Cruel e frio como ventos no mar

Você vai algum dia voltar para mim?

Ouça minha voz, cante com a maré

Meu amor nunca vai morrer

Sobre as ondas e num azul profundo

Eu desistirei do meu coração por você

Esperarei dez longos anos se passarem

Meu amor nunca vai morrer

Davy Jones - The Pirates of The Caribbean (Lyrics by Fialeja)

Sevilha, Espanha

28 de Setembro de 1818

Letitia acordou já quase na tarde de domingo com um monte de perguntas na mente. Estavam se aproximando da Lua Nova e a atividade dos lobisomens não parecia diminuir. O frio, por contrário, estava mais para começo de inverno que começo de outono, mas com direito a todos os ventos e folhas secas que o outono cedia.

A líder vestiu algo e saiu de seu vurgon, planejando comer alguma coisa em uma das barracas de outra caravana cigana. Seu clã estava em Sevilha já há um bom tempo e ela conseguia ver a ansiedade em seus colegas para se colocar em movimento novamente.

Letitia não os culpava, também estava querendo partir, mas tinham combinado de permanecer em Sevilha até o retorno de um dos membros que estivera viajando, então ainda tinham que esperar mais um pouco.

Ele já devia ter voltado, porém. Letitia conseguiu um pouco de pão e frutas com uma caravana vinda da França e se sentou para comer, planejando para onde iriam em seguida. Com os ataques dos lobisomens se mantendo na mesma, talvez fosse importante irem para locais mais populados, tentar proteger mais pessoas. Isso inevitavelmente os levaria para Madrid, e até que não parecia uma ideia tão ruim. Apesar de ciganos não terem a melhor das famas, o povo parecia mais aberto a receber os Flores em algum lugar, sabendo que eles estariam lá para manter o povo em segurança.

Era o bastante para Letitia. Não era culpa das pessoas que fossem tão preconceituosas. Era o mundo que as tinha feito assim. Não deixaria de ajudá-los por isso.

Letitia agradeceu os franceses com um sorriso e a cigana que lhe arrumara o pão retribuiu com outro sorriso, carregado de segundas intenções.

Na maioria das vezes Letitia teria a convidado para um passeio. Hoje, no entanto, sua mente estava longe demais. Ela ficou boa parte da tarde sentada em cima de seu vurgon, sentindo vento e tentando entender o que ele queria dizer. Eram ventos frios e silenciosos, e ela não conseguia se livrar da sensação de que eles eram um mau agouro. Um sinal de que logo esses ventos a trariam notícias ruins.

"Logo" foi ainda no mesmo dia.

O Sol ainda não tinha se posto quando ela ouviu uma voz familiar a chamar.

— Letitia!

— Santiago! — ela respondeu, com um sorriso largo no rosto.

A líder desceu de cima do vurgon e correu até o Flores, o abraçando com força e recebendo de volta um abraço um pouco mais cuidadoso do que o dela. Santiago cheirava a mar.

— Finalmente de volta à casa, hein? — Letitia bagunçou um pouco os cabelos dele. — Sentimos sua falta. Como foi a viagem?

— O mar está estranho. Muita coisa tá estranha, na verdade. Eu andei perguntando por aí, esbarrei com alguns Van Helsings… Eles também estão tendo problemas.

Letitia franziu a testa. Ela viu um sorriso se abrir no rosto de Santiago, pequeno e gentil, e se perguntou como ele conseguia manter o positivismo agora. Até para ela estava ficando difícil.

— Vai ficar tudo bem. — ele comentou. — É só a gente descobrir de onde isso está saindo, e resolver.

A líder sorriu de volta. Santiago tinha razão. Não era como se fosse a primeira vez que estivessem se deparando com algo estranho. Sempre tinham conseguido sair das situações, agora também iam conseguir.

— Está coberto de razão, para variar. Inclusive — ela passou o braço pelo dele, começando a arrastá-lo pelo acampamento. — o que mais viu na sua viagem?

Santiago se ocupou de contar para Letitia sobre os detalhes da navegação. Ele tinha saído há semanas para uma pequena viagem de barco na costa Portuguesa, pouco tempo antes daquele ataque de lobisomem em Lisboa. Letitia tinha prometido a ele que o clã ia ficar ancorado em Sevilha até ele voltar, mesmo que isso não fosse usual para eles, para que o rapaz aceitasse sair. Ela sabia o quanto ele sentia falta do mar às vezes, e gostava de garantir que seu clã estivesse feliz. Isso incluía dobrar algumas regras ou dar alguns empurrõezinhos para que Santiago subisse em um barco por algum tempo.

— ...e agora, voltando de Portugal, esbarrei com uma caravana vinda daqui. Eles…

Ele parou de falar. Letitia reparou que ele olhava para o vurgon de um dos colegas de clã. Um com fumaça saindo pela janela, cercado de flores e com pequenos orquidários.

— Você quer ir? — ela perguntou.

