E eu, eu vou lembrar como voar
Desbloquear os céus em minha mente
Seguir o meu amor de volta através da mesma porta secreta
Secret Door — Evanescence
Madrid, Espanha
15 de Outubro de 1818
Já faziam vários dias da presença dos Flores em Madrid. Rhuan gostava do ar da cidade, dos fiéis correndo para chegar à igreja, do calor dos espanhóis e das vendinhas de rua. Mesmo quando tantas pessoas o encaravam com expressões de repulsa pelas tatuagens no corpo e o jeito claramente cigano de andar pela cidade, ele se concentrava nos olhares gentis e nos sorrisos de agradecimento dos que pareciam felizes com a presença do clã ali.
Era dessas pessoas que ele vinha requisitando ajuda.
Naquela tarde, Rhuan tinha se sentado em uma cafeteria para comer algo enquanto observava o movimento. Seu clã estava espalhado pela cidade, aproveitando as festas de Madrid, a presença das pessoas ou o calor das viúvas. E mesmo entre os passatempos mais diversos, o clã tinha se mantido firme em sua busca pelo que seria a "Guarda Perséfone", a pista de Pietra sobre sua família, ou qualquer coisa que pudesse estar relacionada com o aumento na atividade de névoa.
Até aquele momento, tudo tinha dado em nada. E então, enquanto saboreava a pequena tigela de mingau de baunilha que seu dinheiro pode comprar, ele viu uma mulher bem ansiosa se aproximar dele pela rua. Ela segurava a mão de um menino que não devia ter mais de quatro anos de idade.
— Senhor Flores?
Rhuan levantou o olhar. Embora de forma geral os Flores fossem reconhecidos pelos pés descalços, ele era sempre o que chamava mais atenção em uma multidão, graças ao corpo coberto por tatuagens. Assim, era comum que as pessoas procurassem por ele primeiro quando tinham algo para dizer. Daquela vez não era diferente.
— Sim. Senhorita…?
— Senhora. Senhora Luísa Martín.
— Sou Santiago Flores — ele disse, se levantando e pegando a mão dela para deixar um beijo educado nas costas. — É um prazer conhecê-la. Em que posso ajudar?
O garotinho de quem ela segurava a mão tentou correr para pegar um pouco do mingau de Rhuan, e a mulher o puxou de volta.
— Juanito, que falta de modos!
A criança emburrou e ficou quieta, mas Rhuan via os olhos brilhantes do garoto para o mingau.
— Sou eu quem acho que pode ajudá-lo, senhor Flores. — Luísa completou. — Umas amigas disseram que vocês estão procurando uma coisa… E eu acho que posso ajudar.
— Guarda Perséfone?
— Sim. Você se importaria de me acompanhar?
Rhuan olhou em volta às pressas, mas seu clã não estava exatamente à vista. Bom, talvez não fosse nada demais. Ele podia conferir a informação sozinho e buscá-los caso fosse algo relevante.
— Tudo bem. Mostre o caminho.
O Flores deu o resto de seu mingau para a criança, que ficou um pouco sem graça depois de ter sido repreendido pela mãe, mas aceitou. E assim Rhuan seguiu a mulher e seu filho pelas ruas de Madrid, até um sobrado pequeno mas luxuoso, de dois andares.
Ele entrou junto dela e seu olhar correu pelo local. A madeira era de qualidade, os móveis ricos… Rhuan passara tempo o bastante navegando para reconhecer mercadoria de luxo, principalmente os tipos diferentes de madeira. Era um pouco mais raro que famílias ricas quisessem ajudar um Flores, então rapidamente Rhuan percebeu que ela teria algo para ganhar com o que quer que fosse.
Ele se impediu de suspirar. A mulher continuou o guiando pela casa até a sala de jantar, e lá ela parou na frente de uma cristaleira de luxo.
— Me ajude por um instante — Luísa pediu, começando a empurrar a cristaleira para o lado.
