Padres agarraram-se à bíblias
Esvaziadas para caber suas armas
E a cruz foi mantida no alto
Me enterrem de armadura
quando eu estiver morto e corpo cair no chão
Meus nervos são pólos que se descongelaram
Se você me ama, não vai me deixar saber?
Violet Hill — Coldplay
Roma, Estados Papais
19 de Outubro de 1818
Pietra colocou o lápis de lado, levantando o olhar para a misteriosa porta no fundo da biblioteca por onde Lorenzo e Francesca tinham, mais uma vez, sumido. Por vários segundos ela encarou a porta, pensando no que poderia ter tão interessante lá atrás, e porque é que, de repente, Francesa era a única mulher do clã que podia entrar lá. Já faziam horas que os dois estavam lá dentro e a cabeça de Pietra não parava de dar volta em teoria atrás de teoria.
Então, para sua alegria, a porta se abriu. Ela levantou a sobrancelha, se empertigando na cadeira, e vendo primeiro Francesca sair, ajeitando as luvas nas mãos. Ela parecia ansiosa. Nervosa talvez. Lorenzo saiu atrás dela, e ele carregava uma grande bolsa de lona com ele.
— Ah meu Deus! — Pietra sussurrou. — Bianca! Bianca, eles estão carregando um corpo!
— O quê?!
Bianca olhou para trás, e a caçadora viu o rosto dela mudar de surpresa para cansaço.
— Pietra, não é um corpo.
A caçadora suspirou. As duas vinham passando tanto tempo juntas que tinham começado a se chamar pelo primeiro nome. Lorenzo e Francesca estavam fazendo algo pelas costas das duas e Pietra tinha certeza de que tinha a ver com o caso deles.
— Você não está curiosa? O que é que eles tanto fazem?
— Sim, estou curiosa. Mas não é da minha conta. Então, vou continuar curiosa.
Pietra resmungou. Esse ato de ficar sentada assistindo algo assim tão misterioso acontecer em sua frente poderia funcionar para Bianca, mas não para Pietra. A caçadora observou o casal de primos sair da biblioteca acenando para os dois e, depois de uns dois minutos, ela se levantou às pressas.
— O que está fazendo? — Bianca perguntou, desconfiada.
— Indo atrás deles.
— Não, não está!
A caçadora deu de ombros. Sim, estava. Bianca poderia seguí-la ou ficar sentada na biblioteca perdendo tempo com registros de Mina Murray, que não tinham mais nada para contar sobre a mulher. Estava cansada de ficar sentada sem fazer nada.
Ela não se surpreendeu quando, a meio caminho da porta, ouviu os passos apressados de Bianca atrás dela.
As duas chegaram na porta da capela bem a tempo de ver Lorenzo entrando em uma das carroças do clã e partindo. Pietra se apressou, entrando em outra que estava esperando por ali, e esperou Bianca entrar ao seu lado.
— Siga a carroça da frente, por favor — ela pediu.
E assim, as duas foram.
Parte de Pietra se perguntou, durante o trajeto, se a sacola de Lorenzo não teria comida. Talvez a viagem fosse ser longa e eles tivessem se preparado. Talvez fosse um compromisso pessoal. É, talvez, mas o instinto de Pietra não dizia isso. Ela continuou ansiosa, olhando pela janela e tentando ignorar o olhar reprovador de Bianca ao seu lado, até que, enfim, a carruagem parou.
Em frente ao Coliseu.
— Senhoritas, — o condutor anunciou — os passageiros da carroça da frente desembarcaram.
Pietra olhou para o Coliseu, e então para as silhuetas que eram Lorenzo e Francesca abaixados no chão ao lado da bolsa.
Ela não esperou mais. Abriu a porta e dispensou o apoio do condutor, descendo correndo e sem esperar que Bianca a seguisse. Quando estava perto o bastante para ser ouvida, viu Lorenzo levantar o rosto para ela e ficar branco. E então, muito vermelho.
— O que você está fazendo aqui?! — ele perguntou, e para desespero de Pietra ela notou que ele tinha tirado uma escopeta da bolsa.
