Se isto é para terminar em fogo
Então devemos todos queimar juntos
Veja as chamas subirem alto na noite
Chamando ao pai, oh, se prepare e iremos
Assistir às chamas queimarem
Na encosta da montanha

E se nós morrermos esta noite
Nós devemos morrer juntos
Levante uma taça de vinho pela última vez

I See Fire - Ed Sheeran

Roma, Estados Papais

27 de Setembro de 1818

A missa noturna já tinha terminado, mas Lorenzo continuou sentado no banco da Igreja por um bom tempo. Já faziam quase dez dias desde aquele exorcismo peculiar da jovem garota, e até então, ele não conseguira encontrar uma luz no assunto.

Não por falta de tentativa. Lorenzo vinha para a Capela Sistina todos os dias agora, mas por mais que odiasse admitir, ia precisar de ajuda com esse caso. Era um homem de tradições, mas aquela situação em específico ia ser uma daquelas que ia forçar a sua mão em fazer coisas que o deixavam… desconfortável.

Ele entrou na sacristia e destrancou uma das portas do guarda-roupa, que escondia uma escadaria secreta. A entrada para o porão dos Da Vinci era conhecida tanto por membros do clã como a empregados e outros membros da igreja católica. Era comum ver vários padres, bispos, madres e diáconos transitando pelo local.

A porta trancada barrava a entrada de curiosos, e uma série de selos e símbolos religiosos pintados nas paredes serviam para deixar os fantasmas de fora. Naquela noite de domingo a sede estava bem movimentada. Com a recente atividade fantasma, Lorenzo esbarrou com três pessoas reforçando os selos nas paredes enquanto descia as escadas, e depois no corredor principal com mais umas cinco fazendo o mesmo. Ele passou por duas madres que discutiam acerca de um texto religioso, recostadas em uma das paredes, e por um padre que benzia um Da Vinci prestes a sair em uma caçada.

Não encontrou, no entanto, quem estava procurando. Lorenzo continuou seguindo até o fim do corredor, onde um arco enorme dava para uma biblioteca gigantesca, com três andares de estantes e o teto tão alto que mal se via os candelabros. O lugar estava lotado, mas silencioso. Lorenzo correu os olhos pelas mesas do primeiro andar, e seu olhar recaiu sobre uma jovem de pele negra e cabelos cacheados debruçada em frente a uma enorme pilha de livros.

— Senhorita Sartori!

Bianca Sartori levantou o olhar dos livros. Passara horas e horas lendo sobre religiosidade e espíritos, e não achava que aguentaria ler muito mais por agora. Com sorte Lorenzo precisaria dela para algo mais dinâmico do que mais leitura, e então ela poderia descansar os olhos um pouco.

— Senhor Da Vinci. — ela se levantou.

Lorenzo pegou a mão de Bianca, encoberta por uma luva branca, e deixou um beijo nela.

— Atrapalho?

— Na verdade, não. — ela respondeu, fechando o livro que estivera lendo.

O líder olhou para o título de relance. Seu francês era bem enferrujado, o bastante para que ele fosse incapaz de ler um livro na língua em tempo hábil, mas ele sabia uma coisa ou outra e reconheceu a palavra "fantasmas" na capa.

Ele franziu a testa. Gostava de pensar que ele e Bianca eram bons colegas, e ela era uma das pessoas com quem ele se lidava melhor dentro do clã, mas sentia que por muitas vezes a situação de subordinação não saía do ambiente entre eles. E ele estava precisando de um favor agora. Não ia obrigá-la a largar o que estava fazendo nem nada do tipo.

Mas, de qualquer forma, ele não era o tipo que discutia. Ela que fizesse o que bem entendesse, ele só estava pedindo.

— Ótimo. Pegue um casaco de noite, preciso de seus olhos emprestados em um quarto onde exorcizei uma garota. Acredito que tenha deixado algum detalhe escapar.

Bianca concordou e pegou seu casaco sobre a mesa, deixando os livros e as anotações onde estam, vestiu o casaco e seguiu Lorenzo para fora da biblioteca. Ela era conhecida por, entre outras coisas, ser uma ótima observadora, e para um clã de investigadores, detalhes faziam toda a diferença.

