Eu me afastei para enfrentar a dor
Eu fecho meus olhos e me afasto
Do medo de que eu nunca encontrarei uma maneira
De curar minha alma
E eu vagarei até o fim dos tempos
Dilacerada longe de você
Meu coração está partido
Durma docemente, meu anjo negro
My Heart Is Broken — Evanescence
Roma, Estados Papais
06 de Outubro de 1818
Pietra piscou os olhos algumas vezes. Estava perdendo o foco. Já tinha lido a mesma frase umas três vezes e ainda não fazia ideia do que ela queria dizer.
A caçadora suspirou e fechou o livro com um barulho alto que atraiu a atenção dos outros três caçadores à sua mesa.
— O que está lendo aí, Bianca? — ela perguntou.
Depois de tantos dias juntos, Pietra perdera a pouca paciência que tinha pelas convenções sociais e não estava se dando ao trabalho de chamar ninguém mais pelo sobrenome. Ou de fingir que tinha educação. Ou de falar de forma apresentável. Ou de não colocar os pés pra cima da mesa.
Basicamente, perdera a paciência com qualquer coisa que ela tivesse que se lembrar de fazer, e vinha se mostrando em sua forma mais natural ultimamente. Tinha deixado Lorenzo louco nos primeiros dias, mas agora mesmo ele estava frustrado demais para notar, e se a pilha de livros na mesa deles era indicação de alguma coisa era de que a frustração ia continuar por algum tempo.
— Estou tentando ler um registro migratório do leste europeu. Está em grego, e eu não falo grego, então… Vem levado bastante tempo traduzir isso aqui.
Pietra esticou a cabeça, viu um dicionário de grego e italiano aberto ao lado de Bianca e suspirou.
— Francesca?
— Histórico de mortes do século dezessete na cidade.
— Lorenzo?
— Ainda estou preso nos símbolos. Vários deles não se repetem da garota para as paredes. Acho que o conjunto todo se completa de alguma forma, mas…
Mas não conseguia descobrir como. Excelente. Estavam todos presos em uma enorme perda de tempo.
Pietra suspirou e se levantou, pegando uma pilha de livros da mesa. Precisava desanuviar a cabeça um pouco, e andar era uma forma boa de fazer isso, nem que fosse só andar o suficiente para guardar alguns livros em excesso.
O pior de tudo, ela pensou, enfiando alguns livros em seus lugares nas prateleiras, era a sensação de estar procurando uma agulha em um palheiro. Como iam fazer para encontrar uma mulher, que poderia ser qualquer pessoa, de qualquer parte do mundo, e ter qualquer relação com o cortiço que estava assombrando?
— Isso é estupidez. Tem que ter outro jeito de lidar com isso.
Ela deixou a pilha de livros em uma mesa próxima e voltou a caminhar pelas estantes.
Registros imigratórios… Não, Bianca já estava agarrada com esses. Atestados de óbito? Francesca estava cuidando deles de forma retroativa, e parecia um trabalho muito extenso e monótono para Pietra fazer. Lorenzo estava preso na simbologia, certo de que aquela confusão sem sentido daria respostas para eles.
— O que é que eu vou…
Pietra parou a frase no meio. Seu olhar, antes vagando entre as estantes, tinha sido chamado a atenção por um livro grosso e enfiado quase que de qualquer jeito em uma das estantes. Surpresa, Pietra percebeu que tinha vindo parar na "Seção Vermelha" da biblioteca dos Da Vinci, o que era um conjunto de três ou quatro estantes que guardavam uma história sangrenta da igreja que a maioria do clã decidia fingir que não existia.
Maioria, no caso, não a incluía. Lorenzo e Bianca eram mais apegados a suas crenças, mas Pietra e Francesca já tinham tido boas conversas sobre como várias coisas da igreja estavam exorbitantemente erradas. Sabiam que os dois concordavam com elas em parte, mas elas pareciam ser mais… revolucionárias.
E, Pietra sentiu, era disso que precisavam agora. A igreja era orgulhosa demais para admitir seus erros, para considerar que algo de ruim poderia vir do que tinham feito no passado. Mas essa poderia ser exatamente a ocasião. Aqueles livros não estavam ali à toa. Por mais que estivessem escondidos e ignorados, em casos extremos e desesperados, o clã sabia que era a isso que tinham que recorrer.
— Eu diria que estamos desesperados, certo? — ela murmurou, tirando o livro da estante e começando a folheá-lo no caminho de volta até a mesa onde o clã estava.
