CAPÍTULO VII

O coração de Pansy batia mais desconfortavelmente ainda, enquanto desciam até a margem, até onde tochas fumegantes iluminavam um grupo de homens que pescavam e colocavam os peixes em canoas, trabalhando de modo metódico e organizado.

— E se houver rebeldes entre os pescadores?

— Já teríamos sido avisados — garantiu Harry. — Fique com a capa cobrindo a cabeça e não se esqueça de andar alguns passos atrás de mim.

— Já sei, já sei!

— E também fique de boca fechada.

Uma figura, vestindo uma capa igual à deles, se destacou do meio do grupo de trabalhadores e veio em sua direção. Algo brilhou na mão do estranho e Pansy parou, assustada, enquanto Harry falava com o homem em irlandês. Logo depois ele se virou e disse baixinho:

— Siga-me.

Pansy ajeitou a capa sobre o rosto e os cabelos com uma das mãos e com a outra mexeu no cós da calça. Em sua imaginação, as pedras pareciam aqueles peixes prateados, mordiscando sua cintura e brilhando sob o tecido. Felizmente, para alívio de Pansy, ninguém parecia estar prestando muita atenção neles, absorvidos que estavam em sua tarefa de pescar a maior quantidade possível.

O guia fez um gesto e chegou perto de uma das canoas que ainda estava vazia. Harry murmurou algumas palavras para o homem e saltou para dentro dela, deitando-se no fundo. Pansy ficou olhando para ele sem saber o que fazer.

— Venha.

Ela olhou a distância entre a margem e o barco, sentindo o corpo começar a tremer.

— Não... não posso!

As luzes das tochas não eram suficientes para iluminar totalmente a distância que teria de pular. E se errasse o salto e caísse na água? Os peixes podiam ter saído da lama, atraídos pelas luzes. Suas pernas eram muito mais curtas do que as de Harry e estavam trêmulas.

Para ele foi fácil, pensou enquanto hesitava perto da margem.

— Venha! O que está esperando!

— Ajude-me. Dê-me sua mão!

— Pare de bobagens! Os homens daqui não usam de cavalheirismos para com mulheres que perambulam sozinhas à noite. Elas têm que cuidar de si mesmas.

— Ora, seu... — Sem alternativa, Pansy atirou-se no barco e caiu sobre Harry. Tentou se levantar, mas ele a segurou com braços fortes, obrigando-a a ficar deitada.

— Fique quieta! — sussurrou Harry, cobrindo à cabeça e o rosto dela com a capa.

— Solte-me! Vou morrer sufocada! — Uma lona foi atirada sobre eles e em seguida peixes.

— Quieta! Estão nos cobrindo para nos esconder!

O sentido do que Harry estava dizendo começou a aumentar o seu pânico a ponto de tomar conta de Pansy, e com o coração batendo descompassadamente, ficou tensa, porém quieta, deitada nos braços dele.

— Por que não me ajudou a entrar na canoa? — perguntou baixinho, quando o mais peixes eram colocados sobre eles. — Eu podia ter caído na água. — Disse ela magoada.

— Se tivesse agido de modo diferente, logo haveria comentários e poderiam desconfiar que você é a estrangeira que roubou as joias — sussurrou Harry, bem perto do ouvido de Pansy.

— Você disse que não havia nenhum rebelde entre eles.

— Sempre pode haver algum informante, não podemos correr nenhum risco. Agora, cale a boca e fique quieta!

Pansy ficou quieta, pensando que talvez em breve eles estivessem em solo inglês, então ela teria de dizer adeus a Harry e seguir sua vida. Sem poder evitar, lágrimas formaram-se em seus olhos e ela os apertou tentando evitar de chorar. Nesse momento ela se concentrou em sentir o calor do corpo de Harry e a enorme sensação de segurança e proteção que ele dava, o que a levou a pegar num sono que mais parecia um desmaio.

Horas mais tarde Pansy abriu os olhos e, por alguns segundos, teve a sensação de que estava na Inglaterra, passeando de barco pelos lagos tranquilos, cheios de flores em suas margens.

— Já estamos no mar? — Pansy afastou a lona que ainda a cobria, observando que Harry agora estava remando em pé, seus músculos fortes se movimentando sob a pele clara.

— Ainda não, mas já estamos perto, não vai demorar.

— É dia — o medo começou a tomar conta de Pansy —, temos que encontrar algum lugar para nos esconder. Já estou vendo muitos outros barcos à nossa frente.