Rhuan se juntou a ela e, com alguma dificuldade, pois o móvel era mesmo pesado, conseguiram afastá-lo da parede. E nesse instante ele percebeu por que uma pessoa de classe tão alta tinha decidido ajudar um cigano.
Havia uma porta de madeira atrás da cristaleira. Não era uma porta comum. Estava coberta de entalhes de símbolos pagãos e figuras gravadas, incluindo alguns lobos e várias rosas. Encabeçando todos os desenhos havia uma faixa, e nela estava desenhada uma frase em ouro que já começara a desbotar. Ele não conseguia ler, exatamente, pois não falava esloveno, mas reconhecia o escrito muito bem.
— Persefonska zaščita. Guarda Perséfone…
— Sim — a mulher respondeu. Rhuan percebeu impaciência no tom de voz dela. — Meu marido estuda línguas, ele quem descobriu o que isso aí era. Você consegue abrir? Essa porta está aí desde que meu marido comprou a casa para nós. Nunca conseguimos descobrir o que era, mas está cheia de símbolos satânicos e…
Rhuan se virou para ela, de repente. Satânicos. Eram símbolos pagãos. Ele era um bom cristão, tanto quanto qualquer outro, mas sabia que diminuir as crenças dos outros ou vê-las como demoníacas não colocava a dele como se fosse melhor.
Luísa pareceu perceber que ele não estava satisfeito com algo, pois se calou. Rhuan voltou a atenção para a porta, procurando algum sinal, alguma resposta, e de repente seu olhar se recaiu sobre uma pequena reentrância circular no meio dela. Havia uma espécie de botão no fundo, mas ele apertou e nada aconteceu.
— Já tentamos apertar isso aí um monte de vezes, não faz nada.
Mais uma vez, o Flores tentou não suspirar em frustração, mas a mulher não estava fazendo muito pela paciência dele. Rhuan manteve a calma enquanto analisava a reentrância e o botão, e então, de repente, teve uma ideia.
— Senhora Martín, tudo bem se eu trouxer o restante do meu clã aqui?
— Vai abrir essa maldita porta? Já tentamos até derrubar, mas disseram que poderia prejudicar a estrutura da casa.
— Acho que sei o que fazer. Com sua licença.
Ele fez uma breve reverência e deixou a casa, ainda com um ar calmo e gentil, mas por dentro se segurando antes que acabasse perdendo a compostura com o jeito arrogante da mulher.
Encontrar seu clã não foi difícil, não para ele, que os conhecia como a palma de sua mão. Charles estava em um beco com uma das viúvas da cidade, Letitia tinha se distraído com alguns doces artesanais e ele encontrou Apolo e Pietra conversando amigavelmente em um banco na praça central.
— O que aconteceu? — Pietra perguntou, vendo o restante do clã se aproximar dela e de Apolo.
— Santiago achou algo — Letitia explicou.
— É melhor ser algo bom. Eu estava ocupado.
— Charles, se formos seguir nossa investigação para adequar a sua eterna vontade de nunca manter a calça no devido lugar, não vamos chegar a lugar algum.
Rhuan viu Charles pensar em uma resposta, mas o caçador se calou e deu de ombros. Sinceramente… ele nem tentava discutir… Como podia ser tão ignorante? As prioridades deles estavam todas erradas! Tinha gente morrendo e tudo que Charles conseguia pensar em fazer era enfiar o pau no buraco mais próximo?!
— Santiago?
— Pois não?
— Para onde vamos? — Pietra questionou.
Rhuan abriu um sorriso leve e a chamou com um gesto da cabeça.
Logo o clã o seguiu, e eles estavam de volta à sala de jantar da casa de Luísa Martín. Rhuan viu no rosto dela o desagrado com a quantidade de ciganos em sua casa, mas obviamente o desejo de se livrar do que quer que estivesse atrás da porta era mais forte do que a repulsa que tinha por eles, pois ela se sentou em uma poltrona com um bordado onde podia observá-los, mas se fingindo ocupada o bastante para não dar atenção.
