Poderia me arrumar para conseguir amor
Mas adivinhe?
Eu nunca vou ser aquela garota
Que está vivendo em um mundo da Barbie
Poderia acordar e me maquiar e agir como boba
Fingindo que eu preciso de um menino
Que vai me tratar como um brinquedo
E todas as outras meninas querem usar coisas caras e anéis de diamante
Mas, eu não quero ser um fantoche
Com quem você está brincando
Esta rainha não precisa de um rei

Sit Still, Look Pretty — Daya

Roma, Estados Papais

02 de Outubro de 1818

Nenhuma visão poderia ter sido mais bem-vinda para Lorenzo do que Francesca em um requintado vestido azul piscina atravessando as portas da biblioteca da sede dos Da Vinci, com seu sorriso levemente atrevido no rosto e a expressão de quem sabia que estava sendo requisitada. Ele suspirou aliviado por ver a prima finalmente voltar da visita à mãe e se levantou da mesa, largando os símbolos rabiscados que vinha estudando para trás.

— Finalmente!

O líder viu a surpresa estampada no rosto da prima e se impediu de resmungar. Bom, ok, aquela reação ao vê-la era um pouco mais empolgada do que o normal, mas ele estava cansado de ficar sentado desperdiçando tempo em livros quando sentia que deviam voltar àquela casa. Prometera esperar pela prima e agora sentia que tinha esperado tempo demais.

— Devo me preocupar que você pareça tão feliz em me ver?

Lorenzo deixou um beijo nas costas da mão da prima. Embora ela fosse como sua irmã, não era incomum que primos se casassem e ele odiaria arruinar a reputação de Cesca, mesmo que ela não ligasse para isso. Então, mantinha todos os costumes de um cavalheiro na presença dela.

— Deve. Se não estiver muito cansada da viagem, eu gostaria de partir imediatamente. Precisamos de sua ajuda.

Ele indicou Pietra e Bianca, sentadas à mesa, e viu Francesca ficar mais surpresa ainda. O fato de que estava trabalhando com Pietra deveria ser um sinal do fim dos tempos.

Precisar é uma palavra muito forte — Pietra comentou, passando as páginas de um livro. — mas seu primo está fazendo questão da sua presença, então… Paciência.

Lorenzo respirou fundo e abriu um sorriso irônico para a caçadora, tentando manter o que vinha fazendo ultimamente: ignorar sua acidez e falta de modos. Ele puxou uma cadeira para Francesca se sentar ao seu lado e puxou uma série de papéis, os mostrando para ela.

— Um resumo da situação: há alguns dias fui chamado para um exorcismo. A fantasma se comportou de forma… peculiar, deixando o corpo antes que eu completasse o procedimento, mesmo tendo forças para matar a hospedeira se assim quisesse.

— Peculiar parece mesmo uma boa definição — Cesca comentou, vendo os rabiscos de Lorenzo nos símbolos.

— Acabei voltando lá com a senhorita Sartori depois, ela tem um bom olho para detalhes, e descobrimos vários símbolos cravados no corpo da garota. Mas, desde então, foi só. Os símbolos estão bagunçados e não parecem significar nada. Depois que pensei um pouco mais a respeito, acredito que haja algo importante escondido no meio dessa confusão, codificado de alguma forma. Talvez parte dos símbolos realmente sejam baboseira sem sentido feita para confundir intrometidos que não são o destinatário da mensagem, como eu.

— Mensagem? Acham que é uma mensagem?

Bianca deu de ombros e mostrou algumas anotações para Cesca.

— Não sabemos, mas é a teoria mais proeminente do senhor da Vinci… E a senhorita Pietra da Vinci concorda.

Lorenzo concordou, e completou o raciocínio.

— Pensamos que a mensagem pode estar incompleta. Queremos voltar ao cortiço e fazer uma busca mais extensa. Tentar encontrar o local onde a fantasma morreu na casa pode ser um bom começo.

— Parece um bom plano — Cesca concordou, se levantando e ajeitando o chapéu. — Onde fica esse cortiço?

O líder abriu um sorriso. Pietra tinha razão, não era pelas habilidades de historiadora que precisava de Francesca ali. Era simplesmente porque precisava dela. Sentira falta de seu otimismo, de sua empolgação com novos casos. Mas, mais que isso, podiam ser primos, mas ela era como sua irmã. E era isso que ele mais sentira falta.

