Não sei para onde as luzes estão nos levando
Mas há algo perigoso na noite
E nada vai nos segurar
Baby, isso está ficando sério
Oh, oh, oh-oh, oh, perigoso
Dangerous — David Guetta
Londres, Inglaterra
08 de Outubro de 1818
De todas as coisas que as pessoas costumavam dizer que Lily e Alban tinham em comum, sem dúvidas o vício pelo trabalho era a mais palpável de todas. A caçadora sabia que não precisava ter ficado tanto tempo debruçada sobre aqueles químicos tentando encontrar uma resposta, e que viver um pouco nos últimos dias não iria doer, mas simplesmente não conseguia evitar. Entre suas teorias com Alban, tinha pensado em algumas coisas diferentes e agora não conseguia afastar a sensação de que estava deixando algo escapar.
A caçadora ouviu a porta abrindo e pareceu sair do transe em que estava, analisando amostras de tecido cutâneo em um microscópio. Era Thomas quem tinha chegado, e o caçador deixou uma pasta de papéis sobre a mesa de Lily.
— Aí está. O relatório da autópsia do senhor Clark Finnigan. Pra que quer isso mesmo?
— Aquele — ela apontou para um corpo sobre a mesa atrás dela. — é o senhor Clark Finnigan. Um zumbi capturado há uns cinco meses atrás. Fui eu quem capturou ele. Estou sentindo que estou perdendo algum detalhe, então se você puder dar uma olhada nisso enquanto eu continuo meus estudos aqui seria de grande ajuda.
— Ok… E o que exatamente é para fazer com isso?
Lily suspirou. Se esquecia às vezes de que não adiantava querer falar com os outros como falava com Alban. Existia alguma sincronia entre os dois que o fazia entender os pensamentos dela quando ainda estavam verbalizados pela metade, e o contrário também era verídico. Com as outras pessoas ela tinha que explicar a coisa inteira, o que deveria ser normal, mas não deixava de ser frustrante.
— Vem aqui — ela chamou, mostrando as amostras de tecido para Thomas. — Essa amostra da esquerda é um tecido de um zumbi capturado. O da direita é de um zumbi que acordou depois da captura. — Lily pegou um bisturi e fez um corte em cada, e o da direita se regenerou.
Ela olhou para Thomas. Ele estava horrorizado.
— Isso não deveria ser possível, deveria?
— Estamos lidando com corpos mortos, então…
— Então o quê?
Por Cavendish…
— Os corpos já estão mortos, Thomas. O tecido não vai ficar muito mais vivo se estiver preso no corpo.
Lily viu Thomas revirar os olhos.
— Ah, você jura? Eu quero saber o que raios isso tem a ver com a porcaria do relatório na minha mão. Sem rodeios, de preferência. Meu tempo é precioso.
Ela o encarou como se quisesse lhe dar um tapa, mas simplesmente voltou a atenção para a mesa, pegou um vidrinho e pingou algumas gotas de algo em cada amostra, cortando com o bisturi de novo onde tinha pingado. Dessa vez, nenhuma se regenerou.
— Isso é ácido sulfúrico? O que o Alban disse que jogou naquele corpo?
— Sim. O ácido está cortando o efeito. Não sei porque. Quero uma análise detalhada de um corpo que ainda não levantou de novo pra tentar juntar mais informações, então, por favor.
Lily podia dizer pela expressão no rosto de Thomas que ele ainda não sabia o que ela estava procurando, mas ela não podia culpá-lo por isso. Ela mesma também não sabia. Só queria o máximo de informação que pudesse sobre como as coisas eram antes, quando tudo era normal, e analisar um corpo que não tinha se regenerado depois da captura poderia ser uma forma de conseguir uma referência.
Ela ouviu Thomas suspirar mas não ia tentar explicar mais. Não dava para explicar algo que ela mesma não entendia se a pessoa não tivesse um sexto sentido para entender.
Mas que coisa. Onde estava Alban que não tinha chegado ainda?
Os próximos minutos no laboratório foram do mais absoluto silêncio. Lily conseguia quase sentir no ar o tamanho do tédio de Thomas. Sabia que ele tinha se envolvido nos assuntos do clã mais por influência da família e do legado médico de seu sobrenome, mas não fazia a menor ideia de até onde ele gostava do trabalho e até onde se irritava com ele.
Ela, por outro lado, não poderia estar mais fascinada, mas também intrigada. Sentia que estava presa em um beco enquanto não tivesse mais informações com o que trabalhar. Exatamente por isso, quando a porta se abriu meia hora depois e Aaron entrou acompanhado de Alban, ela sentiu que finalmente ia conseguir sair do lugar no que estava fazendo.
— Finalmente — ela murmurou. — Onde estavam?
— Aaron foi comigo colocar uma correspondência no correio.
— Você não tem um secretário pra isso? — Thomas perguntou, passando algumas páginas do relatório.
