É a minha vida
É agora ou nunca
Eu não vou viver para sempre
Eu só quero viver enquanto eu estou vivo
(É a minha vida)
Meu coração é como uma rodovia aberta
Como Frank Sinatra disse
Eu fiz do meu jeito
Eu só quero viver enquanto eu estou vivo
É a minha vida
It's My Life — Bon Jovi
Algum lugar a caminho de Madrid, Espanha
03 de Outubro de 1818
C harles não pretendia acordar de novo ao lado de Santiago, mas, bem, a vida era uma caixinha de surpresas não era? Com Rosa tendo passado dias com Letitia no vurgon dela, Charles tinha ficado bem livre para ir e vir de onde quisesse e para onde quisesse, e o resultado disso tinha sido bem mais encontros com Santiago do que teria esperado. Naquela manhã em particular, depois de ter dormido um pouco mais do que o esperado, Charles acordou e saiu do vurgon dando de cara com Santiago do lado de fora, acabando sua rotina de qigong matinal.
Charles não queria atrapalhar, então se sentou nas escadas do vurgou e pegou seu narguilé, acendendo e fumando enquanto acompanhava os movimentos do colega de clã. Ele sabia que Santiago mantinha a prática como um hábito adquirido do pai, e achava o esforço realmente louvável. Podia entender muito de cultura chinesa levando em conta o tempo que sua família tinha passado na China com clãs de caçadores de lá, mas o qigong em particular era uma parte que ele nunca tinha dominado. Era um homem bastante calmo, mas não tão calmo a esse ponto.
O caçador abriu um sorriso levemente lascivo ao ver os músculos de Santiago se contraindo um pouco com alguns dos movimentos, criando luzes e sombras diferentes sobre as diversas tatuagens que cobriam o corpo do caçador. Ele não sabia quanto aos outros, mas para ele as tatuagens acrescentavam todo um outro nível de sensualidade a Santiago. Talvez por isso tivesse voltado para a cama ao lado dele com tanta frequência nos últimos dias…
Com um último movimento, Santiago terminou a prática e recolheu a blusa na grama, se virando para trás bem a tempo de ver Charles sentado nas escadas do vurgon o observando. O caçador soprou mais fumaça de seu narguilé e abriu um sorriso mal-intencionado.
— Ni hao, Santiago. — o cumprimento em chinês foi uma boa piada interna para os dois, e Charles achou que não poderia deixar a oportunidade escapar. — Não estou certo de que tenha te dito isso ontem, mas tatuagens ficam muito bem em você.
A resposta de Santiago foi um sorriso pequeno. Ele vestiu a blusa e Charles colocou o narguilé de lado, indo até o colega de clã e abraçando sua cintura. Santiago segurou os braços de Charles, puxando um pouco, se afastando devagar.
— Estou com fome, Charles.
— Quem você quer comer? Perdão, quero dizer, o quê quer comer?
Charles soltou o abraço, vendo o sorriso se abrir mais no rosto de Santiago.
— Qualquer coisa que o clã estiver fazendo agora está bom.
— Entendido. Vou só guardar isso aqui — Charles comentou, pegando o narguilé do chão. — e te acompanho.
Segundos depois, a dupla estava se juntando a uma roda de Flores e ciganos de outras caravanas que tinham viajado na mesma direção, ao redor de uma fogueira acesa. Charles pegou uma maçã de uma pilha de frutas e acabou encontrando Letitia e Rosa ao lado da fogueira, a líder ajudando a criança a assar um espeto com carne e verduras. Charles ajeitou o cabelo, abrindo um sorriso pequeno. Tinha deixado Rosa com Letitia por um bom tempo. A amiga deveria estar cansada.
— Tudo bem, Rosa. Hora de voltar pro vurgon do papai. — ele comentou, se aproximando e sentando ao lado da filha.
— Aaaaaaah… Mas a tia Letitia tava me ensinando a fazer uma coroa de flores! Eu não aprendi ainda! E você não está usando o vurgon pra namorar com o Santiago? Então!
— E as suas flores, como ficam? Elas estão com saudades de você e…
— Tudo bem, Charles, eu adoro ela. — Letitia respondeu, com um sorriso largo e genuíno, abraçando a garotinha com força.