— Calma, relaxe, já estamos livres de qualquer possibilidade de perseguição. Atravessamos a fronteira há mais de trinta quilômetros.

— Trinta quilômetros... e você remou a noite toda? Devia ter repousado depois daquela febre — começou Pansy, mas logo percebeu que era ridículo sugerir que ele descansasse. Parecia estar em perfeita forma, remando com facilidade, mantendo a canoa numa velocidade constante, como se tivesse uma energia inesgotável.

— Um dos pescadores remou durante os primeiros quilô metros, antes de passar para o outro barco, e depois a correnteza ajudou. — Harry olhava para o rio.

Pansy olhou para ele, tentando descobrir seus pensamentos, perguntando-se para onde eles estavam indo... Para a Inglaterra... para o encontro com Ginny? Para tratar o mais rápido possível da anulação do casamento? Afinal, era o que tinham combinado, mas agora o coração de Pansy implorava para que Harry quisesse que ela continuasse com o anel no dedo.

— Vamos a algum lugar específico para aparatar?

— Sim, iremos a um porto em uma ilha próxima e de lá pegaremos um navio até Liverpool, de onde será mais seguro aparatar em Londres.

Durante o resto da viagem eles não trocaram mais palavras. E depois da fuga traumatizante de Dublin, foi quase ridiculamente simples conseguir as passagens, quando chegaram ao porto da ilha. Apesar dos dois estarem com um aspecto pouco recomendável e da inexistência de bagagem, uma vez mais o nome de Harry pareceu funcionar como um passaporte, e logo depois de ele falar com os agentes de embarque, já estavam a bordo de um navio, começando a viagem de volta à casa.

Pansy examinou a cabina pequena, com um único leito, onde ficaria instalada durante a travessia do mar.

— Onde... — começou a perguntar e parou. Tinha feito a mesma pergunta na caverna, mas desta vez a resposta tinha que ser diferente. O leito era pequeno, funcional, mas, definitivamente, só dava para uma pessoa.

— As acomodações para cavalheiros ficam ao lado da popa. — Como sempre Harry leu seus pensamentos com facilidade e sorriu quando ela corou.

— Só queria saber... — Pansy ficou irritada.

— Bem, agora já sabe. Não se preocupe, não estarei muito longe.

Em pouco tempo ficou bem claro que o navio em que viajavam não era nenhum transatlântico. A primeira tempestade os atingiu logo depois que tinham almoçado, um comida muito boa, que Pansy tinha saboreado com prazer. O barco começou a jogar horrivelmente e ela sentiu-se terrivelmente enjoada.

— Acho que não devia ter comido tanto — disse Pansy, sentindo-se indisposta. — Vou até a cabina para descansar um pouco.

De repente, tudo o que tinha comido pareceu entrar em guerra. Ela correu para o camarote e mal entrou quando começou a vomitar.

— Cabelos castanhos e rosto esverdeado até que combinam bem — observou Harry, com ar interessado, olhando da porta.

— Vá embora! — gemeu Pansy.

— Não há outro lugar para onde eu possa ir, o convés está cheio de gente, todos assustados com o que passamos.

— Vá para qualquer lugar, atire-se no mar, se quiser, mas deixe-me em paz! — gemeu Pansy e começou a engasgar e a se sentir enjoada mais uma vez.

Harry, ao invés de seguir suas sugestões pouco gentis, atravessou o camarote e foi ajudá-la, até passar o pior, passando as mãos em suas costas e segurando os cabelos dela. Depois, carregou-a até o leito e umedeceu o seu rosto com água fria antes de sair.

Pansy tentou dormir, mas não conseguiu. Não queria ficar sozinha, ainda se sentia mal, mas medo que Harry descobrisse as pedras preciosas em volta da sua cintura a fazia sentir-se ainda pior.

Mais tarde Harry voltou e levantou a cabeça de Pansy para trocar o travesseiro.

— Deixe-me sozinha, posso cuidar de mim mesma! — murmurou, lamentando a promessa que havia feito a Sr. MacGolden de entregar as joias em segurança no banco de Londres. Se não fosse pelas pedras poderia cair num sono abençoado. Se não fosse por elas poderia até suportar os cuidados de Harry. Sob outras circunstâncias, dizia seu coração traiçoeiro, poderia até se deliciar com eles.

