O martelo dos deuses vai guiar
Nossos barcos para novas terras
Para combater a horda, cantar e chorar
Valhalla, eu estou indo
Avante nós vamos
Com remos surrando
Nosso único objetivo
Será a costa oeste
Immigrant Song - Led Zeppelin
Hunedoara, Império Austríaco
09 de Outubro de 1818
Quatro dias. Quatro putos dias desde que Tavvy tinha deixado o castelo para vagar por Hunedoara à procura de um vampiro desgarrado. Quatro dias de nada, até que finalmente tinha encontrado um alvo e não ia nem poder matar para valer a frustração. Sua vontade era, em partes, de enforcar sua irmã pelo trabalho chato e complicado que tinha arrumado. Era muito mais difícil levar as porcarias emboras vivas.
Mas, bem, ele faria qualquer coisa por Nico, mesmo que a ideia não agradasse nenhum dos dois. O caçador desceu do cavalo, o amarrando em uma árvore próxima, e pegou sua foice. Talvez se desse uma de Frankestein e cortasse os tendões do bicho ou algo do tipo teria mais facilidade para levá-lo embora. Estava cansado, com fome e precisando de um longo banho de banheira, e não ia nem poder tirar diversão da caçada.
Sinceramente, Nico ia ficar devendo uma para ele. Ou umas três. O pior de tudo era que o alvo que tinha encontrado não era um desgarrado, exatamente, mas o ninho parecia estar vazio agora. Ao menos, Tavvy esperava que estivesse. Além de tudo era noite, e a maioria dos vampiros tinham saído para caçar. Isso deveria servir de alguma coisa.
O caçador desceu o pequeno descampado em direção à gruta. Ninguém morava naquela região. Provavelmente, o ninho de vampiros tinha espantado qualquer morador do lugar, e por isso os bichos tinham que ir a longas distâncias para procurar comida. Era com isso que Tavvy estava contando quando segurou a foice nas mãos e entrou na gruta.
Por dentro, era maior do que a aparência externa poderia sugerir, o que fez o coração de Tavvy acelerar um pouco. Tinha calculado que caberiam por volta de treze vampiros ali dentro, e tinha esperado uns dez a doze saírem antes de entrar. Contudo, a pequena gruta que tinha visto de longe era só um corredor que dava caminho para outra ainda maior, ainda mais que o salão de bailes de seu castelo, e com o teto tão alto que a luz do lampião que ele carregava nem chegava lá.
Isso era um problema. O lugar poderia estar cheio de vampiros e ele não iria saber…
Ah, mas também, até parece que um bando de sanguessugas seria um problema para ele. Tavvy estralou o pescoço e deu alguns pulinhos no lugar, se aquecendo. Então, segurou a foice nas mãos.
— Ok. Eu sei que estão aí. Hora do jantar. Podem vir!
Tavvy sabia que os vampiros temiam a presença dos Van Helsing. Mesmo em grande vantagem numérica, os sanguessugas sabiam que mesmo que matassem um deles, o caçador cairia lutando e levaria alguns junto para o inferno. Tavvy conseguiu sentir o ar ficar mais pesado, e ouviu sons de passos leves ao fundo da gruta. Ele pegou o lampião no chão, ao seu lado, e o prendeu à ponta do cabo da foice.
Pelo menos, Tavvy pensou, só precisava de um vivo. O resto podia morrer.
— Não vão vir? — ele provocou mais uma vez. — Acho que vou só colocar fogo na sua caverna, então…
Ele ouviu um chiado, e soube que dessa vez tinha conseguido o que queria. Ele abriu um sorriso carregado de convencimento e no instante seguinte um vampiro saltou do escuro em sua direção.
Sabendo que se deixasse o lampião ali enquanto lutava os vampiros iam quebrá-lo e a luz seria pouca para a caverna, Tavvy brandiu a foice, acertando o bicho nas costelas com o lampião preso a ela. O vidro se quebrou, espalhando o óleo no corpo do vampiro, e a chama ateou fogo no óleo. O vampiro gritou e caiu no chão, o fogo se alastrando em seu corpo e fazendo uma fogueira grande o bastante para iluminar o teto da gruta e os cantos mais escondidos.
