Venenosa
Erva venenosa
É pior do que cobra cascavel
Seu veneno é cruel
Se porta como louca
Achata bem a boca
Parece uma bruxa um anjo mau
Detesta todo mundo
Não para um segundo
Fazer maldade é seu ideal
Erva Venenosa — Rita Lee
Londres, Inglaterra
01 de Outubro de 1818
E mbora Alban fosse à princípio muito resistente a algo como uma noite no bar por ter a consciência pesada em tirar uma folga, depois de passada a resistência inicial ele reconhecia que um copo de uísque e a presença de um amigo podiam fazer milagres pelo humor de alguém. Não só o passeio, mas o simples fato de Aaron estar por perto aliviara muito do peso sobre o líder. Mesmo que suas conversas com Aaron não estivessem fazendo muito pelo problema em questão, ter alguém com quem conversar sobre os zumbis já era um grande alívio.
Talvez por isso ele tivesse levantado um pouco mais cedo naquele dia, encarado o frio levemente anormal de bom humor e deixado seu apartamento em Londres em direção à Torre com o espírito renovado. E depois de tomar um bom café da manhã comendo torta em vez de se enterrar em garrafas de uísque, ele estava bem otimista para aquele dia em particular.
Claro, devia ter imaginado, estava indo tudo muito bem para continuar assim por muito tempo. Assim que Alban abriu a porta do laboratório desejou que suas escolhas naquela manhã tivessem sido diferentes, porque não tinha bom humor que sobrevivesse à visão de Aaron de pé atrás de uma das mesas, com o peito deitado em cima dela e Thomas Prescott atrás dele, os dois com as calças abaixadas e sem parecerem dar a mínima para o fato de que Alban acabara de pegá-los no meio de uma transa secreta.
Ou, ao menos, Thomas não ligava, o que ficou claro pelo sorriso sarcástico e provocativo no rosto dele quando viu que Alban tinha aberto a porta. Aaron ainda não tinha percebido, e Alban estava chocado demais para reagir e fazer algo simples como dar as costas e fechar a porta.
— Ora ora… — Thomas brincou, se abaixando para sussurrar no ouvido de Aaron. — Parece que nós temos companhia. Talvez ele queira se juntar a nós.
E Thomas se levantou novamente, puxando Aaron junto pelos cabelos. De alguma forma, quando o olhar de Alban cruzou com o de Aaron, o líder pareceu sair do estado de inércia em que estava. O líder saiu do laboratório, bateu a porta e se jogou contra a parede, respirando fundo.
Ok. Ok. Thomas e Aaron tinham um caso. Não dava para dizer que não sabia disso, porque sabia, mas no que eles estavam pensando fazendo esse tipo de coisa no laboratório? E se outra pessoa em vez dele tivesse aberto a porta?
O líder ouviu alguns gemidos abafados dentro do laboratório e decidiu que era o suficiente. Alban resolveu dar uma longa volta pela Torre, sem nem mesmo fazer ideia de por quanto tempo deveria ficar enrolando até eles terminarem o que estavam fazendo. Ali estava, ele pensou, uma das maiores desvantagens de sua inexperiência no assunto. Alban detestava se sentir burro sobre qualquer assunto que fosse, e ali estava ele, sem saber o básico sobre uma coisa que todo homem de sua idade já tinha domínio.
Bem, havia, no fim das contas, sido sua escolha. Depois de vinte minutos dando voltas pela Torre ele finalmente se entediou e decidiu voltar para o laboratório, mas bateu na porta dessa vez.
Thomas abriu. Ele ainda tinha aquele sorriso convencido no rosto, e Alban teve vontade de esfregar a cara dele na parede pra arrancar o sorriso idiota da boca do colega de clã.
— Vai me deixar entrar ou tá difícil? — Alban perguntou, vendo Thomas convenientemente parado no caminho para a entrada.
O homem deu de ombros e saiu do caminho, entrando para dentro do laboratório e ajeitando os cabelos com a mão. Alban entrou atrás dele, vendo Aaron sentado em um canto. O fato de que Aaron abriu um sorriso enorme e amigável quase amoleceu o coração de Alban.
Quase.
— Vocês perderam a droga do juízo? — o líder perguntou, fechando a porta do laboratório.
— Só porque leva a vida de um bêbado celibatário, Alban, não quer dizer que nós vamos levar também. — Thomas respondeu, se sentando sobre uma mesa e lançando uma piscada de olho para Aaron.
— Eu não podia ligar menos para o fato de vocês estarem fodendo pelos cantos, Thomas. O que eu não consigo entender é, número um, porque um com o outro em vez de foderem mulheres, e número dois, PORQUE NA DROGA DO LABORATÓRIO ONDE QUALQUER UM PODERIA VER VOCÊS!
Alban respirou fundo. Estava sentindo a cabeça latejar um pouco. Ótimo. Estava ficando estressado. Ia acabar morrendo de estresse graças aos dois, era isso que ia acontecer.
— Eu não devo satisfação a ninguém, nem a você, chefe. — a resposta de Thomas veio carregada de sarcasmo e ironia ao se referir a Alban como chefe dele. — Você não enfia a droga do pau em lugar nenhum e aí vem querer avacalhar quem tem em quem fazer isso?
Tudo tinha limite. Alban avançou para cima de Thomas com o punho fechado, acertando um soco no nariz dele. Thomas recuou alguns passos, e Alban viu uma boa quantidade de sangue em sua mão. Ótimo. Tinha quebrado o nariz dele. Era até pouco, devia quebrar ele todo. Thomas não tinha noção de perigo, se achava acima de tudo, e seria uma coisa se ele se ferrasse por isso, mas levar Aaron com ele? Não era justo. Aaron era uma pessoa muito melhor do que os dois juntos.
