Eu sou um guerreiro, guerreiro da terra
Nascido verdadeiro pagão, sim
Eu sou um guerreiro, soldado da natureza
Lutando pela terra

Earth Warrior - OMNIA

Sevillha, Espanha

26 de Setembro de 1818

As luzes fracas do vurdon piscaram quando o homem agarrou a janela atrás da cama. Letitia olhou em volta, rindo baixinho.

— Desculpe, as luzes são frágeis. — ela sussurrou em meio à respiração afobada.

Ela não se lembrava mais o nome do cara em cima dela, mas ele era muito bonito e ela sempre tivera um fraco por sorrisos cativantes. Era uma pessoa gentil, e gentileza a atraía bastante.

Além disso, como um bom cigano passional, ele se tinha se envolvido no que estava fazendo em vez de enxergá-la como um pedaço de carne como os homens da cidade faziam. Não era à toa que Letitia sempre tinha preferido ciganos. Suas andanças por Andaluzia eram muito proveitosas e frequentemente acabavam como aquela ali, com um estranho ou estranha atraente em seu vurdon, e sem roupa alguma.

— Seu vurdon precisa de uns consertos.

Letitia tinha uma resposta na ponta da língua, mas ela morreu em um gemido ao sentir o toque dos dedos do homem (qual era mesmo o nome dele? Droga, ela não conseguia se lembrar. Desistiu.) entre suas pernas, naquele exato ponto que implorava para ser tocado. Ela tinha feito bem em conhecer esse músico, pensou. Músicos tinham dedos ágeis.

— Você… Você está… Se oferecendo? — a pergunta dela saiu no meio de suspiros e gemidos contidos. Seu corpo estava quente, tomado pela familiar sensação pré-clímax.

As costas dela se arquearam, e ela sentiu o cigano se mover mais rápido, mais forte dentro dela, mas mantendo nos dedos a mesma cadência lenta que estava aos poucos a levando à loucura.

Ele parou, de repente, soltando um gemido alto, e Letitia se contorceu na cama. Isso não era hora de parar, não agora, por favor, não agora…

— Eu poderia consertar para você. — ele disse, respirando com força, se recuperando do orgasmo.

O homem saiu de dentro dela e se abaixou no colchão, levando a boca onde seus dedos estavam segundos atrás. Letitia não conseguia mais raciocinar o bastante para agradecer a oferta dele de consertar o vurdon para ela, então apenas apertou os cabelos compridos dele enquanto a língua do cigano terminava o que os dedos tinham começado. Letitia soltou um gritinho agudo, as pernas se contorcendo e o aperto nos cabelos dele se intensificando. Se o cigano achou ruim que ela puxasse os cabelos dele com força, não demonstrou, e quando Letitia o soltou e se recuperava do orgasmo dela, ela o ouviu se levantar da cama, indo fazer algo que ela não sabia o que, pois estava ocupada demais com os olhos fechados, voltando a respiração para o normal.

Quando Letitia abriu os olhos, viu o cigano mexendo em seus lampiões. Luz a gás era a maior novidade do momento, ela tinha acabado de conseguir os lampiões. Seria terrível se eles já estragassem.

— Você entende de luz a gás?

— Um pouco. Aqui, no caso, acho que os lampiões são sensíveis mesmo, não tem muito o que fazer.

Letitia deu de ombros e se levantou, procurando sua camisola largada em algum lugar no chão do vurdon. Enquanto se vestia, ela viu o cigano franzir a testa, mas acabou desistindo e colocou o lampião no lugar.

— O que vocês Flores vieram fazer tão cedo em Sevilha? — ele perguntou, cruzando os braços e observando Letitia se vestir. — Não faz muito tempo que estiveram aqui.

— Os lobisomens tem se comportado de forma estranha. — ela pegou o corset no chão, começando amarrá-lo no corpo por conta própria. — Viemos atrás de informações. Uma caravana chegou de Portugal hoje cedo, e relatou um ataque que aconteceu em Lisboa dias atrás. Estávamos planejando ir embora hoje, mas aparentemente os ataques estão se estendo para cá.

