Tenho um segredo

Você pode guardá-lo?

Jure que esse você irá guardar

Melhor trancá-lo em seu bolso

Levando ele ao seu túmulo

Se eu te mostrar então eu sei que você

Não vai contar o que eu disse

Porque duas pessoas podem guardar segredo

Se uma delas está morta

Secret — The Pierces

Roma, Estados Papais

13 de Outubro de 1818

Francesca conhecia Lorenzo há muitos e muitos anos. Tinham crescido juntos, eram, em muitos aspectos, como irmãos. E era exatamente por isso que ela sabia quando ele estava estressado demais. Ela lia nos menores detalhes. Na postura dele ao se sentar na mesa, se debruçando sobre ela apoiado em um dos cotovelos. No leve franzido da sobrancelhas, quase como se não quisesse demonstrar preocupação, mas não conseguisse se impedir. E nas respostas secas e monossilábicas, mesmo quando perguntado sobre assuntos que eram do seu interesse.

O pior de tudo era que não importava quantos anos tivessem se passado, ela ainda não sabia como furar a casca que Lorenzo tinha para esconder os sentimentos e as preocupações. Eventualmente, a situação ia acabar ou nele surtando — caso ela não se envolvesse— ou nele explodindo com ela — caso decidisse fazer alguma coisa.

A escolha era bem óbvia, ao menos para Francesca. Ela e Lorenzo eram como irmãos e irmãos cuidavam uns dos outros. E assim, quando um garoto entrou na biblioteca dos da Vinci brandindo um envelope e perguntando pelo "Senhor Lorenzo da Vinci", Francesca soube que era hora de fazer alguma coisa. Ele vinha recebendo cartas há alguns dias, e a cada carta que lia ficava mais pálido e preocupado. Não precisava ser um gênio para perceber que as cartas eram notícias ruins.

Francesca enfim se levantou da mesa que ela, Lorenzo, Pietra e Bianca vinham ocupando nos últimos dias.

— Lorenzo, precisamos conversar.

E como ela tinha imaginado, a expressão no rosto dele foi de preocupação para surpresa, e dali para frustração. Ele rabiscou uma resposta num papel, entregou para o menino junto com uma moeda e o menino foi embora com a resposta.

— Não, não precisamos.

Francesca sabia que tinha atraído o olhar de Bianca e Pietra para si, e decidiu que poderia usar isso a seu favor.

— Tudo bem. Quer fazer isso aqui na mesa então? Na frente delas?

Ela viu que tinha ganhado com esse argumento. O sorriso interessado e pronto para tirar sarro da situação no rosto de Pietra era mais que o suficiente para convencer Lorenzo, pois ele sabia que ela realmente começaria a falar na frente das duas se ele não aceitasse acompanhá-la. Assim, ele se levantou e saiu da biblioteca.

Francesca o seguiu até uma sala pequena no corredor, e fechou a porta atrás de si. Lorenzo estava ainda mais estressado agora que tinha sido encurralado, mas ela sabia que ainda era melhor do que deixá-lo sobrecarregar ao ponto da quase explosão.

— Aconteceu alguma coisa com seus pais? — ela perguntou, se escorando contra a parede.

— Francesca, não tem nada aconte…

— Me poupe, Lorenzo. Eu te conheço há quanto tempo, hã? — Ela fez uma pausa. — É coisa do clã, então?

A resposta foi um suspiro.

Dada essa situação, Francesca sentia que talvez o que ela temia estivesse acontecendo. Cesca tinha algumas… teorias. Não era o tipo de coisa que simplesmente se forçasse alguém a falar a respeito e ela mesma não queria fazê-lo. Contudo, lhe partia o coração de tal forma ver Lorenzo se rasgando ao meio daquele jeito que estava decidindo que valeria o desconforto da conversa.

— Enzo…

Ele a encarou, levantando uma sobrancelha. Cesca tinha consciência de que não usava o apelido sempre, mas às vezes acabava saindo.

— O que?

— Senta, por favor.

Não era como se ela pudesse obrigá-lo a fazer alguma coisa, mas Francesca sabia que no muito mínimo Lorenzo não ia querer contrariá-la. Então, abusava um pouco desse poder de vez em quando. Mesmo que para o bem dele.

Ele se sentou em uma das poltronas e ela em outra, à sua frente. Não sabia como deveria começar a falar, e sabia que assim que Lorenzo se desse conta do assunto as coisas ficariam muito estranhas… Mas tinha que começar de algum lugar. De alguma forma.

