Mas eu fiquei mais inteligente, fiquei mais forte, na hora certa
Querido, eu me levantei dos mortos, faço isto o tempo todo
Tenho uma lista de nomes e o seu está em vermelho, sublinhado
Eu o marco uma vez, e aí marco duas, oh!
Ooh, olha o que você me fez fazer

Look What You Made Me Do -Taylor Swift

Roma, Estados Papais

30 de Setembro de 1818

B ianca Sartori tinha total consciência de que, assim como ela, Lorenzo não aceitava ajuda com facilidade, e muito menos pedia. Assim, quando ele voltou para ela no dia seguinte com os símbolos que ela tinha desenhado pedindo ajuda para descobrir o que que eram, sendo que ele mesmo era simbologista e devia ser melhor que qualquer outro nisso, ela soube que tinham um problema.

Não bastando isso, ainda havia o fato de não saberem quem era a fantasma. Bianca achava, e Lorenzo concordava com ela, que a identidade da fantasma poderia dar uma luz na origem dos símbolos e os ajudar a descobrir alguma coisa, mas mesmo isso estava difícil de achar.

A caçadora se sentia frustrada. Do alto de uma das escadas da biblioteca, escorada contra uma estante, ela pegou o que era o último livro em francês sobre os registros imigratórios dos últimos séculos nos Estados Papais. Ela e Lorenzo já tinham descartado a possibilidade da mulher ser da região, por não a encontrarem nos registros locais, mas o que podiam procurar sobre imigrantes estando ele ocupado com os símbolos e ela esgotando as fontes de francês e latim era muito limitado.

Bianca puxou um último livro e desceu da escada. Não gostava muito de trabalhar com outras pessoas, mas mesmo ela sabia que às vezes era inevitável. Precisava expandir sua área de busca, precisava de alguém que pudesse ler outras coisas. O problema era que, ela sabia muito bem, Lorenzo estava longe de ser o único do clã com dezenas de ressalvas a respeito dela.

Haviam tipos de pessoas diferentes. Haviam aqueles que tinham dito, com todas as letras, que não a queriam lá, que ela não era tão filha de Deus quanto os outros. Haviam pessoas como Lorenzo que embora não a tratassem mal também não faziam questão nenhuma de tratá-la bem, e por Bianca ser muito boa em esconder seus sentimentos para os outros não sabiam o quanto isso, às vezes, a magoava.

E haviam aqueles como Pietra da Vinci. Para muitas pessoas, Pietra era uma pária do clã. Sem dúvidas ela não era muito convencional. Tinha histórico de ter cobrado por exorcismos. Respondia todo mundo com a língua afiadíssima, inclusive Lorenzo e até mesmo bispos, várias vezes. As pessoas, de forma geral, não gostavam de Pietra muito mais do que gostavam de Bianca, e exatamente por isso, a caçadora soube que era para ela que tinha que pedir ajuda.

Bianca desceu da escada e deixou uma pilha enorme de livros na mesa que estava ocupando com Lorenzo naquela manhã. O líder estava suficientemente concentrado em pergaminhos de simbologia para nem levantar o rosto ao ouvir o som dos livros batendo na mesa, e não pareceu perceber Bianca chegar e nem se afastar do local biblioteca adentro, à procura de Pietra.

Ela encontrou a caçadora sentada em um dos divãs da biblioteca, com os pés para cima do estofado, comendo uma maçã e passando as páginas de um livro com a outra mão. Bianca já observara que Pietra sempre parecia estar usando violeta, como era o caso daquela vez, e o mesmo adereço nos cabelos. Era uma garota de hábitos, Bianca pensou. Não se importava em ser vista sempre com a mesma cor ou com a mesma presilha, ou com os pés para cima do estofado, ou comendo uma maçã em plena biblioteca. Em verdade, não se importava com quase nada, como não se importava com o fato de Bianca ser branca, negra ou azul.

Sem dúvidas, a melhor pessoa para ajudar, se não fosse pelo pequeno detalhe de que, Bianca já tinha reparado, dizer que ela e Lorenzo não se suportavam era um forte eufemismo de situação.