Letitia sorriu, um pouco entristecida. Compadecia dos lobisomens, e sentia pena do que eles passavam. Muitos eram encontrados por caçadores antes dos Flores terem a chance, e acabavam mortos. Pobres almas infelizes… Letitia sempre fazia o que podia para salvar quantos pudesse, mas no fim das contas, nem todos podiam ser salvos.

Ela terminou de vestir as roupas, e o cigano vestiu a calça e recolheu o restante nas mãos. A Flores pegou um dos lampiões na mesa de cabeceira e se despediu do homem com um beijo roubado, antes de sair. Tinha um trabalho a fazer.

Seguir o rastro de um lobisomem era, às vezes, muito fácil, mas em outras vezes podia levar dias e dias a fio. Naquela noite em específico ela sabia para onde ir, graças aos avisos da caravana portuguesa. A Flores pegou um dos cavalos de seu vurdon, o selou e montou, partindo em direção à orla da cidade.

Havia uma coisa muito curiosa sobre os lobisomens: quanto mais agressivos, mais fáceis de serem encontrados. Eles deixavam rastros de destruição por onde passavam, tal qual um animal selvagem faria. Naquela noite, Letitia se dirigiu até o pequeno arvoredo ao redor da estrada que os portugueses tinham usado para chegar em Sevilha e desceu do cavalo, deixando um carinho nele, levando seu lampião e avançando floresta adentro.

O outono tinha acabado de começar, embora estivesse um pouco mais frio do que Letitia esperava para essa época. As folhas das árvores estavam começando a amarelar e cair bem mais do que deveriam nessa época do ano.

Eram as fábricas, pensou. As pessoas não paravam de fazer fábricas e mais fábricas para construir coisas, sem precisar. Por que usar máquinas para fazer algo que seus dedos conseguiam fazer? As árvores estavam sofrendo com isso, era visível. O clima estava sofrendo. Mais uma vez, as pessoas estavam fazendo o que queriam, e era a natureza que ia pagar por isso.

Ela seguiu pelo bosque, sentindo as folhas e alguns gravetos estalarem sob seus pés descalços. Letitia levava apenas o lampião a gás consigo, e deixara o cavalo para trás. Não demorou muito para que desse de cara com uma árvore com um galho grande quebrado, e depois com marcas de garras na árvore da frente. O rastro de destruição era desleixado e desesperado. Letitia se aproximou da marca no tronco e tocou o rastro das garras. Como boa Flores que era, acreditava na influência da névoa e no sofrimento daqueles afetados por ela. Lobisomens mais agressivos eram os mais atormentados, e se aquele rastro era sinal de alguma coisa, era de que ela estava caçando um dos piores.

— Tudo bem, rapaz. Eu vou te ajudar.

Letitia olhou em volta, mas não havia sinal do lobo por ali. A Lua estava minguante, e um lobisomem que conseguia ficar tão forte quando seu poder devia estar acabando não era um bom sinal. Ela continuou seguindo o rastro, mais e mais preocupada a cada galho forte caído no chão, a cada árvore ferida, até enfim encontrar algo. Uma vítima.

— Ah, não…

Caído sob o pé de uma árvore, o corpo ensanguentado de um alce pequeno. Ela se aproximou, sentindo um aperto na boca do estômago, e colocou a mão sobre o animal. Não sentiu a respiração dele. Tinha morrido.

Letitia teve pouco tempo para sentir a morte do animalzinho. Havia um rastro de pegadas de sangue, pegadas animais, indo mais dentro na floresta.

O sangue estava fresco. O lobisomem não poderia estar muito longe.

Ela soltou a capa de frio das costas e seguiu as pegadas com o tecido na mão, atenta a movimentos ou aos sons da floresta. Estava tudo silencioso demais. Não haviam pássaros, grilos, nenhum típico som.

Nada, a não ser o rosnado do lobisomem à sua frente.