— Você sabe, Enzo… Há algumas histórias sobre Leonardo… O tipo de coisa que as pessoas não falam a respeito mas que nós, da Vincis, sabemos que aconteceram. E… Ele foi um homem genial, você não acha?

— Onde está querendo chegar com isso? — o líder perguntou, se escorando contra o braço da poltrona.

Francesca conhecia as posturas dele. Lorenzo estava desconfortável.

— Ah, você sabe… Ele tinha aprendizes jovens, nunca se casou… Vivia desenhando um dos aprendizes e já foi acusado de…

Antes de completar com "sodomia" ela viu no rosto de Lorenzo que ele sabia exatamente onde ela queria chegar. E ele ficou meio branco. E depois meio verde.

— Você acha que eu… Acha que eu sou… sodomita?

Nesse momento, Francesca abriu a boca mas se absteve de responder porque a resposta seria "sim". Porém, a expressão no rosto de Lorenzo era tão incrédula que ela se deu conta de que não era verdade.

Bom, ele não podia culpá-la por ter pensado nisso. Lorenzo tinha um longo histórico de tentativas à corte, todas mal-sucedidas, sempre alegando falta de tempo, mas Cesca sabia que ele não estava tão sem tempo assim. Ela o via supostamente interessado em viúvas e prostitutas como todo rapaz da sociedade, mas quando se tratava de damas em idade de casar, por mais que alegasse que era seu desejo, simplesmente não conseguia fazer o relacionamento durar. Juntando tudo isso com o fato de que ele certamente escondia algo muito sério dela…

— Ah, bem… — Limpou a garganta. — Não é como se…

Francesca sentiu o rosto corar. Sinceramente, só estava tentando ajudar, Lorenzo não precisava olhar pra ela como se fosse louca!

— Não me olhe assim! — a caçadora quase gritou, cruzando os braços. — Você não me diz o que tem de errado, eu tive que tirar minhas próprias conclusões!

— E sua conclusão foi que eu sou sodomita?!

A da Vinci resmungou mais uma vez, agora se sentindo muito idiota. Por que tinha sugerido isso? Era burra, isso sim! Devia ter ficado calada!

— Eu não sei, Lorenzo! Eu não sei! Eu só sei que tem alguma coisa te comendo vivo, você não me diz o que é e não me deixa te ajudar! E isso não é de hoje! É desde que você virou líder do clã! E aí de vez em quando você recebe umas cartas e fica todo estranho e…

— Francesca, eu não sou sodomita!

Agora foi Lorenzo quem quase gritou, se levantando de uma vez. Estava vermelho de fúria, vergonha, ou os dois. E por mais que Cesca estivesse se sentindo desconcertada pela acusação, era suficientemente firme no que fazia para insistir em algo até que fosse resolvido. Lorenzo nunca ganhara uma discussão contra ela, e essa não seria a primeira vez.

— Pois então o que é?

— Não vou te contar.

— Não vai?

— Não posso.

E nesse instante, a voz dele saiu em um tom bem menos exaltado. Foi algo baixo, quase implorativo, e toda a certeza que Cesca tinha de que tinha algo de errado acontecendo com ele atingiu seu ápice ali.

— Por quê? — ela perguntou, apenas, agora com a voz bem mais baixa.

Nunca, em toda sua vida, Lorenzo tinha agido daquela forma. Usualmente ela o pressionava um pouco e ele se abria como um livro para ela, geralmente precisando de ajuda e a pedindo para que fizesse algum favor para ele, em troca de dever algo a ela. Nunca ele tinha escondido algo dela, e o fato de insistir em manter o que quer que fosse secreto e dizer que não podia contar, em vez de não querer, fez Cesca se sentir um pouco desconcertada. Era uma situação nova. Nova e preocupante.

— Porque se eu disser a você… — Lorenzo se aproximou e colocou as mãos em seus ombros, olhando em seus olhos como se tentasse explicar algo elementar a uma criança. — Uma das duas coisas vai acontecer: seremos excomungados, os dois. Ou eu terei que matá-la.

Francesca sentiu como se tivesse levado um soco na boca do estômago. Tinha razão, ao menos em partes… O problema tinha começado depois que ele assumira a liderança do clã. E agora… Agora estava o comendo vivo sem que ele pudesse dividir com ninguém.

— O-o que disse?

