Algumas lendas são contadas
Algumas se tornam pó e outras ouro
Mas você vai lembrar de mim,
Lembre-se de mim por séculos
E apenas um erro
É tudo o que vai precisar,
Nós vamos ficar na história
Lembre-se de mim por séculos
Centuries — Fall Out Boy
Hunedoara, Império Austríaco
17 de Outubro de 1818
Edgar nem mesmo esperou a carruagem parar por completo antes de saltar para fora e correr em direção à porta do castelo. Não esperava que Octavian melhorasse no caminho até sua casa apesar de não achar que ele pudesse piorar, mas agora tinha que admitir que o estado do rapaz não era dos melhores. Ele estava branco como cera de vela, vinha suando frio com frequência e Edgar temia que pudesse ter pego uma infecção de alguma das feridas que o mais velho custara a tratar.
O caçador respirou fundo e bateu a aldrava na porta repetidas vezes, incessantemente, até que ela se abrisse.
— Onde está o médico?!
A camareira o olhou atordoada e demorou alguns segundos até parecer entender a pergunta e responder algo inteligível.
— No andar de cima, senhor Van Helsing…
A esse ponto, a carruagem já tinha parado na porta. Edgar voltou correndo até ela e a abriu, pegando Octavian nos braços. O jovem estava tremendo um pouco e murmurava frases desconexas e sem sentido. Estava delirando. Isso nunca era bom sinal.
Edgar atravessou o hall de entrada e o salão principal tão rápido que não achava que já tivesse corrido rápido assim nem para salvar a própria pele. Ele começou a subir as escadas saltando degraus, sem saber muito bem se era bom para Octavian que o balançasse desse jeito. Por outro lado, já tinha corrido tanto com a carruagem que não achava que fosse fazer tanta diferença. Ele ouviu os murmúrios da criadagem pelo caminho e soube que Nicoleta iria descobrir antes do esperado que o médico não era para ele, mas, naquele momento, também não se importava com isso. Edgar seguiu até o quarto de Octavian, ordenando uma camareira no caminho que buscasse o médico, e colocou o caçador na cama dele.
Octavian não estava nada bem. O médico apareceu rapidamente, cumprimentando Edgar com um aceno de cabeça e correndo até o caçador.
— O que aconteceu?
— Vampiros. Ele foi pego em um ninho…
Edgar engoliu em seco. Por algum motivo, não pareceu certo dizer que Octavian tinha falhado pelo seu próprio ego.
— Há muita perda de sangue. — O médico virou o pulso de Octavian para olhar, apertando o local. — Ele está com o pulso muito baixo.
"Há muita perda de sangue."
Edgar balançou a cabeça tentando afastar as lembranças indesejadas. Não era nisso que tinha que pensar agora. Tinha que focar em Octavian, era ele quem precisava de ajuda agora. Edgar sentiu o coração acelerar e algo agarrar em sua garganta.
— O que pode ser feito? O que eu posso fazer?
O médico não chegou a responder. As portas do quarto foram escancaradas e o que Edgar mais temia, aconteceu. Nicoleta estava parada ali, quase tão pálida quanto o irmão, e a expressão de horror no rosto dela foi tão dolorosamente familiar a Edgar que, junto a seu desespero, começou a se sentir nauseado também.
— Onde está meu irmão?!
"Onde está minha filha?"
Não. Não, não, não… Não era nisso que ele devia focar agora. Não nesses pensamentos. Em Octavian. Em Nicoleta.
O olhar da líder recaiu sobre a cama e Edgar teve muita certeza de que ela teria corrido até lá, se nesse exato instante Narcissa e Vladmir não tivessem aparecido para segurá-la pelos braços.
— TAVVY!
A forma irritada que o médico olhou para ela deixou bem claro que ele não queria barulho e nem interrupções naquele instante. Porém, Nicoleta não parecia ligar, uma vez que Vladmir e Narcissa juntos estavam tendo dificuldades para segurá-la. Enquanto os dois tentavam dizer a ela para manter a calma, Edgar tomou uma decisão. Ele foi até a líder, a empurrando pelos ombros e, com a ajuda dos outros dois caçadores, o quarteto logo estava no corredor do castelo.
Edgar fechou a porta do quarto atrás de si e os três levaram Nico até o quarto ao lado, se fechando lá dentro com ela.
Narcissa e Vladmir a soltaram, enfim. Ainda muito nervosa, ela estava tremendo e Edgar temeu que ela também fosse precisar de um médico em breve.