Letitia respirou fundo e abriu a capa, a segurando nas mãos. Os olhos amarelos do lobisomem brilharam em sua direção e ela flexionou os joelhos.

A criatura avançou. Letitia rolou para o lado e esticou o pano, o fechando na cabeça do lobisomem. Segurando o tecido com força fechado ao redor do rosto dele, ela subiu nas costas da criatura, se segurando no pescoço dele.

— Está tudo bem. — ela sussurrou, fazendo um carinho no pescoço dele. — Vai ficar tudo bem. Você não está sozinho. Estou aqui, vai ficar tudo bem…

Às vezes levavam minutos. Às vezes horas. Alguns Flores não tinham a paciência necessária para ficar com um lobisomem até ele se destransformar, uma vez que o processo podia ser bem demorado, mas Letitia nunca tinha pressa. Ela se segurou nas costas da criatura e tentou repetidamente a acalmar. Foi jogada para longe várias vezes, e subiu de novo. Vez após vez, Letitia driblou e escalou o lobisomem. Por horas ela ficou na floresta, mesmo que seu tempo estivesse acabando. Lobisomens assumiam a forma de criatura quando a névoa estava alta, e ultimamente, isso vinha acontecendo toda noite. Ela tinha que curá-lo antes que o sol nascesse, ou, ao anoitecer, o lobisomem ia se transformar novamente.

Ela não perdeu a esperança por um segundo sequer, e quando já via a lua começar a descer do outro lado do céu, estava cansada e ferida, sangrando em vários lugares e mal conseguindo se manter de pé, o lobisomem caiu aos seus pés, cansado.

— Tudo bem. Vai passar. — a voz de Letitia era suave e delicada, e foi com essa suavidade que ela se sentou ao lado da criatura, acariciando as ancas dela.

A respiração do lobisomem começou a se acalmar. Agora parecia mais um cachorro cansado, recebendo um carinho de seu dono. Letitia olhou aflita para o céu, vendo a lua caindo cada vez mais. Logo o sol estaria ali.

Mais de uma vez, ela tinha falhado, e precisara passar o dia próxima da pessoa até a noite, para começar o processo de acalmar o lobisomem todo de novo. A transformação era muito dolorosa de se passar por ela, e descartava todo o trabalho de acalmar a criatura durante a noite.

Ela tinha poucos minutos dessa vez. Talvez não fosse conseguir.

— Escute a minha voz. Eu sei que pode me ouvir. Eu sou uma amiga. Pode confiar em mim. Encontre a minha voz…

O céu estava começando a perder um pouco do tom escuro quando o lobisomem choramingou.

Letitia se afastou alguns centímetros, pegando a capa de frio que usara a noite inteira para tourear o lobisomem. A criatura chorou e começou a se desfazer no ar em uma névoa preta e densa que se espalhava para cima.

Estava funcionando. A névoa foi embora e o que ficou no chão da floresta foi uma jovem garota de não mais que catorze anos, assustada, trêmula, nua e coberta de sangue e sujeira.

— M-mãe?

Letitia engoliu em seco. A menina deixa ter seguido sua voz achando que era a mãe dela ali.

— Não… Mas eu sou uma amiga… — ela cobriu a menina com sua capa de frio e a puxou para perto. — Está tudo bem agora. Eu vou te ajudar, ok?

— Minha mãe… Ela… Ela…

Então era isso. Algo tinha acontecido à mãe da menina, algo muito grave e terrível para que ela pudesse aguentar, e a névoa tinha se aproveitado do buraco em seu coração. Ia ter que dar um jeito de preencher o buraco deixado pela mãe dela para garantir que a menina ficaria bem.

— Qual o seu nome? — Letitia perguntou, se levantando e conduzindo a menina pela floresta em direção ao seu cavalo.

Ela ainda tremia, e olhava em volta assustada, sem saber como tinha chegado ali.

— C-Camilla…

— É um nome muito bonito, Camilla. — a Flores sorriu, abraçando a garota mais para perto. — Eu vou te ajudar, ok? Eu prometo. Confie em mim.