A garota ficou parada no corredor por alguns instantes, se perguntando se devia ou não trazer alguém que Lorenzo detestava para a investigação na qual ele a tinha convocado, mas Bianca reparava as coisas com muita facilidade, e já tinha reparado que aquele caso em específico era muito importante para Lorenzo. Ele não tinha falado nada, mas Bianca vinha vendo aquela ruga de preocupação na testa dele com frequência o suficiente para montar uma teoria. Estava certa de que Lorenzo acreditava que aquele caso em específico poderia ajudá-los a solucionar o problema no aumento da aparição de fantasmas, afinal de contas, era uma possessão incomum no meio de uma atividade fantasma incomum. Os dois tinham que estar conectados de alguma forma.

Se aquele caso pudesse ajudá-los, então que Lorenzo e Pietra se suportassem um pouco. Bianca estava suficientemente determinada a chegar ao fundo disso, o bastante para arriscar acender o pavio de um barril de pólvora e, muito provavelmente, controlar ela mesma a situação.

Então… Que assim seja.

— Senhorita da Vinci?

— Que é? — Pietra respondeu, sem nem olhar quem falava com ela, ainda com os olhos presos em seu livro.

A resposta atravessada não incomodava Bianca. Estava acostumada a coisa pior.

— Estou com um pequeno problema em solucionar um caso, e acredito que a perícia da senhorita possa ser de ajuda.

Podia-se dizer o que fosse sobre Pietra, mas uma coisa que ninguém negava era que ela era uma mulher muito inteligente e curiosa. Chamá-la para solucionar algo era o mesmo que chamar uma jovem dama para um baile: Pietra o fazia sem pensar duas vezes.

A garota se levantou, colocou o livro de lado, terminou de comer a maçã com mordidas mais frequentes que a boa educação permitia e jogou a maçã numa lixeira próxima.

— Precisa da minha genialidade para quê, exatamente?

Bianca começou a caminhar em direção às estantes de registros, com Pietra a seguindo com um olhar atento.

— A senhorita é historiadora, e fala inglês fluente, certo?

— Sim.

— Eu gostaria que me ajudasse a encontrar a fantasma que estamos procurando. Acreditamos que seja imigrante, mas não consigo encontrá-la nos registros em francês, nem italiano. Pensei que te trazer para ajudar pudesse expandir nosso banco de busca para textos arquivados em inglês e…

— Ah, tá certo, entendi.

Bianca respirou fundo. Pietra era assim como todo mundo, não era pessoal, e era isso que fazia a caçadora gostar da da Vinci. Ela podia até ser desagradável, mas não fazia isso de forma seletiva. Era igualmente irritante com Bianca e com qualquer outro, sem distinção. Bianca segurou a escada contra a estante para que Pietra subisse, e observou a garota lá em cima, passando os dedos pelas lombadas dos livros.

— Quem eu estou procurando?

— O senhor da Vinci me deu uma descrição um pouco limitada dela. Cabelos escuros, roupas puídas, quarenta anos na época da morte, em média.

A Sartori ficou muito grata por Lorenzo não estar por perto para ouvir a risada sarcástica e a resposta que Pietra deu em seguida.

— Limitada é pouco. Ele prestou atenção no tipo de roupa, pra dizer o mínimo? Roupas são boas para delimitar períodos históricos.

— Ah… Não.

— Inútil. — Pietra pegou um livro da estante e soltou na direção de Bianca.

A morena pegou, por pouco, e por alguns minutos teve como ocupação pegar os livros que Pietra praticamente jogava em sua direção sem cuidado algum. Por fim, uma pilha de livros considerável depois, Pietra desceu da escada e seguiu Bianca até a mesa que estavam ocupando.

Lorenzo não estava lá. Bianca se sentiu brevemente aliviada, mas sabia que era só questão de tempo até ele voltar e terem que lidar com muita dor de cabeça.

— Olha só, nosso adorado líder não está na mesa. — Pietra comentou, se sentando na frente dos livros que Bianca pegara para si.

— Ele deve ter ido buscar alguma coisa.

— Hm…

Bianca voltou ao registro que vinha lendo. Não era boa com história como era com religião, mas quando tinha que fazer algo, levava suas coisas bem a sério. Ela tinha acabado de começar a ler quando viu a mão de Pietra se esticando sobre a mesa, e no instante seguinte, viu que ela estava analisando o papel pardo onde Bianca anotara os símbolos e algumas das anotações de Lorenzo.

