Não se preocupe com nada
Porque cada pequena coisa
Vai ficar bem
Levante esta manhã
Sorria com o sol nascente
Três passarinhos
Pela minha porta
Cantando músicas doces
De melodias puras e verdadeiras
Dizendo: Esta é a minha mensagem para você

Three Little Birds — Bob Marley

Algum lugar a caminho de Madrid, Espanha

30 de Setembro de 1818

L etitia respirou fundo umas três vezes antes de bater na porta daquele vurgon. Tinha a mais plena certeza de que estava sendo paranoica. Tudo bem, Santiago ter matado a garota que ela tinha acabado de salvar porque ela voltara a se transformar era muito não usual. Mas não era nada que devesse tirar o sono dela. Não como vinha fazendo nos últimos dias.

Precisava relaxar. E em todo o clã Flores, havia uma pessoa que era a melhor para isso.

Charles Villalobos abriu a porta do vurgon com o olhar meio atordoado e um sorriso de canto que, se Letitia não estivesse tão nervosa, a teria feito entrar pra dentro do vurgon e fechar a porta por um bom tempo. Mas por mais que Charles fosse bom de cama, e o clã quase inteiro conseguia atestar isso, não era desse talento que ela estava precisando agora.

— Vejamos se não é a realeza à minha porta! — ele brincou, soprando uma fumaça com cheiro doce bem na frente de Letitia.

O caçador se escorou contra o batente da porta e passou a mão no cabelo, ajeitando os fios. Letitia sorriu ao ver o gesto familiar. Charles tinha essa mania quando queria seduzir alguém, ou quando estava nervoso, ou… Bem, o tempo todo.

— Oi Charlie! Posso entrar?

— Minha casa é sua casa. Fica à vontade.

Ele se afastou para o lado, dando espaço para Letitia passar e a líder se sentou no colchão da cama dele. Ela deu uma breve olhada em volta, admirando o pequeno jardim que o vurgon tinha do lado de fora da janela. Charles plantava de tudo um pouco. Entrar no vurgon dele era quase como entrar em um bosque. Além das flores, o vurgon era enfeitado com várias porcelanas e outras decorações chinesas, herança do tempo que a família tinha passado com caçadores da China, assim como o narguilé de Charles e os conhecimentos dele sobre incensos.

Letitia se distraiu vendo um botão de rosa e acabou não notando Charles se sentando atrás dela até que sentisse a mão dele afastando os cabelos dela para o lado. Em questão de segundo, ela sentiu os lábios dele em sua nuca. Ela abriu um sorriso leve, mas por mais que usualmente gostasse muito da natureza colorida de sua amizade com Charles, não estava no pique daquela vez.

— Não foi isso que me trouxe aqui hoje, Charlie.

Ele imediatamente parou o que estava fazendo e se afastou um pouco. Letitia raramente soava séria e focada como naquele momento, e mais raramente ainda aparecia em seu vurgon para algo além de sexo. Não que ela só o procurasse para isso, mas ela preferia, de forma geral, conversar ao ar livre, onde tivesse vento.

— Que pena. — ele brincou, se levantando do colchão.

— Estou tendo problemas para dormir. Estava imaginando se poderia me ajudar com isso.

— Aaaaaah. Entendo.

Charles se espreguiçou e puxou um banco para a frente de uma cômoda com várias gavetas. Ele deu mais uma tragada no narguilé e o colocou de lado, começando a procurar as plantas para o incenso de Letitia. De várias caixinhas, ele ia tirando uma ou outra folha seca de alguma coisa, e foi juntando em cima da cômoda.

— O que é que está te mantendo acordada à noite?

Letitia observou o caçador cheirar uma erva seca e desistir de colocá-la junto das outras. Ela não sabia responder a pergunta, exatamente, mas tinha uma noção.

— Acho que estou precisando de respostas pra tudo que tem acontecido.

— Sono combinado com respostas. Entendi.

Ele triturou as plantas num pilão e depois pegou um pedaço pequeno de carvão, fósforos, um prato de incenso e uma pederneira.

— Isso deve ajudar. — ele disse, a chamando para fora com um gesto de cabeça.

Letitia o seguiu para fora do vurgon, e estava encostando a porta quando ouviu Charles.

Ni hao, Santiago!

Ela se virou. Rhuan estava ali, com as mãos no bolso, o jeito calmo e o cheiro de mar. Letitia abriu um sorriso pequeno e se juntou aos amigos.

— Olá Charles. Letitia. Eu só queria agradecer pelas flores. De novo.

Charles riu baixinho e abriu o sorriso que todo mundo no clã já conhecia.

— Bem, se quer mesmo me agradecer tanto assim, consigo pensar em umas boas formas alternativas. Eu estou indo colocar a Letitia na cama agora. Se quiser, pode me esperar e eu coloco você na cama quando voltar. Meu vurgon tá aberto.

Ele lançou uma piscadela para Rhuan e Letitia riu. Típico de Charles. Eles deram as costas a Rhuan e foram seguindo para o vurgon da líder.

— Deite-se e fique confortável. — ele orientou, quando entraram.