Tanto melhor, Rhuan pensou. Ele mostrou a porta aos companheiros, mas mais importante, mostrou o buraco no meio dela. Aquele com um botãozinho no fundo.
— Acho que é algum tipo de mecanismo, que precisa da chave certa para abrir.
— Mas não tem fechadura — Charles comentou.
— Mas tem um buraco. Pietra… Pode me emprestar o seu medalhão, por favor?
E no que Rhuan estendeu a mão para ela, ele viu os olhares de compreensão no rosto do clã. Pietra o entregou o medalhão, embora, ele percebeu, com alguma relutância, e o caçador o encaixou perfeitamente no buraco da porta.
Então ele empurrou um pouco, e ouviu um clique. Ocorreu um breve silêncio e logo em seguida o ruído de engrenagens girando e madeira sendo empurrada sobre pedra tomou a sala, e a porta se abriu para trás, revelando uma escadaria que descia em direção ao escuro. Apolo soltou um gritinho de surpresa, Charles e Letitia estavam boquiabertos e Pietra parecia um pouco assustada.
Rhuan queria acalmá-la, mas sentiu que naquele momento a melhor forma de acalmar os ânimos era chegar logo ao fim de tudo e mergulhar em todas as surpresas de uma vez. Ao lado da porta, ele viu um suporte com algumas tochas e várias teias de aranha. Aquela porta certamente não era aberta há muito tempo, e Rhuan se perguntou se haveria óleo nas tochas para que se acendessem.
— Charles, está com a sua pederneira?
Charles concordou e entregou a pederneira a Rhuan, que acendeu uma das tochas. O fogo demorou um pouco para pegar, mas acabou funcionando, e dali o caçador passou o fogo para mais outra tocha que entregou para Charles segurar.
— Então agora é só ver o que tem no final do corredor — Letitia comentou, com um tom receoso por baixo da máscara de animação.
Ela não era a única. Rhuan sentiu no ar como todos estavam animados, mas cautelosos, e não podia culpá-los por isso. Ele mesmo, por mais que estivesse com uma mistura de empolgação e curiosidade por ter encontrado uma nova pista, não sabia o que ia encontrar lá embaixo, e um porão secreto não parecia boa coisa.
— O que será que tem lá embaixo? — Pietra perguntou.
Ela ainda parecia muito receosa. Rhuan estendeu a mão para ela.
— Só um jeito de descobrir.
Embora ainda nervosa, ela segurou a mão dele, e Rhuan conduziu-a escada abaixo.
— Eca, tem teias de aranha aqui! — Apolo resmungou.
— Quem sabe não tem as aranhas de verdade também? — Charles provocou, caminhando com os dedos pelo braço de Apolo.
— Ei, pare com isso!
— Parem os dois! — Letitia repreendeu. — Uma queda nessas escadas poderia matar! Se comportem uma vez na vida!
Rhuan ainda ouviu uns últimos empurrões leves, mas de forma geral as duas crianças pareceram começar a agir como adultos antes que ele precisasse interferir. Então o caçador seguiu em frente, ajudando Pietra pelo caminho, até que chegassem ao fundo da escadaria.
Era um porão pequeno e muito empoeirado. Havia uma prateleira, algumas mesas, ambas cobertas de vidros fechados, e alguns vasos de plantas vazios. Em uma das mesas haviam pilhas de papeis decompostos pela metade, e o cheiro no lugar com certeza não era dos melhores.
— O que é isso? — Pietra perguntou, olhando em volta.
Rhuan viu como ela parecia perdida. Não era um lugar bonito para se estar, e certamente não era um lugar bonito para que o seu passado a levasse.
