Eu rezo pelo perverso no fim de semana
Mamãe, posso escutar mais um "amém"?
Ah, ah, é sábado à noite, sim
Juro por Deus, nunca irei me arrepender
Mamãe, posso escutar mais um "amém"?
Ah, ah, é sábado à noite, sim

Say Amen (Saturday Night) - Panic! At The Disco

Hunedoara, Império Austríaco

29 de Setembro de 1818

O som da porta batendo ecoou por todo o corredor do castelo. Para qualquer um que olhasse, Nicoleta era agora a pura imagem da fúria em forma de mulher, e parecia em vias de pegar o chicote e usá-lo para estrangular alguém.

Quem eles pensam que eram? Ela era a líder do clã! ELA! Não podiam obrigá-la a nada! A mulher cruzou os braços, respirando fundo e tentando se acalmar. Sua raiva estava chegando ao ponto de enxergar em vermelho. Talvez devesse sair para caçar um pouco. Arrancar algumas cabeças ia fazer bem para extravasar o sentimento.

Ela deu meia volta pelo corredor para sair e no instante em que fez isso deu de cara com seu irmão Octavian, sentado em um divã no corredor usando um fraque vermelho de tecidos finos e uma cartola baixa, e com a expressão curiosa, para dizer o mínimo.

— Você parece irritada. Em quem devo bater? — ele perguntou, se levantando.

Nicoleta reconheceu a clássica preocupação na voz de Tavvy, e sabia que não ia adiantar dizer para ele deixar o assunto de lado. Ele podia não dar a mínima para os problemas dos outros, mas quando ela era o assunto era quase como se ele virasse outra pessoa.

— Papai e mamãe, então, talvez não deva fazer isso.

Nico estava com o sangue fervendo. Decidiu sair para caçar. Com o recente aumento na atividade vampírica não deveria ser difícil achar algum sanguessuga para se distrair um pouco.

— O que foi que eles fizeram? — Tavvy perguntou, a seguindo.

— Lembra quando você conseguiu convencer nossos pais a não te casar com aquela parente muito distante nossa?

Octavian assentiu.

— E se lembro. Foi um lindo dia.

— Bem, aparentemente eu não dou a mesma sorte. Papai e mamãe estão decididos a me noivar porque, aparentemente, eu preciso ter uma linhagem já que sou líder do clã. E é claro que eles soltaram o "você não pode ser uma solteirona" pra cima de mim. Quer dizer, você pode e eu não? EU devia poder decidir essas coisas sobre a minha vida! De que adianta ser líder de um clã inteiro se meus pais ainda me tratam como se eu tivesse que obedecer os dois o tempo todo?!

Tavvy soltou um resmungo, e Nico se sentiu muito acolhida por isso. Ela sabia que Tavvy não empatizava com ninguém além dela, e o fato de que ela mesma não se abria com ninguém além dele acabara criando um laço muito único entre os dois.

— Eu posso tentar falar com eles se quiser…

— Não preciso da sua ajuda, Tavvy.

— Não disse que precisa, mas ofereci mesmo assim. Vai querer ou não?

Nico apenas recusou. Tinha que dar um jeito de lutar as próprias batalhas.

— Eu me viro. Não se meta.

— Pra que estava reclamando comigo então se não quer ajuda?!

Francamente! Ela respirou fundo. Às vezes, lidar com Tavvy exigia paciência.

— Por que não vai se preocupar um pouco mais com a vida de alguém e um pouco menos com a minha?

Ele abriu a boca para soltar uma resposta que seria muito mal-educada, a julgar pela sua expressão, mas um barulho de passos apressados impediu a discussão entre os irmãos de começar.

— Senhorita Van Helsing?

A líder trocou um olhar breve com o irmão, indicando para deixar a discussão dos dois para lá ao menos por enquanto. O homem que caminhava até eles era um mensageiro, carregando uma carta.

— Pois não?

— Uma carta para a senhorita. Parece ser de urgência.