— Achei melhor deixar ele quieto na entrada pro caso de Jekyll voltar, então fui fazer o serviço eu mesmo. — O líder tirou as luvas de tecido, guardando-as no bolso. — E então, o que perdi?
— Não muito — Thomas respondeu.
Lily suspirou, passando as mãos pelos cabelos e se levantou. Não adiantava, precisava de mais informações. Ela começou a andar em círculos, e viu Aaron se juntar a Thomas na análise do corpo. Alban, por outro lado, decidiu ir falar com ela.
— Nenhuma alteração na química?
— Não. Não tem matéria prima pra analisar, os corpos estão todos mudando. Aquele senhor Clark Finnigan ali na mesa é minha última chance de estabelecer um grupo de controle, mas…
— ...mas tem alguma coisa te incomodando. Sente que esqueceu algo?
Lily confirmou com a cabeça e se escorou contra a mesa. Quase não tinha dormido nos últimos dias. Estava exausta. Se conseguisse resolver pelo menos isso se sentiria melhor para descansar um pouco mais, mas por ora sua curiosidade estava a mantendo acordada a noite toda.
— Você precisa dormir. — Alban comentou.
— Você também.
Os dois riram baixinho. Ela olhou para Thomas e Aaron, tão próximos um do outro lendo o relatório que chegava quase a ser indecente.
— Olha só pra eles… — ela murmurou, com um tom triste na voz.
Lily não tinha uma grande ânsia de encontrar um amor para sua vida, embora quisesse que isso acontecesse naturalmente algum dia, e talvez por isso ela se sentisse tão afetada pela situação de Thomas e Aaron. A princípio ela tinha pensado que eles estavam só fingindo que não se gostavam de verdade, mas agora que molly houses estavam sendo fechadas e os homens que as frequentavam presos em flagrante, ela sabia que não era isso. Eles tinham medo.
Talvez não fossem falar sobre isso. Talvez nem soubessem isso. Mas ela via, dali de onde estava, como a cabeça de Aaron tinha se inclinado um pouquinho para a esquerda para quase repousar sobre a do outro. Ou como a mão livre de Thomas estava contorcendo os dedos em suas costas, visivelmente se impedindo de abraçar a cintura de Aaron por instinto.
Não era justo. E ainda assim, não havia nada que pudessem fazer.
— Você acha que os estudos são verdade? — Ela ouviu Alban perguntar, e como acontecia entre os dois, ela simplesmente sabia do que ele estava falando, bem como sabia que ele tinha certeza do que estava passando na cabeça dela.
— Pelo que eu os conheço? Não. Ao menos…Espero que não.
— Eu sei… Mas não é isso que me preocupa.
— Você está preocupado com a ação da "névoa" sobre eles? — ela perguntou, colocando ironia na palavra "névoa".
Embora o termo não fosse muito aceito por eles que acreditavam se tratar de um parasita, era o que acabavam usando de forma geral nas conversas quando não sabiam o que falar.
Alban concordou em silêncio. Lily mordeu o lábio, pensativa.
— Não é que eu concorde com os estudos. Eu não quero achar que eles são doidos e eu acho bem estúpido que tenham tornado os sentimentos deles um crime. Porém, a névoa tem se tornado muito… imprevisível. Não é por isso que temos zumbis capturados se levantando?
— Sim, porque o que determina a transformação em vampiros e lobisomens é o estado mental, e qualquer coisa próxima da insanidade significa vampiro. Se a névoa estiver mais forte…
— ...qualquer coisa que se aproxime minimamente do que as pessoas consideram instabilidade pode ser um problema. Ou tristeza e desmotivação. Imagine se a cada choro uma pessoa virar um lobisomem.
Lily não queria nem imaginar. O fato de que a ação da névoa estava ligada ao estado mental no que decorria às pessoas vivas não era novidade mas…
Mas…
— Ah, minha nossa… — Ela olhou para Alban, surpresa.
Como tinham deixado isso passar por tanto tempo? Estava bem ali, debaixo dos narizes deles, o tempo todo…
— O que foi? — ele perguntou, e Lily o viu contrair um pouco os dedos quase da mesma forma que Thomas estava fazendo alguns minutos atrás.
— Alban, a "névoa"... Lembra quando estávamos falando sobre como o ácido súlfurico atrapalhou a regeneração?
— Sim. Discutimos que a "névoa" pode ser um químico na atmosfera que reage com alguns corpos, e que o ácido deve ter impedido a reação…
— ...exato. Mas não conseguimos determinar que composto químico estava gerando a reação…
— ...ou o restante dela. Porém, acabou de me ocorrer uma coisa… E você não vai gostar nada disso, eu também não gosto, mas…
Ela foi interrompida no instante seguinte por uma exclamação de agradecimento de Thomas. Aparentemente Aaron tinha encontrado algo.
— Lily, era isso aqui?
A caçadora deixou o pensamento no ar e se aproximou do corpo. Aaron tinha o relatório em mãos e Thomas parecia um pouco ansioso mas também um pouco admirado.
