Mamãe, acabei de matar um homem
Coloquei uma arma contra sua cabeça
Puxei o gatilho, agora ele está morto
Mamãe, a vida tinha acabado de começar
Mas agora eu joguei tudo isso fora
Mamãe!
Não foi minha intenção te fazer chorar
Se eu não estiver de volta a esta hora amanhã
Continue, continue
Como se nada realmente importasse
Bohemian Rhapsody — Queen
Hunedoara, Império Austríaco
05 de Outubro de 1818
Quando Nicoleta ouviu que Vlad tinha voltado de sua viagem pela Europa sem falar com ela todo o nervosismo que vinha sentindo ultimamente ficou à flor da pele. Se esse fosse o único deslize ela teria até sido capaz de esquecer, mas ao passar por um dos corredores do castelo ela rapidamente percebeu que aquele não era seu dia de sorte.
Nico ouviu alguns suspiros e gemidos saindo de trás de uma das portas de um armário de vassouras do castelo e, contendo a vontade de xingar, ela escancarou a porta. Como imaginado, ela deu de cara com Vlad e Narcissa no meio do que parecia uma transa não muito confortável, mas nem por isso, menos divertida.
— Ah. Nico! — ele comentou, como se não estivesse com as mãos debaixo da saia de Cissa.
— "Ah, Nico"? Sério? — Nicoleta resmungou, cruzando os braços. — Estou atrapalhando algo?
— Não, na verdade. Acabamos de terminar. — ele respondeu, soltando Cissa.
O casal ajeitou as roupas sem muita pressa e saiu do armário apertado, Vlad derrubando algumas das vassouras no processo. Cissa ainda estava ajeitando várias mechas de cabelo atrapalhadas, mas Vlad estava perfeitamente apresentável, e a única coisa que fez foi apertar um pouco o rabo de cavalo baixo que usava.
— O que aconteceu? — ele perguntou.
— Mamãe quer nos ver.
— Nós? — Cissa perguntou.
— Não. Nós. — Nico apontou para ela mesma e Vlad.
Cissa franziu a testa, e Nico conseguia ver as engrenagens girando na cabeça dela para adivinhar o tópico da conversa. Eventualmente a mulher desistiu, deu de ombros, e foi embora pelo corredor. Nico chamou Vlad com um gesto da cabeça e os dois foram se encaminhando para a sala dos pais dela.
Nico, ao contrário de Vlad, tinha uma boa ideia do que seria o tópico da conversa, e talvez por isso estivesse tão estressada. Ela conseguiu sentir o olhar analítico de Vlad sobre ela, mas fingiu não ter visto, e o caminho foi feito em silêncio. Nico abriu a porta do escritório de seus pais sem cerimônia nenhuma e entrou com a mesma atitude irritada que vinha tendo pelos últimos dias. Ela viu Vlad esbarrar em um vaso e segurá-lo a poucos segundos de se espatifar no chão e soltou um muxoxo de frustração.
— Imagino que saiba porque os chamei aqui, Nico. — a mãe dela comentou.
— Tenho uma boa ideia. A resposta é não.
— Receio que não seja uma escolha. — Cornelia tirou os óculos e os colocou em cima da mesa, cruzando as mãos. — Você como líder dos Van Helsing tem que aceitar fazer as coisas que são melhores para o clã, mesmo que não seja a sua vontade.
— Ah, licença. — Vlad comentou, acenando para as duas. — Eu ainda não sei o que é que eu estou fazendo aqui.
— Mamãe quer que eu me case com você.
Vlad olhou para Nico, e então para Cornelia, e de volta para Nico. A líder praticamente conseguiu ouvir a gargalhada de Vlad antes que ele risse, e quando aconteceu, Cornelia parecia incrédula com o fato de que o caçador estava rindo em sua cara.
— Até parece! Sem chance!
Ele ainda riu por um tempo considerável até perceber que estava rindo sozinho e que a conversa era séria. Nico ficou aliviada embora não fosse uma surpresa ver que Vlad não estava muito mais empolgado com a ideia que ela. Pois bem então, se nenhum dos dois queria, seria muito difícil, senão impossível, Cornelia conseguir executar seu plano.
— Você não pode estar falando sério! Não, não, sem chance!
— Senhor Van Helsing…
— Nem pensar! Eu, casado? Eu lá tenho cara de quem quer isso pra vida? Você quer isso pra sua filha tudo bem, isso é problema seus! Eu não tenho nada a ver!