— Senhorita Van Helsing, você precisa respirar um pouco…
— O QUE ACONTECEU?
Edgar não a culpou por gritar. Entendia a vontade dela de exalar frustração de alguma forma, entendia que ela quisesse descontar na pessoa mais próxima. Especialmente quando ele tinha mentido sobre o médico.
Ele narrou em frases curtas e objetivas tudo que acontecera desde que vira Octavian entrar na caverna. Ao restante do clã não lhe pareceu necessário omitir as irresponsabilidades dele, mas em verdade, lhe pareceu justo que Nico soubesse exatamente as circunstâncias da situação. E quando ela começou a se acalmar e as lágrimas deram lugar à fúria, ele terminou dizendo que não queria deixá-la ansiosa por dias, e que por isso dissera que o médico era para ele.
Se a líder estava furiosa pela mentira, nada disse. Ela tinha se sentado em uma poltrona, Vladmir parado ao seu lado com uma mão em seu ombro, e Narcissa ajoelhada no chão, segurando uma mão dela entre as suas.
Edgar não sabia mais o que fazer ou dizer. Ele se sentou em outra poltrona, e decidiu respirar um pouco.
— Nico…
A voz de Narcissa saiu em um murmúrio, e ela apertava a mão de Nico com um carinho que ele nunca antes vira nas mãos da caçadora. Ela costumava ser bruta na maior parte das vezes ou, se suave, como uma cobra. Nunca como uma flor.
Vladmir também se abaixou ao lado dela, e mais uma vez, Edgar sentiu um soco na boca do estômago.
Não era segredo para ele a natureza do relacionamento dos três. Eles gostavam de transar. Gostavam de fazer isso juntos. Não eram os primeiros e não seriam os últimos. A surpresa estava em ver que, de alguma forma, eles ligavam uns para os outros. Edgar não achava que já tivesse os visto demonstrar qualquer coisa um para o outro que não fosse um flerte ou uma piada de baixíssimo nível. Céus, ele achava que até aquele momento nem mesmo os três sabiam que se importariam de ver um deles sofrer.
E, de alguma forma, aquilo doeu ainda mais.
— Fiquem com ela — ele orientou. — Eu vou esperar por notícias.
Vladmir respondeu com um aceno de cabeça, e Edgar ainda viu Narcissa deixar um beijo na mão de Nico antes que saísse do quarto.
Precisava respirar. Aquilo… Ver os três juntos daquela forma, sabendo que sua viagem de volta para casa tinha falhado… Ele queria reacender qualquer coisa em seu casamento, mas Pandora sequer o deixara tocá-la, reclusa que seguia em seu próprio luto e suas próprias dores.
Ele não a culpava. Perder a filha tinha o mudado também.
Edgar não se surpreendeu em achar os pais de Octavian parados no corredor ao deixar o quarto. Ambos pareciam completamente impassíveis, sem reação, sérios e controlados, mas Edgar conhecia os olhos de alguém que estava mascarando a dor. Marcel e Cornelia estavam parados tão firmemente no corredor que poderiam ser confundidos com as armaduras que enfeitavam o local.
Sentiu-se um pouco intruso de ficar ali em um momento que parecia tão familiar, mas, ao mesmo tempo, fora ele quem carregara Octavian para fora daquela caverna em seus braços. Quem cuidara dele por dias na carruagem. Quem prometera, no meio dos delírios do caçador, que não o deixaria ser esquecido. Que bem faria à sua promessa se, logo depois de dizer que não o esqueceria, o deixasse em seu leito de morte?
Edgar não soube por quanto tempo ficou parado naquele corredor. Eventualmente, porém, a porta se abriu e o médico saiu, seguido de uma enfermeira. Ele entregou sua bolsa para ela, e a mulher logo foi saindo pelo corredor.
O médico estava indo embora. Rapidamente. Edgar soube na mesma hora que não significava boas notícias.
— A família está toda aqui? — o homem perguntou.
Como Marcel e Cornelia pareciam ainda incapazes de se mover de qualquer forma que fosse, Edgar assumiu para si a tarefa de bater na porta do outro quarto e chamar Nico para fora. Ela saiu segurando uma mão de Narcissa e outra de Vladmir, e os três pararam no meio do corredor como uma corrente de apoio para Nico.
O médico os olhou e Edgar viu em seu rosto como ele estava lutando com as palavras. Como estava procurando o que dizer. Ou, melhor, como dizer.