— Por favor… Pare de tentar se envolver, por favor…

Naquele instante, alguém bateu na porta. Após suspirar e soltar a prima, ele abriu a porta e encontrou o mesmo menino do outro lado. Dessa vez, ele entregou um bilhete curto para o líder, pegou uma moeda de gorjeta com Lorenzo e foi embora sem esperar resposta. Francesca tentou não perder a cabeça, tentou não perder a calma, mas Lorenzo estava ficando ainda mais pálido. Ele se apoiou à parede e Cesca pode ver que o homem começava a suar frio.

— Enzo?

O líder não respondeu. Francesca achou melhor o ajudar a se sentar e se abaixou à frente dele, segurando a mão do primo e tentando fazê-lo se acalmar.

— Enzo? Enzo, olha pra mim. Olha pra mim. — Ela puxou o rosto dele suavemente para que se virasse para ela. — Estou aqui. Você não está sozinho, ok? Me diga o que está acontecendo para que eu possa te ajudar…

— Você ouviu a parte sobre…

— Não ligo. Eu faria tudo por você, e sei que você faria tudo por mim. Você é minha família, Enzo. Por favor…

E pela primeira vez naquela noite, Francesca viu que ele queria pedir ajuda. Lorenzo a olhou como se estivesse quebrado, partido ao meio, dividido entre um pedido de socorro e um desejo de protegê-la do que quer que estivesse acontecendo. Dados os riscos em questão, Cesca não o culpava por isso. Ela mesma estava relutante e assustada quanto a ajudar, mas ela e Lorenzo sempre tinham sido unidos. Não importava o que acontecesse, eram os dois contra o mundo, e ela não ia deixar os riscos a afastarem disso agora.

Não podia. Simplesmente não podia.

— Eles… — Lorenzo murmurou. — Eles estão me mandando pra morte…

De novo, ele falava de morte. De novo, ela sentiu como se tivesse levado um soco na boca do estômago, mas pensar em Lorenzo morto era ainda mais assustador do que pensar que isso pudesse acontecer com ela.

— Q-quem… — ela queria soar firme, e apertava as mãos de Lorenzo com força como se para acalmá-lo, mas em verdade estava tentando se impedir de tremer. — Quem?

— A igreja, Cesca.

Os olhos de Lorenzo estavam vermelhos, e ela viu uma lágrima começar a escorrer antes que ele enxugasse os olhos às pressas.

Por mais que a resposta tivesse feito o coração de Francesca acelerar, ela logo entendeu que fazia sentido. Se também existia o risco de excomungação, era de se imaginar que a igreja estivesse envolvida. A caçadora respirou uma vez, devagar, tentando se acalmar e manter os pensamentos em ordem. Não podia se desesperar agora. Lorenzo precisava dela.

— O que aconteceu? Eles…

— Uma missão. Eles me mandaram para algo, e eu disse que não vou conseguir sozinho, e sabe o que eles fizeram?

Lorenzo estendeu o papel para Cesca, e tinha voltado a chorar, mas agora não tentava mais esconder. Francesca não se lembrava da última vez que tinha visto o primo chorar na frente de alguém, e embora estivesse tão desesperada quanto ele, e querendo chorar talvez ainda mais, ela se manteve firme quando se sentou ao lado dele, pegou o papel e leu a pequena nota:

"Nós te nomeamos para líder do clã para que assuma suas responsabilidades. Os riscos não são nosso problema. Cumpra seu dever."

— Bem, me parece simples de resolver. — Cesca disse, devolvendo o papel a ele. — Não vá.

Lorenzo riu. Uma pequena risada de escárnio acompanhada de mais lágrimas, e ele pegou o papel de volta da mão da prima e o guardou.

— Não tem essa opção. Se eu não for, algo terrível vai acontecer… Só tem eu para resolver, eu me sinto responsável… A cidade inteira pode ser destruída. Pessoas vão morrer, Cesca. Muitas.

— Já é a terceira vez que você fala de morte. Por que alguém tem que morrer nesse cenário?

Ele não respondeu. Francesca conseguia ver o desespero nos olhos dele, a tristeza, e sabia que só havia uma coisa que poderia ser feita.

— Me deixe te ajudar a resolver.

— Não posso. Você não tem o treinamento ou a permissão pra isso. Vai se machucar ou ficar com problemas…

— Com todo respeito, ao inferno com isso, Lorenzo! Não vou deixar você se enfiar no que quer que seja sozinho! Quanto tempo nós temos para que você me dê o treinamento?

Ele a olhou, completamente catatônico. Francesca quase quis dar um tapa nele para ver se acordava, ou reagia de alguma forma.

— Quanto tempo, Lorenzo?

— E-eu… Alguns dias, eu não sei…

— Pois então é melhor que comecemos, não acha?

