Eu não estou nem aí para a minha reputação
Você está vivendo no passado, esta é uma nova geração
Uma garota pode fazer o que ela quer fazer e é isso que eu vou fazer
E eu não estou nem aí para minha má reputação
Oh, não
Não eu
Bad Reputation — Joan Jett
Hunedoara, Império Austríaco
01 de Outubro de 1818
D izer que Nicoleta estava evitando os pais desde o fatídico anúncio de que deveria se casar com alguém que ainda não sabia quem seria era amenizar e muito a situação. Desde aquele dia, ela estava indo em missão de caçada atrás de missão de caçada, e chegava tão cansada na sede que usava isso como desculpa para não ver ninguém até que, inevitavelmente, saía para caçar novamente.
Com isso ela também acabou perdendo a noção do tempo. Ela chegou no castelo naquela noite sentindo o corpo cansado e dolorido, pingando sangue do vampiro que tinha caçado e lama do chão onde tinha rolado com ele. E estava congelando de frio.
Ela atravessou o castelo brava e exausta, ordenando à primeira criada que viu que esquentasse um banho para ela. Que os costumes dissessem o que quisessem sobre banhos e sobre o mal que podiam fazer à saúde, ela não ia ficar imunda do jeito que estava. Parou por um bom tempo para deixar o relatório em seu escritório, para que pudesse recolher o pagamento depois, e então foi para seu quarto.
O quarto dela era o maior do castelo, incluindo uma cama de dossel grande o bastante para caberem cinco pessoas deitadas lado a lado, uma lareira e uma banheira bem larga, agora cheia de água fumegante com flores sobre a água. A vontade dela era de entrar direto na água, mas queria que a água continuasse limpa por um bom tempo. A líder respirou fundo e começou o processo de tirar os adereços do cabelo, jóias, e as camadas de roupas que usava. Tinha dispensado a ajuda da criada para isso. Queria ficar um pouco sozinha agora para descansar melhor. Estar na presença de pessoas exigia um grande teatro, mesmo para alguém como ela que violava tantas convenções sociais. Não queria essa dor de cabeça agora.
Nicoleta tirou o excesso de sujeira do corpo com alguns panos que a criada tinha separado para ela, deixando um limpo para se secar depois, e entrou na banheira. Céus, como estava grata pela água quente agora. Ela mergulhou a cabeça, molhando os cabelos, e se acomodou na banheira, fechando os olhos e deixando o corpo relaxar.
Poderia acabar até dormindo ali. Nicoleta tinha entrado naquele breve estado meio dormindo e meio acordada quando pareceu notar que a banheira não era um bom lugar para uma noite de sono e abriu os olhos.
Por algum motivo, nesse momento ela percebeu exatamente quais eram as flores em sua banheira.
— Narcisos…
A líder olhou para o canto de seu quarto e constatou, surpresa, que Narcissa Van Helsing estava ali. A companheira de clã, tinha um sorriso divertido no rosto e uma expressão levemente desdenhosa que fez Nico se perguntar a quanto tempo ela estaria ali.
— Gostou das flores?
Com um suspiro, Nicoleta se lembrou de que era dia primeiro de outubro e que, portanto, Narcissa estaria de volta de sua visita mensal à família na Transilvânia. A mulher estava enrolada em um pano, parada à frente da tela dobrável que Nico usava para se trocar.
Era bem a cara de Narcissa colocar flores em sua banheira. Cissa amava flores. E narcisos… Bem, nada poderia servir melhor como a assinatura dela do que isso.
— Um bom toque. — a líder respondeu.
Narcissa abriu um sorriso de canto e largou o pano no chão. Nico observou sem nenhuma mudança de expressão Narcissa caminhar até a banheira, nua, e entrar na água, se sentando de frente para ela. Nico percebeu que a banheira não transbordou, e se deu conta de que Narcissa tinha planejado colocar água o suficiente para que as duas coubessem lá dentro.
— Ouvi que você tem ficado mais fora do castelo do que dentro.
Nico acompanhou com os olhos o dedo de Narcissa desenhar o contorno de suas clavículas e descer até o meio de seus seios. O olhar cético no rosto da Líder não era novidade, mas havia uma nota de desinteresse mais palpável que o normal.
Não que não estivesse interessada em Narcissa. Sempre estava. Só que estava muito cansada agora.
Ela não impediu Narcissa de se aproximar, e quando a caçadora a beijou, ela retribuiu o gesto. Os beijos trocados entre as duas costumavam ser sensuais e provocantes, traços fortes da personalidade de ambas, mas daquela vez havia muito mais calma e submissão nos lábios de Nicoleta. Ela não estava no clima para isso, e quando os dedos de Narcissa encontraram a lateral de seu seio, a caçadora percebeu o quanto a líder não estava interessada.
— Você poderia dizer que não está no clima. — Cissa comentou, saindo de cima de Nico e se sentando ao lado dela.
As duas ficaram um pouco espremidas, mas ainda cabiam bem na banheira.
— Estou exausta. Não aguento mais essas caçadas. Os vampiros não param de aparecer...
— Eu entendo bem. Esbarrei com tantos na Transilvânia que nem tenho coragem de chamar minha viagem de férias. — a mulher se recostou na beira da banheira e olhou para Nicoleta com um ar dissimulado. — Eu mereço mais férias… Mereço descansar…
Infelizmente para Narcissa, Nicoleta era tão manipuladora quanto ela, e o truque que teria funcionado com muita gente não surtiu efeito.
Cissa revirou os olhos, saiu da banheira e pegou o pano para se enxugar.