Mas mesmo chocada e levemente assustada, ela nunca deixaria Lorenzo sair por cima em qualquer situação que fosse. Ela engoliu o susto e cruzou os braços, tentando soar o mais firme que pudesse.
— Você me diga! Você e sua adorada prima de repente começaram a trabalhar sozinhos e expulsaram eu e a Bianca da investigação sendo que EU descobri quem o fantasma era! E achavam que eu ia ficar confortável com isso?!
— Ai meu Deus, Pietra… — Francesca murmurou, colocando pistolas em um cinto no vestido.
Lorenzo se levantou e pegou a garota pelo braço. Pietra tentou protestar, mas ele começou a arrastá-la em direção à carruagem.
— Me solta! Tire as mãos de mim e me explique imediatamente…
— Calada! — ele cortou. — A menos que queira ser expulsa do clã, excomungada ou morta, não devia nem estar aqui!
— O que está acontecendo?
Agora tinha sido Bianca a perguntar, encontrando os dois a meio caminho de volta para a carruagem. Pietra conseguiu ver Lorenzo ficar ainda mais alterado. Estava até pronta para o sermão que viria em seguida, mas ele não aconteceu.
De repente, a temperatura caiu muito. Uma brisa gélida percorreu o perímetro e a noite, já escura, ficou ainda mais . E densa. O ar estava pesado e, Pietra percebeu, tomado por uma forte névoa negra flutuante, que ora bloqueava a visão deles, ora flutuava para outro lugar.
— Tarde demais… — Lorenzo murmurou.
Ele começou a puxar Pietra de volta em direção à bolsa. As carruagens partiram. Provavelmente os condutores tinham fugido de medo. E, de repente, ela percebeu que queria ter fugido também.
Lorenzo pegou uma escopeta na bolsa e empurrou nas mãos de Pietra, tirando um revólver e entregando para Bianca.
— Sabem usar?
— Não! — Bianca respondeu, assustada.
— Sim. — Foi a resposta de Pietra. — Mas pra que queremos isso?
— Simples. Se virem algo não-corpóreo se mexer, atirem — Francesca explicou, se levantando de perto da bolsa. Estava armada até os dentes.
— Espera. Estamos atirando em fantasmas agora? Eles já não estão mortos? — Bianca questionou.
— Longa história. Organização secreta de caçadores. Casos emergenciais. — Francesca explicou, correndo. — Isso é uma emergência e todo mundo viajou, então Roma só tem a gente agora.
Pietra não ia nem fingir entender o que estava acontecendo. Talvez, finalmente, estivesse pagando por seu jeito extremamente intrometido. Ela segurou a escopeta nas mãos, sem fazer a menor ideia de como usar, e enquanto Francesca dava instruções rápidas de tiro para Bianca e Pietra, a caçadora sentiu Lorenzo a puxar para perto pelos ombros, quase a abraçando, estender o braço por cima do ombro dela e atirar.
Naquele instante, naquele exato instante, ela pareceu se dar conta de onde tinha ido parar com isso tudo. Ela tremeu um pouco e Lorenzo a soltou. A caçadora se afastou apenas alguns centímetros, mas estava atordoada. Ainda não conseguira fazer sentido do que estava acontecendo.
— Senhorita da Vinci? Senhorita da Vinci?! Pietra!
Ela levantou o olhar, vendo Lorenzo olhar bastante preocupado para ela. O líder olhou para o lado e Pietra acompanhou o olhar, vendo Bianca de pé, firme mas claramente confusa, ao lado de Francesca.
— Olha, Pietra, eu não tenho tempo para isso, ok? Tem um evento cataclísmico acontecendo dentro do Coliseu. Se a gente não parar isso agora, a cidade inteira vai ser infestada de fantasmas gladiadores e muita gente vai morrer. Você pode ir embora se quiser, mas provavelmente vai morrer no caminho porque está a pé. Pode ficar aqui se quiser, mas é provável que morra também. Ou pode vir com a gente, e pode ser que morra lá dentro. Suas opções são um horror, mas a de todos nós é. — Ele engoliu em seco e armou seu revólver, se levantando. — Estamos atirando em fantasmas agora. Eu sei, nada disso faz sentido. Mas somos caçadores, Pietra. E nosso trabalho é defender as pessoas. Não é pesquisar, não é estudar. No fim das contas, nada disso importa. O que importa são as vidas que salvamos, mesmo que custe as nossas. Então eu estou indo lá pra dentro para muito provavelmente morrer salvando um tanto de gente que nem liga pro que estamos fazendo agora. Você pode ficar aí se quiser, mas se vier com a gente, morre uma verdadeira caça-fantasmas.