O líder solicitou a uma freira que os acompanhassem na saída noturna. Bianca achava bem simpático e atencioso da parte de Lorenzo se preocupar com um detalhe como os dois não serem vistos sozinhos na noite de Roma, mas nada daquilo era necessário. Ela não era uma dama da sociedade como as outras. Por mais que as pessoas não soubessem de que família ela vinha, todo mundo sabia que ela era bastarda. Isso e a cor de sua pele já manchavam sua reputação o suficiente para que ser vista sozinha com ele não fosse ser um agravante para ela.

Bem… Para ela. Lorenzo sabia disso tudo, obviamente, e era ele que, mesmo tendo quase desistido da corte, não queria estragar uma provável chance de conhecer uma pretendente à altura do líder dos da Vinci sendo visto sozinho com uma bastarda negra à noite na cidade. Não, ele era mais cuidadoso que isso. Embora homens tivessem liberdade social para serem libertinos, sabia de famílias que nunca mais falariam com ele se imaginassem a remota possibilidade dele ter se deitado com Bianca. Ele podia ter perdido as esperanças, mas talvez o mundo não tivesse desistido dele. Vai saber o que poderia lhe aparecer se esperasse só mais um pouco.

Não que tivesse algo contra Bianca. É claro que não. Gostava bastante dela, era uma ótima companheira de trabalho. Quieta como ele, não perguntava demais, não gritava e não o contestava como outras pessoas costumavam fazer. O obedecia quando ele falava alguma coisa, era extremamente eficiente e não questionava sua liderança. Era o melhor cenário e a primeira escolha de Lorenzo se ele tivesse um problema que ela pudesse resolver. Isso aliado ao fato de que ela realmente tinha ótimos olhos foram o que o tinha levado a escolhê-la como companhia naquela ocasião.

O caminho para fora da sede foi feito em silêncio. A Capela Sistina estava vazia quando o trio saiu, mas a noite romana não. O cortiço estava longe da capela, e até lá a cidade estava povoada, restaurantes cheios e bares boêmios. Lorenzo franziu o nariz para os vagabundos bêbados debruçados em cima das mesas. Vários deles gritaram palavras chulas e cantadas nada dignas para uma moça de família para Bianca, e ela apenas engoliu em seco e continuou seu caminho. Estava acostumada a ouvir esse tipo de coisa. Provavelmente achavam que era ela a criada acompanhante da freira, ou alguma coisa do tipo.

Lorenzo não teceu nenhum comentário a respeito, e também não fez nada para defender Bianca dos assédios verbais. Um cavalheiro honrado se posicionava para defender uma dama honrada, mas por vezes ele não achava que Bianca se encaixava por completo na categoria, então, quando estava cansado ou com coisa demais na cabeça como naquela noite, simplesmente deixava passar.

E assim, em um completo silêncio confortável para os dois, eles seguiram até o cortiço. Quando conseguiram chegar o local, Bianca estava com as orelhas quentes de tanto ouvir, mas com o queixo tão erguido como quando saída da sede, como se não tivesse ouvido nada ou nada tivesse sido direcionado a ela. Mais uma vez, o silêncio dos dois a respeito do acontecimento foi confortável, e eles rapidamente deixaram o trajeto para trás e decidiram se focar no problema em suas frentes.

O cortiço estava mais cheio daquela vez do que na última visita de Lorenzo. O corredor tinha se apunhado com praticamente todas as mulheres do local, todas querendo dar uma olhada em Lorenzo, e quase todas surpresas e até um pouco decepcionadas ao ver Bianca o acompanhando. Algumas mais descaradas não se importaram de mandar sorrisinhos e acenar para Lorenzo assim mesmo, e ele se impediu de revirar os olhos em nome da educação. Queria uma chance para desencalhar, mas não ali. Não com uma das moças do cortiço.

Ele continuou guiando Bianca até o quarto onde exorcizara a garota. Mariette e sua mãe estavam entre as mulheres espremidas no corredor, a garota mais nova usando um crucifixo de madeira barato e pesado pendurado no pescoço.

— Senhor da Vinci… O senhor voltou.

Era óbvio, ele pensou. Em vez de verbalizar isso, apenas confirmou com a cabeça. Não tinha muita paciência para discussões despropositadas, então quanto menos falasse melhor.

