Bem, amor, sou o tipo de garota que dá um show
Não gosto de ficar em segundo plano, tenho que ser a primeira
Sou como uma mestre de cerimônias, eu que dou as cartas
Sou como fogos de artifício, eu me torno quente
Quando entro em cena
Sinto a adrenalina correndo nas minhas veias
Holofotes voltados para mim e estou pronta para arrasar

Circus - Britney Spears

Hunedoara, Império Austríaco

27 de Setembro de 1818

Nicoleta admirou seu reflexo no espelho. Vestido vermelho, luvas, botas confortáveis… Por baixo do vestido usava seu corset de cavalgada. Não sabia exatamente quanto exercício teria que fazer naquela noite, só sabia que o trabalho podia ficar complicado de repente. Caso isso acontecesse, seria bom estar usando uma roupa que a permitisse lutar de volta.

— Lady Van Helsing?

A caçadora se virou com um sorriso no rosto. Sua criada segurava um chapéu, e Nicoleta se abaixou para que ele fosse colocado em sua cabeça.

Agora sim, impecável.

Nicoleta pegou seu chicote e o prendeu na combinação, por baixo do vestido. Não era o jeito mais prático de pegar o chicote, pois complicava um pouco para pegá-lo de volta, mas era certamente o jeito mais bonito, e a Van Helsing era muito conectada à sua aparência.

— A senhorita não vai levar um casaco? Está frio lá fora.

— Está?

Ela olhou pela janela. Não parecia frio, e ela estava saindo para caçar. O casaco ia conseguir entrar em seu caminho mais do que qualquer outra coisa.

— Estou bem assim, obrigada.

A criada fez uma reverência e deixou o quarto.

Nicoleta saiu logo atrás dela. Recebera uma carta da igreja há dois dias solicitando que um Van Helsing fosse caçar um vampiro na cidade próxima e por um bom pagamento em dinheiro. Normalmente Nicoleta delegava os serviços para Van Helsings menores mas dessa vez tivera seus motivos para decidir ir em pessoa. Antes de mais nada, andava muito entediada, e uma caça ia lhe fazer muito bem.

Mas o principal motivo fora as mudanças que ela sabia estarem acontecendo. Vinham chegando cartas da igreja com cada vez mais frequência, e alguns dos membros de seu clã tinham se queixado recentemente de passarem aperto em caçadas que deveriam ser como tirar doce de criança.

Os Van Helsing eram lucrativos. Era como coordenar um negócio. Como boa mulher de negócios que era, Nicoleta não podia deixar sua empresa passar por esse tipo de dificuldade sem averiguar o motivo.

Assim, ela pegou a missão para si mesma. Vampiros gostavam de frio e escuro, e eram atraídos pelo cheiro de sangue, como regra geral, mas vinham se arriscando mais a sair em locais iluminados se estivessem povoados com muita gente.

Nicoleta não entendia essa mudança de comportamento, mas sabia como usá-la a seu favor. Um baile estava acontecendo em um casarão próximo, e Nicoleta tinha esperava que o aglomerado de pessoas fosse o bastante para atrair o vampiro.

Ela podia até estar vestida com roupas de gala, mas não tinha reservas quanto ao uso delas. Se acabasse estragando o vestido ao cumprir o trabalho, não tinha problema. Ia receber dinheiro mais que o suficiente para comprar outros depois.

Nicoleta pegou uma carruagem e saiu para a cidade. Havia um fluxo considerável de pessoas na direção do casarão, vindos de vários lugares. O baile estaria mais cheio do que Nicoleta esperava para um baile fora da temporada, mas cheio o bastante para representar uma preocupação. Se a festa realmente atraísse o vampiro para fora, ela teria que cuidar do problema rapidamente, antes que alguém se machucasse.

Sua carruagem a deixou na porta do casarão. A carruagem tinha o brasão dos Van Helsing pintado na porta, enorme, e estava coberta de vermelho e ouro de cima a baixo. Extravagante como era, Nicoleta não aceitaria menos do que chegar em um baile com o melhor transporte do clã.

O cocheiro abriu a porta para ela e a ajudou a descer, a segurando pelo cotovelo para apoiar na descida.

— Obrigada.

— A senhorita vai demorar na festa?

— Apenas o necessário. Me espere em algum lugar, vai saber quando eu terminar. Agora, com licença.

