Para todas as pessoas que eu conheço que escutam
Escutem-me
Aleluia
Para todas as pessoas que eu conheço que rezaram por mim
Pela minha segurança
Aleluia
Viva Voce - The Rocketboys
Roma, Estados Papais
18 de Setembro de 1818
Haviam certas coisas com as quais, inegavelmente, um Da Vinci se acostumaria durante a vida. Embora Lorenzo não tivesse nem de longe a menor das pretensões de seguir os caminhos do sacerdócio, um Da Vinci sempre era considerado um homem de Deus, e homens de Deus sempre seriam tratados da mesma forma.
— Muito obrigada por vir, Sr. Da Vinci, muito obrigada… Que Deus lhe abençoe…
Lorenzo apenas concordou com a cabeça, em agradecimento. Várias horas atrás, fora chamado enquanto fazia uma prece na Capela Sistina, e pegara a primeira carruagem que conseguiu para seguir até a casa da senhora que agora o acompanhava pelos corredores do que parecia a ele uma mistura de cortiço com uma versão pobre de convento habitado por mulheres solteiras, mães de bastardos ou serventes sem casa.
— Tem estado terrivelmente frio para essa época do ano, o senhor não acha?
Mais uma vez, ele apenas concordou. Não gostava de conversar, e achava irônico que tivesse que carregar o fardo de ser um Da Vinci quando era tão anti-social. Exorcizar fantasmas não era algo que pudesse ser feito sem uma habilidade social notável, uma vez que parte do processo consistia em fazer o fantasma falar. Lorenzo ainda não sabia o que tinha feito o clã escolhê-lo como novo líder quando o último tinha deixado o grupo, mas tinha uma boa taxa de sucesso, e era um homem estudioso e concentrado.
Tinha que ser por alguma dessas razões, obviamente. Não era por carisma, porque não o tinha, e certamente não era por aparência. Lorenzo sabia estar dentro dos padrões alvejados pelas damas da sociedade como bons maridos, e ajudava que fosse o líder do maior clã da Itália, mas suas duas últimas cortes haviam desanimado tanto as garotas com sua falta de interesse em conversas e afins que seguia solteiro.
— Ela está aqui.
A mulher abriu a porta de um quarto. Uma jovem, provavelmente debutante, tinha sido amarrada à cama. Ela se contorcia e xingava palavras que certamente não deveriam estar saindo da boca de uma dama. Uma outra mulher, provável mãe da menina, tentava contê-la na cama. Lorenzo analisou a menina. Os pulsos e tornozelos dela estavam roxos onde o lençol tinha sido amarrado, provavelmente com força demais. Seus pés tinham inchado um bocado. Haviam várias marcas de unhas e hematomas pelo corpo e alguns tufos de cabelo espalhados pelo chão.
O espírito estava tentando machucar ou destruir o corpo da humana, mas ainda não tinha conseguido matá-la. Talvez a garota pudesse ser salva, então. O Da Vinci suspirou baixo. Exorcismos em pessoas ainda vivas eram muito mais complicados de se fazer, mas ele ficou feliz em saber que aquela menina ainda não estava perdida.
— A senhora é mãe dela? — ele perguntou à mulher ao lado da cama.
— Sim, senhor… A minha menina vai ficar bem?
A garota soltou um rosnado e se contorceu de forma assustadora. Isso não era bom. Uma vez que o espírito não tinha conseguido matá-la para tomar o corpo, era de se imaginar que quebrar a coluna seria o próximo passo. Era melhor fazer algo antes que o espírito decidisse que o pescoço era a próxima melhor ideia.
— Vamos fazer o possível, ok? — Lorenzo respondeu, vendo algumas manchas de sangue no lençol. — A senhora pode nos dar o quarto, por favor? — ele pediu, dessa vez para a mulher que o guiara até ali. Ela assentiu e saiu, fechando a porta em seguida.
Lorenzo tirou as luvas e as guardou no bolso, se aproximando da cama. A jovem amarrada olhou para ele e abriu um sorriso lascivo.
— Da Vinci… — ela disse, arrastando as palavras e lambendo os lábios em seguida.
O homem franziu os lábios em desagrado. Os espíritos pareciam se divertir em apelar para violência mas, acima de tudo, para a perversão, na presença de um Da Vinci. Uma vez um homem de Deus, sempre um homem de Deus, e todos os espíritos pensavam saber provocar a ira de um.
Pensavam.
— Você sabe quem eu sou. Poderia estar me fazendo a cortesia de igualar a situação, e me dizer seu nome?
A mãe da menina, ainda a segurando, olhou para Lorenzo com um brilho de súplica nos olhos. Ele tentou passar um olhar encorajador a ela, mas não sabia se tinha conseguido. Lorenzo puxou uma cadeira para o lado da cama e se sentou, encarando a garota com um olhar analítico.
Ela estava com olheiras enormes sob os olhos, completamente vidrados. Não dormia há dias, com certeza. Os lábios estavam rachados e feridos, provavelmente de tanto morder. Os arranhões e hematomas se estendiam ao rosto também.
— Você não é o espertinho, Da Vinci? Por que não descobre como me chamo?
— O nome dela é Mariette… — a senhora disse, ainda segurando a filha pelos braços.
— Não a garota, o espírito. Invocar o nome do espírito pode forçá-lo a deixar o corpo. Apela para a natureza humana dele. Diga-me, existe alguma história de alguém que foi morto de forma violenta ou inesperada nas imediações?
— Eu… Sim… Mas nunca soubemos o nome dela. Ela morreu em um dos quartos do prédio.
