Outro herói

Outro crime impensável

Atrás da cortina

Na pantomima

Segure a linha

Alguém quer segurar um pouco mais?

O show deve continuar

O show deve continuar, sim

Por dentro meu coração está se partindo

Minha maquiagem pode estar escorrendo

Mas meu sorriso

Ainda permanece

The Show Must Go On — Queen

Hunedoara, Império Austríaco

18 de Outubro de 1818

O enterro de Octavian foi regado de silêncio.

Houveram discursos, obviamente. Ele implorara em seu leito de morte para não ser esquecido, e de forma alguma deixariam que isso acontecesse já em seu enterro. O pai dele fez um discurso. A mãe dele fez um discurso. Nicoleta fez um discurso. Os que tinham algo a dizer, disseram; os outros apenas assistiram.

Outros como Narcissa. Ela simplesmente não sabia o que falar. A personalidade gélida dos Van Helsing não deixou que houvessem choros compulsivos ou lágrimas derramadas, mas a caçadora sentiu a força com a qual Nico apertava sua mão, e soube que a líder estava longe de estar bem.

E assim, o corpo de Tavvy desceu no caixão pela cova. Os pais dele e Nico jogaram terra por cima do caixão, e o casal se retirou, mas Nico ficou parada ali por algum tempo.

Ela não disse nada. Cissa já segurava uma das suas mãos e Vlad pegou a outra, mas Nico sequer olhou para eles. Ela continuou ali, parada, sem dizer nada, até que os coveiros acabassem de tampar o buraco e fossem embora. E só quando isso aconteceu, a líder se soltou de Vlad e Narcissa e foi fazendo o caminho de volta para o castelo. A pé.

— Nico? — Vlad chamou.

Ele fez menção de ir atrás dela, mas Cissa o segurou pelo pulso.

— Acho melhor a gente deixar.

— Deixar o quê? Ela sozinha pela cidade, mergulhada em luto, com as manifestações de monstros aumentando, sem o chicote dela e com uma provável ponta de culpa que pode facilmente se transformar num pensamento suicida?

Narcissa ficou surpresa. Não sabia porque, mas nunca esperava as ideias inteligentes vindo de Vlad. Não era a primeira vez que ele a surpreendia e provava o contrário.

— Entendo o que quer dizer. O que vamos fazer? Seguir ela?

O caçador deu de ombros e ela percebeu, frustrada, que era exatamente isso que teria que fazer. Cissa murmurou uma palavra nada adequada para ser dita por uma dama e conferiu se suas facas estavam no lugar. Então, ela saiu a passos firmes pela cidade.

Vlad veio ao lado dela. O vento estava bem mais frio do que o esperado, e a caçadora fechou seu casaco para se proteger. Nicoleta andava vários passos à frente e, se percebeu que estava sendo seguida, não demonstrou ou não se importou com a companhia.

Assim, vários minutos depois, Vlad e Cissa estavam caminhando pelas ruas de Hunedoara, a uma distância considerável da líder. Não sabiam ainda para onde ela estava indo ou se tinha algum destino certo. Vários minutos depois ela entrou em um estabelecimento da cidade.

Era um bar. Um bem pequeno e sujo para os padrões de uma Van Helsing, mas Cissa assumiu que Nico estava tentando escapar de lugares conhecidos naquele momento. A líder se sentou no balcão, completamente destoada do ambiente em seu rico vestido preto, e restou a Vlad e Cissa pedirem uma mesa do outro lado do bar.

Cissa viu Nico pedir uma bebida para si, e se recostou na cadeira. Aparentemente, se iam vigiar a mulher, ficariam ali por um bom tempo.

— Eu quero uma dose de rum — Vlad comentou.

— Não, você não quer. Estamos aqui pra cuidar de Nico. Eu só consigo vigiar um bêbado por vez, Vlad.

O caçador suspirou e batucou os dedos na mesa, impaciente. Cissa se concentrou em não o repreender por isso. Sabia que ela e Nico eram apenas um passatempo para ele, mas vinha sentindo, mais e mais, que talvez a caçadora significasse mais que isso para ela. Sabia que o pensamento era sem futuro. Nico a estava usando tanto quanto Vlad, e era bem provável que os dois acabassem concordando com a ideia de Cornelia de se casarem, e então a deixassem de lado. Seria irônico se não fosse trágico, a julgar que muito provavelmente ela era a única dos três que dava a mínima para o que eles tinham.

Cissa olhou para Vlad por um tempo, vendo o olhar dele fixo em Nicoleta. Havia muita seriedade neles, mas também algo mais. Algo parecido a dúvida… Incerteza… Preocupação, talvez?

