Há um lugar que eu conheço

Não é muito bonito lá e poucos viram

Se eu mostrasse-o agora

Ele o faria fugir?

Ou você vai ficar?

Mesmo que doa

Mesmo se eu tentar te afastar

Você voltará?

E lembrar-me quem realmente sou?

Por favor, lembre-me quem sou eu

Todo mundo tem um lado obscuro

Você me ama?

Você pode amar o meu?

Ninguém é uma imagem perfeita

Mas nós valemos a pena

Você sabe que valemos

Você vai me amar?

Mesmo com o meu lado obscuro?

Dark Side — Kelly Clarkson (by Glee)

Roma, Estados Papais

13 de Outubro de 1818

Um enorme silêncio tomou o salão. Lorenzo se sentia ansioso e começava a pensar que levar Cesca até ali tinha sido uma péssima ideia. Ela parecia pálida. Conduziu-a até uma cadeira próxima para que se sentasse, e se acomodou em outra, ao seu lado. Por vários segundos Francesca ficou em silêncio, olhando em volta de manequim para alvo, de alvo para espada, de espada para pistola, completamente embasbacada, até que por fim o que ela conseguiu dizer foi um simples…

— Oh!

"Oh" começava a definir alguma coisa… Talvez. Lorenzo sabia que ela estaria cheia de perguntas, mas nem sabia por onde começar a explicar. Sua espera acabou resultando em Cesca decidindo o que perguntar primeiro, e ele ficou aliviado por isso. Temia que tivesse a deixado em estado de choque ou algo do tipo.

— Isso… Isso tudo é parte do clã Da Vinci?

E ela tinha que começar com a pergunta mais complicada…

— Bem… Mais ou menos. O clã de verdade é a nossa divisão, que eu lidero. A divisão de inteligência. Isso aqui é uma outra coisa… Mas eles operam com a informação que a gente consegue e apenas quando necessário.

— Eles… Você quer dizer vocês, não é?

Lorenzo engoliu em seco. Mesmo que ele não pudesse contar tudo isso para Cesca, em todas as vezes em que parou para pensar no que faria se pudesse, chegou à conclusão de que ainda escolheria manter segredo. Dividia tudo com ela, mas aquilo era algo completamente diferente. O comia vivo, de dentro para fora. O consumia. Era difícil várias vezes deitar a cabeça no travesseiro e dormir sabendo que tinha acabado de matar alguém que o clã falhara em salvar. Mesmo que fantasmas já estivessem, em tese, mortos, não era assim que ele se sentia quando apertava o gatilho para eliminar um deles.

Ele se sentia um assassino.

— Sim… Nós.

Lorenzo não soube identificar a expressão no rosto dela depois. Já tinha a visto no rosto de Cesca antes, geralmente quando estava com pena de alguém, mas achava que esse era um sentimento que, com certeza, não era o que ela queria dirigir a ele agora. Como poderia ser? Medo, talvez. Quem sabe repulsa. Asco. Mas não pena.

— E… Quando é julgado "necessário"?

— Sabe como os Flores tentam acalmar os lobisomens de volta à forma humana e os matam apenas em último caso? É exatamente assim. Quando um fantasma se recusa a processar a mágoa que está o mantendo na terra, e não é possível ajudá-lo a se salvar.

Ele quase viu as engrenagens girando na cabeça dela quando disse isso. Sabia exatamente a que conclusão ela ia chegar.

— Estão relacionados? Fantasmas e lobisomens?

E pronto. Ali estava o ponto da conversa que ele menos queria abordar. Ao menos iria fazê-la feliz.

— Provavelmente. É trabalho dos Frankestein descobrir isso. Eles são os cientistas, não nós e… Bom… — Enzo suspirou. — A igreja não é cega. Por mais que digam que se trata de possessões demoníacas e todo o resto, e por mais que seja, seria burrice insistir que as duas coisas não estão relacionadas. Eu tentei sugerir isso ao novo líder dos Frankestein quando fui a Londres pedir auxílio nesse aspecto, mas ele quase quebrou uma garrafa na minha cabeça, então…

— Opa. Espera um pouco. Você foi a Londres pedir a Alban para investigar a relação científica entre fantasmas e lobisomens?

— Você acabou de chamar ele pelo primeiro nome?

Cesca de repente corou muito. Lorenzo sentiu algo se revirar em seu estômago. Estava com um péssimo pressentimento.

— Francesca…

— Eu.. Eu troco cartas com ele faz alguns anos. — ela respondeu, falando muito rápido e empilhando as palavras uma em cima da outra.

Santo Deus.

— Você… Você o quê?

O que ela tinha dito? Como assim ela trocava cartas com o líder dos Frankestein e ele nunca tinha descoberto isso?

— Não me olhe assim! Você não é o único que tem o direito de ter um segredo!

E agora estava usando isso contra ele? Como… Como raios…

— Isso não importa agora! — ela resmungou. — Você foi ou não foi a Londres pedir ajuda a ele?