Bianca arregalou os olhos. Aquilo não ia acabar bem. Lorenzo era tão protetor com suas ideias quanto Bianca era, e ele não ia gostar nada de chegar e ver alguém que ele desprezava, para dizer o mínimo, mexendo nelas.

— Não me olhe assim senhorita algum-sobrenome-que-não-é-Sartori-mas-vou- -ser-legal-igual-todo-mundo-e-fingir-que-é. Eu só imaginei que lendo o que o da Vinci escreveu eu pudesse ao menos ter uma noção melhor de com o que estamos lidando. — Pietra virou o papel, olhando o verso. — Achei que fossem estrelas satânicas, palavras, marcas nas veias ou umas cabeças de bode. Mas eu nunca vi nada disso aqui na minha vida.

— Nem o Senhor da Vinci. E ele é simbologista.

— O que acha que são? Códigos? Mensagens?

Para a infelicidade de Bianca, antes que ela respondesse, a voz de Lorenzo se fez presente atrás dela.

— Que tal "não são da sua conta"? — ele perguntou, pegando os papeis das mãos de Pietra e deixando na mesa com alguns livros que fora buscar. — Senhora Sartori, porque a Senhorita da Vinci está aqui?

— Ela é historiadora e lê inglês com fluência. Eu a solicitei que me ajudasse com os registros.

A resposta de Pietra a isso foi um largo sorriso convencido na direção de Lorenzo. Bianca viu uma veia saltar no pescoço do líder e se perguntou se eles iam começar a se matar naquele mesmo instante. Seria muito contraprodutivo.

— Não queremos a ajuda dela. Se precisa de uma historiadora, minha prima vai chegar em alguns dias. Ela pode ajudar.

— É verdade? Estão indo muito bem por conta própria então, imagino eu. — Pietra comentou, se levantando. — Livre de problemas, tudo dentro do prazo. Nenhum desespero. Ah, espera um instante, o que é isso aqui?

A da Vinci se abaixou debaixo da mesa, voltando com um cesto de lixo nas mãos. Ele estava transbordando de bolinhas de papel, ideias escritas amassadas e descartadas pela dupla. Ela pegou um dos papeis e desembolou, com um sorriso atrevido no rosto.

— "Sobre a possibilidade de se tratarem de mensagens, não acredito que seja possível. Fantasmas são forças de ódio incontroláveis e incapazes de se comunicarem entre si…"

Lorenzo começou a ficar um pouco vermelho.

— Pietra da Vinci, largue isso!

Ele deu a volta na mesa, mas Pietra apenas caminhou para longe dele, e pegou outro papel.

— "Alguns dos símbolos podem se tratar de um código. Mensagens codificadas não são incomuns para pessoas vivas, mas fantasmas não conseguem se comunicar fora de um corpo possuído. Assim sendo, possuir a garota e gravar as mensagens no corpo para que outro fantasma ache…". Bom, você não terminou essa frase, acho que desistiu dela e jogou no lixo.

— Agora chega! — ele esticou a mão e tomou a lixeira da mão dela, com uma violência considerável.

Bianca se levantou. Com frequência achava que Lorenzo só não tinha saído no murro com Pietra porque ela era uma dama. Tinha que admitir, Lorenzo era facilmente contrariável, e Pietra era mestre em contrariar. Colocar os dois juntos era como juntar um pavio com um fósforo.

— Bem, ok. Se você não quer minha ajuda… Pode ficar aí dando com a cabeça na parede para descobrir o que uma mulher morta pode querer. Vai ver ela quer reconhecimento. Já parou pra pensar?

Antes que Lorenzo respondesse, Bianca se colocou no meio dos dois, pegou a lixeira das mãos do líder e devolveu para debaixo da mesa.

— Parem com isso, os dois. Parecem duas crianças! Eu chamei a senhorita porque acho que possa ajudar. Não vai machucar se o senhor for mais aberto a isso e se a senhorita entender que foi para isso que a chamei, não para irritar o senhor da Vinci. Agora, será que podemos, por favor, nos comportamos como três adultos e discutirmos o assunto em vez de ficar discutindo um com o outro e desperdiçando tempo precioso com isso?