Não podia culpá-lo. Ela mesma não sabia o que fazer em relação a Nico agora, e pior, não sabia o que ela ia fazer com ela mesma.

Os dois ficaram muito tempo em silêncio, vendo Nico beber, até que Cissa cansou de remoer seus pensamentos sozinha.

— Vlad?

Ele respondeu com um "hm" murmurado.

— Você vai se casar com Nico?

Essa pergunta tirou o olhar dele de cima da líder. Ele se virou para Narcissa, e parecia completamente incrédulo com a pergunta. Parte de Cissa a fez sentir que aquilo queria dizer que a resposta era muito óbvia, mas ainda assim, queria ouvir da boca dele.

— É óbvio que não. Por que eu faria isso?

— Eu não sei. As coisas vão ficar… Diferentes agora. Não dá para achar que os Van Helsing não ocupam uma posição de status e poder na sociedade. Com Octavian morto, pode ser que Cornelia pressione Nico ainda mais. Talvez queira evitar que ela também morra sem deixar herdeiros, o que faria o clã passar para outra família.

Vlad suspirou e deu de ombros. Cissa não pode deixar de sentir uma espécie de conforto ao ver esse gesto, pois sabia que isso significava que ele não ligava para nada disso.

— Isso é problema delas. Eu não quero me casar, ponto.

— E o que acontece se Nico se casar com outro?

A expressão de Vlad se fechou.

— Ela não vai. Ela não quer. Você a conhece tanto quanto eu. Vê isso acontecendo?

Há alguns dias atrás, Cissa diria que não. Agora… Tudo ia mudar, e ela não sabia para o quê. E se a balança equilibrasse as atitudes de Nico para o lado errado, poderia levar para uma série de efeitos em cascata que a levaria a tomar uma má decisão atrás da outra, e resultar em uma vida infeliz.

— Eu não sei mais o que eu vejo agora, Vlad. Eu só não quero que tudo mude para pior.

— Acho que é tarde demais.

E mais uma vez, Cissa se surpreendeu com o que Vlad tinha falado. Era curioso. Em partes, chegava a soar como…

— Edgar…

— O que tem ele?

— Edgar, Vlad! Ali!

Cissa indicou a entrada do bar, por onde Edgar acabara de passar. Ela viu Vlad se endireitar na cadeira, e ela mesma tinha mudado a postura. O caçador entrou no bar com um sorriso pequeno no rosto, atravessou o aposento, deu um aceno de cabeça para o casal e se sentou no bar, bem ao lado de Nico.

— O que ele está fazendo? — Vlad perguntou.

— Conversando?

— Pensei que fosse melhor dar um tempo a ela.

Cissa não soube o que responder. Embora concordasse que era melhor, não tinha como tirar Edgar do lado de Nico agora sem fazer um escândalo. E ela percebeu, surpresa, que não queria fazer isso. Que se alguém poderia entender o que ela estava sentindo agora, era ele. Talvez, quem sabe, ele tivesse um bom conselho para dar.

— Deixe-os.

— Mas…

— Vlad, deixe Edgar falar com ela. Vamos só esperar.

Embora Vlad parecesse frustrado, Cissa sabia se impor quando era necessário. Ela firmou o olhar na direção de Vlad, e passou o braço na frente dele, o segurando no lugar. Não precisou de muito mais que isso. Vlad era teimoso, mas era também uma pessoa de vontade bem mais fraca que a dela. Alguém que, se necessário, ela conseguia dobrar.

E assim, eles assistiram por um longe tempo enquanto Edgar e Nico conversavam. Eles pediram drink atrás de drink, e em algum momento a conversa foi tomada de risadas sarcásticas e o que Cissa tinha certeza, à distância, serem palavras de baixíssimo calão. Eventualmente, horas depois, Edgar se levantou. Ele se despediu de Nico beijando a mão dela como apropriado e saiu do bar.

— Eu vou atrás dele — Cissa comentou, se levantando.

— Pra quê?

— Como "para quê"? Quero saber como Nico está! Você fique de olho nela, entendeu?

E antes que ele pudesse discutir, Cissa pegou seu casaco e deixou o bar.

Felizmente para ela, Edgar não estava com pressa, e ela conseguiu facilmente alcançá-lo na esquina.

— Essa foi uma conversa bem longa.

O caçador se virou para ela, com as mãos nos bolsos dos casacos. Ele parecia péssimo. Não era difícil entender o porquê. Ele tinha carregado Octavian semi-morto por dias em sua carruagem, feito de tudo para salvá-lo, e ainda assim… Sem mencionar que Cissa também conhecia a história da filha dele. Juntando tudo com os rumores sobre o casamento indo por água abaixo, não era difícil entender o estado emocional em que Edgar estaria agora.