Charles suspirou. Sabia que Letitia a adorava, mas ele era pai de Rosa. Tinha o dever de cuidar direitinho dela.
— Eu sei que adora. É que eu fico com saudade também. — ele respondeu, acabando sua maçã e pegando um espetinho para assar para si.
Charles fez um carinho nos cabelos da filha, sorrindo em vê-la tão animada como agora. Ela estava com o cabelo lotado de flores.
— Papai, o vurgon da tia Letitia tá logo na frente do nosso. E ela não quer dormir sozinha de noite.
A essa declaração, Charles levantou o rosto, trocando um olhar com Letitia. Uma conversa silenciosa aconteceu entre eles, e ficou claro para o caçador que ele não tinha resolvido o problema dele. Se muito, tinha piorado.
— Sonhos ruins? — ele perguntou.
— Sonho. É sempre o mesmo.
— Ele ao menos te deu algumas respostas?
— No muito aumentou minhas perguntas.
O caçador suspirou, passando a mão nos cabelos. Não era sua intenção. Só queria ajudar. Ele olhou para o lado pensando no que dizer, e viu Santiago se aproximando com um pedaço de pão com mel e um copo de leite fresco.
— Do que estamos falando? — ele perguntou.
— A tia Letitia tá tendo uns sonhos esquisitos. Tá deixando ela maluquinha. — então ela olhou para o chão. — Olha, lírios!
Ao menos, Charles pensou, Letitia levava na brincadeira. Ela sorriu para Santiago e fez um carinho nos cabelos de Rosa. A garotinha se levantou, tendo acabado de comer e saiu andando sem nem dar tchau, pulando pelo caminho e pegando algumas flores no chão.
— Talvez você precise de orientação. — Santiago sugeriu. — Já pensou em pedir ajuda a Apolo?
Charles olhou surpreso para a caçadora.
— Não… — ela respondeu. — Não tinha pensado nisso. Excelente ideia!
De fato, excelente! Uma leitura de tarô de Apolo poderia ser exatamente o que precisavam para amarrar as pontas soltas.
— Como sempre, Santiago, excelente conselho. Talvez devesse começar a cobrar para aconselhar os viajantes da estrada. — então Charles abriu um sorriso. — Eu pagaria por uma hora com você.
Santiago riu, e Letitia com ele. Charles apenas deu de ombros, afinal, era verdade. Pagaria mesmo, mas não ia reclamar de ter o luxo do tempo de Santiago sem precisar pagar por isso. Ou seria Santiago que tinha o luxo do tempo dele?
Difícil dizer. O trio acabou de comer e se levantou, indo em direção ao vurgon de Apolo, parado do outro lado do acampamento. Charles abriu um sorriso divertido. Tinha lá seu histórico com Apolo também, mas não o via já há algum tempo. Seria interessante visitá-lo de novo. Quem sabe ainda não tinha rastro de palha pra pegar fogo entre os dois?
Letitia bateu na porta do vurgon e o trio teve que esperar um pouco até que a porta se abrisse. Do outro lado estava um rapaz magro, de pele muito branca cabelos ruivos e, a parte preferida de Charles, várias sardas. Ele estava comendo um morango e segurava outros três na outra mão. Charles deu uma boa olhada em Apolo, de cima a baixo, do jeito mais discreto que pode, antes que o rapaz descesse as escadas e abraçasse Letitia com força.
— É você! Poxa, tem estado sumida! Entre, vamos, entrem os três!
Ele deu espaço e o trio entrou no vurgon, Charles por último e aproveitando para dar um de seus sorrisos de flerte para Apolo.
— Perdeu alguma coisa no meu corpo, querido?
— Talvez… — Charles respondeu. — Quem sabe eu não deva procurar mais tarde?
Apolo respondeu o sorriso de Charles com outro mais descarado ainda, e o caçador conteve a vontade de rir. Letitia primeiro. Depois sua diversão.
Charles ouviu o clique da porta se fechando e Apolo foi andando para as janelas do vurgon, as abrindo ainda mais e deixando a luz do Sol entrar.
— Então, em que posso ajudar?