Francesca respirou fundo. Tinha que ficar firme. Tinha que manter a calma. Ela se levantou e estendeu a mão, puxando Lorenzo para que também ficasse de pé.

— Eu não vou te arrastar para isso…

— Não estou pedindo.

— Eu não sou seu líder?

— Lorenzo, se vamos ser excomungados, você não vai ser meu nada. Agora, vamos logo com isso, sim? Não podemos perder tempo.

Ela começou a arrastá-lo de volta para o corredor. Parte dela pensou que a ajuda de Pietra e Bianca seria bem-vinda, mas ela sabia que nenhuma das duas arriscaria o clã por Lorenzo. Pietra o detestava, e Bianca… Por que ela arriscaria um clã que tanto amava por alguém que nunca tinha feito nada por ela? Não, eram só os dois. Como costumava ser.

— Espera. — Ele a segurou, antes de entrarem na biblioteca.

— Lorenzo, eu não vou mudar…

— Eu sei. Por aqui.

Cesca ainda conseguia ouvi-lo fungar e o via limpar lágrimas com frequência. Ele a arrastou pela biblioteca em direção à Seção Vermelha, e além dela para uma sala dos fundos usualmente ocupadas pela "alta cúpula" da igreja. De todo o clã da Vinci, Lorenzo era o único que ela já vira entrar lá, e definitivamente ela nunca tinha visto nenhuma mulher entrar, nem mesmo as freiras. Francesca sempre fora curiosa quanto àquela sala, e foi um tanto quanto anticlimático perceber que ela não tinha nada de diferente das outras salas de reunião como a que ela e Lorenzo tinham acabado de deixar: algumas estantes, uma mesa, poltronas e um divã...

— Cesca. — Lorenzo disse, parando com ela à frente de uma estante. — Você tem certeza disso? Os riscos…

— ...são bem mais pífios do que a possibilidade de perder meu irmão — afirmou, por fim, e pode ver um leve tom rosado subir ao rosto de Lorenzo ao chamá-lo de irmão.

Podiam não ser irmãos de sangue, mas era assim que ela se sentia. Ele sabia disso, e ela reafirmaria quantas vezes fosse necessário.

— Certo. Bem, então… Ok.

Lorenzo respirou fundo, enxugou as últimas lágrimas e colocou a mão em um dos livros da estante. Cesca pensou que ele iria lhe mostrar algum segredo escrito em meio às páginas amareladas, mas o que aconteceu foi muito mais incrível que isso.

Ele puxou o livro apenas um pouco, e um ruído forte ecoou na sala de algo pesado sendo arrastado. No segundo seguinte, a estante começou a se mover para o lado, revelando uma passagem secreta gravada na pedra da parede, como um túnel de uma caverna. A passagem era feita de uma escada e descia por tantos metros que Francesca mal conseguia ver o final.

Por muito pouco, Francesca não ficou boquiaberta, mas ela sentia que o que quer que fosse surpreendê-la estava no fim daquele corredor, então decidiu guardar a surpresa. Lorenzo pegou uma tocha de um suporte dois degraus para baixo e a acendeu com uma pederneira. Ele estendeu a mão para Cesca e ela o acompanhou pelo túnel.

Lorenzo apertou uma pedra na parede, e a estante se fechou atrás deles. Então eram só os dois e a luz trêmula da tocha por vários lances de uma escada escorregadia de pedra polida. Francesca estava ansiosa, mas também tão surpresa que nem conseguia falar. Dividida entre perguntar se estavam chegando e ficar presa no suspense do mistério, acabou se mantendo em silêncio até chegarem ao fim da escadaria.

E aí sim seu queixo caiu. A escadaria desembocava em um salão, e Lorenzo começou a andar em volta dele, acendendo as tochas do lugar, e a cada tocha acesa ela via mais e mais do que não fazia sentido nenhum estar na sede dos da Vinci. Simplesmente não fazia.

Algumas poucas espadas, escudos e outras lâminas, muitas pistolas, pólvora, pequenos frascos para bombas e uma outra série de armas de fogo que Cesca não fazia ideia do que eram. Bonecos para prática com espada, uma mesa com óleos e, por fim, alvos suspensos com marcas de tiros.

Lorenzo voltou até a entrada, colocando a tocha acesa em um suporte e pegando a mão de Cesca. Ele a trouxe lentamente para o meio da sala, e ela nem se deu conta, ocupada que estava em tentar ver e absorver o que acontecia ao redor dela.

— Francesca da Vinci… Bem-vinda à Ordem Secreta dos Caça-Fantasmas.