— O senhor Van Helsing sofreu uma hemorragia extrema. Tenho certeza de que foi bem cuidado na medida do possível no caminho até aqui. Os ferimentos estão bem tratados, mas não há forma de repor o sangue que ele perdeu a tempo para uma recuperação.
Edgar viu Cornelia se mover, enfim, apenas para enxugar uma única lágrima como se ela nem estivesse ali.
— O que está dizendo, doutor? — Vladmir perguntou. Ninguém mais parecia ser capaz de dizer qualquer coisa.
— Estou dizendo que a família dele precisa ficar com ele agora. Deixá-lo confortável e acalmá-lo. E… Que eu sinto muito.
E em um último aceno de cabeça, o médico foi embora pelo mesmo caminho que a enfermeira tinha ido.
Por alguns segundos, o clã ficou parado no corredor. Edgar conhecia a negação no ar. O estado de inércia em que os outros estavam. Ele não queria deixar Octavian sozinho agora, não agora de todos os momentos. Decidiu entrar no quarto, mas de repente Nico saiu de seu estado catatônico, se soltou dos namorados e foi a primeira a invadir o aposento.
Edgar a seguiu, assim como o resto do clã. Ele, Vladmir e Narcissa pararam mais perto da porta, enquanto Nico correu até a cama, se ajoelhando ao lado dela e segurando a mão do irmão. Marcel e Cornélia se aproximaram, ainda sem dizer nada, e pararam atrás da filha.
Octavian ainda delirava. Ele estava ainda mais pálido que antes, bastante suado e mais trêmulo. Tinha sido coberto em cobertores e ainda assim parecia sentir frio. A respiração dele estava forçada e ruidosa, e parecia exigir uma força dos pulmões que Edgar sabia que ele não continuaria tendo por muito tempo. Octavian apertou a mão de Nico, e continuava murmurando, agora com a voz ainda mais baixa e distante.
— Nico…? Nico, não consigo ver…
— Sou eu, Tavvy! Eu estou aqui, ok? Estou aqui com você…
Aquilo não era justo. Octavian era jovem. Tinha cometido um erro, um erro apenas, consequência de um desejo desesperado de que não partisse sem ter seu nome gravado na história do clã. E agora era exatamente isso que ia acontecer.
Ele ainda tinha uma vida inteira pela frente… Mas agora não iria ter.
— Nico… Eles vão… Me esquecer… Não deixe…
Ela não respondia mais. Estava tentando muito fortemente não chorar enquanto ele estava acordado, Edgar percebeu, mesmo que o irmão muito provavelmente não conseguisse entender uma palavra do que ela dizia. Talvez nem soubesse que ela estava ali. Talvez achasse que estava morrendo sozinho.
— Por favor… Não deixe que me esqueçam…
Depois disso, Octavian não falou mais. O quarto mergulhou em silêncio, pontuado pela respiração forçada dele, alguns gemidos de dor e um ou outro soluço. E mesmo esses sons pararam, tempos depois, quando o peito de Octavian parou de se mover e ele não respirava mais.
— Tavvy? — Nicoleta chamou, se ajoelhando mais para perto e fazendo um carinho no rosto dele. — Tavvy, por favor… Tavvy?!
E Edgar decidiu que não podia assistir muito mais que isso. Ele a ouviu se desfazer em gritos e lágrimas. Mesmo Cornélia se deixou abraçar por Marcel, ela chorando silenciosamente e ele segurando as próprias lágrimas porque queria parecer forte para as duas mulheres de sua família.
Era como reviver um pesadelo. Ele saiu do quarto e caminhou desembestado pelos corredores, sentindo o próprio coração acelerar enquanto via de novo e de novo o corpo morto da filha de seis anos em sua mente. A expressão de horror no rosto de Pandora ao encontrar a garotinha. Tudo de novo… Tudo…
Ele poderia ter salvado ela.
Ele poderia ter salvado ele.
Mas agora era tarde demais. Edgar se viu parado no meio do salão de jantar do castelo, a lareira estranhamente acesa para a época do ano, mais fria que o usual. Ele encarou as chamas dançando nas brasas, e então as próprias mãos. Não importa quanto tempo passasse, o quanto se lavasse, ainda conseguia ver o sangue de sua filha ali.
— Clarissa… — ele murmurou, a voz tomada por um tom de choro e a garganta dolorida pela tentativa de se segurar.
Enfim ele desistiu e, com a mente tomada por imagens do corpo da filha e do jovem caçador que falhara em salvar, Edgar se sentou no chão do salão e deixou as lágrimas que guardava dentro de si escorrerem todas de uma vez.