— Eu ando tendo um sonho… confuso. Charles me deu uns incensos pra clarear a mente e aí esse sonho veio. E ele continua voltando. Eu estava pensando se não poderia fazer uma leitura para mim.
— Pra você? Sempre. — Apolo veio até Letitia e puxou a cadeira para que ela se sentasse, arrancando uma risadinha da mulher.
O caçador foi até a janela e pegou um baralho que estava no batente, amarrado por um laço de fita e com um cristal em cima. Ah, sim, Charles se lembrava disso de algumas das noites que tinha passado no vurgon de Apolo. Aquele era o baralho que ele tinha ganhado da mãe. Não o usava para fazer leituras para qualquer um. Ele deixava o baralho na luz do Sol acompanhado de um cristal para se purificar depois de leituras.
— Andou lendo pra alguém? — Charles perguntou.
— Para mim. — Apolo respondeu, se sentando e se espreguiçando um pouco. — Tentando entender as mudanças recentes no comportamento da névoa.
— É o que eu tenho tentado entender também. Acho que meu sonho pode estar relacionado. Eu devo te contar?
— Pode, se quiser. Posso te fazer uma leitura para interpretar seu sonho em específico.
— Ou então — Santiago, que estivera calado até agora, se pronunciou. — pode fazer uma leitura geral. Estamos investigando um problema grande, não é? Ler o problema e associar com o que ela sonhou não é uma melhor ideia?
Apolo deu de ombros. Charles repetiu o gesto. Letitia estava pensativa.
— Que tipo de leitura vai fazer se for para o sonho?
— Tentar encontrar o significado principal e o secundário. Se é viagem astral, se há energias externas envolvidas… e um conselho.
Charles viu Letitia bufar. Ele franziu a sobrancelha.
— E se você ler ela, como Santiago sugeriu?
— Passado, presente, futuro, o estado dela, o que ela deve fazer, influências secretas e atitudes alheias, por exemplo, se eu usar uma leitura de sete cartas.
Bem, isso parecia mais útil, Charles pensou. Ao menos para a situação.
— Leia a mim, então. — ela pediu.
— Letitia, tarô não é um livro de respostas… Ler você ou ler seu sonho não quer dizer que vai dar uma resposta melhor ou pior.
— Eu sei… É só que… Meu sonho pode ser uma amostragem muito pequena do problema, entende? Eu quero olhar tudo de forma mais ampla.
— Como quiser. Por favor, embaralhe as cartas oito vezes.
Letitia pegou o baralho e de repente o vurgon entrou em silêncio. Charles não queria atrapalhar a atmosfera do lugar, então mesmo ele achou melhor conter as piadas por um instante. Letitia terminou de embaralhar e devolveu as cartas para Apolo, que colocou sete na mesa com a gravura para baixo, formando um desenho de ferradura. Charles conseguiu ver as mãos de Letitia se torcendo embaixo da mesa, agitadas, e conteve um suspiro. Ela estava muito nervosa. Letitia tendia a achar que tinha que resolver os problemas do mundo.
Apolo virou a primeira carta. Era a Imperatriz.
— Arcano Maior. — ele murmurou.
— O que é um Arcano Maior? — Charles perguntou.
Já tinha passado tempo o bastante com Apolo para quase decorar cada sarda do corpo dele, alguns meses atrás, mas nesse tempo por mais que tivesse acendido seus incensos com bastante frequência, não perguntara nada a Apolo sobre seus hobbies, seu tarô.
— Um baralho de tarô tem Arcanos Maiores e Menores. Arcanos Maiores são os arquétipos, os Arcanos Menores são as cartas com naipes. Acho que isso resume bem. Ter muitos Arcanos Maiores em uma leitura significa que estamos vivendo um momento de alta importância para o consulente, no caso, Letitia. Isso pode ser uma coisa boa.
Charles engoliu em seco. Nas circunstâncias atuais não achava que muitos Arcanos Maiores fosse significar coisa boa.
— Essa é a carta do passado. — Apolo explicou. — A Imperatriz está muito ligada a novos começos e maternidade. Pode ser um nascimento de alguém ou um novo caminho na vida.