Pansy fez o possível para ficar indiferente ao toque dos braços dele, desprezando a si mesma pelo desejo de se aninhar contra seu peito, esquecendo-se completamente de Sr. MacGolden, das joias e de todo o resto do mundo. É por causa da fraqueza, logo vai passar, insistia seu cérebro cansado. Desista, dizia seu coração, entregue-se... Pansy virou o rosto para outro lado, lutando contra as lágrimas que teimavam querer escorrer pela sua face. Não desejava que Harry a visse chorando, não ia admitir que ele percebesse o quanto estava apaixonada por ele, um homem que havia se casado com ela por necessidade, não por amor. Um homem que amava outra mulher.

— Estou com sede. — Talvez Harry saísse de perto dela para ir buscar água.

Ele saiu, de fato, mas logo voltou, trazendo um suco de frutas.

— Beba devagar.

Pansy bebeu com relutância. O suco era doce e estava gelado, mas, mesmo assim, não conseguiu fazer com que se sentisse melhor. Começou a mexer nos botões da camisa, tentando abri-los para deixar entrar mais ar, mas seus dedos fracos se recusavam a cumprir essa simples tarefa.

— Deixe comigo — Harry abriu-os, afastando o tecido da pele de Pansy. — Ficaria mais confortável se abrisse o zíper de calça também, parece que o cós está muito apertado.

— Não, pode deixar. — Pansy tentou afastar as mãos dele.

— Não seja boba, não vou despi-la. — E, ignorando os protestos de Pansy, ele abria o zíper e passou os dedos sob o cós da calça, afastando-o da sua cintura. — Assim vai se sentir mais confortável... — começou e depois fez uma pausa.

Ele descobriu! Pansy constatou atônita. Mesmo antes que seus dedos passassem por toda a extensão do cós, Pansy soube que ele já tinha percebido. Harry começou a apalpar o tecido, inicialmente com um ar pensativo, que logo se transformou em compreensão, e depois a raiva tomou conta de seu rosto.

— Você estava com as pedras o tempo todo! — Seus olhos estavam duros e acusadores. — Você me deixou pensar que estavam escondidas no hotel. Arriscou nossas vidas ao trazê-las. Devia ter me contado!

— Você teria me obrigado a devolvê-las para partirmos em segurança! — Apesar da sua fraqueza, Pansy esforçou-se para se levantar dos travesseiros e enfrentou Harry com um ar de desafio. — Foi você quem achou que eu as tinha deixado no hotel. Eu não disse nada. E não contei que estava com elas porque não era problema seu. — disse, com firmeza. — As joias são responsabilidade minha, não sua.

— Agora também são de minha responsabilidade, assim como você.

— No instante em que atracarmos, você estará livre disso. Vou devolver seu anel assim que chegarmos em terra. Pensando bem, vou devolvê-lo agora! — Pansy fez um movimento para tirá-lo.

— Deixe-o onde está. — Seus dedos se fecharam sobre os dela com uma força tão grande que Pansy até estremeceu. — Você não vai se afastar nem um centímetro de perto de mim até que as pedras estejam depositadas num banco e, enquanto estiver comigo, vai usar o meu anel. Tenho o direito...

— Você não tem direito a nada! — Pansy fez um esforço supremo para controlar as lágrimas, mas não pôde evitar o tremor em sua voz.

Pansy só conseguia pensar que Harry a tinha possuído, a tinha usado, quando tudo o que queria era Ginny. Nunca poderia perdoá-lo por isso e também nunca iria se perdoar por ter correspondido, por ter acreditado nele, por ter sido tão imbecil a ponto de se entregar antes mesmo de tentar avaliar se havia algo por trás daquelas carícias.

Ignorando-a, Harry continuou.

— Ainda bem que já mandei uma coruja para o Ministério avisando de nossa chegada.

— O que o ministério tem a ver conosco? — Pansy tinha se esquecido da ocupação de Harry em Dublin.

— Eles já avisaram a alfândega.

— Alfândega? — Pansy ficou olhando espantada para Harry, esque cendo temporariamente as desavenças. Nem tinha pensado nisso.

— No caso de não ter lhe ocorrido, estaremos entrando na Inglaterra sem bagagem, sem documentos e sem qualquer tipo de identificação. Os funcionários da alfândega vão querer explicações.

— E o ministério vai nos liberar? — O medo começou a tomar conta de Pansy.

— O ministério vai dar ordem para que me liberem — Harry enfatizou o "me" — e, como minha esposa, penso que também você terá passagem livre. Pense nisso, e fique com o anel. — terminou friamente.

— E depois Harry, o que acontece? — Pansy perguntou, mas não teve resposta.