Eu estava mal desde pequeno
Levando meu mau-humor às multidões
Escrevendo meus poemas para os poucos
Que olhavam para mim, levaram até mim
Me acudiram, me sentiram
Cantando de um coração partido pela dor
Pegando minha mensagem desde as veias
Falando minha lição de cor
Enxergando a beleza através da
Dor!
Você me fez
Fez de mim alguém que acredita

Believer - Imagine Dragons

Londres, Inglaterra

27 de Setembro de 1818

Frankestein?! Senhor Frankestein!

Alban franziu a testa. Sua cabeça doía como o inferno, alguma porra de luz muito forte estava na sua cara e algum filho da puta não parava de gritar seu nome.

Inferno. Tudo que ele queria era dormir, era assim tão difícil?

— Senhor Frankestein!

O chamado dessa vez veio acompanhado de batidas em alguma coisa. Alban soltou um resmungo baixo e ininteligível. Talvez se não respondesse a pessoa iria embora.

— Senhor Frankestein, tem correspondência para o senhor!

Correspondência? Mas a correspondência só chegava de manhã…

— Ah, puta que pariu… — ele resmungou abrindo os olhos e piscando várias vezes.

Como suspeitava, tinha dormido em cima do trabalho. Alban olhou para os textos escritos pela metade, livros abertos, anotações espalhadas e o copo de uísque ainda meio cheio em cima da mesa. A luz na sua cara era o pouco sol que entrava naquela parte da Torre de Londres. O gás do lampião acabara em algum momento durante a noite.

— Senhor…

— Mas que inferno, já vou!

Alban reconheceu a voz do secretário do clã e rangeu os dentes se perguntando porque raios tinha contratado um rapaz tão pontual assim. Seria excelente se ele atrasasse as vezes, o bastante para dar a Al mais algumas horas de sono. Ele pegou a gravata e o colete na cadeira, os vestindo de qualquer jeito, e abriu a porta de uma vez. O jovem atrás da porta se sobressaltou com a violência, e pareceu diminuir de tamanho ao ver Alban o encarando com tanta fúria que pensou que por muito pouco, em vez da porta, era ele quem ia acabar sendo jogada para o lado com força.

— O que é?

— Correspondência, senhor.

Ele esticou um maço de cartas para Alban e o Frankestein as tomou das mãos do rapaz.

— Mais alguma coisa?

— Não, senhor.

— Então o que ainda está fazendo na minha frente?

— D-desculpe. — ele tocou a aba do chapéu, em uma leve reverência de despedida. — Com licença.

Alban fechou a porta com mais força que o necessário, jogou o maço de cartas na cama e olhou em volta.

Não devia estar dormindo ali. Tinha um apartamento em Londres para isso, mas ultimamente sentia que não tinha tempo para se dar ao luxo de sair da Torre e atravessar a cidade atrás de uma cama melhor. Ele virou o resto do copo de uísque, enfiou a garrafa em no armário da escrivaninha, pegou o fraque e as cartas e saiu do quarto.

Na noite anterior, a intenção de Alban tinha sido ficar acordado até ter alguma iluminação sobre o recente problema do aumento da atividade zumbi em Londres, mas a única iluminação que o acompanhou durante a noite foi seu lampião, ao menos até o gás acabar.

Talvez devesse sair para comer alguma coisa. Ou talvez fosse mais fácil mandar seu secretário buscar um café da manhã para ele e comer em algum lugar ali mesmo. É, parecia uma boa ideia.

O líder desviou o caminho no meio do corredor, indo em direção à sala do secretário, e começou a abrir as cartas. Dois convites para bailes de gala que Alban decidiu que largaria na recepção para quem quisesse, uma vez que não tinha interesse; uma carta de sua mãe, que ele guardou no bolso para ler mais tarde; e…

— Puta que pariu…

Alban soltou um rosnado de raiva e apressou os passos, cruzando o corredor vazio da torre em direção à sala do secretário. Aquele setor do castelo era fechado para o clã dele, e como Alban era o único Frankestein na cidade no momento, o lugar estava, à exceção dele mesmo e de seu secretário, vazio.

Talvez por isso Alban não teve vergonha alguma de escancarar a porta e jogar os maços na mesa com tanta força que derrubou o tinteiro que o rapaz usava para escrever.

— Lê essa merda aqui.

O secretário abaixou o olhar para o remetente das cartas e empalideceu.

— Ah! Me desculpe senhor Frankestein, me desculpe…

— O que eu tinha falado sobre essas cartas?