De repente, um pensamento terrível passou pela mente de Charles. Ele sentiu a garganta fechar e olhou para a mesa, aterrorizado. Ok. Podia ser um novo caminho na vida. Não queria dizer nada. Não queria dizer…
— Charles? — Santiago chamou, colocando a mão no ombro do amigo.
— Eu… — o caçador engoliu em seco. — Letitia… Bem… Ela é praticamente mãe. Se tornou, anos atrás… Quando Margarida morreu. Letitia é como se fosse a mãe de Rosa. Minha Rosa. Ela… Ela não pode estar envolvida nisso. Ela não está, certo?
O vurgon continuou em silêncio. Charles sentiu lágrimas subirem aos olhos e as enxugou, respirando fundo, tentando se acalmar. Tarô não era um livro de respostas. Apolo tinha acabado de falar. Podia talvez não querer dizer nada. Podia ser metafórico. Podia ser sobre a mãe de Letitia, que já se fora há tanto tempo. Não tinha que ser sua Rosa. Não tinha.
— A loba em meu sonho tinha acabado de dar a luz. — Letitia comentou. — Deve ser sobre isso, Charles.
— A loba morreu no parto? Como Margarida?
Letitia não respondeu. Charles sentiu sua mão começar a tremer. Precisava de seu narguilé agora. Precisava sair dali, precisava…
— Charles, por favor, respire fundo se quiser ver o resto da leitura. Está com uma energia muito negativa. — Apolo comentou. — Eu entendo, mas…
— Sim, sim. Sim, estou bem. Estou bem…
Charles respirou fundo uma vez, duas… Mantenha a calma, ele pensou. Não é um livro de respostas. É subjetivo.
Apolo abriu a segunda carta.
— Essa é a carta do presente, nove de espadas. Você disse que estava tendo pesadelos, então faz sentido. A carta representa a mente atormentada por pesadelos ou medos.
Os pesadelos que Letitia só conseguia driblar com a presença de Rosa em sua cabana.
Charles fechou os olhos e respirou fundo. Subjetivo. Era subjetivo. Tinha que manter a calma.
Apolo abriu a terceira.
— Essa é a carta de influências secretas. O três de paus se refere a processos criativos, projetos sendo executados, novas ideias…
Charles passou a mão nos cabelos. Um plano em formação relacionado à sua filha?
— Me passou pela cabeça que essa alteração na névoa pudessem ser influências externas. — Santiago comentou. — Mas como alguém está fazendo isso escapa minha compreensão. Charles, é melhor você se sentar, está ficando branco.
Santiago puxou uma pilha de almofadas para perto e Charles se sentou, aceitando a ajuda do amigo.
Ele olhou para Apolo, e o ruivo o fitava com um ar de preocupação.
— Tem certeza que quer ficar aqui? — Apolo perguntou.
— Se tiver a ver com Rosa, tenho que ouvir até o fim. Continue.
Apolo abriu a próxima carta. Era um ás de espadas.
— Essa é a carta do consulente. A sua, Letitia. O ás de espadas se refere à mudança inevitável. Pode estar alinhada ao crescimento pessoal. E como está de cabeça para baixo, assumo que você esteja resistindo a essa mudança. Por quê?
Charles viu Letitia se calar e olhar para o chão por alguns instantes. Ele sabia a resposta. Todos os três ali conheciam Letitia o bastante para saber. Ela odiava e temia mudanças. E nas atuais circunstâncias ela provavelmente estava com medo de ter que tomar alguma atitude que ia contra seus princípios… e de mudar com isso.
— Continue, Apolo. — ela pediu.
Ele virou a quinta carta. Charles viu Apolo hesitar e ele próprio sentiu um aperto ao ver que se tratava do segundo Arcano Maior da leitura.
— Esse é o Enforcado… Essa posição é sobre a atitude de outras pessoas, e a carta está ligada a sacrifício, altruísmo e adaptação a mudanças. Provavelmente às mudanças que você está resistindo.
— Se a carta for sobre quem está causando essas mudanças é de se entender a facilidade dela a se adaptar. — Santiago comentou.