Santiago confirmou com a cabeça e se soltou de Letitia. A líder observou o amigo ir até o vurgon e conversar com o dono, pegando dois pequenos buquês de orquídeas com ele.

Ela nunca sabia quando podia acompanhar Santiago a certos lugares, mas ele não tinha problemas em dizer quando queria estar sozinho para essa situação em particular. Assim, quando ele voltou para a líder e a chamou com um gesto de cabeça ela soube que ele já tinha ficado sozinho por tempo demais.

Letitia o seguiu em silêncio por Sevilha, em direção a um local especial. Já faziam anos que Santiago tinha criado ali um túmulo para seu pai e irmã, mortos em ofício do clã. Sempre que paravam em Sevilha, o que acontecia ao menos uma vez por ano, ele levava um buquê de orquídeas para cada um. Uma vez que o clã estava com tanta pressa de sair, era de se esperar que ele fosse querer passar lá antes que partissem.

Os túmulos eram apenas simbólicos. Duas pedras encravadas com os nomes deles aos pés de um grande abeto já de folhas já alaranjando. Santiago se ajoelhou e deixou as flores nos túmulos, e enquanto ele começava sua prece, Letitia achou que seria de bom tom dar uma volta por ali e deixá-lo sozinho.

Ela sempre achara interessante como Santiago tinha herdado alguns costumes católicos da mãe e mais vários costumes interessantes do mar. Tudo isso tinha o tornado uma pessoa… Única, para dizer o mínimo. Ela aguardou enquanto ele rezava, tirando um tempo para sentir o vento no rosto.

Em algum momento, ela ouviu as folhas do chão estalarem atrás de si e se virou, a tempo de ver Santiago se levantando.

Ele estava calado e pensativo.

— Rhuan?

O Flores levantou a cabeça, de repente. Letitia era a única pessoa viva que sabia seu nome verdadeiro, embora todos soubessem que não era Santiago. Ouví-la chamá-lo assim sempre trazia memórias de sua família, algumas dolorosas e outras que o enchiam de saudade. Era bom, porém. Por vezes ele gostava de estar sozinho com ela. De ouvir seu nome e se lembrar de quem, realmente, era.

— Ei.

Ele sorriu, e Letitia fez o mesmo. Talvez fosse bom para ele falar de outra coisa agora. Ela se lembrou da conversa que estavam tendo antes e pensou que era uma boa escolha.

— Você estava me contando uma coisa. Você sabe, antes… Algo sobre uma caravana portuguesa?

— Ah! Sim. Eu encontrei uma caravana, estavam sendo atacados por um lobisomem. Eu tentei acalmar a garota, mas… Bem… Eu a matei do jeito mais rápido e indolor que consegui.

Letitia deixou o queixo cair. Caravana portuguesa. Lobisomem. Garota. Morta.

Não. Não, não tinha como. Ela tinha curado a menina na madrugada anterior.

— Letitia?

— Você tem certeza disso? — a líder perguntou, a voz saindo alarmada.

Santiago logo percebeu que tinha algo mais acontecendo.

— Tenho. Absoluta. O líder da caravana deles disse que te conhecia. Disse que tinha dormido com você.

— Ele está bem?

— Está… Letitia, o que aconteceu?

A líder respirou fundo e começou a andar em círculos, tentando se acalmar. Não era sua culpa. Devia ser seguro mandar a garota com eles, ela não tinha os mandado para a morte. Não era sua culpa…

— Ei, Letitia? Respira fundo. Vem cá…

Ela olhou para Santiago, acompanhando a respiração dele. O marinheiro sabia umas boas técnicas para acalmar as pessoas, tendo aprendido Quigong com seu pai, e se nem ele tinha conseguido acalmar a loba, realmente não teria jeito a não ser matá-la como ele tinha feito.

Letitia seguiu os exercícios de respiração do amigo, sentindo seu coração desacelerar e o corpo parar de tremer. Calma e tranquila.

— Letitia? O que aconteceu?

— Eu salvei essa garota da maldição há poucos dias atrás. Eu a mandei embora com a caravana portuguesa.

Santiago franziu a testa.

— Mas… Se você a curou há poucos dias ela deveria estar bem no muito mínimo até a próxima Lua Cheia, quando a névoa subisse novamente.

— Eu sei… — Letitia suspirou. — Ok… Temos que fazer alguma coisa. Eu estava pensando em irmos para Madrid. Lá tem mais pessoas e recursos… Talvez possamos pesquisar um pouco da cultura local, descobrir o que está acontecendo.

— Parece uma boa ideia.

Ele lançou um último olhar para o túmulo da família e abriu um sorriso.

— Vai ficar tudo bem. Nós vamos cuidar disso.

Letitia acompanhou Santiago de volta para dentro da cidade. Lobisomens eram responsabilidade dos Flores. Camilla fora responsabilidade dela. Ela tinha causado o problema. Ela ia descobrir a fonte, e resolver tudo, de uma vez por todas.