-se, sentindo-se extremamente bem-disposta e começou a dobrar os cobertores. Logo iriam sair dali, em busca da liberdade. Quando viu a palha que servia de cama, lembrou-se de que Harry tinha dito que havia um rio ali perto.
— Água, precisava tomar água.
Pansy foi até a abertura na rocha e olhou para fora cautelosamente. Não havia sinal de vida, os rebel des tinham desistido. Toda a vegetação estava reduzida a cinzas e carvão e, além de toda essa desolação, ela viu o rio brilhando sob o sol da tarde.
— Não vou me demorar — disse baixinho, para aplacar sua própria consciência, que a aconselhava a esperar por Harry.
O sol estava muito quente e o caminho até a margem do rio era difícil. Quando chegou perto, Pansy deu um gemido de desânimo.
A água era suja, opaca, cheia de detritos, mais parecia um caldo grosso e malcheiroso.
— Vou só molhar minhas mãos para refrescar desse calor — murmu rou. Perto da margem havia marcas de patas de animais, formando poças mais fundas na lama seca.
— Pansy, não...
No mesmo instante em que ouviu o grito de Harry, sentiu o chão fugir sob seus pés, quando a camada de lama seca afundou sob seu peso. Viu que estava atolada num lodo escuro e pegajoso.
— Harry! — desesperadamente, Pansy tentou dar um passo para trás, mas só conseguiu afundar ainda mais.
— Fique quieta! Não tente lutar!
Pansy ouviu-o gritar e vir correndo pela margem na sua direção, em pânico. Harry agarrou suas mãos e começou a puxá-la com força e, finalmente, Pansy viu-se novamente em terreno firme, cambaleando por causa do susto e da camada de lama que chegava aos tornozelos. Harry agarrou-a pelos ombros e sacudiu-a.
— Sua doida! Por que não ficou na caverna? Por que não esperou por mim?
— Pare de me tratar como uma criança! Já estou farta de tudo isto! Primeiro foi aquele monte de aranhas e agora estou toda enla meada! — Pansy apontou para suas pernas.
Harry abaixou-se e arrancou os sapatos dos pés de Pansy.
— Calma, calma! Eu vou dar um jeito nisso.
Nesse instante Pansy se distraiu e abaixou-se para apanhar da lama um animalzinho prateado com a aparência de um peixe.
— Largue isso! Largue! — Sem esperar que ela obedecesse, deu-lhe um tapa na mão para que soltasse o peixinho.
— Não grite comigo!
— Ai! Maldição! — Harry sacudiu a mão violentamente. Por um segundo, a criatura pareceu ficar presa entre seus dedos até que ele sacudiu novamente a mão e ela descreveu um arco, caindo na água.
— Ele me mordeu!
— Não seja bobo, era só um peixinho. — Pansy deu uma risadinha de sarcasmo.
— A mordida dessa criatura inocente tem um veneno mortal.
Olhando apressado ao redor Harry dirigiu-se até uma planta na beira da lama.
— Depressa, ajude-me com essas folhas!
O sorriso desapareceu do rosto de Pansy.
— Por que quer as folhas? Vamos, deixe-me olhar o ferimento.
— Não há tempo. — Ele esmagou algumas folhas e esfregou-as sobre o lugar onde o peixe havia mordido.
Chocada, Pansy viu que a mão de Harry estava ficando roxa e inchada.
— Essas folhas têm um leite que age como antídoto.
Desesperadamente, Pansy começou a procurar mais folhas iguais aquelas com as mãos trêmulas. Quando encontrou ela repetiu os gestos de Harry, amassando e entregando a ele. As fibras cortavam seus dedos e o látex deixava manchas escuras em suas mãos, mas ela não se incomodou. Não pode deixar de se sentir culpada. Se tivesse esperado Harry...
— Eu não sabia — murmurou, pedindo desculpas.
— Eu gritei, tentei impedi-la de chegar perto da água.