Nicoleta observou a mulher vestir uma camisola de linho branco e parte de si se arrependeu de tê-la dispensado. Narcissa era, facilmente, uma das mulheres mais bonitas que Nicoleta já tinha encontrado, com o rosto anguloso, olhos claros e a pele de porcelana contrastando com os cabelos escuros e as roupas vermelhas que ela sempre estava vestindo.
Por vezes, Nicoleta pensava em Narcissa como uma versão melhor de si mesma. Mais bonita. Mais forte. Mais implacável. Se seus pais faziam tanta questão de que Nico se casasse, ela só conseguia pensar em duas opções à sua altura. Uma delas já tinha se casado. A outra opção era uma mulher, e portanto, impossível para a missão.
— Você pode ficar aqui se quiser. Eu não me importaria com a companhia. — Nico sugeriu, brincando com um dos narcisos que flutuava na água.
— Continue assim e vou começar a pensar que não me vê apenas como alguém para usar e descartar como faz com todo mundo.
Apesar da resposta atravessada, Narcissa foi até a janela e soltou os cabelos, se ocupando de olhar as estrelas e sentir o vento no rosto enquanto esperava por Nicoleta. A líder sentiu a respiração falhar por um instante. Não importava o quanto soubesse que Narcissa era maravilhosa, havia uma magia única atuando sobre ela em alguns momentos, como agora, com a luz da lua refletindo na pele clara e destacando ainda mais os cabelos pretos dela.
Nico suspirou. Estava se tornando uma tola deslumbrada. Isso não era bom para ela, e não seria bom para o clã. Por mais que estivesse furiosa com os pais, entendia de onde o pedido deles estava vindo. Queriam zelar pelo clã, pela imagem… Por tudo. E ela, como líder, deveria entender melhor do que qualquer outro.
Ela mergulhou na água, afastando os pensamentos uma última vez. Sua felicidade e os interesses do clã não podiam ser tão contraditórios assim.
Nicoleta se levantou da banheira e se secou, vestindo sua camisola. Ela se aproximou em silêncio quase que absoluto de Cissa, mas a mulher não se assustou, e continuou com o olhar curiosamente voltado para o céu.
— Você seria uma boa Flores. — Nico comentou, olhando também para o céu e tentando ver o que de tão interessante tinha nas estrelas que Cissa tanto amava.
A resposta de Cissa veio com uma risadinha curta e sarcástica.
— Eles são livres, mas estranhos. E eu não sei se duraria muito longe de minhas jóias e jantares requintados.
Fazia sentido. Nico tentou imaginar Cissa com um dos vestidos rústicos das mulheres do clã, correndo descalça no meio das plantas, e embora a visão ainda fosse muito bela, não se parecia em nada com a mulher que Narcissa era.
— Acho que tem razão. Não combina tanto com você. — ela fez uma breve pausa. — O que está olhando hoje?
— Draco. — Cissa respondeu, apontando para algum lugar no céu, um conjunto específico de estrelas.. — Está estranhamente brilhante hoje. Bonita.
— Belíssima.
A resposta de Nico era claramente direcionada a Cissa, e não à constelação. A líder se sentiu feliz de ver um leve tom rosado subir no rosto de Narcissa e quase desistiu de dormir. Um pouco de tempo com a caçadora, só um pouco… Certamente não estaria assim tão cansada, certo?
— Cissa…
Nesse instante, Nico ouviu batidas na porta. Ela decidiu ignorar, e puxou o queixo da mulher para perto, devagar, juntando seus lábios aos dela. Esse beijo foi como os que deveriam ser entre elas, provocativo, quase uma competição de sensualidade. O perfume floral de Cissa era suave e doce, mais uma das coisas que parecia ter nascido para ser parte dela. Perfeito, como todo o resto. Perfeito...
Mas bateram na porta de novo, e dessa vez, não se contentaram apenas com isso, e decidiram chamar por Nicoleta também.
— Nico! Nico, está aí? Me disseram que você voltou.
Poucas vezes na vida Nicoleta quis tanto matar Tavvy quanto agora.
Ela foi até a porta com a fúria de quem queria a cabeça de Octavian em sua mesa e a escancarou com considerada violência.
— Octavian, eu juro, um dia desses eu mato você.
— Que foi? Estou atrapalhando algo?
Nesse instante, Cissa apareceu ao lado de Nico e se apoiou no batente da porta, enrolando uma mecha de cabelo no dedo e olhando Octavian de cima à baixo. O Van Helsing levantou uma sobrancelha e virou a atenção a Nico, ignorando Narcissa como se ela nem estivesse ali.
— Sim Tavvy, está atrapalhando.
— Bem, você saiu, não me disse pra onde, não disse quando voltava, e isso foi faz um dia inteiro!
— Eu estava trabalhando. Agora, se me dá licença, vá procurar algo com o que se ocupar. Eu já tenho o que fazer.
Nisso Cissa deu um tchauzinho para Tavvy, levemente desdenhoso, e Nico fechou a porta na cara do irmão.
— Onde estávamos? — Narcissa perguntou, jogando os braços ao redor do pescoço de Nico.
Infelizmente para ela porém, o breve fogo que fizera Nico questionar se estava mesmo tão cansada assim acabara de se apagar, e tudo que ela queria agora era dormir.
— Amanhã, ok?
— Se você está dizendo…
E Cissa soltou Nicoleta, indo para a cama e se deitando como se fosse dona do quarto. Um dia desses, Nico pensou, essa mulher ia deixá-la louca. Mas por enquanto, se contentava com o jogo que estavam jogando.