Pietra ainda tinha um sorriso descarado no rosto que Bianca torceu para que não tirasse Lorenzo do sério mais uma vez. Apesar dos pesares, Lorenzo era suficientemente centrado para se sentar e engolir a raiva, pelo menos daquela vez. As garotas se sentaram também e Bianca espalhou o papel com os símbolos no meio da mesa.

O trio continuou o trabalho, em um silêncio um pouco incômodo, mas não havia muito mais que conseguissem descobrir a partir dali. Bianca esgotara todos os seus recursos, e sabia que Lorenzo também estava ficando sem ter onde procurar. Pietra acabara de começar a sua parte e não estava com a cara muito boa.

Em algum momento, horas depois, o líder fechou o último livro e afastou para o lado. Não conseguia pensar mais em que procurar.

— Precisamos descobrir quem ela é. — ele comentou. — Não adianta eu querer ler todos os livros de simbologia da biblioteca se eu não souber nem por onde começar. O que vocês conseguiram?

— Nada. E você, senhorita da Vinci?

— O mais próximo que cheguei foi com uma Helena Ravenclaw. Morreu na Inglaterra apunhalada por um homem depois de se recusar casar com ele. Mas ela era muito jovem quando aconteceu, e o senhor da Vinci — ela colocou bastante ironia ao tratar Lorenzo pelo título. — disse que a fantasma tinha quarenta anos.

— O que você tinha falado antes? Sobre códigos e mensagens? — Bianca questionou.

— Pelo que o lixo de vocês me disse, o senhor da Vinci já considerou essas possibilidades. Se os símbolos forem uma mensagem codificada para alguém…

— Eu pensei em códigos também. — Bianca comentou. — Mas algo não parece certo com essa ideia.

— Isso é porque símbolos de códigos tem um padrão. — Lorenzo respondeu, pegando um dos livros e abrindo na frente das garotas. — Na maioria das vezes, pelo menos, até porque, precisam ser desvendados. Não podem ser completamente aleatórios. E eu não consigo ver um padrão nesses símbolos aqui. Encontrei três de origem grega, dois celtas e um egípcio. E isso foi só o começo. A maioria eu não sei por onde procurar.

— O que os que você encontrou indicam? — Bianca perguntou.

— Nada que conecte uma coisa com a outra. Alguns foram de enfraquecimento. Um de escuro. Outros não tem significado correto mas apareciam em cultos e bruxarias há séculos atrás.

Os três caíram em silêncio. Podiam ter suas diferenças, mas nenhum deles gostava de um caso não solucionado, e a curiosidade estava começando a entrar nas veias deles com muito mais força do que as desavenças.

— Vocês disseram que a mulher morreu na casa, certo?

— É provável. Por quê? — Lorenzo respondeu à Pietra.

— Bom, historicamente falando, mulheres de classe baixa tem uma alta tendência a morrerem em seus quartos de doenças ou em trabalho de parto. Talvez valha à pena voltarmos ao local e analisarmos os quartos, tentar descobrir em qual deles ela morreu.

— Parece uma boa ideia. — Bianca comentou.

Lorenzo concordou com um aceno de cabeça e se levantou, espreguiçando um pouco. Estava exausto.

— Minha prima vai voltar em breve. Podemos fazer isso quando ela chegar. Quero a participação dela nessa situação toda, acho que vai ser um bom auxílio.

As garotas concordaram. Às vezes pausar o problema por alguns dias poderia resultar em alguma descoberta inconsciente. Bianca começou a guardar os livros que recolhera e olhou para a mesa, onde Lorenzo e Pietra ainda se encaravam com uma certa hostilidade no ar. Não sabia se chamar Pietra tinha sido a melhor ideia para o bem estar de Lorenzo, mas no fundo, bem no fundo, ela não se importava com isso. Lorenzo era do grupo de pessoas que a tratava como se fosse menor. Pietra a tratava como se fosse… normal. Isso podia custar um pouco da paciência do líder, mas manter Pietra por perto fazia bem ao espírito de Bianca, de certa forma. Então ela ia manter.