Nico tentou não parecer ofendida com a resposta tão desconsiderada a ela, mas ainda era possível ver o canto do lábio dela tremendo de desconforto. O detalhe não passou despercebido a Cornelia, e Nico notou isso ao ver o olhar dela cerrar ao notar o detalhe.
— Nós imaginamos, senhor Van Helsing, que dada a natureza do seu relacionamento com minha filha a união seria mais agradável. Vocês tem um caso, não tem?
Vlad abriu a boca, mas não respondeu. As coisas não eram assim tão simples, afinal de contas. Não era como se os dois simplesmente "tivessem um caso", mas não dava para explicar sem acabar envolvendo Cissa na confusão. Ele não queria isso. Nico também não.
— Eu não quero me casar com a senhorita Van Helsing. E, se ela também não quer, acho um atraso que fique tentando forçá-la a isso.
— Você não tinha acabado de falar que era problema nosso? — Nico perguntou, com um sorriso pequeno no rosto.
Claramente Vlad tinha falado aquilo da boca pra fora. Ele se importava, nem que fosse só um pouco.
— Bem, de um jeito ou de outro… — ele ajeitou o cabelo meio nervoso. — Eu estava viajando, vocês sabem. Esbarrei com um Flores na viagem, literalmente, um cara tatuado com cheiro de mar, e ele disse que eles estão com problemas sérios. Então… Não sei, tem problemas mesmo acontecendo, a gente não devia priorizar isso agora?
E então, de repente, o rosto de Nico se iluminou. Vlad podia estar muito longe de ser inteligente, mas ele costumava pensar com o músculo na maioria das vezes, e esse era um dos poucos casos nos quais isso era algo bem vindo.
— Sim! — Nico respondeu, com um sorriso enorme. — Mamãe, Vlad tem razão! Estamos com problemas muito, muito sérios ultimamente. Essa repentina insurgência de vampiros para todos os lados… Não parece que devamos desviar recursos do clã para algo como isso agora. Especialmente levando em conta aquele roubo horrendo que sofremos algum tempo atrás… O dinheiro que nos sobrou devia ser focado no trabalho, não em uma festa de casamento para a sociedade.
— Exato. — Vlad concordou.
Nico sabia que ele só tinha entendido metade do raciocínio, mas não ligava pra isso agora. Cornelia levantou uma sobrancelha. Parecia desagradada, mas de certa forma, admirada com a linha de raciocínio da filha.
— O que você sugere?
— Não sugiro nada, mamãe. Eu sou a líder dos Van Helsing e estou dizendo que todos os custos do clã a partir de agora estão suspensos com qualquer tipo de frivolidade exacerbada como festas de noivado ou casamento até que esse problema com a névoa e os monstros seja resolvido.
— Ah, sim… Você tem razão. — Cornelia respondeu, se levantando e dando a volta na mesa.
Nico travou. Tinha a impressão de que aquilo ia acabar voltando para ela. Agora.
— Mas então — a mais velha continuou. — Acho que nós duas concordamos que medidas devem ser tomadas para que esse problema seja resolvido. E cabe a nós, como bons membros do clã de caçadores de vampiros, resolver o enigma, independente da… recompensa. Não acha?
A caçadora abriu um sorriso irônico. Podia ser boa em manipular as pessoas, mas aprendera isso com a mãe, e Cornelia ainda era melhor em devolver as palavras de alguém contra quem as tinha falado.
— Com certeza, mamãe.
— Ótimo. Vamos deixar os planos do casamento de lado, então. Podem ir.
Nico conteve a vontade de soltar um grunhido de ódio e saiu do escritório. Demorou algum tempo para que ela ouvisse os passos de Vlad atrás dela, e logo ele a seguia em direção ao quarto de Octavian.
— O que foi isso? — Vlad perguntou.
— Isso fui eu me comprometendo a investigar o problema dos vampiros, nem que seja de graça, pra adiar o casamento. Merda, odeio trabalhar de graça.
Nenhum Van Helsing gostava, de forma geral, mas tinham os que achavam caçar divertido o bastante para fazer por hobbie de vez em quando. Era nisso que ela estava contando agora.