Pequenos detalhes mudavam quando Francesca estava por perto. Lorenzo não gostava de sair de sua rotina ou de seus costumes. A ideia de mudança era assustadora para ele, então ter Francesca de volta era como entrar na normalidade novamente. Parte dele pensava se estar tão desconfortável em seu dia-a-dia não estaria o atrapalhando de raciocinar de maneira correta, e agora ele finalmente poderia tirar a prova disso. Ele encontrou conforto em abrir a porta para a prima, mesmo que ela reclamasse em seguida, dizendo que não precisava disso. Ou em, ao caminhar na rua com as três, lançar um olhar muito feio para um indigente que fez uma gracinha para Cesca no caminho.

— Lorenzo, quantas vezes eu tenho que dizer que não preciso que você fique me defendendo do mundo como se eu fosse de vidro? Eu não gosto disso!

— Desculpe Cesca, é mais forte que eu — ele comentou, ajeitando o casaco depois de fingir para o mendigo que estava puxando uma arma de um coldre secreto.

— Coitada de você, Francesca. — Pietra riu, com um sorriso levemente cruel. — Ter que aguentar um imbecil desses te tratando como uma criança…

— Gente, sério, nós saímos da sede para trabalhar — Bianca cortou, passando um pouco na frente do trio. — Será que podemos todos agir como adultos?

— Eu estou agindo como um homem adulto — Lorenzo resmungou. — É a sua convidada intrometida quem está se metendo.

Lorenzo viu Bianca respirar fundo, claramente se controlando para manter a calma, e considerou uma vitória interna e silenciosa que a última palavra tivesse sido dele. Era assim que devia ser, afinal de contas. Ele era o líder e o único homem no meio do grupo. Era para ser propriamente respeitado.

O quarteto chegou ao cortiço e Lorenzo foi recebido com sorrisos ainda mais oferecidos do que das últimas vezes em que estivera lá. Agradecido por estar acompanhado de Francesca dessa vez, ele deu o braço a ela, que o olhou com a expressão muito brava. Ele sentiu que ela ia puxar o braço de volta, e segurou a mão dela com força, a mantendo presa a ele.

— Cesca — ele sussurrou — me ajuda com isso, e eu fico te devendo uma.

Ela parou de resistir.

— Qualquer coisa?

Quase. Não abuse.

Um quase favor certo de Lorenzo certamente valia posar como acompanhante dele por alguns minutos, e ele sabia disso. Cesca acabou cedendo, e Lorenzo seguiu cortiço adentro até o quarto ocupado pela garota que tinha salvo e sua mãe.

Dessa vez a porta estava fechada. Ele bateu algumas vezes e esperou, tentando ignorar os cochichos dos grupinhos de moças solteiras no corredor. Ele sabia que Francesca estava se divertindo muito com a ideia de que ele ficaria a devendo um favor, mas tentava não pensar nisso. Sua prima era engenhosa. Não ia pedir algo fácil. Entre Pietra distraída com uma mecha do cabelo como se não ligasse para estar ali e Francesca torrando o cérebro para pensar na melhor forma de ferrar com ele na hora de cobrar seu favor, Lorenzo começou a sentir que Bianca era a única que parecia tão preocupada quanto ele com o que estava acontecendo.

Ela estava observando o ambiente, e parecia bastante pensativa. Ele quis por um instante poder ler a mente da garota, saber o que ela estava pensando…

A porta do quarto se abriu. A mãe da menina estava do outro lado, e parecia surpresa de ver Lorenzo ali mais uma vez, especialmente acompanhado de tanta gente.

— Senhor da Vinci! — Ela se apressou a arrumar o cabelo, tentando aparecer mais apresentável para os caçadores à sua frente. — Senhoritas… Ah, que bom o senhor ter vindo! Eu queria mesmo te mostrar uma coisa.

Ele franziu a testa.

— Queria?

— Ah, sim! — A mulher entrou de volta para o quarto, e continuou falando. Lorenzo achou de bom tom esperar do lado de fora.

A atenção de Cesca, Pietra e Bianca agora tinha se voltado para a mulher.

— Sabe, senhor da Vinci, nós ficamos preocupadas aqui no cortiço com o que o senhor disse, da fantasma poder voltar… Então decidimos tentar descobrir quem foi essa moça que morreu aqui antes. Acaba que o prédio era um casarão antigamente, e aí nós encontramos o neto do dono e ele nos arrumou uma pintura da senhorita… Espera um instante…

Lorenzo olhou surpreso para as garotas. As moças do cortiço tinham achado a fantasma para eles? Isso tinha sido… genial! Irresponsável, mas muito inteligente e com certeza poupava muito tempo!

— Obrigado, senhora. Isso vai nos ajudar bastante a resolver o problema.

— Ah, imagine senhor da Vinci, o senhor nos ajudou muito, eu só queria retribuir de alguma forma. — Ela voltou para a porta e entregou um quadro de uns dois palmos de altura para ele. — Aqui.