— Só está velho. Mas parece ter sido um belo jardim — Rhuan comentou, tentando acalmá-la um pouco. — Charles, o que estamos vendo aqui?
— Está abandonado a no mínimo cinco anos, eu diria. As plantas não só morreram como se decompuseram por completo. Algumas das folhas engarrafadas e desidratadas estão inteiras ainda, são o tipo de coisa que eu conservo para incenso.
— Ei, Pietra, olha só — Apolo chamou, fazendo uma careta surpresa para ela.
Apolo podia ser um crianção, mas era um crianção ótimo para fazer pessoas rirem em horas como aquela. Pietra virou a atenção para as brincadeiras sem sentido de Apolo e Rhuan aproveitou isso para se concentrar em algo.
Alguma coisa nos papeis em cima daquela mesa estava chamando a atenção de Rhuan. Ele se aproximou, ainda segurando a tocha, e constatou que como tinha imaginado, se tratavam de mapas. Mas não eram mapas quaisquer.
— Madre de dios… — ele murmurou, fazendo o sinal da cruz.
— O que foi, Rhuan?
A voz de Letitia soou ao seu lado, sussurrada. Ele olhou para trás e viu que Charles estava ocupado analisando e roubando alguns potes de plantas desidratadas, e que Apolo estava distraindo Pietra com o que pareciam flertes descarados mas feitos com puro propósito cômico, nada para se levar à sério.
Ele e Letitia estavam isolados dos outros.
— Cartas náuticas — ele respondeu, mostrando os mapas para Letitia.
E fazia tanto tempo! Embora Rhuan tivesse estado no mar no mês anterior, já sentia sua alma ser chamada de volta pelas ondas. Mais que isso, sentia falta de ser mais que um passageiro, sentia falta de ser parte da tripulação, parte do navio. E agora, ali estava uma pilha de cartas o chamando de volta para o passado que ele tanto vinha lutando para conciliar com a outra parte de sua vida.
Ele suspirou e deu uma boa olhada nos papeis. As cartas documentavam o litoral leste da Espanha e o mar até as Ilhas Baleares. Em várias das cartas, a mesma ilha estava circulada, marcada com um X ou até com um dos símbolos pagãos que Rhuan vira na porta.
— Você conhece esse lugar?
— Sim. São as Ilhas Baleares. Essa aqui, marcada nas cartas, é Menorca. Tinha sido tomada pela Inglaterra, voltou à posse da Espanha fazem apenas dezesseis anos.
Ela olhou para as cartas, e então para Rhuan, e ele soube com um olhar o que estava se passando na mente dela.
— Os símbolos pagãos, todas as plantas, agora isso… Rhuan, e se a linhagem de Pietra tiver algo a ver com os problemas que temos enfrentado?
— Pode não ser nada, Letitia.
— Mesmo que não seja nada para o clã, é algo para ela. E.. Não podemos perder tempo, Rhuan. E se decidirmos não fazer nada sobre isso e...
E com isso ele sabia o que Letitia queria dizer. E não queria discutir. Céus, não queria. Queria aproveitar a chance, pegar as cartas, pegar sua bússola e voltar a colocar a mão no leme, como aprendera a fazer. Rhuan não pode impedir um sorriso no rosto. Iria finalmente, depois de tantos anos, conseguir colocar suas duas paixões no mesmo lugar?
Ele recolheu as cartas e se virou para o restante do clã.
— Ei! — os outros três se viraram para ele, Charles empilhando sete vidros de plantas nos braços. — Encontrei algo.
— Eu também — Charles respondeu, rindo.
Rhuan levantou a sobrancelha.
— Ah, sejamos sinceros, a dona da casa não vai querer nada disso pra ela.
O marinheiro suspirou. Sinceramente…
— O que você achou? — Pietra perguntou.
O sorriso voltou ao rosto dele, e ele mostrou as cartas para o restante do clã.
— Um mapa. Quais de vocês já andaram de navio na vida?