A líder bateu na porta do quarto do irmão. Ela precisou insistir algumas vezes, mas Tavvy atendeu, com a expressão bem irritada por ter sido interrompido fazendo alguma coisa. Com uma espiada por cima do ombro dele, Nico percebeu que ele estivera lustrando a foice. Às vezes Nico achava que ele amava aquela coisa mais que a si mesmo.
— O que é?
— Preciso que você faça uma coisa. Está a fim de bater em uns vampiros?
Tavvy olhou para Vlad, como se perguntando o que ele estava fazendo ali. Ele torceu o nariz em desgosto e se virou para irmã. Nico já estava acostumada a ver Tavvy ignorando qualquer um na presença dela. Aquilo não era novidade.
— Sempre a fim.
— É pro-bono.
— Menos a fim. Mas ainda dá pra fazer. Por que isso agora? Não é você que sempre diz que a gente não deve caçar serviço se não for pra ganhar com isso?
— Mamãe vai dar uma recuada na história do casamento se estivermos ocupados demais caçando e resolvendo esse problema. Então preciso de um ponto de partida. Achei que ia ser mais divertido pra você do que pra mim.
Tavvy olhou para Vlad de novo, e pareceu finalmente perceber porque ele estava ali.
— Ela quer que você case com isso?
— Tavvy…
— Pelo menos — Vlad interferiu. — eu estou sendo cotado para o assunto, já que ao contrário de alguém eu no muito mínimo sirvo para fuder.
Nico viu a mão de Tavvy voando para o pescoço de Vlad e por muito pouco conseguiu se colocar no meio dos dois.
— Vlad, vai pro quarto.
— O meu ou o de alguma das minhas duas namoradas?
— EU TE MATO SEU IMPRESTÁVEL! — Tavvy começou a tentar empurrar Nico, e Vlad começou a rir, abrindo os braços, provocando Tavvy para ir para cima dele.
— JÁ CHEGA, PAREM COM ISSO OS DOIS! Vlad, vai, AGORA. Vai pro da Cissa.
— Como quiser, futura esposa.
Vlad terminou com um aceno para Tavvy, e saiu pelo corredor.
Nico ainda teve que esperar Tavvy parar de se contorcer antes de o soltar, e o rapaz respirou fundo, ajeitando o cabelo e se apoiando no batente da porta.
— Do que você precisa?
— De um prisioneiro. Um que você possa capturar sem ordem da igreja, para que não precisemos entregar para eles. Então você trás a coisa para cá e nós tentamos extrair alguma coisa dele.
— Então… Trazer vivo? Pff… Que falta de graça. Mas posso fazer.
— Obrigada Tavvy. Pegue o que precisar na sala de armas. E cuidado. Leve alguém com você, pode ser perigoso…
— Alguém tipo o seu amado noivinho? Não, eu me viro.
— Tavvy…
— Eu já disse que me viro. Agora dá licença, tenho uma mala pra fazer.
E o Van Helsing fechou a porta.
Nico respirou fundo. Não merecia esse estresse todo, tinha certeza de que não.
Era melhor descansar um pouco.
A líder voltou pelo corredor, agora pegando o caminho em direção ao quarto de Cissa. Ela abriu a porta e encontrou Vlad e Cissa na cama, conversando sobre algo e se empanturrando de frutas em uma bandeja de comida.
Ah, comida seria bom agora. Muito bom. Nico fechou a porta, atraindo a atenção dos dois, tirou os sapatos e se juntou a eles na cama.
— Você não parece bem. — Cissa comentou.
— Não, não pareço, porque não estou. O mundo definitivamente me odeia.
— Não seja tão dramática Nico. — a caçadora respondeu, fazendo um carinho no rosto da líder.
— Cissa tem razão. Você precisa relaxar um pouco. — Vlad pegou a bandeja de comida, a tirando da cama, e se deitou, chamando Nico com a mão. — Esquece isso tudo um pouco. Passa um tempinho com a gente.
A líder abriu um sorriso, olhando para Vlad, seu namorado, e Cissa, sua namorada, se é que poderia se referir a eles assim. Podia ser um pouco confuso para quem tentasse entender os três, mas para eles, era claro como água, e isso era o suficiente, certo?
— Ok. Vocês tem razão. Eu já coloquei Tavvy no serviço então até ele voltar… Bem, só me resta esperar, não é?
— Exato. — Cissa respondeu, seus dedos encontrando os botões do vestido de Nico nas costas dela. — Você está me devendo por aquela vez.