Então Tavvy sentiu um suor frio escolher pelo seu pescoço.
A caverna estava lotada, abarrotada. Bem mais cheia do que ele tinha esperado. Vampiros se ajuntavam aos montes nos cantos, uns em cima dos outros. Vários pareciam famintos e começavam a considerar o risco de se aproximarem do fogo se isso significasse uma chance de ter Tavvy como jantar. Os segundos que se seguiram foram alguns dos mais desesperadores da vida do caçador. Ele pensou em fugir, mas seu orgulho estava o dizendo para não fazê-lo, mesmo que fosse arriscar e muito sua vida ficando ali. E nessa indecisão ele acabou demorando demais, e os vampiros decidiram que o lanche valia à pena o risco.
A primeira deles veio correndo por trás e Tavvy girou com a foice em mãos, fincando a lâmina na barriga da mulher e puxando com força. Um corte enorme se abriu e a vampira parou no lugar, gritando ao ver o sangue e os intestinos escorrendo para fora de seu corpo.
Tavvy apenas teve tempo de abrir um sorriso antes das coisas começarem a ficar mais agitadas. Aparentemente os vampiros daquele ninho não gostaram de ver uma deles ser estripada, mas o caçador não se importou. Era isso mesmo que queria, no fim das contas. O próximo bicho avançou pela frente, e Tavvy o acertou com a ponta do cabo da foice no estômago, bem a tempo de usar a outra ponta para acertar outro vampiro. Um terceiro se aproximou e Tavvy girou a foice, fincando a lâmina na cabeça dele.
Mas Tavvy não era dos lutadores mais ágeis. Ele era forte. Bem forte. Conseguia destroçar um inimigo com três vezes o seu tamanho, mas lidar com dez, mesmo que fossem menores, começou a se mostrar um problema.
— Merda…
Ele sabia que tinha que deixar um vivo, mas decidiu se preocupar com isso depois. Assim que soltou a foice da cabeça do vampiro, os outros dois tinham se recuperado da pancada no estômago e um deles pulou nas costas de Tavvy, fincando os dentes em seu pescoço.
O caçador gritou. Ele puxou a cabeça do vampiro para trás, soltando os dentes de seu pescoço, e segurou a foice pronto para lhe dar um golpe na cabeça, mas outra mão puxou a sua e a foice caiu no chão.
Merda. Merda. O que estava fazendo ali? Aquilo era uma missão para pelo menos três caçadores, era impossível dar conta daquilo tudo sozinho! Ia morrer… Dessa vez, tinha certeza, estava morto.
Ele sentiu um vampiro morder sua perna, e tentou tirá-lo de lá com a mão livre, mas o braço preso também foi mordido e a dor o desconcentrou. Um outro bicho pulou em seu peito, o jogando no chão, e Octavian caiu, olhando para o teto escuro da caverna e imaginando que ia falhar. Que sua irmã tinha precisado dele, e que tinha sido orgulhoso o suficiente para subestimar a tarefa, e que ia morrer.
Um outro vampiro o mordeu no braço livre e ele começou a ficar com a vista turva. O que estava em cima dele o mordeu no pescoço, e ele ouviu outros chegando, e sentindo seus dentes pelo corpo… Eles eram muitos. O suficiente para segurá-lo no lugar enquanto se revezavam para beber, o suficiente para que Tavvy perdesse a noção do tempo de cada mordida. O coração batia forte contra seu peito e o desespero da certeza da morte fazia seu sangue correr mais rápido, sangrar ainda mais, morrer mais depressa…
De repente, Tavvy ouviu um tiro. O barulho doeu seus ouvidos, e ele estava se sentindo letárgico, com as vistas escuras e sem conseguir se mexer. Sua pressão tinha despencado o suficiente para que ele não conseguisse ver quase nada e nem responder, mas ele ouviu uma explosão e sentiu a temperatura subir vários graus. Entre as vistas turvas, viu uma luz forte e percebeu que alguém estava ateando fogo na caverna.