Ainda assim, ele deu um sorriso. Pequeno e, Cissa percebeu, um pouco forçado. Mas deu.

— Não precisa de jogos comigo, Narcissa. Apenas pergunte o que quer saber.

Ela levantou a sobrancelha para o uso de seu primeiro nome, pois não os julgava íntimos a esse ponto. Mas não achava que tinha sido uma questão de intimidade, de qualquer forma.

— Como ela está?

— Péssima nem começa a definir.

É claro. Que tipo de resposta esperava?

— O que eu faço?

— Não a deixe sozinha. E… Não a deixe desistir. Não a deixe ser engolida pela vida e pelos acasos.

Seria impossível para Cissa não perceber o quanto do conselho estava atrelado à vida pessoal de Edgar. De repente, Cissa percebeu que ele também estava precisando de ajuda, mas não fazia ideia do que fazer. Ela mal tinha trocado algumas palavras com o homem ao longo de sua vida de caçadora. Não eram nada íntimos um do outro.

— E você? Como você está?

— Minha mulher não me ama mais, meu trabalho está se tornando mais perigoso e eu acabei de reviver a morte da minha filha. Estou miserável, Narcissa. Obrigado por perguntar.

E mais uma vez, ela não sabia o que fazer. Cissa sentiu que precisava ajudar Edgar de alguma forma, mas naquele instante, a porta do bar se abriu e Nico saiu, mal conseguindo ficar de pé, completamente bêbada. E logo em seguida saiu Vlad, carregando o casaco dela e as luvas que a líder deixara para trás.

— Ah. Estamos tendo uma festa? — a líder perguntou, com um riso de escárnio, vendo a reunião do clã do lado de fora.

— Nico, está frio. Vista seu casaco, por favor. — Vlad pediu, tentando se aproximar dela.

A mulher empurrou Vlad debilmente, o que serviu apenas para que ele a segurasse pelos braços e começasse a vestir o casaco nela. Nico não resistiu, e em verdade, o ofereceu o outro braço para vestir.

— É melhor irmos embora — Cissa sugeriu. — Está ficando tarde.

— Eu vou buscar uma carruagem — Edgar ofereceu, deixando os três por um instante.

Cissa e Vlad trocaram olhares. Estava visível a preocupação dos dois, e naquele olhar Cissa percebeu que Vlad estava deixando com ela a responsabilidade de fazer algo a respeito. Realmente, ela pensou, era a melhor decisão.

— Nico, vamos fazer uma coisa de cada vez, ok? Você precisa ir embora, tomar um banho frio, e dormir.

— Ah, me deixa em paz, Narcissa! Você também! — ela retrucou, arrancando o casaco que Vlad custara a colocar nela e o jogando em cima do caçador. — O que vocês acham que estão fazendo, hã? Eu não vou transar com vocês hoje, então saiam de cima de mim!

Cissa sequer conseguiu conter a surpresa. Sabia que Nico estava bêbada, mas ouvir aquilo foi, de certa forma, ofensivo. Sabia que Nico a estava usando, mas não esperava que a líder pensasse que Cissa faria uma coisa dessas com ela. A caçadora fechou a cara e pegou Nico pelo pulso, começando a arrastá-la pela rua.

— Ah… Cissa?

— Calado, Vlad.

— Me solta, Cissa! Eu não quero… Me solta…

Narcissa respirou fundo. Nico estava bêbada e em luto. Poderia gritar com ela no meio da rua, a mandar acordar, dizer a ela para seguir em frente. Dizer que Octavian não podia ter morrido por nada e que tinham que terminar o que ele tinha começado. Mas nada disso ia adiantar agora. Agora tudo que ela pode fazer foi colocar Nico na carruagem que Edgar mandara buscar e se sentar lá com Vlad. Em alguns minutos pelo caminho, Nico acabou caindo no sono, no colo de Cissa.

A caçadora olhou para os outros na carruagem. Um homem sábio e muito forte consumido por memórias ruins e abandono. Um garoto irresponsável no corpo de um caçador adulto. E uma líder que já não tomava as melhores decisões, e agora completamente entregue ao luto.

Naquele momento, Cissa percebeu que ela teria que carregar as coisas nas costas dali em diante. Mas como faria isso quando ela mesma não sentia que estava pronta para liderar? A única coisa que sabia era que tinham que terminar o que Octavian tinha começado.

Talvez fosse hora de pagar uma visita ao vampiro que Edgar levara para a sede do clã.