— Ok, chega!
Aaron se levantou. Ele abraçou Thomas pelos ombros, o levando para o outro lado do laboratório e pegou algumas gazes e outros suprimentos médicos para dar uma olhada no estrago que Alban tinha feito.
— Vocês precisam se acalmar. — Aaron continuou. — Alban, eu não sou um filhotinho de cachorro indefeso, tenho noção do que faço, onde faço e como faço. E gosto de fazer, tá legal? E o Thomas é bom nisso. E ele gosta também. E Thomas, Alban tem razão, transar no laboratório não foi nossa ideia mais inteligente.
— Para, vai dizer que não gostou da adrenalina?
Incrível. Thomas tinha acabado de tomar um soco na cara e continuava tirando sarro das coisas. O pior de tudo foi que o jeito alegre de Aaron realmente parecia ter gostado da aventura, o que ficou claro no sorriso suave que ele deu em resposta a Thomas.
Alban sentiu o estômago dar algumas voltas. Isso não podia estar acontecendo.
— Acho que eu vou vomitar.
Antes que Thomas ou Aaron pudessem responder, Alban correu até a pia, e acabou vomitando ali mesmo. Merda. Era uma pessoa muito sensível a situações extremas, não podia passar por um estresse desses. Estava começando a suar frio também.
— Uau. Eu sabia que você era meio babaca, mas não achava que fosse a ponto de ter nojo da gente.
Alban levantou o rosto da pia para dizer que uma coisa não tinha nada a ver com a outra, e sentiu seu coração partir ao ver a expressão de tristeza no rosto de Aaron. Ah, que ótimo… Agora ele ia acreditar na merda que Thomas tinha falado.
O líder nem conseguiu responder alguma coisa antes que as ânsias de vômito voltasse. E levou um bom minuto até que ele conseguisse lavar a boca de forma apropriada e se recompor para responder.
— Vocês precisam parar com isso. Isso não vai acabar bem pra vocês.
— Você está me ameaçando? — Thomas perguntou, agora segurando um pano contra o nariz que ainda sangrava um pouco.
— Não, Thomas! Eu estou me preocupando! Que droga!
— Preocupado uma ova!
Aaron se levantou e se sentou em cima de outra mesa, casualmente se posicionando no meio dos dois.
— Preocupado sim! Por que parece que eu sou a única pessoa nessa droga de lugar que anda lendo estudos científicos ultimamente! Os cientistas estão dizendo que pessoas como vocês são doentes, mentalmente instáveis!
Aaron achou melhor interferir.
— Alban, nós não somos mentalmente instáveis.
— Como eu vou saber?! — Alban estava vermelho de estresse e agora estava lacrimejando também. — Vocês sabem o que acontece com quem é mentalmente instável, vocês sabem!
— Alban…
— Eu não quero ter que chamar Van Helsings aqui em Londres porque meus melhores amigos tem algum problema de cabeça e se transformaram em monstros que bebem o sangue das pessoas pela cidade afora!
O laboratório caiu em silêncio. Alban desistiu de segurar as lágrimas e se sentou em uma cadeira, passando a mão pelo rosto e as enxugando quando começavam a escorrer.
— Todo tipo de coisa estranha tem acontecido… — Alban voltou a falar, agora com a voz mais baixa, mas um pouco trêmula. — Esses zumbis que a gente não consegue entender… Vocês são a família que eu tenho em Londres, e se alguma coisa acontecer com vocês, eu…
Alban fungou uma vez, e os dois colegas de clã dele se olharam.
Thomas suspirou.
— Cara, é sério. Não vai acontecer nada com a gente, eu juro. A gente tá bem. Não tem nada de errado com a gente. — Thomas puxou uma cadeira e se sentou ao lado de Alban. — Não vai acontecer nada com a gente. A gente não vai virar um monstro bebedor de sangue.
Por mais que Alban conseguisse acreditar que Thomas tinha certeza disso, não conseguia ter a mesma fé que ele. Era um homem de ciência. E a ciência estava dizendo…
— Alban, você conhece a gente. E você conhece uma pessoa muito perturbada mentalmente. — Aaron comentou, coçando a nuca. — Nós não temos nada a ver, temos?
O líder levantou o rosto para os amigos. Bom… Nisso eles tinham razão.
— Não… Não tem.
— Então. — Thomas abriu aquele sorriso sarcástico de novo. — Isso é falta de sexo, Alban, você está ficando estressado…
— Meu deus, até você?
— Quer saber, vamos te levar prum cabaré. — Thomas disse, pegando seu chapéu em uma mesa e o colocando na cabeça.
— Eu não quero ir num cabaré! Nós temos trabalho a fazer!
— Blá blá blá… Não estou nem aí, Alban. — o homem respondeu, começando a empurrar o líder para fora do laboratório.
Aaron abriu um sorriso divertido e vestiu seu casaco, saindo correndo atrás dos dois.
— Ei, ei, deixa eu escolher onde hoje?
— Aaron, seu gosto para bares é horrível…
— Gente, eu não vou sair com vocês hoje!
— Por que não? Eu acabei de voltar. — Thomas comentou. — E pelo que Aaron andou me contando, o que você precisa para resolver o problema dos zumbis é conhecimento químico, e a nossa química não voltou de viagem ainda. Quando ela chegar, nossas férias vão ter oficialmente acabado, então, por agora, vamos aproveitar.
— São dez horas da manhã. Você não vai achar um cabaré aberto.
— Não duvide da minha capacidade, Alban.
O líder desistiu de discutir. Eles tinham razão. Precisavam de conhecimento químico agora, e a única coisa a fazer a respeito disso era esperar. Ao menos, Alban pensou, sua família estava voltando para casa.