— Vi pegadas de animais, achei que era seguro, um lugar onde eles viessem beber água.
— Não há perigo para eles, a mordida desses peixes não consegue atravessar o pêlo de suas patas, mas pessoas não têm esse tipo de proteção.
Pansy estava esfregando as folhas no ferimento e ficou surpresa quando ouviu a voz de Harry se transformar num sussurro fraco.
— Ajude-me a voltar para a caverna.
Pansy sentiu um arrepio gelado quando olhou para o rosto dele. Harry estava pálido demais. Rapi damente ela apanhou mais um grande punhado de folhas, colocou-o por dentre seu vestido e am parou Harry pela cintura.
— Apoie-se em mim — disse, e ficou aterrorizada quando ele obedeceu. Harry, que era tão forte, mas agora estava se apoiando nela como uma criança doente.
Foi tudo por minha culpa, pensou Pansy, e o remorso que lhe deu energias para conseguir arrastar Harry até a caverna, onde ele praticamente desabou sobre o chão, semi-inconsciente.
— Viu alguém... — ele ainda estava pensando nos rebeldes.
— Não, as colinas estavam vazias. — Pansy olhou para fora outra vez, com olhos desesperados.
— Fique... — ele murmurou.
— Vou ficar, não se preocupe.
Durante toda a noite, que não parecia mais ter fim, Pansy ficou massageando o ferimento dele com o látex das folhas, enquanto Harry se debatia, delirando de febre, murmurando palavras desconexas. Só quando as folhas se acabaram e ela não tinha mais o que fazer senão ficar ao lado dele, rezando desesperadamente para que melhorasse, foi que prestou atenção no que ele estava dizendo.
— Ginny... fique...
Harry tremia de frio e Pansy segurou-o em seus braços, passando as mãos, tentando aquecê-lo com o calor da fricção. Depois de um tempo a febre começou a queimar ainda mais e ele atirou os cobertores para longe. Pansy teve que fazer um enorme esforço para mantê-lo deitado, sabendo que, a qualquer momento, ele sentiria frio de novo.
— Ginny... Ginny... fique...
Pansy franziu a testa. Para onde teria ido Ginny? Quando Harry tinha dito, "fique", pela primeira vez, ela pensou que ele estivesse se referindo a ela, pedindo que o ajudasse, que não o abandonasse, mas agora estava sentindo uma onda de desânimo tomar conta de seu corpo. Não era ela que Harry queria. Estava cha mando por Ginny.
— Ginny... fique...
Pansy teve visões da jovem ruiva que vira em Hogwarts, de pele clara, com os traços delicados e olhos azuis.
— Ginny... fique...
Impulsivamente, Pansy pressionou seus lábios contra os dele, ten tando abafar aquelas palavras que sem que ela pudesse explicar o porquê, feriam-na como punhaladas. Ela o beijou como se tentasse fazer com que ele percebesse que era ela quem estava ao seu lado e se esquecesse da necessidade dessa moça.
— Harry, sou eu, Pansy. Vou ficar com você. Não vou abandonar você.
Estou com ciúmes, reconheceu Pansy, sem pudor ou surpresa. Já havia se sentido assim com Draco, mas a relação deles era bem diferente.
— Vou ficar com você — disse, afastando os cabelos molhados de suor da testa quente. — Não vou deixá-lo, Harry.
— Fique... Ginny... fique...
Ele não podia ouvi-la. Não a queria. Só queria Ginny.
— Harry, eu estou apaixonada por você. — As lágrimas começaram a correr pelas faces de Pansy e ela pressionou o rosto contra o dele, fazendo uma prece silenciosa para que Harry a reconhecesse, que chamasse por ela... que a quisesse ao lado dele... Que resistisse aquela febre... — Sou sua esposa. — Murmurou ela enquanto o brilho do anel de ouro que estava em seu dedo parecia caçoar da sua angústia. — Agora sou realmente sua esposa, sua mulher — Afirmou ela, e seus lábios trêmulos repen tinamente formaram uma linha cheia de determinação. — Nada vai alterar isso. Nada... nem ninguém.