Uma pequena parte de Pietra, bem menor do que a do restante de seus colegas de caçada, estava torcendo para que o que ela procurava não estivesse lá. Talvez por ser uma parte tão pequena, ela não se sentiu tão transtornada quando, já quase na mesa, virou uma página do livro e viu uma grande ilustração da mesma mulher da pintura que tinham encontrado.
— Uh-oh…
Pietra levantou o rosto para a mesa e o trio a encarou.
— O que é "Uh-oh", Senhorita Da Vinci? — Lorenzo questionou, colocando sua caneta-tinteiro de lado.
— Aaaanh… Eu a encontrei. — ela virou o livro para a mesa, mostrando a foto da mulher para os três. — É ela, não é?
Um breve silêncio se fez na mesa enquanto os caçadores olhavam a imagem no livro, a comparando com a pintura que tinham sobre a mesa, e então Lorenzo se levantou de uma vez, seguido pelas garotas.
— Que livro é esse?
— Quem é ela?
— Onde achou isso?
— Ok, uma coisa de cada vez. Lorenzo, eu peguei o livro na Seção Vermelha.
O líder soltou um palavrão que fez as três olharem incrédulas para ele. Não era nada comum de Lorenzo dizer palavrões, menos ainda dentro da Capela Sistina, e menos ainda na frente de moças.
— Bianca… Esse é um registro de Inquisição. — Pietra virou a capa para o trio. — É focado em mulheres condenadas pela igreja por bruxaria. Bem, quer dizer, nós quatro estávamos pensando nisso, não estávamos? Era só questão de um de nós ter a coragem de procurar e alguém aqui nessa mesa pode ser bem protetor quanto à santidade de sua sagrada igreja católica.
Pietra viu o quanto Lorenzo estava preocupado quando ele ignorou, por completo, sua alfinetada.
— Nome. — Lorenzo pediu. — Eu quero o nome.
Ela esticou o livro para Lorenzo.
— Uma tal de Mina Murray… Acho que o nome devia significar algo, mas…
Pietra parou de falar quando viu que Lorenzo tinha se sentado de novo, com o livro nas mãos, branco como papel e o encarando sem realmente ler.
— Enzo? — Francesca chamou, puxando uma cadeira para perto dele.
Pietra e Bianca se olharam. Ele não parecia bem. Não que Pietra se importasse, mas se o líder do clã desse um ataque do coração ou algo do tipo na presença dela e morresse as coisas ficariam bem problemáticas.
Francesca ainda chamava o primo, mas eventualmente Pietra se cansou, pegou uma pilha de três livros pesados e largou na mesa bem ao lado dele.
O baque foi o bastante para chamar a atenção de pelo menos três grupos de caçadores próximos, mas Pietra não se preocupou com isso. Ela cruzou os braços e levantou uma sobrancelha.
— Começa a falar, coroinha.
— Não tem o que falar. — ele respondeu, coçando a garganta em um pigarro seco e se levantando. — É isso. Fim da investigação.
Ele recolheu o livro, o casaco e a boina e chegou a dar uns dois passos antes que Pietra se colocasse na frente dele.
— Onde acha que está indo?
— Lá vamos nós… — Bianca sussurrou. — Ei, maturidade? Senhor e senhorita Da Vinci?
— Etra — Pietra rangiu os dentes. Sabia que Lorenzo estava a chamando por aquele apelido por saber que ela odiava. — Saia da minha frente.
— Quem achou o livro que você está segurando fui eu. Você acha o que, que vai levar a minha descoberta pra algum lugar e me tirar da investigação?!
— É EXATAMENTE o que eu vou fazer, Pietra Da Vinci, agora saia do meu caminho!
Pietra sentiu o sangue ferver. Lorenzo podia ser brilhante o quanto fosse, continuava sempre o mesmo turrão egoísta de sempre. Ele deu um passo, disposto a passar por cima dela, mas Pietra se manteve firme onde estava e o empurrou de volta, esticando a mão para o livro.
— Me dê esse livro, Lorenzo.
— Eu já disse que acabou! — ele respondeu, puxando de volta.
— Eu não acredito… — Bianca comentou com Francesca. — Eles parecem que tem cinco anos de idade, olha isso!
— ENZO! — Francesca chamou, indo até os dois e puxando o livro de uma vez. — Você não vai tirar a gente disso agora! Quem é Mina Murray? O que está acontecendo?
— Cesca…
— Você me deve um favor! — ela largou o livro sobre a mesa.
— Aquilo? — Pietra viu a famosa sobrancelha franzida de Lorenzo. Aquela que aparecia quando ele estava se sentindo traído. — Aquilo não merece isso.
— Nós não combinamos termos no acordo. Você me deve um favor, ponto.