Com uma breve reverência, ela se despediu do cocheiro. Nicoleta ouviu os passos dos cavalos indo embora alguns segundos depois, mas não se preocupou com isso. Vários olhares tinham se voltado para ela. Nicoleta não sabia se atraía tanta atenção por ser uma Van Helsing, ou simplesmente por ser maravilhosa, mas adorava. Ela sorriu e acenou para alguns dos que a encaravam com expressões mais desdenhosas, sabendo que estariam fofocando sobre como ela era "vulgar". Estava escrito nos rostos deles.

O grupinho de pessoas deu as costas e entrou para a festa, e Nicoleta soltou uma risadinha. Típico… Ela não se importava com a fama. Na verdade, a ajudava, às vezes, a conseguir companhia para esquentar a cama de noite, então, por que reclamar?

Ela subiu as escadas do casarão. Estava, realmente, um pouco frio na rua, mas certamente dentro do salão estaria mais confortável. Um valete recolhia casacos na entrada, e ela passou reto, encontrando um outro empregado alguns metros para frente no corredor. Ele estava distribuindo cartões de dança.

— Senhorita Van Helsing! — ele a estendeu um cartão.

— Hoje não senhor, obrigada. Vim a trabalho.

A expressão do homem mudou para uma de surpresa e ele guardou o cartão.

— Os anfitriões já a colocaram a par da situação?

— Em parte. Existe algum local frio e escuro nessa casa? Algum que esteja vazio e pouco frequentado?

— Sim senhorita, temos o sótão. Se seguir pelo corredor principal à direita encontrará as escadas para os andares superiores. No terceiro andar, siga o corredor principal até o final. O alçapão estará no teto. Posso providenciar uma escada e acompanhar a senhorita para…

— Não será necessário, eu me viro. Com licença.

Ela deu as costas antes que o homem oferecesse mais ajuda. Homens e sua mania de querer se intrometer no que ela tinha que fazer… Não que ela não aceitaria ajuda ou companhia, mas era uma coisa aceitar o apoio de um Van Helsing que sabia o que estava fazendo. Outra totalmente diferente eram os homens que achavam que podiam ajudá-la só por serem maiores ou mais sabe-se lá o que. Nicoleta suspirou e revirou os olhos. Ossos do ofício.

Ela seguiu as instruções do homem, ignorando as pessoas que a encararam enquanto atravessava o salão. Os corredores internos do casarão estavam vazios, mas Nicoleta errou as portas várias vezes, e acabou dando de cara com um casal se beijando em um escritório.

A menina olhou para Nicoleta horrorizada, mas a Van Helsing fez um sinal com a mão indicando que não diria nada. Jovens moças virgens e a honra intocada… Coitadas. Era muita pressão em cima das garotas.

Não tinha sido fácil para Nicoleta se desprender desses papéis. Acontecera mais involuntariamente do que qualquer outra coisa. Se tornar tão boa em seu trabalho parecia ter dado a ela algum respaldo para fazer uma série de coisas que sabia que meninas de famílias tradicionais não poderiam fazer. Aí estava um lado bom de não ter família, pensou.

No fim das contas, o resto da casa estava vazio pelo caminho dela, e Nicoleta não demorou a encontrar o tal alçapão. Era uma portinha alta no teto com uma pequena aldraba na ponta. Nicoleta esperava que o vampiro estivesse escondido ali: um local escuro, fechado e vazio, mas perto de um grande aglomerado de pessoas, de forma que seria fácil para ele atacar um desgarrado.

Hora de conferir.

Nicoleta levantou bem a saia do vestido, pegando o chicote preso na combinação, e o estalou para desenrolar. Em seguida, olhou bem para o alçapão e estalou o chicote para cima algumas vezes, até prender a ponta dele na aldrava.

Não exigiu tanta força puxar o alçapão aberto, e ela escalou o chicote até chegar ao buraco que o alçapão abriu.

Assim que pisou no sótão, ela ouviu um rosnado vindo de um dos cantos.

— Então aí está você.

Ela pegou o chicote de volta e olhou ao redor. Não tinha nenhum lampião por perto e, em sua pressa, esquecera de pegar um. O sótão estava entulhado de caixas e quinquilharias, e o ruído do vampiro viera de atrás de um monte delas.

Paciência. Seria no escuro então.

Nicoleta apertou um botão na haste do chicote, revelando uma lâmina pequena, e fez um pequeno corte na palma da mão. Um filete de sangue escorreu e pingou uma gota no chão. E mais uma. E mais uma.

Na quinta gota o vampiro enlouqueceu. A criatura avançou chiando e derrubando caixas e outras coisas pelo caminho, em uma velocidade assustadora, mas nada com o que Nicoleta não estivesse acostumada.