Ele pegou o quadro, aliviado por terem um ponto de partida, afinal, poderiam agora pegar o nome da garota. Então ele olhou a pintura e seu ânimo desapareceu.

A reação com certeza ficou estampada no rosto dele, pois o sorriso simpático sumiu do rosto da senhora.

— Tudo bem, senhor da Vinci?

Ele devolveu o quadro. A moça da pintura era loira e delicada, e parecia estar nos seus vinte anos. Não era difícil imaginar como ela seria mais velha, mas certamente, não seria nada parecida com a fantasma que ele tinha visto.

— Obrigado pelo seu esforço, mas essa não é a fantasma.

— Ah… Não? Bem… — a mulher colocou o quadro de lado. — Eu sinto muito senhor… Mas essa foi a moça que morreu aqui. Se não é ela, então não sabemos de mais ninguém que poderia estar assombrando o lugar…

— Eu e minhas colegas caçadoras vamos dar uma olhada no cortiço, ver se descobrimos algo. Obrigada pela ajuda, mas tentem não se envolver mais. Achamos que o que está acontecendo é algo perigoso. As moradoras que tiverem outro lugar para ir, aconselhamos que deixem o cortiço até o assunto se resolver.

— C-certo… Desculpe atrapalhar, senhor da Vinci.

— De forma alguma. Tenha um bom dia.

E a mulher fechou a porta. Lorenzo se soltou de Francesca e se virou para as garotas, cruzando os braços.

— Quem tiver alguma ideia… Agora é uma excelente hora para começar. Senhorita Sartori, estava olhando alguma coisa… O que foi que achou?

— Pode não ser nada… — Bianca respondeu, e apontou para um canto da parede, perto do teto, no corredor. — Mas pode ser alguma coisa.

Ali, em um trecho, o papel de parede estava rasgado, exibindo um pedaço da madeira original que compunha a parede do cortiço. Bem pequeno, pintado com tinta vermelha, havia um símbolo que Lorenzo vira se repetindo algumas vezes nas anotações de Bianca sobre o corpo de Mariette.

— O que é? — Pietra perguntou, ela e Francesca apertando os olhos para tentar ver o símbolo.

Lorenzo apertou a boca. Tinha mesmo um mau pressentimento sobre isso, e agora…

— É um hexagrama — ele respondeu. — Tem várias representações em várias culturas diferentes. Para os judeus, por exemplo, é a Estrela de Davi e um símbolo de proteção. Mas desenhado dessa forma, com as pontas de cima e de baixo mais largas e as outras apertadinhas, se assemelha mais ao hexagrama utilizado em bruxaria antiga. Ele está associado em alguns registros a, resumindo, Satanás.

Pietra levantou a sobrancelha e cruzou os braços.

— Estamos lidando com satanismo?

— Duvido muito — Lorenzo respondeu. — Como eu disse, em alguns registros. Em outros ele representa o balanço da natureza, os elementos e a luz do Sol. Em alguns desses casos está inserido em um círculo, mas geralmente, ao que eu tenha visto, o pentagrama aparece mais nas representações da natureza que eu consegui estudar, não o hexagrama. E existe também a possibilidade de que a interpretação satânica do hexagrama não seja precisa. Pode ter sido criada pela igreja como tantas outras coisas para desacreditar as crenças dos bruxos. Um hexagrama tem seis linhas, seis lados e seis pontas.

— Seis seis seis… O número da besta. — Cesca sussurrou.

— Exato. É por isso que eu acho que o significado desse símbolo nessa parede pode não ser satânico… Mas não é pelo símbolo em si que estou interessado.

Lorenzo viu um sorriso se abrir no rosto de Francesca. Rápida no raciocínio, ela já tinha entendido onde o primo queria chegar.

— Qualquer um pode ter pintado aquilo ali — ela comentou. — E qualquer um pode ter coberto com papel de parede. Você acha que se investigarmos vamos achar mais coisas encobertas pelo papel.

— Sim. Vamos fazer o seguinte: Cesca e eu vamos procurar nos quartos para a esquerda. Vocês duas vão na direção contrária. Quem achar alguma coisa chama os outros dois, certo?

As garotas concordaram e o grupo se separou.

Lorenzo bateu na porta do primeiro quarto vizinho e entrou, acompanhado de Francesca, pedindo que a mulher que o ocupava aguardasse do lado de fora. Esse quarto era bem mais mobiliado, apesar de ainda pobre.

— Então, Cesca, como estão as coisas lá? Meus pais estão bem? — ele perguntou, arrastando alguns móveis para olhar atrás.