Era o que devia ter feito. Por que, ele pensou, por que tinha sido tão estupidamente cheio de si a ponto de achar que era bom o suficiente para fazer sozinho o trabalho manual de três? Tavvy viu a silhueta de um homem alto, esguio e de cabelos escuros na altura dos ombros entrando na caverna de machadinhas em mãos. Os vampiros que estavam sobre Tavvy saíram, e o caçador ainda teve um vislumbre do recém chegado, marchando em direção ao fogo e à batalha como se estivesse em uma pintura de guerra, antes de perder a consciência.
Octavian acordou sentindo o chão sacudir um pouco embaixo de si. Ele soltou um gemido pequeno e tentou se sentar, mas sentiu uma mão o segurando no lugar.
— Não seja estúpido. Você perdeu sangue o suficiente para morrer. É um milagre que eu tenha chegado a tempo.
Tavvy soltou um suspiro, aliviado. Conhecia aquela voz. Edgar Van Helsing, um dos caçadores mais experientes do clã. Estivera passando um tempo em casa com a esposa. Um tempo bem comprido, diga-se de passagem.
— Estava… Me seguindo? — Tavvy perguntou, entre suspiros.
A respiração ainda estava fraca e ele se sentia estranhamente leve. Ia precisar de um bom tempo para se recuperar… Alguns dias quem sabe.
Dias.
— Que dia é hoje? — Tavvy perguntou em seguida.
— Te achei a dois dias atrás. Estava voltando para o castelo e por coincidência cruzamos caminhos. Te reconheci de longe pela foice. Depois te vi entrar na caverna, mas não vi sair, e achei melhor dar uma averiguada na situação. Sinceramente, estava achando que ia ter que entregar seu corpo pra sua irmã, mas acho que, se existir algum deus, ele decidiu te dar outra chance. É melhor não abusar pelos próximos dias.
Dois dias. Tavvy sentia o corpo dolorido em várias partes, nem sabia se pelas mordidas ou se por ter ficado dois dias deitado no que ele sabia agora ser uma carroça.
O que Edgar tinha na cabeça? Não devia estar em repouso? Tavvy franziu a testa, começando a se irritar, e sentindo pela primeira vez que estava costurado em vários pontos pelo corpo.
— Eu te suturei — Edgar explicou. — O médico mais próximo fica depois do nosso castelo, então estou te levando embora. Mandei uma carta na frente, a cavalo, para o médico te esperar chegar. Eu disse que o médico era pra mim, na carta. Não queria deixar Nicoleta preocupada esses dias todos. Ela vai ficar bem brava com você.
Oh, droga… Droga, sua irmã… Tavvy soltou um gemido e tentou se sentar de novo, mas mais uma vez a mão de Edgar o empurrou de volta para se deitar no banco.
— Eu não disse pra ficar quieto? — ele resmungou.
— Eu precisava… Eu precisava… De um vampiro…
Tavvy fechou os olhos. A luz, mesmo que fraca, estava incomodando bastante.
— Vivo?
Ele concordou com a cabeça. Edgar continuou falando.
— Peguei um para entregar pra igreja como prova do extermínio do ninho, para receber pagamento. Ele está na carruagem de trás. Devo mudar a ordem para que ele seja entregue no castelo?
Mais uma vez, Tavvy concordou com a cabeça. Ele ouviu Edgar ordenar ao cocheiro que parasse a carruagem, depois o ruído da porta se abrindo e então os passos de Edgar, descendo.
Estava perdendo as forças mais uma vez. Edgar tinha razão, precisava descansar. Tinha sido burro e estúpido de pensar que poderia batalhar com todos aqueles vampiros sozinho. Devia ter colocado fogo na caverna como ele tinha feito…
Devia ter feito tudo diferente, mas agora era tarde. O que podia fazer era torcer para que o que Edgar tinha feito para salvá-lo durasse o bastante para chegar em casa, e então torcer para que o médico pudesse fazer ainda mais.
De repente, Tavvy percebeu que não queria morrer. Não tinha vivido o bastante. Sua hora não podia chegar agora. Tinha que fazer algo grande. Tinha que deixar seu nome para trás como um grande caçador. Tinha que ter algum feito para carregar.
Todos se lembrariam de Nicoleta como uma das líderes do clã. Uma mulher forte, de pulso firme, decidida. Uma boa governante. Uma boa guerreira.
E ele? Quem iria se lembrar de Octavian Van Helsing?