Pietra olhou, zonza, Lorenzo guardar os revólvers nos coldres da calça e pegar um mosquete nas costas.
— Sim, nós podemos atirar em fantasmas — ele continuou. — Engole isso, Pietra.
A caçadora olhou para a escopeta em suas mãos, e então para Lorenzo, caminhando em direção a Francesca e Bianca que o esperavam em frente ao Coliseu.
Isso era loucura. Não, era mais que loucura. Era… Era impossível. E ainda assim, era real. Ela estava com a vida na balança agora, sem opções que pudessem garantir sua sobrevivência, com uma única opção que talvez terminasse com ela viva.
Não podia correr. Pietra percebeu, aterrorizada, que isso era exatamente o que tinha feito por toda a vida. Correr, correr, correr. Correr quando sua cara pegara fogo. Correr de casa em casa, pedindo o que comer. Correr de trabalho em trabalho, cobrando por seu exorcismos. Nunca se acertando em lugar nenhum. Nunca tendo amigos duradouros. Nunca tendo uma família.
Então ela tinha encontrado o clã. Até aquele momento, tudo tinha sido ótimo, mas aquele exato tipo de situação em que ela estava agora era o que a fazia fugir. Quando as coisas ficavam inconsequentes demais. Não podia continuar ali, é claro que não. Bianca podia ter os ideais de dever e justiça dela, e ter aceitado tudo tão rápido quanto parecia ter, mas Pietra não era assim. Os três eram loucos. Ela queria viver acima de tudo. Então tinha que fugir.
É claro. Não tinha outra alternativa. Era só levar a escopeta consigo e conseguiria ficar a salvo até encontrar um lugar para se esconder.
Ela se levantou, conferindo rapidamente se a arma estava carregada. Parecia estar. Então ela pendurou a escopeta em suas costas e deu as costas ao Coliseu.
Mas por algum motivo, no exato instante em que fez isso, sentiu sua nuca formigar, e não era por causa do frio. Era o que Lorenzo tinha dito a ela. Se fosse com eles, morreria uma verdadeira caça-fantasmas.
Pietra nunca tinha dado muita atenção a isso. A como iria morrer. Sempre fora de se prender ao momento, de pensar no agora e deixar o futuro para o futuro. Mas agora, olhando para trás, ela viu Bianca e Francesca ao lado de Lorenzo, os três armados, os três prontos para enfrentar a morte de frente, os três prontos para morrerem como heróis.
Ela se virou.
— O que está fazendo, sua louca? Vai acabar morta. Mortinha… Ou vai ser levada à corte religiosa. Pode acontecer também. Louca. Completamente pirada… — ela murmurou para si mesma, apertando a escopeta nas mãos.
Pietra chegou ao lado de Lorenzo bem a tempo de ouvir o que ele estava explicando.
— Estão vendo a movimentação flutuante da névoa? Ela tem uma origem. Qualquer que seja essa origem, é nela que temos que chegar, encontrar o que está causando isso e destruir. Essa é a missão principal, ok? Mina, outros fantasmas, tudo deve ser deixado de lado para acabarmos com isso.
O líder olhou para o lado, vendo Pietra parada ali. Ele sorriu.
Ela não conseguiu retribuir. Estava nervosa demais.
— Bem… — Francesca comentou, respirando fundo. — É melhor irmos andando. Temos alguns fantasmas para caçar.
Pietra engoliu em seco e levantou a escopeta, e juntos, o quarteto marchou para dentro do Coliseu.
Eu escrevi um especial de fim de ano! Está acessível no meu perfil :D