— Claro. — Charles respondeu, passando a mãos nos cabelos de novo. Tinha essa mania e estava muito nervoso agora. — A mudança que inclui minha filha entregue aos lobos.
— Nós não sabemos isso, Charles. — Letitia murmurou.
Charles viu a ansiedade na líder para ir até ele e o acalmar, mas ela continuou sentada. Tinha que terminar a leitura.
Apolo abriu outra carta. Era a Justiça, e o terceiro Arcano Maior da leitura.
Não. Isso só podia ser uma brincadeira de péssimo gosto. Só podia…
— Essa é a carta sobre o que você deve fazer. A Justiça pede por clareza de mente e julgamento imparcial. Você tem estado muito nervosa sobre o assunto, não é?
Ela concordou em silêncio. Apolo prosseguiu.
— Isso pode nublar seu julgamento. Nós sabemos o quanto você é uma boa pessoa, Letitia, mas o que quer que esteja acontecendo agora pede que você seja um pouco mais racional, ok?
A líder parecia bem desconfortável agora. E seguindo a isso Apolo abriu a última carta da leitura.
Charles terminou de empalidecer e se levantou de uma vez. Apolo levantou a mão para ele, e Santiago segurou o amigo pelo pulso.
— Charles, calma… — Santiago pediu.
— A carta da Morte não significa "morte", Charles. Por favor se acalme.
— O que significa então? — Charles perguntou, ainda de pé.
— Mudança. Uma mudança forte e significativa. E considerando tudo que tem acontecido, mudança é inevitável. Eu esperava que essa carta aparecesse agora. Essa é a posição do futuro. O que quer que esteja acontecendo vai mudar o mundo como o conhecemos. Mas eu já sabia disso. E vocês também.
Charles respirou fundo e Santiago o soltou. Não significava morte. A leitura tinha quatro Arcanos Maiores, mas também não era novidade que estavam passando por tempos difíceis, especialmente para a líder de um clã. Não dava para ter certeza nem de que sua filha estava envolvida. Tinha que manter a calma. Era tão bom nisso. Em se acalmar. Em se focar. Droga, precisava era de seu narguilé, isso sim. E de sua filha onde ele podia a vigiar.
— Obrigada, Apolo. — Letitia agradeceu, olhando para as cartas e ainda bem pensativa.
— Espero que tenha lhe ajudado.
Ela não respondeu. Charles estava sentindo o estômago embrulhar.
— Letitia, eu vou levar Rosa para o meu vurgon. Não me leve à mal mas… Eu não a quero perto de você por agora.
— Eu também não. — ela respondeu. — Leve.
Foi o bastante para que Charles deixasse o vurgon. Ele nem se lembrou de que tinha flertado com Apolo, não ligava. Só queria achar sua filha. Ele correu pelo acampamento, vendo as famílias começando a recolher as coisas para seguir viagem depois do café-da-manhã, e sentiu um alívio em seu peito ao achar a filha sentada na beira da estrada tecendo flores em uma coroa.
— Rosa! — ele correu até a garota e se sentou ao lado dela, a abraçando o mais forte que pode. — Rosa…
— O que foi, papai? Tá apertando muito, vai estragar minhas flores…
Ele soltou um pouco e olhou bem para o rosto da filha. Tudo bem. Ela estava bem. Viva, inteira e saudável. Ótima.
— Você vai ter que voltar pro vurgon do papai, tá?
— Mas…
— Rosa, querida, não é um pedido. É só enquanto Letitia, eu e uns amigos cuidamos de uns assuntos. Depois você pode voltar.
Ela parecia bem desapontada. Charles odiava ver sua filha triste. A criava para ser tão livre quanto qualquer Flores, livre como o vento, para correr por onde quisesse. Nunca em sua vida precisara restringí-la. E agora…
— Eu posso mesmo voltar depois?
— Claro que pode. Eu juro. — ele respondeu, beijando a testa da menina.
Então Charles a abraçou, vendo Letitia, Santiago e Apolo ao fundo, ajudando a levantar acampamento.
Não sua Rosa. Não queria saber o que teria que fazer, mas não ia deixar nada acontecer com sua filha. Perdera a mãe dela. Faria de tudo para que não a perdesse também.