Não havia muita luz lá dentro, e nenhum deles se importou em acender. Ela se deitou e esperou, observando Charles trabalhar. Ele colocou o carvão no prato, acendeu com a pederneira e controlou a brasa por algum tempo. Enfim, começou a colocar as ervas no carvão.

— O que você colocou aí?

— Capim-cidreira e maracujá para acalmar e relaxar. Cipó-mariri e chacrona para abrir sua mente.

— Ayahuasca?

Ele respondeu com um sorriso levemente convencido.

— Respire fundo, Letitia. E procure relaxar. Feche os olhos e deixe o sono vir até você.

Ela fechou os olhos, respirando fundo. Na primeira inspirada já sentiu seus músculos relaxarem. Na segunda, seu corpo e sua mente estavam muito mais leves. Na terceira ela tinha pegado no sono.

Assim que ela abriu os olhos, soube que estava sonhando. Não sabia se era por causa do céu, muito escuro e sem estrelas para ser o que ela estava acostumada a olhar, ou se era por estar em um local aberto, quando adormecera dentro de seu vurgon.

Ela se sentou, devagar. O chão embaixo dela estava encharcado, e molhara suas roupas e seus cabelos. Ela levantou a mão, olhando a água sobre sua pele, e sentindo um aroma muito familiar.

Sal. Estava deitada em cima de água salgada.

Letitia olhou em volta, mas onde quer que estivesse, estava escuro e era difícil enxergar detalhes. Para quase todos os lados que olhasse, Letitia apenas conseguia ver a linha do horizonte, distinguível do céu apenas por uma iluminação muito leve.

A exceção foi quando ela viu uma forma escura à distância, à sua direita. Ela se levantou devagar e se manteve um pouco agachada, começando a avançar em passos lentos em direção à forma.

À medida que ela se aproximava, ela percebeu que a forma se movia devagar, um movimento lento subindo e descendo, bem discreto. Ela reconheceu o que parecia ser uma cabeça em algum momento, e ao estar perto o suficiente notou que a forma era um lobo bem grande, deitado, e que o movimento era a respiração lenta dele.

Ele parecia fraco. Estava acordado, mas não havia brilho em seus olhos. Ela estendeu a mão devagar.

— Tudo bem. Tudo bem, você não está sozinho…

O lobo soltou um uivo baixo. Letitia analisou o animal sobre a iluminação fraca do lugar e viu que estava com o ventre aberto e sangrando muito.

Era uma fêmea. O corte parecia ter sido feito para retirar filhotes.

— O que aconteceu? Quem fez isso com você?

O lobo soltou outro uivo baixo e fechou os olhos. A respiração parou.

— Não! Não, espera, por favor…

Letitia acordou gritando.

Ela se sentou na cama. Estava suada e cansada. O incenso não estava queimando mais e ela sentia uma dor muito leve na cabeça, provável efeito do incenso.

O que tinha sido aquilo? A ideia era que um sonho lhe desse respostas, não mais perguntas!

— Tia Letitia?

A mulher olhou para o lado. Uma garotinha de sete anos estava sentada na cadeira que Charles ocupava antes, com uma flor no cabelo e outra na mão.

— Rosa. Olá pequena. — Letitia respirou fundo. Não queria parecer mal e deixar Rosa preocupada. — Onde está seu pai?

— Depois que ele acabou de queimar seu incenso ele voltou pro vurgon e me pediu pra ficar com você até você acordar. O tio Santiago tava esperando ele lá, então acho que eles tão namorando.

Claro. Letitia respirou fundo e se deitou de novo. Ela olhou para o lado, vendo Rosa descer da cadeira e subir na cama ao lado dela.

A líder sentia um carinho muito grande pela menina. Tendo perdido a mãe no parto, Rosa seria criada só por Charles se os Flores não fossem uma grande família como eram, e com isso o clã inteiro se sentia um pouco como se fossem tios e tias dela. Mas, por algum motivo, Rosa se apegara a Letitia, e algo entre elas as fazia sentir como se fossem mãe e filha. Não haviam sido poucas as vezes que Rosa viera dormir no vurgon de Letitia, ou pedira à lider para arrumar seus cabelos, ou pedira a ela para arrumar seus vestidos.

De certa forma, Letitia agradeceu internamente pela garota estar ali. A presença dela a acalmava tanto quanto o contrário. Não tendo sido agraciada com a sorte de poder ser uma mãe, tinha em Rosa sua única esperança de ter a sensação enquanto vivesse. E, naquele momento, ela queria muito sentir um pouco daquele carinho.

Estava assustada como não sabia se uma líder podia ficar. Precisava de respostas, mas seu sonho só tinha levantado mais perguntas. E se esgotasse seus recursos e ainda não soubesse o que fazer?

— Tia Letitia, você dormiu muito mas parece que tá cansada ainda. Por que não dorme mais?

— Parece uma boa ideia, pequena. — ela deixou um beijo na testa da menina e a abraçou. — Vai me fazer companhia?

— Vou sim. Depois o papai vem buscar a gente.

Letitia fechou os olhos, sentindo o doce cheiro de flores e o conforto de abraçar a menina que era como se fosse sua filha. Talvez fosse conseguir dormir bem agora.