— Você vai usar aquilo contra mim?
Se Pietra admirava alguma coisa em Francesca era a forma como ela se manteve firme como uma rocha. Sabia que as duas tinham isso em comum, mas a diferença era que, ao contrário dela, Cesca era digna de muito mais atenção. Não era como se desse para culpar Lorenzo por isso. Os dois eram como irmãos, afinal de contas. Era normal que ela exercesse mais poder sobre ele…
Ou ao menos Pietra imaginava que fosse, ela mesma não tendo tido irmãos e já tendo perdido os pais à muito tempo.
— Como eu disse — Pietra comentou, indo para o lado de Francesca. Bianca também se aproximou, e as três o cercaram contra a mesa. — comece a falar.
Ele suspirou e deitou o rosto nas mãos.
— Última chance. Seguir esse caso, vai matar um de nós. Um de nós vai morrer se nos enfiarmos nisso, vocês estão entendendo?
Pietra engoliu em seco. Ela sentiu uma leve hesitação nas meninas, bem como ela mesma hesitou por um instante, e fez um esforço para não olhar para elas. Sabia o que queria. As três sabiam. Não podiam deixar Lorenzo intimidá-las para longe de suas responsabilidades.
— Ha, quem diria. — Pietra respondeu, com o sarcasmo e a acidez típicos dela. — Dizendo assim parece até que está preocupado com a gente.
E para a surpresa dela, Lorenzo levantou o rosto e olhou para as três, e ficou visível na expressão dele que, sim, ele estava.
Não era piada. Ele realmente acreditava que era perigoso àquele ponto.
— Nós sabíamos dos riscos quando nos juntamos ao clã, Enzo.
— Pietra só veio por causa da hospedagem e da comida. Ela não tem que morrer por causa disso.
Bem, isso era verdade, Pietra pensou. Mas ela estava curiosa, e curiosidade sempre tinha sido um de seus maiores defeitos.
— Fale. — Bianca pediu por fim, e Lorenzo se recostou na cadeira, se dando por vencido.
— Tudo bem. Mas eu avisei. — ele soltou um suspiro, e começou. — No século quinze, Valáquia foi, por um tempo, comandada por Vlad III. Vlad era filho de Vlad II Dracul, um conde que trabalhou para a Ordem Cristã Draconiana como Cavaleiro Cristão. Por isso o sobrenome, Dracul, e, seguindo o patronímico, se considerarmos o título de "Empalador" que Vlad III levava traduzido para "Tepes" em romeno, estamos falando aqui de Vlad III Tepes, também conhecido como Conde Dracula.
— Certo. E? — Pietra perguntou. — Eu conheço essa história. Ele foi morto em guerra, algo do tipo.
Lorenzo negou com a cabeça.
— Tem muito além disso. A igreja acobertou a história de verdade, apenas alguns integrantes do clero e uns outros servientes por fora tem o direito de saber do que aconteceu de verdade. O líder dos Da Vinci é um deles. Contando isso pra vocês eu estou colocando meu emprego em risco, inclusive. Seria bom se ninguém soubesse dessa nossa conversa.
Por mais que a ideia de ver Lorenzo em apuros fosse palatável para Pietra, era uma coisa provocar ele o dia inteiro, e outra bem diferente que ele perdesse o emprego. Ela sabia tanto quanto qualquer outro o quanto Lorenzo era competente e merecera seu lugar. Seria uma perda séria para os Da Vinci se ele fosse embora. Ela até o admirava, até certo ponto, embora claramente não fosse admitir isso em voz alta.
— Ninguém vai saber. — Pietra comentou. Sabia que se Lorenzo ouvisse dela ele ia acreditar melhor. — Como Mina Murray se encaixa nisso tudo?
— Vlad a conheceu em Valáquia e se apaixonou por ela. Ela estava prometida para outro nobre, Jonathan Harker, mas o noivado dos dois não estava indo muito bem. Harker era contra algumas das práticas de Murray, visto que ela tinha se juntado a um clã de bruxas eslovenas e não estava a fim de largar seus costumes. A família de Murray tinha arrumado o noivado justamente esperando que isso fosse endireitá-la na vida, ou qualquer que fosse a desculpa deles para que uma mulher não pudesse perseguir estudos da ciência.
— Uau, cuidado Lorenzo. — Pietra riu. — Falando assim posso acabar pensando que você acha que mulheres podem ser cientistas.
O líder deu de ombros e Pietra se sentiu subitamente desconfortável. Ele achava mesmo? Que raio de faceta era essa que estava vendo dele? Desde quando ele tinha algum ideal igualitário no sangue?