Embora ainda irritado, ela tinha razão. Realmente não era importante agora. Não agora, pelo menos. E… Bem, ele tinha falado mal do homem por anos a fio, seria bom ao menos Francesca saber o porquê já que, por algum motivo completamente insano, ela se mantia em contato com Alban. Talvez ele desse sorte e ela percebesse que Alban era louco e acabasse com isso.

— Fui. Mas ele é um imbecil ignorante que não quis saber de nada quando eu sugeri que problemas religiosos e científicos podem ser a mesma coisa. Então eu disse que era tradição os Frankestein colaborarem com a igreja nisso, e que Leonardo da Vinci não é símbolo do clã da igreja à toa, e que nós somos abertos a aceitar algumas coisas da ciência e…

— "Abertos a aceitar algumas coisas da ciência". Você falou assim com ele?

Lorenzo deu de ombros.

— Algo assim.

— E não sabe porque ele quis te agredir?

O líder abriu a boca mas não disse nada. Bem, ok. Ok, talvez ter falado assim com um homem ateu e relativamente embriagado não tivesse sido uma boa ideia afinal de contas.

— Ok. Fui pego. E você pare de trocar cartas com ele. Onde já se viu? O chamando pelo primeiro nome! As pessoas vão pensar que vocês estão flertando!

O pior para Lorenzo não foi nem a hipótese do flerte. Foi que Cesca não a recusasse. Ela apenas corou mais um pouco e cruzou os braços.

Céus. Céus, aquilo não podia estar acontecendo…

— Não acredito nisso!

— Eu não disse nada!

— E precisava?! Além do mais, qualquer pessoa que passe mais de um minuto em pessoa com ele e com a garota dos Frankestein sabe que ele está mais apaixonado por ela do que Romeu já esteve por Julieta. E ele nem se dá conta! O imbecil é tão burro que tem a chance de conseguir uma família e… Argh!

Sinceramente, o assunto conseguia deixar Lorenzo completamente fora de série. Não conhecia a garota a fundo, mas ela estava no bar no dia que falara com Alban e enquanto ia embora Lorenzo viu o líder simplesmente gravitar para perto dela e defendê-la com ameaças de um grupo de homens que parecia assediá-la de alguma forma por frequentar o ambiente. Chegava a ser trágico o quão cego ele poderia ser.

Lorenzo respirou fundo e viu como a expressão de Francesca tinha mudado. Ela parecia até triste. Céus, não queria magoar a prima, mas Alban de todas as pessoas? Além de inútil, já estava perdidamente apaixonado. Qualquer coisa que ela achasse que as cartas significavam entre os dois não era recíproco de forma alguma. E ver Cesca subitamente decepcionada com isso apenas fez Lorenzo odiar Alban ainda mais por ter alimentado qualquer esperança tola dela. Se encontrasse o homem algum dia, era capaz de matá-lo. E como era.

Mas agora era melhor mudar de assunto. Se pudesse fazer Francesca se concentrar em outra coisa, talvez ela se sentisse um pouco melhor.

— De qualquer forma, nosso conhecimento sobre o assunto é limitado. Sabemos que todo fantasma que se manifesta faz isso através de seu corpo. Quando um fantasma está assombrando é literalmente o seu corpo ou o que tiver sobrado dele que se levanta de onde estiver para isso. Mina Murray se manifestou em uma névoa cinzenta não por causa da névoa…

— ...mas porque ela foi queimada até virar cinzas.

Lorenzo concordou. Ele viu Francesca murmurar alguma coisa e olhar em volta com uma expressão ainda mais surpresa. Ele conseguia entender. Tudo estava se encaixando de repente. Era normal ela ficar tão… embasbacada. E, ao menos, interessada em algo que não fosse o detestável líder dos Frankestein.

— Então… — ela continuou. — Se eu atirar em um fantasma, ele vai sentir. Porque está se manifestando de um corpo. Certo?

— Em partes…

Lorenzo se levantou e pegou duas pistolas, passando uma para a prima. Ela sabia atirar. Os dois faziam competições de tiro ao alvo com frequência. Era um talento muito bom socialmente para uma dama da sociedade como ela. Tiro vinha se tornando um hobby muito popular.

— Às vezes, não entendemos muito, os fantasmas podem ser feridos. Às vezes não. O que quer que os torna de corpos em, bem, fantasmas, dá a eles a habilidade de se tornarem intangíveis de tempos em tempos. Então se você errar o tiro, a bala o atravessa até o outro lado. É preciso atirar quando eles tiverem acabado de atravessar algo, pois se tornam corpóreos para se recuperar.

Ele apontou a pistola para um alvo e apertou um botão ao seu lado. Os alvos começaram a se mover, alguns passando dentro de outros, e Lorenzo atirou em metade deles no exato instante em que terminavam de atravessar. Ele ia continuar fazendo isso, mas ouviu um tiro e viu que Cesca estava tentando também.