— Ah, sim. Mamãe disse que eu não devia estar trabalhando tanto, que nunca vou arrumar um marido, aquelas coisas todas. Você sabe como eu não ligo, não é? Seus pais por outro lado parecem preocupados. Você conseguiu alguma pretendente?

O líder suspirou e se sentou em uma das cadeiras do quarto. Francesca era a única que sabia o quanto Lorenzo tinha vontade de formar uma família, e a única que vinha vendo o sonho dele indo por água abaixo tentativa após tentativa.

— Nessas horas eu queria ser um cara qualquer. Não é fácil tentar encontrar alguém que vá agradar os meus pais e o alto escalão dos da Vinci. E mais do que isso, eu sou uma pessoa ocupada demais. Você viu meus compromissos todos acabando por falta de tempo, não viu?

Ele sabia que não era a melhor pessoa do mundo, mas sabia que não era um demônio encarnado. Estava tentando. Estava tentando da melhor forma que podia. E ainda assim…

— E quanto a alguém que vá agradar você? — Cesca perguntou, arrastando uma cômoda para o lugar depois de averiguar o papel de parede e se sentando na cama, de frente para Lorenzo.

— Eu não sou difícil de agradar, Cesca. Tudo que eu espero de uma futura esposa é que ela compartilhe de meu desejo de formar uma família.

— Não é disso que estou falando… Eu tenho a impressão de que você está tão focado em encontrar uma esposa para formar família com você que se esquece que a base do casamento é o amor.

Lorenzo fechou a cara. Não sabia o que responder àquilo. Como poderia explicar a ela que não conseguia se ver perdidamente apaixonado ao longo da vida? Era um pensamento muito sórdido para se ter…

Felizmente, ele foi salvo pela porta do quarto abrindo abruptamente. Ele revirou os olhos ao ver que era Pietra. Por que estava surpreso? Não era como se educação fosse o forte dela.

— Bianca achou uma coisa.

A expressão de Lorenzo mudou imediatamente para um sorriso, e ele se levantou.

— Achou? Eu adoro essa garota…

Ele saiu rapidamente do quarto, encontrando o quarto onde Bianca estava e entrando de uma vez. Lá dentro, um guarda-roupa tinha sido movido para o lado e o papel de parede tinha sido arrancado de uma parede inteira, revelando um fundo de madeira com vários símbolos pintados em cima. Um, em particular, se destacava, sendo muito maior que os outros e estando bem no meio da parede.

— O que é isso? — Francesca perguntou, chegando no quarto acompanhada de Pietra.

O símbolo em questão era um enorme círculo com uma meia-lua deitada em cima.

— Esse é o símbolo do deus pagão das bruxas. O deus que a igreja decidiu usar para modelar o diabo. Pernas de bode, chifres… Kit completo. Mesmo o tridente foi uma forma de demonizar as bruxas, uma vez que várias das crenças delas são formadas em volta do número três.

— Isso significa o que eu acho que significa? — Bianca perguntou.

— Sim. Estamos lidando com bruxaria. Fantasmas e bruxaria. Isso não está me parecendo que vai acabar bem. É melhor a gente mandar evacuar o cortiço. Senhorita da Vinci, você poderia…

— Pode deixar.

— Senhorita Sartori, Cesca, precisamos desenhar isso tudo aí e levar com a gente.

— E aquilo ali? Temos que levar também? — Cesca perguntou, apontando para o canto da parede, onde o papel de parede arrancado estava pendendo, ainda meio preso.

Ali, preso entre a parede e o papel, estava um pedaço de pano grosso.

— O que é isso? — o líder perguntou.

Cesca olhou um volta por um instante, e no segundo seguinte Lorenzo a viu ir até o papel de parede com um pequeno abridor de cartas em mão. Ela enfiou o abridor entre o pano e o papel de parede e começou a rasgar o papel devagar, o tirando sem danificar o tecido.

Lorenzo sorriu. Francesca era bastante engenhosa.

Enfim, ela soltou o pano por completo, e acabou revelando o que era uma tela, arrancada da moldura e escondida ali para que ninguém pudesse encontrar. Ela desdobrou a tela e a abriu, vendo o que era a pintura de uma mulher.

— O que isso está fazendo aqui? — Bianca perguntou.

— Não faço ideia… Quem quer que encobriu os escritos escondeu isso ali. Provavelmente a pessoa planejava voltar para recuperar tudo depois, ou teria simplesmente colocado fogo na pintura.

Cesca entregou a pintura a Lorenzo, que desdobrou o pano.

Então, seu queixo caiu.

— É ela… — ele murmurou. — A fantasma. Essa é a fantasma que eu exorcizei.