— Não é porque eu desconsidero algumas damas para a minha vida pessoal que isso signifique que elas não podem fazer o que quiserem com a vida pessoal delas, senhorita Da Vinci. Eu jamais teria te recrutado se tivesse esse tipo de pensamento. Você é quase um grito de tanto que se destaca das damas da sociedade. E não digo isso de forma boa.
— Claro que não. Por que você me elogiaria de qualquer forma, não é mesmo?
— Ok. — Bianca cortou. — De volta à história, por favor.
Pietra viu Lorenzo a olhar de forma estranha, como se estivesse ditando uma resposta inteira mentalmente que não chegou a proferir em voz alta. Então ele virou o olhar para o grupo e continou.
— Como Vlad era rei e Cavaleiro Cristão, os pais de Murray o consideraram um excelente partido e autorizaram que ela desmanchasse o noivado com Harker para se casar com ele. Quando fizeram isso não sabiam que Vlad era um progressista, e que endossava a perseguição à prática da ciência. Quando os dois se casaram, Mina Tepes, como ficou seu novo nome de casada, teve toda a liberdade para fazer o que bem quisesse em seu ramo científico.
— Ah… É uma história bonita. — Cesca comentou. — Onde está o problema?
— Vlad é o problema. Anos lutando na Reconquista não fizeram bem para o cérebro dele. Ele enlouqueceu. Se tornou cada vez mais sanguinário em suas batalhas. Começou a empalar seus inimigos no próprio jardim de seu castelo. Mina, em vez de procurar ajuda, acreditava que seu marido estava fazendo o que era certo e por todo o tempo se manteve fiel ao lado dele. Eventualmente, nessa época, a "névoa" como os Flores chamam começou a se manifestar de forma mais intensa, e os primeiros fantasmas, lobisomens e zumbis foram aparecendo. A igreja não tem registro sobre qual foi o primeiro de nenhum deles, tudo aconteceu muito rápido e demorou um tempo para os padres entenderem que possessões demoníacas e fantasmagóricas eram a mesma coisa. Mas o primeiro vampiro todo mundo lembra quem foi, porque foi a maior dor de cabeça da época.
— Dracula… — Bianca sussurrou.
— Sim. Ele saiu de controle. A névoa tomou conta dele e a igreja não conseguia mais o refrear. Ele começou a guardar o sangue dos mortos empalados para beber no jantar. Mina nunca considerou nada disso como errado, afinal, o que quer que ela queria fazer da vida, Vlad permitia, e ela tinha a certeza de que nunca encontraria um homem que fosse ser tão liberal quanto ele. Eventualmente a igreja enviou clérigos para a casa dele para revogar o título de Cavaleiro Cristão dele, mas ele os matou. E matou os outros que foram enviados para excomunga-lo, e os enviados para dissolver o casamento dele. É por isso que Mina está registrada nesse livro com seu nome de solteira. A igreja não mais considera o casamento dos dois.
— Como ele foi parado? — Pietra questionou, cruzando os braços.
Agora estava começando a ver porque Lorenzo tinha se assustado tanto. Era uma história antiga. Uma mágoa antiga. Algo relacionado ao surgimentos dos primeiros monstros.
— A igreja desistiu de brincar de gato e rato e contratou um cientista que utilizava de religião em seus métodos, Abraham Van Helsing. Ele pareceu a escolha ideal para que a igreja não estivesse se voltando por completo para a ciência, uma vez que parte dos artefatos de trabalho de Van Helsing incluíam água benta e crucifixos, por exemplo. Eventualmente ele conseguiu completar o trabalho, matando Dracula, e a igreja apreendeu Mina e todos os seus estudos. Ela foi dada a chance de se arrepender de seus "pecados", mas ela declarou, na época, que preferia a morte do que uma vida privada da ciência, pois a ciência era sua alma. Assim a igreja a trouxe para Roma para servir de exemplo e ateou fogo nela em praça pública. Depois disso outros vampiros foram aparecendo, e vez após outra a igreja contratou Van Helsing para resolver. E depois os filhos dele. E depois os netos… E assim o clã Van Helsing surgiu, e é por isso que eles são pagos pela igreja até hoje. É história. Tradição.
— Então… — Cesca comentou. — Estamos caçando a fantasma de uma bruxa eslovena relacionada ao surgimento do primeiro vampiro e à criação de todo um clã de caçadores?
Lorenzo negou com a cabeça.