A jovem amarrada rosnou. Morte certa, Lorenzo pensou, mas se o nome da menina não era conhecido, não seria de grande ajuda. Mariette virou a cabeça para o lado com força e Lorenzo avançou, a segurando antes que ela quebrasse o pescoço.
— Não temos tempo para investigar. O espírito está forte, vai tentar matar sua filha. Vou ter que exorcizá-la. Segure-a bem, por favor.
A mulher apertou as mãos nos ombros da jovem que começara a se debater ainda mais. Lorenzo tirou um terço do bolso e o enrolou na mão, deixando a cruz em contato com a palma.
— A senhora é batizada? — ele perguntou. — Está confessa?
— Sim… Fui na igreja ontem mesmo pedir iluminação para a minha menina.
O homem franziu a testa. A garota começara a se contorcer ainda mais e ele ouviu algo estalar. Era um osso do braço, que agora estava quebrado em um ângulo estranho.
Era mesmo um espírito forte. Não fazia sentido Mariette estar viva.
— Isso vai machucar sua filha, mas eu preciso que a senhora a segure bem e me deixe terminar, certo?
— Sim, senhor.
Lorenzo respirou fundo e fez o sinal da cruz. Exorcismos eram o pior dos cenários, e vinham acontecendo cada vez mais, mesmo para espíritos que deveriam ser mais fracos.
Algo de estranho estava acontecendo. Ele conseguia sentir.
"Um problema de cada vez, Lorenzo.", ele pensou. Então espalmou a mão com a cruz na testa da menina.
Um chiado de queimado se espalhou pelo quarto, sendo rapidamente abafado por um grito tão forte que Lorenzo imaginou, por um instante, que arrebentaria as cordas vocais da menina.
— Senhor Da Vinci…
— Não solte ela! Não solte por nada, ou o espírito vai matar sua filha, entendeu?
A mulher empalideceu. Lorenzo não gostava de assustar as pessoas, mas às vezes era necessário. O choque pareceu colocar a mãe no lugar, e ela apertou mais a garota.
— Regna terrae, cantate deo, psallite dominio… Tribuite virtutem deo. Exorcizamus te, omnis immundus spiritus…
O corpo da garota começou a tremer enquanto Lorenzo entoava o exorcismo. A mãe da menina não parecia que ia conseguir segurá-la por muito mais tempo. Os espasmos da jovem estavam cada vez mais violentos, mais agressivos, mais perigosos… Lorenzo resmungou internamente e subiu na cama, se sentando sobre a garota para segurá-la no lugar.
— Ab insidis diaboli, libera nos, domine. Ut ecclesiam tuam secura tibi facias…
— DA VINCI! EU CONHEÇO VOCÊ! EU VEJO VOCÊ! EU SEI O SEU SEGREDO! EU VEJO SEUS DEMÔNIOS!
O espírito estava o ofendendo diretamente agora. Lorenzo engoliu em seco. Seus demônios eram seus apenas. Não tinha como o espírito saber. Espíritos sempre diziam isso, afinal, todo mundo tinha demônios. Uma fala genérica, uma tentativa desesperada de desestruturá-lo. Apenas isso.
Não ia funcionar.
— Lpse tribuite virtutem et fortitudinem plebi suae, benedictus deus, gloria patri…
O corpo parou de se contorcer. Uma névoa escura saiu da garota de uma vez, se materializando do outro lado do quarto na forma do fantasma cinza uma mulher.
Lorenzo a analisou o quão rápido pode. Quarenta anos, não mais. Cabelos escuros e desgrenhados, roupas puídas, olhos tristes… Ele memorizou o quanto pode do rosto dela, e o espírito desapareceu.
— M-mãe…?
Nesse instante, o homem percebeu que estava sentado sobre a menina de forma muito incoveniente. Ele se levantou, de um salto, pegando o terço e o guardando no bolso. A cruz estava marcada como que a ferro quente na testa da menina. A marca duraria mais alguns bons dias e a protegeria de outros ataques, mas nem todos estavam à salvo como ela. A jovem começara a chorar e a mãe se sentara na cama, puxando cabeça da filha para seu colo e fazendo um carinho maternal nela.
— Cuide da garota. E carreguem um terço com vocês, as duas, até que meu clã encontre o espírito e se livre de vez dele.
— Obrigada senhor, obrigada… Eu… Eu não tenho muitas moedas…
— Não faço isso pelo dinheiro. Guarde para você, vai precisar.
E antes que a conversa durasse mais do que ele gostaria, ele saiu. Encontrou a senhora que o recebera do lado de fora, com mais uma boa horda de moradoras atraídas pelos gritos. Curiosas.
— O espírito escapou. Está fraco pelo exorcismo, mas daqui alguns dias pode querer possuir alguém de novo. Certifiquem-se de sempre carregar um crucifixo com vocês, a todo o momento, sem nenhuma exceção, até que consigamos encontrar e libertar o espírito, entendido?
— Sim, Sr. Da Vinci… Muito, muito obrigada… — uma das mulheres acenou para ele.
Lorenzo suspirou. A corte não dava certo com ele, simples assim. Era melhor que tivesse já parado de tentar depois das duas últimas tentativas falhas.
— Que Deus lhes abençoe.
O Da Vinci deixou a casa ouvindo risadinhas e suspiros atrás de si. Sabia que algo não estava certo. As possessões estavam ficando mais frequentes, e espíritos que deveriam ser fracos vinham dando trabalho demais.
Tinha que fazer algo a respeito. Era seu dever. Precisava investigar isso, e ia começar com a mulher que tinha acabado de exorcizar. Ela tinha que ter um nome. Ela tinha que ser alguém. E quando descobrisse quem era, ia começar a colocar um ponto final em tudo isso.