O rapaz não conseguia responder. Estava completamente travado no lugar. Alban continuou o encarando por um bom tempo, até que o secretário engolisse em seco e respondesse alguma coisa.

— D-disse… Disse para queimar…

— E então? Por que estão na minha correspondência?

— Me desculpa senhor, eu…

— Tá despedido. E leva essas merdas com você.

Antes que o rapaz tivesse tempo de responder alguma coisa, Alban voltou para o corredor, em direção ao seu laboratório.

Leu a carta da mãe no meio do caminho. Nada de mais, apenas falando sobre o clima na Escócia, perguntando como iam as coisas em Londres… Aparentemente, estava mais frio que o esperado para essa época do ano, mas Alban não dava a mínima pra esse tipo de coisa, então terminou de ler a carta sem dar muita atenção. Responderia mais tarde. Agora tinha coisas mais importantes para fazer.

Primeiro precisava comer alguma coisa, e depois voltar ao laboratório. Ah, é, tinha que dizer a seu secretário para buscar seu café da manhã. Alban respirou fundo e voltou pelo corredor, abrindo a porta da antessala do secretário com muito mais delicadeza do que fizera desde que tinha acordado.

Não foi surpresa ver que o secretário ainda estava lá, trabalhando, como se nada tivesse acontecido. Demitia o rapaz cerca de três vezes por dia, mas ele continuava aparecendo e Alban continuava o pagando, então devia estar tudo bem.

— Ei. Me compre algo para comer. — Alban jogou a bolsinha de dinheiro para o secretário. — Vou estar no laboratório.

— Sim, senhor. Alguma coisa em específico?

— Qualquer coisa que seja doce. Minha cabeça está me matando.

E continuou o matando ao longo do dia. Alban sabia que a quantidade de uísque que consumia não ia ser boa coisa a longo prazo, mas era muito bom em ignorar esse tipo de detalhe em sua vida, principalmente quando tinha coisas mais importantes com o que se preocupar.

Já faziam três dias que estava estudando o mesmo corpo. O zumbi tinha levantado em uma noite, no cemitério, e saído para dar um passeio por Londres pouco tempo depois. Quando foi encontrado, o zumbi estava terminando de comer o braço de um homem de meia-idade que não tinha conseguido fugir.

Pegar zumbis não era difícil, nem fugir deles, quando estavam sozinhos. Mas com a frequência com a qual vinham se levantando, Alban temia que fossem ter um problema maior em suas mãos em breve.

E era exatamente por isso que precisava descobrir rápido como fazer para impedir que um zumbi se levantasse ou, caso isso não fosse possível, encontrar uma forma mais rápida e letal de neutralizá-los. De preferência algo que atingisse muitos zumbis de uma vez só.

— Não é questão de gênero… — ele murmurou, já no fim da tarde. — Ou peso. Ou idade.

Alban suspirou e virou o resto do uísque de seu copo. Sentia que estava andando em círculos cada vez mais. Ele levou o bisturi ao pescoço do cadáver, imaginando se o segredo estaria na cabeça. Talvez se arrancasse o escalpo e abrisse o crânio conseguiria ver alguma coisa.

— Vocês vão acabar me deixando louco. Cadáveres malditos. Vocês estão mortos. Percebam logo de uma vez que estão mortos, droga…

Nesses momentos de estresse, Alban se perguntava porque tinha se deixado levar pelas palavras de sua mãe. "Vá para Londres" ela disse, "aprenda mais sobre sua história! Os laboratórios dos Frankestein tem recursos, eu sei como você gosta de ciência. Pode acabar fazendo uma grande descoberta!"

Bla bla bla… Inferno. Devia ter…

Ele parou o corte. Podia jurar que o zumbi tinha mexido um dos dedos da mão.

Excelente, agora estava começando a ver coisas. Se por sono ou se por álcool, uma coisa era certa.

— É melhor eu parar por hoje.

No exato instante em que disse isso, ouviu batidas na porta. Ah, sim, tinha dito ao secretário que organizasse alguns papéis. Mal se lembrava disso. Sua cabeça estava começando a dar voltas. Tirar férias na Escócia estava soando cada vez mais como uma boa ideia.

— Senhor, eu organizei os documentos que me pediu. Deseja mais alguma coisa?

— Não, pode ir. Talvez eu vá também, estou começando a ver coisas.

— Se me permite um palpite, senhor, acho que está precisando de uma festa. E de uma mulher.