— Não apenas de um clã. A dor de cabeça que Dracula causou foi o que fez a igreja organizar direito os exorcismos de fantasmas e fundar o clã Da Vinci. Não queriam que os fantasmas saíssem de controle como o primeiro vampiro saiu. Eles escolheram Leonardo Da Vinci como símbolo porque sabiam que exorcistas de fantasmas iam precisar ser inteligentes e estudiosos, mas mais que isso, porque tinham precisado da ciência, ao menos em parte, para derrotar Dracula. Leonardo foi um cientista, um artista, um inventor… Um homem de dezenas de talentos. O homem ideal para se levar como símbolo para uma guerra contra o sobrenatural que ainda não se entendia por completo. Os Frankestein vieram algum tempo depois. Um médico chamado Victor Frankestein, em meio a alguns… experimentos, costurando partes de corpos, percebeu surpreso que uma de suas criaturas se levantou e começou a matar pela cidade afora. Ele julgou isso sua responsabilidade, o matou, e passou o ofício da caça dos zumbis aos seus filhos. Tudo inspirado pelo modelo que os Van Helsing já estavam seguindo.
— Os Flores entram nessa confusão também? — Pietra perguntou, com uma risada de escárnio.
Lorenzo tinha razão. Estavam arrumando um problema muito grande dessa vez.
— Err… Sim… Mas a coisa com eles é diferente. Não sabemos muitos detalhes, uma vez que eles também não sabem por só terem a tradição oral em vez da escrita, mas o primeiro lobisomem que caçaram pensaram se tratar apenas de um lobo solitário. Foi um choque quando o lobo virou uma pessoa depois de terem conseguido acalmar o animal. Eles sempre foram muito ligados aos animais. Decidiram seguir a tradição por empatia.
— Por que você sabe todas essas coisas? — Cesca perguntou. — Como isso tudo não é de conhecimento geral?
— Eu sei disso tudo porque a igreja sabe disso tudo, porque eles documentaram tudo que aconteceu, mas não deixaram ir a público. Eu como líder dos Da Vinci tenho o direito de saber, mas também tenho o direito, como líder, de dividir informação que eu considerar relevante com parceiros de caçada. No caso, vocês. E eu julgo relevante. Acredito que eu possa me safar de problemas com esse argumento, ou nem teria dito nada.
— Você disse que Mina Murray foi queimada… — Bianca comentou.
A caçadora tinha aquela expressão no rosto e Pietra abriu um sorriso pequeno. Sempre que Bianca fazia aquela cara, era porque tinha reparado algo que escapara aos demais. Bianca pegou um mapa de Roma e o abriu, circulando o cortiço com uma caneta.
— Por algum acaso a praça onde ela foi queimada ficava onde agora existe esse cortiço?
Pietra viu no olhar de Lorenzo, antes que ele dissesse algo, que a resposta era sim.
— Bianca, você é um gênio! — ele comentou, olhando o mapa. — É por isso que ela está assombrando lá!
— Os escritos… Por que isso tudo no cortiço? — Pietra perguntou, pensando em voz alta. Ainda haviam pontas a amarrar, mas estavam, finalmente, chegando a algum lugar.
— Talvez ela queira acabar o que estava fazendo quando viva. — Cesca comentou. — Essas anotações podem ser a pesquisa dela. Ela deve ter escrito para não esquecer com o tempo. Fantasmas perdem a memória de sua vida à medida que o tempo passa, então ela precisava escrever…
— E usou as paredes por muito tempo. — Pietra completou. — Até que as pessoas do cortiço perceberam e cobriram tudo, e começaram a se cobrir de crucifixos e todo o resto. Então ela possuiu a garota e terminou o trabalho na pele dela…
— Porque não queria que a gente descobrisse. — Lorenzo completou. — E quase conseguiu. Ela sabia que iam nos chamar. Não podia mais escrever na parede ou íamos ver. Então usou a menina, porque sabia que a mãe dela ia tentar esconder isso de nós.
— Mas ela falhou. Nós descobrimos. — Bianca comentou. — E agora estamos alguns passos à frente dela.
O quarteto se olhou por um instante. Lorenzo ainda parecia nervoso, mas Pietra também estava. Ela viu os rostos, alguns de medo, outros de desespero, de seus colegas de caçada, mas nada daquilo importava agora. Nada daquilo podia importar, não com algo tão sério e perigoso à frente.
— Precisamos descobrir o que ela estava fazendo. Ainda tem algumas perguntas sem resposta. — Pietra comentou. — Mas nós vamos conseguir. E vamos sair os quatro vivos disso, certo? Mina é responsabilidade da igreja. Nós criamos esse monstro. Nós temos que ser aqueles a mandá-la de volta para onde pertence.