Nicoleta abriu um sorriso raso e pegou o envelope das mãos do mensageiro, o dispensando com um gesto da mão. O homem foi embora e a Nicoleta abriu a carta, levantando uma sobrancelha enquanto lia. Não tinha nem chegado na metade e já perdera a paciência pela mensagem

— O que foi? — Tavvy perguntou, vendo a cara de desânimo da irmã.

— Gente bancando o herói.

Não precisou que ela dissesse mais nada para que Tavvy soubesse do que a mensagem se tratava. Não era raro que civis decidissem capturar um vampiro por conta própria, fossem por não ter condição de pagar um Van Helsing diretamente, o que não era comum mas acontecia com famílias que não eram católicas, fosse por não estarem com o dízimo em dia para a igreja pagar para eles. Em qualquer um dos casos, se as pessoas conseguissem sobreviver, cabia aos Van Helsing recolher o corpo vivo ou morto do vampiro. Por uma parcela minúscula do preço.

— Você vai lá coletar?

— Que jeito, não é? — ela respondeu, dando de ombros e levantando a saia do vestido de forma muito obscena para uma dama que estava no meio do corredor do castelo, checando se o chicote estava no lugar.

— Ok. Quer que eu vá junto?

— Não. Mas você vai assim mesmo, não é?

Ele deu de ombros, e Nico soube que teria companhia, querendo ou não. Tavvy parou apenas para pegar sua arma no quarto e os dois saíram do castelo.

O endereço escrito no bilhete não era nada longe do castelo, de forma que os dois pegaram cavalos no estábulo e decidiram ir cavalgando por conta própria. A primeira parte do caminho foi silenciosa. Nico estava com uma careta típica de desagrado no rosto, e não se sentia bem para conversar sobre nada com ninguém, mas ela sabia que seria apenas uma questão de tempo até que Tavvy decidisse interferir no assunto. Ela aproveitou os bons segundos de silêncio e resmundo mental até que, finalmente, o mau humor fosse muito para que seu irmão protetor demais aturasse.

— Por que você não diz aos nossos pais que não está interessada?

— Acha que eu não tentei isso? — ela retrucou, apertando as rédeas do cavalo.

— Bem… Diga de novo. Diga várias vezes, até eles entenderem.

— Eu não sou você, Tavvy. Você pode dizer que não quer se casar e eles entendem. Não funciona assim para mim.

Ela viu Tavvy se fechar em um silêncio próprio, e algo lhe dizia que ele estava considerando falar com os pais em nome dela. Nicoleta resistiu à vontade de revirar os olhos. Sinceramente…

— Tavvy, não ouse tentar fazer algo a respeito.

— Quê? Eu não disse nada.

— Mas está pensando. Eu já falei: meu problema, eu resolvo. Ponto.

Ele soltou um resmungo baixo e bateu com o calcanhar na costela do cavalo, o incitando a acelerar o passo. Nico fez o mesmo para acompanhar.

Bem, não era sua culpa, era? Tavvy não ligava pra ninguém, ninguém, a não ser ela, mas isso não significava que ela ia aceitar isso e deixar ele ajudar ou palpitar de qualquer forma. Era muito orgulhosa para isso.

Os irmãos fizeram um curto caminho de dez minutos à cavalo até chegar à orla da cidade de Hunedoara. Já era alta madrugada, horário ideal para os Van Helsing saírem à trabalho, mas inapropriado para qualquer outro. À exceção do ruído dos cascos dos cavalos batendo no chão cidade estava em silêncio total. Nicoleta pegou a carta no bolso, conferindo o endereço e começou a seguir pela rua, ouvindo o cavalo de Tavvy atrás dela.

O destino final foi uma casa de tamanho moderado espremida entre duas outras muito parecidas mas com a fachada pintada de outra cor. Casas de família de poder aquisitivo mediano. Nico torceu o nariz ainda mais, e desceu do cavalo o amarrando ao poste na frente da casa. A família podia ter pagado por ajuda, mas decidiu arriscar a vida por causa de pão duragem.