— Vejam só. — Aaron comentou. — A causa da morte foi um tiro na testa, mas não tem cicatriz nem marca nenhuma na testa do corpo.
— Sim — Alban respondeu. — E…?
— E todos os ferimentos que Lily fez para capturar o zumbi ainda estão aqui. Então eu estava pensando… Vocês tem essa nova teoria de que a "névoa" é um composto químico presente na atmosfera, certo?
— Sim — Lily respondeu dessa vez. — E…?
— Acompanhem o raciocínio comigo. O cara levou um tiro, caiu morto. A névoa reagiu com o corpo dele de alguma forma, o regenerando, e ele levantou. Lily capturou. Beleza. Mas isso aqui — para o desespero de Lily, Aaron abriu o saco com os pedaços do corpo afetado pelo ácido que Alban tinha jogado e virou em cima da mesa. — se curou de novo e continuou curando e se levantou. Motivo? A reação química continuou. Existe alguma diferença entre o senhor Finnigan aqui e o morto mutilado do Alban que fez com que o composto que reage com a névoa para gerar essa regeneração estivesse mais presente no corpo do morto do Alban do que do senhor Finnigan. Se descobrirmos a diferença entre os dois…
— ... descobrimos a reação química — Lily completou. — Brilhante, Aaron!
— Tem mais — Thomas cortou. — Aaron e eu já descobrimos essa parte também. O senhor Finnigan aqui foi morto por dívidas a um agiota, e estava começando a perder as estribeiras por causa do medo da morte. Ficou um pouco neurótico. O morto do Alban não sabemos quem é, mas sabemos de que cova veio. Ele foi enterrado em um hospital psiquiátrico.
Lily deixou o queixo cair um pouco. Se Thomas e Aaron quisessem dizer o que ela achava que queriam dizer… Sua teoria estava mais certa do que ela tinha esperado.
— Espera um instante — Alban interrompeu. — Estão me dizendo que os corpos que viram zumbis são corpos com instabilidade mental? A mesma coisa que causa os vampiros em pessoas vivas?
— Tem mais uma coisa… — Lily sussurrou. — Fantasmas não são mortos consumidos por tristeza de assuntos inacabados ou traumas de mortes muito intensas? E lobisomens não são pessoas vivas consumidas por tristeza ou trauma extremos?
Ela viu os rostos dos três homens se virarem para ela. Thomas e Aaron ainda pareciam um pouco confusos, mas ela conseguiu ver na expressão de Alban que ele já sabia onde ela ia chegar com isso, e não parecia nada feliz.
— Lily…
— Só me escuta — ela pediu. — É um padrão. A "névoa" está reagindo com pessoas em estados de tristeza ou insanidade para criar mudanças que geram os nossos monstros. O tipo de mudança depende se o corpo ainda está vivo ou morto, e se a pessoa é vítima de instabilidade ou tristeza. São quatro reações químicas diferentes, todas com um agente em comum. Existem duas condições metabólicas possíveis, vivo ou morto. Assim sobra só um reagente. Algum químico que existe em pessoas muito tristes ou muito insanas e que reage com a névoa química para criar os nossos monstros. Se descobrirmos esses químicos…
— ...descobrimos como monstros surgem — Alban completou, suspirando. — Lily, não vai adiantar…
— Ah, licença — Aaron comentou, levantando a mão. — Acho que Thomas e eu estamos perdendo alguma coisa.
— Lily quer visitar o Dr. Jekyll — Alban respondeu.
Ela viu Thomas e Aaron a olharem como se fosse um bicho do mato e revirou os olhos. Sinceramente, homens. Isso não era hora de serem orgulhosos! Estavam à beira de uma grande descoberta científica!
— Não me olhem assim! Ele dedicou a vida dele ao estudo da mente humana e a formas de provocar ou suprimir sentimentos com químicos! Nós precisamos da ajuda dele se quisermos testar essa teoria!
— Acontece, Lily — Alban suspirou — que eu o expulsei daqui aos gritos da última vez que ele veio. O que te faz achar que ele vai querer ajudar agora?
— Temos que tentar, não é? — Aaron comentou. — Eu não gosto da ideia muito mais que você, mas a senhorita Ayers tem razão. É uma teoria muito boa para que a gente não teste por orgulho… Por mais que a ideia seja repulsiva.
O laboratório caiu em silêncio por algum tempo. Todos pareciam estar pensando. Alban e Lily se olhavam e uma conversa inteira parecia estar acontecendo só naquele olhar. Foram os trinta segundos mais longos da vida de Lily, e ela estava já considerando visitar Jekyll sozinha se fosse o caso quando Alban se manifestou.
— Certo. Mas ele não vai querer ajudar.
— Só tem um jeito de descobrir — Lily respondeu, tirando as luvas de laboratório, calçando as de renda e pegando sua bolsa. — Vamos logo. Não temos tempo a perder.