A menina concordou, olhando assustada para o alce morto que viram no caminho. Letitia se perguntou se ela se lembrava daquilo. Algumas pessoas detinham as memórias, outras não, e os Flores não sabiam ainda o que os diferenciava um dos outros. Camilla não parecia saber o que tinha acontecido, e na opinião de Letitia, era melhor quando acontecia assim.

Ela subiu com Camilla em seu cavalo e disparou de volta para o acampamento em Sevilha. Estava exausta e fez o possível para manter uma conversa trivial com a menina, tentando garantir que ela estivesse bem e mantivesse a calma e aliviasse seu coração. Não era um trabalho fácil. Vários lobisomens eram reincidentes.

O caminho de volta para o acampamento cigano levou muito tempo. No caminho, Letitia descobriu que Camilla tinha visto a mãe ser morta pelo padrasto, e em seu susto, tinha o matado ao derrubar um armário para escapar. O armário tinha jogado o homem da janela e ele não sobrevivera a queda. Era, certamente, muito para uma garota da idade dela. Não havia regra que dissesse o que era o bastante para um lobisomem se transformar. O que pesava era o quanto a pessoa sentia e se destruía por dentro com o que acontecia ao seu redor.

Camilla estava, claramente, muito perturbada. Letitia chegou ao acampamento despencando de sono, querendo seu vurdon mais que tudo, mas não podia deixar a menina sozinha ali.

Então, como uma luz caída do céu, ele viu o cara com quem estivera antes vindo em sua direção. Ele tinha um sorriso largo e a expressão curiosa.

— Então você achou?

— Achei. Camilla, ele é um amigo.

A menina olhou para ele assustada e se abraçou a Letitia.

— O que foi? — a Flores perguntou.

— Amigo?

— Olá garotinha. — ele abriu um sorriso e fez um carinho nos cabelos dela. Camilla soltou o abraço, um pouco, e olhou para o homem.

— O-olá…

— Vocês estão partindo? — Letitia perguntou, vendo que ele estivera atrelando cavalos ao vurdon dele.

— Sim. Decidimos pegar o rastro para Portugal por um momento.

— Portugal? — Camilla perguntou, soltando Letitia. — Eu… Eu quero ir pra casa…

A Flores e o cigano se olharam por um instante. Uma conversa inteira pareceu acontecer naquele momento, e ela acabou com um pequeno aceno de cabeça do cigano.

— Você pode vir com a gente, se quiser. — ele disse, estendendo a mão para ela.

Camilla olhou confusa para Letitia, e ganhou um sorriso encorajador como resposta. A menina abraçou a Flores com força, agradecendo por tudo, e no segundo seguinte, estava indo embora com o cigano.

Letitia guiou o cavalo até seu vurdon e se sentou no banco do condutor, vendo o grupo do cigano que conhecera partir. Sequer sabia o nome dele. Era parte da vida de um cigano, pensou. As pessoas vinham e iam em sua vida com muita facilidade, e ela não achava isso uma coisa ruim. Era uma certa adrenalina, um certo… gostinho especial.

Sabia que provavelmente não veria Camilla nunca mais, e talvez nem aquele cigano. Muitas das pessoas que conhecera de outras caravanas tinham sido uma presença única em sua vida. Mas, ao se deitar em sua cama depois de um longo banho de tina, ela não conseguiu sentir outra coisa a não ser satisfação.

Camilla estava salva, graças a ela. Teria uma vida. Poderia ficar com os ciganos caso não encontrasse sua família. Nunca mais estaria sozinha.

Letitia sorriu e guardou seu lampião. Mais uma vez arriscara a vida a noite inteira. Poderia não ter voltado para a caravana. Estava exausta e em algumas horas sua caravana ia voltar do tour que tinham começado em Andaluzia na noite anterior, e perguntariam para ela se tinha conseguido o que queria em Sevilha.

Sim, ela tinha. Camilla estava à salvo e não colocaria mais ninguém em perigo, e ser uma Flores era isso. Era prezar pela vida. Sempre.