Que tivessem morrido. Imbecis.

Ela avançou e pegou a aldrava da porta, batendo com força e tirando o chicote debaixo da saia, só por precaução. Ela viu Tavvy parar ao seu lado, segurando uma foice de três lâminas na mão com um olhar desinteressado. Ela resistiu à vontade de revirar os olhos. Do jeito que Tavvy detestava lidar com pessoas não seria surpresa que acabasse deixando toda a parte de lidar com a família que fizera o chamado nas mãos dela. Nico colocou seu melhor sorriso amarelo no rosto e esperou por mais alguns segundos antes da porta abrir.

Do outro lado estava uma senhora encurvada usando um vestido bonito, mas um pouco encardido, provavelmente por falta de uso e com os cabelos presos em um penteado chique, mas feito com certo desleixo. Era óbvio para Nicoleta que a senhora não estava acostumada a se arrumar daquele jeito, provavelmente não recebia muitas visitas do escalão de um Van Helsing, e nem visitava ninguém que exigisse dela uma apresentação mais formal. Nico apreciou o esforço, mas não sentiu simpatia nenhuma pela senhora.

— Onde está a criatura? — Nico perguntou, ainda com o sorriso falso no rosto.

Se estivesse com o humor melhor, ela teria cumprimentado a senhora com seu jeito cativante de ser, mas agora tudo que queria era voltar para o castelo e pensar em como lidar com seu noivado indesejado. Trabalhar por uma parte do dinheiro que geralmente cobraria não estava ajudando seu humor a subir.

— Deixamos no sótão… — a senhora respondeu, abrindo espaço para que os irmãos entrassem.

Ali estava, Nico pensou, mais um motivo pelo qual civis não deviam tentar lidar com vampiros. Sótão? Grande ideia, manter o vampiro no tipo de ambiente que ele gostava de ficar. Qualquer mente mais sensata teria o amarrado na sala com a lareira aberta. Agora havia até a chance de que o vampiro tivesse se soltado.

Tanto melhor, ela pensou. Se estivesse solto, a missão exigiria combate, e ela ia ser paga por um preço completo em vez da parcela de um.

Infelizmente, porém, o vampiro tinha sido ferido o bastante para não se soltar das amarras que tinham sido colocadas nele, então, nada de pagamento bônus.

— Tavvy, recolhe o lixo por favor. E sem matar. Vai ser bom fazer algumas perguntas pra ele.

— "Sem matar". Nico, você não tem graça nenhuma…

Octavian pegou uma outra corda que achou no sótão e amarrou nos pés do vampiro. A criatura estava inconsciente e não reagiu mesmo quando Octavian a jogou para o chão pelo alçapão, de uma altura de uns dois metros. O Van Helsing saltou para o chão, pousando com uma delicadeza invejável e pegou a corda de novo, arrastando o vampiro para fora da casa.

Nicoleta desceu do sótão com bem mais calma e classe. Ela pegou o documento do trabalho com a senhora, ainda com um sorriso muito falso no rosto, e saiu da casa sem se despedir.

Tavvy tinha acabado de amarrar o vampiro na garupa do cavalo. Considerando que não iam entregar esse corpo para igreja, já que precisavam interrogar alguém, e que não tinham caçado o vampiro por conta própria, Nicoleta já estava se arrependendo de ter saído de casa por tão pouco dinheiro.

Ela subiu em seu cavalo e Tavvy fez o mesmo. Ele estava olhando para ela do jeito que Nico sabia que ele fazia quando queria insistir em ajudá-la com alguma coisa.

Ela bateu o calcanhar na costela do cavalo e acelerou o trote o bastante para não ouvir qualquer coisa que Octavian quisesse falar com ela. Nico era a imagem da frustração naquele momento, e amava muito seu irmão. Não queria acabar descartando a raiva que sentia nele.