Alban suspirou. Não tinha tempo para esse tipo de coisa. Nunca tinha entendido esse desespero dos homens de se encontrarem com mulheres que nunca tinham visto antes para poderem aliviar um desejo reprimido. Eles não tinham mãos não? Que necessidade mais descabida…

— Eu estou precisando é de Haig e cama, isso sim.

— A festa inclui o Haig, e a mulher inclui a cama, então talvez…

O secretário parou de falar. Estava ficando branco, e tinha uma expressão de puro horror em seu rosto.

— O que foi?

Alban olhou para trás.

O zumbi tinha se levantado.

— Puta merda! — ele se virou para o rapaz e o empurrou para o corredor. — Vá embora! Vá embora, agora!

Meio segundo depois, Alban ouviu o som da maca onde estivera estudando o corpo cair no chão, e só teve tempo de se abaixar antes que o braço do zumbi passasse onde sua cabeça tinha estado segundos atrás.

Isso não estava certo. O zumbi tinha sido precisamente capturado. Tendões cortados. Músculos feridos. Como raios estava de pé?

Um problema de cada vez. Alban rolou pelo chão para trás do zumbi e se levantou, pegando o bisturi em cima da mesa.

— Quer dançar, belezinha? Vamos dançar então.

Atraído pelo som, o zumbi virou para trás, onde Alban estava. O Frankestein recuou alguns bons passos, lentamente, atraindo o zumbi mais para dentro do laboratório. Esperou até que ele estivesse no meio do cômodo e correu na direção dele.

O zumbi esticou os braços para frente. Eram bem burros, Alban pensou, de achar que a comida iria se oferecer para eles dessa forma.

Melhor para ele, então. Se abaixou no último instante, escorregando pelo chão por debaixo das pernas do zumbi e se levantando atrás dele.

O zumbi ainda estava tentando processar o que tinha acontecido quando Alban fincou o bisturi no joelho dele e puxou para o lado rasgando o tendão.

O cadáver continuou de pé.

— O que…

O zumbi se virou para trás assustadoramente rápido para um homem morto, e sua mão se fechou no pescoço de Alban. Era muito mais forte que o esperado também.

O coração do Frankestein acelerou. Não conseguia respirar. Ia morrer. Ia morrer, com certeza. Um pouco mais de força e tinha certeza de que o cadáver quebraria seu pescoço.

Não. Não era hoje que ia morrer.

Ele fincou o bisturi no pulso do zumbi, e ele grunhiu, soltando o pescoço de Alban.

Tinha que agir rápido. Correu até o armário de químicos, abrindo uma das portas e pegando um vidro nas mãos. No pouco tempo que levou para fazer isso, o zumbi tinha saído do laboratório.

Essa não. Estava indo atrás do secretário.

Alban correu para fora, a tempo de ver o zumbi avançando pelo corredor.

Tinha uma chance. Não podia errar.

Ele jogou o vidro nas costas do zumbi com toda a força que tinha, e o vidro se quebrou, derramando ácido sulfúrico na pele do cadáver. Finalmente o zumbi foi ao chão, mas Alban não estava satisfeito. Algo lhe dizia que era melhor tomar medidas drásticas. Voltou até o laboratório, pegando a serra que usava para partir os ossos, e foi até o zumbi.

Pouco a pouco, Alban esquartejou o morto. Arrancou as pernas, depois os braços, e depois a cabeça, xingando uma sequência de palavrões que faria sua mãe interná-lo por uma semana na igreja para corrigir os pecados.

Por fim, coberto de sangue como estava, ele jogou os pedaços em um saco qualquer, jogou o saco no laboratório e trancou a porta.

Pronto. Fim do problema.

Por hora.

Alban se sentou no chão do corredor mesmo. O ácido tinha danificado seu bisturi, a bebida ficara trancada no laboratório com os restos do zumbi e sua roupa estava imunda de sangue.

Precisava ir pra casa. Precisava de roupas limpas, um banho e uma comida decente. Talvez fosse aceitar o conselho do secretário, ou pelo menos a primeira parte dele, e procurar um bar para ficar por um tempo antes de ir dormir.

Mas antes, um banho.

Ele se levantou e olhou para os cacos do vidro de ácido no chão. Não podia deixar aquilo ali daquele jeito, algum desavisado poderia colocar a mão e se machucar.

Inferno.

Limpar a bagunça. Ir para a casa. Banho. Roupas limpas. Bar. Comida e Haig. No dia seguinte mandaria cartas para o restante do clã. Alguma coisa estava acontecendo e, como Alban temia, ele não seria capaz de consertar tudo sozinho.