Nem mesmo Ginny, jurou a si mesma. Nem ela poderia apagar o que tinha havido entre eles... A não ser... Pansy sentiu uma pontada gelada atravessar seu coração. A não ser que Harry tivesse feito amor com ela simplesmente para fazê-la esquecer das aranhas e da fumaça. Simplesmente... e mais uma vez... Para fazê-la ficar quieta.
Durante a noite Pansy não sentiu-se tomada pela dúvida, a incerteza e a fúria, e tinham alcançado propor ções alarmantes fazendo-a querer, alternadamente, se vingar de Harry e da ruiva que ele pedia para ficar. Finalmente, quando começou a amanhecer, tomou uma decisão. Assim que chegassem à Inglaterra devolveria o anel e cada um deles iria para o seu lado. Ele poderia ficar com a tal de Ginny e ela ficarei livre.
No entanto, quando Harry abriu os olhos, depois de um sono calmo que tinha se seguido àquela noite de agonia, Pansy não conseguiu se conter e logo perguntou:
— Quando chegarmos a Inglaterra você vai casar com Ginny?
Teve vontade de morder a língua depois de ter feito a pergunta, mas era tarde demais. Harry, que já havia voltado ao seu estado normal, olhou-a com olhos alertas e brilhantes e perguntou, interessado:
— O que sabe sobre Ginny?
— Nada além do que sai nas revistas — respondeu secamente, mas, quando ele continuou olhando para ela com seus olhos de ametistas, curiosos e penetrantes, Pansy acrescentou relutantemente: — Você esteve delirando na noite passada e ficou chamando por ela, pedindo para que ela ficasse. — Pansy encolheu os ombros e tentou parecer indiferente, fingindo não perceber o entendimento no rosto dele.
— Ginny e eu nos afastamos porque pensamos ser o melhor na época. Depois que nos formamos, as missões passaram a exigir um tempo grande e ela estava sempre viajando pelo time. Não conseguimos conciliar nossas rotinas e demos um tempo. Assim que eu voltar a Inglaterra, nós vamos decidir o que fazer.
— Certo, agora você precisa comer. Tem que recuperar suas forças. — Pansy começou a mexer na sacola de provisões, mudando de assunto e tentando afastar a imagem que estava se formando em sua mente, a visão de Harry e Ginny juntos, casados e felizes.
— Vamos partir esta noite.
— Não pode estar falando sério! Você não está em condições de fazer uma viagem tão longa!
— Em condições ou não, vamos partir hoje mesmo — insistiu Harry, levantando-se da cama e passando a mão pelos cabelos ainda úmidos de suor.
— Você não pode andar depois de uma febre como a que teve, deve esperar pelo menos mais vinte e quatro horas. Os comensais não sabem onde estamos e ainda há comida suficiente.
— Não podemos nos arriscar e, além disso, só teremos que andar até a margem do rio.
— Pelo rio? Não! — Pansy estremeceu, mas Harry não parecia perturbado.
— Iremos de barco. Há pessoas que vêm a estas margens uma vez por semana para pegar alguns peixes especiais, e esta é a noite deles. Vêm com canoas e se não estivermos lá, teremos que esperar a próxima semana.
— E esses homens vêm pescar se arriscando a ser mordidos por aqueles peixes horríveis?
— É por isso que vêm à noite — explicou Harry pacientemente. — Enquanto está escuro os peixes se enterram na lama para fugir do frio e não há perigo. Só restam na água os peixes de valor comercial para a alimentação.
— Você ainda não está bem... — Pansy hesitava.
— Acredite, estou bem o bastante. E está na hora de partirmos.
Pansy suspirou aceitando a decisão de Harry. Só esperava que tudo desse certo.