— Eu preciso dar mais uma olhada no seu quarto. A senhorita Sartori vai me acompanhar. — ele disse, indicando Bianca com a mão.

A garotinha levantou a sobrancelha e olhou Bianca de cima a baixo, parecendo meio desconfiada.

— Ela é sua noiva?

Lorenzo levantou a sobrancelha. Sinceramente, nem com a freira ali ele conseguira se livrar dessa acusação? Nessas horas, apenas nessas, ele gostaria que Bianca fosse de falar mais. Ela poderia acabar respondendo por ele.

— Ela é uma excelente caçadora do clã. Veio para analisar algumas coisas sob o olhar dela. Nós especializamos em áreas diferenciadas.

E isso era o máximo que ele diria. A menina apertou o crucifixo no colo e deu de ombros, o que era o jeitinho dela de autorizar a entrada no quarto. Lorenzo instruiu à freira a ficar do lado de fora e Bianca o seguiu para dentro do quarto.

A primeira coisa que Bianca percebeu era que a organização não era uma das prioridades da mulher e de sua filha, muito menos o poder aquisitivo. Apenas uma cama de casal para as duas, lençóis sujos e puídos, uma cômoda de madeira com vários pedaços quebrados e apenas alguns vidros de colônia muito barata como ornamento.

— Você sabe a que o fantasma está preso? — a da Vinci perguntou, começando a analisar os vidros de colônias e as gavetas da cômoda.

Lorenzo apenas ficou parado no meio do quarto, vendo Bianca trabalhar. Já tinha olhado tudo, não faria sentido olhar de novo. Se tivesse algo para se ver, era algo que tinha escapado do olhar dele. O jeito era esperar Bianca encontrar alguma coisa.

— Não. As duas não parecem reconhecer a mulher, tampouco. Eu perguntei um pouco sobre a história há alguns dias, mas tudo o que se sabe é que houve uma morte no cortiço. Ninguém sabe as circunstâncias, ou o motivo. E a morte já é bem antiga.

— Por que o fantasma só levantou agora, então?

Bianca fechou uma das gavetas e abriu a próxima. Tudo parecia normal. Roupas de tecidos baratos, bijuterias de cristal falso… Nenhum indicativo de nada. O mais estranho era sempre não saber pelo que procurar. Só sair mexendo nas coisas e torcendo para que algo significasse alguma coisa não era a melhor estratégia, mas era a que tinham.

— Eu não sei. E isso não foi a única coisa estranha.

A Sartori desistiu da cômoda e se virou para Lorenzo. Nada ia ajudá-los ali. Sentia que estava deixando algo escapar, mas o quê?

— O que mais?

— A fantasma era forte o bastante para possuir o corpo e ferí-la, muito, mas não era forte o bastante para resistir a mais do que alguns segundos de exorcismo.

Bianca franziu a testa.

— Isso não faz sentido algum. Se o fantasma é fraco a ponto de não aguentar o exorcismo, não deveria ter forças para dominar o corpo da garota e ferí-la dessa forma.

Lorenzo nem sequer respondeu. Ele voltou a olhar em volta pelo quarto, e Bianca se dedicou a inspecionar a cama. Haviam muitas marcas de arranhões no suporte da cama onda a mão da garota estivera amarrada. Alguns pareciam fundos demais para uma humana fazer, principalmente uma tão pequena.

Bianca se levantou do chão. Um espírito forte conseguiria fazer qualquer humano quebrar a cama se fosse de sua vontade, mas um espírito fraco não tinha a mesma habilidade. Para que ele exercesse tanto controle sobre o corpo humano, ele teria que ter demonstrado pouca ou nenhuma resistência, e todo humano tinha uma resistência natural, mesmo sem a presença de um objeto religioso por perto, a menos que o próprio corpo do humano fosse frágil.

Oh.

Obviamente.

A Sartori saiu do quarto de repente, surpreendendo Lorenzo, que a seguiu para fora.

— Com licença. — ela disse, atraindo a atenção de Mariette e de sua mãe. — A senhorita tem boa saúde?

— Eu? — a garota olhou para a mãe, esperando que a senhora respondesse em vez dela.

Isso era normal. Geralmente eram os adultos que falavam pela saúde dos filhos.