Ela estalou o chicote, acertando as costas do vampiro que começou a sangrar. O cheiro do próprio sangue não o incomodava, ele estava determinado a conseguir o de Nicoleta, e continuou avançando.

A Van Helsing saltou para o lado, rolando em uma cambalhota e se levantando fora do alcance do vampiro. Agora estava coberta de poeira também e tinha acabado com o penteado. Bom, ela nunca tinha esperado sair dali arrumada, mas esperava sair com mais dignidade do que tinha agora.

Que dignidade? Agora era tarde pra isso. Nicoleta estalou o chicote mais uma vez, agora o prendendo no pulso do vampiro. A criatura continuou avançando e pulou contra ela, a jogando no chão e caindo em cima dela.

Nicoleta revirou os olhos. O vampiro a mordeu no ombro, com força, e Nicoleta sentiu o sangue começar a escorrer.

Tanto melhor. Ao menos assim, ele se acalmou e começou a focar em lamber o sangue que escorria em vez de atacá-la, o que transformou o vampiro numa presa fácil.

Nicoleta pegou o chicote e o enrolou no pescoço da criatura, com força. Assim que começou a sufocar, o vampiro se debateu, a arranhando e batendo de todas as formas que conseguia. Não satisfeita com isso, Nicoleta jogou o vampiro para o lado e se sentou nas costas dele, puxando o chicote ainda com mais força.

Ela manteve o laço apertado por um bom tempo, até que a falta de ar venceu e o vampiro desmaiou.

Por tempo demais. Era um vampiro resistente, mas ainda era um vampiro, e uma caçadora experiente como ela não demoraria para capturar um único vampiro faminto sozinha. Ela amarrou o chicote no pescoço do vampiro e o jogou pelo alçapão para o corredor da casa, saltando atrás dele em seguida.

Agora em um corredor iluminado ela deu uma boa olhada no homem. Não o conhecia, mas a julgar pelo fraque rasgado e pelas jóias que ainda usava, antes de ser enlouquecido pela névoa deveria ser um homem nobre. Ainda havia muito que os Van Helsing não entendiam sobre a névoa, mas entendiam o bastante sobre vampiros para saber que eram pessoas consumidas por ódio, avareza e egoísmo que chegavam a esse ponto.

Dificilmente alguém estaria procurando por esse homem, mas não era trabalho dela decidir. O que fazer com vampiros capturados era problema de seu contratante, ou seja, a igreja.

Nicoleta arrastou o homem pela casa por todos os andares e de volta até o salão, já que era o caminho que ela sabia fazer para fora e não estava a fim de procurar a saída de serviço. Ela ouviu uma sucessão de gritos e as pessoas se abriram como o Mar Vermelho para que ela atravessasse o salão, coberta de sangue e poeira, com o vestido rasgado e muito descabelada, arrastando um vampiro com um chicote preso ao pescoço dele.

— Que foi? — ela perguntou a uma mulher que a encarava muito assustada.

Várias garotas desmaiaram. Nicoleta não deu a mínima e terminou de arrastar o vampiro para fora, onde encontrou sua carruagem esperando. Alguém provavelmente já a teria mandado chamar depois de ver Nicoleta arrastando o vampiro pela casa.

— Foi produtivo, senhorita? — o cocheiro perguntou.

— O prêmio está aqui, não está?

Ela jogou o vampiro para dentro da carruagem e entrou também. Alguns segundos depois, a carruagem deu partida.

Agora ela só precisava parar em alguma catedral, entregar o corpo e pegar seu dinheiro. Fim. Não passara por problemas com esse vampiro, então não conseguia entender, ainda, de onde estava vindo a epidemia, mas não sabia se ligava.

Uma epidemia não poderia ser algo bom, no fim das contas? Mais caçadas, mais dinheiro… Não era como se estivesse morrendo gente, e se estivesse também, que fazer? Não era uma Da Vinci ou Frankestein para caçar por sentimento de dever, ou uma Flores pra fazer isso da bondade do coração dela. Era uma Van Helsing. Estava ali pela grana, e enquanto eles fossem os únicos que pudessem limpar o mundo dos vampiros, e só aceitassem fazer isso por dinheiro, a igreja continuaria pagando. Que mal teria, então? Era bom para a igreja também. Adoravam usar Deus para justificar a erradicação dos vampiros, então não parariam de pagar os Van Helsing tão cedo.

A pergunta era… Se a epidemia crescesse demais, se as coisas saíssem do controle… Como iriam impedir a tragédia?