Não foi surpresa ver que ela acertou a maioria, embora ainda precisasse de prática. Ela geralmente ganhava os jogos de tiro contra ele. Lorenzo era bom atirando, mas sempre fora melhor com pederneiras quando estava caçando para a Ordem.

De repente, ele sentiu algo leve em seu peito. Era no mínimo… aliviante, poder dividir isso tudo com Cesca. E ela nem mesmo tinha piscado! Incrível, desde que tinha contado para ela, ela não fraquejara quase que em nenhum momento! Como ela conseguia ser tão forte, como conseguia reagir tão bem a tudo, estava além do conhecimento dele. Bem além.

— Então… a igreja vai nos excomungar por que, mesmo?

— Porque eu contei sobre isso para uma mulher. A presença de mulheres nessa parte do clã é proibida. A igreja acredita que vocês não tem capacidade ou força para o papel.

Cesca acertou um alvo olhando para Lorenzo e levantou uma sobrancelha. Ele deu de ombros.

— Não fui eu quem disse. Eu cresci com você e você atira melhor que eu, é claro que discordo disso. Mas não posso fazer nada, também.

Ela respirou fundo e colocou a arma de lado.

— Ok. Foi bastante coisa de uma vez. Acho que vou entrar em choque daqui alguns minutos. Antes que isso aconteça, qual é a missão suicida que querem que você atenda?

Ah, sim. Lorenzo tinha se sentido tão leve em ver que Cesca não o odiara e estava recebendo tudo tão bem que por um instante tinha se esquecido de porque estavam ali. O sorriso sumiu de seu rosto e ele se sentou novamente. Cesca se sentou ao seu lado e segurou a mão dele, e ele sentiu mais uma vez que estava sendo amparado por um anjo. Como ela era. Como ela sempre fazia.

— Eles avistaram um fantasma nas redondezas do Coliseu.

Imediatamente ele viu no rosto de Francesca que ela tinha entendido. Manifestações fantasmagóricas se davam por localização. Não era à toa que alguns lugares eram tidos como "assombrados" e tinham relatos de várias aparições. A praça onde Mina Murray morrera tinha sido palco para a morte de mais pessoas, mas ainda assim, uma quantidade mais razoável. O Coliseu era estimado de ter abrigado quatrocentas mil mortes em seu período de uso, e isso era só uma estimativa. Se tinha um fantasma lá, era certo de se ter muito, muito mais que isso.

— E se você não for resolver eles podem se espalhar para a cidade… — ela murmurou.

Lorenzo concordou. E ainda faltava a cereja do bolo.

— Tem mais. Não é à toa que estamos só nós dois aqui. Toda a Ordem Secreta recebeu, misteriosamente, cartas solicitando caçadas de emergência em lugares muito longe de Roma. Achei que fosse uma coincidência, até que eu percebi que só eu tinha restado aqui. E então me descreveram a fantasma avistada no Coliseu.

No exato instante ele viu a compreensão baixando no rosto dela.

— Ah não… Murray?

— Ela está tentando me eliminar. Devemos estar chegando perto, Cesca. Ela se certificou de mandar todo mundo embora, de que eu seria a única escolha para ser enviado ao Coliseu. Ela se certificou de tudo. Ela está nem sei quantos passos à nossa frente, e sequer sabemos o que ela quer, de fato, alcançar.

— A igreja sabe que é ela? E que estamos investigando?

Lorenzo concordou com a cabeça. Não sabiam antes, mas ele tinha contado tudo em carta e eles se apressaram com isso a fingir que ainda não sabiam de nada, e que ele podia ir sozinho resolver, que ele dava conta.

— Eles acham que estamos cutucando um vespeiro, Cesca. Eles querem que eu morra porque esperam que a investigação morra comigo. Se isso acontecer, os podres do que eles fizeram com a moça podem continuar encobertos.

— Mas… Ainda teria eu, Bianca e Pietra para comunicar a todos!

— Três mulheres. Uma delas deslocada de todos os padrões e convenções sociais que definem uma dama respeitável e outra delas negra. Ninguém vai ouvir vocês. Principalmente sobre inquisição.

Ele viu a indignação no rosto dela, mas não discutiu, pois era verdade. Os dois ficaram em silêncio por um tempo, ele queria saber o que ela estava pensando, mas não perguntou. A conhecia. Estava planejando algo. Ou tentando.

— Eu vou pensar em algo, Enzo, eu juro, ok? Até lá… — Cesca pegou a pistola. — Preciso melhorar com isso.

— Me desculpe… Eu não queria te envolver…

— Eu te irritei até que me envolvesse. Agora eu vou até o fim. Me ajude com isso, por favor, sim?

Lorenzo engoliu em seco. Ter Cesca ao seu lado fazia tudo menos pior, mas… A amava. A amava mais do que amava seus irmãos de sangue, ou seus pais. Ela sempre parecera mais sua família do que qualquer outro. Se algo acontecesse com ela… Como ele viveria com a culpa? Como ele ia viver sabendo que tinha literalmente a arrastado para o evento que causara sua morte?

Ele sabia a resposta. Não iria viver.