— Bem, sim, ela é bem saudável…

Bianca olhou em volta pelo cortiço. Não era dos lugares mais higiênicos, ou arrumados. Não seria difícil a menina pegar a peste ou qualquer outra coisa, mas a mãe dela tinha razão. A garota parecia bem.

— Mamãe, e as marcas? — a menina perguntou, olhando para a senhora.

A mãe pôs o dedo sobre os lábios, mas era tarde. Bianca trocou um breve olhar com Lorenzo e estendeu a mão para a menina.

— Pode me mostrar que marcas são essas?

Mariette olhou para a mãe por um breve instante, mas agora também não tinha mais o que fazer. A senhora autorizou a filha a mostrar, e a menina puxou Bianca pela mão para dentro do quarto, fechando a porta.

A da Vinci observou enquanto a garota desabotoava o vestido nas costas. Mariette se livrou da peça e de mais o corset e a combinação que usava por baixo, e logo Bianca viu de que marcas ela estava falando.

As costas da garota estavam cobertas de cicatrizes de símbolos que, ao menos a primeira vista, foram irreconhecíveis para Bianca. A da Vinci se aproximou, surpresa, e tocou uma das marcas, desenhando o símbolo com o dedo.

— Quem fez essas marcas em você?

— Eu fiz. Mamãe diz que foi quando o demônio entrou no meu corpo. Eu não lembro de muita coisa dessa época.

É claro. Espíritos fracos não conseguiam fazer muita coisa com as pessoas além de fazê-los escreverem símbolos estranhos ou dizerem mensagens sem sentido. Então o espírito possuíra o corpo da garota e a fizera entalhar símbolos na pele que enfraqueceram o corpo dela, estendendo seu poder sobre Mariette.

Era esperto. Muito esperto para um fantasma qualquer.

— Posso pegar um papel e lápis emprestados?

Mariette concordou. Bianca pegou um papel pardo e um lápis que encontrara na cômoda do quarto mais cedo e copiou todos os símbolos, um a um, no papel. Além das costas, Mariette a mostrou mais alguns no braço e outros em locais nos quais, Bianca sabia, só possuída para uma pessoa conseguir gravar em si mesma, como nas escápulas.

— Obrigada. — a da Vinci agradeceu, olhando bem para tudo que escrevera no papel.

A menina vestiu as roupas de volta e saiu do quarto. A mãe dela parecia assustada, e Bianca sabia exatamente porque.

O corpo de uma garota era a primeira passagem para uma boa apresentação à sociedade. Para uma família pobre como as duas eram, a esperança da melhora de vida provavelmente estava em um casamento melhor para Mariette, mas agora, com o corpo coberto de marcas de possessão, não seria fácil conseguir um marido para a garota.

Parte de Bianca simpatizou com a menina. Sabia o que era carregar na pele um sinal de que se era diferente.

— Conseguiu? — Lorenzo a perguntou.

Bianca apenas concordou, e entregou o papel a ele, sem tirar os olhos de Mariette. Ele saberia o que fazer. Por enquanto seu trabalho estava feito. Sabia que se precisasse dela de novo, ele acabaria por procurá-la.

— Estavam engravados no corpo dela. Ela marcou no começo da possessão. Deve ter enfraquecido o corpo de alguma forma.

— Encontrarei alguém para dar uma olhada nisso. Obrigado pela ajuda. — ele se virou para a freira. — Vou acompanhar vocês de volta até a Capela Sistina. Não é hora para duas mulheres estarem sozinhas na rua.

— Na verdade, eu prefiro ir para casa agora. Já está bem tarde.

Lorenzo concordou. Ele acompanhou Bianca até em casa como tinha prometido, e também a freira de volta até a Capela. Então se viu parado no meio de Roma com um pedaço de papel pardo e uma série de símbolos rabiscados nele.

Bianca era, realmente, muito esperta. Seria uma excelente candidata à corte se não fosse por todo o resto. Ele guardou o papel e suspirou, se acomodando em um banco. Mal tinha decidido desistir da corte e já estava ali, pensando nisso de novo.

Queria uma família. Era muito para se pedir? O tempo estava passando. O mundo estava perigoso e Lorenzo temia que, no fim das contas, fosse morrer e não deixar nenhum legado para trás.